Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar


  Serviços  necessários  para  a  própria  sobrevivência,  como  preparo  de alimentos, limpeza etc. 9



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
8
  Serviços  necessários  para  a  própria  sobrevivência,  como  preparo  de
alimentos, limpeza etc.
9
 Ver Caderno de Educação n. 13, cit.


Muito além da escola: as disputas
em torno do passado no debate
público
Rede Brasileira de História Pública
 
[1]
Mais  um  ano  em  que  do  asfalto  renasce  a  esperança
compartilhada  por  um  público  que  vibra  e  canta  os  versos
de  uma  outra  história.  Na  Quarta-feira  de  Cinzas,  dia  6  de
março de 2019, foi consagrada campeã do Carnaval carioca
a  Estação  Primeira  de  Mangueira,  tradicional  escola  de
samba  que  levou  para  o  Sambódromo  o  samba-enredo
“História 
para 
ninar 
gente 
grande”. 
De 
autoria
compartilhada  por  Manu  da  Cuíca,  Luiz  Carlos  Máximo,
Tomaz  Miranda,  Vitor  Arantes  Nunes,  Sívio  Moreira  Filho  e
Ronie Oliveira, o samba foi traduzido num desfile campeão
pelo  carnavalesco  Leandro  Vieira,  cujo  enredo  se  propôs  a
“contar  a  história  que  a  história  não  conta”.  Na  esteira  da
tomada  de  posse  da  palavra  cantada  por  uma  outra
agremiação, a Paraíso do Tuiuti – escola do tradicional bairro
de  São  Cristóvão,  no  Rio  de  Janeiro,  que  em  2018  havia
indagado se a escravidão realmente havia sido abolida –, a
história do Brasil passou a ser reescrita em um espaço tão
público quanto o da Marquês de Sapucaí.


Não  é  de  hoje  que  o  Carnaval  aciona  as  disputas  em
torno  da  forma  como  o  passado  se  torna  narrativa  a  ser
compartilhada,  consolidando-se  ao  longo  de  sua  própria
história  como  uma  arena  de  conflitos  sobre  quem  e  o  quê,
de  fato,  nos  representa  nos  quadros  de  uma  história
nacional.  O  Brasil  como  comunidade  imaginada  se
reconfigura a cada novo enredo carnavalesco – e o Carnaval
vira  um  grande  balão  de  ensaio  de  histórias  públicas.
Públicas  porque  produzidas  e  compartilhadas  por  uma
comunidade de sentido que partilha referências simbólicas:
as escolas de samba, espaços que carregam no seu nome o
atributo do aprendizado. Na escola se aprende a sambar e a
recriar  passados  possíveis;  pontos  de  fuga  imaginativos  e
críticos, posicionados fora do âmbito da mera nostalgia.
Não  é  de  hoje  também  que  em  diferentes  espaços
públicos, mais ou menos institucionalizados, as disputas em
torno  dos  usos  do  passado  configuraram  narrativas  em
confronto sobre o quê e quem nos representa. Dos quadros
expostos  nos  salões  das  belas-artes,  entronizados  nos
museus  nacionais,  às  praças  públicas,  com  seus
monumentos, passando pelo escurinho dos cinemas e pelas
biografias dos chamados grandes personagens, as alegorias
do  passado  se  tornaram  musas  de  uma  história  imaginada
por homens brancos heroificados pelo valor de sua posição
social e política. Foi esse tipo de narrativa que se cristalizou
nos  tradicionais  livros  de  história,  ao  incorporar  a  versão
vitoriosa das disputas pelos sentidos do passado vivido por
mulheres e homens de diferentes classes e etnias.
Entretanto,  vale  lembrar  que  a  história  ensinada  há
alguns  anos  vem  sendo  reformulada  desde  dentro  da
escola,  quer  pela  atitude  crítica  de  todos  nós  que
defendemos  a  pluralidade  e  a  diversidade  de  passados


possíveis,  quer  pela  tenacidade  de  professores  que
entendem  sua  profissão  como  algo  intrinsecamente
conectado  à  liberdade  de  pensamento  e  de  crítica,  quer
pela  ação  receptiva  e  propositiva  dos  governos
democráticos que transformaram em letra de lei o direito à
história. A obrigatoriedade do ensino da história e cultura de
afrodescendentes  e  dos  povos  indígenas,  por  exemplo,
levou  a  uma  significativa  reformulação  dos  livros  didáticos
de  história
 
[2]
 
e  a  uma  intensa  autorreflexividade  por  parte
daqueles  que  têm  a  escola  como  espaço  de  realização  do
seu ofício. Essa reformulação pode ser traduzida nos versos
do samba da Mangueira de 2019:
Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra
Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

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