Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
A educação transforma o mundo?
Nelson Mandela, em 2003, proferiu a frase que tem sido
utilizada  para  sintetizar  seu  legado:  “A  educação  é  a  arma
mais  poderosa  que  você  pode  usar  para  mudar  o  mundo”.
Embora marcante, essa sentença não está entre as minhas
preferidas.  Sem  qualquer  bom-mocismo,  e  mesmo
compreendendo  a  mensagem,  não  considero  frutífero
reduzir  a  educação  a  uma  arma.  Não  obstante,  a  frase  de
Tata  Madiba  evidencia  algo  que  há  tempos  povoa  o  senso
comum  sobre  educação:  ela  seria,  em  si,  uma  força
transformadora  da  sociedade.  Para  decidir  se  –  ou  em  que
medida – isso é verdade, é preciso primeiro definir o que é
educação.
Arriscando  um  conceito  geral,  é  possível  afirmar  que
educação  é  apropriação  de  cultura  ,  de  tudo  aquilo  que  o
ser  humano  criou  e  cria  para  além  da  natureza.  As
comunidades,  as  sociedades,  os  Estados,  as  línguas,  as
linguagens, os valores, as religiões, as artes, as ciências, os
esportes,  a  democracia  e  todas  as  outras  formas  de
deliberação e de organização da administração pública e do
poder; enfim, tudo que é criado pelos seres humanos pode


ser  chamado  de  cultura  e  são  expressões  vivas  da  história
de um povo, de alguns povos, de muitos povos e, em alguns
casos, de toda a humanidade
 
[1]
 
.
Karl Marx diz que o uso e a criação de meios de trabalho,
ou  instrumentos  de  trabalho,  “é  uma  característica
específica do processo de trabalho humano, razão pela qual
[Benjamin]  Franklin  define  o  homem  como  a  toolmaking
animal  ,  um  animal  que  faz  ferramentas”
 
[2]
 
.  O  trabalho,
compreendido  por  Marx  como  a  ação  orientada  a  um
determinado  fim,  é  o  meio  pelo  qual  os  seres  humanos
elaboram  e  constroem  a  cultura  para  interagir  com  a
natureza e, em certo sentido, “superá-la”.
Para  Paulo  Freire,  a  apropriação  da  cultura  deve  ser
plena,  crítica  e  reflexiva,  sendo  parte  fundamental  da
condição humana. Ele dirá que o objetivo da educação é a
emancipação  das  mulheres  e  dos  homens  com  base  no
exercício  livre  e  autônomo  da  leitura  do  mundo,  de  forma
que  cada  pessoa  tenha  condições  concretas  de  construir,
com liberdade, a sua própria história
 
[3]
 
.
A  educação  se  concretiza  por  meio  de  processos
educativos,  sistematizados  ou  não,  que  se  dão  nos
diferentes  espaços  da  vida  cotidiana.  A  escola  é  a
instituição  criada  com  o  objetivo  de  socializar  saberes  e
conhecimentos  historicamente  acumulados,  mas  também
de  construir  outros.  Assim,  ela  tem  o  papel  de  criar  as
condições para os(as) estudantes se apropriarem da cultura,
até mesmo reinventando-a. Nesse sentido, o aprendizado é
a apropriação individual da cultura ensinada, ao passo que o
ensino é o trabalho das educadoras e dos educadores para
facilitar  a  aprendizagem  dos(as)  estudantes.  Precisamente,
portanto,  nas  escolas  se  realiza  o  processo  de  ensino-
aprendizagem.


O  direito  à  educação  é,  em  um  sentido  geral  e  por
consequência, o direito de todas as pessoas se apropriarem
da  cultura,  por  essa  apropriação  ser  parte  essencial  da
condição humana e uma necessidade para o pleno usufruto
da vida. Por isso, o direito à educação é, concretamente, um
direito humano.
Finalmente,  para  o  direito  à  educação  se  realizar  são
necessários dois esforços – ou dois trabalhos, tomados aqui
como  atividades  orientadas  a  fins  específicos:  o  trabalho
do(a) educador(a) de ensinar (ou educar) e o trabalho do(a)
estudante (educando(a)) de aprender.

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