Enrique vila-matas: comparatismo e vanguardas



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ENRIQUE VILA-MATAS: COMPARATISMO E VANGUARDAS 

 

 

Kelvin dos Santos KLEIN (UFRGS) 



 

 

 



 

O  escritor  catalão  Enrique  Vila-Matas  nasceu  em  1948,  e  desde  a  década  de 

1970 vem construindo uma obra cujo conjunto parece convergir para um centro oculto 

que  é  permanentemente  referido  em  seus  livros:  a  atividade  da  leitura,  e  sobretudo  a 

iniciativa  da  escrita  como  uma  resposta  à  leitura.  Seu  livro  mais  representativo  parece 

ser,  até  o  momento,  o  romance  Bartleby  e  companhia,  definido  pelo  autor  como  um 

compêndio  de  notas  de  rodapé  que  comentam  um  texto  invisível.  Esses  comentários, 

realizados  por  um  narrador  em  primeira  pessoa  (um  escritor  frustrado  e  bissexto), 

funcionam como uma investigação dos escritores que, como o personagem Bartleby, de 

Herman Melville, acharam melhor não fazer e por isso abandonaram a literatura. 

 

Como  ocorre  em  Bartleby  e  companhia,  outros  dois  livros  de  Vila-Matas 



articulam  uma  concepção  específica  da  leitura:  Historia  abreviada  de  la  literatura 

portátil, de 1985, e París no se acaba nunca, de 2003. Enquanto Bartleby realiza uma 

leitura do tema da desistência na literatura, em uma mescla estilística de ficção e ensaio, 

os  outros  dois  livros  de  Vila-Matas  promovem  leituras  de  períodos  históricos  de 

efervescência  cultural  no  século  XX:  Historia  abreviada  compreende  os  movimentos 

artísticos  de  vanguarda  nos  anos  1920,  Paris  tem  como  mote  a  França  na  década  de 

1970. São dois momentos da obra de Vila-Matas que apresentam considerações sobre a 

modernidade, no primeiro momento, e a pós-modernidade, no segundo momento. 

 

O  que  foram  exatamente  esses  períodos  históricos  tão  ricos  em  figuras 



intelectuais, rupturas e teorias? E o que define a importância desses recortes históricos 

específicos? Terry Eagleton, em seu livro  Depois da teoria, articula e contextualiza os 

dois períodos: “O período de 1965 a 1980 não foi, de forma alguma, a primeira eclosão 

de idéias culturais revolucionárias na Europa do século XX.” E continua:  

 

Com toda sua agitação, não passa de uma sombra comparado com a grande corrente de 



modernismo  que  varreu  o  continente  no  início  do  século.  Se  quiséssemos  selecionar 

outra década e meia notável que tenha transformado a cultura européia, o melhor seria 

escolher  de  1910  a  1925.  Foi  a  época  de  Proust,  Joyce,  Pound,  Kafka,  Rilke,  Mann, 

Eliot, Futurismo, Surrealismo e uma boa quantidade mais. Como na década de 1960, era 

também um tempo de mudança social tumultuada  – embora nada no último período se 

compare,  em  escala,  às  guerras,  revoluções  e  levantes  sociais  do  primeiro. 

(EAGLETON, 2005, p. 96-97). 

 

 



Temos aqui dois períodos determinados e parte de suas características: a década 

e meia de 1910 a 1925 representando a modernidade, e a década e meia de 1965 a 1980 

representando a pós-modernidade. Um “pós” que está aí por no mínimo duas razões: um 

desdobramento  do  período  moderno  e  também  uma  tentativa  de  abandonar  certos 

preceitos e inaugurar um novo pensamento e uma nova prática. Historia abreviada de la 

literatura portátil abarca a primeira parte e se ocupa de grande parte dos nomes próprios 

e  movimentos  artísticos  listados  por  Eagleton.  París  no  se  acaba  nunca,  por  sua  vez, 

alcança o outro extremo, a década de 1970, ainda que recue também para a modernidade 

e o entre guerras, sobretudo na utilização da figura de Ernest Hemingway. 




 

Leyla  Perrone-Moisés  realiza  uma  aproximação  ao  modus  operandi  do 

modernismo em um dos  ensaios de Flores da escrivaninha. Segundo ela, é próprio do 

projeto modernista “a obra como esboço, o enfoque fenomenológico do real, a perda do 

ponto de vista monocêntrico, a fragmentação do sujeito psicológico, a sinceridade como 

máscara,  o  nome  como  pseudônimo,  o  passado  como  prazer  de  reconstituição  e  o 

presente como vertigem de perda.” (PERRONE-MOISÉS, 1990, p. 28). 

 

Esse pode ser também um resumo do instrumental utilizado por Vila-Matas em 





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