Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar


participação de muitos rostos que antes eram desprezados



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks

participação de muitos rostos que antes eram desprezados
pela escola. Foi um ato unificado de estudantes de todas as
partes, da comunidade escolar, de pais que não conheciam
as  mazelas  da  escola  e  a  situação  dos  professores  que
gritavam  sozinhos  por  melhorias.  Foi  a  hora  de  as  pessoas
entenderem  que  estávamos  em  outro  momento  na
educação,  que  uma  cultura  política  de  algum  modo  nascia
ou  se  renovava  nos  estudantes,  que  não  iríamos  mais
abaixar  a  cabeça.  Foi  um  momento  de  emancipação  da
escola  e  dos  estudantes,  que,  na  verdade,  já  ocupavam  a
escola todos os dias. Os estudantes entenderam por que a
escola existe e a quem ela pertence.
Fomos  ameaçadas  e  levamos  bombas  enquanto
dormíamos.  Nos  dividimos  em  grupos,  lavamos  a  escola,
cozinhamos para todos, fizemos oficinas, jogos, palestras e
assembleias.  Construímos  juntos  o  espaço.  Defendemos,
gritamos e lutamos por ele. Reivindicamos o nosso direito a
uma escola de qualidade, nos apoiamos e explicamos para


o  máximo  de  pessoas  a  importância  do  que  estávamos
fazendo.  Rimos,  brincamos  e  estudamos.  E  fizemos  tudo
isso  com  a  ajuda  uns  dos  outros.  Produzimos  um  espaço
democrático e livre. Naquele dezembro de 2015, depois de
estudar  onze  anos  na  mesma  escola,  eu  me  senti
pertencente  àquele  lugar,  que  eu  finalmente  me  senti  em
condições de construir. A escola nunca foi tão nossa.
Acabei  entendendo  que  os  problemas  que  eu  tinha  não
eram  necessariamente  de  “comportamento”  ou  de
assimilação  do  conteúdo.  Eram  parte  da  descoberta  de
quem eu sou. Não tive ajuda em casa e nem na escola, até
ver  pessoas  que,  assim  como  eu,  não  sabiam  o  que  fazer,
mas  estavam  dispostas  a  se  ajudar  no  que  fosse  preciso.
Construímos  juntos  a  nossa  concepção  de  escola  e  de  nós
mesmas, e foi transformador.
Decidi  me  tornar  professora  para  ajudar  outros  jovens
que,  em  todos  os  lugares  e  a  todo  momento,  são  privados
da  oportunidade  de  entenderem  quem  são.  Consegui  subir
um degrau graças aos lugares por onde passei e às pessoas
que  conheci  e  que  se  dispuseram  a  me  ajudar.  Tive
oportunidades.  Tenho  orgulho  do  que  sou  e  do  que  me
tornei. De onde estou agora, a vista é incrível! Jogarei uma
escada ou uma corda para todos e todas que quiserem subir
mais alto do que eu consegui. Sei que plantei uma semente
e que ela demora a crescer. Mas o jardim fica lindo quando
floresce.
1
  Sobre  essa  formação,  no  projeto  Jovens  Agentes  pelo  Direito  à  Educação
(Jade), da ONG de educação popular Ação Educativa, ver Bárbara Lopes, Natália
Bouças e Raquel Souza, Jovens e direito à educação : guia para uma formação
política (São Paulo, Ação Educativa, 2016). Também na Ação Educativa, fui uma


das  pessoas  que  produziu  a  cartilha  “Por  que  discutir  gênero  na  escola?”,
lançada em 2016; disponível em: 
http://bit.ly/2X5eqkI 
.  A  publicação  resulta  de
uma  extensão  do  Jade:  o  curso  Jovens  Agentes  pelo  Direito  à  Igualdade  de
Gênero na Escola (Jadig).

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