Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
Eterno  Rei  ,  de  T.  H.  White,  Parker  Palmer  celebra  a
sabedoria que Merlin, o mago, oferece quando declara:
A melhor coisa para se fazer quando se está triste é aprender alguma coisa.
Essa é a única coisa que nunca falha... Aprender por que o mundo gira e o
que  o  faz  girar.  Essa  é  a  única  coisa  da  qual  a  mente  não  pode  jamais  se
cansar,  nem  se  alienar,  nem  se  torturar,  nem  temer  ou  descrer,  e  nunca
sonhar em se arrepender. O que você precisa é aprender.
A  essa  declaração,  Parker  adiciona  sua  própria
compreensão vital de que
a  educação  em  seu  melhor  –  essa  profunda  transação  humana  chamada
ensino e aprendizagem – não é só sobre conseguir informações ou conseguir
um emprego. Educação é sobre cura e integridade. É sobre empoderamento,
libertação,  transcendência,  sobre  renovar  a  vitalidade  da  vida.  É  sobre
encontrar e reivindicar a nós mesmos e nosso lugar no mundo.
 
[2]
Uma  vez  que  o  nosso  lugar  no  mundo  está  sempre
mudando,  precisamos  aprender  constantemente  para
estarmos  totalmente  presentes  no  agora.  Se  não  estamos
completamente  engajados  no  presente,  ficamos  presos  no
passado e a nossa capacidade de aprender é diminuída.
Educadores  que  se  desafiam  a  ensinar  para  além  do
espaço  da  sala  de  aula,  a  se  mover  no  mundo
compartilhando  conhecimento,  aprendem  uma  diversidade
de estilos de passar as informações adiante. Essa é uma das
habilidades  mais  valiosas  que  um  professor  pode  adquirir.
Por  meio  da  prática  vigilante,  aprendemos  a  usar  a
linguagem  que  pode  falar  ao  coração  da  matéria  em
qualquer  espaço  de  ensino  em  que  nos  encontremos.
Quando  nós,  professores  universitários  e  educadores
democráticos,  compartilhamos  conhecimentos  fora  da  sala


de  aula,  o  trabalho  feito  dissipa  a  noção  de  que  não
estamos  em  contato  com  o  mundo  externo  aos  salões
sagrados da academia. Abrimos o espaço de aprendizagem
de  modo  que  ele  possa  ser  mais  inclusivo,  e  nos
questionamos  constantemente  para  fortalecer  nossas
habilidades  de  ensinar.  Essas  práticas  progressistas  são
vitais  para  manter  a  educação  democrática,  dentro  e  fora
das salas de aula.
Práticas  autoritárias,  promovidas  e  encorajadas  por
muitas instituições, minam a educação democrática na sala
de aula. Ao atacar a educação como prática da liberdade, o
autoritarismo  na  sala  de  aula  desumaniza  e,  por  isso,
destrói  a  “magia”  que  está  sempre  presente  quando  os
indivíduos são aprendizes ativos. Ele “tira toda a graça” do
estudo,  tornando-o  repressivo  e  opressivo.  Professores
autoritários investem frequentemente na noção de que eles
são  simplesmente  “sérios”,  ao  passo  que  os  educadores
democráticos  são  comumente  estereotipados  por  suas
contrapartes mais conservadoras como não tão rigorosos ou
como  carentes  de  padrão.  Esse  é  especialmente  o  caso
quando  o  educador  democrático  tenta  criar  um  espírito  de
alegria em sua prática de sala de aula. Em À sombra desta
mangueira,  Paulo  Freire  defende  que  os  educadores
democráticos devem fazer de tudo “em favor da criação de
um clima na sala de aula em que ensinar, aprender, estudar
são  atos  sérios,  demandantes,  mas  também  provocadores
de alegria”
 
[3]
 
. Explicando, em seguida, declara:
Só para a mente autoritária é que o ato de ensinar, de aprender, de estudar
são  tarefas  enfadonhas,  mas  necessárias.  Para  educadores  e  educadoras
democráticos  o  ato  de  ensinar,  de  aprender,  de  estudar  são  que  fazeres
exigentes,  sérios,  que  não  apenas  provocam  contentamento,  mas  que  já
são, em si, alegres.


A satisfação com que se põe em face aos alunos, a segurança com que lhes
fala,  a  abertura  com  que  os  ouve,  a  justiça  com  que  lida  com  seus
problemas  fazem  do  educador  democrata  um  modelo.  Sua  autoridade  se
afirma sem desrespeitar as liberdades. [...] E é porque respeita as liberdades
que o respeitam.
 
[4]
O  próprio  modo  de  ser  dos  educadores  democráticos
demonstra  que  eles  não  exibem  aquela  clivagem
psicológica  socialmente  aceitável  de  alguém  que  ensina
somente  na  sala  de  aula  e  depois  age  como  se  o
conhecimento não fosse significativo em outros ambientes.
Quando  se  ensina  os  estudantes  a  agir  assim,  eles  podem
experienciar o aprendizado como um processo integral, em
vez de uma prática restritiva que os desconecta e os aliena
do mundo.
A  conversa  é  o  lugar  central  da  pedagogia  para  o
educador democrático. Falar para compartilhar informações,
para  trocar  ideias,  é  a  prática  que,  dentro  e  fora  dos
espaços acadêmicos, afirma aos ouvintes que o aprendizado
pode  se  dar  em  quadros  de  tempo  variados  (podemos
compartilhar  e  aprender  muito  em  cinco  minutos)  e  que  o
conhecimento  pode  ser  compartilhado  em  diversos  modos
de  discurso.  Considerando  que  o  discurso  vernacular
raramente  pode  ser  usado  na  sala  de  aula  pelos
professores,  ele  pode  ser  um  modo  preferencial  de
compartilhar  conhecimento  em  outros  ambientes.  Quando
espaços educacionais se tornam locais cujo objetivo central
é ensinar boas-maneiras burguesas, esse tipo de discurso e
as linguagens que divergem da norma culta do idioma não
são  valorizados.  Na  verdade,  são  descaradamente
desvalorizados.  Embora  reconheça  o  valor  da  norma  culta
da  língua,  o  educador  democrático  também  sabe  dar
importância  à  diversidade  na  linguagem.  Estudantes  que
falam na norma culta, mas para os quais o idioma falado em


sala  de  aula  é  a  segunda  língua,  são  fortalecidos  em  sua
autoestima  bilíngue  quando  sua  primeira  língua  é  ali
validada
 
[5]
 
.  Essa  valorização  pode  ocorrer  quando  os
professores  incorporam  práticas  de  ensino  que  honram  a
diversidade,  resistindo  assim  à  tendência  convencional  de
manter os valores do dominador na educação superior.
É  certo  que,  como  educadores  democráticos,  temos  que
trabalhar  para  encontrar  formas  de  ensinar  e  compartilhar
conhecimento  de  maneira  a  não  reforçar  as  estruturas  de
dominação existentes (hierarquias de raça, gênero, classe e
religião).  A  diversidade  em  discursos  e  presencial  pode  ser
apreciada  integralmente  como  um  recurso  que  aprimora
qualquer  experiência  de  aprendizagem.  Nos  últimos  anos,
todos  temos  sido  desafiados  enquanto  educadores  a
examinar  os  modos  pelos  quais  apoiamos,  consciente  ou
inconscientemente, as estruturas de dominação existentes.
E  todos  também  temos  sido  encorajados  por  educadores
democráticos a estarmos mais atentos, a fazermos escolhas
mais conscientes. Podemos inadvertidamente conspirar com
as  estruturas  de  dominação  por  causa  do  modo  como  o
aprendizado  está  organizado  em  instituições.  Ou  podemos
reunir materiais didáticos que não sejam preconceituosos e
ainda assim apresentá-los de forma tendenciosa, reforçando
as hierarquias opressivas existentes.
Sem  a  ação  dos  movimentos  por  justiça  social,  a
educação  progressista  torna-se  ainda  mais  importante,  já
que  ela  pode  ser  o  único  lugar  onde  as  pessoas  podem
encontrar apoio para adquirir uma consciência crítica, para
assumir qualquer compromisso com o fim da dominação. Os
dois  movimentos  por  justiça  social  com  impactos  mais
transformadores  em  nossa  vida  cultural  têm  sido  a  luta
antirracista  e  o  movimento  feminista.  Compreendendo  que


o  ativismo  frequentemente  diminui,  à  medida  que  os
direitos  civis  vão  sendo  conquistados,  esses  dois
movimentos  trabalharam  para  criar  lugares  de  estudo
acadêmico de modo que uma abordagem sem preconceitos
à  escolarização  e  ao  aprendizado  não  seja  apenas
legitimada  nos  ambientes  universitário  e  escolar,  mas
também  aja  como  um  catalisador  para  transformar  cada
disciplina  acadêmica.  O  aprendizado  serviria  então  para
educar os estudantes para a prática da liberdade em vez da
manutenção das estruturas de dominação.
Todo  estudo  progressista  sobre  raça  e  gênero  produzido
nas universidades teve um impacto significativo para muito
além  do  meio  acadêmico.  Educadores  democráticos  que
advogaram pelo fim das formas preconceituosas de ensinar
ajudaram a colmatar o fosso entre o mundo acadêmico e o
chamado  mundo  “real”.  Bem  antes  de  acadêmicos
progressistas  se  interessarem  por  raça  ou  gênero  e
diversidade  ou  multiculturalismo,  grandes  empresas
reconheceram  a  necessidade  de  ensinar  trabalhadores  –
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