Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar


 Paulo Freire, Pedagogia do oprimido (São Paulo, Paz e Terra, 2013 [1968]). 2



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
1
 Paulo Freire, Pedagogia do oprimido (São Paulo, Paz e Terra, 2013 [1968]).
2
  Sueli  Carneiro,  “A  construção  do  outro  como  não-ser  como  fundamento  do
ser”  (Tese  de  Doutorado  em  Educação,  Universidade  de  São  Paulo,  2005),  p.
301.
3
 Mary Lane Hutner, “Projeto Folhas e o livro didático público (entrevista a Paulo
Darcie)”,  em  Bianca  Santana,  Carolina  Rossini  e  Nelson  De  Luca  Pretto  (org.),
Recursos educacionais abertos : práticas colaborativas e políticas públicas (São
Paulo / Salvador: Casa da Cultura Digital / Ed. UFBA, 2012), p. 235-8.
4
 Disponível em: 
http://bit.ly/2YP8FIh 
.


Educação indígena: esperança de
cura para tempos de enfermidade
Sonia Guajajara
Quero  apresentar  uma  breve  reflexão  sobre  o
conhecimento  tradicional  indígena  como  práxis  de
resistência  no  modo  de  fazer  educação.  Uma  educação
conectada  com  a  cultura,  a  identidade  e  o  território
indígenas.  Antes  de  apresentar  qualquer  proposta
subversiva de “educação contra a barbárie”, convido o leitor
a  refletir  a  respeito  do  seguinte:  enquanto  o  Brasil  não
assumir sua dívida histórica para com os povos originários,
trabalhando  ativamente  para  repará-la,  construiremos  um
falso  futuro,  mascarando  nossas  memórias  e  oprimindo  os
corpos presentes.
Já  de  início  é  preciso  contestar  o  imaginário  social  do
“índio”  –  ou  indígena  brasileiro  –  e  a  representação
(equivocada)  sobre  esse  sujeito  na  sociedade  brasileira.
Essa representação social dos povos indígenas é permeada
por  um  discurso  colonial  que  lhes  destina  um  espaço
subalterno,  periférico  e  marginal.  O  resultado  é  uma  visão
hegemônica estereotipada e distorcida: povos indígenas são
atrasados, 
primitivos, 
preguiçosos, 
entraves 
ao
desenvolvimento social e econômico do país. E o que índios
são e podem ser de fato? Advogados, médicos, enfermeiros,


cineastas,  músicos,  políticos,  guardiães  da  floresta,
mulheres, crianças, homens, líderes, gente comum... São e
podem  ser,  enfim,  tudo  o  que  cabe  na  diversidade  da
sociedade brasileira.
Afrontar  a  ideia  do  índio  incivilizado,  incapaz  de
acompanhar  as  tendências  e  mudanças  do  mundo,  é
fundamental,  o  primeiro  passo  para  a  desconstrução  do
pensamento em direção à troca de saberes que passamos a
chamar de interculturalidade. Ora, para além da capacidade
de  lidar  com  os  desafios  da  modernidade,  nós,  povos
indígenas,  somos  detentores  de  vários  e  preciosos
conhecimentos  tradicionais.  A  apropriação  do  nosso
conhecimento  do  território,  dos  alimentos  e  das  medicinas
permitiu  aos  colonizadores  europeus  avançarem  sobre  o
solo brasileiro de forma tão devastadora.
Justamente  para  não  repetir  os  erros  do  passado,  a
interculturalidade  não  pode  ser  pensada  e  praticada  numa
via  de  mão  única.  Há  os  que  bebem  e  se  alimentam  dos
conhecimentos  das  aldeias.  E  também  deve  haver  espaço
para que nossos corpos transitem e experienciem vivências
para além do chão da aldeia. Pois quando nos abrimos para
a experiência intercultural, somos capazes de aprender com
as diferentes dinâmicas culturais e de expandir as fronteiras
de nossos próprios universos. Considerar a possibilidade de
uma  educação  diferenciada,  nutrida  nos  conhecimentos
tradicionais,  é  o  ponto  de  partida  para  a  prática  da
descolonização do pensamento.
Uma  das  maiores  barbáries  da  história  brasileira  foi  –  e
continua  sendo  –  o  projeto  de  (re)colonização  programada
estrategicamente  concentrado  na  educação,  na  formação
no  pensamento,  e  que  levou  a  um  adoecimento  da  nossa
sociedade. Nosso povo, em grande parte, perdeu a conexão


com  suas  matrizes  ancestrais.  Que  esperança  há  em
alguém  que  é  incapaz  de  responder  (ou,  pelo  menos,  de
perguntar)  quais  são  as  suas  raízes  culturais?  Em  alguém
que,  ainda  por  cima,  se  permite  questionar  e  violentar
aqueles que ainda conectam seus corpos a seus lugares de
pertença? Enquanto a sociedade brasileira não reaprender a
contar  a  história  do  Brasil  com  a  contribuição  de  nossos
saberes 

