Educar, Curitiba, n. 35, p. 81-94, 2009. Editora ufpr



Baixar 105.96 Kb.
Pdf preview
Página5/8
Encontro29.12.2020
Tamanho105.96 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8
Algumas ilações

Os livros de literatura infantil sempre foram e continuam sendo artefatos 

culturais e, como tais, carregam uma gama de significados que reforçam a cul-

tura de certo tempo e lugar. Dentre esses significados estão as representações 

de masculinidades e feminilidades e, no caso específico deste artigo, as relações 

amorosas, que podem ser questionadas e problematizadas pelo público leitor 

sobre as constituições apresentadas nos respectivos enredos.

Ao mesmo tempo em que as obras legitimam comportamentos, modos de 

agir, de vestir, de se relacionar, considerados mais tradicionais, também exibem 

diferentes maneiras do sujeito se constituir, permitindo com isso, espaço na 

literatura infantil, para outras formas de representações de gênero e de relações 

amorosas. Nesse sentido, encontrei algumas obras nas histórias infantis con-

temporâneas que versam sobre situações do cotidiano, tais como: separação, 

divórcio e a satisfação pelo fato de ser solteira.

Minha abordagem analítica concentra-se na forma como esses temas são 

apresentados em tais histórias, considerando os textos verbais e imagéticos, 

na tentativa de perceber de que maneiras as relações amorosas românticas são 

apresentadas para o público infantil, implicando de forma direta na constituição 

relacional de gêneros. Nesse caminho, faço questão de frisar que será apenas 

uma tentativa de interpretação mediante tantas outras possíveis. Também não 




PIRES, S. M. F. Amor romântico na literatura infantil: uma questão de gênero

Educar, Curitiba, n. 35, p. 81-94, 2009. Editora UFPR

89

tenho a pretensão de abordar todos os aspectos para os quais as obras se prestam, 

e sim, minha intenção primeira é desacomodar os/as leitores/as a respeito das 

práticas sociais aceitas e consideradas como naturais.

A preocupação com as relações amorosas românticas não é privilégio 

da literatura infantil. Nota-se a presença recorrente delas em outros artefatos 

culturais como jornais, revistas, músicas, filmes, novelas e outros programas de 

entretenimento, gerando discussões apaixonadas ou controversas. Além disso, 

percebe-se na tradição oral o discurso suscitante dirigido aos casais, desde a mais 

tenra idade, salientando e reforçando as práticas amorosas socialmente esperadas, 

de forma que o/a opositor/a a tais ideias sinta-se à margem da cultura.

Para este artigo trago a análise da obra A Princesa Sabichona, de Babette 

Cole, na qual, a protagonista – a princesa – não queria casar, apesar de sua mãe 

sugerir com veemência que ela assim o fizesse. – “Está na hora de criar juízo” – 



disse sua mãe, a Rainha. – “Chega de só ficar às voltas com esses bichos! Trate 

de arranjar um marido!”. Já se percebe, pelo nome da obra e pelas soluções que 

Sabichona  encontra  para 

se livrar dos pretendentes, 

que queriam casar com ela 

por ser rica e bela, o quão 

inteligente é a personagem 

e revela rebeldia quando 

não aceita a educação que 

lhe é imposta.

Sua fisionomia – na 

ilustração  –  retrata  seu 

descontentamento em re-

lação à solicitação da rai-

nha. Interessante verificar 

que, em nenhum momento 

da  obra,  Sabichona  con-

sidera a possibilidade de 

efetivamente  casar-se, 

apenas cria situações de uma perspectiva ilusória de união totalmente abalada 

quando o candidato não consegue realizar os desafios propostos por ela. Nos 

contos tradicionais, a princesa não tem papel atuante e decisivo, cabe a ela 

apenas sonhar com o príncipe, recebê-lo em casamento e serem felizes para 



sempre. Aqui, ela não aceita esse destino; quer, ao contrário, permanecer solteira, 

desobedecendo a Rainha, sua mãe.

Sabat (2004, p. 104, grifos da autora), reflete sobre os modos de conduta 

esperados em nossa sociedade e afirma que



1   2   3   4   5   6   7   8


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal