Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar


 Texto produzido por Ana Maria Mauad (UFF), Juniele Rabêlo de Almeida (UFF) e Ricardo Santhiago (Unifesp). 2



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Educação Contra a Barbárie Por Escolas Democráticas e Pela Liberdade de Ensinar - Bell Hooks
1
 Texto produzido por Ana Maria Mauad (UFF), Juniele Rabêlo de Almeida (UFF) e
Ricardo Santhiago (Unifesp).
2
  Em  2003,  a  Lei  n.  10.639  alterou  Lei  de  Diretrizes  e  Bases  da  Educação
Nacional  (LDB,  Lei  n.  9.394/96)  para  incluir  no  currículo  oficial  das  redes  de
ensino a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira. No ano
de  2008,  a  Lei  n.  11.645  alterou  novamente  a  LDB  para  incluir  no  currículo  a
obrigatoriedade  do  estudo  da  história  e  cultura  dos  povos  indígenas.  Assim,  a
legislação  passou  a  exigir  a  inclusão  no  currículo  oficial  das  redes  de  ensino  a
obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.
3
  “Ficções  do  interlúdio.  Poemas  completos  de  Alberto  Caeiro”,  em  Fernando
Pessoa, Obra Poética (Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1977), p. 204.


O que aprendi (e o que não aprendi)
na escola
Aniely Silva
Os mais velhos acham que, aos dezesseis anos, os jovens
não  viveram  nada  e  não  entendem  nada  sobre  as  suas
vidas. Tratam-nos como uma folha em branco, que pode ser
rabiscada  e  “apagada”,  quando  as  coisas  não  dão  certo,
fingindo  que  nada  aconteceu.  Como  ser  protagonista  da
minha própria história, se a todo tempo tenho que reafirmar
que  sei  o  que  estou  fazendo  e  que  posso  decidir  o  que  é
melhor para mim? Vivi 21 anos e não aprendi nada sobre a
vida?  A  desvalorização  dos  meus  pensamentos  e  das
minhas  atitudes  me  fez,  durante  um  tempo,  perder  a
vontade de viver.
A escola é o lugar onde as pessoas podem finalmente ser
quem elas são e conquistar o seu espaço. É o lugar onde os
maiores  conflitos  das  descobertas  pessoais  aparecem.  E
como é assustador. Ninguém te ampara nos teus problemas.
Nem pense em contar para alguém que você tem medo de
fazer  sexo  ou  que  você  não  faz  ideia  de  como  é  beijar  na
boca.  Imagina  se  alguém  descobre  que  você  não  sente
atração  pelo  sexo  oposto.  É  ótimo  poder  decidir  o  que  vai
vestir e poder pedir uma opinião sobre o penteado que vai


usar  com  aquela  camisa  para  os  seus  pais  ou  irmãos,  mas
eles  não  podem  nem  sonhar  que  você  não  é  o  que  eles
esperam que você seja.
Não nos ensinam muitas coisas na escola, e muito menos
em  casa.  Uma  delas  é  entender  quem  somos.  Como  é
possível construir uma identidade, se não se pode nem falar
de algo que já viveu sem ouvir “isso não é nada”, ou, “não
fez  mais  que  a  sua  obrigação”?  Ninguém  nos  ensina  a
gostar de nós mesmos, a sermos livres para escolher a hora
mais  confortável  de  viver  nossa  sexualidade,  seja  ela  qual
for,  a  respeitarmos  o  corpo  e  o  espaço  do  outro,  a
percebermos  as  nossas  fraquezas,  a  preservarmos  a  nossa
saúde física e mental.
Aos doze anos, percebi que as minhas amigas na escola
já  gostavam  dos  meninos  –  algumas  já  tinham  até  beijado
aqueles  que  elas  gostavam  –,  e  eu  nunca  tinha  sentido
vontade  de  nada  daquilo.  Achava  que  havia  algo  estranho,
mas nunca tinha percebido nada de errado; acreditava que
não  estava  na  hora  de  acontecer  comigo,  já  que  eu  ainda
me  sentia  criança  e  brincava  de  boneca.  Quando  cheguei
aos  catorze,  ainda  não  sentia  atração  pelos  meninos,  e
todas as minhas amigas já tinham perdido o “BV”, ou seja,
beijado  pela  primeira  vez.  Eu  me  sentia  “atrasada”  nesses
assuntos, e lia muitas revistas adolescentes que reforçavam
a heterossexualidade e os relacionamentos jovens.
Eu nunca tinha conversado com ninguém sobre como me
sentia.  Guardava  tudo  para  mim,  mas  sentia  um  palpitar
diferente  no  corpo  quando  chegava  perto  de  determinadas
meninas, algo que eu nunca tinha sentido antes. Havia uma
garota  em  especial  que  era  muito  atenciosa  comigo  e  eu
com ela. Eu adorava conversar com ela, e fazia questão de
ficar  depois  da  aula,  na  frente  da  escola,  para  bater  papo.


