Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar


particularmente  os  que  fechavam  negócios,  cuja  tarefa  era



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks

particularmente  os  que  fechavam  negócios,  cuja  tarefa  era
criar novos mercados ao redor do mundo – sobre diferença,
sobre  outras  culturas.  É  claro  que  o  fundamento  dessa
abordagem não era ensinar como dar fim à dominação, mas
sim  promover  os  interesses  do  mercado.  No  entanto,
conservadores 

liberais, 
de 
forma 
semelhante,
reconheceram  claramente  a  necessidade  de  ensinar  aos
estudantes  desta  nação  perspectivas  que  incluíssem  o
reconhecimento  de  diferentes  formas  de  conhecimento.  No
despertar  dessa  mudança,  gerada  pelas  preocupações
capitalistas  de  manter  o  poder  em  um  mercado  global,
defensores  do  antirracismo  e  do  antissexismo  foram  bem-
sucedidos no lobby para questionar os modos como noções


imperialistas  de  supremacia  branca  ou  nacionalismo
produziram  vieses  nos  materiais  didáticos  e  nos  estilos  e
estratégias de ensino dos educadores.
O discurso acadêmico, tanto escrito quanto falado, sobre
raça  e  racismo,  sobre  gênero  e  feminismo,  significou  uma
grande  intervenção,  ligando  as  lutas  por  justiça  fora  da
academia  a  modos  de  conhecimento  no  interior  dela.  Isso
foi  revolucionário.  Instituições  educacionais  que  eram
fundadas em princípios de exclusão – a suposição de que os
valores  que  encorajam  e  mantêm  o  patriarcado  capitalista
supremacista  branco  imperialista  eram  verdadeiros  –
começaram  a  considerar  a  realidade  dos  preconceitos  e  a
discutir  o  valor  da  inclusão.  Muitos  apoiavam  a  inclusão
apenas  quando  os  modos  de  conhecer  diversos  eram
ensinados  como  subordinados  e  inferiores  aos  modos  de
conhecer  superiores  informados  pelo  dualismo  metafísico
ocidental e pela cultura do dominador. Para contrariar essa
abordagem  distorcida  da  inclusão  e  da  diversidade,
educadores  democráticos  têm  sublinhado  o  valor  do
pluralismo.  No  ensaio  “Compromisso  e  abertura:  uma
abordagem  contemplativa  ao  pluralismo”,  Judith  Simmer-
Brown explica:
[...] pluralismo não é diversidade. Diversidade é um fato da vida moderna –
especialmente  nos  Estados  Unidos.  Há  tremendas  diferenças  em  nossas
comunidades  –  étnicas,  raciais,  religiosas.  A  diversidade  sugere  o  fato
dessas  diferenças.  Pluralismo,  por  outro  lado,  é  uma  resposta  ao  fato  da
diversidade.  No  pluralismo,  nos  comprometemos  a  nos  engajarmos  com  a
outra pessoa ou a outra comunidade. O pluralismo é um compromisso de se
comunicar  com  e  em  relação  a  um  mundo  maior  –  com  uma  vizinhança
muito diferente ou uma comunidade distante.
 
[6]
Muitos  educadores  abraçam  a  noção  de  diversidade
enquanto resistem ao pluralismo ou a qualquer outro modo
de pensar que sugira que eles não podem mais encorajar a


cultura do dominador.
As  ações  afirmativas  visavam  criar  maior  diversidade,  e
elas  foram,  ao  menos  em  tese,  uma  prática  positiva  de
reparação,  dando  acesso  a  grupos  que  nunca  tiveram
acesso à educação e outros direitos por causa da opressão.
Apesar  de  suas  muitas  fraquezas,  as  ações  afirmativas
foram bem-sucedidas em romper barreiras à inclusão racial
e  de  gênero,  beneficiando  especialmente  as  mulheres
brancas.  À  medida  que  nossas  escolas  se  tornaram  mais
diversas,  professores  passaram  a  ser  profundamente
questionados.  Velhas  ideias  sobre  estudar  o  trabalho  de
outras pessoas a fim de encontrar nossas próprias teorias e
defendê-las  foram  e  estão  sendo  constantemente
desafiadas.  Simmer-Brown  oferece  a  percepção  útil  de  que
esse  modo  de  aprender  não  nos  permite  abraçar  a
ambiguidade e a incerteza. Ela argumenta:
Como educadores, uma das melhores coisas que podemos fazer por nossos
estudantes é não os forçar a adotar teorias e conceitos sólidos, mas em vez
disso encorajar o próprio processo, a investigação envolvida e os momentos
de  não  saber  –  com  todas  incertezas  que  vêm  com  isso.  É  aqui  que  nosso
apoio pode ir fundo. Isso é abertura.
 
