Em vez da «história de Adão e Eva», o sentido último da vida projectado nas origens



Baixar 183.99 Kb.
Pdf preview
Página1/8
Encontro21.06.2021
Tamanho183.99 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7   8


V

AZ

, A



RMINDO DOS

S

ANTOS



– Em vez da «história de Adão e Eva», O sentido último da

vida projectado nas origens, Edições Carmelo, Marco de Canaveses, 2011 – ISBN

978-972-940126-1, 478 pp.

Armindo Vaz teve uma intuição poderosa: e se a exegese de Gn 2-3 não partisse

do exame rigoroso do texto bíblico, naturalmente no original hebraico, para os paralelos

do Próximo Oriente antigo que lhe completassem o sentido, mas, ao invés, mergulhasse

de chofre no espólio mitológico dessas literaturas (em sentido lato)? Transformada em

hipótese de investigação aturada e profunda, diria mesmo colossal, deu a tese de dou-

toramento, defendida em 1995 na Universidade Gregoriana de Roma: A visão das origens



em Gn 2, 4b-3, 24. Coerência temática e unidade literária (Fundamenta, 14; Edições

Didaskalia – Edições Carmelo 1996). A Obra em apreço é a reformulação do trabalho

académico para um público mais vasto, «refundindo e actualizando o material» (p. 7).

Que se trata de outro público, vê-se logo na capa e contracapa. Antes de mais pelas

reproduções de belíssimas pinturas renascentistas: «Expulsão do paraíso» (1597), de

Giuseppe Cesare (Cavaliere d’Arpino), no Museu do Louvre, Paris (capa); «Expulsão

do paraíso» de Miguel Ângelo, na Capela Sistina de Roma (contracapa). Em obra estri-

tamente científica, dispensavam-se as gravuras; para o grande público são apropriadas

e bem-vindas.

Igualmente bem-vinda é a adaptação do título. Adeus «história de Adão e Eva». Gn

2-3 não relata nenhuma «história»; projecta nas origens «o sentido último da vida», em

narrativa mitológica. Para o especialista, nada de novo; para o grande público uma

revolução coperniciana.

Apresentada por Gian Luigi Prato, a Obra desdobra-se em Introdução (pp. 23-37)

dez capítulos (pp. 39-410) e Conclusão (pp. 411-416), e é rematada com elencos de

Siglas, Bibliografia geral citada, Índice de citações bíblicas, Índice de palavras hebraicas,

Índice de nomes do antigo Próximo Oriente e da Grécia, Índice da autores citados (pp.

417-478). Chamo desde já a atenção para a mole de autores citados (trinta e quatro

páginas!), grande parte com várias obras, denunciando o ingente trabalho de investi-

gação. É obra. Que não se trata de enfeite para académico ver, é patente nas citações

dos autores nas próprias línguas (inglês, francês, alemão, italiano) e nas abundantes e

compactas notas de rodapé, seguindo sempre traduções credenciadas e dando as

referências aos originais sumérios, acádicos, egípcios e gregos, estes até citados no

original, com alguma extensão. Estudo mais exaustivo dir-se-ia impossível.

A Introdução arruma (não de vez) a teoria das fontes e a crítica literária (sem apa-

rentemente distinguir uma da outra) em página e meia, porque «produzem cada vez

mais o mesmo» (p. 23), «encerrando a investigação na conclusão de que Gn 2,4b-3,24

não é unitário» (24). Desse modo, o texto seria «uma manta de retalhos que um alfaiate

desastrado coseu o melhor que soube… um mosaico de peças originalmente avulsas

ou um montão de ruínas que um construtor teria reordenado, deixando visíveis os sinais

das junturas…» (25). Não podia ser mais claro o pensamento do Autor sobre a exegese

diacrónica. Mais fecundo seria o método que preconiza: «enquadrar Gn 2,4b-3,24 no

}4.1

04. RevHumTeolg_4 [174.187] V8:Layout 1  12/10/17  23:52  Page 175




176

HUMANÍSTICA E TEOLOGIA

seu contexto e ilustrar os seus temas… com a iluminação intertextual dos motivos literários

do ambiente em que nasceu» (31).

A definição de conceitos (mito, mito de criação, mito de origem), que alguém esperaria

na Introdução ou no c. I, é remetida para o c. IX: «A unidade de Gn 2,4b-3,24 como mito

de origem. Mito de origem e sentido último da vida.» O tratamento do mito de origem,

em  que  o  Autor  inclui  com  R.  Pettazzoni  o  mito  de  criação,  é  exaustivo  e  no  todo

convincente.

Os vários capítulos, como se vê pela amostra, são antes pequenos tratados temáticos

que análises exegéticas do texto, mais exíguas ou mais desenvolvidas segundo os casos.

No capítulo I – «Da vida actual ao momento original» (pp. 39-76) – sem faltar de

todo a exegese filológica (cf. pp. 56-58; 67-68), o prato forte são citações de textos sumérios,

acádicos e egípcios, referidos aos originais e em traduções de especialistas, tirando

qualquer possibilidade de distorção das versões – um trabalho meticuloso e metodo-

logicamente impecável.






Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal