Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
Origens da declaração de guerra
O movimento Escola sem Partido liga-se aos setores mais
reacionários  da  sociedade,  e  nos  últimos  tempos  tem
encontrado  um  ambiente  propício  para  difundir  e  vocalizar
posições  tidas  como  superadas  na  sociedade  brasileira.
Seus  apoiadores  passaram  trinta  anos  acabrunhados  nas
sombras,  eclipsados  pela  força  das  organizações  do
movimento dos trabalhadores, dos movimentos populares e
da juventude.


Mas a derrota advinda do golpe de 2016, a complacência
(ou  o  apoio)  dos  meios  de  comunicação  e  a  situação
desesperadora do financiamento da educação, em especial
a  partir  da  aprovação  da  Emenda  Constitucional  95/2016,
proporcionaram  o  cenário  de  desalento  adequado  a  tornar
crível a assertiva de que a ideologização na educação vinha
substituindo  o  ensino  propriamente  dito  desde  o  fim  da
ditadura, resultando em fracos resultados escolares.
Obviamente, as teses do Escola sem Partido não resistem
à  mais  simples  recuperação  histórica  da  educação
brasileira,  cuja  trajetória  de  atraso  e  abandono,  própria  de
um país que se mantém ao longo dos séculos em condição
semicolonial, joga por terra a ideia simplória da doutrinação
comunista, da formação de militantes no lugar da instrução
etc.
A  vitória  de  Lula  em  2002,  produto  do  movimento  de
massas que levou o PT ao governo federal, fez recrudescer
nas  entranhas  das  instituições  brasileiras  (Forças  Armadas,
Judiciário)  posições  que  passaram  a  propagandear  ideias
contrárias às liberdades democráticas e aos direitos sociais
conquistados  a  partir  do  final  dos  anos  de  1970  e  dos
últimos anos de luta contra a ditadura.
O  próprio  movimento  Escola  sem  Partido  foi  criado  em
2004,  bem  antes  da  circulação  mais  recente  de  ideias
reacionárias no Brasil, e se tornou um braço do portal Mídia
Sem  Máscara,  criado  em  2002  pelo  astrólogo  Olavo  de
Carvalho.  Com  o  golpe  de  2016,  esses  movimentos
ganharam  projeção  e  evidência,  até  ocuparem  espaços  no
atual governo de extrema-direita.
Hostil  à  democracia,  o  Escola  sem  Partido  lidera  uma
cruzada medieval contra a liberdade de ensinar, e faz parte
de um movimento reacionário mais geral contra os direitos


sociais.  Por  isso  é  que  miram  na  escola  pública.  Sob  o
argumento  de  que  ela  é  o  terreno  privilegiado  da
doutrinação  de  esquerda,  adeptos  desse  movimento
buscam  não  apenas  expurgar  uma  visão  partidária
fantasiosa,  mas  introduzir  na  rede  escolar  métodos  de
gestão  que  acentuam  valores  privado-familiares  em
substituição a um ensino laico e científico.
Aqui,  o  Escola  sem  Partido  encontra  seu  vínculo  com  as
agendas  de  reforma  educacional  operadas  desde  os  anos
1990,  e  que  vêm  se  caracterizando  pela  adoção  de  um
financiamento  diversificado  (não  apenas  público),  com  a
contrapartida do controle parcial ou total do projeto político-
pedagógico  e  do  modelo  de  gestão  das  escolas  por
parceiros empresariais e por uma reforma curricular que, de
fato,  suplanta  a  perspectiva  de  uma  formação  geral  e
humanista.
Munidos das técnicas das guerras culturais, os publicistas
do  Escola  sem  Partido  escolhem,  ou  simplesmente  criam,
temas  escandalosos  para  atacar.  Não  raro  arguem  com  o
texto  bíblico  a  fim  de  estigmatizar  o  ensino  das  ciências.
Preconceitos  que  ainda  encontram  eco  na  sociedade  são
mobilizados  como  aríetes  do  movimento,  justamente  pelo
seu  potencial  de  escandalizar  e  gerar  indignação,
especialmente contra professores.
A  cruzada  anticivilizatória  do  Escola  sem  Partido  é  a  da
negação  da  instituição  escolar  moderna,  que  opera
precisamente  uma  ruptura  entre  o  conhecimento
doméstico-familiar, baseado no senso comum e em todos os
preconceitos  e  mitos  que  o  envolvem,  e  o  conhecimento
elaborado,  fruto  da  pesquisa  ou  da  demonstração.  As
famílias, na sua própria intuição, enviam seus filhos à escola
porque  sabem  que  ela  pode  fornecer  um  saber  de  outro


tipo:  mais  complexo,  abrangente  e  explicativo  da  vida.  A
ideia  de  submeter  e  limitar  o  ensino  escolar  ao  que  é
aceitável  às  famílias,  à  reprodução  de  uma  visão  de  sua
mundo privada, liquida o próprio conceito de escola.
É  bom  lembrar  que  esse  desiderato  constitui  o  combate
histórico  e  cotidiano  dos  professores  contra  um  dualismo
escolar  que  se  expressa  nas  desigualdades  entre
instituições escolares públicas e privadas. Nesse tabuleiro, a
escola  pública  ocupa  um  lugar  de  transmissora  inferior  de
conhecimentos,  agência  privilegiada  de  preparação  para
funções subalternas.

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