Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
Entre naturalizações e inversões
Aquilo  que  os  “defensores  da  família”  chamam
pejorativamente  de  “ideologia  de  gênero”  não  encontra
correspondência  com  o  que  o  feminismo  e  os  estudos  de
gênero  fazem  e  defendem.  Por  isso,  diante  da  promoção
sistemática  de  desinformação,  intimidação,  estigmatização
do  adversário  e  pânico  moral  por  parte  desses  cruzados
antigênero,  muitos  podem  ser  levados  a  concluir  que  a
“ideologia de gênero” não exista ou sirva apenas como um
espantalho.  Essa  postura,  porém,  tende  a  colocar  em  uma
posição  defensiva  aqueles  que  são  acusados  de  promover


essa “ideologia”, que gastam tempo e energia desmentindo
acusações  e  fornecendo  respostas  para  as  quais  os
“defensores  da  família”  já  dispõem  de  tréplicas  pré-
confeccionadas. Assim, sem expor ou debater suas ideias e
propósitos,  eles  mantêm  o  ataque  alarmista  contra  o
adversário  e  a  defesa  de  algo  supostamente  universal  e
incontestável,  como  a  “família”,  a  “inocência  das  crianças”
etc.
Em  vez  disso,  valeria  afirmar:  a  “ideologia  de  gênero”
existe.  Existe,  mas  não  como  a  descrevem  os  cruzados
antigênero.  A  “ideologia  de  gênero”  é  uma  invenção
vaticana. Um objeto construído e evidenciado pelo discurso
que  o  denuncia.  Um  sintagma,  um  neologismo,  um  rótulo
estigmatizante, um slogan , categoria política
 
[2]
 
forjada para
operar  como  arma  retórica  e  para  animar  mobilizações  em
favor 
de 
um 
projeto 
de 
sociedade 
regressivo,
antidemocrático e antilaico.
Não  por  acaso,  observa-se  por  parte  desses  cruzados
uma frequente preocupação em ocultar a origem católica do
discurso  e  do  movimento  antigênero.  Para  evitar  que  suas
ofensivas  sejam  percebidas  como  uma  resposta  religiosa
tradicionalista,  procuram  conferir  a  elas  uma  feição
universalista,  à  altura  dos  desafios  éticos  contemporâneos.
Daí  os  seus  frequentes  apelos  à  “ciência”.  Os  “defensores
da vida, da família e da inocência das crianças” partiriam de
bases  científicas  e  técnicas,  enquanto  os  “adeptos  do
gênero”  apenas  propagariam  uma  enganosa  e  infundada
“ideologia”.  Sem  jamais  submeter  suas  teses  a  escrutínio
acadêmico,  os  “defensores  da  família”  costumam  chamar
de  “ciência”  aquilo  que  cuidadosamente  selecionam  para
tentar  confirmar  suas  formulações  e  legitimar  seus
posicionamentos políticos e morais.


Ora,  cada  ordem  social  estabelecida  empenha-se  para
que  suas  assimetrias  e  arbitrariedades  históricas  sejam
percebidas como ordenamentos naturais, e continuem a ser
impostas  e  perpetuadas  como  legítimas,  necessárias,
imutáveis  ou  inevitáveis.  De  fato,  uma  das  estratégias
ideológicas centrais do discurso antigênero é renaturalizar a
ordem  social,  moral  e  sexual  tradicional  e  apontar  como
antinaturais crenças, ideias ou atitudes que contrariem essa
ordem,  bem  como  rechaçar  a  contribuição  das  ciências
sociais para a compreensão dos processos sociais, históricos
e culturais de construção da realidade.
Os “defensores da família natural” anseiam em promover
a  restauração  ou,  ainda,  uma  remodelagem  conservadora
do estatuto da ordem social e sexual tradicional, de modo a
reafirmar  sua  hegemonia,  reiterar  seus  postulados,
hierarquias,  sistemas  de  poder  e  estruturas  de  privilégios.
Nesse sentido, eles também atuam em favor da colonização
da  esfera  pública  por  interesses  privados,  familistas  e
religiosos. Isto é algo que se evidencia quando reivindicam a
primazia  da  família  na  educação  dos  filhos,  e  se  desdobra
em  ataques  a  currículos,  à  autonomia  docente,  às  políticas
inclusivas,  às  instâncias  de  administração  e  regulação  da
educação, a escolas e docentes em nome de um “direito a
uma  escola  não  ideológica”,  “sem  gênero”,  “sem
doutrinação” ou “sem partido”. O lema “Meus filhos, minhas
regras”, entoado pelo movimento político reacionário Escola
sem  Partido,  reitera  o  familismo  e  o  privatismo  dessa
ofensiva  e  parodia  o  mote  “Meu  corpo,  minhas  regras”,
invertendo o lema feminista pela autonomia e pelos direitos
individuais  das  mulheres  e  preconizando  a  submissão
absoluta das crianças a seus pais
 
[3]
 
.


Diferentemente  do  sintagma  retórico  inventado  pelos
“defensores da família”, o conceito sociológico de ideologia

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