Sentávamos  em  uma  escada  no  fim  da  rua  da  escola,  e
passávamos  um  tempão  lá.  Foi  lá  que  nos  beijamos  pela
primeira  vez.  Foi  com  ela  que  descobri  que  gostava  de
garotas, e eu me sentia muito bem com isso.
Na escola, esse era um assunto proibido. Ninguém falava
nada. A coordenação da escola era composta por três irmãs
biológicas,  que  também  eram  de  uma  igreja.  Elas  usavam
saias  até  os  joelhos,  e  incentivavam  as  meninas  a  se
sentarem  com  as  pernas  fechadas,  a  falarem  baixo,  a  não
correrem e a se “comportarem”. Quando alguém fazia algo
que  era  considerado  errado,  descia  para  a  coordenação
para receber sua punição. Algumas pessoas tinham que ler
capítulos  da  Bíblia  e  copiar  diversas  vezes,  em  folhas  de
caderno,  um  mesmo  versículo  escolhido  por  uma  das
coordenadoras.  Era  algo  vexatório,  sobre  o  qual  ninguém
falava.  Só  descobrimos  que  isso  acontecia  durante  a
ocupação,  quando  o  assunto  surgiu  entre  nós.  Percebemos
que muitos de nós tinham passado por aquilo e nem sequer
comentado com alguém.
Lembro de uma vez em que eu estava na sala com uma
amiga  e  ela  estava  com  o  braço  por  cima  do  meu  ombro.
Minha professora de física veio até nós e, no meio da sala,
gritou: “Meninas, vocês sabem que positivo com positivo dá
negativo.  Podem  ir  soltando  esses  braços  aí,  que  eu  não
quero esse tipo de coisa na minha aula”. Na mesma hora, os
outros alunos começaram a rir. Me senti envergonhada, mas
naquele  momento  não  entendia  direito  o  motivo  de  essas
coisas acontecerem comigo; afinal, os casais heterossexuais
se beijavam dentro da sala e nunca ouviam que não podia.
Eu  tinha  uma  amiga,  aluna  transexual,  que  estudava  no


ensino  médio  no  período  noturno  e  foi  proibida  de  usar  o
banheiro feminino pela diretora, ainda que as outras alunas
da escola concordassem com a presença dela.
Eu  sempre  achei  que  a  minha  família  era  aberta  para
conversar.  A  minha  mãe,  com  quem  eu  tinha  um
relacionamento  ótimo,  tinha  amigas  transexuais  e  nós
frequentávamos as casas delas. Achava que quando minha
mãe  descobrisse  sobre  o  meu  relacionamento,  seria
tranquilo  e  normal.  Não  quis  contar  no  início,  mas  me
preparava para isso. Não era a mesma coisa com meu irmão
mais  velho:  minha  mãe  adorava  as  histórias  dele  com  as
garotas.
Um  dia  eu  estava  fazendo  brigadeiro  em  casa  e  minha
mãe chegou nervosa. Ela tremia toda. Parou do meu lado e
disse  para  que  eu  desligasse  o  fogo.  Obedeci,  e  ela  me
perguntou:  “Que  história  é  essa  de  que  você  está  ficando
com uma menina?”. Ela estava muito brava e com uma cara
de reprovação. Fiquei com tanto medo que neguei, mas ela
logo  pediu  meu  celular  e  acabou  descobrindo  tudo.  Nesse
dia,  apanhei  muito  dela  e  do  meu  pai.  Minha  mãe  me  fez
prometer  que  eu  não  faria  isso  nunca  mais.  Recebi  muitas
ameaças. Foi um dos piores dias da minha vida. Não desejo
o  que  passei  para  ninguém.  Pensei  várias  vezes  em  tirar  a
minha própria vida, e como isso é dolorido de lembrar. Era a
minha  vida,  e  eu  estava  feliz,  mas  aquilo  me  deixou  sem
saber  para  onde  correr.  Durante  um  tempo,  achei  que  eu
era  o  problema.  Meus  pais  e  a  escola  me  repreendiam  por
eu ser quem eu era.
Fui  percebendo  que  mesmo  que  eu  me  esforçasse  para
gostar  de  garotos,  não  conseguia  sentir  nada  por  eles.
Passei a acreditar que pra ser feliz eu teria que abandonar
completamente a minha família, ou então viveria uma vida