mentes, 
continuaremos 
colonizados 
e
aprisionados.  É  justamente  na  escola,  o  espaço  das
construções  simbólicas  sobre  as  alteridades,  que  essa
transformação precisa começar a acontecer.
Nós,  povos  indígenas,  acreditamos  em  uma  educação
que  dialogue  com  o  movimento  da  vida,  com  o  viver  no
território,  pois  o  território  também  ensina.  Consideramos  o
aprender por meio dos conhecimentos tradicionais como um
“aprender sem se prender”, sem prender os corpos no lugar
único  da  sala  de  aula,  pois  quando  cercamos  os  corpos
limitamos a mente.
A  educação  indígena,  que  se  orienta  e  relaciona  com  a
organização  social  comunitária  e  com  o  território,  tem
origem 
na 
sabedoria 
ancestral 

milenar. 
Esse
conhecimento  é  capaz  de  colaborar  na  construção  de  um
outro  projeto  político  educacional  para  o  país,  em  que  a
epistemologia nativa se afigura como possibilidade de cura
política,  educacional  e  intelectual.  A  educação  indígena  se
pauta  na  defesa  da  democracia:  não  pode  haver  corpos  e
mentes  livres  onde  campeia  um  projeto  de  sociedade  que
reprime  vozes  e  corpos.  O  sonho  de  um  Brasil  melhor  é,
sem dúvida, o de um Brasil que considere a sua pluralidade:
não  acreditamos  em  democracia  parcial.  Um  projeto  de


educação  democrática  e  transformadora  deve  nos
reconectar  com  a  nossa  ancestralidade,  trazendo  a  cultura
para a centralidade e reconhecendo a sua diversidade.
Precisamos  reagir  às  tentativas  de  silenciamento  de
professores,  sobretudo  daqueles  que  trazem  a  diversidade
para  o  centro  dos  debates  da  educação.  Devemos  romper
com  a  estratégia  falida  de  (re)colonização  programada  do
Estado brasileiro. Precisamos estar lúcidos para enfrentar as
estratégias  cada  vez  mais  sofisticadas  de  confundir  a
sociedade  brasileira,  como  as  fake  news  e  as  cortinas  de
fumaça.  Temos  de  nos  contrapor  ao  velho  modo  de
intimidação,  que  cala  as  vozes  dissonantes  por  meio  da
violência: ou o silêncio ou a morte. O projeto do capitalismo
e  a  (re)colonização  programada  têm  nos  matado  de  várias
formas,  seja  pela  execução  dos  corpos,  seja  pelo
adoecimento  das  mentes.  É  nesse  cenário  de  enfermidade
política, também projetado nas políticas educacionais, que a
educação  indígena  precisa  ser  escutada  e  levada  a  sério.
Não se pode curar o mal com enfermidade.
A educação indígena tem muito a ensinar: o respeito aos
diferentes espaços e tempos, a ênfase na territorialidade, o
fazer democrático e plural. Dar relevância a esse outro jeito
de  ensinar  e  aprender  é  um  caminho  de  cura,  um  remédio
para  tempos  de  doença  social.  Que  a  escola  comece  a
considerar  o  espaço  do  território  como  um  lugar  onde
também  se  aprende  –  o  ritual,  a  língua,  a  matemática,  a
física, a química, o escrever e inscrever o outro –, mas sem
perder a conexão com aquilo que se é e com aquilo que se
vive.  A  escola  precisa  fazer  sentido  em  relação  ao  que  já
somos  no  mundo,  sem  nos  desconstituir  colonizando  as
nossas  mentes.  Se  nós,  povos  indígenas,  até  hoje  estamos


vivos  e  com  nossas  identidades,  é  porque  aprendemos  a
usar  a  escola  a  nosso  favor.  A  educação  é  para  nós,  para
nos curar, e não para nos dominar.


Pedagogia da resistência
 
[1]
 
e o
projeto educativo das escolas do
MST
Alessandro Mariano
O  MST  tem  construído  um  projeto  de  educação  herdeiro
das  lutas  pelo  direito  à  educação  pública  no  Brasil.  Suas
escolas  e  práticas  educativas  visam  contribuir  com  a
construção  da  sociedade  socialista.  Constitui-se  uma
pedagogia  da  e  em  resistência,  pois  é  construído  no
processo de organização das famílias sem-terra na luta pela
Reforma Agrária.
As  escolas  do  MST  têm  como  objetivo  a  formação  de
lutadores(as),  construtores(as)  de  uma  nova  sociedade,  o
que exige mudança da forma e do conteúdo da escola, bem
como  do  papel  dos(as)  educadores(as).  Por  isso,  estas
escolas sofrem perseguições da classe burguesa, no sentido
de criminalizá-las, indicando suas práticas educativas como
não legítimas
 
[2]
 
.
Num  cenário  de  recrudescimento  de  uma  nova  direita
com  características  neofascistas,  tem  aumentado  a
criminalização  dos  movimentos  e  organizações  populares,
operadas  pelo  Estado,  tanto  na  classificação  desses
movimentos  de  luta  social  como  grupos  terroristas,  quanto
pelo aparato jurídico, que já é historicamente usado contra


a  luta  pela  terra.  Ou  seja,  a  classe  burguesa  gestando  o
Estado  passa  a  incitar  a  violência  contra  o  MST,
disseminando  discursos  de  ódio,  declarando  o  MST  e  suas
escolas  como  inimigos,  realizando  ataques  e  ameaças  de
fechamento
 
[3]
 
.

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