Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
proibido de educar ”
 
[3]
 
. Não estamos muito distantes do que
vem ocorrendo no Brasil de hoje.
1
 Uma versão expandida deste texto foi originalmente publicada como “Por que
o Brasil de Olavo e Bolsonaro vê em Paulo Freire um inimigo”, Folha de S.Paulo ,
14 abr. 2019, Ilustríssima; disponível em: 
http://bit.ly/2wmdlJH 
.
2
 Um dos 377 agentes do Estado apontados pelo relatório da Comissão Nacional
da  Verdade  (2014)  por  violar  direitos  humanos  e  cometer  crimes  durante  o
regime militar.
3
  Ver  Celso  de  Rui  Beisiegel,  Política  e  educação  popular  (São  Paulo,  Ática,
1982), um dos mais importantes trabalhos sobre o pensamento de Paulo Freire.



Escola e afetos: um elogio da raiva
e da revolta
Rodrigo Ratier
“Precisamos  sentir  mais  raiva”  foi  o  título  que  propus  à
minha  coluna  mensal,  na  revista  Nova  Escola  ,  em  agosto
de  2017
 
[1]
 
.  Comecei  reconhecendo  que  “acessos  de  raiva
podem  nos  levar  a  fazer  coisas  estúpidas”,  implodindo
projetos  e  relações  há  longo  tempo  cultivados.  Mas
prossegui  para  uma  defesa  desse  sentimento.  Procurei
mostrar como nem sempre ele precisa ser associado a uma
emoção  negativa.  Em  certos  casos,  a  revolta  é
absolutamente  necessária.  Citei  Aristóteles,  que  na  Ética  a
Nicômaco elogia quem “se encoleriza justificadamente com
coisas  ou  pessoas”.  Sustentei  que  a  resposta  a  uma
injustiça,  mesmo  que  fora  do  tom  supostamente  civilizado,
era  preferível  à  submissão.  E  finalizei:  “Às  vezes,  é  preciso
dizer  com  firmeza  ‘Isso  eu  não  aceito’,  ‘Você  me
desrespeitou’,  ‘Não  está  certo’.  Saia  a  frase  do  jeito  que
sair”.
A  revista  foi  publicada.  Semanas  depois,  recebi  um
recado  de  meus  superiores.  A  devolutiva  era  de  que  a
coluna  estava  inadequada.  As  críticas  pontuavam  que  o
texto  exalava  uma  violência  contrastante  com  a  linha
editorial  de  Nova  Escola  .  Sobretudo  numa  edição  cuja


reportagem de capa, também de minha autoria, era “Como
vencer o ódio”. Soube que havia gente preocupada comigo
e  com  a  minha  agressividade.  Ouvi  suposições  de  que  ela
poderia  ter  raízes  na  vivência  do  luto  pela  morte  de  meu
pai, ocorrida cinco meses antes.
A  essas  pessoas,  argumentei  que  não  me  parecia  uma
expressão  de  problemas  pessoais,  ao  menos  não
conscientemente.  Mas  que  eu  ficaria  atento  à  eventual
rispidez.  Defendi  a  abordagem  dos  textos,  afirmando  se
tratar  de  uma  questão  conceitual.  Não  havia  e  não  há
oposição  entre  uma  coluna  que  trata  de  raiva  e  uma
reportagem que fala sobre diálogo. Procurei discutir o que, a
meu ver, são dois mitos: o do diálogo como varinha mágica
para  a  concórdia  e  o  da  raiva  como  um  sentimento  que
deve,  necessariamente,  ser  sufocado  em  vez  de
problematizado.
Inicio este capítulo com um case do ambiente corporativo
para exemplificar como a dificuldade para lidar com afetos e
emoções  não  está  concentrada  apenas  na  escola.  O
embaraço está por toda parte, da família à igreja, da mídia
ao  trabalho.  O  foco  excessivo  na  dimensão  racional,  típica
das sociedades ocidentais, varreu para detrás das cortinas a
atuação dos sentimentos. No entanto, eles teimam a entrar
em  cena.  Depressão,  ansiedade,  estresse,  atos  falhos,
explosões  de  ira,  crises  de  choro.  A  psicologia  oferece
provas  abundantes  do  eterno  retorno  desses  atores
indesejados ao teatro da vida.
No  campo  da  educação,  ensaia-se  a  volta  por  cima  dos
sentimentos.  Os  afetos  ressurgem,  por  assim  dizer,
repaginados. Atendem, agora, pelo nome de “competências
socioemocionais”.  Segundo  a  Base  Nacional  Comum
Curricular  (BNCC),  trata-se  de  um  conjunto  de  habilidades


que,  mobilizadas,  auxiliam  na  resolução  de  “demandas
complexas  da  vida  cotidiana,  do  pleno  exercício  da
cidadania e do mundo do trabalho”.
Empatia, 
respeito, 
responsabilidade, 
flexibilidade,
resiliência, determinação, autocuidado. Há menções ao que
seriam  competências  socioemocionais  em  ao  menos  seis
das  dez  competências  gerais  propostas  pela  BNCC,  o  que
evidencia  a  centralidade  do  tema.  Alunos  devem  “agir
pessoal e coletivamente com autonomia” (competência 10);
“fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu
projeto de vida” (competência 6); “conhecer-se, apreciar-se
e  cuidar  de  sua  saúde  física  e  emocional,  compreendendo-
se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e
a  dos  outros,  com  autocrítica  e  capacidade  para  lidar  com
elas” (competência 8). E assim por diante.
Numa mirada de relance, os holofotes sobre o papel das
emoções  na  educação  parecem  bem-vindos.  Há  farta
pesquisa  atestando  o  vínculo  entre  sentimentos  e
aprendizagem.  E  a  escola  é  lugar  de  intensa  convivência
afetiva. As interações despertam nas crianças e nos jovens
(e  nos  adultos  que  deles  se  ocupam)  sentimentos  tão
díspares  e  intensos  quanto  a  alegria,  a  tristeza,  a  inveja,  o
orgulho.  Todos  com  repercussões  em  questões  essenciais
como  desempenho  escolar,  evasão  e  abandono,  violência,

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