Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar


O modelo pedagógico tradicional: a submissão



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
O modelo pedagógico tradicional: a submissão
consentida
Do ponto de vista pedagógico, a militarização das escolas
públicas  se  apoia  numa  velha  concepção  educacional  do
início  do  século  XX,  sugerida  por  Émile  Durkheim.  Para
Durkheim, a “submissão consentida” do educando seria um
objetivo  prioritário  da  educação  para  que  ocorra  a  sua
socialização.  Trata-se  de  um  processo  em  que  se  eleva  o
educando (a criança) de um estágio egocêntrico e selvagem
para  o  de  moralização,  aceitação  de  regras  de  convívio  e
conduta social.
As regras são prescritas, segundo Durkheim, pela religião
e  pela  educação  laica.  Tais  instituições  imporiam  regras  e
normas  que  garantiriam  a  coesão  social.  Em  A  educação
moral  ,  Durkheim  destaca  os  elementos  da  moralidade:  o
espírito  da  disciplina,  a  adesão  aos  grupos  sociais  e  a
autonomia da vontade
 
[11]
 
. A escola teria a responsabilidade
de  gerar  uma  moral  racional,  com  refinamento  de  sua
sensibilidade moral. Ao estudante caberia certa passividade,
na  medida  em  que  regras  morais  já  estabelecidas
socialmente  norteariam  e  adestrariam  sua  pulsão  à
liberdade sem regras.
O fundamento de toda concepção educacional tradicional
não  é  construir  a  autonomia  do  educando,  mas  sua
submissão.  Esse  é  o  centro  do  debate  educacional  que  o
Brasil parece se negar a fazer.


Ao  adotarmos  políticas  imediatistas  sem  reflexão  ou
profundidade,  alimentadas  por  intenções  populistas  e  de
garantia  de  resultados  espetaculares,  ainda  que  pouco
duradouros,  nos  jogamos  na  aventura  e  no  desperdício  de
recursos  que  afetarão  a  vida  de  milhões  de  estudantes.  A
militarização  das  escolas  públicas  é  mais  uma  faceta  da
experimentação  que  assola  o  meio  educacional  brasileiro,
com resultados pouco estudados e tendo o impressionismo
como  grande  avalista.  Mas  dados  e  avaliações  rigorosas
pouco  interessam  quando  o  objetivo  é  criar  um  programa
espetaculoso  que  polemiza  e  atrai  a  atenção,  atalho  que
pode  dizer  muito  em  termos  eleitorais,  mas  também
interditar o futuro de nossas crianças e adolescentes.
1
 Uma versão expandida desse texto foi originalmente publicada em Le Monde
Diplomatique Brasil , n. 134, 31 ago. 2018; disponível em: 
http://bit.ly/30LE7cg 
.
2
  Theresa  Adrião  et  al.  Sistemas  de  ensino  privados  na  educação  pública
brasileira  :  consequências  da  mercantilização  para  o  direito  à  educação  (São
Paulo, Greppe/Ação Educativa, 2015); disponível em: 
http://bit.ly/30LE7cg 
.

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