[7]
Quando  trabalhava  com  professores  em  uma  faculdade
de  artes  para  ajudá-los  a  desaprender  os  modelos  de
educação do dominador, ouvi homens brancos verbalizarem
seus  sentimentos  de  medo  e  incerteza  sobre  abandonar
modelos  conhecidos.  Os  homens  queriam  aceitar  o  desafio
da  transformação,  mas  sentiam  medo,  porque  eles
simplesmente  não  sabiam  qual  seria  a  fonte  de  seu  poder
se  não  mais  se  apoiassem  em  uma  noção  de  autoridade
racializada  e  com  corte  de  gênero  para  manter  o  próprio


status.  A  honestidade  deles  nos  ajudou  a  imaginar  e
articular quais poderiam ser os resultados positivos de uma
abordagem pluralista.
Um dos saldos mais importantes é um compromisso com
a  “abertura  radical”,  o  desejo  de  explorar  diferentes
perspectivas  e  mudar  a  visão  das  pessoas  à  medida  que
novas  informações  são  apresentadas.  Ao  longo  de  minha
carreira  como  educadora  democrática  conheci  muitos
estudantes  brilhantes  que  buscavam  educação,  que
sonhavam  em  servir  à  causa  da  liberdade,  e  que
desanimavam  ou  se  frustravam  porque  as  faculdades  e
universidades são estruturadas de forma que desumanizam,
que os levam para longe do espírito de comunidade no qual
eles desejam viver. Na maioria dos casos, esses estudantes,
especialmente  aqueles  talentosos  não-brancos  com
diversas  trajetórias  de  classe,  perdem  as  esperanças.  Eles
vão  mal  em  seus  estudos.  Eles  assumem  o  manto  da
vitimização.  Eles  fracassam.  Eles  abandonam.  A  maioria
deles  não  têm  guias  para  ensiná-los  a  encontrar  seu
caminho 
em 
sistemas 
educacionais 
que, 
embora
estruturados  para  manter  a  dominação,  não  são  sistemas
fechados  e,  por  isso,  têm  no  seu  interior  subculturas  de
resistência  em  que  a  educação  como  prática  da  liberdade
ainda  acontece.  Contudo,  muitos  desses  estudantes
talentosos  acabam  jamais  encontrando  essas  subculturas
nem os educadores democráticos que poderiam ajudá-los a
achar seu caminho. Eles perdem a esperança.
Por mais de trinta anos, tenho testemunhado estudantes
que  não  querem  ser  educados  para  serem  opressores
chegarem perto de se formar – e então se autossabotarem.
São  os  que  largam  a  escola  faltando  apenas  um  semestre
ou  uma  disciplina.  Às  vezes  são  estudantes  de  graduação


brilhantes, que simplesmente não escrevem seus trabalhos
de conclusão de curso. Com medo de não serem capazes de
manter  a  fé,  de  se  tornarem  educadores  democráticos;
temendo entrar no sistema e se converterem nele, eles vão
embora.  A  educação  competitiva  raramente  funciona  para
estudantes que foram socializados para valorizar o trabalho
para  o  bem  da  comunidade.  Isso  os  rasga  ao  meio,
despedaça-os.  Eles  experimentam  graus  de  desconexão  e
de  fragmentação  que  destroem  todo  o  prazer  do
aprendizado.  E  são  justamente  os  estudantes  que  mais
precisam  ser  influenciados  pela  orientação  de  educadores
democráticos.
Forjando uma comunidade de aprendizagem que valoriza
a  integridade  em  relação  à  divisão,  à  dissociação  e  à
separação,  o  educador  democrático  trabalha  para  criar
fechamento.  Palmer  chama  isso  de  “intimidade  que  não
aniquila a diferença”
 
[8]
 
. Como uma estudante que chegou à
graduação  e  à  pós-graduação  graças  aos  movimentos
radicais por justiça social que abriram um espaço até então
fechado,  aprendi  a  me  agarrar  a  comunidades,  criando
ligações em função de experiências de raça, gênero, classe
e  religiosidade  para  salvar  e  proteger  a  parte  de  mim  que
queria ficar em um mundo acadêmico, que queria escolher
uma  vida  intelectual.  Forjei  ligações  com  indivíduos  que,
como  eu,  valorizavam  o  aprendizado  como  um  fim  em  si
mesmo  e  não  como  um  meio  para  atingir  outro  fim,
mobilidade  de  classe,  poder,  status.  Éramos  aqueles  que
sabiam  que,  estando  ou  não  no  ambiente  acadêmico,
continuaríamos a estudar, a aprender, a educar.


1
  Originalmente  publicado  como  “Democratic  Education”,  em  bell  hooks,

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