Educar, Curitiba, n. 35, p. 81-94, 2009. Editora ufpr



Baixar 105.96 Kb.
Pdf preview
Página3/8
Encontro29.12.2020
Tamanho105.96 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8
PIRES, S. M. F. Amor romântico na literatura infantil: uma questão de gênero

Educar, Curitiba, n. 35, p. 81-94, 2009. Editora UFPR

84

repentino, perene? De um amor fugaz, abrasante, momentâneo? De um amor 

sereno, gentil, pacífico?

Na sociedade ocidental, esse sentimento é muito valorizado e o discurso 

que o circunda traz sempre a ideia de que “sem amor estamos amputados de 

nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranqüila e livre de dores quando 

não amamos. [...] Diante dele (do amor) tudo empalidece; sem ele, até o que 

engrandece perde a razão de ser” (COSTA, 1998, p. 11).

Dessa forma, quem ama procura um par, pois em todo amor há pelo 

menos dois seres envolvidos e, quando correspondido, pode ser estabelecida 

uma relação. A partir de então nota-se uma tênue fronteira entre o sentimento 

e a forma de gerenciá-lo, que comumente é implacável. Uma vez constituída 

essa relação, pode-se perceber o sentimento de amor dos apaixonados sendo 

vivido, abundantemente, com o desenrolar das situações. Nessas situações, as 

promessas de amor são menos ambíguas do que suas dádivas. Assim, a tentação 

de se apaixonar, tão divulgada e legitimada em nossa sociedade, é grande e po-

derosa, pois “aprendemos a crer que amar romanticamente é uma tarefa simples 

e ao alcance de qualquer pessoa razoavelmente adulta, madura, sem inibições 

afetivas ou impedimentos culturais” (COSTA, 1998, p. 35).

E está justamente aí a fragilidade do amor, a qual se ocupa em suportar a 

vulnerabilidade das relações entre os amantes. Ora, se o amor exprime a vontade 

de cuidar e de preservar o objeto cuidado, como pode tal relação subjugar os 

parceiros nela envolvidos?

Talvez, de modo incomum, em um mundo obcecado pela segurança, os 

apaixonados exigem do sentimento de amor uma estabilidade pouco possível 

de ser concretizada. Dessa forma, a atração, o desafio e a sedução passam a ser 

elementos constitutivos das relações amorosas românticas. Pode-se citar, ainda, 

as promessas de compromisso a curto e longo prazo como características da 

materialização desse amor tornando-o excludente e possessivo, pois estar em 

um relacionamento significa, sobretudo, uma incerteza permanente. Percebe-

se, então, um paradoxo: honrar com o compromisso acordado e o sentimento 

vivido sem tornar a realidade afrontosa e exasperante. A respeito disso Zygmunt 

Bauman (2004, p. 29) afirma que

se você investe numa relação, o lucro esperado é, em primeiro lugar e 

acima de tudo, a segurança – em muitos sentidos: a proximidade da mão 

amiga quando você mais precisa dela, o socorro na aflição, a companhia 

na solidão, o apoio para sair de uma dificuldade, o consolo na derrota e o 

aplauso na vitória; e também a gratificação que nos toma imediatamente 

quando nos livramos de uma necessidade.



PIRES, S. M. F. Amor romântico na literatura infantil: uma questão de gênero

Educar, Curitiba, n. 35, p. 81-94, 2009. Editora UFPR

85

Sendo assim, se pode dizer que faz parte do discurso do amor romântico 

promulgar formas que derrotem fontes de incertezas presentes – garantindo assim 

a segurança – até porque não se sabe o que está pela frente e o que o futuro pode 

trazer. Junto a essa luta está o esforço despendido pelos amantes a fim de que 

a relação seja profícua e duradoura, colando à imagem do sentimento amoroso 

a ideia de imortalidade.

Jane Felipe (2006, p. 11) caracteriza o amor “como romântico quando ele 

é regido por uma idealização que se estende aos seguintes aspectos: a idéia de 

intensidade (em si mesmo e no outro, para quem o amor se destina), a concepção 

de completude, de eternidade e de entrega”.

Dessa forma, os enamorados exacerbam o sentimento de amor como se ele 

fosse o responsável pela felicidade eterna do parceiro e por sua exclusividade. 

Comumente, escuta-se em músicas, poesias, sonetos, conversas informais, que 

o outro é o motivo da sua vida, a razão da sua existência, que o sentido de um 

está na existência e na presença do outro. Assim sendo, há um empoderamento

2

 

do sentimento amoroso como algo grandioso, mágico, que atravessa o tempo e o 



espaço com uma força intensa. Nesse sentido, percebe-se que o ponto nevrálgico 

paira na forma como o amor romântico é idealizado e materializado nas relações 

amorosas e não no sentimento em si.

Vale lembrar ainda que cada época tem sua modalidade de amor e de 

relacionamento e o modo como os costumes e hábitos são produzidos na e pela 

cultura perpassam décadas e até séculos, naturalizando o que é uma construção 

histórica. Também é importante lembrar que os hábitos e costumes atuais não 

invalidam nem são superiores aos de períodos anteriores e, sim, se constro-

em, se produzem e se reproduzem de forma processual na cultura. A ideia de 

progresso, de evolução em direção a um aperfeiçoamento era uma ideia da 

Modernidade.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal