Eduardo Galeano, o livro dos Abraços(pdf)(rev)



Baixar 3.64 Mb.
Pdf preview
Encontro01.11.2019
Tamanho3.64 Mb.


 
 
E
E
d
d
u
u
a
a
r
r
d
d
o
o
 
 
G
G
a
a
l
l
e
e
a
a
n
n
o
o
 
 
O
O
 
 
L
L
I
I
V
V
R
R
O
O
 
 
D
D
O
O
S
S
 
 
A
A
B
B
R
R
A
A
Ç
Ç
O
O
S
S
 
 


 
EDUARDO 
G
ALEAN

Tradução de Eric Nepomuceno 


Titulo original: El libro de los abrazos Primeira edição em junho 1991. 
Tradução: Eric Nepomuceno 
Revisão: Ana Teresa Cirne Lima, Ester Mambrini e Valmir R. Cassol 
Produção: Jó Saldanha e Lúcia Bohrer 
ISBN: 85.254.0306-0 
G151L Galeano, Eduardo 
O livro dos abraços / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. - 9. ed. - Porto 
Alegre: L&PM, 2002. 270p.:il.;21cm 
1. Ficção uruguaia. I.Título. 
CDD U863 CDU 860(895)-3 
Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329. 
Texto e projeto gráfico de Eduardo Galeano © Eduardo Galeano, 1989 
 
Impresso no Brasil 2002 
 
 
 
h
h
t
t
t
t
p
p
:
:
/
/
/
/
g
g
r
r
o
o
u
u
p
p
s
s
.
.
g
g
o
o
o
o
g
g
l
l
e
e
.
.
c
c
o
o
m
m
.
.
b
b
r
r
/
/
g
g
r
r
o
o
u
u
p
p
/
/
d
d
i
i
g
g
i
i
t
t
a
a
l
l
s
s
o
o
u
u
r
r
c
c
e
e
 
 


ÍNDICE
 
 
 
O mundo
 
A origem do mundo 
A função da arte/1
 
A uva e o vinho 
A paixão de dizer/1
 
A paixão de dizer /2
 
A casa das palavras
 
A função do leitor/1
 
A função do leitor/2
 
Celebração da voz humana/1
 
Celebração da voz humana/2
 
Definição da arte
 
A linguagem da arte
 
A fronteira da arte 
A função da arte/2
 
Profecias/1
 
Celebração da voz humana/3
 
Crônica da Cidade de Santiago
 
Neruda/1
 
Neruda/2
 
Profecias/2
 
Celebração da fantasia
 
A arte para crianças
 
A arte das crianças
 
Os sonhos de Helena
 
Viagem ao país dos sonhos
 
O país dos sonhos
 
Os sonhos esquecidos
 
O adeus dos sonhos 
Celebração da realidade
 


A arte e a realidade/1
 
A arte e a realidade/5
 
A realidade é uma doida varrida
 
Crônica da cidade de Havana
 
A diplomacia na América Latina
 
Crônica da cidade de Quito
 
O Estado na América Latina
 
A burocracia/1
 
A burocracia/2
 
A burocracia/3
 
Causos/1
 
Causos/2
 
Causos/3 
Noite de Natal
 
Os ninguéns
 
A fome/l
 
Crônica da cidade de Caracas
 
Anúncios
 
Crônica da cidade do Rio de Janeiro
 
Os numerinhos e as pessoas
 
A fome/2
 
Crônica da cidade de Nova Iorque
 
Dizem as paredes/1
 
Amares
 
Teologia/l
 
Teologia/2
 
Teologia/3
 
A noite/l
 
O diagnóstico e a terapêutica
 
A noite/2
 
As chamadas
 
A noite/3
 
A pequena morte
 
A noite/4
 
O devorador devorado
 
Dizem as paredes/2
 


A vida profissional/1
 
Crônica da cidade de Bogotá
 
Elogio da arte da oratória
 
A vida profissional/2
 
A vida profissional/3
 
Mapa-múndi/1
 
Mapa-múndi/2
 
A desmemória/1 
A desmemória/ 2 
O medo 
 
O rio do Esquecimento.2
 
A desmemória/ 3
 
A desmemória/4
 
Celebração da subjetividade.8
 
Celebração de bodas da razão com o coração
 
Divórcios.....2
 
Celebração das contradições/1
 
Celebração das contradições/2
 
Crônica da cidade do México2
 
Contra-símbolos
 
Paradoxos
 
O sistema/l
 
Elogio ao bom senso
 
Os índios/l
 
Os índios/2
 
As tradições futuras
 
O reino das baratas
 
Os índios/3
 
Os índios/4
 
A cultura do terror /1
 
A cultura do terror/ 2
 
A cultura do terror/3
 
A cultura do terror/4
 
A cultura do terror/5
 
A cultura do terror/6
 
A televisão/l
 


A televisão/2
 
A cultura do espetáculo
 
A televisão/3
 
A dignidade da arte
 
A televisão/4
 
A televisão/5
 
Celebração da desconfiança
 
A cultura do terror/ 7
 
A alienação /1
 
A alienação/2
 
A alienação/3
 
Dizem as paredes/3
 
Nomes/l
 
Nomes/2
 
Nomes/3
 
A máquina de retroceder
 
A pálida 
O baixo astral
 
Onetti
 
Arquedas
 
Celebração do silêncio/1
 
Celebração do silêncio/2
 
Celebração da voz humana/4
 
O sistema/2
 
Celebração das bodas entre a palavra e o ato
 
O sistema/3
 
Elogio à iniciativa privada
 
O crime perfeito
 
O exílio
 
A civilização do consumo
 
Crônica da cidade de Buenos Aires
 
O bem-querer /1
 
O bem-querer/2
 
O tempo
 
Ressurreições /1
 
A casa
 


A perda
 
O exorcismo
 
Os adeuses
 
Os sonhos do fim do exílio/1
 
Os sonhos do fim do exílio/2
 
Os sonhos do fim do exílio/3
 
Andanças/l
 
Andanças/2
 
A última cerveja de Caldwell
 
Andanças/3
 
Dizem as paredes/4
 
Invejas do alto céu 
Notícias
 
A morte
 
Chorar
 
Celebração do riso
 
Dizem as paredes/5
 
O vendedor de risadas
 
Eu, mutilado capilar
 
Celebração do nascer incessante
 
O parto
 
Ressurreições / 2
 
Ressurreições/3
 
Os três irmãos
 
As duas cabeças
 
Ressurreições/4
 
A acrobata
 
As flores
 
As formigas
 
A avó
 
O avô
 
Fuga
 
Celebração da amizade/1
 
Celebração da amizade/2
 
Gelman 
A arte e o tempo
 


Profissão de fé..
 
Cortázar
 
Crônica da cidade de Montevidéu
 
A cerca de arame
 
O céu e o inferno
 
Crônica da cidade de Manágua...
 
O desafio
 
Celebração da coragem/1
 
Celebração da coragem/2
 
Celebração da coragem/3
 
Celebração da coragem/4
 
Um músculo secreto
 
Outro músculo secreto
 
A festa
 
As impressões digitais
 
O ar e o vento
 
A ventania 
 
 


 
 
 
Recordar
:  
Do latim re-cordis tornar a passar 
pelo coração. 
 
 
 
 
Este livro está dedicado a Claribel e  
Bud a Pilar e Antonio a Martha e Eric
 
 


O mundo 
Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir 
aos  céus.  Quando  voltou,  contou.  Disse  que  tinha  contemplado,  lá  do  alto,  a  vida 
humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
 
—  O  mundo  é  isso  —  revelou  —.  Um  montão  de  gente,  um  mar  de 
fogueirinhas.
 
Cada  pessoa  brilha  com  luz  própria  entre  todas  as  outras.  Não  existem 
duas  fogueiras  iguais.  Existem  fogueiras grandes e  fogueiras  pequenas e  fogueiras 
de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de 
fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem 
queimam;  mas  outros  incendeiam  a  vida  com  tamanha  vontade  que  é  impossível 
olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.
 
 
 
 
A origem do mundo 
A guerra civil da Espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e 
a  espada  reinavam  sobre  as  ruínas  da  República.  Um  dos  vencidos,  um  operário 
anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão. 
Não  havia  trabalho  para  um  comuna.  Todo  mundo  fechava  a  cara,  sacudia  os 
ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O 
vinho  era  o  único  amigo  que  sobrava.  Pelas  noites,  na  frente  dos  pratos  vazios, 
suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, 
enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
 
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me 
contou.  Contou  em  Barcelona,  quando  cheguei  ao  exílio.  Contou:  ele  era  um 
menino  desesperado  que  queria  salvar  o  pai  da  condenação  eterna  e  aquele  ateu, 
aquele teimoso, não entendia.
 
— Mas papai — disse Josep, chorando — se Deus não existe, quem fez o 
mundo?
 
—  Bobo — disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando —. Bobo. 


Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros. 
 
 
 
A função da arte/1 
 
Diego  não  conhecia  o  mar.  O  pai,  Santiago  Kovadloff,  levou-o  para  que 
descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas 
altas, esperando.
 
Quando  o  menino  e  o  pai  enfim  alcançaram  aquelas  alturas  de  areia, 
depois  de  muito  caminhar,  o  mar  estava  na  frente  de  seus  olhos.  E  foi  tanta  a 
imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
 
E  quando  finalmente  conseguiu  falar,  tremendo,  gaguejando,  pediu  ao 
pai: — Me ajuda a olhar!
 
 
 


A paixão de dizer/1 
Marcela esteve nas neves do Norte.  Em  Oslo,  uma  noite,  conheceu  uma 
mulher  que  canta  e  conta.  Entre  canção  e  canção,  essa  mulher  conta  boas 
histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio.
 
Essa  mulher  de  Oslo  veste  uma  saia  imensa,  toda  cheia  de  bolsinhos. 
Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa 
história  para  ser  contada,  uma  história  de  fundação  e  fundamento,  e  em  cada 
história  há  gente  que  quer  tornar  a  viver  por  arte  de  bruxaria.  E  assim  ela  vai 
ressuscitando  os  esquecidos  e  os  mortos;  e  das  profundidades  desta  saia  vão 
brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo 
vai.
 
 
A paixão de dizer/2 
Esse homem, ou mulher, está grávido de muita gente. Gente que sai por 
seus  poros.  Assim  mostram,  em  figuras  de  barro,  os  índios  do  Novo  México:  o 
narrador, o que conta a memória, coletiva, está todo brotado de pessoinhas.
 
 
A casa das palavras 
Na  casa  das  palavras,  sonhou  Helena  Villagra,  chegavam  os  poetas.  As 
palavras,  guardadas  em  velhos  frascos  de  cristal,  esperavam  pelos  poetas  e  se 
ofereciam,  loucas  de  vontade  de  ser  escolhidas:  elas  rogavam  aos  poetas  que  as 
olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. Os poetas abriam os frascos, 
provavam palavras com o dedo e então lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os 
poetas  andavam  em  busca  de  palavras  que  não  conheciam,  e  também  buscavam 
palavras que conheciam e tinham perdido.
 
Na casa das palavras havia uma mesa das cores. Em grandes travessas 
as  cores  eram  oferecidas  e  cada  poeta  se  servia  da  cor  que  estava  precisando: 
amarelo-limão  ou  amarelo-sol,  azul  do  mar  ou  de  fumaça,  vermelho-lacre, 
vermelho-sangue, vermelho-vinho...
 


 
 
A função do leitor/1 
Quando  Lúcia  Peláez  era  pequena,  leu  um  romance  escondida.  Leu  aos 
pedaços,  noite  após  noite,  ocultando  o  livro  debaixo  do  travesseiro.  Lúcia  tinha 
roubado  o  romance  da  biblioteca  de  cedro  onde  seu  tio  guardava  os  livros 
preferidos.
 
Muito  caminhou  Lúcia,  enquanto  passavam-se  os  anos.  Na  busca  de 
fantasmas  caminhou  pelos  rochedos  sobre  o  rio  Antióquia,  e  na  busca  de  gente 
caminhou pelas ruas das cidades violentas.
 
Muito  caminhou  Lúcia,  e  ao  longo  de  seu  caminhar  ia  sempre 
acompanhada  pelos  ecos  daquelas  vozes  distantes  que  ela  tinha  escutado,  com 
seus olhos, na infância.
 
Lúcia  não  tornou  a  ler  aquele  livro.  Não  o  reconheceria  mais.  O  livro 
cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela.
 
 
A função do leitor/ 2 
Era o meio centenário da morte de César Vallejo, e houve celebrações. Na 
Espanha, Júlio Vélez organizou conferências, seminários, edições e uma exposição 
que oferecia imagens do poeta, sua terra, seu tempo e sua gente.
 
Mas naqueles dias Júlio Vélez conheceu José Manuel Castanón; e então 
a homenagem inteira ficou capenga.
 
José Manuel Castanón tinha sido capitão na guerra espanhola. Lutando 
ao lado de Franco, tinha perdido a mão e ganho algumas medalhas.
 
Certa noite, pouco depois da guerra, o capitão descobriu, por acaso, um 
livro  proibido.  Chegou  perto,  leu  um  verso,  leu  dois  versos,  e  não  pôde  mais  se 
soltar.  O  capitão  Castanón,  herói  do  exército  vencedor,  passou  a  noite  toda  em 
claro,  grudado  no  livro,  lendo  e  relendo  César  Vallejo,  poeta  dos  vencidos.  E  ao 
amanhecer  daquela  noite,  renunciou  ao  exército  e  se  negou  a  receber  qualquer 
peseta do governo de Franco.
 
Depois, foi preso; e partiu para o exílio.
 


 
Celebração da voz humana/1 
Os  índios  shuar,  chamados  de  jíbaros,  cortam  a  cabeça  do  vencido. 
Cortam  e  reduzem,  até  que  caiba,  encolhida,  na  mão  do  vencedor,  para  que  o 
vencido não ressuscite. Mas o vencido não está totalmente vencido até que fechem a 
sua boca. Por isso os índios costuram seus lábios com uma libra que não apodrece 
jamais.
 
 
Celebração da voz humana/2 
Tinham  as  mãos  amarradas,  ou  algemadas,  e  ainda  assim  os  dedos 
dançavam,  voavam,  desenhavam  palavras.  Os  presos  estavam  encapuzados;  mas 
inclinando-se conseguiam ver alguma coisa, alguma coisinha, por baixo. E embora 
fosse proibido falar, eles conversavam com as mãos.
 
Pinio Ungerfeld me ensinou o alfabeto dos dedos, que aprendeu na prisão 
sem professor:
 
—  Alguns  tinham  caligrafia  ruim  —  me  disse  —.  Outros  tinham  letra  de 
artista.
 
A ditadura uruguaia queria que cada um fosse apenas um, que cada um 
fosse ninguém: nas cadeias e quartéis, e no país inteiro, a comunicação era delito.
 
Alguns  presos  passaram  mais  de  dez  anos  enterrados  em  calabouços 
solitários  do  tamanho  de  um  ataúde,  sem escutar  outras  vozes  além  do  ruído  das 
grades  ou  dos  passos  das  botas  pelos  corredores.  Fernández  Huidobro  e  Maurício 
Rosencof,  condenados  a  essa  solidão,  salvaram-se  porque  conseguiram  conversar, 
com  batidinhas  na  parede.  Assim  contavam  sonhos  e  lembranças,  amores  e 
desamores; discutiam, se abraçavam, brigavam; compartilhavam certezas e belezas 
e também dúvidas e culpas e perguntas que não têm resposta.
 
Quando  é  verdadeira,  quando  nasce  da  necessidade  de  dizer,  a  voz 
humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, 


ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a 
dizer  aos  outros,  alguma  coisa,  alguma  palavra  que  merece  ser  celebrada  ou 
perdoada.
 
 
Definição da arte 
Portinari saiu — dizia Portinari. Por um instante espiava, batia a porta e 
desaparecia. Eram os anos trinta, caçada de comunistas no Brasil, e Portinari tinha 
se exilado em Montevidéu.
 
Ivan Kmaid não era daqueles anos, nem daquele lugar; mas muito tempo 
depois, ele espiou pelos furinhos da cortina do tempo e me contou o que viu:
 
Cândido Portinari pintava da manhã à noite, e noite afora também.
 
— Portinari saiu — dizia.
 
Naquela época, os intelectuais comunistas do Uruguai iam tomar posição 
frente ao realismo socialista e pediam a opinião do prestigiado camarada.
 
— Sabemos que o senhor saiu, mestre — disseram, e suplicaram:
 
— Mas a gente não podia entrar um momento? Só um momentinho.
 
E explicaram o problema, pediram sua opinião.
 
— Eu não sei não— disse Portinari. E disse:
 
— A única coisa que eu sei é o seguinte: arte é arte, ou é merda.
 
 
A linguagem da arte 
Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de 
ser pobre, foi-se embora para Nova Iorque.
 
Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina de fotografia. Chinolope 
nunca tinha segurado uma câmara nas mãos, mas disseram a ele que era fácil:
 
— Você olha por aqui e aperta ah.
 
E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou 
tiros e se meteu num barbeiro e levantou a câmara e olhou por aqui e apertou ali.
 
Na  barbearia  tinham  baleado  o  gângster  Joe  Anastasia,  que  estava 
fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope.
 
Pagaram  uma  fortuna  por ela.  A  foto era  uma  façanha.  Chinolope  tinha 
conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: não no morto, nem no matador. A 


morte estava na cara do barbeiro que a viu.
 
 
 
A fronteira da arte 
Foi  a  batalha  mais  longa  de  todas  as  lutadas  em  Tuscatlán  ou  em 
qualquer outra região de El Salvador. Começou à meia-noite, quando as primeiras 
granadas  caíram  da  montanha,  e  durou  a  noite  toda  e  foi  até  a  tarde  do  dia 
seguinte.  Os  militares  diziam  que  Cinquera  era  inexpugnável.  Os  guerrilheiros 
tinham  atacado  quatro  vezes,  e  quatro  vezes  tinham  fracassado.  Na  quinta  vez, 
quando foi erguida a bandeira branca no mastro do quartel-general, os tiros para o 
alto começaram os festejos.
 
Julio Ama, que lutava e fotografava a guerra, andava caminhando pelas 
ruas.  Levava  seu  fuzil  na  mão  e  a  câmara,  também  carregada  e  pronta  para  ser 
disparada, pendurada no pescoço. Andava Julio pelas ruas poeirentas, procurando 
os  irmãos  gêmeos.  Esses  gêmeos  eram  os  únicos  sobreviventes  de  uma  aldeia 
exterminada  pelo  exército.  Tinham  dezesseis  anos.  Gostavam  de  combater  ao  lado 
de  Julio;  e  nas  entre-guerras,  ele  os  ensinava  a  ler  e  a  fotografar.  No  turbilhão 
daquela batalha, Julio tinha perdido os gêmeos, e agora não os via entre os vivos ou 
entre os mortos.
 
 
Caminhou através do parque. Na esquina da igreja, meteu-se numa viela. 
E  então,  finalmente,  encontrou-os.  Um  dos  gêmeos  estava  sentado  no  chão,  de 
costas contra um muro. Sobre seus joelhos jazia o outro, banhado em sangue; e aos 
pés, em cruz, estavam os dois fuzis.
 
Júlio se aproximou, e talvez tenha dito alguma coisa. O gêmeo que vivia 
não  disse  nada,  nem  se  moveu:  estava  lá,  mas  não  estava.  Seus  olhos,  que  não 
pestanejavam,  olhavam  sem  ver,  perdidos  em  algum  lugar,  em  nenhum  lugar;  e 
naquela cara sem lágrimas estavam a guerra inteira e a dor inteira.
 


Júlio  deixou  o  fuzil  no  chão  e  empunhou  a  câmara.  Rodou  o  filme, 
calculou num instante a luz e a distância e colocou a imagem em foco. Os irmãos 
estavam no centro do visor, imóveis, perfeitamente recortados contra o muro recém-
mordido pelas balas.
 
Júlio  ia  fazer  a  foto  da  sua  vida,  mas  o  dedo  não  quis.  Júlio  tentou, 
tornou a tentar, e o dedo não quis. Então baixou a câmara, sem apertar o botão, e 
se retirou em silêncio.
 
A  câmara,  uma  Minolta,  morreu  em  outra  batalha,  afogada  pela  chuva, 
um ano mais tarde.
 
 
A função da arte/2 
O  pastor  Miguel  Brun  me  contou  que  há  alguns  anos  esteve  com  os 
índios  do  Chaco  paraguaio.  Ele  formava  parte  de  uma  missão  evangelizadora.  Os 
missionários  visitaram  um  cacique  que  tinha  fama  de  ser  muito  sábio.  O  cacique, 
um gordo quieto e calado, escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram 
para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram 
esperando.
 
O cacique levou um tempo. Depois, opinou:
 
— Você coça. E coça bastante, e coça muito bem. E sentenciou:
 
— Mas onde você coça não coça. 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
Profecias/1 
No  Peru,  a  maga  cobriu-me  de  rosas  vermelhas  e  depois  leu  a  minha 
sorte.  A  maga  anunciou:  —  Dentro  de  um  mês,  receberás  uma  distinção.  Eu  ri.  Ri 
pela  infinita  bondade  da  mulher  desconhecida,  que  me  presenteava  com  rosas  e 
bons  presságios  e  ri  por  causa  da  palavra  distinção,  que  tem  um  sei  lá  o  quê  de 
cômica, e porque me veio à cabeça um velho amigo do bairro, que era muito tosco 
mas muito certeiro, e que costumava dizer, sentenciando, levantando o dedo: "Cedo 
ou  tarde,  os  escritores  se  hamburguesam".  E  então  ri;  e  a  maga  riu  da  minha 
risada.
 
Um  mês  depois,  exatamente  um  mês  depois,  recebi  em  Montevidéu  um 
telegrama.  No  Chile, dizia o  telegrama,  tinham  me outorgado  uma  distinção.  Era  o 
prêmio José Carrasco.
 
 
Celebração da voz humana/3 
José Carrasco era um jornalista da revista Análisis. Certa madrugada, na 
primavera  de  1986,  foi  arrancado  de  casa.  Poucas  horas  antes  tinha  acontecido  o 
atentado  contra  o  general  Augusto  Pinochet.  E  poucos  dias  antes,  o  ditador  tinha 
dito:
 


— Nós estamos cevando certos senhores, feito leitão de banquete.
 
Ao pé de um muro, nos arredores de Santiago, meteram catorze tiros na 
cabeça  de  Carrasco.  Foi  ao  amanhecer,  e  ninguém  apareceu.  O  corpo  ficou  lá, 
estendido, até o meio-dia.
 
Os  vizinhos  nunca  lavaram  o  sangue.  O  lugar  transformou-se  em 
santuário dos pobres, sempre coberto de velas e flores, e José Carrasco virou alma 
milagreira.  No  muro  mordido  pelos  tiros  foram  escritos  agradecimentos  pelos 
favores recebidos.
 
No começo de 1988 viajei para o Chile. Fazia quinze anos que eu não ia. 
Fui recebido no aeroporto por Juan Pablo Cárdenas, o diretor de Análisis.
 
Condenado  por  ofensa  ao  poder,  Cárdenas  dormia  na  cadeia.  Todas  as 
noites, as dez em ponto, entrava na prisão, e saía com o sol.
 
 
Crônica da cidade de Santiago 
Santiago  do  Chile  mostra,  como  outras  cidades  latino-americanas,  uma 
imagem  resplandecente.  Por  menos  de  um  dólar  por  dia,  legiões  de  trabalhadores 
lustram a máscara da cidade.
 
Nos bairros altos, vive-se como em Miami, vive-se em Miami, miamiza-se 
a vida, roupa de plástico, comida de plástico, gente de plástico, enquanto os vídeos 
e  os  computadores  domésticos  se  transformam  em  perfeitas  contra-senhas  da 
felicidade.
 
Mas os chilenos são cada vez menos, e cada vez são mais os subchilenos: 
a economia os amaldiçoa, a polícia os persegue e a cultura os nega.
 
Alguns  viram  mendigos.  Burlando  as  proibições,  dão  um  jeito  para 
aparecer debaixo do sinal fechado ou em qualquer portal. Há mendigos de todos os 
tamanhos  e  cores,  inteiros  e  mutilados,  sinceros  ou  fingidos:  alguns,  na 
desesperação  total,  caminhando  na  beira  da  loucura;  e  outros  exibindo  caras 
retorcidas  e  mãos  trêmulas  graças  a  muito  ensaiar,  profissionais  admiráveis, 
verdadeiros artistas do bom pedir.
 
Em  plena ditadura  militar,  o  melhor  dos  mendigos  chilenos era  um  que 
comovia dizendo num lamento:
 
— Sou civil.
 


 
 
 
 


Neruda/1 
Fui  a  Isla  Negra,  à  casa  que  foi,  que  é,  de  Pablo  Neruda.  Era  proibido 
entrar. Uma cerca de madeira rodeava a casa. Lá, as pessoas tinham gravado seus 
recados  para  o  poeta.  Não  tinham  deixado  nenhum  pedacinho  de  madeira 
descoberta. Todos talavam com ele como se estivesse vivo. Com lápis ou pontas de 
pregos, cada um tinha encontrado sua maneira de dizer-lhe: obrigado.
 
Eu  também  encontrei,  sem  palavras,  à  minha  maneira.  E  entrei  sem 
entrar.  E  em  silencio  ficamos  conversando  vinhos,  o  poeta  e  eu,  caladamente 
talando  de  mares  e  amares  e  de  alguma  poção  infalível  contra  a  calvície. 
Compartilhamos  camarões  ao  pil-pil  e  uma  prodigiosa  torta  de  jaibas  e  outras 
dessas  maravilhas  que  alegram  a  alma  e  a  pança,  que  são,  como  ele  sabe  muito 
bem, dois nomes para a mesma coisa.
 
Várias vezes erguemos taças de bom vinho, e um vento salgado golpeava 
nossas  caras,  e  tudo  foi  uma  cerimônia  de  maldição  da  ditadura,  aquela  lança 
negra cravada em seu torso, aquela puta dor enorme, e foi também uma cerimônia 
de  celebração  da  vida,  bela  e  efêmera  como  os  altares  de  flores  e  os  amores 
passageiros. 
       
 
 
Neruda/ 2 
Aconteceu  em  La  Sebastiana,  outra  casa  de  Neruda,  debruçada  sobre  a 
montanha,  sobre  a  baía  de  Valparaíso.  A  casa  estava  fechada  à  pedra  e  cal,  com 
tranca  e  cadeado  e  debaixo  de  sete  chaves,  habitada  por  ninguém,  fazia  muito 
tempo.
 
Os  militares  tinham  usurpado  o  poder,  o  sangue  tinha  corrido  pelas 
ruas, Neruda estava morto de câncer ou de dor. E então uns ruídos estranhos, no 
interior da casa fechada, chamaram a atenção dos vizinhos. Alguém chegou perto e 
viu,  por  um  janelão  alto,  os  olhos  brilhantes  e  as  garras  de  ataque  de  uma  águia 
inexplicável. A águia não podia estar ali, não podia ter entrado, não tinha por onde 
entrar, mas estava lá dentro; e lá dentro agitava violentamente as asas.
 
 


 
Profecias/2 
Helena  sonhou  com  quem  tinha  guardado  o  fogo.  As  velhas  tinham 
guardado,  as  velhas  muito  pobres,  nas  cozinhas  dos  subúrbios;  e  para  oferecê-lo, 
lhes bastava soprar, suavemente, a palma das mãos.
 
 
Celebração da fantasia 
Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu tinha me 
soltado  de  um  grupo  de  turistas  e  estava  sozinho,  olhando  de  longe  as  ruínas  de 
pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, chegou perto para me 
pedir que desse a ele de presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, 
porque  estava  usando-a  para  fazer  sei  lá  que  anotações,  mas  me  ofereci  para 
desenhar um porquinho em sua mão. Subitamente, correu a notícia. E de repente 
me  vi  cercado  por  um  enxame  de  meninos  que  exigiam,  aos  berros,  que  eu 
desenhasse em suas mãozinhas rachadas de sujeira e frio, pele de couro queimado: 
havia  os  que  queriam  um  condor  e  uma  serpente,  outros  preferiam  periquitos  ou 
corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão.
 
E  então,  no  meio  daquele  alvoroço,  um  desamparadozinho  que  não 
chegava a mais de um metro do chão, mostrou-me um relógio desenhado com tinta 
negra em seu pulso:
 
— Quem mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima — disse.
 