triste para não decepcionar meus pais. Minha melhor amiga
foi  quem  me  apoiou  nesse  caos,  e  foi  por  ela  que  eu  me
apaixonei.  Decidi  fazer  um  curso  no  centro  de  São  Paulo
para  poder  passar  mais  tempo  com  ela,  e  como  os  meus
pais não frequentam a região, seria o lugar perfeito para eu
viver como queria sem ter que abandonar minha família.
Foi  nesse  curso,  sobre  direito  à  educação,  que  eu  me
descobri  apaixonada  pela  escola
 
[1]
 
.  Aprendi  sobre  os  meus
direitos  e  descobri  uma  escola  diferente,  inclusiva,  que
poderia lidar com as diferenças de forma saudável. Entendi
que a escola é estruturada para excluir e para colocar seus
estudantes para competir uns com os outros. Foi bem nesse
momento  que  o  projeto  de  reorganização  das  escolas
estaduais de São Paulo foi lançado.
Cheguei  na  escola  de  manhã,  e  havia  várias  listas  na
parede do pátio com os nomes dos estudantes e para onde
seriam  transferidos.  Não  foram  explicados  os  motivos,  e
nem  o  que  era  a  tal  reorganização.  Na  escola  onde  eu
estudava,  que  oferecia  todos  os  anos  do  ensino
fundamental,  o  ensino  médio  e  a  Educação  de  Jovens  e
Adultos  (EJA)  nos  três  períodos  do  dia,  sobraria  apenas  o
fundamental de manhã e à tarde depois da reorganização.
Assim que consegui entender o quão prejudicial isso seria
para  a  minha  escola  e  para  todos  os  estudantes  que  não
teriam  condições  de  se  manter  em  uma  escola  longe  de
casa,  percebi  que  não  podia  ficar  sem  fazer  nada.  Junto  a
um  grupo  de  estudantes,  ex-estudantes  e  de  pessoas  do
bairro,  decidimos  ocupar  a  nossa  escola  como  forma  de
resistência.  Sabíamos  que  algumas  unidades  mais  centrais
já estavam ocupadas; não tínhamos ideia sobre como fazer
a ocupação, mas fomos com coragem.


De início, queríamos apenas barrar a reorganização, mas
em  pouco  tempo  percebemos  que  era  mais  que  isso.
Descobrimos desvios de dinheiro por parte da diretora
 
[2]
 
, a
existência  de  comida  vencida  na  cozinha,  de  produtos
químicos  vencidos
 
[3]
 
,  de  materiais  didáticos  escondidos  –
livros,  CDs,  datashow  ,  materiais  para  aulas  de  arte  e
instrumentos  musicais  novos,  ainda  embrulhados  em
plástico bolha. Problemas na estrutura física da escola como
goteiras,  telhas  esburacadas,  infestações  de  ratos,  tetos
cedendo, fiação exposta, ventiladores quebrados, banheiros
sem  papel  higiênico,  sem  privadas  e  sem  portas  eram
comuns para todos os estudantes. Passamos a fazer outras
reivindicações durante a ocupação.
Foi  um  movimento  forte  e  lindo,  que  contou  com  a
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