Entidade Educacional Com Jurisdição Nacional


D. Apre(e)nder imaginativo



Baixar 0.56 Mb.
Página140/142
Encontro17.03.2020
Tamanho0.56 Mb.
1   ...   134   135   136   137   138   139   140   141   142
D. Apre(e)nder imaginativo
Como dizíamos, parafraseando Chesterton, o melhor método para se apreender a realidade das coisas, que tão freqüentemente nos escapa numa abordagem direta, é o contraste (por exemplo, não podemos dizer o que é e no que implica a luz ou a energia, mas podemos constatar e determinar o que é o conceito e implicação da sua falta). Para o que não podemos captar pela razão, resta-nos a aceitação pela fé, ou a procura por uma via alternativa de aproximação, a via da imaginação. Na literatura não há melhor método de contraste do que os contos-de-fada, que consideram as coisas não diretamente como elas são ou se explicam, mas indiretamente, como elas não são, ou como foram vocacionadas a ser. Os contos-de-fada, longe de representar uma infantilização ou banalização da realidade, revelam-se como um poderoso recurso didático, capaz de ensinar verdades “éticas” muito mais adultas do que podemos supor. Por isso é que todo bom crítico e educador amadurecido sabe apreciá-los:

Nós que ainda apreciamos os contos-de-fada temos menos razões para querermos voltar às atitudes infantis. Conservamos o bom da infância, sem abrir mão de certos prazeres adultos.28

Lewis mesmo confessa que o seu lado “imaginativo” era, de fato, o mais amadurecido:

O homem imaginativo em mim é mais velho, mais continuamente operativo e, neste sentido, mais fundamental do que qualquer um dos outros, o religioso e o crítico. Ele me fez, pela primeira vez, aventurar-me como poeta. Ele é que, numa réplica à poesia dos outros, tornou-me um crítico e, em defesa a esta réplica, tornou-me muitas vezes um crítico paradoxal. Foi ele que, após a minha conversão, levou-me a encarnar minha fé religiosa em formas simbólicas ou mitopoéticas de um Screwtape, até um tipo de ficção científica teológica. E é claro que foi ele que me levou, nos últimos anos, a escrever a série de contos narnianos, destinados a crianças; não porque eu estivesse preocupado com o que elas queriam ouvir, o que me comprometeria a fazer adaptações (o que felizmente não foi necessário...), mas porque o conto-de-fadas foi o melhor gênero literário que eu encontrei para expressar o que pretendia dizer.29

Por outro lado, quem é que hoje em dia ainda se dá ao luxo de ler “contos da carochinha” (que já adquiriram um forte sentido pejorativo)? A falta de um realismo equilibrado predominante deve-se em parte à falta de leitura ou à limitação à literatura insossa “dos fatos,” que nos leva à inversão de valores. Essa inversão, por sua vez, gera uma alienação e desarticulação da teoria e da prática, que, justificando-se cada qual a si mesma, perde o seu efetivo valor, recaindo alternadamente nos extremos do dogmatismo e do ativismo:

Lembre-se de que acreditar na virtude do “fazer pelo fazer” é um traço (...) do espírito moderno: o sentimento de preocupação pode não passar de inquietações ou oscilações auto-afirmativas da nossa auto-imagem. Como (George) MacDonald já dizia, “o sagrado pode ter um viés do profano.” E, ao nos empenharmos em cumprir deveres desnecessários, podemos estar nos tornando menos dispostos para cumprir com os nossos verdadeiros compromissos, cometendo, assim, um tipo de injustiça. Temos que dar uma chance não somente a Maria, mas também a Marta!30

Se observarmos as práticas de ensino nas escolas de hoje, veremos o império do exagero e da falta de moderação (o inchaço de currículos, o fazer pelo fazer, a falta de continuidade, organicidade, integração entre as práticas educacionais e o faz-de-conta). O realismo, a objetividade e a coerência no planejamento do ensino (na seleção de conteúdos, procedimentos metodológicos e atividades educacionais para cada fim proposto) são virtudes em franca extinção nos meios educacionais de hoje. Mesmo nas igrejas podemos observar práticas pedagógicas de pouco nexo com a filosofia cristã de vida. Nesse sentido, Lewis é duro, direto e enfático em sua exortação contra os chamados “educadores cristãos”:

Quando os educadores cristãos fazem questão de lembrar a seus irmãos a importância da constituição do lar cristão — e penso que a lembrança é perfeitamente pertinente — a primeira coisa a se fazer é acabar com o “faz-de-conta” em torno da vida do lar...: 1. Nenhuma organização ou modo de vida, não importa qual seja, tem uma tendência natural para o bem, e isso desde a queda do homem... 2. É preciso considerar com cuidado o conceito de “conversão” ou “consagração da vida em família,” que deve significar algo além da preservação do “amor,” no sentido de afeição natural. 3. Devemos reconhecer os perigos eminentes contidos na principal característica da vida doméstica, que é, no senso comum, colocada como sua atração principal: de ser o lugar onde “nos revelamos como realmente somos.” 4. Como as pessoas devem, então, comportar-se em casa? 5. Finalmente, podemos ensinar que, se o lar é para ser um instrumento da graça, deve ser também um lugar que mantém certas regras? Não pode haver vida em comum sem regras. A única alternativa à regra não é a liberdade, mas uma ilegítima (e muitas vezes inconsciente) tirania do membro mais egoísta sobre os outros.31

Sendo uma filosofia do sentido da vida, o cristianismo é a mais didática de todas as teologias, pois para fazermos frente aos desafios da vida e das mudanças históricas, o melhor meio é, partindo dos “fatos nus e crus,” abrir portas para o sentido mais profundo das coisas, para o seu verdadeiro destino e vocação.