— E funciona direito? — perguntei.
 
— Atrasa um pouco — reconheceu.
 
 
A arte para as crianças 
Ela estava sentada numa cadeira alia, na frente de um prato de sopa que 
chegava à altura de seus olhos. Tinha o nariz enrugado e os dentes apertados e os 
braços cruzados. A mãe pediu ajuda:
 
—  Conta  uma  história  para  ela,  Onélio  —  .  Pediu  —  Conta,  você  que  é 
escritor...
 
E Onélio Jorge Cardoso, esgrimindo a colher de sopa, fez seu conto:
 
—  Era  uma  vez  um  passarinho  que  não  queria  comer  a  comidinha.  O 
passarinho tinha o biquinho fechadinho, fechadinho, e a mamãezinha dizia: "Você vai 


ficar aviãozinho, passarinho, se não comer a comidinha". Mas o passarinho não ouvia 
a mamãezinha e não abria o biquinho...
 
E então a menina interrompeu:
 
— Que passarinho de merdinha — opinou.
 
 
A arte das crianças 
Mario Montenegro canta os contos que seus filhos lhe contam. Ele senta 
no  chão,  com  seu  violão,  rodeado  por  um  círculo  de  filhos,  e  essas  crianças  ou 
coelhos  contam  para ele  a  história  dos setenta e oito  coelhos  que  subiram  um em 
cima  do outro  para  poder  beijar  a  girafa,  ou  contam  a  história  do  coelho  azul  que 
estava sozinho no meio do céu: uma estrela levou o coelho azul para passear pelo 
céu,  e  visitaram  a  lua,  que  é  um  grande  país  branco  e  redondo  e  todo  cheio  de 
buracos, e andaram girando pelo espaço, e saltaram sobre as nuvens de algodão, e 
depois a estrela se cansou e voltou para o país das estrelas, e o coelho voltou para o 
país dos coelhos, e lá comeu milho e cagou e foi dormir e sonhou que era um coelho 
azul que estava sozinho no meio do céu.
 
 
Os sonhos de Helena 
Naquela noite, os sonhos faziam fila, querendo ser sonhados, mas Helena 
não  podia  sonhá-los  todos,  não  dava.  Um  dos  sonhos,  desconhecido,  se 
recomendava:
 
—  Sonhe-me,  vale  a  pena.  Sonhe-me,  que  vai  gostar.  Faziam  fila  alguns 
sonhos novos, jamais sonhados, mas Helena reconhecia o sonho bobo, que sempre 
voltava,  esse  chato,  e  outros  sonhos  cômicos  ou  sombrios  que  eram  velhos 
conhecidos de suas noites voadoras.
 
 


 
Viagem ao país dos sonhos 
Helena acudia, em carruagem, ao país onde os sonhos são sonhados. Ao 
seu lado,  também  sentada  na  boléia,  ia  a  cachorrinha  Pepa  Lumpen.  Pepa  levava, 
debaixo  do  braço,  uma  galinha  que  ia  atuar  em  seu  sonho.  Helena  trazia  um 
imenso baú cheio de máscaras e trapos coloridos.
 
O  caminho  estava  muito  cheio  de  gente.  Todos  iam  para  o  país  dos 
sonhos,  e  faziam  muita  confusão  e  muito  ruído  ensaiando  os  sonhos  que  iam 
sonhar,  e  por  isso  Pepa  ia  resmungando,  porque  não  a  deixavam  concentrar-se 
como se deve.
 
 
 
O país dos sonhos 
Era  um  imenso  acampamento  ao  ar  livre.  Das  cartolas  dos  magos 
brotavam alfaces cantoras e pimentões luminosos, e por todas as partes havia gente 
oferecendo  sonhos  para  trocar.  Havia  os  que  queriam  trocar  um  sonho  de  viagem 
por um sonho de amores, e havia quem oferecesse um sonho para rir a troco de um 
sonho para chorar um pranto gostoso.
 
Um  senhor  andava  ao  léu  buscando  os  pedacinhos  de  seu  sonho, 
despedaçado por culpa de alguém que o tinha atropelado: o senhor ia recolhendo os 
pedacinhos e os colava e com eles fazia um estandarte cheio de cores.
 
O  aguadeiro  de  sonhos  levava  água  aos  que  sentiam  sede  enquanto 
dormiam. Levava a água nas costas, em uma jarra, e a oferecia em taças altas.
 
Sobre  uma  torre  havia  uma  mulher,  de  túnica  branca,  penteando  a 
cabeleira,  que  chegava  aos  seus  pés.  O  pente  soltava  sonhos,  com  todos  seus 
personagens: os sonhos saíam dos cabelos e iam embora pelo ar.
 


 
 
Os sonhos esquecidos 
Helena  sonhou  que  deixava  os  sonhos  esquecidos  numa  ilha.  Claribel 
Alegria  recolhia  os  sonhos,  os  amarrava  com  uma  fita  e  os  guardava  bem 
guardados.  Mas  as  crianças  da  casa  descobriam  o esconderijo e  queriam  vestir os 
sonhos de Helena, e Claribel, zangada, dizia a eles:
 
— Nisso ninguém mexe.
 
Então Claribel telefonava para Helena e perguntava:
 
— O que eu faço com seus sonhos?
 
 


O adeus dos sonhos 
Os  sonhos  iam  viajar.  Helena  ia  até  a  estação  do  trem.  Da  plataforma, 
dizia adeus aos sonhos com um lencinho.
 
 
 
 
 
Celebração da realidade 
Se  a  tia  de  Dámaso  Murúa  tivesse  contado  sua  história  a  Garcia 
Márquez, talvez a Crônica de uma morte anunciada tivesse outro final.
 
Susana Contreras, que é como se chama a tia de Dámaso, teve em seus 
bons tempos a bunda mais incendiaria de todas as que ondularam na cidadezinha 
de Escuinapa e em todas as comarcas do golfo da Califórnia.
 
Há  muitos  anos,  Susana  se  casou  com  um  dos  numerosos  galãs  que 
sucumbiram ao seu remelexo. Na noite de núpcias, o marido descobriu que ela não 
era  virgem.  Então  soltou-se  da  ardente  Susana  como  se  ela  contagiasse  de  peste, 
bateu a porta e foi-se embora para sempre.
 
O  despeitado  desandou  a  beber  nos  botequins,  onde  os  convidados  da 
festa continuavam a farra. Abraçado aos amigos, ele se pôs a mastigar rancores e a 
proferir  ameaças,  mas  ninguém  levava  a  sério  seu  tormento  cruel.  Com 
benevolência o escutavam, enquanto ele segurava, macho forte, as lágrimas que aos 
borbotões lutavam para sair, mas depois lhe diziam que a notícia não era de nada, 
que  não  desse  bola,  que  claro  que  Susana  não  era  virgem,  que  a  cidade  inteira 


sabia  menos  ele,  e  que  afinal  esse  era  um  detalhe  que  não  tinha  a  menor 
importância,  e  deixa  de  ser  babaca,  meu  irmão,  que  a  gente  só  vive  uma  vez.  Ele 
insistia, e no lugar de gestos de solidariedade recebia bocejos. 
 
E assim foi avançando a noite, aos trambolhões, em triste bebedeira cada 
vez  mais  solitária,  até  o  amanhecer.  Um  atrás  do  outro,  os  convidados  foram 
dormir. A alvorada encontrou o ofendido sentado na rua, completamente sozinho e 
exausto de tanto se queixar sem que ninguém desse atenção.
 
O homem já estava se cansando de sua própria tragédia, e as primeiras 
luzes desvaneceram a vontade de sofrer e de se vingar.
 
No  meio  da  manhã  tomou  um  bom  banho  e  um  café  bem  quente  e  ao 
meio-dia voltou, arrependido, aos braços da repudiada.
 
Voltou  desfilando,  em  passo  de  grande'  cerimônia,  vindo  lá  da  outra 
ponta da rua principal. Ia carregando um enorme ramo de rosas, encabeçando uma 
longa  procissão  de  amigos,  parentes  e  público  em  geral.  A  orquestra  de  serenatas 
fechava a marcha. A orquestra soava a todo vapor, tocando para Susana, à maneira 
de  desagravo,  La  negra  consentida  e  Vereda  tropical.  Com  essas  musiquinhas, 
tempos atrás, ele tinha se declarado a ela.
 
 
A arte e a realidade/1 
Fernando Birri ia filmar o conto do anjo, de Garcia Márquez, e me levou 
para  ver  os  cenários.  No  litoral  cubano,  Fernando  tinha  fundado  um  povoado  de 
papelão e o tinha enchido de galinhas, de caranguejos gigantes e de atores. Ele ia 
fazer  o  papel  principal,  o  papel  de  um  anjo  depenado  que  cai  na  terra  e  fica 
trancado num galinheiro.
 
Marcial,  um  pescador  do  lugar,  tinha  sido  solenemente  designado 
Alcaide-Mor  daquele  povoado  de  cinema.  Depois  das  formais  boas-vindas,  Marcial 
nos acompanhou. Fernando queria me mostrar uma obra-prima do envelhecimento 
artificial:  uma  gaiola  desmantelada,  leprosa,  mordida  pela  ferrugem  e  por  uma 
imundície  antiga.  Essa  ia  ser  a  prisão  do  anjo,  depois  de  sua  fuga  do  galinheiro. 
Mas  no  lugar  daquele  bagulho  sabiamente  arruinado  pelos  especialistas, 
encontramos  uma  gaiola  limpa  e  bem  armada,  com  suas  barras  perfeitamente 


alinhadas  e  recém-pintadas  de  dourado.  Marcial  ficou  inchado  de  orgulho  ao 
mostrar-nos aquela preciosidade. Fernando, metade atônito, metade furioso, quase 
o comeu vivo:
 
— O que é isto, Marcial? O que é isto?
 
Marcial engoliu saliva, ficou rubro, agachou a cabeça e coçou a barriga. 
Então confessou:
 
— Eu não podia permitir. Não podia permitir que metessem naquela gaiola 
imunda um homem bom como o senhor.
 
 
A arte e a realidade/2 
Eraclio Zepeda fez o papel de Pancho Villa em México Insurgente, o filme 
de  Paul  Leduc,  e  fez  tão  bem  que  desde  então  tem  gente  que  acha  que  Eraclio 
Zepeda é o nome que Pancho Villa usa quando trabalha no cinema.
 
Estavam  em  plena  filmagem,  numa  aldeia  qualquer,  e  as  pessoas 
participavam  em  tudo  o  que  acontecia,  de  modo  muito  natural,  sem  que  o  diretor 
desse  palpite.  Pancho  Villa  tinha  morrido  há  meio  século,  mas  ninguém  se 
surpreendeu que ele aparecesse por ali. Certa noite, depois de uma intensa jornada 
de trabalho, algumas mulheres se reuniram na frente da casa onde Eraclio dormia, 
e pediram que ele intercedesse pelos presos. Na manhã seguinte, bem cedinho, ele 
foi falar com o prefeito.
 
—  Foi  preciso  que  o  general  Villa  viesse,  para  que  fizessem  justiça  — 
comentaram as pessoas.
 
 
 
 
A realidade é uma doida varrida 
― Diga uma coisa. Diga se o marxismo proíbe comer vidro. Quero saber.
 
  Foi  em  meados  de  1970,  no  oriente  de  Cuba.  O  homem  estava  lá, 
plantado na porta, esperando. Pedi desculpas. Disse a ele que era pouco o que eu 


entendia  de  marxismo,  uma  coisinha  ou  outra,  pouquinha,  e  que  era  melhor 
consultar um especialista em Havana.
 
—  Já  me  levaram  para  Havana  —  disse  —.  Os  médicos  de  lá  me 
examinaram. E também o comandante. Fidel me perguntou: "Vem cá, será que o seu 
caso não é de ignorância?"
 
Porque comia vidro, tinham tomado seu carnê da Juventude Comunista:
 
— Aqui, em Baracoa, abriram um processo.  
Trígimo Suárez era miliciano exemplar, cortador de cana de primeira fila 
e  trabalhador  de  vanguarda,  desses  que  trabalham  vinte  horas  e  recebem  oito, 
sempre o primeiro a acudir para tombar cana ou atirar tiros, mas tinha paixão pelo 
vidro:
 
— Não é vício — explicou —. É necessidade.
 
Quando  Trígimo  era  mobilizado  para  colheita  ou  guerra,  a  mãe  enchia 
sua mochila de comida: punha algumas garrafas vazias, para o almoço e o jantar, e 
de  sobremesa,  tubos  de  lâmpada  fluorescente  usada.  Também  punha  algumas 
lâmpadas queimadas, para o lanche.
 
Trígimo me levou na casa dele, no bairro Camilo Cienfuegos, em Baracoa. 
Enquanto  conversávamos,  eu  bebia  café  e  ele  comia  lâmpadas.  Depois  de  acabar 
com o vidro, chupava, guloso, os filamentos.
 
— O vidro me chama. Eu amo o vidro como amo a revolução.
 
Trígimo  afirmava  que  não  havia  nenhuma  sombra  em  seu  passado.  Ele 
nunca tinha comido vidro alheio, exceto uma vez, uma vez só, quando estava louco 
de fome devorou os óculos de um companheiro de trabalho.
 
 
 
Crônica da cidade de Havana 
Os  pais  tinham  fugido  para  o  Norte.  Naquele  tempo,  a  revolução  e  ele 
eram  recém-nascidos.  Um  quarto  de  século  depois,  Nelson  Valdés  viajou  de  Los 
Angeles a Havana, para conhecer seu país.
 
A  cada  meio-dia,  Nelson  tomava  o  ônibus,  a  guagua  68,  na  porta  do 
hotel, e ia ler livros sobre Cuba. Lendo passava as tardes na biblioteca José Marti, 
até que a noite caía.
 
Naquele  meio-dia,  a  guagua  68  deu  uma  violenta  freada  num 
cruzamento.  Houve  gritos  de  protesto,  pela  tremenda  sacudida,  até  que  os 
passageiros  viram  o  motivo  daquilo  tudo:  uma  mulher  prodigiosa,  que  tinha 
atravessado a rua.
 


—  Me  desculpem,  cavalheiros  —  disse  o  motorista  da  guagua  68,  e 
desceu. Então todos os passageiros aplaudiram e lhe desejaram boa sorte.
 
O  motorista  caminhou  balançando,  sem  pressa,  e  os  passageiros  viram 
como ele se aproximava da saborosa mulher que estava na esquina, encostada no 
muro,  lambendo  um  sorvete.  Da  guagua  68  os  passageiros  seguiam  o  ir-e-vir 
daquela lingüinha que beijava o sorvete enquanto o motorista falava sem resposta, 
até que de repente ela riu, e brindou-lhe um olhar. O motorista ergueu o polegar e 
todos os passageiros lhe dedicaram uma intensa ovação.
 
Mas  quando  o  chofer  entrou  na  sorveteria,  produziu-se  uma  certa 
inquietação generalizada. E quando depois de um instante saiu com um sorvete em 
cada mão, espalhou-se o pânico nas massas.
 
Tocaram a buzina. Alguém grudou-se na buzina com alma e vida, e tocou 
a  buzina  como  alarme  de  roubos  ou  sirena  de  incêndios;  mas  o  motorista,  surdo, 
continuava grudado na perigosa mulher.
 
Então  avançou,  lá  dos  fundos  da  guagua  68,  uma  mulher  que  parecia 
uma  bala  de  canhão e  tinha  cara  de  mandona.  Sem  dizer  uma  palavra,  sentou-se 
no assento do chofer e ligou o motor. A guagua 68 continuou sua rota, parando nos 
pontos  habituais,  até  que  a  mulher  chegou  no  seu  próprio  ponto  e  desceu.  Outro 
passageiro ocupou seu lugar, durante um bom trecho, de ponto em ponto, e depois 
outro, e outro, e assim a guagua 68 continuou até o fim.
 
Nelson Valdés foi o último a descer. Tinha esquecido a biblioteca.
 
 


A diplomacia na América Latina 
― What is that? — perguntavam os turistas.
 
Balmaceda  sorria,  se  desculpando,  e  negava  com  a  cabeça.  Ele  usava, 
como  todos,  guirlandas  de  flores  no  pescoço,  óculos  escuros  e  camisa  com 
palmeiras, mas estava todo empapado de suor por causa do pacote muito pesado.
 
Parecia  condenado  à  carga  perpétua.  Tinha  tentado  abandonar  o 
embrulho no banheiro de um hotel de Manila e no balcão da alfândega de Papeete; 
tinha tentado jogá-lo pela borda do navio e tinha tentado esquecê-lo em frondosas 
paragens  das  ilhas  do  arquipélago  de  Tahiti.  Mas  sempre  havia  alguém  que  o 
alcançava correndo: — Cavalheiro, cavalheiro, o senhor esqueceu isto!
 
Esta triste história tinha começado quando o ditador Ferdinando Marcos 
convidou o ditador Augusto Pinochet para visitar as Filipinas. Então a chancelaria 
chilena  tinha  enviado  um  busto  de  bronze  do  general  0'Higgins,  de  Santiago  para 
Manila. Pinochet ia inaugurar essa efígie do prócer nacional numa praça central da 
cidade.  Mas  Marcos,  assustado  pelas  fúrias  de  seu  povo,  cancelou  subitamente  o 
convite.  Pinochet  foi  obrigado  a  voltar  para  o  Chile  sem  aterrissar.  Então  o 
funcionário  Balmaceda  recebeu  categóricas  instruções  na  embaixada  chilena  em 
Manila. Por telefone, ordenaram, de Santiago:
 
—  Basta  de  papelões.  Desfaça-se  desse  busto  do  jeito  que  for.  Se  voltar 
com ele para o Chile, está na rua.
 
 
 
 
 
Crônica da cidade de Quito 
Desfila  à  cabeça  das  manifestações  de  esquerda.  Costuma  assistir  aos 
atos culturais, embora se aborreça, porque sabe que depois vem a farra. Gosta de 
rum,  sem  gelo  nem  água,  desde  que  seja  cubano.  Respeita  os  sinais  de  trânsito. 
Caminha Quito de ponta a ponta, pelo direito e pelo avesso, percorrendo amigos e 


inimigos.  Nas  subidas,  prefere  o  ônibus,  e  vai  de  penetra,  sem  pagar  passagem. 
Alguns  choferes  bronzeiam:  quando  desce,  gritam  para  ele  zarolho  de  merda. 
Chama-se Choco e é brigão e apaixonado. Luta até Com quatro de uma só vez; e nas 
noites  de  lua  cheia,  foge  para  buscar  namoradas.  Depois  conta,  alvoroçado,  as 
loucas aventuras que acaba de viver. Mishy não compreende os detalhes, mas capta 
o sentido geral.
 
Certa vez, faz anos, foi levado para longe de Quito. A comida era pouca, e 
resolveram deixá-lo num povoado distante, onde tinha nascido. Mas voltou. Depois 
de  um  mês,  voltou.  Chegou  na  porta  da  casa e  ficou lá, esticado,  sem  forças  para 
celebrar  movendo  o  rabo,  ou  para  se  anunciar  latindo.  Tinha  andado  por  muitas 
montanhas  e  avenidas  e  chegou  nas  últimas,  feito  um  trapo,  os  ossos  saltando, o 
pêlo  sujo  de  sangue  seco.  Desde  aquela  época  odeia  os  chapéus,  as  fardas  e  as 
motocicletas.
 
 


 


O Estado na América Latina 
Já faz alguns anos, muitos, que o coronel Amen me contou. Acontece que 
um  soldado  recebeu  a  ordem  de  mudar  de  quartel.  Por  um  ano,  foi  mandado  a 
outro destino, em algum lugar de fronteira, porque o Superior Governo do Uruguai 
tinha contraído uma de suas periódicas febres de guerra ao contrabando.
 
Ao ir embora, o soldado deixou sua mulher e outros pertences ao melhor 
amigo, para que tivesse tudo sob custódia.
 
Passado  um  ano,  voltou.  E  encontrou  seu  melhor  amigo,  também 
soldado, sem querer devolver a mulher. Não tinha nenhum problema em relação ao 
resto  das coisas;  mas  a  mulher, não. O litígio ia  ser  resolvido  através  do  veredicto 
do punhal, em duelo, quando o coronel Amen resolveu parar com a brincadeira:
 
— Que se expliquem — exigiu.
 
— Esta mulher é minha — disse o ausentado.
 
—  Dele?  Terá  sido.  Mas  já  não  é  —  disse  o  outro.  —  Razões  —  disse  o 
coronel. Quero explicações. E o usurpador explicou:
 
— Mas coronel, como vou devolvê-la? Depois do que a coitada sofreu! Se o 
senhor visse como este animal a tratava... A tratava, coronel... como se ela fosse do 
Estado!
 
 
A burocracia/1 
Nos  tempos  da  ditadura  militar,  em  meados  de  1973,  um  preso  político 
uruguaio,  Juan  José  Noueched,  sofreu  uma  sanção  de  cinco  dias:  cinco  dias  sem 
visita nem recreio, cinco dias sem nada, por violação do regulamento. Do ponto de 
vista  do  capitão  que  aplicou  a  sanção,  o  regulamento  não  deixava  margem  de 
dúvida.  O  regulamento estabelecia  claramente  que os  presos  deviam  caminhar em 
fila e com as mãos nas costas. Noueched tinha sido castigado por estar com apenas 
uma das mãos nas costas.
 
Noueched era maneta.
 
Tinha  sido  preso  em  duas  etapas.  Primeiro  tinham  prendido  seu  braço. 
Depois, ele. O braço caiu em Montevidéu. Noueched vinha escapando, correndo sem 
parar, quando o policial que o perseguia conseguiu agarrá-lo e gritou: "Teje preso!", 
e ficou com o braço na mão. O resto de Noueched caiu preso um ano e meio depois, 
em Paysandú.
 
Na cadeia, Noueched quis recuperar o braço perdido:
 
—  Faça  um  requerimento  —  disseram  a  ele.  Ele  explicou  que  não  tinha 


lápis:
 
— Faça um requerimento de lápis — disseram. Então passou a ter lápis, 
mas não tinha papel.
 
— Faça um requerimento de papel — disseram a ele. Quando finalmente 
teve lápis e papel, formulou seu requerimento de braço.
 
Tempos  depois,  responderam.  Não.  Não  era  possível:  o  braço  estava  em 
outro  expediente.  Ele  tinha  sido  processado  pela  justiça  militar.  O  braço,  pela 
justiça civil.
 
 
 
A burocracia/2 
Tito Sclavo conseguiu ver e transcrever alguns boletins oficiais do cárcere 
chamado  Libertad,  nos  anos  da  ditadura  militar  uruguaia.  São  atas  de  castigo: 
condena-se  ao  Calabouço  os  presos  que  tenham  cometido  o  delito  de  desenhar 
pássaros,  ou  casais,  ou  mulheres  grávidas,  ou  que  tenham  sido  surpreendidos 
usando  uma  toalha  estampada  de  flores.  Um  preso,  cuja  cabeça  estava,  como 
todas, raspada a zero, foi castigado por entrar despenteado no refeitório. Outro, por 
passar  a  cabeça  por  baixo  da  porta,  embora  debaixo  da  porta  houvesse  um 
milímetro de luz. Houve Calabouço para um preso que pretendeu familiarizar-se com 
um cão de guerra, e para outro que insultou um cão integrante das Forças Armadas. 
Outro foi castigado porque latiu como um cão sem razão justificada.
 
 
A burocracia/3 
Sixto  Martínez  fez  o  serviço  militar  num  quartel  de  Sevilha.  No  meio  do 
pátio  desse  quartel  havia  um  banquinho.  Junto  ao  banquinho,  um  soldado 
montava  guarda.  Ninguém  sabia  porque  se  montava  guarda  para  o  banquinho.  A 
guarda  era  feita  por  que  sim,  noite  e  dia,  todas  as  noites,  todos  os  dias,  e  de 
geração  em  geração  os  oficiais  transmitiam  a  ordem  e  os  soldados  obedeciam. 
Ninguém  nunca  questionou,  ninguém nunca  perguntou. Assim era  feito, e  sempre 
tinha sido feito.
 
E  assim  continuou  sendo  feito  até  que  alguém,  não  sei  qual  general  ou 
coronel, quis conhecer a ordem original. Foi preciso revirar os arquivos a fundo. E 


depois  de  muito  cavoucar,  soube-se.  Fazia  trinta  e  um  anos,  dois  meses  e  quatro 
dias,  que  um  oficial  tinha  mandado  montar  guarda  junto  ao  banquinho,  que  fora 
recém-pintado, para que ninguém sentasse na tinta fresca.
 
 


 
 
 
Causos/1 
Nas  fogueiras  de  Paysandú,  Mellado  Iturria  conta  causos.  Conta 
acontecidos.  Os  acontecidos  aconteceram  alguma  vez,  ou  quase  aconteceram,  ou 
não aconteceram nunca, mas têm uma coisa de bom: acontecem cada vez que são 
contados.
 
Este é o triste causo do bagrezinho do arroio Negro.
 
Tinha  bigodes  de  arame  farpado,  era  vesgo  e  de  olhos  saltados.  Nunca 
Mellado tinha visto um peixe tão feio. O bagre vinha grudado em seus calcanhares 
desde  a  beira  do  arroio,  e  Mellado  não  conseguia  espantá-lo.  Quando  chegou  no 
casario, com o bagre feito sombra, já tinha se resignado.
 
Com o  tempo,  foi sentindo  carinho pelo peixe. Mellado nunca tinha  tido 
um amigo sem pernas. Desde o amanhecer o bagre o acompanhava para ordenhar e 
percorrer campo. Ao cair da tarde, tomavam chimarrão juntos; e o bagre escutava 
suas confidencias.
 
Os  cachorros,  enciumados,  olhavam  o  bagre  com  rancor;  a  cozinheira, 
com más intenções. Mellado pensou em dar um nome para o peixe, para ter como 
chamá-lo  e  para  fazer-se  respeitar,  mas  não  conhecia  nenhum  nome  de  peixe,  e 
batizá-lo de Sinforoso ou Hermenegildo poderia desagradar a Deus.
 
Estava  sempre  de  olho  nele.  O  bagre  tinha  uma  notória  tendência  às 
diabruras. Aproveitava qualquer descuido e ia espantar as galinhas ou provocar os 
cachorros:
 
— Comporte-se — dizia Mellado ao bagre.
 
Certa  manhã  de  muito  calor,  quando  as  lagartixas  andavam  de 


sombrinha  e  o  bagrezinho  se  abanava  furiosamente  com  as  barbatanas,  Mellado 
teve a idéia fatal:
 
— Vamos tomar banho no arrolo — propôs. Foram, os dois.
 
E o bagre se afogou.
 
 
Causos/2 
Nos  antigamentes,  dom  Verídico  semeou  casas  e  gentes  em  volta  do 
botequim  El  Resorte,  para  que  o  botequim  não  se  sentisse  sozinho.  Este  causo 
aconteceu, dizem por aí, no povoado por ele nascido.
 
E  dizem  por  aí  que  ali  havia  um  tesouro,  escondido  na  casa  de  um 
velhinho todo mequetrefi.
 
Uma  vez  por  mês,  o  velhinho,  que  estava  nas  últimas,  se  levantava  da 
cama e ia receber a pensão.
 
Aproveitando  a  ausência,  alguns  ladrões,  vindos  de  Montevidéu, 
invadiram a casa.
 
Os ladrões buscaram e buscaram o tesouro em cada canto. A única coisa 
que encontraram foi um baú de madeira, coberto de trapos, num canto do porão. O 
tremendo cadeado que o defendia resistiu, invicto, ao ataque das gazuas.
 
E assim, levaram o baú. Quando finalmente conseguiram abri-lo, já longe 
dali, descobriram que o baú estava cheio de cartas. Eram as cartas de amor que o 
velhinho tinha recebido ao longo de sua longa vida.
 
Os  ladrões  iam  queimar  as  cartas.  Discutiram.  Finalmente,  decidiram 
devolvê-las. Uma por uma. Uma por semana.
 
Desde então, ao meio-dia de cada segunda-feira, o velhinho se sentava no 
alto  da  colina.  E  lá  esperava  que  aparecesse  o  carteiro  no  caminho.  Mal  via  o 
cavalo,  gordo  de  alforjes,  entre  as  árvores,  o  velhinho  desandava  a  correr.  O 
carteiro, que já sabia, trazia sua carta nas mãos.
 
E  até  São  Pedro  escutava  as  batidas  daquele  coração  enlouquecido  de 
alegria por receber palavras de mulher.
 
 


Causos/3
 
O  que  é  a  verdade?  A  verdade  é  uma  mentira  contada  por  Fernando 
Silva.  Fernando  conta  com  o  corpo  inteiro,  e  não  apenas  com  palavras,  e  pode  se 
transformar  em  outra  gente  ou  em  bicho  voador  ou  no  que  for,  e  faz  isso  de  tal 
maneira que depois a gente escuta, por exemplo, o sabiá cantando num galho, e a 
gente pensa: Esse passarinho está imitando Fernando quando imita o sabiá.
 
Ele  conta  causos  da  linda  gente  do  povo,  da  gente  recém-criada,  que 
ainda tem cheiro de barro; e também causos de alguns tipos extravagantes que ele 
conheceu, como aquele espelheiro que fazia espelhos e se metia neles, se perdia, ou 
aquele apaga dor de vulcões que o diabo deixou zarolho, por vingança, cuspindo em 
seu olho. Os causos acontecem em lugares onde Fernando esteve: o hotel que abria 
só para fantasmas, aquela mansão onde as bruxas morreram de chatice ou a casa 
de  Ticuantepe,  que  era  tão  sombreada  e  fresca  que  a  gente  sentia  vontade  de  ter, 
ali, uma namorada à nossa espera.
 
Além  disso,  Fernando  trabalha  como  médico.  Prefere  as  ervas  aos 
comprimidos  e  cura  a  úlcera  com  plantas  e  ovo  de  pombo;  mas  prefere  ainda  a 
própria mão. Porque ele cura tocando. E contando, que é outra maneira de tocar.
 


 


Noite de Natal 
Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua. Na véspera do 
Natal,  ficou  trabalhando  até  muito  tarde.  Os  foguetes  esposavam  e  os  fogos  de 
artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa, 
esperavam por ele para festejar.
 
Fez um último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e 
estava  nessa  quando  sentiu  que  passos  o  seguiam.  Passos  de  algodão:  virou  e 
descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o. 
Era  um  menino  que  estava  sozinho.  Fernando  reconheceu  sua  cara  marcada  pela 
morte e aqueles olhos que pediam desculpas ou talvez pedissem licença.
 
Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão: — Diga para... — 
sussurrou o menino —. Diga para alguém que eu estou aqui.
 
 
Os ninguéns 
As  pulgas  sonham  com  comprar  um  cão,  e  os  ninguéns  com  deixar  a 
pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte 
a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, 
nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e 
mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o 
ano mudando de vassoura.
 
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
 
Os  ninguéns:  os  nenhuns,  correndo  soltos,  morrendo  a  vida,  fodidos  e 
mal pagos:
 
Que não são, embora sejam.
 
Que não falam idiomas, falam dialetos.
 
Que não praticam religiões, praticam superstições.
 
Que não fazem arte, fazem artesanato.
 
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
 
Que não tem cultura, têm folclore.
 
Que não têm cara, têm braços.
 
Que não têm nome, têm número.
 
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais 
da imprensa local.
 
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
 


A fome/1 
Na saída de San Salvador, e indo na direção de Guazapa, Berta Navarro 
encontrou uma camponesa desalojada pela guerra, uma das milhares e milhares de 
camponesas desalojadas pela guerra. Em nada se distinguia das muitas outras, ou 
dos muitos outros, mulheres e homens que desceram da fome para a fome e meia. 
Mas esta camponesa mirrada e feia estava em pé no meio da desolação, sem nada 
de  carne entre os ossos z  a  pele, e  na  mão  tinha um  passarinho  mirrado e  feio/O 
passarinho estava morto e ela arrancava muito lentamente suas penas.
 
 
 
Crônica da cidade de Caracas 
Preciso de alguém que me escutei — gritava. — Dizem sempre que é para 
eu  voltar  amanhã!  —  gritava.  Jogou  a  camisa  fora.  Depois,  as  meias e os  sapatos. 
José Manuel Pereira estava parado na marquise de um décimo-oitavo andar de um 
edifício em Caracas.
 
Os policiais quiseram agarrá-lo e não conseguiram. Uma psicóloga falou 
com  ele  da  janela  mais  próxima.  Depois,  um  sacerdote  levou  a  ele  a  palavra  de 
Deus.  —  Não  quero  mais  promessas!  —  gritava  José  Manuel.  Dos  janelões  do 
restaurante da Torre Sul, viam Manuel em pé na marquise, com as mãos pregadas 
na parede. Era a hora do almoço, e este acabou sendo o tema de conversa em todas 
as mesas.
 
 


Lá embaixo, na rua, tinha se juntado uma multidão.
 
Passaram-se seis horas.
 
No fim, as pessoas estavam cansadas.
 
— Decida-se de uma vez\ — diziam as pessoas —. Que se jogue de uma 
vez e pronto! — pensavam.
 
Os  bombeiros  aproximaram  uma  corda.  No  começo,  ele  não  deu 
confiança.  Mas  finalmente  esticou  uma  das  mãos,  e  depois  outra,  e  agarrado  na 
corda  deslizou  até  o  décimo-sexto  andar.  Então  tentou  entrar  pela  janela  aberta e 
escorregou e despencou no vazio. Ao bater no chão, o corpo fez um ruído de bomba 
que explode.
 
Então  as  pessoas  foram  embora,  e  foram  embora  os  vendedores  de 
sorvete e de cachorro-quente e os vendedores de cerveja e de refrigerantes em lata.
 
 


Anúncios 
Vende-se:  —  Uma  negra  meio  boçal,  da  nação  cabinda,  pela  quantidade 
de 430 pesos. Tem rudímentos de costurar e passar.
 
—  Sanguessugas  recém-chegadas  da  Europa,  da  melhor  qualidade,  por 
quatro, cinco e seis vinténs uma.
 
— Um carro, por quinhentos patacões, ou troca-se por negra.
 
—  Uma  negra,  de  idade  de  treze  a  quatorze  anos,  sem  vícios,  de  nação 
bangala.
 
— Um mulatinho de idade onze anos, com rudímentos de alfaiate.
 
— Essência de salsaparrilha, a dois pesos o frasquinho.
 
—  Uma  primeiriça  com  poucos  dias  de  parida.  Não  tem  cria,  mas  tem 
abundante leite bom.
 
— Um leão, manso feito um cão, que come de tudo, e também uma cômoda 
e uma caixa de embuia.
 
— Uma criada sem vícios nem doenças, de nação conga, de idade de uns 
dezoito anos, e além disso um piano e outros móveis a preços cômodos.
 
(Dos jornais uruguaios de 1840, vinte e sete anos depois da abolição da escravatura.)
 
 
 
Crônica da cidade do Rio de Janeiro 
No alto da noite do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, o Cristo Redentor 
estende os braços. Debaixo desses braços os netos dos escravos encontram amparo.
 
Uma mulher descalça olha o Cristo, lá de baixo, e apontando seu fulgor, 
diz, muito tristemente:
 
— Daqui a pouco, já não estará mais aí. Ouvi dizer que vão tirar Ele daí.
 
—  Não  se  preocupe  —  tranqüiliza  uma  vizinha  —.  Não  se  preocupe:  Ele 
volta.
 
A polícia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta 
soam  tiros  e  também  tambores:  atabaques,  ansiosos  de  consolo  e  de  vingança, 
chamam deuses africanos. Cristo sozinho não basta.
 
 
Os numerinhos e as pessoas 
Onde se recebe a Renda per Capita? Tem muito morto de fome querendo 
saber. Em nossas terras, os numerinhos têm melhor sorte que as pessoas. Quantos 
vão  bem  quando  a  economia  vai  bem?  Quantos  se  desenvolvem  com  o 


desenvolvimento?
 
Em Cuba, a Revolução triunfou no ano mais próspero de toda a história 
econômica da ilha.
 
Na América Central, as estatísticas sorriam e riam quanto mais fodidas e 
desesperadas  estavam  as  pessoas.  Nas  décadas  de  50,  de  60,  de  70,  anos 
atormentados,  tempos  turbulentos,  a  América  Central  exibia  os  índices  de 
crescimento econômico mais altos do mundo e o maior desenvolvimento regional da 
história humana.
 
Na Colômbia, os rios de sangue cruzam os rios de ouro. Esplendores da 
economia,  anos  de  dinheiro  fácil:  em  plena  euforia,  o  país  produz  cocaína,  café  e 
crimes em quantidades enlouquecidas.
 
 
 


 
A fome/2 
Um  sistema  de  desvinculo:  Boi  sozinho  se  lambe  melhor..,  O  próximo,  o 
outro,  não  é  seu  irmão,  nem  seu  amante.  O  outro  é  um  competidor,  um  inimigo, 
um  obstáculo  a  ser  vencido  ou  uma  coisa  a  ser  usada.  O  sistema,  que  não  dá  de 
comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome 
de abraços.
 
 
Crônica da cidade de Nova Iorque 
É  madrugada e estou  longe  do hotel,  bem ao  sul  da ilha  de  Manhattan. 
Tomo  um  táxi.  Digo  aonde  vou  em  perfeito  inglês,  talvez  ditado  pelo  fantasma  de 
meu  tataravô  de  Liverpool.  O  chofer  me  responde  em  perfeito  castelhano  de 
Guayaquil.
 
Começamos  a  rodar,  e  o  chofer  me  conta  a  sua  vida.  Dispara  a  falar,  e 
não  pára.  Fala  sem  olhar  para  mim,  com  os  olhos  grudados  no  rio  de  luzes  dos 
automóveis na avenida. Conta dos assaltos que sofreu, dás vezes em que quiseram 
matá-lo,  da  loucura  do  trânsito  nesta  cidade  de  Nova  Iorque,  e  fala  do  sufoco,  do 
compre,  compre,  use,  jogue  fora,  seja  comprado,  seja  usado,  seja  jogado,  e  aqui  o 
negócio  é  abrir  caminho  na  porrada,  na  base  do  esmague  ou  será  esmagado, 
passam por cima de você, e ele está nesta desde que era garoto, desse jeito, desde 
que era um garoto recém-chegado do Equador — e conta que agora foi abandonado 


pela mulher.
 
A mulher foi-se embora depois de doze anos de casamento. Não é culpa 
dela, diz. Entro e tchau, diz. Ela nunca gozou, diz.
 
Diz que a culpa é da próstata.
 
 
Dizem as paredes/l 
No setor infantil da Feira do Livro, em Bogotá: O Loucóptero é muito veloz, 
mas muito lento. 
 Na avenida costeira de Montevidéu, frente do rio-mar: Um homem alado 
prefere a noite.  
Na  saída  de  Santiago  de  Cuba:  Como  gasto  paredes  lembrando  você!  E 
nas alturas de Valparaíso: Eu nos amo.
 
 


Amares 
Nos  amávamos  rodando  pelo  espaço  e  éramos  uma  bolinha  de  carne 
saborosa e suculenta, uma única bolinha quente que resplandecia e jorrava aromas 
e vapores enquanto dava voltas e voltas pelo sonho de Helena e pelo espaço infinito 
e  rodando  caía,  suavemente  caía,  até  parar  no  fundo  de  uma  grande  salada.  E  lá 
ficava, aquela bolinha que éramos ela e eu; e lá no fundo da salada víamos o céu. 
Surgíamos  a  duras  penas  através  da  folhagem  cerrada  das  alfaces,  dos  ramos  do 
aipo  e  do  bosque  de  salsa,  e  conseguíamos  ver  algumas  estrelas  que  andavam 
navegando no mais distante da noite.
 
 


Teologia/1 
O catecismo me ensinou, na infância, a fazer o bem por interesse e a não 
fazer o mal por medo. Deus me oferecia castigos e recompensas, me ameaçava com 
o inferno e me prometia o céu; e eu temia e acreditava.
 
Passaram-se os anos. Eu já não temo nem creio. E em todo caso — penso 
— se mereço ser assado cozido no caldeirão do inferno, condenado ao fogo lento e 
eterno, que assim seja. Assim me salvarei do purgatório, que está cheio de horríveis 
turistas da classe média; e no final das contas, se fará justiça.
 
Sinceramente:  merecer,  mereço.  Nunca  matei  ninguém,  é  verdade,  mas 
por falta de coragem ou de tempo, e não por falta de querer. Não vou à missa aos 
domingos,  nem  nos  dias  de  guarda.  Cobicei  quase  todas  as  mulheres  de  meus 
próximos,  exceto  as  feias,  e  assim  violei,  pelo  menos  em  intenção,  a  propriedade 
privada que Deus pessoalmente sacramentou nas tábuas de Moisés: Não cobiçarás 
a mulher de teu próximo nem seu touro, nem seu asno... E como se fosse pouco, com 
premeditação  e  deslealdade  cometi  o  ato  do  amor  sem  o  nobre  propósito  de 
reproduzir a mão-de-obra. Sei muito bem que o pecado carnal não é bem visto no 
céu; mas desconfio que Deus condena o que ignora.
 
 
Teologia/2 
O  deus  dos  cristãos,  Deus  da  minha  infância,  não  faz  amor.  Talvez  o 
único  deus  que  nunca  fez  amor,  entre  todos  os  deuses  de  todas  as  religiões  da 
história humana. Cada vez que penso nisso, sinto pena dele. E então o perdôo por 
ter sido meu super-pai castigador, chefe de polícia do universo, e penso que afinal 
Deus também foi meu amigo naqueles velhos tempos, quando eu acreditava Nele e 
acreditava  que  Ele  acreditava  em  mim.  Então  preparo  a  orelha,,  na  hora  dos 
rumores  mágicos,  entre  o  pôr-do-sol  e  o  nascer  subir  da  noite,  e  acho  que  escuto 
suas melancólicas confidencias.
 
 


Teologia/3 
Errata:  onde  o  Antigo  Testamento  diz  o  que  diz,  deve  dizer  aquilo  que 
provavelmente seu principal protagonista me confessou:
 
Pena que Adão fosse tão burro. Pena que Eva fosse tão surda. E pena que 
eu não soube me fazer entender.
 
Adão e Eva eram os primeiros seres humanos que nasciam da minha mão, 
e  reconheço que  tinham  certos  defeitos  de estrutura,  construção  e acabamento.  Eles 
não estavam preparados para escutar, nem para pensar. E eu... bem, eu talvez não 
estivesse  preparado  para  falar.  Antes  de  Adão  e  Eva,  nunca  tinha  falado  com 
ninguém.  Eu  tinha  pronunciado  belas  frases,  como  "Faça-se  a  luz",  mas  sempre  na 
solidão.  E  foi  assim  que,  naquela  tarde,  quando  encontrei  Adão  e  Eva  na  hora  da 
brisa, não fui muito eloqüente. Não tinha prática.
 
A primeira coisa que senti foi assombro. Eles acabavam de roubar a fruta 
da árvore proibida, no centro do Paraíso. Adão tinha posto cara de general que acaba 
de entregar a espada e Eva olhava para o chão, como se contasse formigas. Mas os 
dois  estavam  incrivelmente  jovens  e  belos  e  radiantes.  Me  surpreenderam.  Eu  os 
tinha feito; mas não sabia que o barro podia ser tão luminoso.
 
Depois, reconheço, senti inveja. Como ninguém pode me dar ordens, ignoro 
a  dignidade  da  desobediência.  Tampouco  posso  conhecer  a  ousadia  do  amor,  que 
exige  dois.  Em  homenagem  ao  princípio  de  autoridade,  contive  a  vontade  de 
cumprimentá-los por terem-se feito subitamente sábios em paixões humanas.
 
 
 
 
Então,  vieram  os  equívocos.  Eles  entenderam  queda  onde  falei  de  vôo. 
Acharam  que  um  pecado  merece  castigo  se for  original.  Eu  disse  que  quem  desama 
peca: entenderam que quem ama peca. Onde anunciei pradaria em festa, entenderam 


vale  de  lágrimas.  Eu disse  que  a  dor era  o sal  que  dava  gosto  à  aventura  humana: 
entenderam que eu os estava condenando, ao outorgar-lhes a glória de serem mortais 
e loucos. Entenderam tudo ao contrário. E acreditaram.
 
Ultimamente  ando  com  problemas  de  insônia. Há  alguns  milênios  custo  a 
dormir.  E  gosto  de  dormir,  gosto  muito,  porque  quando  durmo,  sonho.  Então  me 
transformo  em  amante  ou  amanta,  me  queimo  no  fogo  fugaz  dos  amores  de 
passagem,  sou  palhaço,  pescador  de  alto  mar  ou  cigana  adivinhadora  da  sorte;  da 
árvore proibida devoro até as folhas e bebo e danço até rodar pelo chão...
 
Quando  acordo,  estou  sozinho.  Não  tenho  com  quem  brincar,  porque  os 
anjos  me  levam  tão  a  sério,  nem  tenho  a  quem  desejar.  Estou  condenado  a  me 
desejar.  De  estrela  em  estrela  ando  vagando,  aborrecendo-me  no  universo  vazio. 
Sinto-me  muito  cansado,  me  sinto  muito  sozinho.  Eu  estou  sozinho,  eu  sou  sozinho, 
sozinho pelo resto da eternidade.
 
 
A noite/1 
Não  consigo  dormir.  Tenho  uma  mulher  atravessada  entre  minhas 
pálpebras.  Se  pudesse,  diria  a  ela  que  fosse  embora;  mas  tenho  uma  mulher 
atravessada em minha garganta.
 
 
 
 


O diagnóstico e a terapêutica 
O  amor  é  uma  das  doenças  mais  bravas  e  contagiosas.  Qualquer  um 
reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, 
despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos 
febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes. O 
amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por 
descuido,  no  café  ou  na  sopa  ou  na  bebida.  Pode  ser  provocado,  mas  não  pode 
impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de 
alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e 
ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção 
capaz  de  evitá-lo,  embora  as  vivandeiras  apregoem,  nos  mercados,  infalíveis 
beberagens com garantia e tudo.
 
 
A noite/2 
― Arranque-me, senhora, as roupas e as dúvidas. Dispa-me, dispa-me.
 
 
 
As chamadas 
A lua chama o mar e o mar chama o humilde fiapinho de água, que na 
busca do mar corre e corre de onde for, por mais longe que seja, e correndo cresce e 
avança  e  não  há  montanha  que  pare  seu  peito.  O  sol  chama  a  parreira,  que 
desejando sol se estica e sobe. O primeiro ar da manhã chama os cheiros da cidade 
que  desperta,  aroma  de  pão  recém-dourado,  aroma  do  café  recém-moído,  e  os 
aromas  do  ar  entram  e  do  ar  se  apoderam.  A  noite  chama  as  flores  da  dama-da-
noite, e à meia-noite em ponto explodem no rio esses brancos fulgores que abrem o 
negror e se metem nele e o rompem e o comem.
 
 
A noite/3 
Eu  adormeço  às  margens  de  uma  mulher:  eu  adormeço  às  margens  de 
um abismo.
 


 
 
A pequena morte 
Não  nos  provoca  riso  o  amor  quando  chega  ao  mais  profundo  de  sua 
viagem,  ao  mais  alto  de  seu  vôo:  no  mais  profundo,  no  mais  alto,  nos  arranca 
gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há 
nada  de  estranho  nisso,  porque  nascer  é  uma  alegria  que  dói.  Pequena  morte, 
chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, 
e  perdendo-nos  faz  por  nos  encontrar  e  acabando  conosco  nos  principia.  Pequena 
morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.
 
 
A noite /4 
Solto-me do abraço, saio às ruas.
 
No céu, já clareando, desenha-se, finita, a lua. A lua tem duas noites de 
idade. Eu, uma.
 
 
 
O devorador devorado 
O  polvo  tem  os  olhos do  pescador  que o  atravessa.  É  de terra  o  homem 
que será comido pela terra que lhe dá de comer. O filho come a mãe e a terra come 
o céu cada vez que recebe a chuva de seus peitos. A flor se fecha, glutona, sobre o 
bico do pássaro faminto de seus méis. Não há esperado que não seja esperador nem 
amante  que  não  seja  boca  e  bocado,  devorador  devorado:  os  amantes  se  comem 
entre si de ponta a ponta, todos todinhos, todo-poderosos, todo-possuídos, sem que 
fique sobrando a ponta de uma orelha ou um dedo do pé.
 


 
 
Dizem as paredes/2 
Em Buenos Aires, na ponte da Boca: Todos prometem e ninguém cumpre. 
Vote em ninguém.  
Em  Caracas,  em  tempos  de  crise,  na  entrada  de  um  dos  bairros  mais 
pobres:  
Bem-vinda, classe média.
 
Em Bogotá, pertinho da Universidade Nacional:
 
Deus vive.
 
Embaixo, com outra letra:
 
Só por milagre.
 
E também em Bogotá:
 
Proletários de todos os países, uni-vos!
 
Embaixo, com outra letra:
 
(Ultimo aviso.)
 
 
A vida profissional/1 
Em  fins  de  1987,  Héctor  Abad  Gómez  denunciou  que  a  vida  de  um 
homem  não  valia  mais  do  que  oito  dólares.  Quando  seu  artigo  foi  publicado  num 
jornal  de  Medellín,  ele  já  tinha  sido  assassinado.  Héctor  Abad  Gómez  era  o 
presidente da Comissão de Direitos Humanos.
 
Na  Colômbia,  é  difícil  morrer  de  doença.  —  Como  vosmecê  quer  o 


cadáver? O matador recebe a metade, por conta. Carrega a pistola e faz o sinal-da-
cruz. Pede a Deus que o ajude em seu trabalho.
 
Depois, se a pontaria não falhar, recebe a outra metade. E na igreja, de 
joelhos, agradece o favor divino.
 
 
Crônica da cidade de Bogotá 
Quando  as  cortinas  baixavam  a  cada  fim  de  noite,  Patrícia  Ariza, 
marcada  para  morrer,  fechava  os  olhos.  Em  silêncio  agradecia  os  aplausos  do 
público e também agradecia outro dia de vida roubado da morte.
 
Patrícia estava na lista dos condenados, por pensar à esquerda e viver de 
frente;  e  as  sentenças  estavam  sendo  executadas,  implacavelmente,  uma  após  a 
outra.
 
Até  sem  casa  ela  ficou.  Uma  bomba  podia  acabar  com  o  edifício:  os 
vizinhos, respeitadores da lei do silêncio, exigiram que ela se mudasse.
 
Patrícia  andava  com  um  colete  à  prova  de  balas  pelas  ruas  de  Bogotá. 
Não  tinha  outro  jeito;  mas  era  um  colete  triste  e  feio.  Um  dia,  Patrícia  pregou  no 
colete algumas lantejoulas, e em outro dia, bordou umas flores coloridas, flores que 
desciam  feito  chuva  sobre  seus  peitos,  e  assim  o  colete  foi  por  ela  alegrado  e 
enfeitado,  e  seja  como  for  conseguiu  acostumar-se  a  usá-lo  sempre,  e  já  não  o 
tirava nem mesmo no palco.
 
Quando  Patrícia  viajou  para  fora  da  Colômbia,  para  atuar  em  teatros 
europeus, ofereceu o colete antibalas a um camponês chamado Júlio Cânon.
 
Júlio Cânon, prefeito do povoado de Vistahermosa, tinha perdido à bala a 
família inteira, só como advertência, mas negou-se a usar o colete florido:
 
— Eu não uso coisas de mulheres — disse.
 
Com  uma  tesoura,  Patrícia  arrancou  os  brilhos  e  as  flores,  e  então  o 
colete foi aceito pelo homem.
 
Naquela mesma noite ele foi crivado de balas. Com colete e tudo.
 
 


Elogio da arte da oratória 
No poder, existe divisão de trabalho: o exército, os grupos armados e os 
assassinos  profissionais  cuidam  das  contradições  sociais  e  da  luta  de  classes.  Os 
civis cuidam dos discursos.
 
Em  Bogotá  existem  várias  fábricas  de  discursos,  embora  só  uma  das 
empresas, a Fábrica Nacional de Discursos, tenha telefone registrado na lista. Estes 
estabelecimentos industriais discursaram as campanhas de numerosos candidatos 
à  presidência,  na  Colômbia  e  nos  países  vizinhos,  e  habitualmente  produzem 
discursos  sob  medida  para  interpelar  ministros,  inaugurar  escolas  ou  cárceres, 
celebrar  bodas  ou  aniversários  e  batizados,  comemorar  próceres  da  história  ou 
elogiar defuntos que deixam vazios impossíveis de serem preenchidos: — Eu, talvez 
o menos indicado...
 
 
A vida profissional/ 2 
Têm  o  mesmo  nome,  o  mesmo  sobrenome.  Ocupam  a  mesma  casa  e 
calçam  os  mesmos  sapatos.  Dormem  no  mesmo  travesseiro,  ao  lado  da  mesma 
mulher. A cada manhã, o espelho lhes devolve a mesma cara. Mas ele e ele não são 
a mesma pessoa:
 
—  E  eu,  o  que  tenho  a  ver  com  isso?  —  diz  ele,  falando  dele,  enquanto 
sacode os ombros.
 
— Eu cumpro ordens — diz, ou diz:
 
— Sou pago para isso. Ou diz:
 
— Se eu não fizer, outro faz. Que é como dizer:
 
— Eu sou o outro.
 
Frente  ao  ódio  da  vítima,  o  verdugo  sente  estupor,  e  até  uma  certa 
sensação  de  injustiça:  afinal,  ele  é  um  funcionário,um  simples  funcionário  que 
cumpre seu horário e suas tarefas. Terminada a jornada extenuante de trabalho, o 
torturador lava as mãos.
 
Ahmadou  Gherab,  que  lutou  pela  independência  da  Argélia,  me  contou. 
Ahmadou foi torturado por um oficial francês durante vários meses. E a cada dia, 
às  seis  em  ponto  da  tarde,  o  torturador  secava  o  suor  da  fronte,  desligava  da 
tomada a máquina de dar choques e guardava os outros instrumentos de trabalho. 
Então  se  sentava  ao  lado  do  torturado  e  falava  de  sua  mulher  insuportável  e  do 
filho  recém-nascido,  que não  o  deixara grudar  o olho  a  noite inteira;  falava  contra 
Orã, esta cidade de merda, e contra o filho da puta do coronel que...
 


Ahmadou, ensangüentado, tremendo de dor, ardendo em febre, não dizia 
nada.
 
 
 
 
 
 
 
A vida profissional/3 
Os banqueiros da grande bancaria do mundo, que praticam o terrorismo 
do dinheiro, podem mais que os reis e os marechais e mais que o próprio Papa de 
Roma.  Eles  jamais  sujam  as  mãos.  Não  matam  ninguém:  se  limitam  a  aplaudir  o 
espetáculo.
 
Seus  funcionários,  os  tecnocratas  internacionais,  mandam  em  nossos 
países:  eles  não  são  presidentes,  nem  ministros,  nem  foram  eleitos  em  nenhuma 
eleição,  mas  decidem  o  nível  dos  salários  e  do  gasto  público,  os  investimentos  e 
desinvestimentos, os preços, os impostos, os lucros, os subsídios, a hora do nascer 


do sol e a freqüência das chuvas.
 
Não cuidam, em troca, dos cárceres, nem das câmaras de tormento, nem 
dos  campos  de  concentração,  nem  dos  centros  de  extermínio,  embora  nesses 
lugares ocorram as
 
inevitáveis conseqüências de seus atos.
 
Os tecnocratas reivindicam o privilégio da irresponsabilidade:
 
— Somos neutros — dizem.
 
 
 


 
Mapa-múndi/1 
O sistema:
 
Com uma das mãos rouba o que com a outra empresta.
 
Suas vítimas:
 
Quanto mais pagam, mais devem.
 
Quanto mais recebem, menos têm.
 
Quanto mais vendem, menos compram.
 
 
Mapa-múndi/ 2 
No Sul, a repressão. Ao Norte, a depressão.
 
Não são poucos os intelectuais do Norte que se casam com as revoluções 
do  Sul  só  pelo  prazer  de  ficarem  viúvos.  Prestigiosamente  choram,  choram  a 
cântaros,  choram  mares,  a  morte  de  cada  ilusão;  e  nunca  demoram  muito  para 
descobrir  que  o  socialismo é  o  caminho  mais  longo  para  chegar  do  capitalismo  ao 
capitalismo.
 
A  moda  do  Norte,  moda  universal,  celebra  a  arte  neutra  e  aplaude  a 
víbora que morde a própria cauda e acha qué é saborosa. A cultura e a política se 
converteram em artigos de consumo. Os presidentes são eleitos pela televisão, como 
os  sabonetes,  e  os  poetas  cumprem  uma  função  decorativa.  Não  há  maior  magia 
que a magia do mercado, nem heróis mais heróis que os banqueiros.
 
A  democracia é um  luxo  do  Norte. Ao  Sul é  permitido o espetáculo,  que 
não é negado a ninguém. E ninguém se incomoda muito, afinal, que a política seja 
democrática,  desde  que  a  economia  não  o  seja.  Quando  as  cortinas  se  fecham  no 
palco, uma  vez  que os  votos  foram  depositados nas urnas,  a  realidade  impõe  a  lei 
do  mais  forte,  que  a lei  do dinheiro. Assim determina  a ordem  natural  das  coisas. 
No  Sul  do  mundo,  ensina  o  sistema,  a  violência  e  fome  não  pertencem  à  história, 


mas à natureza, e a justiça liberdade foram condenadas a odiar-se entre si. 
 
 
 
A desmemória/1 
Estou  lendo  um  romance  de  Louise  Erdrich.  A  certa  altura,  um  bisavô 
encontra  seu  bisneto.  O  bisavô  está  completamente  lelé  (seus  pensamentos  têm  a 
cor da água) e sorri com o mesmo beatífico sorriso de seu bisneto recém-nascido. O 
bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, 
ainda, nenhuma memória.
 
Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero.
 
 
A desmemória/2 
O  medo  seca  a  boca,  molha  as  mãos  e  mutila.  O  medo  de  saber  nos 
condena à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência. A ditadura militar, 
medo  de  escutar,  medo  de  dizer,  nos  converteu  em  surdos  e  mudos.  Agora  a 
democracia,  que  tem  medo  de  recordar,  nos  adoece  de  amnésia;  mas  não  se 
necessita ter Sigmund Freud para saber que não existe o tapete que possa ocultar a 
sujeira da memória.
 
 
O medo 
Certa  manhã,  ganhamos  de  presente  um  coelhinho  das  índias.  Chegou 
em casa numa gaiola. Ao meio-dia, abri a porta da gaiola.
 
Voltei  para  casa  ao  anoitecer  e  o  encontrei  tal  e  qual  o  havia  deixado: 
gaiola adentro, grudado nas barras, tremendo por causa do susto da liberdade.
 
 
 
O rio do Esquecimento 
A  primeira  vez  que  fui  à  Galícia,  meus  amigos  me  levaram  ao  rio  do 


Esquecimento. Meus amigos me disseram que os legionários romanos, nos antigos 
tempos  imperiais,  tinham  querido  invadir  aquelas  terras,  mas  dali  não  haviam 
passado:  paralisados  de  pânico,  tinham  parado  nas  margens  daquele  rio.  E  não  o 
haviam  atravessado  nunca,  porque  quem  cruza  o  rio  do  Esquecimento  chega  à 
outra margem sem saber quem é ou de onde vem. Eu estava começando meu exílio 
na Espanha, e pensei: se bastam as águas de um rio para apagar a memória, o que 
acontecerá  comigo,  que  atravessei  um  mar  inteiro?  Mas  eu  tinha  andado, 
percorrendo  os  pequenos  povoados  de  Pontevedra  e  Orense,  e  tinha  descoberto 
tavernas  e  cafés  que  se  chamavam  Uruguay  ou  Venezuela  ou  Mi  Buenos  Aires 
Querido  e  cantinas  que  ofereciam  parrilladas  ou  arepas,  e  por  tudo  que  era  canto 
havia  flâmulas  do  Penarol e  do  Nacional e  do  Boca  Juniors, e  tudo  aquilo era  dos 
galegos  que  tinham  regressado  da  América  e  sentiam,  ali,  saudades  pelo  avesso. 
Eles  tinham  ido  embora  de  suas  aldeias,  exilados  como  eu,  embora  afugentados 
pela economia e não pela  polícia, e  depois de  muitos  anos estavam  de volta  à  sua 
terra de origem, e nunca tinham esquecido nada. Nem ao ir embora, nem ao estar 
lá, nem ao voltar: nunca tinham esquecido nada. E agora tinham duas memórias e 
duas pátrias.
 
 
 
 
 
 
A desmemória / 3 
Nas  ilhas  francesas  do  Caribe,  os  textos  de  história  ensinam  que 
Napoleão  foi  o  mais  admirável  guerreiro  do  Ocidente.  Naquelas  ilhas,  Napoleão 
restabeleceu  a  escravidão  em  1802.  A  sangue  e  fogo  obrigou  os  negros  livres  a 
voltarem a ser escravos nas plantações. Disso, os textos não dizem nada. Os negros 
são os netos de Napoleão, não as suas vítimas.
 


 
 
 
A desmemória/4 
Chicago está cheia de fábricas. Existem fábricas até no centro da cidade, 
ao  redor  do  edifício  mais  alto  do  mundo.  Chicago  está  cheia  de  fábricas,  Chicago 
está cheia de operários.
 
Ao  chegar  ao  bairro  de  Heymarket,  peço  aos  meus  amigos  que  me 
mostrem o lugar onde foram enforcados, em 1886, aqueles operários que o mundo 
inteiro saúda a cada primeiro de maio.
 
—  Deve  ser  por  aqui  —  me  dizem.  Mas  ninguém  sabe.  Não  foi  erguida 
nenhuma estátua em memória dos mártires de Chicago na cidade de Chicago. Nem 
estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada.
 
O  primeiro  de  maio  é  o  único  dia  verdadeiramente  universal  da 
humanidade  inteira,  o  único  dia  no  qual  coincidem  todas  as  histórias  e  todas  as 
geografias, todas as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados 
Unidos,  o  Primeiro  de  maio  é  um  dia  como  qualquer  outro.  Nesse  dia,  as  pessoas 
trabalham normalmente, e ninguém, ou quase ninguém, recorda que os direitos da 
classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus ou do amo.
 
 
 
Após  a  inútil  exploração  de  Heymarket,  meus  amigos  me  levam  para 
conhecer  a  melhor  livraria  da  cidade.  E  lá,  por  pura  curiosidade,  por  pura 
casualidade,  descubro  um  velho  cartaz  que  está  como  que  esperando  por  mim, 
metido entre muitos outros cartazes de música, rock e cinema.
 
O cartaz reproduz um provérbio da África: Até que os leões tenham seus 


próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorifícando o caçador.
 
 
 
Celebração da subjetividade 
Eu  já  estava  há  um  bom  tempo  escrevendo  Memória  do  Fogo,  e  quanto 
mais  escrevia  mais  fundo  ia  nas  histórias  que  contava.  Começava  a  ser  cada  vez 
mais  difícil  distinguir  o  passado  do  presente:  o  que  tinha  sido  estava  sendo,  e 
estava  sendo  à  minha  volta,  e  escrever  era  minha  maneira  de  bater  e  abraçar. 
Supõe-se, porém, que os livros de história não são subjetivos.
 
Comentei  isso  tudo  com  José  Coronel  Urtecho:  neste  livro  que  estou 
escrevendo, pelo avesso e pelo direito, na luz ou na contra luz, olhando do jeito que 
for, surgem à primeira vista minhas raivas e meus amores.
 
E nas margens do rio San Juan, o velho poeta me disse que não se deve 
dar a menor importância aos fanáticos da objetividade:
 
— Não se preocupe — me disse —. E assim que deve ser. Os que fazem da 
objetividade  uma  religião,  mentem.  Eles  não  querem  ser  objetivos,  mentira:  querem 
ser objetos, para salvar-se da dor humana.
 
 
Celebração de bodas da razão com o coração 
Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos? Desde 
que  entramos  na  escola  ou  na  igreja,  a  educação  nos  esquarteja:  nos  ensina  a 
divorciar a alma do corpo e a razão do coração.
 
Sábios  doutores  de  Ética  e  Moral  serão  os  pescadores  das  costas 
colombianas, que inventaram a palavra sentipensador para definir a linguagem que 
diz a verdade.
 


 
 
Um  sistema  de  desvínculos:  para  que  os  calados  não  se  façam 
perguntões, para que os opinados não se transformem em opinadores. Para que não 
se juntem os solitários, nem a alma junte seus pedaços.
 
O  sistema  divorcia  a  emoção  do  pensamento  como  divorcia  o  sexo  do 
amor, a vida íntima da vida pública, o passado do presente. Se o passado não tem 
nada  para  dizer  ao  presente,  a  história  pode  permanecer  adormecida,  sem 
incomodar, nos guarda-roupas onde o sistema guarda seus velhos disfarces.
 
O  sistema esvazia nossa  memória, ou enche  a  nossa  memória de lixo, e 
assim  nos  ensina  a  repetir  a  história  em  vez  de  fazê-la.  As  tragédias  se  repetem 
como  farsas,  anunciava  a  célebre  profecia.  Mas  entre  nós,  é  pior:  as  tragédias  se 
repetem como tragédias.
 
 
Celebração das contradições/l 
Como  trágica  ladainha  a  memória  boba  se  repete.  A  memória  viva, 
porém, nasce a cada dia, porque ela vem do que foi e é contra o que foi. Auíheben 
era  o  verbo  que  Hegel  preferia,  entre  todos  os  verbos  do  idioma  alemão.  Auíheben 
significa,  ao  mesmo  tempo,  conservar  e  anular;  e  assim  presta  homenagem  à 
história humana, que morrendo nasce e rompendo cria.
 


Celebração das contradições/2 
Desamarrar  as  vozes,  dessonhar  os  sonhos:  escrevo  querendo  revelar  o 
real  maravilhoso, e  descubro o  real  maravilhoso no exato  centro do  real horroroso 
da América.
 
Nestas terras, a cabeça do deus Elegguá leva a morte na nuca e a vida na 
cara. Cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. Dos medos nascem 
as  coragens;  e  das  dúvidas,  as  certezas.  Os  sonhos  anunciam  outra  realidade 
possível e os delírios, outra razão.
 
Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade 
não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese 
das contradições nossas de cada dia.
 
Nessa  fé,  fugitiva,  eu  creio.  Para  mim,  é  a  única  fé  digna  de  confiança, 
porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de 
viver no mundo.
 
 
Crônica da cidade do México 
Meio  século  depois  de  Superman  ter  nascido  em  Nova  Iorque, 
Superbarrio anda pelas ruas e telhados da Cidade do México. O prestigioso norte-
americano  de  aço,  símbolo  universal  do  poder,  vive  numa  cidade  chamada 
Metrópolis. Superbarrio, um mexicano qualquer de carne e osso, herói dos pobres, 
vive num subúrbio chamado Nezahualcóyotl.
 
Superbarrio  tem  barriga  e  pernas  tortas.  Usa  máscara  vermelha  e  capa 
amarela. Não luta contra múmias, fantasmas ou vampiros. Numa ponta da cidade 
enfrenta a polícia e salva uns mortos de fome de serem despejados; na outra ponta, 
ao mesmo tempo, encabeça uma manifestação em defesa dos direitos da mulher ou 
contra  o  envenenamento  do  ar;  e  no  centro,  enquanto  isso,  invade  o  Congresso 
Nacional e dispara um discurso denunciando as porcarias do governo.
 
 


Contra-símbolos 
Por arte de alquimia ou diabrura popular, os símbolos se desinimigam e 
o  veneno  se  transforma  em  pão.  Em  Havana,  a  um  passo  da  Casa  das  Américas, 
existe um monumento estranho: um par de sapatos de bronze no alto de um grande 
pedestal.
 
Os  solitários  sapatos  pertenciam  ao  serviçal  Tomás  Estrada  Palma.  O 
povo em fúria derrubou sua estátua e aquilo foi a única coisa que sobrou.
 
Quando o século nascia, Estrada Palma tinha sido o primeiro presidente 
de Cuba, sob a ocupação colonial dos Estados Unidos.
 
 
 
Paradoxos 
Se a contradição for o pulmão da história, o paradoxo deverá ser, penso 
eu, o espelho que a história usa para debochar de nós. Nem o próprio filho de Deus 
salvou-se  do  parado-:o.  Ele  escolheu,  para  nascer,  um  deserto  subtropical  onde 
jamais nevou, mas a neve se converteu num símbolo universal do Natal desde que a 
Europa decidiu europeizar Jesus. E para mais inri, o nascimento de Jesus é, hoje m 
dia, o negócio que mais dinheiro dá aos mercadores que Jesus tinha expulsado do 
templo.
 
Napoleão Bonaparte, o mais francês dos franceses, não era francês. Não 
era russo Josef Stálin, o mais russo dos russos; e o mais alemão dos alemães, Adolf 
Hitler,  tinha  nascido  na  Áustria.  Margherita  Sarfatti,  a  mulher  mais  amada  pelo 
anti-semita  Mussolini,  era  judia.  José  Carlos  Mariátegui,  o  mais  marxista  dos 
marxistas  latino-mericanos,  acreditava  fervorosamente  em  Deus.  O  Che  Guevara 
tinha  sido  declarado  completamente  incapaz  para  a  vida  militar  pelo  exército 
argentino.
 


Das mãos de um escultor chamado Aleijadinho, que era o mais feio dos 
brasileiros,  nasceram  as  mais  altas  formosuras  do  Brasil.  Os  negros  norte-
americanos, os mais oprimidos, criaram o jazz, que é a mais livre das músicas. No 
fundo de um cárcere foi concebido o Dom Quixote, o mais andante dos cavaleiros. E 
cúmulo  dos  paradoxos,  Dom  Quixote  nunca  disse  sua  frase  mais  célebre.  Nunca 
disse: Ladram, Sancho, sinal que cavalgamos.
 
"Acho  que  você  está  meio  nervosa",  diz  o  histérico.  "Te  odeio",  diz  a 
apaixonada.  "Não  haverá  desvalorização",  diz,  na  véspera  da  desvalorização,  o 
ministro da  Economia.  "Os  militares  respeitam  a  Constituição",  diz,  na  véspera  do 
golpe de Estado, o ministro da Defesa.
 
Em  sua  guerra  contra  a  revolução  sandinista,  o  governo  dos  Estados 
Unidos  coincidia,  paradoxalmente,  com  o  Partido  Comunista  da  Nicarágua.  E 
paradoxais foram, enfim, as barricadas sandinistas durante a ditadura de Somoza: 
as barricadas, que fechavam as ruas, abriam o caminho.
 
 


 
 
 
O sistema/1 
Os  funcionários  não  funcionam.  Os  políticos  falam  mas  não  dizem.  Os 
votantes  votam  mas  não  escolhem.  Os  meios  de  informação  desinformam.  Os 
centros de ensino ensinam a ignorar. Os juizes condenam as vítimas. Os militares 
estão  em  guerra  contra  seus  compatriotas.  Os  policiais  não  combatem  os  crimes, 
porque estão ocupados cometendo-os.
 
As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
 
O  dinheiro  é  mais  livre  que  as  pessoas.  As  pessoas  estão  a  serviço  das 
coisas.
 
 
Elogio ao bom senso 
Ao  amanhecer  de  um  dia  nos  fins  de  1985,  as  rádios  colombianas 
informaram: — A cidade de Armero sumiu do mapa.
 
O vulcão vizinho matou a cidade. Ninguém conseguiu correr mais rápido 
que  a  avalancha  de  lodo  fervente:  uma  onda  grande  como  o  céu  e  quente  como  o 
inferno  atropelou  a  cidade,  jorrando  vapor  e  rugindo  fúrias  de  animal  ruim,  e 
engoliu trinta mil pessoas e todo o resto.
 
O vulcão vinha avisando há um ano. Um ano inteiro ficou jorrando fogo, 
e  quando  não  podia  esperar  mais,  descarregou  sobre  a  cidade  um  bombardeio  de 


trovões  e  uma  chuva  de  cinzas,  para  que  os  surdos  escutassem  e  os  cegos 
enxergassem  tanta  advertência.  Mas  o  prefeito  dizia  que  o  Governo  Superior  dizia 
que  não  havia  motivos  para  alarme,  e  o  padre  dizia  que  o  bispo  dizia  que  Deus 
estava cuidando do assunto, e os geólogos e os vulcanólogos diziam que tudo estava 
sob controle e fora de perigo.
 
A  cidade  de Armero morreu  de  civilização.  Não  tinha nem  cumprido um 
século de vida. Não tinha hino nem escudo.
 
 
Os índios/l 
Vindo  de  Temuco,  adormeço  na  viagem.  De  repente,  os  fulgores  da 
paisagem me despertam. O vale de Repocura aparece e resplandece frente aos meus 
olhos, como se alguém tivesse aberto, de repente, as cortinas de outro mundo.
 
Mas  estas  terras  já  não  são,  como  antes,  de  todos  e  de  ninguém.  Um 
decreto  da  ditadura  de  Pinochet  rompeu  as  comunidades,  obrigando  os  índios  à 
solidão. Eles insistem, porém, em juntar suas pobrezas, e ainda trabalham juntos, 
dizem juntos:
 
—  Vocês  vivem  uma  ditadura  há  quinze  anos  —  explicam  aos  meus 
amigos chilenos —. Nós, há cinco séculos.
 
Nos  sentamos  em  círculo.  Estamos  reunidos  em  um  centro  médico  que 
não  tem,  nem  teve  nunca,  um  médico,  nem  um  estagiário,  nem  enfermeiro,  nem 
nada.
 
—  A  gente  é  para  morrer,  e  só  —  diz  uma  das  mulheres.  Os  índios, 
culpados por serem incapazes de propriedade privada, não existem.
 
No  Chile  não  existem  índios:  apenas  chilenos  —  dizem  os  cartazes  do 
governo.
 
 
 
Os índios/2 
A  linguagem  como  traição:  gritam  carrascos  para  eles.  No  Equador,  os 
carrascos chamam de carrascos as suas vítimas:
 
— Índios carrascos! — gritam.
 
De cada três equatorianos, um é índio. Os outros dois cobram dele, todos 


os dias, a derrota histórica.
 
—  Somos  os  vencidos.  Ganharam  a  guerra.  Nós  perdemos  por  acreditar 
neles. Por isso — me diz Miguel, nascido no fundo da selva amazônica.
 
São  tratados  como  os  negros  na  África  do  Sul:  os  índios  não  podem 
entrar nos hotéis ou nos restaurantes.
 
— Na escola metiam a lenha em mim quando eu falava a nossa língua — 
me conta Lucho, nascido ao sul da serra.
 
—  Meu  pai  me  proibia  de  falar  quechua.  É  pelo  seu  bem,  me  dizia  — 
recorda Rosa, a mulher de Lucho.
 
Rosa e Lucho vivem em Quito. Estão acostumados a ouvir:
 
— Índio de merda.
 
Os  índios  são  bobos,  vagabundos,  bêbados.  Mas  o  sistema  que  os 
despreza, despreza o que ignora, porque ignora o que teme. Por trás da máscara do 
desprezo, aparece o pânico: estas vozes antigas, teimosamente vivas, o que dizem? 
O que dizem quando falam? O que dizem quando calam?
 
 
As tradições futuras 
Existe  um  único  lugar  onde  o  ontem  e  o  hoje  se  encontram  e  se 
reconhecem  e  se  abraçam,  e  este  lugar  é  o  amanhã.  Soam  como  futuras  certas 
vozes  do  passado  americano  muito  antigo.  As  antigas  vozes,  digamos,  que  ainda 
nos  dizem  que  somos  filhos  da  terra,  e  que  mãe  a  gente  não  vende  nem  aluga. 
Enquanto  chovem  pássaros  mortos  sobre  a  Cidade  do  México  e  os  rios  se 
transformam  em  cloacas,  os  mares  em  depósitos  de  lixo  e  as  selvas  em  deserto, 
essas  vozes  teimosamente  vivas  nos  anunciam  outro  mundo  que  não  seja  este, 
envenenador da água, do solo, do ar e da alma.
 
Também  nos  anunciam  outro  mundo  possível  as  vozes  antigas  que  nos 
falam de comunidade. A comunidade, o modo comunitário de produção e de vida, é 
a  mais  remota  tradição  das  Américas,  a  mais  americana  de  todas:  pertence  aos 
primeiros  tempos  e  às  primeiras  pessoas,  mas  pertence  também  aos  tempos  que 
vêm e pressentem um novo Mundo Novo. Porque nada existe menos estrangeiro que 
o socialismo nestas terras nossas. Estrangeiro é, na verdade, o capitalismo: como a 
varíola, como a gripe, veio de longe.
 


 
 
O reino das baratas 
Quando  visitei  Cedric  Belfrage  em  Cuernavaca,  a  cidade  de  Los  Angeles 
já  continha  dezesseis  milhões  de  pessomóveis,  gente  com  rodas  no  lugar  das 
pernas,  e  portanto  não  se  parecia  muito  à  cidade  que ele tinha  conhecido  quando 
chegou  a  Hollywood  na  época  do  cinema  mudo,  e  nem  se  parecia  à  cidade  que 
Cedric  ainda  amava  quando  o  senador  MacCarthy  expulsou-o  durante  a  caça  às 
bruxas.
 
Desde  a  expulsão,  Cedric  vive  em  Cuernavaca.  Alguns  amigos, 
sobreviventes dos velhos tempos, aparecem de vez em quando em sua casa ampla e 
luminosa, e também aparece, de vez em quando, uma misteriosa borboleta branca 
que bebe tequila.
 
Eu vinha de Los Angeles e tinha estado no bairro onde Cedric vivera, mas 
ele não me perguntou de Los Angeles. Los Angeles não interessava, ou ele fazia de 
conta  que  não  interessava.  Em  compensação,  perguntou-me  pelos  meus  dias  no 
Canadá,  e  começamos  a  falar  da  chuva  ácida.  Os  gases  venenosos  das  fábricas, 
devolvidos à terra lá das nuvens, já tinha exterminado catorze mil lagos no Canadá. 
Não  havia  mais  vida  nenhuma,  nem  plantas  nem  peixes  nesses  catorze  mil  lagos. 
Eu tinha visto uma pequena parte daquela catástrofe.
 
O  velho  Cedric  olhou-me  com  seus  grandes  olhos  transparentes  e 
simulou ajoelhar-se perante os que vão reinar sobre a terra:
 
—  Nós,  os  seres  humanos,  abdicamos  do  planeta  —  proclamou  —  em 
favor das baratas.
 
Então trouxe a garrafa e encheu os copos:
 
— Um golinho, enquanto podemos.
 


 
Os índios/3 
Jean-Marie  Simon  soube  na  Guatemala.  Aconteceu  no  final  de  1983, 
numa aldeia chamada Tabil, no sul de Quichê.
 
Os  militares  vinham  em  sua  campanha  de  aniquilamento  das 
comunidades indígenas. Tinham apagado do mapa quatrocentas aldeias em menos 
de  três  anos.  Queimavam  plantações,  matavam  índios:  queimavam  até  a  raiz, 
matavam  até  as  crianças.  Vamos  deixá-los  sem  nenhuma  semente,  anunciava  o 
coronel  Horacio  Maldonado  Shadd.  E  assim  chegaram,  na  tarde  de  certo  dia,  na 
aldeia de Tabil.
 
Vinham arrastando cinco prisioneiros, amarrados pelos pés e pelas mãos 
e  desfigurados  pelos  golpes.  Os  cinco  eram  da  aldeia,  nascidos  ali,  vividos  ali,  ali 
multiplicados,  mas  o  oficial  disse  que  eram  cubanos  inimigos  da  pátria:  a 
comunidade devia resolver que castigo mereciam, e executar o castigo. No caso de 
resolverem fuzilá-los, deixava as armas carregadas. E disse que lhes dava prazo até 
o meio-dia do dia seguinte.
 
Em assembléia, os índios discutiram:
 
— Esses homens são nossos irmãos. Esses homens são inocentes. Senão 
os matarmos os soldados nos matam.
 
Passaram  a  noite  inteira  discutindo.  Os  prisioneiros,  no  centro  da 
reunião, escutavam.
 
Chegou  o  amanhecer  e  todos  estavam  como  no  começo.  Não  tinham 
chegado a nenhuma decisão e sentiam-se cada vez mais confusos.
 
Então  pediram  ajuda  aos  deuses:  aos  deuses  maias,  e  ao  deus  dos 
cristãos.
 
Esperaram  em  vão  pela  resposta.  Nenhum  deus  disse  nada.  Todos  os 
deuses estavam mudos.
 
Enquanto isso, os soldados esperavam, numa colina vizinha.
 


As  pessoas  de  Tabil  viam  como  o  sol  ia  se  erguendo,  implacável,  na 
direção do alto céu. Os prisioneiros, em pé, calavam.
 
Pouco antes do meio-dia, os soldados escutaram os tiros.
 
 
Os índios/4 
Na  ilha  de  Vancouver,  conta  Ruth  Benedict,  os  índios  celebravam 
torneios para medir a grandeza dos príncipes. Os rivais competiam destruindo seus 
bens. Atiravam ao fogo suas canoas, seu azeite de peixe e suas ovas de salmão; e do 
alto  de um  promontório  jogavam  no  mar  suas  mantas  e  vasilhas.  Vencia  o  que  se 
despojava de tudo.
 
 
 


A cultura do terror/1 
A  Sociedade  Antropológica  de  Paris  os  classificava  como  se  fossem 
insetos: a cor da pele dos índios huitotos correspondia aos números 29 e 30 de ma 
escala cromática.
 
A Peruvian Amazon Company os caçava como se fossem feras: os índios 
huitotos  eram  a  mão-de-obra  escrava  que  dava  borracha  ao  mercado  mundial. 
Quando os índios fugiam das plantações e a empresa os agarrava, eram envolvidos 
numa bandeira do Peru empapada em querosene e queimados vivos.
 
Michael Taussig estudou a cultura do terror que a civilização capitalista 
aplicava  na  selva  amazônica  no  começo  do  século  vinte.  A  tortura  não  era  um 
método  para  arrancar  informações,  mas  uma  cerimônia  de  confirmação  do  poder. 
Num longo e solene ritual, os índios rebeldes tinham suas línguas cortadas e depois 
eram torturados, para que falassem.
 
 
 
A cultura do terror/2 
A extorsão o insulto, a ameaça
 
o cascudo,
 
a bofetada,
 
a surra,
 
o açoite,
 
o quarto escuro,
 
a ducha gelada,
 
o jejum obrigatório,
 
a comida obrigatória,
 
a proibição de sair,
 
a proibição de se dizer o que se pensa,
 
a proibição de fazer o que se sente,
 
e a humilhação pública
 
são  alguns  dos  métodos  de  penitência  e  tortura  tradicionais  na  vida  da 


família.  Para  castigo  à  desobediência  e  exemplo  de  liberdade,  a  tradição  familiar 
perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e 
contagia tudo com a peste do medo.
 
— Os direitos humanos deveriam começar em casa — comenta comigo, no 
Chile, Andrés Domínguez.
 
 
A cultura do terror/3 
Sobre  uma  menina  exemplar:  Uma  menina  brinca  com  duas  bonecas  e 
briga  com  elas  para  que  fíquem  quietas.  Ela  também  parece  uma  boneca  porque  é 
linda e boazinha e porque não incomoda ninguém.
 
(Do  livro  Adelante,  de  J.  H.  Figueira,  que  foi  livro  escolar  nas  escolas  do  Uruguai  até 
poucos anos atrás).
 
 
A cultura do terror/4 
Foi num colégio de padres, em Sevilha. Um menino de nove ou dez anos 
estava confessando seus pecados pela primeira vez. O menino confessou que tinha 
roubado  caramelos,  ou  que  tinha  mentido  para  a  mãe,  ou  que  tinha  copiado  do 
colega de classe, ou talvez tenha confessado que tinha se masturbado pensando na 
prima. Então, da escuridão do confessionário emergiu a mão do padre, que brandia 
uma  cruz  de  bronze.  O  padre  obrigou  o  menino  a  beijar  Jesus  crucificado,  e 
enquanto batia com a cruz em sua boca, dizia:
 
—  Você  o  matou,  você  o  matou...  Júlio  Vélez  era  aquele  menino  andaluz 
ajoelhado. Passaram-se muitos anos. Ele nunca pôde arrancar isso da memória.
 


A cultura do terror/5 
Ramona Caraballo foi dada de presente assim que aprendeu a caminhar. 
Lá  por  1950,  sendo  ainda  menina,  ela  estava  como  escravazinha  numa  casa  de 
Montevidéu. Fazia de tudo, a troco de nada.
 
Um dia, a avó chegou para visitá-la. Ramona não a conhecia, ou não se 
lembrava dela. A avó chegou vinda do interior, do campo, muito apressada porque 
tinha  que  regressar  em  seguida.  Entrou,  deu  uma  tremenda  surra  na  neta,  e  foi 
embora.
 
Ramona ficou chorando e sangrando. A avó tinha dito, enquanto erguia o 
rebenque:  —  Você  não  está  apanhando  por  causa  do  que  fez.  Está  apanhando  por 
causa do que vai fazer.
 
 


A cultura do terror/6 
Pedro Algorta, advogado, mostrou-me o gordo expediente do assassinato 
de duas mulheres. O crime duplo tinha sido à faca, no final de 1982, num subúrbio 
de Montevidéu.
 
A acusada, Alma Di Agosto, tinha confessado. Estava presa fazia mais de 
um ano; e parecia condenada a apodrecer no cárcere o resto da vida.
 
Seguindo  o  costume,  os  policiais  tinham  violado  e  torturado  a  mulher. 
Depois  de  um  mês  de  contínuas  surras,  tinham  arrancado  de  Alma  várias 
confissões.  As  confissões  não  eram  muito  parecidas  entre  si,  como  se  ela  tivesse 
cometido  o  mesmo  assassinato  de  maneiras  muito  diferentes.  Em  cada  confissão 
havia personagens diferentes, pitorescos fantasmas sem nome ou domicílio, porque 
a  máquina  de  dar  choques  converte  qualquer  um  em  fecundo  romancista;  e  em 
todos  os  casos  a  autora  demonstrava  ter  a  agilidade  de  uma  atleta  olímpica,  os 
músculos  de  uma  forçuda  de  parque  de  diversões  e  a  destreza  de  uma  matadora 
profissional.  Mas  o  que  mais  surpreendia  era  a  riqueza  de  detalhes:  em  cada 
confissão,  a  acusada  descrevia  com  precisão  milimétrica  roupas,  gestos,  cenários, 
situações, objetos...
 
Alma Di Agosto era cega.
 
Seus  vizinhos,  que  a  conheciam  e  gostavam  dela,  estavam  convencidos 
de que ela era culpada*.
 
— Por quê? — perguntou o advogado.
 
— Porque os jornais dizem.
 
— Mas os jornais mentem — disse o advogado.
 
— Mas o rádio também diz— explicaram os vizinhos —. E até a televisão!
 
 
 


A televisão/1 
Era um pulgueiro dos subúrbios, o mais barato que havia em Santa Fé e 
em toda a República Argentina, um galpão mambembe que caía aos pedaços, mas 
Fernando  Birri  não  perdia  nenhum  filme  ou  cerimônia  que  era  celebrada  na 
escuridão daquele grandioso templo da infância.
 
Nesse cinema, o cinema Doré, Fernando viu uma vez uns episódios sobre 
os mistérios do Egito Antigo. Havia um faraó, sentado em seu trono na frente de um 
poço.  O  faraó  parecia  adormecido,  mas  com  um  dedo  enroscava  a  barba.  Nisso, 
abria os olhos e fazia um sinal. Então o mago do reino pronunciava um esconjuro e 
as  águas  do  poço  se  alvorotavam  e  se  incendiavam.  Quando  as  chamas  se 
apagavam e as águas serenavam, o faraó se inclinava sobre o poço. Ali, nas águas 
transparentes, ele via tudo o que naquele momento estava acontecendo no Egito e 
no mundo.
 
Meio século depois, evocando o faraó de sua infância, Fernando teve uma 
certeza: aquele poço mágico, onde se via tudo o que acontecia, era um aparelho de 
televisão.
 
 
A televisão/2 
A televisão mostra o que acontece? Em nossos países, a televisão mostra 
o que ela quer que aconteça; e nada acontece se a televisão não mostrar.
 
A  televisão,  essa  última  luz  que  te  salva  da  solidão  e  da  noite,  é  a 
realidade.  Porque  a  vida  é  um  espetáculo:  para  os  que  se  comportam  bem,  o 
sistema promete uma boa poltrona.
 
 


A cultura do espetáculo 
Fora  das  telas,  o  mundo  é  uma  sombra  indigna  de  confiança.  Antes  da 
televisão, antes do cinema, já era assim. Quando Búfalo Bill agarrava algum índio 
distraído  e  conseguia  matá-lo,  rapidamente  procedia  a  arrancar-lhe  o  couro 
cabeludo e  as  plumas e  demais  troféus e  de  um galope ia  do  Oeste  aos  teatros  de 
Nova  Iorque,  onde  ele  mesmo  representava  a  façanha  heróica  que  acabava  de 
protagonizar.  Então,  quando  as  cortinas  se  abriam  e  Búfalo  Bill  erguia  sua  faca 
ensangüentada  no  palco,  à  luz  de  candelabros,  então  ocorria,  pela  primeira  vez 
ocorria, de verdade ocorria, a realidade.
 
 
 
A televisão/3 
A  tevê  dispara  imagens  que  reproduzem  o  sistema  e  as  vozes  que  lhe 
fazem eco;  e não  há  canto  do  mundo  que ela  não  alcance.  O  planeta  inteiro é um 
vasto  subúrbio  de  Dallas.  Nós  comemos  emoções  importadas  como  se  fossem 
salsichas em lata, enquanto os jovens filhos da televisão, treinados para contemplar 
a vida em vez de fazê-la, sacodem os ombros.
 
Na  América  Latina,  a  liberdade  de  expressão  consiste  no  direito  ao 
resmungo  em  algum  rádio  ou  em  jornais  de  escassa  circulação.  Os  livros  não 
precisam ser proibidos pela polícia: os preços já os proíbem.
 


A dignidade da arte 
Eu escrevo para os que não podem me ler. Os de baixo, os que esperam 
há séculos na fila da história, não sabem ler ou não tem com o quê. Quando chega 
o  desânimo,  me  faz  bem  recordar  uma  lição  de  dignidade  da  arte  que  recebi  há 
anos, num  teatro  de Assis,  na  Itália. Helena  e eu  tínhamos  ido ver um espetáculo 
de  pantomima,  e  não  havia  ninguém.  Ela  e  eu  éramos  os  únicos  espectadores. 
Quando a luz se apagou, juntaram-se a nós o lanterninha e a mulher da bilheteria. 
E, no entanto, os atores, mais numerosos que o público, trabalharam naquela noite 
como se estivessem vivendo a glória de uma estréia com lotação esgotada. Fizeram 
sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha.
 
Nossos  aplausos  ressoaram  na  solidão  da  sala.  Nós  aplaudimos  até 
esfolar as mãos.
 
 
 
A televisão /4 
Rosa  Maria  Mateo,  uma  das  figuras  mais  populares  da  televisão 
espanhola, me contou essa história. Uma mulher tinha escrito uma carta para ela, 
de algum lugarzinho perdido, pedindo que por favor contasse a verdade:
 
— Quando eu olho para a senhora, a senhora está olhando para mim?
 
Rosa Maria me contou, e disse que não sabia o que responder.
 
 
A televisão/5 
Nos  verões,  a  televisão  uruguaia  dedica  longos  programas  a  Punta  del 
Este.  Mais  interessadas  nas  coisas  do  que  nas  pessoas,  as  câmaras  chegam  ao 
êxtase  quando  exibem  as  casas  dos  ricos  que  estão  de  férias.  Estas  mansões 
ostentosas  se  parecem  aos  mausoléus  de  mármore  e  bronze  no  cemitério  de  La 
Recoleta, em Buenos Aires, que é a Punta del Este do depois.
 
Pela  tela  desfilam  os  eleitos  e  seus  símbolos  de  poder.  O  sistema,  que 
edifica a pirâmide social escolhendo pelo avesso, recompensa pouca gente. Eis aqui 
os premiados: são os usurários de boas unhas e os mercadores de dentes bons, os 


políticos de nariz crescente e os doutores de costas de borracha.
 
A televisão se propõe a adular os que mandam no Rio da Prata, mas sem 
querer cumpre uma função educativa exemplar: nos mostra os picos culminantes e 
neles dilata a breguice e o mau gosto dos triunfantes caçadores de dinheiro.
 
Debaixo da aparente estupidez, existe a estupidez verdadeira.
 
 
Celebração da desconfiança 
No primeiro dia de aula, o professor trouxe um vidro enorme: — Isto está 
cheio  de  perfume  —  disse  a  Miguel  Brun  e  aos  outros  alunos  —.  Quero  medir  a 
percepção de cada um de vocês. Na medida em que sintam o cheiro, levantem a mão.
 
E  abriu  o  frasco.  Num  instante,  já  havia  duas  mãos  levantadas.  E  logo 
cinco, dez, trinta, todas as mãos levantadas.
 
—  Posso  abrir  a  janela,  professor?  —  suplicou  uma  aluna,  enjoada  de 
tanto perfume, e várias vozes fizeram eco. O forte aroma, que pesava no ar, tinha-se 
tornado insuportável para todos.
 
Então o professor mostrou o frasco aos alunos, um por um. Estava cheio 
de água.
 
 
 
A cultura do terror/7 
O colonialismo visível te mutila sem disfarce: te proíbe de dizer, te proíbe 
de fazer, te proíbe de ser. O colonialismo invisível, por sua vez, te convence de que a 
servidão  é  um  destino  e  a  impotência,  a  tua  natureza:  te  convence  de  que  não  se 
pode dizer, não se pode fazer, não se pode ser.
 
 
A alienação /l 
Em meus anos moços, fui caixa de banco. Recordo, entre os clientes, um 
fabricante  de  camisas.  O  gerente  do  banco  renovava  suas  promissórias  só  por 
piedade.  O  pobre  camiseiro  vivia  em  perpétua  soçobra.  Suas  camisas  não  eram 
ruins, mas ninguém as comprava.
 


Certa noite, o camiseiro foi visitado por um anjo. Ao amanhecer, quando 
despertou, estava iluminado. Levantou-se de um salto.
 
A primeira coisa que fez foi trocar o nome de sua empresa, que passou a 
se  chamar  Uruguai  Sociedade  Anônima,  patriótico  nome  cuja  sigla  é  U.  S.  A.  A 
segunda coisa que fez foi pregar nos colarinhos de suas camisas uma etiqueta que 
dizia, e não mentia: Made in U. S. A. A terceira coisa que fez foi vender camisas feito 
louco. E a quarta coisa que fez foi pagar o que devia e ganhar muito dinheiro.
 
 
A alienação/2 
Os  que  mandam  acreditam  que  melhor  é  quem  melhor  copia.  A  cultura 
oficial exalta as virtudes do macaco e do papagaio. A alienação na América Latina: 
um  espetáculo  de  circo.  Importação,  impostação:  nossas  cidades  estão  cheias  de 
arcos do triunfo, obeliscos e partenons. A Bolívia não tem mar, mas tem almirantes 
disfarçados de Lord Nelson. Lima não tem chuva, mas tem telhados a duas águas e 
com  calha.  Em Manágua, uma  das  cidades  mais  quentes  do  mundo, condenada  à 
fervura perpétua, existem mansões que ostentam soberbas lareiras, e nas festas de 
Somoza as damas da sociedade exibiam estolas de raposa prateada.
 
 
 
A alienação/3 
Alaistair  Reid  escreve  para  The  New  Yorker,  mas  quase  não  vai  a  Nova 
Iorque. Ele prefere viver numa praia perdida da República Dominicana. Nessa praia 
desembarcou Cristóvão Colombo, alguns séculos atrás, numa de suas excursões ao 
Japão, e desde aqueles tempos nada mudou.
 
De  vez  em  quando,  o  carteiro  aparece  entre  as  árvores.  O  carteiro  vem 
dobrado  debaixo  da  carga.  Alaistair  recebe  montanhas  de  correspondência.  Dos 
Estados  Unidos  é  bombardeado  por  ofertas  comerciais,  folhetos,  catálogos, 
luxuriosas tentações da civilização de consumo incitando a comprar.
 
Uma  vez,  entre  muita  papelada,  chegou  a  propaganda  de uma  máquina 
de remar. Alaistair mostrou-a a seus vizinhos, os pescadores.
 


— Dentro de casa? Se usa dentro de casa?
 
 
Os pescadores não conseguiam acreditar.
 
—  Sem  água?  Rema-se  assim,  sem  água?  Não  podiam  acreditar,  não 
podiam entender:
 
— E sem peixes? Sem sol? E sem céu?
 
Os  pescadores  disseram  a  Alaistair  que  eles  se  levantavam  todas  as 
noites,  muito  antes  do  alvorecer,  e  se  metiam  mar  adentro  e  jogavam  suas  redes 
enquanto o  sol  se erguia  no  horizonte, e  que essa era  a  sua  vida,  e  que  gostavam 
daquela vida, mas que remar era a única coisa de merda naquele assunto inteiro:
 
— Remar é a única coisa que odiamos — disseram os pescadores.
 
Então  Alaistair  explicou-lhes  que  a  máquina  de  remar  servia  para  fazer 
ginástica.
 
— Para quê?
 
— Ginástica.
 
— Ah, bom. E o que é ginástica? 
 


Dizem as paredes/3 
Em Montevidéu, no bairro Braço Oriental: Estamos aqui sentados, vendo 
como  matam  os  nossos  sonhos.  E,  no  cais  na  frente  do  porto  de  Buceo,  em 
Montevidéu:  Bagre  velho:  não  se  pode  viver  com  medo  a  vida  inteira.  Em  letras 
vermelhas, ao longo de um quarteirão inteiro da avenida Cólon, em Quito:
 
E se nos juntarmos para dar um chute nesta grande bolha cinzenta?
 
 
Nomes/1 
As pessoas,  os  bichos e  as  coisas  acudiam a  casa  dos  nomes, querendo 
chamar-se. Os nomes tiniam, oferecendo-se: prometiam bons sons e longos ecos. A 
casa  estava  sempre  cheia  de  pessoas  e  bichos  e  coisas  experimentando  nomes. 
Helena sonhou com a casa dos nomes e lá descobriu a cachorrinha Pepa Lumpen, 
que estava à procura de um nome mais respeitável.
 
 
 
Nomes/ 2 
Artur o Alape conta que Manuel Marulanda Vélez, o famoso guerrilheiro 
colombiano, não se chamava assim. Há quarenta anos, quando empunhou armas, 
ele se chamava Pedro Antonio Marín. Naquela época, Marulanda era outro: negro de 
pele,  grandalhão  de  tamanho,  pedreiro  de  ofício  e  canhoto  de  idéias.  Quando  os 
policiais  espancaram  Marulanda  até  matá-lo,  seus  companheiros  se  reuniram  em 
assembléia  e  decidiram  que  Marulanda  não  podia  se  acabar.  Por  unanimidade 
deram seu nome a Marín, que o carrega desde aquele tempo.
 
O mexicano Pancho Villa também levava o nome de um amigo morto pela 
polícia.
 


 
Nomes/3 
Assino Galeano, que é meu sobrenome materno, desde os tempos em que 
comecei  a  escrever.  Isto  aconteceu  quando  eu  tinha  dezenove  anos,  ou  talvez 
apenas alguns dias, porque chamar-me assim foi um modo de nascer de novo.
 
Antes, quando era garoto e publicava desenhos, assinava Gius, por causa 
da  difícil  pronúncia  espanhola  de  meu  sobrenome  paterno  (meu  tataravô  galês  se 
chamava Hughes, e  aos  quinze  anos  fez-se ao  mar  no  porto  de  Liverpool e chegou 
ao Caribe, à República Dominicana, e tempos depois ao Rio de Janeiro, e finalmente 
a Montevidéu. Em Montevidéu atirou ao arroio Miguelete seu anel de maçom, e nos 
campos de Paysandú cravou as primeiras cercas de arame farpado e fez-se dono de 
terras  e  gentes,  e  morreu  há  mais  de  um  século,  enquanto  traduzia  Martin  Fierro 
para o inglês.
 
 


 
 
Ao longo dos anos escutei as mais diferentes versões sobre essa questão 
de  meu  sobrenome  escolhido.  A  versão  mais  boba,  que  ofende  a  inteligência,  me 
atribui  uma  intenção  antiimperialista.  A  versão  mais  cômica  supõe  fins  de 
conspiração  ou  contrabando.  E  a  versão  mais  fodida  me  converte  na  ovelha 
vermelha da família: inventa para mim um pai inimigo e oligárquico, no lugar do pai 
real que tenho, que é um sujeito bacana que sempre ganhou a vida com o trabalho 
ou com a boa sorte que tem na loteria.
 
O  pintor  japonês Hokusai  mudou  de  nome sessenta  vezes  para  celebrar 
seus  sessenta  nascimentos.  No  Uruguai,  país  formal,  teria  sido  enjaulado  como 
louco ou perverso simulador de identidades.
 
 
 
A máquina de retroceder 
Nos  princípios  do século  vinte, o Uruguai era  um  país  do  século vinte e 
um. No final do século vinte, o Uruguai é um país do século dezenove. No reino da 
chatice,  os  bons  modos  proíbem  tudo  aquilo  que  não  é  imposto  pela  rotina.  Os 
homens  sonham  com  aposentar-se  e  as  mulheres  com  casar-se.  Os  jovens, 
culpados do delito de ser jovens, sofrem a pena da solidão ou do desterro, a menos 
que possam provar que são velhos.
 
 
A pálida 
No café da manhã, minhas certezas servem-se de dúvidas. E têm dias em 
que  me  sinto  estrangeiro  em  Montevidéu  e  em  qualquer  outra  parte.  Nesses  dias, 
dias  sem  sol,  noites  sem  lua,  nenhum  lugar  é  o  meu  lugar  e  não  consigo  me 
reconhecer  em  nada,  em  ninguém.  As  palavras  não  se  parecem  àquilo  que  dão 
nome,  e  não  se  parecem  nem  mesmo  ao  seu  próprio  som.  Então  não  estou  onde 
estou.  Deixo  meu  corpo e  saio,  para  longe,  para  lugar  nenhum,  e  não  quero estar 
com ninguém, nem mesmo comigo, e não tenho, nem quero ter, nome algum: então 


perco a vontade de me chamar ou de ser chamado.
 
 
O baixo astral 
Enquanto  dura  o  baixo  astral,  perco  tudo.  As  coisas  caem  dos  meus 
bolsos e da minha memória: perco chaves, canetas, dinheiro, documentos, nomes, 
caras,  palavras.  Eu  não  sei  se  será  mal  olhado.  Pura  casualidade,  mas  às  vezes  a 
depressão  demora  em  ir  embora  e  eu  ando  de  perda  em  perda,  perco  o  que 
encontro, não encontro o que busco, e sinto medo de que numa dessas distrações 
acabe deixando a vida cair.
 
 
Onetti 
Eu não tinha nem vinte anos e ainda brincava de cabra-cega nas noites 
do  mundo.  Queria  pintar,  e  não  podia.  Queria  escrever,  e  não  sabia.  Às  vezes 
escrevia um conto, e às vezes levava esse conto para Juan Carlos Onetti.
 
Ele  estava  sempre  de  cama,  de  preguiça,  de  tristeza,  rodeado  por 
pirâmides  de  tocos  de  cigarros,  atrás  de  uma  muralha  de  garrafas  vazias.  Eu  me 
sentia na obrigação de emitir frases inteligentíssimas. Mestre Onetti olhava o teto e 
não abria a boca a não ser para bocejar, fumar e beber, lenta sonolência, tragadas 
lentas,  goles  demorados,  e  talvez  murmurasse  algum  fruto  de  suas  prolongadas 
meditações sobre a situação nacional e internacional:
 
—  A  merda  toda  aconteceu  —  dizia  —  no  dia  em  que  os  milicos  e  as 
mulheres aprenderam a ler.
 
Sentado na beira da cama, eu esperava que ele me dissesse que aqueles 
meus continhos eram sem nenhuma sombra de dúvida geniais, mas ele se calava e 
na melhor das hipóteses resmungava ou me estimulava assim:
 
— Olha  aqui, garoto. Se Beethoven tivesse nascido em Tacuarembó, seria 
no máximo chefe da banda do coreto.
 
 
Arguedas 
Eu estava regressando a Montevidéu, depois de uma viagem. Não lembro 
de onde vinha, mas sim lembro que no avião tinha lido El zorro de arriba y el zorro 
de  abajo,  o  romance  final  de  José  Maria  Arguedas.  Arguedas  tinha  começado  a 
escrever  esse  adeus  à  vida  no  dia  em  que  decidiu  se  matar,  e  o  romance  era  seu 
longo  e  desesperado  testamento.  Eu  li  o  livro  e  acreditei  no  livro,  a  partir  da 


primeira  página:  embora  não  conhecesse  aquele  homem,  acreditei  nele  como  se 
fosse meu sempre amigo.
 
Em El zorro, Arguedas tinha dedicado a Onetti o mais alto elogio que um 
escritor  pode  oferecer  a  outro  escritor:  tinha  escrito  que  estava  em  Santiago  do 
Chile,  mas  que  na  realidade  queria  estar  em  Montevidéu,  para  encontrar  Onetti  e 
apertar a mão com a qual escreve.
 
Na casa de Onetti, comentei com ele. Onetti não saia. O romance, recém-
publicado, ainda não tinha chegado a Montevidéu. Comentei com ele, e Onetti ficou 
calado. Fazia pouco tempo, muito pouco, que Arguedas tinha arrebentado a cabeça 
com um tiro.
 
Ficamos  os  dois  muito  tempo,  minutos  ou  anos,  em  silêncio.  Depois  eu 
disse algo, perguntei algo, e Onetti não respondeu. Então ergui os olhos e vi aquele 
talho le umidade que atravessava a sua cara.
 
 
Celebração do silêncio/1 
Fazia anos que eu não encontrava Fernando Rodríguez. O vento do exílio, 
que  tanto  separa,  nos  juntou.  Encontrei-o  como  sempre,  desmantelado  e 
resmungão:
 
— Você está igualzinho — eu disse.
 
Ele me disse que ainda tinha alguns anos, não muitos:
 
— Não se deve passar dos setenta, porque senão você se vicia e não quer 
mais morrer.
 
Naquela tarde nos deixamos caminhar, sem rumo, entre o mar e as vias 
do trem, lá em Callella da Costa. Íamos lentos, calando juntos, e perto da estação 
paramos para tomar um café. Então Fernando comentou alguma coisa sobre o poço 
onde  os  militares  mantinham  Raul  Sendic,  o  Tupamaro  preso,  e  juntos  nos 
lembramos de Raul e de sua maneira de ser. Fernando me perguntou:
 
— Você leu o que os jornais publicaram, quando ele foi preso?
 
Os jornais tinham informado que ele tinha saído de seu esconderijo com 
uma pistola na mão, abrindo fogo e gritando: "Sou Rufo e não me entrego!"
 
— Sim — eu disse —. Li. —- Ah. E acreditou?
 
— Não.
 
— Eu também não — disse Fernando —-. Esse, quando cai liquidado, cai 
calado.
 


Celebração do silêncio/2 
O cantor Braulio López, que é a metade do duo Los Olimarenos, chegou a 
Barcelona,  chegou  ao  exílio.  Vinha  com  uma  mão  quebrada.  Braulio  tinha  estado 
preso,  no  cárcere  de  Villa  Devoto,  na  Argentina,  por  andar  com  três  livros:  uma 
biografia de José Artigas, uns poemas de Antonio Machado e O pequeno príncipe, de 
Saint-Exupéry. Quando estavam a ponto de libertá-lo, um guarda tinha entrado em 
sua cela e perguntado:
 
— Você é o violeiro?
 
E tinha pisado em sua mão esquerda com a bota.
 
Ofereci a ele: vamos fazer uma entrevista. Essa história podia interessar 
à  revista  Triunfo,  de  Madri.  Mas  Braulio  cocou  a  cabeça,  pensou  um  pouco  e  me 
disse:
 
— Não.
 
E me explicou:
 
— Essa história da mão se resolve, cedo ou tarde ela fica boa. E então vou 
voltar a tocar e a cantar. Você entende?Eu não quero desconfíar dos aplausos.
 
 
 
Celebração da voz humana/4 
Manfred  Max-Neef,  que  morou  no  Uruguai  há  mais  de  vinte  anos, 
comentou  comigo  o  que  ele  mais  lembrava:  que  os  cães  latiam  sentados  e  as 
pessoas tinham a palavra.
 
Depois, a ditadura militar restabeleceu a ordem, obrigando os uruguaios 
a mentir ou calar. Eu não sei se os cães latiam em pé; mas ter a palavra era não ter 
nada.
 
 
O sistema/ 2 
Tempo  dos  camaleões:  ninguém  ensinou  tanto  à  humanidade  quanto 
estes  humildes  animaizinhos.  Considera-se  culto  quem  oculta,  rende-se  culto  à 
cultura do disfarce. Fala-se a dupla linguagem dos artistas da dissimulação. Dupla 
linguagem,  dupla  contabilidade,  dupla  moral:  uma  moral  para  dizer,  outra  moral 


para fazer. A moral para fazer se chama realismo.
 
A  lei  da  realidade é  a  lei  do  poder.  Para  que  a  realidade  não  seja  irreal, 
dizem os que mandam, a moral deve ser imoral.
 
 
Celebração das bodas entre a palavra e o ato
 
Leio um artigo de um escritor de teatro, Arkadi Rajkin, publicado numa 
revista  de  Moscou.  O  poder  burocrático,  diz  o  autor,  faz  com  que  os  atos,  as 
palavras e os pensamentos jamais se encontrem: os atos ficam no local de trabalho, 
as palavras nas reuniões e os pensamentos no travesseiro.
 
Boa  parte  da  força  de  Che  Guevara,  penso,  essa  misteriosa  energia  que 
vai  muito  além  de  sua  morte e  de seus equívocos,  vem  de um  fato  muito  simples: 
ele foi um raro exemplo dos que dizem o que pensam e fazem o que dizem.
 
 
 


O sistema/3
 
Quem não  banca  o vivo,  acaba  morto.  Você  é obrigado  a  ser  fodedor  ou 
fodido, mentidor ou mentido. Tempos de o que me importa, de o que se há se fazer, 
do  é  melhor  não  se  meter,  do  salve-se  quem  puder.  Tempo  dos  trapaceiros:  a 
produção não rende, a criação não serve, o trabalho não vale.
 
No rio da Prata, chamamos o coração de bobo. E não porque se apaixona: 
o chamamos de bobo porque trabalha muito.
 
 
Elogio à iniciativa privada
 
Jesus  te  vê.  Onde  quer  que  vá,  seus  olhos  o  seguem.  A  tecnologia 
moderna ajuda o filho de Deus a cumprir suas funções de vigilância universal. Três 
capas  de  plástico  polarizado,  que  bloqueiam  sucessivamente  a  passagem  da  luz, 
facilitam essa tarefa.
 
Lá  por  1961  ou  1962,  uma  destas  imagens  de  olhos  escorregadios 
chamou  a  atenção  de  um  jornalista.  Júlio  Tacovilla  ia  caminhando  por  uma  rua 
qualquer de Buenos Aires, quando se sentiu observado. De uma vitrine, Jesus tinha 
cravado os olhos nele. Retrocedeu e o olhar de Jesus retrocedeu com ele. Deteve-se, 
e o olhar também se deteve. Avançou, e o olhar avançou.
 
Este sinal divino mudou a sua vida e arrancou-o da situação de pobre.
 
Pouco depois, Tacovilla voou para Porto Príncipe, e através da embaixada 
de seu país no Haiti conseguiu uma audiência com o presidente vitalício Papa Doc 
Duvalier.
 
Levava um quadro grande, debaixo do braço:
 
—  Tenho  algo  para  lhe  mostrar,  Excelência  —  disse.  Era  um  retrato  do 
ditador. Os olhos se mexiam.
 
—  Papa  Doc  te  vê  —  explicou  Tacovilla.  Papa  Doc  concordou,  com  a 
cabeça.
 
—  Não  é  ruim  —  disse,  indo  e  vindo  perante  sua  própria  imagem  —. 
Quantos você pode fazer?
 
— Quanto o senhor pode pagar?
 
— Pago o que custar.
 
E assim o Haiti encheu-se de olhares vigilantes e o inquieto jornalista se 
encheu de dinheiro.
 


 
 
O crime perfeito 
Em Londres, é assim: os aquecedores devolvem calor a troco das moedas 
que recebem. Em pleno inverno alguns exilados latino-americanos britavam de frio, 
sem nenhuma moeda para fazer funcionar a calefação de seu quarto.
 
Estavam  com  os  olhos  grudados  no  aquecedor,  sem  piscar.  Pareciam 
devotos perante o totem, em atitude de adoração; mas eram uns pobres náufragos 
meditando  sobre  a  maneira  de  acabar  com  o  Império  Britânico.  Se  pusessem 
moedas de lata ou papelão, o aquecedor funcionaria, mas o arrecadador encontraria 
as provas da infâmia.
 
O que fazer? Se perguntavam os exilados. O frio os fazia tremer como se 
estivessem com malária. E nisso, um deles lançou um grito selvagem, que sacudiu 
os alicerces da civilização ocidental. E assim nasceu a moeda de gelo, inventada por 
um pobre homem gelado.
 
Imediatamente,  puseram  mãos  à  obra.  Fizeram  moldes  de  cera,  que 
reproduziam  perfeitamente  as  moedas  britânicas;  depois  encheram  os  moldes  de 
água e os meteram no congelador.
 
As moedas de gelo não deixavam pistas, porque o calor as evaporava.
 
E assim aquele apartamento de Londres converteu-se numa praia do mar 
Caribe.
 


O exílio 
A  ditadura  militar  me  negava  passaporte,  como  a  muitos  milhares  de 
uruguaios,  e  eu  estava  condenado  a  fazer  filas  perpétuas  no  Departamento  de 
Estrangeiros da polícia de Barcelona.
 
Profissão?  Escritor,  escrevi,  de  formulários.  Certo  dia  eu  não  agüentava 
mais. Estava farto de filas de horas na rua, e farto dos burocratas cujas caras não 
conseguia nem mesmo ver:
 
— Estes formulários estão errados.
 
— Mas me deram aqui...
 
— Quando?
 
— Semana passada.
 
— E que agora temos formulários novos.
 
— Pode me dar esses formulários novos?
 
— Não tenho.
 
— E onde é que tem?
 
— Não sei. O próximo.
 
E  depois  faltavam  as  estampilhas,  e  nenhuma  papelaria  vendia  essas 
estampilhas que faltavam, e eu tinha levado duas fotos e eram três, e as máquinas 
de fotografia instantâneas não funcionavam sem moedas de vinte e cinco e naquele 
dia não, se conseguia nenhuma moeda de vinte e cinco pesetas em toda Barcelona.
 
Anoitecia quando finalmente subi no trem, para voltar à minha casa em 
Calella da Costa. Eu estava arrebentado. Mal me sentei, e dormi.
 
Fui  acordado  por  uma  batidinha  no  ombro.  Abri  os  olhos  e  vi  um  tipo 
esfarrapado, vestido com um pijama rasgado:
 
— Passaporte...
 
O  louco  tinha  cortado  em  pedaços  uma  folha  imunda  de  jornal,  e  ia 
distribuindo os pedacinhos, de vagão em vagão, entre os passageiros do trem:
 
— Passaporte! Passaporte!'...
 
 


A civilização do consumo 
Às vezes, no final da temporada de verão, quando os turistas iam embora 
de  Calella,  ouviam-se  uivos  vindos  do  morro.  Eram  os  clamores  dos  cachorros 
amarrados nas árvores.
 
Os  turistas  usavam  os  cachorros,  para  alívio  da  solidão,  enquanto  as 
férias  duravam,  e  depois,  na  hora  de  partir,  os  cachorros  eram  amarrados  morro 
acima, para que não seguissem os turistas que partiam.
 
 
 
Crônica da cidade de Buenos Aires 
Em meados de 1984, viajei para o Rio da Prata. Fazia onze anos que não 
via  Montevidéu;  fazia  oito  que  não  via  Buenos  Aires.  Tinha  ido  embora  de 
Montevidéu porque não gostava de ser preso; e de Buenos Aires, porque não gosto 
de  ser  morto.  Mas  em  1984  a  ditadura  militar  tinha  acabado,  deixando  atrás  um 
rastro de sangue e lodo que ninguém apagaria, e a ditadura militar uruguaia estava 
acabando.
 
Eu  acabava  de  chegar  a  Buenos  Aires.  Não  tinha  avisado  os  amigos. 
Queria que os encontros acontecessem por acaso.
 
Um  jornalista  da  televisão  holandesa,  que  me  acompanhava  na  viagem, 
estava  me  entrevistando  na  frente  da  porta  que  tinha  sido  da  minha  casa.  O 
jornalista me perguntou o que tinha sido feito de um quadro que eu tinha em casa, 
a pintura de um porto para chegar e não para partir, um porto que dizia alô e não 


adeus, e eu comecei a responder com o Olhar pregado no olho vermelho da câmara. 
Disse que não sabia onde esse quadro tinha ido parar, nem onde tinha ido parar o 
seu autor, Emilio Casablanca: o quadro e Emilio tinham-se perdido na névoa, como 
tantas outras pessoas e coisas engolidas por aqueles anos de terror e distância.
 
 
 
Enquanto eu falava, percebi que uma sombra vinha caminhando por trás 
da câmara e tinha ficado de lado, esperando. Quando terminei e o olho vermelho da 
câmara  se  apagou,  movi  a  cabeça  e  vi:  naquela  cidade  de  treze  milhões  de 
habitantes, Emilio tinha chegado naquela esquina, por acaso, ou como quer que se 
chame  isso,  e  estava  naquele  exato  lugar  no  exato  instante.  Nos  abraçamos 
dançando,  e  depois  de  muito  abraço  Emilio  me  contou  que  há  duas  semanas 
sonhava que eu voltava, noite após noite, e agora não podia acreditar.
 
E  não  acreditou.  Naquela  mesma  noite  telefonou  para  o  meu  hotel  e 
perguntou se eu não era sonho ou bebedeira.
 
 


 
O bem-querer/1 
Em Buenos Aires procurei a cafeteria que era a minha cafeteria, e não a 
encontrei.  Procurei  o  restaurante  onde  comia  mocotó  em  enormes  travessas  a 
qualquer hora do dia ou da noite, e ele tampouco existia. Onde antes havia a minha 
cantina  preferida,  o  Bachín,  havia  um  montão  de  escombros.  Tinham  arrasado  o 
Bachín,  e  com  ele  o  mercado  onde  eu  ia  sempre  comprar  frutas  e  flores  ou  pelo 
puro prazer do nariz e dos olhos. Alguém me disse que o Bachín tinha se mudado, e 
que agora tinha outro lugar e outro nome.
 
Uma  noite,  fui.  Parei  na  frente  da  porta  deste  novo  Bachín  que  tinha 
outro  nome,  duvidando,  sim,  não,  perguntando-me  se  não  seria  uma  traição, 
quando  uma  súbita explosão ocorreu  no  momento exato em  que eu  abria  a  porta: 
foram-se  os  fusíveis  da  eletricidade  e  tudo  ficou  absolutamente  mergulhado  na 
escuridão. Dei meia-volta e me afastei, caminhando na ponta dos pés.
 
E  assim  fiquei  um  tempo,  doendo  esquecimentos,  buscando  lugares  e 
pessoas que não encontrei, ou não soube encontrar; e finalmente cruzei o rio, rio-
mar, e entrei no Uruguai.
 
Os  generais  uruguaios  ainda  tinham  o  poder,  estavam  quase  indo 
embora,  quase  nos  adeuses  dos  tempos  do  terror:  entrei  cruzando  os  dedos.  Tive 
sorte.
 
E  caminhando  pelas  ruas  da  cidade  onde  nasci,  fui  reconhecendo-a,  e 
senti  que  voltava  sem  ter  ido  embora:  Montevidéu,  que  dorme  sua  eterna  sesta 
sobre  as  suaves  colinas  do  litoral,  indiferente  ao  vento  que  a  golpeia  e  a  chama: 
Montevidéu, chata e íntima, profundamente íntima, que no verão cheira a pão e no 
inverno cheira à fumaça. E soube que eu andava querendo bem-querer, e que tinha 
chegado a hora do fim do exílio. Depois de muito mar, o salmão nada em busca do 
rio,  e  o  encontra  e  remonta,  guiado  pelo  cheiro  das  águas,  até  o  arroio  de  sua 
origem.
 
Então,  quando  voltei  a  Calella  para  dizer-lhe  adeus,  adeus  à  Espanha, 
adeus e obrigado, tive um infarto.
 


 
 
 
 
 
O bem-querer/2 
Quando a seca chega e leva embora as águas do rio Uruguai, as pessoas 
de Pueblo Federación regressam à sua perdida querência. As águas, ao ir embora, 
deixam  nua  uma  paisagem  de  lua;  e  as  pessoas  voltam.  Elas  vivem  agora  numa 
aldeia  que  também  se  chama  Pueblo  Federación,  como  se  chamava  a  sua  velha 
aldeia  antes  que  a  represa  de  Salto  Grande  a  inundasse  e  a  deixasse  debaixo  das 
águas. Da velha aldeia já não se vê nem mesmo a cruz no alto da torre da igreja; e a 
aldeia  nova  é  muito  mais  cômoda  e  muito  mais  linda.  Mas  eles  voltam  à  aldeia 
velha  que  a  seca  lhes  devolve enquanto  dura.  Eles  voltam e  ocupam  as  casas  que 
foram suas casas e que agora são ruínas de guerra. Ali, onde a avó morreu e onde 
aconteceram  o  primeiro  gol  e  o  primeiro  beijo,  eles  fazem  fogo  para  o  chimarrão  e 
para o churrasco, enquanto os cães cavam a terra em busca dos ossos que tinham 
escondido.
 


O tempo 
Numa  dessas  noites  —  me  conta  Alejandra  Adoum  —  a  mãe  de  Alina 
estava se preparando para sair. Alina a olhava, enquanto a mãe, sentada na frente 
do  espelho,  pintava  os  lábios,  as  sobrancelhas  e  passava  pó-de-arroz  no  rosto. 
Depois  a  mãe experimentou um  vestido,  e outro, e  pôs  um  colar  de  coral  negro, e 
uma  tiara  nos  cabelos,  e  irradiava  uma  luz  limpa  e  perfumada.  Alina  não 
desgrudava os olhos.
 
— Como eu gostaria de ter a tua idade — disse Alina.
 
— Eu, em compensação... — sorriu a mãe — daria qualquer coisa para ter 
quatro anos, como você.
 
Naquela noite, ao regressar, a mãe encontrou-a acordada. Alina abraçou 
suas pernas com força.
 
— Morro de pena de você, mamãe — disse, soluçando.
 
 
Ressurreições/1 
Infarto  agudo  de  miocárdio,  garra  da  morte  no  centro  do  peito.  Passei 
duas  semanas  mergulhado  em  uma  cama  de  hospital,  em  Barcelona.  Então 
sacrifiquei  minha  desmantelada  agenda  Porky  2,  pois  a  coitada  não  agüentava 
mais, e a mudança de caderneta de endereços transformou-se numa visita aos anos 
transcorridos  desde  o  sacrifício  da  Porky  1.  Enquanto  passava  a  limpo  nomes  e 
endereços  e  telefones  para  a  agenda  nova,  eu  ia  passando  a  limpo  também  o 
entrevero dos tempos e das gentes que acabava de viver, um turbilhão de alegrias e 
feridas, todas muito, sempre muito, e esse foi um longo duelo entre os mortos que 
mortos ficaram na zona morta do meu coração, e uma enorme, muito mais enorme 
celebração  dos  vivos  que  acendiam  meu  sangue  e  aumentavam  meu  coração 
sobrevivido.  E  não  tinha  nada  de  mais,  nada  de  mal,  que  meu  coração  tivesse  se 
quebrado, de tão usado.
 
 
A casa 
1984 tinha sido um ano de merda. Antes do infarto, tinham me operado 
as  costas;  e  Helena  tinha  perdido  um  bebê  no  meio  do  caminho.  Quando  Helena 
perdeu  o  bebê,  a  roseira  da  varanda  secou.  As  outras  plantas  também  morreram, 
todas, uma atrás da outra, apesar de serem regadas a cada dia.
 
A  casa  parecia  maldita.  E  no  entanto,  Nani  e  Alfredo  Ahuerma  tinham 
passado  por  lá  alguns  dias,  e  ao  ir  embora  tinham  escrito  no  espelho:  Nesta  casa 


fomos felizes.
 
E  também  nós  tínhamos  encontrado  alegria  naquela  casa  de  repente 
amaldiçoada  pelos  ventos  ruins,  e  a  alegria  tinha  sabido  ser  mais  poderosa  que  a 
dúvida e melhor que a memória, e por isso mesmo aquela casa entristecida, aquela 
casa barata e feia, num bairro barato e feio, era sagrada.
 
 
 
A perda 
Helena  sonhou  que  estava  na  infância,  e  não  via  nada.  Apalpando  na 
escuridão,  ela  pedia  ajuda,  pedia  aos  gritos  luz,  mas  ninguém  acendia  as  luzes. 
Naquele  negror  não  podia  encontrar  as  suas  coisas,  que  estavam  esparramadas 
pela  casa  inteira  e  por  toda  a  cidade,  e  ela  buscava  o  que  era  dela  às  cegas,  na 
cerração,  e  também  buscava  algodão  ou  trapos  ou  qualquer  coisa,  porque  estava 
perdendo  sangue,  rios  de  sangue,  entre  as  pernas,  muito  sangue,  cada  vez  mais 
sangue,  e  embora  não  visse  nada,  sentia  aquele  rio  vermelho  e  espesso  que  se 
soltava de seu corpo e se perdia nas trevas.
 
 
O exorcismo 
Rosário,  a  feiticeira  andaluza,  estava  há  muitos  anos  lutando  contra  os 
demônios. O pior dos satanazes tinha sido seu sogro. Aquele malvado tinha morrido 
estendido  na  cama,  na  noite  em  que  exclamou:  Me  cago  en  Diós!,  e  o  crucifixo  de 
bronze soltou-se da parede e quebrou-lhe o crânio.
 
Rosário se ofereceu para desendemoniar-nos. Jogou no lixo a nossa bela 
máscara mexicana de Lúcifer e esparramou uma fumaçarada de arruda, manjerona 
e  louro  bendito.  Depois  pregou  na  porta  uma  ferradura  com  as  pontas  para  fora, 
pendurou alguns alhos e derramou, aqui e acolá, punhadinhos de sal e montões de 
fé.
 
— Ao mau tempo, cara boa, e para a fome, viola ― disse.
 


E  disse  que  dali  para  a  frente  era  conosco,  porque  a  sorte  não  ajuda 
quem não a ajuda a ajudar.
 
 
 
Os adeuses 
Estávamos  há  nove  anos  no  litoral  da  Catalunha  e  estávamos  úmido 
embora,  faltavam  três  ou  quatro  dias  para  o  fim  do  exílio,  quando  a  praia 
amanheceu toda  coberta  de  neve.  O  sol  acendia  a  neve e erguia, na  beira  do  mar, 
um grande fogo branco que fazia os olhos chorarem.
 
Era  muito  raro  que  nevasse  na  praia.  Eu  nunca  tinha  visto,  e  só  os 
velhos da aldeia recordavam algo parecido, em tempos remotos.
 
O  mar  parecia  muito  contente,  lambendo  aquele  enorme  sorvete,  e  essa 
alegria do mar e essa brancura radiante foram minhas últimas imagens de Calella 
da Costa.
 
Eu quis responder à despedida tão bela, mas não me ocorreu nada. Nada 
a fazer, nada a dizer. Nunca fui bom para essa questão dos adeuses.
 
 
Os sonhos do fim do exílio/1 
Helena  sonhou  que  queria  fechar  a  mala  e  não  conseguia,  e  fazia  força 
com as duas mãos, e apoiava os joelhos sobre a mala, e sentava em cima, e ficava 
em  pé  em  cima  da  mala,  e  não  adiantava.  A  mala,  que  não  se  deixava  fechar, 
transbordava coisas e mistérios. 
 


 
 
Os sonhos do fim do exílio/2 
Helena  voltava  para  Buenos  Aires,  mas  não  sabia  em  que  idioma  falar 
nem  com  que  dinheiro  pagar.  Parada  na  esquina  da  avenida  Pueyrredón  com  a 
avenida Las Heras esperava que o 60 passasse, mas o ônibus não vinha, não viria 
nunca.
 
 
 
Os sonhos do fim do exílio/3 
As lentes dos óculos tinham se quebrado, e as chaves tinham se perdido. 
Ela  buscava  as  chaves  pela  cidade  inteira,  às  cegas,  de  joelhos,  e  quando 
finalmente  as  encontrava,  as  chaves  diziam  que  não  serviriam  para  abrir  suas 
portas.
 


 
 
 


Andanças /1 
Alberto,  o  pai  de  Helena,  acordou  de  repente.  Sua  barriga  partia-se  de 
dor. Era meia-noite, e ele não tinha comido nada pesado. Enquanto isso, longe dali, 
Helena estava parindo Mariana, a Pulguinha.
 
Anos  depois,  Helena  ficou  subitamente  com  a  boca  seca  e  os  lábios  em 
chaga  enquanto  seu  pai  sofria  uma  febre  que  por  pouco  não  o  matou,  e  ela  dizia 
palavras do delírio dele, embora ela estivesse em Montevidéu e ele em Buenos Aires, 
e  ela  nada  soubesse;  e  ao  mesmo  tempo,  do  outro  lado  do  mar,  em  sua  casa  nos 
arrabaldes  de  Barcelona,  Pilar,  a  amiga  de Helena,  despertava  atordoada  por  uma 
inexplicável dor de cabeça e dizia, sem saber por que, mas sem nenhuma dúvida:
 
— Alguma coisa está acontecendo com Helena. Alguma coisa.
 
 
Andanças/2 
Não foi um vento errante, desses que vagabundeiam de déu em deu, mas 
uma  senhora  ventania  certamente  disparada  lá  do  distante  litoral  quente  até  a 
cidade de Medellín, através das montanhas e dos países. O vento chegou até a casa 
de  Jenny  e  atravessou-a  de  ponta  a  ponta:  de  repente  abriu-se  a  porta  da  frente, 
como se tivesse sido chutada por algum bêbado, e em seguida abriu-se a porta dos 
fundos, da mesma violenta maneira.
 
Jenny,  então,  soube.  Restabelecida  a  calma,  até  o  ar  duvidava,  o  ar 
machucado; mas ela sabia. E a lavadeira, que morava longe, na cidadezinha de La 
Pintada,  também  sabia:  estava  enxaguando  roupa  com  água  da  chuva,  naquela 
mesma meia-noite, quando sentiu que havia alguém às suas costas:
 
— Eu a vi, menina. Posso jurar.
 
A notícia chegou a Medellín por telegrama, na manhãzinha seguinte, mas 
já não era necessária: à meia-noite de ontem, morreu Paula López, mãe de Jenny, 
muito amiga da lavadeira, na distante cidade de Guayaquil.
 
 
A última cerveja de Caldwell 
Era  no  entardecer  de  um  domingo  de  abril.  Depois  de  uma  semana  de 
muito  trabalho,  eu  estava  bebendo  cerveja  numa  taverna  de  Amsterdam.  Estava 
com  Annelies,  que  tinha  me  ajudado  com  santa  paciência  em  minhas  voltas  e 
reviravoltas pela Holanda.
 
Eu me sentia bem mas, sem saber por que, meio triste.
 
E comecei a falar dos livros de Erskine Caldwell.
 


Começou  com  uma  piada  boba.  Como  minhas  incessantes  viagens  ao 
banheiro entre cerveja e cerveja me davam vergonha, resolvi dizer que o caminho da 
cerveja  conduz  ao  banheiro  da  mesma  forma  que  o  caminho  do  tabaco  leva  ao 
cinzeiro,  e  me  senti  muito  arguto.  Mas  Annelies,  que  não  tinha  lido  O  caminho  do 
tabaco, nem sorriu. Então expliquei a piada, que é a pior coisa que se pode fazer em 
qualquer  circunstância,  e  foi  assim  que  comecei  a  falar  de  Caldwell  e  de  seus 
espantalhos do sul dos Estados Unidos; e não consegui mais parar.
 
 
Fazia  mais  de  vinte  anos  que  eu  não  falava  dele..  Eu  não  falava  de 
Caldwell desde os tempos em que me encontrava com Horacio Petit, nas cafeterias e 
nos botequins de Montevidéu, e com ele andava vinhos e livros.
 
Agora, enquanto  falava,  enquanto  aquela  torrente  incessante  brotava  de 
minha  boca,  eu  via  Caldwell,  via  Caldwell  debaixo  de  seu  esfiapado  chapéu  de 
palha, numa cadeira de balanço na varanda, feliz por causa dos ataques das ligas 
de  moral  e  bons  costumes  e  dos  críticos  literários,  mascando  fumo  e  ruminando 
novas porcarias e desventuras para seus personagens miseráveis.
 
E a tarde se fez noite. Não sei quanto tempo passei falando de Caldwell e 
tomando cerveja.
 
Na  manhã  seguinte,  li  a  notícia  nos  jornais:  O  romancista  Erskine 
Caldwell morreu ontem, em sua casa no sul dos Estados Unidos.
 
 


Andanças/3 
Helena  sonhou  que  telefonava  para  Pilar  e  Antonio,  e  eram  tantas  as 
vontades  de  dar  um  abraço  nos  dois  que  conseguia  trazê-los  da  Espanha  pelo 
aparelho.  Pilar  e  Antonio  deslizavam  pelo  telefone  como  se  fosse  um  tobogã,  e 
caíam, suavemente, em nossa casa de Montevidéu.
 
 
 
Dizem as paredes/4 
Em  pleno  centro  de  Medellín:  A  letra  com  sangue  entra.  Embaixo, 
assinando:  Carrasco  alfabetízador.  Na  cidade  uruguaia  de  Melo:  Ajude  a  polícia: 
torture-se.
 
Num muro de Masatepe, na Nicarágua, pouco depois da queda do ditador 
Somoza:
 
Vão morrer de saudades, mas não voltarão.
 
 
Invejas do alto céu 
Os maias crêem que no começo da história, quando os deuses nos deram 
nascimento,  nós,  os  humanos,  éramos  capazes  de  ver  além  do  horizonte.  Então 
estávamos recém-fundados, e os deuses atiraram pó em nossos olhos para que não 


fôssemos tão poderosos.
 
Eu pensei nessa inveja dos deuses, quando soube que meu amigo René 
Zavaleta  tinha  morrido.  René,  que  tinha  uma  inteligência  deslumbrante,  foi 
fulminado por um câncer no cérebro.
 
De câncer na garganta tinha morrido, meio século antes, Enrico Caruso.
 
 
Notícias 
Os macacos confundem Gato Félix com Tarzã, Popeye devora suas latas 
infalíveis, Berta Singerman geme versos no Teatro Solís, a grande tesoura de Geniol 
corta os resfriados, de um momento a outro Mussolini vai invadir a Etiópia, a frota 
britânica concentra-se no canal de Suez.
 
Página após página, dia após dia, o ano de 1935 vai desfilando frente aos 
olhos  de  Pepe  Barrientos,  na  Biblioteca  Nacional.  Pepe  está  buscando  sei  lá  qual 
dado na coleção do jornal Uruguay, a estréia de um tango ou o batizado de uma rua 
ou coisa parecida, e o tempo inteiro sente que esta não é a primeira vez, sente que 
já viu o que está vendo agora, que já passou por aqui, passou antes por aqui, por 
estas páginas, o cine Ariel estréia um filme de Ginger Rogers, no Artigas a pequena 
Shirley  Temple  dança  e  canta,  uma  flanela  molhada  em  Untisal  cura  a  dor  de 
garganta,  um  navio  arde  em  chamas  a  cento  e  cinqüenta  milhas  destas  costas  de 
Montevidéu,  uma  bailarina  de  reputação  duvidosa  amanhece  assassinada, 
Mussolini  pronuncia  seu  ultimato.  Guerra!  Vem  aí  a  guerra!,  clama  uma  enorme 
manchete.  Sim,  Pepe  já  viu.  Sim,  sim:  esta  foto,  o  goleiro  feito  pomba  voadora 
atravessando  a  página,  o  chute  de  Cea  dobrando  as  mãos  do  goleiro, essas  letras: 
talvez na infância, pensa. Surpreende-se de tão longa viagem da memória: em 1935, 
há  mais  de  meio  século,  ele  tinha  seis  anos.  E  então,  de  repente,  é  tocado  pelo 
medo, as unhas geladas do medo roçam sua nuca, e ele tem certeza de que deve ir 
embora, e tem certeza de que vai ficar. E assim continua. Poderia mudar de jornal, 
ou de ano, ou simplesmente poderia caminhar até a porta de saída, mas continua. 
Pepe continua, chamado, não pode ir embora, não pode parar, e o Penarol ganha e 
sua grande figura é Gestido, e foi firmada a paz entre o Paraguai e a Bolívia mas o 
problema  dos  prisioneiros  ainda  não  foi  resolvido,  e  uma  tormenta  afunda  barcos 
no Canal da Mancha, e foi preso o assassino da bailarina, que era o seu amante e 
que levava oito centavos no bolso no momento de sua detenção, e o remédio Himrod 
é  garantido  contra  a  asma,  e  de  repente  a  mão  de  Pepe,  que  acaba  de  virar  a 
página,  fica  paralisada,  e  uma  foto  golpeia  sua  cara:  uma  foto  aberta  em  seis 
colunas, o caminhão tombado e arrebentado, a imensa foto do caminhão, e ao redor 


do caminhão um enxame de curiosos vendo o fotógrafo, olhando para Pepe que olha 
os  curiosos,  que  não  os  vê:  Pepe  com  os  olhos  cegos  de  lágrimas  vendo  a  foto  do 
caminhão onde seu pai morreu esmagado numa trombada espetacular que comove 
o bairro La Teja, em Montevidéu, ao meio-dia do dia 18 de setembro de 1935. 
 
 
A morte 
Nem  dez  pessoas  iam  aos  últimos  recitais  do  poeta  espanhol  Blas  de 
Otero.  Mas  quando  Blas  de  Otero  morreu,  muitos  milhares  de  pessoas  foram  à 
homenagem fúnebre feita numa arena de touros em Madri. Ele não ficou sabendo.
 
 


 
 
Chorar 
Foi  na  selva,  na  Amazônia  equatoriana.  Os  índios  shuar  estavam 
chorando  a  avó  moribunda.  Choravam  sentados,  na  margem  de  sua  agonia.  Uma 
pessoa, vinda de outros mundos, perguntou:
 
—  Por  que  choram  na  frente  dela,  se  ela  ainda  está  viva?  E  os  que 
choravam responderam:
 
— Para que ela saiba que gostamos muito dela.
 
 
Celebração do riso 
José  Luis  Castro,  o  carpinteiro  do  bairro,  tem  a  mão  muito  boa.  A 
madeira, que sabe que ele a ama, deixa-se fazer.
 
O pai de José Luis tinha vindo lá de uma aldeia de Pontevedra para o Rio 
da Prata. O filho recorda o pai, o rosto aceso debaixo do chapéu panamá, a gravata 
de  seda  no  colarinho  do  pijama  azul-celeste,  e  sempre,  sempre  contando  histórias 
desopilantes.  Onde ele estava,  lembra  o  filho,  o  riso  acontecia.  De  todas  as  partes 
vinha gente para rir, quando ele contava, e a multidão se amontoava. Nos velórios 
era preciso levantar o ataúde, para que todos coubessem — e assim o morto ficava 
em  pé  para  escutar  com  o  devido  respeito  aquelas  coisas  todas,  ditas  com  tanta 
graça.
 
E de tudo o que José Luis aprendeu de seu pai, isso foi o principal:
 
— O importante é rir — ensinou-lhe o velho —. E rir juntos.
 
 
 
Dizem as paredes/5 
Na  faculdade  de  Ciências  Econômicas,  em  Montevidéu:  A  droga  provoca 
amnésia e outras coisas que esqueci.
 
Em Santiago do Chile, nas margens do rio Mapocho: Bem-aventurados os 


bêbados, porque eles verão Deus duas vezes.
 
Em Buenos Aires, no bairro de Flores: Uma namorada sem tetas é, mais 
que namorada, um amigo.
 
 
 
O vendedor de risadas 
Estou  na  praia  de  Malibu,  no  espigão  onde  há  meio  século  o  detetive 
Philip  Marlowe encontrou um  de  seus  cadáveres.  Jack  Miles  me mostra uma  casa 
linda, lá longe, lá no alto: ali morou o homem que abastecia Hollywood de risadas. 
Há dez anos, Jack passou uma temporada naquela casa, quando o abastecedor de 
risadas decidiu ir embora para sempre.
 
A casa estava toda atapetada de risadas. Aquele homem tinha passado a 
vida  recolhendo  risadas.  Gravador  em  punho,  tinha  percorrido  os  Estados  Unidos 
de cabo a rabo, de alto a baixo, buscando risos, e tinha conseguido reunir a maior 
coleção  do  mundo.  Tinha  registrado  a  alegria  das  crianças  brincando  e  o 
alvorocinho assim meio gasto de quem já viveu muito. Havia risos do norte e do sul, 
do leste e do oeste. De acordo com o que pedissem, ele podia proporcionar risadas 
de  celebração  ou  risos  de  dor  ou  de  pânico,  risadas  apaixonadas,  escalafriantes 
gargalhadas  de  espectros  e  risos  de  loucos  e  bêbados  e  criminosos.  Entre  suas 
milhares e milhares de gravações, tinha risos para acreditar e risos para desconfiar, 
risadas  de  negros,  de  mulatos  e  de  brancos,  risadas  de  pobres  e  de  ricos  e  de 
remediados.
 
 
 


Vendendo  risos,  risos  para  cinema,  rádio  e  televisão,  tinha  ficado  rico. 
Mas  era  um  homem  até  que  melancólico,  e  tinha  uma  mulher  que  só  com  uma 
olhada matava qualquer vontade de rir.
 
Ela  e  ele  foram  embora  de  sua  casa  da  praia  de  Malibu,  e  nunca  mais 
voltaram. Foram embora fugindo dos mexicanos, porque na Califórnia existem cada 
vez mais mexicanos que comem comida apimentada e têm o maldito costume de rir 
às gargalhadas. Agora eles dois vivem na ilha de Tasmânia, que fica lá pelos lados 
da Austrália, só que mais longe.
 
 
Eu, mutilado capilar 
Os  barbeiros  me  humilham  cobrando»  meia  tarifa.  Faz  uns  vinte  anos 
que  o  espelho  delatou  os  primeiros  clarões  debaixo  da  melena  frondosa.  Hoje  o 
luminoso  reflexo  de  minha  calva  em  vitrines  e  janelas  e  janelinhas  me  provoca 
estremecimentos de horror.
 
Cada  fio  de  cabelo  que  perco,  cada  um  dos  últimos  cabelos,  é  um 
companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número.
 
A frase de um amigo piedoso me consola:
 
— Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora.
 
Também  me  consolo  comprovando  que  em  todos  esses  anos  caíram 
muitos de meus cabelos mas nenhuma de minhas idéias, o que acaba sendo uma 
alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por aí.
 
 
Celebração do nascer incessante 
Miguel Mármol serviu outra rodada de rum Matusalém e disse que estava 
comemorando, bebemorando, cinqüenta e cinco anos de seu fuzilamento. Em 1932, 
um  pelotão  de  soldados  tinha  acabado  com  ele,  cumprindo  ordens  do  ditador 
Martínez.
 
— De idade,  tenho oitenta e dois — disse Miguelito — mas nem percebo. 
Tenho muitas namoradas. O médico receitou.
 
Contou-me  que  tinha  o  costume  de  acordar  antes  do  amanhecer,  e  que 
assim  que  abria  os  olhos  começava  a  cantar,  a  dançar  e  a  sapatear,  e  que  os 
vizinhos do andar de baixo não gostavam nada daquilo.
 
Eu tinha ido levar para ele o tomo final de Memória do Fogo. A história de 
Miguelito  funciona  como  eixo  desse  livro:  a  história  de  suas  onze  mortes  e  suas 
onze ressurreições, tudo isso ao longo de sua vida brigona. Desde que nasceu pela 


primeira vez em Hopango, em El Salvador, Miguelito é a mais certeira metáfora da 
América  Latina. Como ele,  a  América  Latina  morreu e nasceu  muitas vezes.  Como 
ele, continua nascendo.
 
— Mas disso — afirmou — é melhor não falar. Os católicos me dizem que 
tudo  isso  aconteceu  por  obra  da  Providência.  E  os  comunistas,  meus  camaradas, 
dizem que foi tudo obra da coincidência.
 
Propus  fundarmos  juntos  o  marxismo  mágico:  metade  razão,  metade 
paixão, e uma terceira metade de mistério.
 
— A idéia é boa — me disse ele.
 
 
 
 
O parto 
Três dias de parto e o filho não saía: — Tá preso. O negrinho tá preso — 
disse o homem.
 
Ele vinha de um rancho perdido nos campos,
 
E o médico foi até lá.
 
Maleta  na  mão,  debaixo  do  sol  do  meio-dia,  o  médico  andou  até  aquela 
longidão, aquela solidão, onde tudo parece coisa do destino feroz; e chegou e viu.
 
Depois, contou para Glória Galván:
 
— A mulher estava nas últimas,  mas ainda  arfava e suava e estava com 
os  olhos  muito  abertos.  Eu  não  tinha  experiência  nessas  coisas.  Eu  tremia,  estava 
sem  nenhuma  idéia.  E  nisso,  quando  levantei  a  coberta,  vi  um  braço  pequeninho 
aparecendo entre as pernas abertas da mulher.
 
O  médico  percebeu  que  o  homem  tinha  estado  puxando.  O  bracinho 
estava  esfolado  e  sem  vida,  um  penduricalho  sujo  de  sangue  seco,  e  o  médico 
pensou: Não se pode fazer mais nada.
 
E  mesmo  assim,  sabe-se lá  por  quê,  acariciou o  bracinho.  Roçou  com o 
dedo aquela coisa inerte e ao chegar à mãozinha, de repente a mãozinha se fechou e 
apertou seu dedo com força.
 
Então o médico pediu que alguém fervesse água, e arregaçou as mangas 
da camisa.
 


Ressurreições / 2 
Eram os tempos da ditadura militar no Brasil. Os generais deixaram-no 
entrar  para  que  morresse  em  sua  própria  terra.  Darcy  Ribeiro  chegou  do  exílio  e 
uma ambulância, que o esperava ao pé do avião, levou-o diretamente ao hospital.
 
Darcy sabia  que estava  com  câncer, e  que o  câncer  tinha  devorado  pelo 
menos um de seus pulmões, mas estava alegre de alegria por estar na sua terra e 
sentir que ela estava tão sempre-viva e dançadoura.
 
O  irmão  de  Darcy  chegou  da  cidade  de  Montes  Claros.  Vinha  para  se 
despedir.  Sentado  ao  lado  de  Darcy  no  hospital,  olhava  os  próprios  pés.  Estava 
choroso  e  sombrio  e  Darcy  tratava  de  levantar-lhe  o  ânimo.  O  cirurgião  tomou 
Darcy pelo braço e levou-o para caminhar pelo corredor:
 
—  Não  quero  desanimá-lo  —  disse  —,  mas  acho  que  o  senhor  deve 
preparar-se para o pior. Se o seu irmão sair vivo, será um milagre.
 
Darcy não pôde conter o riso, e o médico não entendeu.
 
No dia seguinte, foi operado. Darcy despertou com um pulmão a menos. 
Como tem tantos, nem percebeu.
 
 
 
As duas cabeças 
Pode  ser  que  Ornar  Cabezas  tenha  esse  nome  porque  está  usando  sua 
segunda  cabeça.  E  talvez  por  isso  tenha  chegado  até  o  fim  no  áspero  caminho  da 
revolução da Nicarágua; e por isso chegou vivo.
 
Ornar  era  criança  e  estava  brincando  de  guerra  de  pedradas,  na  cidade 
de León. Choviam pedras, entre uma e outra esquina de uma rua qualquer, quando 
Ornar viu vir um tremendo pedregulho que seu inimigo tinha atirado, viu clarinha a 
trajetória  da  pedra  no  ar,  e  correu:  ele  queria  correr  para  o  outro  lado,  escapar, 
salvar-se,  mas  não  pôde  evitar  que  sua  cabeça  se  lançasse  ao  encontro  daquele 
projétil  que  estava  destinado  a  ele,  e  sua  cabeça  chegou  ao  lugar  exato  e  no 
momento exato para ser golpeada e quebrada pela pedra que caía.
 
Assim  foi  que  Ornar  perdeu  aquela  sua cabeça  que  buscava  a  perdição. 
Desde então, usa a outra, um pouco menos louca.
 


 
 
Ressurreições / 4 
Peca  quem  mente,  diz  Ernesto  Cardenal,  porque  rouba  a  verdade  das 
palavras. Lá por volta de 1524, Frei Bobadilla fez uma grande fogueira na aldeia de 
Manágua  e  atirou  nas  chamas  os  livros  indígenas.  Aqueles  livros  eram  feitos  em 
pele de veado, em imagens pintadas com duas cores: o vermelho e o negro.
 
Havia séculos que estavam mentindo para a Nicarágua, até que o general 
Sandino escolheu essas duas cores para sua bandeira sem saber que eram as cores 
das cinzas da memória nacional.
 
 
 
A acrobata 
Luz Marina Acosta era menininha quando descobriu o circo Firuliche. O 
circo  Firuliche  emergiu  certa  noite,  mágico  barco  de  luzes,  das  profundidades  do 
Lago da Nicarágua. Eram clarins guerreiros as cometas de papelão dos palhaços e 
bandeiras altas os farrapos que ondulavam anunciando a maior festa do mundo. A 
lona estava toda cheia de remendos, e também os leões, aposentados leões; mas a 
lona  era  um  castelo  e  os  leões,  os  reis  da  selva.  E  uma  senhora  rechonchuda, 
brilhante  de  lantejoulas,  era  a  rainha  dos  céus,  balançando  nos  trapézios  a  um 
metro do chão.
 
Então, Luz Marina decidiu tornar-se acrobata. E saltou de verdade, lá do 


alto, e em sua primeira acrobacia, aos seis anos de idade, quebrou as costelas.
 
E assim foi, depois, a vida. Na guerra, longa guerra contra a ditadura de 
Somoza, e nos amores: sempre voando, sempre quebrando as costelas.
 
Porque quem entra no circo Firuliche não sai jamais.
 
 
 
As flores 
O escritor brasileiro Nelson Rodrigues estava condenado à solidão. Tinha 
cara de sapo e língua de serpente, e a seu prestígio de feio e sua fama de venenoso 
somava-se a notoriedade de seu contagioso azar: as pessoas ao seu redor morriam 
de tiro, miséria ou infelicidade fatal.
 
Certo dia, Nelson conheceu Eleonora. Naquele dia, dia do descobrimento, 
quando  pela  primeira  vez  viu  aquela  mulher,  uma  violenta  alegria  atropelou-o  e 
deixou-o  abobado.  Então,  quis  dizer  alguma  de  suas  frases  brilhantes,  mas  as 
pernas  bambearam  e  a  língua  se  enrolou  e  não  conseguiu  outra  coisa  a  não  ser 
gaguejar ruidinhos.
 
Bombardeou-a de flores. Mandava flores para o apartamento dela, no alto 


de  um  edifício  do  Rio  de  Janeiro.  A  cada  dia  mandava  um  grande  ramo  de  flores, 
flores sempre diferentes, sem repetir jamais as cores ou aromas, e ficava esperando 
lá embaixo: lá de baixo via a varanda de Eleonora, e da varanda ela atirava as flores 
na rua, todos os dias, e os automóveis as esmagavam.
 
E  foi  assim  durante  cinqüenta  dias.  Até  que  um  dia,  um  meio-dia,  as 
flores que Nelson enviou não caíram na rua e não foram pisadas pelos automóveis.
 
Naquele meio-dia, ele subiu até o último andar, apertou a campainha e a 
porta se abriu.
 
 
As formigas 
Tracey  Hill  era  menina  num  povoado  de  Connecticut,  e  se  divertia  com 
diversões  próprias  de  sua  idade,  como  qualquer  outro  doce  anjinho  de  Deus  no 
estado de Connecticut ou em qualquer outro lugar deste planeta.
 
Um dia, junto a seus companheirinhos de escola, Tracey se pôs a atirar 
fósforos  acesos  num  formigueiro.  Todos  desfrutaram  muito  daquele  sadio 
entretenimento infantil; Tracey, porém, ficou impressionada com uma coisa que os 
outros  não  viram,  ou  fizeram  como  se  não  vissem,  mas  que  deixou-a  paralisada  e 
deixou nela, para sempre, um sinal na memória: frente ao fogo, frente ao perigo, as 
formigas  separavam-se  em  casais  e  assim,  de  duas  em  duas,  bem  juntinhas, 
esperavam a morte.
 
 
 
A avó 
A  avó  de  Bertha  Jensen  morreu  amaldiçoando.  Ela  tinha  vivido  a  vida 
inteira  na  ponta  dos  pés,  como  se  pedisse  perdão  por  incomodar,  consagrada  ao 
serviço  do  marido  e  à  sua  prole  de  cinco  filhos,  esposa  exemplar,  mãe  abnegada, 


silencioso  exemplo  de  virtude:  jamais  uma  queixa  saíra  de  seus  lábios,  e  muito 
menos um palavrão.
 
Quando  a  doença  derrubou-a,  chamou  o  marido,  sentou-o  na  frente  da 
cama,  e  começou.  Ninguém  suspeitava  que  ela  conhecesse  aquele  vocabulário  de 
marinheiro bêbado. A agonia foi longa. Durante mais de um mês, a avó, da cama, 
vomitou  um  incessante  jorro  de  insultos  e  blasfêmias  baixíssimas.  Até  a  sua  voz 
mudou.  Ela,  que  nunca  tinha  fumado  nem  bebido  outra  coisa  além  de  água  ou 
leite, xingava com vozinha rouca. E assim, xingando, morreu; e foi um alívio geral 
na família e na vizinhança.
 
Morreu  onde  havia  nascido,  na  aldeia  de  Dragor,  na  frente  do  mar,  na 
Dinamarca. Chamava-se Inge. Tinha uma linda cara de cigana. Gostava de vestir-se 
de vermelho e de navegar ao sol.
 
 
 
O avô 
Um  homem  chamado  Amando,  nascido  numa  aldeia  que  se  chama 
Salitre, no litoral do Equador, me deu de presente a história de seu avô.
 
Os tataranetos se revezavam no plantão. Na porta, tinham posto corrente 
e cadeado. Dom Segundo Hidalgo dizia que por isso padecia os ataques:
 
— Tenho reumatismo de gato castrado — queixava-se.
 
Aos  cem  anos  completos,  Dom  Segundo  aproveitava  qualquer  descuido, 
montava  em  pêlo  e  escapava  para  buscar  namoradas  por  aí.  Ninguém  entendia 
tanto  de  mulheres  e  de  cavalos.  Ele  tinha  povoado  esta  aldeia  de  Salitre,  e  a 
comarca, e a região, desde que foi pai pela primeira vez, aos treze anos.
 
O avô confessava trezentas mulheres, embora todo mundo soubesse que 
eram mais de quatrocentas. Mas uma, uma que se chamava Blanquita, tinha sido a 
mais mulher de todas.
 
Fazia  trinta  anos  que  Blanquita  tinha  morrido,  e  ele  ainda  a  convocava 
na  hora  do  crepúsculo.  Amando,  o  neto,  o  que  me  deu  esta  história  de  presente, 
escondia-se e espiava a cerimônia secreta. Na varanda, iluminado pela última luz, o 
avô  abria  uma  caixinha  de  pó-de-arroz  de  outros  tempos,  uma  caixa  redonda, 
daquelas com anjinhos rosados na tampa, e levava o algodão ao nariz:
 


 
 
 
 
— Acho que te conheço — murmurava, aspirando o leve perfume daquele 
pó-de arroz —. Acho que te conheço.
 
E balançava-se muito suavemente, murmurando na cadeira de balanço.
 
No pôr-do-sol de cada dia, o avô prestava sua homenagem à mais amada. 
E  uma  vez  por  semana,  a  traía.  Era  infiel  com  uma  gorda  que  cozinhava  receitas 
complicadíssimas na televisão. O avô, dono do primeiro e único televisor na aldeia 
de Salitre, não perdia nunca esse programa. Tomava banho e fazia a barba e vestia-
se  de  branco,  vestia-se  como  para  uma  festa,  o  melhor  chapéu,  as  botinas  de 
verniz,  o  colete  de  botões  dourados,  a  gravata  de  seda,  e  sentava-se  grudado  na 
tela. Enquanto a gorda batia seus cremes e erguia a colher, explicando os segredos 
de algum sabor único, exclusivo, incomparável, o avô piscava o olho e atirava beijos 
furtivos.  A  caderneta  de  poupança  aparecia  no  bolso  do  paletó.  O  avô  punha  a 
caderneta assim, insinuada, como que por distração, para que a gorda visse que ele 
não era um pé-rapado qualquer.
 
 
 
 
 


Fuga 
Dia desses, Maité Pinero, recém-chegada de El Salvador, trouxe a notícia: 
— Morreu.
 
Um  avião  inimigo  foi  mais  rápido  que  ele.  Quando  o  ataque  terminou, 
seus companheiros o enterraram. Foi enterrado ao anoitecer. Todos de costas, uns 
para os outros. Ninguém mostrava a cara.
 
Fuga  tinha  chegado  três  ou  quatro  anos  antes,  e  tinha  chegado  para 
ficar. Chegou ao amanhecer, nos dias da grande chuva, e tinha se plantado no meio 
do  acampamento,  debaixo  da  chuva,  e  a  chuva  o  metralhava  e  ele  continuava 
parado.
 
E continuava ah quando o dilúvio acabou: um burro, ou a estátua de um 
burro,  já  muito  golpeado  e  troncho,  que  com  seu  único  olho  olhava  de  maneira 
impassível  e  para  sempre.  Os  guerrilheiros  o  expulsaram.  Ele  foi  insultado, 
chutado, empurrado; não adiantou nada.
 
E assim ficou. Foi chamado de Fuga, porque era o mais veloz na hora de 
escapar,  no  escarcéu  dos  bombardeios.  Foi  mandado  para  longe,  em  difíceis 
missões de leva-e-traz, e voltava sempre. Os rapazes se mexiam noite e dia, de um 
lado  para  outro,  através  das  montanhas  queimadas  de  San  Miguel,  e  ele  os 
encontrava  sempre.  E  quando  o  exército  os  cercava,  Fuga  dava  um  jeito  para 
passar,  sem  dar  a  menor  bola,  pelos  campos  minados,  e  sem  dar  a  menor  bola 
atravessava  as  fileiras  com  seus  alforjes  carregados  de  café  e  tortillas  e  cigarros  e 
balas.
 
— Não vá nos trair, Fuga, — pediam a ele.
 
E ele os olhava, sem pestanejar, com seu único olho.
 
O  burrinho  conhecia  tudo.  Conhecia  as  bases  de  operações  e  os 
esconderijos  de  armas  e  víveres,  as  trilhas  e  os  atalhos,  o  cruzamento  escolhido 
para  a  próxima  emboscada;  e  também  conhecia  os  amigos  da  guerrilha  em  cada 
uma das aldeias. E mais, muito mais, todo o resto Fuga conhecia: ele era dono das 
confidencias.  Porque  o  burrinho  sabia  escutar  as  mágoas  e  as  dúvidas  e  as 
bandidagens secretas de cada guerrilheiro; e até os machos mais machos, homens 
de ferro calado, se permitiam chorar com ele.
 


 
 
Celebração da amizade/1 
Nos  subúrbios  de  Havana,  chamam  o  amigo  de  minha  terra  ou  meu 
sangue.  Em  Caracas,  o  amigo  é  minha  pada  ou  minha  chave:  pada,  por  causa  de 
padaria, a fonte do bom pão para as fomes da alma; e chave por causa de...
 
— Chave, por causa de chave — me conta Mario Benedetti.
 
E me conta que quando morava em Buenos Aires, nos tempos do horror, 
ele  usava  cinco  chaves  alheias  em  seu  chaveiro:  cinco  chaves,  de  cinco  casas,  de 
cinco amigos: as chaves que o salvaram.
 
 


 
 
Celebração da amizade/2 
Juan  Gelman  me  contou  que  uma  senhora  brigou  a  guarda-chuvadas, 
numa avenida de Paris, contra uma brigada inteira de funcionários municipais. Os 
funcionários  estavam  caçando  pombos  quando  ela  emergiu  de  um  incrível  Ford 
bigode,  um  carro  de  museu,  daqueles  que  funcionavam  à  manivela;  e  brandindo 
seu guarda-chuva, lançou-se ao ataque.
 
Agitando  os  braços  abriu  caminho,  e  seu  guarda-chuva  justiceiro 
arrebentou as redes onde os pombos tinham sido aprisionados. Então, enquanto os 
pombos fugiam em alvoroço branco, a senhora avançou a guarda-chuvadas contra 
os funcionários.
 
Os  funcionários  só  atinaram  em  se  proteger,  como  puderam,  com  os 
braços, e balbuciavam protestos que ela não ouvia: mais respeito, minha senhora, 
faça-me o favor, estamos trabalhando, são ordens superiores, senhora, por que não 
vai  bater  no  prefeito?,  Senhora,  que  bicho  picou  a  senhora?,  esta  mulher 
endoidou...
 
Quando  a indignada  senhora  cansou  o  braço, e  apoiou-se  numa parede 
para tomar fôlego, os funcionários exigiram uma explicação.
 
Depois de um longo silêncio, ela disse: — Meu filho morreu.
 


 
Os  funcionários  disseram  que  lamentavam  muito,  mas  que  eles  não 
tinham culpa. Também disseram que naquela manhã tinham muito o que fazer, a 
senhora compreende...
 
— Meu filho morreu — repetiu ela.
 
E  os  funcionários:  sim,  claro,  mas  que  eles  estavam  ganhando  a  vida, 
que existem milhões de pombos soltos por Paris, que os pombos são a ruína desta 
cidade...
 
— Cretinos — fulminou a senhora.
 
E longe dos funcionários, longe de tudo, disse:
 
— Meu filho morreu e se transformou em pombo.
 
Os  funcionários  calaram  e  ficaram  pensando  um  tempão.  Finalmente, 
apontando os pombos que andavam pelos céus e telhados e calçadas, propuseram:
 
— Senhora: por que não leva seu filho embora e deixa a gente trabalhar?
 
Ela ajeitou o chapéu preto:
 
— Ah!, não! De jeito nenhum!
 
Olhou  através  dos  funcionários, como  se  fossem  de vidro, e  disse  muito 
serena:
 
— Eu não sei qual dos pombos é meu filho. E se soubesse, também não ia 
levá-lo embora. Que direito tenho eu de separá-lo de seus amigos?
 
 
Gelman 
O  poeta  Juan  Gelman  escreve  erguendo-se  sobre  suas  próprias  ruínas, 
sobre seu pó e seu lixo. Os militares argentinos, cujas atrocidades humanas teriam 
provocado em Hitler um irremediável complexo de inferioridade, golpearam-no onde 


mais dói. Em 1976, seqüestraram seus filhos. Os filhos foram levados no lugar de 
Gelman.  A  filha,  Nora,  foi  torturada  e  solta.  O  filho,  Marcelo,  e  sua  companheira, 
que estava grávida, foram assassinados e desaparecidos.
 
No lugar dele: levaram os filhos porque ele não estava. Como se faz para 
sobreviver a uma tragédia destas? Digo: para sobreviver sem que a alma se apague. 
Muitas  vezes  me  perguntei  isso,  nesses  anos  todos.  Muitas  vezes  imaginei  essa 
horrível  sensação  de  vida  usurpada,  esse  pesadelo  do  pai  que  sente  que  está 
roubando do filho o ar que respira, o pai que no meio da noite desperta banhado em 
suor: Eu não te matei, eu não te matei. E me perguntei: se Deus existe, por que fica 
de fora? Não será Deus ateu?
 
 
A arte e o tempo 
Quem são os meus contemporâneos? — pergunta-se Juan Gelman. Juan 
diz  que  às  vezes  encontra  homens  que  têm  cheiro  de  medo,  em  Buenos  Aires,  em 
Paris  ou  em  qualquer  lugar,  e  sente  que  estes  homens  não  são  seus 
contemporâneos.  Mas  existe  um  chinês  que  há  milhares  de  anos  escreveu  um 
poema, sobre um pastor de cabras que está longe, muito longe da mulher amada e 
mesmo  assim  pode escutar,  no  meio  da noite,  no  meio  da neve, o  rumor  do pente 
em seus cabelos; e lendo esse poema remoto, Juan comprova que sim, que eles sim: 
que esse poeta, esse pastor e essa mulher são seus contemporâneos.
 
 
 
Profissão de fé 
Sim, sim, por mais machucado e fodido que a gente possa estar, sempre 
é  possível  encontrar  contemporâneos  em  qualquer  lugar  do  tempo  e  compatriotas 
em qualquer lugar do mundo. E sempre que isso acontece, e enquanto isso dura, a 
gente tem a sorte de sentir que é algo na infinita solidão do universo: alguma coisa 
a  mais  que  uma  ridícula  partícula  de  pó,  alguma  coisa  além  de  um  momentinho 
fugaz.
 


 
 
 
Cortázar
 
Com  um  braço  abraçara  a  nós  dois.  O  braço  era  longuíssimo,  como 
antes,  mas  o  resto  tinha  se  reduzido  muito,  e  por  isso  Helena  o  sonhava  com 


desconfiança,  entre  acreditando  e  desacreditando.  Júlio  Cortázar  explicava  que 
tinha  conseguido  ressuscitar  graças  a  uma  máquina  japonesa,  que  era  muito  boa 
mas que ainda estava em fase de experiência, e que por um erro a máquina tinha 
deixado-o anão.
 
Júlio  contava  que  as  emoções  dos  vivos  chegam  aos  mortos  como  se 
fossem  cartas,  e  que  ele  tinha  querido  voltar  à  vida  por  causa  da  muita  pena  que 
lhe dava a pena que sua morte nos havia causado. Além disso, dizia, estar morto é 
uma coisa chata. Júlio dizia que andava com vontade de escrever um conto sobre o 
assunto.
 
 
Crônica da cidade de Montevidéu 
Júlio  César  Puppo,  conhecido  como  Lenhador,  e  Alfredo  Gravina  se 
encontraram  ao  anoitecer,  num  café  do  bairro  de  Villa  Dolores.  Assim,  por  acaso, 
descobriram que eram vizinhos:
 
— Tão pertinho, e sem saber. Ofereceram-se uma bebida, e outra.
 
— Você está muito bem.
 
— Qual o quê...
 
E  passaram  umas  poucas  horas  e  uns  muitos  copos  falando  do  tempo 
enlouquecido  e  de  como  a  vida  andava  custando  os  olhos  da  cara,  dos  amigos 
perdidos e dos lugares que já não são, memórias dos anos moços:
 
— Você lembra?
 
— E se lembro...
 
Quando finalmente o café fechou, Gravina acompanhou o Lenhador até a 
porta de sua casa. Mas depois o Lenhador quis retribuir:
 
— Te acompanho.
 
— Ora, não se incomode.
 
— Mas se é um prazer...
 
E nesse vai-e-vem passaram a noite inteira. Às vezes paravam, por causa 
de alguma recordação súbita ou porque a estabilidade deixava muito a desejar, mas 
em seguida continuavam na ida e volta de esquina a esquina, da casa de um à casa 
do  outro,  de  uma  porta  à  outra,  como  que  trazidos  e  levados  por  um  pêndulo 
invisível, acarinhando-se sem dizer nada e abraçando-se sem se tocar.
 


 
A cerca de arame 
A  meia-noite  da  noite,  mais  gelada  do  ano  chegou,  súbita,  violenta,  a 
ordem de formar fila. Aquela era a noite mais gelada daquele ano e de muitos anos, 
e uma névoa inimiga mascarava tudo.
 
Aos gritos, debaixo de golpes das armas, os presos foram postos de cara 
contra a cerca de arame que rodeava as barracas. Das torres de vigia, os refletores 
atravessavam a névoa e lentamente percorriam a longa fileira de uniformes cor-de-
cinza, mãos crispadas e cabeças rapadas a zero.
 
Dar  meia  volta  era  proibido.  Os  presos  escutaram  ruídos  de  botas 
correndo e os sons metálicos das metralhadoras sendo armadas. Depois, silêncio.
 
Naqueles dias, tinha corrido na prisão o rumor:
 
— Vão matar a gente.
 
Mario  Dufort  era  um  daqueles  presos,  e  estava  suando  gelo.  Tinha  os 
braços  abertos,  como  todos,  com  as  mãos  agarrando  a  cerca:  como  ele  estava 
tremendo,  a  cerca  de  arame  tremia.  Tremo  de  frio,  disse  a  si  mesmo,  e  repetiu;  e 
não acreditou.
 
E  teve  vergonha  de  seu  medo.  Sentiu-se  incomodado  por  aquele 
espetáculo que estava dando na frente dos companheiros. E soltou as mãos.
 


Mas  a  cerca  de  arame  continuou  tremendo.  Sacudida  pelas  mãos  de 
todos os outros, a cerca de arame continuou tremendo.
 
E então, Mario compreendeu.
 
 
 
O céu e o inferno 
Cheguei  a  Bluefíelds,  no  litoral  da  Nicarágua,  no  dia  seguinte  a  um 
ataque  dos  contras.  Havia  muitos  mortos  e  feridos.  Eu  estava  no  hospital  quando 
um dos sobreviventes do tiroteio, um garoto, despertou da anestesia: despertou sem 
braços, olhou o médico e pediu:
 
— Me mate.
 
Fiquei com um nó no estômago.
 
Naquela  noite,  noite  atroz,  o  ar  fervia  de  calor.  Eu  me  estendi  num 
terraço,  sozinho,  olhando  o  céu.  Não  longe  dali,  a  música  soava  forte.  Apesar  da 
guerra, apesar de tudo, a cidade de Bluefields estava celebrando a festa tradicional 
do Paio de Mayo. A multidão dançava, jubilosa, ao redor da árvore cerimonial. Mas 
eu, estendido no terraço, não queria escutar a música nem queria escutar nada, e 
estava tentando não sentir, não recordar, não pensar: em nada, em nada de nada. 
E estava naquilo, espantando sons e tristezas e mosquitos, com os olhos pregados 
na noite alta, quando um menino de Bluefíelds, que eu não conhecia, estendeu-se 
ao meu lado e começou a olhar o céu, como eu, em silêncio.
 
Então, passou uma estrela cadente. Eu podia ter pedido um desejo; mas 
não lembrei.
 
O menino me explicou:
 
—  Você  sabe  por  que  as  estrelas  caem?  A  culpa  é  de  Deus.  Deus  gruda 
elas mal. Ele gruda as estrelas com cola de arroz.
 
Amanheci dançando.
 


 
Crônica da cidade de Manágua 
O  comandante  Tomás  Borge  me  convidou  para  jantar.  Eu  não  o 
conhecia. Tinha fama de ser o mais duro de todos, o mais temido. Havia mais gente 
no  jantar,  gente  linda;  ele  falou  pouco  ou  nada.  Ficou  me  olhando,  ficou  me 
medindo.
 
Na  segunda  vez,  jantamos  sozinhos.  Tomás  estava  mais  aberto: 
respondeu  muito  solto  minhas  perguntas  sobre  os  velhos  tempos  da  fundação  da 
Frente Sandinista. E à meia-noite, como quem não quer nada, me disse:
 
— Agora, conta um filme para mim.
 
Eu me defendi. Expliquei que morava em Calella, uma cidadezinha, onde 
o cinema quase não chegava, só filmes velhos...
 
— Conta — insistiu, ordenou —. Qualquer filme, qualquer um, mesmo que 
seja velho.
 
Então  contei  uma  comédia.  Contei,  atuei;  tentei  resumir,  mas  ele  exigia 
detalhes. Quando terminei:
 
— Agora, outro.
 
Contei um de gângster, que acabava mal.
 
— Outro.
 
Contei um de cowboys.
 
 
 
— Outro.
 
Contei, inventando de cabo a rabo, um de amor.
 
Acho  que  estava  amanhecendo  quando  me  dei  por  vencido,  supliquei 
clemência e fui dormir.
 


Encontrei-o uma semana depois. Tomás pediu desculpas:
 
—  Espremi  você,  naquela  noite.  É  que  eu  gosto  muito  de  cinema,  gosto 
loucamente, e nunca posso ir.
 
Disse  que  qualquer  um  podia  entender.  Ele  era  ministro  de  Interior  da 
Nicarágua,  em  plena  guerra;  o  inimigo  não  dava  trégua  e  não  havia  tempo  para 
luxos como ir ao cinema.
 
—  Não,  não  —  me  corrigiu  —.  Tempo,  tenho.  Tempo...  a  gente  sempre 
consegue,  quando  quer.  Não  é  uma  questão  de  tempo.  Antes,  quando  eu  estava 
clandestino, disfarçado, dava um jeito para ir ao cinema. Mas agora...
 
Não perguntei. Houve um silêncio, ele continuou:
 
— Não posso ir ao cinema porque... porque no cinema, eu choro.
 
— Ah!-- disse —. Eu também.
 
—  Claro  —  respondeu  —.  Percebi  na  hora.  Na  primeira  vez  que  vi  você, 
pensei: "Esse é dos que choram no cinema".
 
 
O desafio 
―  Não  conseguiram  nos  transformar  em  eles  —  escreveu-me  Cacho  El 
Kadri. Eram os últimos tempos das ditaduras militares na Argentina e no Uruguai. 
Tínhamos comido medo no café da manhã, medo no almoço e no jantar, medo; mas 
não tinham conseguido nos transformar em eles.
 
 
Celebração da coragem/1 
Gabriel  Caro,  colombiano,  que  lutou  na  Nicarágua,  conta  que  ao  lado 
dele caiu um suíço, destroçado por uma rajada de metralhadora; e ninguém sabia 
como era o nome do suíço. Aconteceu na Frente Sul, um par de noites ao norte do 
rio San Juan, pouco antes da derrota da ditadura de Somoza. Ninguém sabia o seu 
nome, ninguém sabia nada daquele calado miliciano louro que tinha ido tão longe 
para  morrer  na  Nicarágua,  pela  revolução,  pela  lua.  O  suíço  caiu  gritando  uma 
coisa que ninguém entendeu, caiu gritando: — Viva Bakunin!
 
E  enquanto  ouço  Gabriel  contando  a  história  do  suíço,  minha  memória 
se  acende.  Há  anos,  em  Montevidéu,  Carlos  Bonavita  me  falou  de  um  tio  dele,  ou 
tio-avô,  que  redigia  os  relatos  de  batalha  nos  tempos  das  guerras  gaúchas  nas 
pradarias do Uruguai. Andava aquele tio ou tio-avô contando mortos na beira do rio 
onde  uma  batalha,  não  sei  qual,  tinha  acontecido.  Pela  cor  das  fitas  que  os 
soldados  usavam  nos  cabelos,  reconhecia  os  grupos.  Estava  fazendo  isso  quando 


viu um cadáver e ficou paralisado. Era um soldado de poucos anos, era um anjo de 
olhos  tristes.  Sobre  os  cabelos  negros,  vermelhos  de  sangue,  a  fita  branca  dizia- 
Pela pátria e por ela. A bala tinha entrado na palavra ela.
 
 
Celebração da coragem/2 
Perguntei a ele se tinha visto algum fuzilamento. Sim, tinha visto. Chino 
Heras  tinha  visto  um  coronel  ser  fuzilado,  no  final  de  1960,  no  quartel  de  La 
Cabana. A ditadura de Batista tinha muitos carrascos, coisa ruim a serviço da dor e 
da morte; e aquele coronel era um dos muitos, um dos piores.
 
Estávamos  em  meu  quarto,  numa  roda  de  amigos,  em  um  hotel  de 
Havana.  Chino  contou  que  o  coronel  não  tinha  querido  que  vendassem  os  seus 
olhos, e sua última vontade não fora um cigarro: o coronel pediu que o deixassem 
comandar seu próprio fuzilamento.
 
O  coronel  gritou:  Preparar!  e  gritou:  Apontar!  Quando  ia  gritar:  Fogo!,  o 
fuzil de um dos soldados travou. Então o coronel interrompeu a cerimônia.
 
— Calma — disse para a fila dupla de homens que deviam matá-lo. Eles 
estavam tão próximos que quase podia tocá-los.
 
— Calma — disse —. Não fiquem nervosos. 
E  novamente  mandou  preparar  armas,  e  mandou  apontar,  e  quando 
estava tudo em ordem, mandou disparar. E caiu.
 
Chino  contou  esta  morte  do  coronel,  e  ficamos  calados.  Éramos  vários 
naquele quarto, e todos nos calamos.
 
Esticada  feito  uma  gata  sobre  a  cama,  havia  uma  moça  de  vestido 
vermelho. Não recordo seu nome. Recordo suas pernas. Ela tampouco disse nada.
 
Passaram-se  duas  ou  três  garrafas  de  rum  e  no  fim,  todo  mundo  foi 
dormir. Ela também. Antes de ir embora, da porta entreaberta, olhou para o Chino, 
sorriu e agradeceu:
 
— Obrigada — disse — Eu não conhecia os detalhes. Obrigada por ter me 
contado.
 
Depois soubemos que o coronel era pai da moça.
 
Uma morte digna é sempre uma boa história para se contar, mesmo que 
seja  a  morte  digna  de  um  filho  da  puta.  Mas  eu  quis  escrevê-la,  e  não  consegui. 
Passou o tempo e esqueci.
 
Da moça, nunca mais ouvi falar. 
 


Celebração da coragem/3 
Sérgio Vuskovic me conta os últimos dias de José Tohá. — Suicidou-se — 
disse o general Pinochet —. O governo não pode garantir a imortalidade de ninguém 
— escreveu um jornalista da imprensa oficial.
 
— Estava magro por causa dos nervos — declarou o general Leigh.
 
Os generais chilenos odiavam-no. Tohá tinha sido ministro da Defesa no 
governo Allende, e conhecia os seus segredos.
 
Estava num campo de concentração, na ilha de Dawson, ao sul do sul.
 
Os  prisioneiros  estavam  condenados  a  trabalhos  forçados.  Debaixo  da 
chuva,  metidos  no  barro  ou  na  neve,  os  prisioneiros  carregavam  pedras,  erguiam 
muros,  colocavam  encanamentos,  pregavam  postes  e  estendiam  cercas  de  arame 
farpado.
 
Tohá, que tinha um metro e noventa de altura, estava pesando cinqüenta 
quilos. Nos interrogatórios, desmaiava. Era interrogado sentado numa cadeira, com 
os  olhos  vendados.  Quando  despertava,  não  tinha  forças  para  falar,  mas 
sussurrava:
 
— Escute, oficial. Sussurrava:
 
— Viva os pobres do mundo.
 
Estava  há  algum  tempo  tombado  na  barraca,  quando  um  dia  levantou-
se. Foi o último dia em que se levantou.
 
Fazia  muito  frio,  como  sempre,  mas  havia  sol.  Alguém  conseguiu  café 
bem quente para ele e o negro Jorquera assoviou para ele um tango de Gardel, um 
daqueles velhos tangos dos quais ele tanto gostava.
 
As  pernas  tremiam,  e  a  cada  passo  os  joelhos  se  dobravam,  mas  Tohá 
dançou  aquele  tango.  Dançou-o  com  uma  vassoura,  magra  como  ele,  ele  e  a 
vassoura, ele encostando o cabo da vassoura em sua cara de fidalgo cavalheiro, os 
olhinhos  fechados,  até  que  numa  volta  caiu  ao  chão  e  já  não  conseguiu  mais 
levantar. Nunca mais foi visto.
 
 
 


 


Celebração da coragem/4 
A  direita  mesquinha  e  a  esquerda  puritana  dedicam  boa  parte  de  seus 
fervores discutindo se Salvador Allende suicidou-se ou não.
 
Allende  tinha  anunciado  que  não  sairia  vivo  do  palácio  presidencial.  Na 
América Latina, é tradição: todos dizem a mesma coisa. Depois, na hora do golpe de 
Estado, correm para o primeiro avião.
 
Tinham-se passado muitas horas de bombas e fogo e Allende continuava 
combatendo  entre  os  escombros.  Então  chamou  seus  colaboradores  mais  íntimos, 
que resistiam com ele, e disse:
 
— Desçam, que eu já vou.
 
Eles acreditaram e foram embora, e Allende ficou sozinho no palácio em 
chamas.
 
Que importa de quem foi o dedo que disparou a bala final?
 
 


 
Um músculo secreto 
No  meio-dia  da  memória,  um  meio-dia  do  exílio.  Eu  estava  escrevendo, 
ou  lendo,  ou  me  aborrecendo  em  minha  casa  no  litoral  de  Barcelona,  quando  o 
telefone tocou e o telefone me trouxe, cheio de assombro, a voz de Fico.
 
Fazia mais de dois anos que Fico estava preso, fora solto no dia anterior. 
O  avião  o  trouxera  da  cela  de  Buenos  Aires  para  o  aeroporto  de  Londres.  Do 
aeroporto ele me telefonava pedindo que fosse vê-lo, venha no primeiro avião, tenho 
muita  coisa  para  contar,  tanta  coisa  para  falar,  mas  uma  coisa  eu  quero  dizer  já, 
quero que você saiba:
 
— Não me arrependo de nada.
 
Naquela mesma noite nos encontramos em Londres.
 
No  dia  seguinte,  acompanhei-o  ao  dentista.  Não  tinha  remédio.  Os 
choques elétricos nas câmaras de tortura afrouxaram seus dentes de cima, e podia 
dar aqueles dentes por perdidos.
 
Fico Vogelius era o empresário que financiara a revista Crisis, e não havia 
posto  somente  dinheiro,  mas  a  alma  e  a  vida  naquela  aventura,  e  me  dera  plena 
liberdade para fazer a revista do jeito que eu quisesse. Enquanto durou, três anos e 
pouco,  quarenta  números,  Crisis  soube  ser  um  teimoso  ato  de  fé  na  palavra 
solidária e criativa, aquela que não é nem finge ser neutra, a voz humana que não é 
eco nem soa só por soar.
 
Por  causa  desse  delito,  pelo  imperdoável  delito  de  Crísis,  a  ditadura 
militar argentina seqüestrou Fico, e o encarcerou e torturou; e ele salvara a vida por 
um  fio,  graças  ao  fato  de  ter  conseguido  gritar  o  próprio  nome  enquanto  era 
seqüestrado.
 
A  revista  havia  caído  sem  se  curvar,  e  nós  estávamos  orgulhosos  dela. 
Fico  tinha  uma  garrafa  de  sei  lá  qual  vinho  francês  antigo  e  bem-amado.  Com 
aquele  vinho  brindamos,  em  Londres,  à  saúde  do  passado,  que  continuava  sendo 
um companheiro digno de confiança.
 
Depois,  alguns  anos  depois,  acabou-se  a  ditadura  militar.  E  em  1985, 
Fico  decidiu  que  Crísis  devia  ressuscitar.  E  estava  cuidando  disso,  outra  vez 
disposto a queimar tempo e dinheiro, quando ficou sabendo que tinha um câncer.
 
Consultou  vários  médicos,  em  vários  países.  Uns  lhe  davam  vida  até 
outubro,  outros  até  novembro.  De  novembro  não  passa,  sentenciavam  todos.  Ele 
estava  cadavérico,  tremendo  de  operação  a  operação;  mas  um  brilho  de  desafio 


acendia seus olhos.
 
Crísis  reapareceu em abril  de  86.  E  no  dia seguinte  ao  renascimento de 
Crísis, meio ano depois de todos os prognósticos, Fico deixou-se morrer.
 
 
 
Outro músculo secreto 
Nos últimos anos, a Avó estava se dando muito mal com o próprio corpo. 
Seu corpo, corpo de aranhinha cansada, negava-se a segui-la. — Ainda bem que a 
mente  viaja  sem  passagem  —  dizia.  Eu  estava  longe,  no  exílio.  Em  Montevidéu,  a 
Avó  sentiu  que  tinha  chegado  a  hora  de  morrer.  Antes  de  morrer,  quis  visitar  a 
minha casa com corpo e tudo.
 
Chegou  de  avião,  acompanhada  pela  minha  tia  Emma.  Viajou  entre  as 
nuvens, entre as ondas, convencida de que estava indo de barco; e quando o avião 
atravessou uma tempestade, achou que estava numa carruagem, aos pulos, sobre a 
estrada de pedras.
 
Ficou em casa um mês. Comia mingaus de bebê e roubava caramelos. No 
meio da noite despertava e queria jogar xadrez ou brigava com meu avô, que tinha 
morrido  há  quarenta  anos.  Às  vezes  tentava  alguma  fuga  até  a  praia,  mas  suas 
pernas se enroscavam antes que ela chegasse na escada.
 
No final, disse:
 
— Agora, já posso morrer.
 
Disse  que  não  ia  morrer  na  Espanha.  Queria  evitar  que  eu  tivesse  a 
trabalheira  burocrática,  o  transporte  do  corpo,  aquilo  tudo:  disse  que  sabia  muito 
bem que eu odiava a burocracia.
 
E regressou a Montevidéu. Visitou a família toda, casa por casa, parente 
por parente, para que todos vissem que tinha regressado muito bem e que a viagem 
não tinha culpa. E então, uma semana depois de ter chegado, deitou-se e morreu.
 
Os  filhos  jogaram  as  suas  cinzas  debaixo  da  árvore  que  ela  tinha 
escolhido.
 
Às vezes, a Avó vem me ver nos sonhos. Eu caminho na beira de um rio e 
ela é um peixe que me acompanha deslizando suave, suave, pelas águas. 


 
 
 
A festa 
Estava  suave  o  sol,  o  ar  limpo  e  o  céu  sem  nuvens.  Afundado  na  areia, 
um  caldeirão  de  barro  fumegava.  No  caminho  entre  o  mar  e  a  boca,  os  camarões 
passavam  pelas  mãos  de  Zé  Fernando,  mestre  de  cerimônias,  que  os  banhava  em 
água-benta de sal e cebolas e alho.
 
Havia bom vinho. Sentados em roda, amigos compartilhávamos o vinho e 
os camarões e o mar que se abria, livre e luminoso, aos nossos pés.
 
Enquanto acontecia, essa alegria estava já sendo recordada pela memória 
e  sonhada  pelo  sonho.  Ela  não  terminaria  nunca,  e  nós  tampouco,  porque  somos 
todos mortais até o primeiro beijo e o segundo copo, e qualquer um sabe disso, por 
menos que saiba.
 
 
As impressões digitais 
Eu  nasci  e  cresci  debaixo  das  estrelas  do  Cruzeiro  do  Sul.  Aonde  quer 
que  eu  vá,  elas  me  perseguem.  Debaixo  do  Cruzeiro  do  Sul,  cruz  de  fulgores,  vou 
vivendo as estações de meu destino.
 
Não  tenho  nenhum  deus.  Se  tivesse,  pediria  a  ele  que  não  me  deixe 
chegar  à  morte:  ainda  não.  Falta  muito  o  que  andar.  Existem  luas  para  as  quais 
ainda  não  lati  e  sóis  nos  quais  ainda  não  me  incendiei.  Ainda  não  mergulhei  em 
todos  os  mares  deste  mundo,  que  dizem  que  são  sete,  nem  em  todos  os  rios  do 
Paraíso, que dizem que são quatro.
 
Em  Montevidéu,  existe  um  menino  que  explica:  —  Eu  não  quero  morrer 
nunca, porque quero brincar sempre.
 


 
 
 
O ar e o vento 
Pelos caminhos vou, como o burrinho de São Fernando, um pouquinho a 
pé e outro pouquinho andando. Às vezes me reconheço nos demais. Me reconheço 
nos que ficarão, nos amigos abrigos, loucos lindos de justiça e bichos voadores da 
beleza e demais vadios e mal cuidados que andam por aí e que por aí continuarão, 
como  continuarão  as  estrelas  da  noite  e  as  ondas  do  mar.  Então,  quando  me 
reconheço neles, eu sou ar aprendendo a saber-me continuado no vento.
 
Acho que foi Vallejo, César Vallejo, que disse que às vezes o vento muda 
de ar.
 
Quando eu já não estiver, o vento estará, continuará estando.
 


A ventania 
Assovia  o  vento  dentro  de  mim.  Estou  despido.  Dono  de  nada,  dono  de 
ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a 
contra-vento, e sou o vento que bate em minha cara.
 
 
 
(“orelhas” do livro) 
A BELEZA E A EMOÇÃO DOS "PEQUENOS MOMENTOS"
 
 
Tratar  a  memória  como  coisa  viva,  bicho  inquieto:  assim  faz  Eduardo 
Galeano  quando  escreve.  Sua  memória  pessoal  e  a  nossa  memória  coletiva,  da 
América.  Quando  escreve,  ele  mostra  que  a  história  pode  -  e  deve  -  ser  contada  a 
partir  de  pequenos  momentos,  aqueles  que  sacodem  a  alma  da  gente  sem  a 
grandiloqüência dos heroísmos de gelo, mas com a grandeza da vida.
 
Assim  é  este  O  livro  dos  abraços.  Em  suas  andanças  incessantes  de 
caçador  de  histórias,  Galeano  vai  ouvindo  tudo.  O  que  de  melhor  ouviu  ele 
transforma  em  livros  como  este,  onde  lembra  como  são  grandes  os  pequenos 
momentos e como eles vão se abraçando, traçando a vida.
 
A  memória  viva,  diz Galeano,  nasce  a  cada dia.  Ele  diz e  demonstra  em 
livros como As veias abertas da América Latina, Dias e noites de amor e guerra, Os 
nascimentos, As caras e as máscaras, O século do tempo e, agora, neste O livros dos 
abraços.  Nada  que  possa  ser  dito  numa  apresentação  é  capaz  de  chegar  perto  da 
beleza  e  da  emoção  que  estas  páginas  contêm.  Abra  este  livro  com  cuidado:,ele  é 
delicado e afiado como a própria vida. Pode afagar, pode cortar. Mas seja como for, 
como a própria vida, vale a pena.
 


Os editores
 
 
Eduardo  Galeano  nasceu  em  Montevidéu,  Uruguai,  em  1940.  Em  sua 
cidade  natal  foi  chefe  do  semanário  Marcha  e  diretor  do  jornal  Época.  Em  Buenos 
Aires,  Argentina,  fundou  e  dirigiu  a  revista  Crisis.  Esteve  exilado  na  Argentina  e 
Espanha desde 1973; no início de 1985 regressou ao Uruguai. Desde então reside 
em Montevidéu. E autor de vários livros, traduzidos em mais de vinte línguas, e de 
uma  profusa  obra  jornalística.  Recebeu  o  prêmio  Casa  das  Américas  em  1975  e 
1978 e o  prêmio  Aloa  dos editores  dinamarqueses em  1993. A  trilogia  Memória  do 
Fogo foi premiada pelo Ministério da Cultura do Uruguai e recebeu o American Book 
Award (Washington University, USA) em 1989.
 
Em  abril  de  1999,  foi  distinguido  com  o  Prêmio  a  Liberdade  da  Cultura, 
outorgado, em  sua edição  inaugural,  pela  Fundação  Lannan,  dos  Estados  Unidos.
 


E
E
s
s
t
t
a
a
 
 
o
o
b
b
r
r
a
a
 
 
f
f
o
o
i
i
 
 
d
d
i
i
g
g
i
i
t
t
a
a
l
l
i
i
z
z
a
a
d
d
a
a
 
 
p
p
e
e
l
l
o
o
 
 
g
g
r
r
u
u
p
p
o
o
 
 
D
D
i
i
g
g
i
i
t
t
a
a
l
l
 
 
S
S
o
o
u
u
r
r
c
c
e
e
 
 
p
p
a
a
r
r
a
a
 
 
p
p
r
r
o
o
p
p
o
o
r
r
c
c
i
i
o
o
n
n
a
a
r
r
,
,
 
 
d
d
e
e
 
 
m
m
a
a
n
n
e
e
i
i
r
r
a
a
 
 
t
t
o
o
t
t
a
a
l
l
m
m
e
e
n
n
t
t
e
e
 
 
g
g
r
r
a
a
t
t
u
u
i
i
t
t
a
a
,
,
 
 
o
o
 
 
b
b
e
e
n
n
e
e
f
f
í
í
c
c
i
i
o
o
 
 
d
d
e
e
 
 
s
s
u
u
a
a
 
 
l
l
e
e
i
i
t
t
u
u
r
r
a
a
 
 
à
à
q
q
u
u
e
e
l
l
e
e
s
s
 
 
q
q
u
u
e
e
 
 
n
n
ã
ã
o
o
 
 
p
p
o
o
d
d
e
e
m
m
 
 
c
c
o
o
m
m
p
p
r
r
á
á
-
-
l
l
a
a
 
 
o
o
u
u
 
 
à
à
q
q
u
u
e
e
l
l
e
e
s
s
 
 
q
q
u
u
e
e
 
 
n
n
e
e
c
c
e
e
s
s
s
s
i
i
t
t
a
a
m
m
 
 
d
d
e
e
 
 
m
m
e
e
i
i
o
o
s
s
 
 
e
e
l
l
e
e
t
t
r
r
ô
ô
n
n
i
i
c
c
o
o
s
s
 
 
p
p
a
a
r
r
a
a
 
 
l
l
e
e
r
r
.
.
 
 
D
D
e
e
s
s
s
s
a
a
 
 
f
f
o
o
r
r
m
m
a
a
,
,
 
 
a
a
 
 
v
v
e
e
n
n
d
d
a
a
 
 
d
d
e
e
s
s
t
t
e
e
 
 
e
e
-
-
b
b
o
o
o
o
k
k
 
 
o
o
u
u
 
 
a
a
t
t
é
é
 
 
m
m
e
e
s
s
m
m
o
o
 
 
a
a
 
 
s
s
u
u
a
a
 
 
t
t
r
r
o
o
c
c
a
a
 
 
p
p
o
o
r
r
 
 
q
q
u
u
a
a
l
l
q
q
u
u
e
e
r
r
 
 
c
c
o
o
n
n
t
t
r
r
a
a
p
p
r
r
e
e
s
s
t
t
a
a
ç
ç
ã
ã
o
o
 
 
é
é
 
 
t
t
o
o
t
t
a
a
l
l
m
m
e
e
n
n
t
t
e
e
 
 
c
c
o
o
n
n
d
d
e
e
n
n
á
á
v
v
e
e
l
l
 
 
e
e
m
m
 
 
q
q
u
u
a
a
l
l
q
q
u
u
e
e
r
r
 
 
c
c
i
i
r
r
c
c
u
u
n
n
s
s
t
t
â
â
n
n
c
c
i
i
a
a
.
.
 
 
A
A
 
 
g
g
e
e
n
n
e
e
r
r
o
o
s
s
i
i
d
d
a
a
d
d
e
e
 
 
e
e
 
 
a
a
 
 
h
h
u
u
m
m
i
i
l
l
d
d
a
a
d
d
e
e
 
 
é
é
 
 
a
a
 
 
m
m
a
a
r
r
c
c
a
a
 
 
d
d
a
a
 
 
d
d
i
i
s
s
t
t
r
r
i
i
b
b
u
u
i
i
ç
ç
ã
ã
o
o
,
,
 
 
p
p
o
o
r
r
t
t
a
a
n
n
t
t
o
o
 
 
d
d
i
i
s
s
t
t
r
r
i
i
b
b
u
u
a
a
 
 
e
e
s
s
t
t
e
e
 
 
l
l
i
i
v
v
r
r
o
o
 
 
l
l
i
i
v
v
r
r
e
e
m
m
e
e
n
n
t
t
e
e
.
.
 
 
A
A
p
p
ó
ó
s
s
 
 
s
s
u
u
a
a
 
 
l
l
e
e
i
i
t
t
u
u
r
r
a
a
 
 
c
c
o
o
n
n
s
s
i
i
d
d
e
e
r
r
e
e
 
 
s
s
e
e
r
r
i
i
a
a
m
m
e
e
n
n
t
t
e
e
 
 
a
a
 
 
p
p
o
o
s
s
s
s
i
i
b
b
i
i
l
l
i
i
d
d
a
a
d
d
e
e
 
 
d
d
e
e
 
 
a
a
d
d
q
q
u
u
i
i
r
r
i
i
r
r
 
 
o
o
 
 
o
o
r
r
i
i
g
g
i
i
n
n
a
a
l
l
,
,
 
 
p
p
o
o
i
i
s
s
 
 
a
a
s
s
s
s
i
i
m
m
 
 
v
v
o
o
c
c
ê
ê
 
 
e
e
s
s
t
t
a
a
r
r
á
á
 
 
i
i
n
n
c
c
e
e
n
n
t
t
i
i
v
v
a
a
n
n
d
d
o
o
 
 
o
o
 
 
a
a
u
u
t
t
o
o
r
r
 
 
e
e
 
 
a
a
 
 
p
p
u
u
b
b
l
l
i
i
c
c
a
a
ç
ç
ã
ã
o
o
 
 
d
d
e
e
 
 
n
n
o
o
v
v
a
a
s
s
 
 
o
o
b
b
r
r
a
a
s
s
.
.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
http://groups.google.com.br/group/digitalsource
 
http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
 
 



Compartilhe com seus amigos:


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal