Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
oprimido  foi  traduzido  para  mais  de  vinte  idiomas.
Pedagogia da autonomia , sua última obra, foi um dos livros
mais vendidos de seu tempo no Brasil, atingindo em 2005,
depois  de  oito  anos  do  lançamento,  a  marca  de  650  mil
exemplares vendidos. Seu legado vem se multiplicando em
novos textos, vídeos, filmes e entrevistas. Vários centros de
documentação  e  de  promoção  do  seu  pensamento  podem
ser encontrados pelo mundo.
Em  junho  de  2016,  o  professor  Elliott  Green,  da  London
School  of  Economics,  publicou  um  estudo  mostrando  que
Pedagogia  do  oprimido  era  a  terceira  obra  mais  citada  em
trabalhos  da  área  de  humanas,  à  frente  de  pensadores
como Michel Foucault e Karl Marx. Pedagogia do oprimido é
também o único título brasileiro a aparecer na lista dos cem
livros  mais  requisitados  nas  listas  de  leituras  das
universidades  de  língua  inglesa.  Em  dezembro  de  2018,  a
reconhecida  revista  Revue  internationale  d’éducation  de
Sèvres  fez  um  balanço  dos  principais  educadores  da
humanidade.  Lá  estava  Paulo  Freire,  acompanhado,  entre
outros,  por  Rousseau,  Condorcet,  Vygotsky,  Dewey,
Montessori e Grundtvig.
Mesmo com grande reconhecimento internacional, que o
coloca  como  um  dos  pensadores  mais  importantes  da
atualidade,  Paulo  Freire  voltaria  a  ser  atacado  e
desqualificado  a  partir  da  recente  presença  de  setores
conservadores  na  cena  pública  nacional.  Entre  as  palavras
de  ordem  nas  manifestações  pelo  impeachment  de  Dilma
Rousseff,  em  2015,  uma  chamaria  a  atenção:  “Chega  de
doutrinação marxista, basta de Paulo Freire!”.


Com  a  vitória  de  Jair  Bolsonaro,  em  2018,  as  críticas  ao
educador  e  ao  seu  pensamento  retornariam  de  forma
contundente.  Durante  a  campanha  eleitoral,  em  agosto
daquele ano, em uma palestra para empresários no Espírito
Santo,  o  então  candidato  afirmaria:  “A  educação  brasileira
está afundando. Temos que debater a ideologia de gênero e
a escola sem partido. Entrar com um lança-chamas no MEC
para expulsar o Paulo Freire lá de dentro”. E complementou:
“Eles  defendem  que  tem  que  ter  senso  crítico.  Vai  lá  no
Japão,  vai  ver  se  eles  estão  preocupados  com  pensamento
crítico”.  Em  seu  programa  de  governo  para  a  educação,
Bolsonaro defendeu expurgar o educador das escolas, desta
vez  com  forte  apoio  das  redes  sociais,  empenhadas  em
desqualificar e banir o pensamento de Paulo Freire.
Criticam  a  qualidade  literária  dos  seus  textos  e  a  sua
pedagogia, acusando-a de proselitismo político em favor do
comunismo;  responsabilizam  o  educador  pela  piora  na
qualidade do ensino, argumentando que quanto mais se lê e
se  estuda  Freire  nas  universidades,  mais  a  educação  no
Brasil  anda  para  trás;  afirmam  que  seus  escritos  estão
ultrapassados, e que o lugar de fazer política é nos partidos
e não nas escolas. São críticas que não têm base empírica
que  as  comprovem:  Paulo  Freire  nunca  foi  comunista,  é
pouco lido nas universidades brasileiras, nunca pregou uma
educação  partidária  nas  escolas  e  a  crítica  à  qualidade
literária  dos  seus  livros  não  se  sustenta.  São  setores
atrasados  que,  desrespeitando  a  pluralidade  de  ideias  e
descompromissados  com  os  ideais  democráticos  de
liberdade  de  opinião,  não  reconhecem  no  educador,  tendo
lido  ou  não  as  suas  obras,  concordando  ou  não  com  o  seu
pensamento, o interlocutor consagrado e respeitado.


Um dos principais combatentes das ideias de Paulo Freire,
o  movimento  Escola  sem  Partido,  se  propõe  a  coibir  a
doutrinação  ideológica  nas  escolas.  O  movimento
estabeleceu como estratégia política aprovar leis nos planos
nacional,  estadual  e  municipal  para  vigiar  as  ações  de
professores  nas  escolas,  produzindo  um  clima  de
perseguição  política  e  de  denuncismo.  Em  nome  de  uma
inexistente neutralidade, sem propostas para os verdadeiros
dilemas da educação brasileira, se voltam para desqualificar
Paulo  Freire.  Uma  proposta  legislativa  patrocinada  por  eles
obteve,  em  apenas  um  mês,  as  20  mil  assinaturas
necessárias para que o Senado discutisse retirar o título de
Patrono  da  Educação  Brasileira  de  Paulo  Freire.  Depois  de
uma intensa batalha, a demanda não foi aprovada.
Paulo  acreditava  no  diálogo  como  método  de  apreensão
do  conhecimento  e  aumento  da  consciência  cidadã.
Defendia  que  os  educandos  fossem  ouvidos,  que
exprimissem  as  suas  ideias  como  exercício  democrático  e
de  construção  de  autonomia,  de  preparação  para  a  vida.
Propunha  o  diálogo  efetivo,  crítico,  respeitoso,  sem  que  o
professor  abrisse  mão  da  sua  responsabilidade  como
educador no preparo das aulas e no domínio dos conteúdos.
Era  contra  a  educação  de  uma  via  só,  em  que  o  professor
dita  aulas  e  o  aluno  escuta,  o  primeiro  sabe  e  o  segundo
não sabe, um é sujeito e o outro objeto, como detalhou em

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