Assim, o que se espera do educador cristão autêntico é que pare de queixar-se da falta de tempo e recursos e busque a coerência entre o que professa e as práticas concretas do seu cotidiano. Pois:

se nós realmente acreditamos naquilo em que dizemos crer — se realmente cremos que o nosso lar está em outro lugar e que esta vida é uma “peregrinação em sua busca,” por que não olhamos para frente, rumo à chegada?32

Foi quando Lewis parou de correr atrás da sua concepção de felicidade e olhou para a realidade, que deu a chance que Deus esperava para surpreendê-lo com algo ainda maior do que era capaz de sonhar: o amor verdadeiro, do qual esteve fugindo todo o tempo.

Nesse sentido é que grandes psicanalistas, como Bruno Bettelheim, têm insistido em afirmar que os contos-de-fada, longe de ser uma mera forma de “escapismo” ou meio de fuga diante dos problemas da vida real, são altamente didáticos e até terapêuticos.33 Aliás, a literatura, particularmente a imaginativa, tem este misterioso e aparentemente contraditório poder de captar a essência da experiência humana (permeada pela dor e o sofrimento) e transformá-la em sabedoria de vida. É isso que se pode constatar, ao menos, nas parábolas bíblicas. A educação pela imaginação, exemplificada nos contos-de-fada e nas parábolas, abriga um poderoso potencial pedagógico ainda pouco explorado ou mal aplicado nos meios educacionais.

Não se trata, entretanto, de uma receita mágica. Para se obter bons resultados com essa metodologia, principalmente no mundo atual, dominado pelo imediatismo e consumismo (é perfeitamente possível, por exemplo, que uma criança ouça um provérbio, ou uma parábola como a do O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa sem chegar a nenhuma conclusão mais profunda!), é preciso que se adote uma postura didática adequada. Nesse sentido é que a imagem de Cristo é tão ilustrativa. Nas palavras do tão simpático personagem, o castor, ele não fica exibindo toda a sua glória a todo instante, nem fica a explicar as coisas nos seus mínimos detalhes a todo o mundo. Ele escolhe muito bem os momentos e as palavras certas para dar o seu recado. Assim, tudo que está relacionado ao nome de Aslan permanece coberto de uma aura de mistério. Trata-se de um animal realmente feroz, um ser selvagem, caçador, que não é domesticável. Por outro lado, Aslan é, ao mesmo tempo “Bom, muito bom!” Essa imagem contém todos os elementos essenciais de Cristo na doutrina cristã. Não é para menos que Lewis diz, em uma de suas cartas, que O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é a sua obra principal e mais amadurecida.

Nessa linha de pensamento, G. K. Chesterton diz que a postura certa é a que, com moderação, considera os dois lados, da razão e bom senso e da imaginação e criatividade, deixando Deus iluminar ambos com sua mente. Esta é a moral dos contos-de-fada (e é nessa filosofia que se fundamenta igualmente a “filosofia da educação” narniana), que não passam do “país ensolarado do senso comum,” onde não há “leis,” regras ou classificações. Estas, de fato, são generalizações totalmente anti-intelectuais, de tão raramente que ocorrem na realidade (se é que ocorrem), nas quais não é o homem que cria a ciência, elaborando juízos sobre a natureza, mas a ciência é que cria o homem, julgando a natureza a partir de um pressuposto sobrenatural. No mundo das fadas, as palavras de ordem são “charme”, “magia”, “encanto,” expressando o princípio da incerteza e do mistério, que nos torna mais humildes e gratos pela vida, trazendo-nos de volta ao chão da realidade, que é o da ignorância e do esquecimento até de nós mesmos:

Ame o Senhor nosso Deus, mas não tente conhecer-se a si mesmo. Somos todos vítimas da mesma calamidade intelectual; todos nós esquecemos nossos nomes; todos nós esquecemos o que realmente somos. Tudo o que chamamos de bom senso, racionalidade, praticidade e positivismo justifica-se pelo simples fato de que, devido a certos pontos mortos da nossa história de vida, esquecemos que esquecemos... Conforme explicava, os contos-de-fada fundaram em mim duas convicções: em primeiro lugar, este mundo é um lugar selvagem e chocante, que poderia ter sido muito diferente, mas que doravante é bastante prazeroso; em segundo lugar, antes desta selvageria e prazer, devemos ser modestos o suficiente para nos submeter, com simplicidade, aos limites do mistério. Sempre acreditei que o mundo envolvesse magia; hoje penso que é mais provável que envolva um mágico.34

Em síntese, o que Chesterton diz é: a babá que narra os contos-de-fadas é a guardiã da tradição e da própria democratização da sabedoria e do conhecimento. Nada há de mais plausível e confiável do que os contos-de-fadas, que nos fazem ver as coisas como realmente são: encantadoras demais para podermos racionalizá-las, restando-nos apenas admirá-las, glorificando o Criador.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   134   135   136   137   138   139   140   141   142


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal