Edson saggese



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SAGGESE, Edson Guimarães. Adolescência e psicose: transformações sociais e os desafios da clínica. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001. 160 p.

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ADOLESCÊNCIA E PSICOSE

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EDSON SAGGESE

ADOLESCÊNCIA E PSICOSE

TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS E OS DESAFIOS DA CLÍNICA

Companhia de Freud

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Copyright © by Editora Campo Matêmico

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S129a


Saggese,Edson.

Adolescência e Psicose transformações sociais e os desafios da clínica / Edson Saggese . — Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2001.

164p. 23 cm

JSBN 85-85717-55-6

1. Psicanálise. 1. Título.

CDD - 150.195

Companhia de Freud - editora

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Eu dedico este livro à Gustavo, Bruno e Eliza.

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ÍNDICE


INTRODUÇÃO – 9

1 - SUJEITO, PSICOSE E PSICANÁLISE – 13

Da loucura à psicose – 14

O desafio epistemológico da experiência psicótica ou a razão entre Descartes e Freud – 26

Psicose e psicanálise – 36

2 - ADOLESCÊNCIA, SOCIEDADE E INDIVÍDUO – 55

Família, sociabilidade e as idades da vida – 55

Individualismo e adolescência – 64

Identidade e identificação – 77

3 - ADOLESCÊNCIA E PSICOSE – 91

O (des)caminho do meio – 94

Diagnóstico de (s)estrutura na adolescência – 108

Travessia e queda: o desencadeamento da psicose na adolescência – 122

Destinos: os adolescentes psicóticos, seus impasses e avanços – 136

4 – CONCLUSÃO – 151

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS – 155

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INTRODUÇÃO

Mudança, transformação acelerada: nunca essas questões foram tão destacadas como neste século. Não é mais necessária a passagem de gerações para o aparecimento do novo. O mundo vive a era do pós-tudo: pós-moderno, pós-industrial, pós-freudiano, pós-marxista... Rapidamente a população mundial se torna predominantemente urbana. O papel da mulher na sociedade sofre dramática mudança com a ruptura do seu confinamento ao mundo doméstico e sua entrada no mercado de trabalho. As revoluções tecnológicas se sucedem com graves repercussões na vida dos indivíduos, como no caso da maciça restrição do mercado de trabalho causada pelo uso intensivo da informática e da robótica. Nesse contexto globalmente crítico, o que significaria a expressão crise da adolescência? Como delimitar os parâmetros de normalidade, constatar que foram ultrapassados e classificar um adolescente como psicótico?

A época em que vivemos diferencia-se de outras sobretudo pela dificuldade em se apelar a uma ordem simbólica imutável e universal, ordenada por princípios supremos que sirvam de paradigma à existência do sujeito. Berman (1990), no seu ensaio Tudo que é sólido desmancha no ar, aponta que juntamente com a comunidade e a sociedade, a própria individualidade pode estar desmanchando no ar moderno (p. 108). Para entendermos a crise da adolescência devemos acompanhar a transformação do processo de constituição do sujeito nas modernas sociedades individualistas, com a progressiva nuclearização da família, a construção de um novo esquema de periodizar a vida, enfim, todo o conjunto de transformações que, desfazendo os laços das sociedades tradicionais, estabeleceu a sociabilidade contemporânea.

Considerar a adolescência como um período de crise não constitui novidade. As teorias construídas, na área da saúde mental, para explicar o porquê dessa crise da adolescência são, entretanto, falhas quanto a definir

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suas origens e apontar sua dimensão sócio-antropológica. A elaboração de uma concepção de crise da adolescência, diversa da utilizada pelos modelos teóricos atuais, no campo da psiquiatria e da psicanálise, constitui a tarefa preliminar à minha abordagem das relações entre adolescência e psicopatologia. Apresentarei, então, novas articulações teóricas que permitam o entendimento dos vínculos entre os acontecimentos desse período crítico e os agravos à saúde mental dos jovens.

Para dar Conta dessa tarefa, recorro à Antropologia, à Sociologia, à História e à Psicanálise. Acompanhando a complexidade do problema que desejo estudar, julgo-me autorizado a ultrapassar a fronteira entre matérias e disciplinas. Destaco a importância da integração e complementaridade no campo das ciências humanas ou conjecturais, especialmente quanto ao papel da antropologia junto à psicanálise. A antropologia, pela sua perspectiva comparativista, pode dar a dimensão justa das questões que, envolvendo objetos socioculturais, são abordadas pela psicanálise.

As observações clínicas e os dados epidemiológicos contemporâneos apontam a adolescência e a juventude como as fases da vida em que mais pesadamente recai o ônus da loucura ou da psicose. Com referência às psicoses ditas esquizofrênicas, aquelas que mais ocupam os profissionais de saúde mental, Kraepelin (1904), no seu estudo sobre o grupo das demências precoces, já destacava a particular disposição dos jovens para a enfermidade. Babigian (1980) aponta que na população americana, durante o ano de 1970, 70% dos casos novos de esquizofrenia surgiram entre as idades de 15 e 35 anos, sendo 45% no grupo entre 15 e 24 anos.

Psicose, esquizofrenia e loucura são termos contíguos mas que, por não se recobrirem, devem ser examinados um a um. A denominação esquizofrênico, apesar de aparentemente usada com critérios científicos, designa pacientes com sintomas, evolução e vida social extremamente diferentes. Quanto à psicose é necessário acompanhar a trajetória da constituição de um conceito em torno desse significante, o que vai conduzir-me ao seu uso do ponto de vista psicanalítico, pois é esse o meu principal referencial teórico. Loucura, o termo mais antigo, é usado em diferentes épocas e circunstâncias sociais para qualificar certos tipos de comporta- mento aberrantes em relação aos padrões dominantes. Os diversos conceitos de loucura construídos ao longo da história acoplam-se às diferentes concepções de sujeito, também variáveis ao longo do tempo.

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A partir das teorias psicanalíticas pretendo delimitar as relações entre o processo adolescente e o desencadeamento da psicose, discutindo também os critérios diagnósticos vigentes em relação à psicopatologia do adolescente e criticando a coerência teórica e pertinência prática dos mesmos. Devido à proliferação de Escolas e correntes psicanalíticas, devo precisar melhor meu referencial básico: a teoria psicafla1ítíca conforme foi desenvolvida nos textos de Freud e retomada por Lacan. Ainda que, ocasionalmente, cite outros autores psicanalític0s minha abordagem está funda- mentalmente restrita aos dois autores que, no meu julgamento, forneceram os conceitos mais adequados para explicar a experiência psicótica.

Voltada para a singularidade do sujeito, a psicanálise não pode deixar de tomar a palavra do louco Como uma produção de quem aspira registrar sua verdade e dotá-la de sentido. A preocupação em evitar a exclusão social do louco e levar em consideração sua particular experiência de vida torna-se ainda mais relevante quando se pensa em adolescentes que, uma vez identificados como loucos, passam a ser objeto das práticas psiquiátricas. O termo objeto define bem, nesses casos, a situação de destituição subjetiva a que são submetidos esses jovens que vivem uma experiência limite num contexto que se tornou crítico na sociedade moderna.

Para entender essa experiência singular dentro do processo da adolescência — a loucura — será necessário escutar os adolescentes — e suas famílias — que perderam o rumo das suas trajetórias de vida. Escutar, nesse contexto, não se refere a simplesmente entrevistar, mas ouvir a tentativa de oflstrUÇã0 de um sentido perdido, usando um sistema conceitual — a psicanálise — como referência organizadora dessa escuta. Com esse objetivo são discutidos nove casos de adolescentes atendidos psicanaliticamente por mim Ou por outros profissionais sob minha supervisão, por períodos variando entre um e quatorze anos.

Meu interesse pelos adolescentes a quem se atribui a perda da razão vem desde o início da minha vida profissional há 21 anos. Na antiga C. O. I. (Clínica de Orientação Infantil) do Instituto de psiquiatria da UFRJ, atendi aos meus primeiros pacientes adolescentes. A preocupação com Uma atenção mais centrada nos seus problemas específicos Ievou-me a participar da criação, na mesma instituição, em 1977, do Setor de adolescentes. Acompanhei adolescentes, psicóticos ou não, por períodos variáveis de suas

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vidas, em alguns casos por mais de uma década. Tendo acumulado experiência no atendimento ambulatorial de situações graves, envolvendo adolescentes e suas famílias, organizei, em 1988, ainda no Instituto de Psiquiatria, o Programa ambulatorial para adolescentes psicóticos que, sob minha coordenação, vem funcionando até o presente. Os relatos de caso incluídos nesta tese originam-se dos atendimentos no âmbito desse Programa, com exceção de dois que foram atendidos em outro contexto.

O Programa atende a adolescentes entre 13 e 19 anos, em regime exclusivamente ambulatorial, e usa como principal referência teórica a psicanálise. Utilizamos a psicanálise para entender o desencadeamento das crises dos adolescentes, suas manifestações sintomáticas, o contexto familiar, as relações estabelecidas com os profissionais da equipe e a evolução e os impasses do tratamento. Isso não significa que a abordagem psicanalítica seja a única forma de atenção recebida pelos adolescentes. Outros recursos, como a psicofarmacoterapia e a terapia de família, são também empregados. Lidando com graves problemas de saúde mental, para os quais não se estabeleceu um consenso acerca dos métodos de tratamento, julgamos justificado, do ponto de vista ético e científico, lançarmos mão de todos os recursos de atendimento que se mostrem úteis na prática. Não abrimos mão, entretanto, de oferecer a cada adolescente a oportunidade de ser escutado, individualmente, por alguém que se dispõe a ocupar o lugar de analista.

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SUJEITO, PSICOSE E PSICANÁLISE

Juntar os termos que dão título a esta seção pressupõe ao menos três questões que se interpenetram mas que, para maior clareza do texto, devem ser abordadas em separado. Psicose é a expressão moderna que qualifica diversos tipos de comportamentos de sujeitos que, através das épocas, foram reconhecidos por diversas nomeações, a mais emblemática delas os qualificando como loucos. Estudar esses comportamentos liga-se ao questionamento da noção de sujeito desenvolvida pelos diversos discursos constituídos sobre a loucura. Mesmo tomando apenas um saber, a Psiquiatria, podem ser encontradas diversas concepções sobre o que é um louco. Como primeiro passo é necessário delimitar como surgiu o moderno conceito de psicose e apontar as controvérsias atuais sobre ele, demarcando, sobretudo, a concepção de sujeito que está contida nas abordagens psiquiátricas do psicótico.

Uma segunda etapa consiste em acompanhar as mudanças nas fronteiras entre razão e loucura na transição do discurso psiquiátrico para o discurso psicanalítico. Novamente destacarei as diferenças quanto à posição do sujeito num e noutro saber.

Finalmente seguirei o percurso da construção do conceito de psicose pela psicanálise. Como marcos desse trajeto assinalo Freud e Lacan, o primeiro pelas prioridades de fundador do campo, o segundo por ter retomado a questão e apontado os caminhos mais fecundos para o seu desenvolvimento. O caráter próprio das concepções psicanalíticas sobre a psicose liga-Se à originalidade do conceito de sujeito que brota das formulações teóricas de ambos.

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1 O conceito de sujeito enquanto indivíduo será desenvolvido no capítulo 11.

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DA LOUCURA À PSICOSE

A loucura se reveste de várias e infinitas formas; é possível que os estudiosos tenham podido reduzi-las em uma classificação, mas ao leigo ela se apresenta como as árvores, arbustos e lianas de uma floresta: é uma porção de cousas diferentes.

Lima Barreto, O cemitério dos vivos.

O termo psicose foi criado pelo psiquiatra austríaco Feuchtersleben em 1 844, com um sentido diverso do atual, para caracterizar doença espiritual. Psicose também não era contraposta a neurose e não tinha a conotação de um acometimento grave das faculdades mentais. O termo, que vem ser- vir de significante para um conceito cuja fortuna ainda será descrita, tem cerca de 150 anos e vem recobrir, na psiquiatria contemporânea, uma expressão mais antiga: loucura.

Precisar a origem e o desenvolvimento histórico do conceito de loucura é uma tarefa difícil. Existem diversos enfoques possíveis para acompanhar as transformações históricas da noção de loucura ao longo das épocas e sociedades — ver por exemplo Foucault (1972), Porter (1990), Pessotti (1994). Uma questão básica deve ser assinalada logo de início: não é possível, depois da obra de Foucault, manter uma concepção ingênua sobre uma evolução linear do conceito de loucura. É preciso buscar o significado particular que cada sociedade dava aos indivíduos cuja conduta divergia daquela esperada como compatível com os valores dominantes. Nesse sentido a história da loucura relaciona-se com a complexidade dos caminhos da humanidade ou, ao menos, com a história da razão, seu par antípoda.

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2 O termo neurose, criado por Cullen, em 1769, referia-se, originalmente, ao conjunto de doenças dos nervos, o que reafirmava o seu caráter orgânico, tendo sido usado nesse sentido por Pinel. Passando por várias transformações (em autores como Charcot, Janet e Krafft-Ebing) o conceito de neurose — ou psiconeurose foi adquirindo sua conformação atual, determinada principalmente pelas teorias psicanalíticas que sedimentaram sua oposição ao conceito de psicose.

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Atravessar épocas buscando conceituar loucura significa abordar diversas dimensões do problema, suas causas, sua natureza e suas diversas formas de apresentação. Pessotti (1994) assinala que nem mesmo se pode fazer uma oposição simples entre um conceito moderno de loucura e um conceito medieval ou antigo, pois seria difícil delimitar conceitos uniformes em cada época e distinguir os diferentes conteúdos abrangidos pelas definições ou os diferentes pressupostos epistemológicos ou metodológicos que balizam cada conceituação (p. 8). Um recorte histórico poderia encontrar semelhanças e diferenças entre as épocas, esclarece Pessotti:

Da perspectiva médica, por exemplo, uma atual definição organicista da loucura revela parentescos claros com alguns aspectos e definições antigas, se comparada a estas quanto à etiologia (ou às origens ou causas). Quanto às formas da loucura (ou quadros nosográficos), porém, tal parentesco já não é tão evidente, quando existe. (p. 8)

Porter e Pessotti assinalam que as primeiras referências à loucura, provenientes da mitologia grega e da poesia homérica, apresentam uma concepção bastante diversa daquela que se estrutura com a criação do homem psicológico. Os heróis gregos estão à mercê da moira, do destino traça- do pela interferência disciplinadora ou vingativa dos deuses que podem conduzi-los à insensatez — a até. Não se trata de conflitos surgidos num cenário interior ao homem, como na visão moderna.

Nos textos trágicos de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, a loucura começa a tomar outra dimensão, aparecendo a contribuição da presunção humana, da hybris, na sua gênese. Entram em jogo os conflitos do sujeito com as leis divinas ou sociais que superam seu poder de decisão. Pouco a pouco os gregos desenvolvem um sentido para a loucura que concede mais importância aos conflitos internos ao homem, aos choques entre a razão e as paixões, diminuindo a importância das intervenções divinas na origem dos desvarios.

No século V a.C., Hìpócrates vai apresentar outra versão para o entendimento da loucura, vista como um distúrbio da natureza orgânica do homem. Macrocosmo e microcosmo obedecem às mesmas leis (da natureza) e a ruptura desse equilíbrio natural causa as doenças. Pessotti (1994)

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resume as doutrinas hipocráticas, voltadas à explicação do funcionamento do corpo humano através das teorias sobre o universo natural:

Para Hipócrates, essa natureza se estende, no corpo humano, sob a forma de quatro humores fundamentais: sangue, pituíta, bílis amarela, e bílis ver- de, escura (ou atrabílis). A saúde é a harmonia no sistema de humores e o equilíbrio entre tal sistema e o ambiente externo. O desequilíbrio entre os dois sistemas ou entre os humores no interior do sistema orgânico é a doença. (p.48)

Como qualquer doença, a loucura não escapa dessa definição e tem origem nos transtornos humorais. Os sintomas (delírios, alucinações, convulsões, etc) assinalam algum distúrbio na distribuição dos humores, como por exemplo o extravasamento da bílis negra (a melancolia), produzida pelo baço. As teorias de Hipócrates relacionavam diversos tipos de distúrbios com diversas alterações humorais que influenciavam o cérebro, tendo produzido descrições que podem ser comparadas, em alguns pontos, às descrições modernas (por exemplo a distinção e a relação entre os distúrbios humorais que constituem as síndromes maníaca e melancólica).

Rompendo com as explicações teológicas ou mitológicas da loucura, Hipócrates inaugura uma visão sobre o homem insano que jamais sairá do horizonte, a visão organicista, que voltará a ser predominante nos séculos 18 e 19 e disputará a posição hegemônica ao longo de todo o século XX.

Um marco nas concepções médico-organicistas sobre a loucura pode ser encontrado nas doutrinas de Galeno (131-200 d.C.), que cria uma relação entre as faculdades diretoras da alma que são afetadas e as lesões causais. Conforme explica Pessotti, os quadros nosológicos galênicos resultam de combinações entre a qualidade da lesão e as propriedades atingidas na alma; por exemplo: sobre a faculdade racional, o efeito da abolição é a demência (anoia), o resultado do enfraquecimento será a estupidez (mória), e o produto da perversão será a loucura, o delírio. Galeno, apesar de manter as concepções organicistas na gênese dos distúrbios mentais, tornou menos mecânica a mediação entre as causas e a natureza da loucura. Os vapores ou pneumas para produzi- rem os transtornos necessitam da mediação das faculdades mentais (imaginação, memória e razão), o que então vai resultar nas diferentes formas

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de enlouquecimento. Esse modelo explicativo vai reaparecer, atualizado, quando da constituição do moderno saber psiquiátrico.

A teologia cristã vai fornecer um outro tipo de modelo para o entendimento da loucura: a possessão da alma ou o demonismo. A alma do homem era o campo de batalha entre Deus e o Diabo que agia por possessão ou obsessão; no primeiro caso o diabo se apossa do corpo da pessoa e no segundo limita-se a atormentá-la. A concepção de que todo o mal é fruto do afastamento de Deus, permitindo a ação do diabo, intermediado pelas bruxas, vai marcar o espírito medieval, que identifica no louco um possesso. Com o advento do Renascimento e a aurora do mundo moderno quebrasse a hegemonia do pensamento religioso e retorna-se à polissemia do termo loucura.

Livres da condenação à fogueira, como endemoninhados, os loucos não tardam a sofrer um processo de encarceramento, sobretudo a partir do século XVII (Porter, 1990). A sociedade moderna, mercantilista e posteriormente industrial, requeria um novo tipo de sujeito, produtivo e racional. Porter aponta como facilmente se identificava o comportamento dos indivíduos socialmente marginalizados com a loucura ou a alienação, pois quanto mais elevadas as expectativas impostas pelo Estado ou a economia de mercado, maior a aparente divisão entre aqueles que estabeleciam e cumpriam as normas e os transgressores (p. 25).

No século XVIII a simples reclusão do louco já não é suficiente, luta-se pela sua recuperação, a medicina invade os asilos, e funda-se a psiquiatria moderna. Em geral destaca-se o trabalho de Pinel como o grande marco fundador da psiquiatria, apesar de ter sido contemporâneo de outros pioneiros das novas práticas da medicina mental, como Tuke e Chiaruggi, talvez pela repercussão do seu Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental (1801), que lança as bases do método clínico. O tratamento moral também ficou ligado ao nome de Pinel, que procurava, paciente e metodicamente, corrigir as condutas inadequadas do louco, resultantes de seus vícios, afecções ou desregramentos morais.

A abordagem clínica vai caracterizar-se por uma ruptura com os métodos anteriores que confundem conceitos metafísicos com a forma pela qual a doença se apresentava, como esclarece Pinel no seu Traité:

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Evitei discussões metafísicas sobre a natureza da mania (3), limitando-me a falar das diferentes lesões do intelecto e da vontade, das correspondentes alterações físicas que se podem notar, no exterior, através de numerosos sinais, como os movimentos descoordenados, as incoerências ou absurdos de propósitos, os gestos insólitos e bizarros. (Traité, 1809, 11, 64 — citado por Pessotti, 1994)

A clínica psiquiátrica é a clínica do olhar, da observação das formas que assumem os distúrbios. Esse olhar da psiquiatria — metáfora obsedante dessa prática, conforme expressa Bercherie (1989) — ao mesmo tempo que indica sua distância das concepções dogmáticas anteriores marca-a como uma prática que contribuiria para a alienação dos sujeitos sob seus cuida- dos. Não pretendo uniformizar todas as teorias psiquiátricas; existem nuances no desenvolvimento da abordagem clínica, ora afastando-se ora se aproximando de uma concepção da doença mental que considera a existência de uma certa autonomia do nível psíquico, onde se constitui o discurso dos pacientes (4). Mas, essencialmente, a psiquiatria considera o discurso do louco como o barulho num carro com defeito, como afirma Porter. Seu sentido era desprezível, secundário, sintomático; indicava que alguma coisa não ia bem, mas não tinha verdade intrínseca. Aquela algaravia não oferecia chaves da realidade pessoal, social ou cósmica. (Porter, p. 46 — grifo meu)

A pouca consideração que a psiquiatria clássica devota ao discurso do louco reflete a concepção organicista sobre a loucura que seria, como afirma Esquirol, uma afecção cerebral comumente crônica, sem febre, caracterizada por distúrbios da sensibilidade, da inteligência e da vontade (citado por Bercherie, p. 48). A essa definição clássica creio que a psiquiatria atual

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(3) Uma das grandes classes em que Pinel dividia a alienação mental e que não corresponde ao conceito atual de mania.

(4) Por exemplo, Falret, ainda em meados do século 19, afirma que o delírio se desenvolve... segundo leis que lhe são próprias... e que se devem ao trabalho da função sobre ela mesma. Falret também critica o rigor da concepção somática dos alemães e de Moreau de Tours, que queriam pura e simplesmente assemelhar o delfrio agudo das doenças somáticas e das intoxicações (cujas manifestações estereotipadas eram conhecidas) com o delírio crônico da loucura. (Bercheri 1989, p. 95)

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pouco teria a opor, apesar da separação entre a psiquiatria e a europsiquiatria, postulada já em 1820. Essa divisão, que Bercherie atribui a Georget, opõe os distúrbios mentais sintomáticos, decorrentes de causa orgânica conhecida, aos distúrbios idiopáticos, a verdadeira loucura a ser tratada pelo psiquiatra.

Desde que Bayle atribuiu a causa do distúrbio mental que acompanhava a paralisia geral a uma meningite crônica, o imaginário psiquiátrico ficou marcado pela expectativa de estender esse tipo de conclusão ao conjunto das doenças mentais. Bayle anunciou que a maioria das doenças mentais é sintoma de uma flegmasia (inflamação) crônica primitiva das membranas do cérebro (Bercherie, p. 86). O que deveria ficar restrito a uma afecção — paralisia geral progressiva, acompanhada de delírio e posterior estado demencial — passou a modelo de uma nova concepção sobre a loucura. Pela primeira vez na história da psiquiatria, uma entidade mórbida podia ser apresentada como um conjunto de elementos clínicos, ligados por uma evolução característica e baseados num achado anatomopatológico. O método anatomoclínico parecia fadado a se impor na psiquiatria, ainda mais que em 1879 Founier reconhece a natureza sifilítica da paralisia geral, e Noguchi, em 1913, identifica o Treponemapallidum como o agente da doença. (Dictionnair de Psychiatrie, 1993).

Os sagazes clínicos alemães e franceses não tardaram a reconhecer que a concepção de Bayle não podia recobrir toda a realidade dos transtornos mentais. Porém a concepção organicista, longe de perder influência, desdobrou-se em novas versões que atravessaram todo o século 19 e chegaram aos nossos dias: a degenerescência (Morel), o constitucional (Kretschmer), as dismetabolias. Deve-se ressalvar que não há uma uniformidade entre essas diversas teorias, apesar de remeterem as origens da doença mental a um fundo orgânico (endógeno) comum.

Entre as doutrinas da degenerescência e a constitucional existem relações de continuidade e descontinuidade. Morel procura definir a alie- nação mental verdadeira — excluída a sintomática — como produto das taras, isto é, de distúrbios transmitidos de forma hereditária ou adquiridos intra-útero. A doutrina constitucionalista buscava correlacionar quadros psicopatológicos com temperamentos e biótipos (por exemplo: esquizofrênicos/esquizotímicos/leptossômicos), supondo uma determinação orgâ-

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nica, em última instância. Entre as teorias de Morel e as de Kretschmer há um deslizamento do plano etiológico para o plano psicopatológico (Bercherie, p. 220). Esse deslizamento marcará por muito tempo a psiquiatria moderna, que passa a preocupar-se com a difícil conciliação de um ponto de vista cada vez mais psícopatológico com a concepção herdada dos clássicos, das entidades mórbidas, ou seja, a hipoteca organictsta (Bercherie, p. 221).

Até recentemente vivia-se esse período de compromisso em que a psiquiatria valorizava o estudo da psicopatologia, reconhecendo a especificidade da vida psíquica e de seus distúrbios. Nas últimas décadas acentua-se o predomínio da corrente organicista, na versão do determinismo neuroquímico do comportamento. O interesse desloca-se dos fatos clínicos para o estudo dos neurotransmissores e seus receptores cerebrais. A questão da subjetividade perde importância nessa visão tecnopragmática, e a psiquiatria aproxima-se de um ideal neurobiológico. A frase lapidar da clínica, não há doenças e sim doentes, parece inverter-se, e a loucura poderia ser finalmente, e de maneira uniforme, explicada como alteração neuro-hormonal do cérebro, descartado qualquer compromisso entre a análise psicopatológica e a abordagem organicista.

Mas, antes que o preceito da determinação neuroquímica do comportamento buscasse a hegemonia no campo psiquiátrico, duas concepções antagônicas sobre a nosologia dos transtornos mentais marcaram a época moderna: a de Kraepelin e a de Jaspers. Influência fundamental na psiquiatria moderna, Kraepelin leva ao ápice o intento de aplicar à psiquiatria os ideais da patologia geral médica, aos quais já me referi, sistematizando as unidades nosológicas. A mais famosa delas, a demência precoce, rebatizada por Bleuler de Esquizofrenia, constitui até hoje a psicose por excelência de que se ocupa a psiquiatria. Jaspers questiona, em 1913, a validade do conceito de doença mental ou unidade nosológica, apontando o erro de Kraepelin em utilizar a paralisia geral como paradigma de entidade psiquiátrica. Esta enfermidade, objetava Jaspers, estaria melhor situada no campo da neurologia, e unidade nosológica seria apenas uma idéia ou um conceito, sublinhando seu caráter meramente convencional ou instrumental.

O edifício nosológico de Kraepelin ainda sofreria outro abalo. A idéia fundamental de sua obra era a de que a um grupo de sintomas psíquicos correspondia uma certa evolução e uma mesma determinação causal.

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o conceito deformas de reação exógenas proposto por Bonhoeffer demonstrou que as mesmas causas podem produzir sintomas psíquicos diversos, do mesmo modo que causas diversas podem, por sua vez, condicionar um reduzido número de quadros clínicos. (Nobre de Melo, 1979, p. 243).

O emprego do método fenomenológico em psicopatologia permitiu a Jaspers, além da crítica a Kraepelin, situar algumas questões que permanecem importantes para a abordagem psiquiátrica. A diferença entre as noções de compreender e explicar, extraídas de Dilthey, indicam o equívoco em que estava mergulhada a psiquiatria que correlacionava dados fisiopatológicos com dados clínicos vindos do universo psíquico do sujeito. A crítica jasperiana contesta esse paralelismo pstcofisiológico, transforma- do, havia meio século, ... na nata da psicopatologia (e da psicologsa, além disso) (Bercherie, p. 263). Compreender o estado depressivo de alguém que acaba de sofrer a perda de uma pessoa muito querida está em plano diferente de explicar a súbita euforia ou agressividade de uma pessoa embriagada. No primeiro caso está em jogo o que Jaspers denominou relação de compreensão, baseada na capacidade de empatia com a vivência alheia. No segundo caso está cm jogo uma relação causal, incompreensível no plano da captação dos dados da consciência, mas explicável segundo nossos conhecimentos neurofisiológicos sobre a ação do álcool no sistema nervoso central.

Na avaliação de um mesmo paciente podem ser usados os dois tipos de abordagem, o compreender e o explicar, discernindo-se metodologíca mente o alcance de ambos. Volto ao exemplo da paralisia geral sifilítica para ilustrar a aplicação do método jasperiano:

Enfim, quando um paralítico geral, dando livre curso à sua euforia e expansividade, nos põe ao corrente de suas idéias de grandeza, de proporções absurdas, fantásticas, inverossímeis, já denotando com isso o déficit demencial, próprio das fases mais avançadas da enfermidade, enxergamos nesse quadro certa coerência interna, que o faz compreensível por si mesmo, em função da euforia, expansividade e perda da crítica, além da relação de causalidade, que o torna externamente explicável na dependência da meningo-encefalite luética, que responde, do ponto de vista anatomopatológico, pelo processo demencial paralítico. (Nobre de Melo, 1979, pp. 172/173).

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Os conceitos de reação, processo e desenvolvimento elaborados por Jaspers visavam o estabelecimento de uma diretriz para a investigação dos fatos clínicos. Nas reações estão presentes as relações de compreensão entre os sintomas e as vivências que os produziram, havendo ainda uma relação temporal entre os eventos. Esse conceito refere-se aos distúrbios mentais ditos psicogênicos. O desenvolvimento cobre os casos em que um acontecimento relevante, presentes também as relações de compreensão, é capaz de provocar um desvio permanente na personalidade de indivíduos pré-dispostos, como aconteceria em certos delírios de evolução crônica — por exemplo, na paranóia kraepeliniana. No processo não é possível o estabelecimento das relações de compreensão, presentes nos dois outros casos, e a vida psíquica sofre um desvio permanente, incompreensível e progressivo. Nesse conceito enquadra-se, principalmente, a demência precoce, a psicose que permanece, sob a denominação de esquizofrenia, como o objeto mor da Psiquiatria.

O ponto de vista psicopatológico atinge uma posição dominante com o sucesso do conceito bleuriano de esquizofrenia. Influenciado por Freud, através de Jung — que era colaborador de ambos — Bleuler desenvolve uma compreensão particular das teorias psicanalíticas e as aplica no estudo da demência precoce. Essa entidade passa a ser definida por uma teoria psicopatológica e não mais por critérios clínico-evolutivos. Bleuler lamenta ter que batizar a enfermidade com um novo nome (6), mas considera o antigo inteiramente inadequado: afinal a evolução demencial não era a regra, ao contrário, nada indicava um prejuízo flagrante da memória ou da inteligência, e o transtorno não atingia exclusivamente os jovens. Os sintomas fundamentais, permanentes e específicos, para o diagnóstico da esquizofrenia eram de ordem psicológica: transtornos da associação e da afetividade,

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(5) Esses distúrbios psicogênicos incluem quadros psicóticos — as psicoses de reação — como psicoses carcerárias, psicoses histéricas, etc.

(6) Na verdade Bleuler intitulou sua monografia de 191 1 Demência precoce — o grupo das esquizofrenias. O plural desapareceria posteriormente quando Bleuler passa a considerar a esquizofrenia como produto de um transtorno único, fundamentalmente orgânico.

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a predileção pela fantasia em oposição à realidade, e a inclinação por divorciar-se da realidade (autismo) (Bleuler, 1960, p. 21). Diversos outros sinto- mas — alucinações, delírios, sintomas catatônicos, etc — poderiam apresentar-se mas teriam um caráter acessório, podendo faltar ou ocorrer em outros transtornos.

Apesar de colocar em primeiro plano a psicopatologia, a Psiquiatria não se afasta das concepções organicistas. O conceito de processo de Jaspers não fazia referência, originalmente, ao orgânico, situando-se puramente no plano da vida psíquica. No entanto, a ruptura da sequência da vida psíquica que o processo estabelecia levou os psiquiatras à conclusão de que um fator de ordem biológica exercia um papel fundamental. Bleuler, apesar de identificar os diversos fatores psíquicos envolvidos na esquizofrenia (complexos, mecanismos de condensação e deslocamento semelhantes aos que Freud identificara nos sonhos, desejos, etc), ligava um sintoma primário — os transtornos da associação com a cisão das funções psíquicas — à intervenção de um acometimento orgânico cerebral. Outros sintomas, diretamente de origem orgânica, poderiam estar presentes na esquizofrenia, conforme os esclarecimentos de Bleuler: estados de obnubilação, episódios maníacos e melancólicos, perturbações pupilares, anomalias vasomotoras, etc.

Esse amálgama entre a psicopatologia clínica e as concepções organicistas de fundo, que constitui o conceito de esquizofrenia, tenderia a ganhar dimensões gigantescas, absorvendo um conjunto de estados mórbidos que eram considerados isoladamente: formas delirantes crônicas, antes ligadas à paranoia, confusões alucinatórias agudas — as amências, psicoses histéricas (que praticamente desapareceram como categoria nosológica), hipocondrias graves, e várias outras. Esse crescimento desmesurado deve ser atribuído à mudança de critério diagnóstico, que deixou de basear-se na evolução, como em Kraepelin, para fundar-se na psicopatologia.

Esquizofrenia passa a incluir praticamente todos os quadros Psicóticos (com a principal exceção da psicose maníaco-depressiva) e torna-se, para os modernos, sinônimo de loucura. Elkis (1990) critica a imprecisão do conceito de esquizofrenia, assinalando sua variabilidade nos Vários autores ou códigos nosológicos que tentam defini-lo (Bleuler, K.

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Schneider, Feighner, R.D.C., DSM). Os critérios diagnósticos para esse transtorno alargam-se ou estreitam-se de classificação a classificação, o que leva Elkis a afirmar: esquizofrenia isoladamente é um significante sem qualquer significado, a não ser aquele de seu autor original, Eugen Bleuler. (p. 227)

O Diagnostic Statistical Manual da American Psychiatric Association, que nasceu sob a inspiração das teorias de Adolf Meyer (as doenças mentais como formas reacionais anormais a fatores biológicos, psicológicos ou sociais), assumiu, a partir de 1980, uma postura a teórica (DSM 111). Nessa abordagem são recusados, ao mesmo tempo, os critérios etiológicos e psicopatológicos para caracterizar um determinado distúrbio mental que deve ser avaliado através de dados objetivos (7) — utilização de escalas de avaliação, uso intensivo de estudos empíricos, visando compor critérios diagnósticos definidos e quantificáveis. O modelo de entidade nosológica ou mórbida cede lugar a uma distribuição sindrômica dos transtornos mentais, bem ao gosto do pragmatismo anglo-saxão que consolida sua hegemonia internacional.

O DSM IV (1994), que deveria confirmar a validade das propostas lançadas pelas versões anteriores do código, reúne em uma única seção a esquizofrenia (reduzida em sua abrangência) a outros fenômenos psicóticos: esquizofrenia, transtorno esquizofreniforme, transtorno esquizoafetivo, transtorno psicótico breve, transtorno delirante. Apesar de aspirar ao consenso e à precisão, os autores do código são obrigados a admitir as dificuldades em definir o termo psicótico, que daria consistência a toda a seção: assinalam que as diferentes definições de psicose não têm validade universal, podendo ser divididas em mais estritas — presença de alucinações e delírios e ausência de crítica — e menos restritivas — incluindo sintomas como desorganização da linguagem e comportamento catatônico. Essas definições poderiam também estar relacionadas com a gravidade do distúrbio no funcionamento do paciente — incapacidade de dar conta das demandas da vida — ou ligadas a avaliações psicológicas, como perda das fronteiras do ego e perturbações

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(7) O quanto é possível haver de objetividade na construção de um código pode ser avaliado pelo artigo Neurosis, Psychodynamics, and DSM 111 (Bayer & Spitzer, 1985), que relata a luta política em torno da supressão do termo neurose do DSM 3.

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grosseiras do juízo de realidade. Nos diferentes transtornos que o manual demarca como esquizofrênicos ou psicóticos estão enfatizados aspectos diferentes da definição de psicose.

Quando se percorrem as diversas conceituações da loucura, prévias ou posteriores ao surgimento da psiquiatria moderna, torna-se difícil não compartilhar a impressão de Lima Barreto, que registrei como epígrafe deste capítulo. A loucura pode ser uma porção de cousas, e nem o mais atualizado código psiquiátrico consegue uma definição única para descrevê-la. Muito atual continua sendo a advertência que Lima Barreto produziu em 1921:

As maravilhas que a ciência tem conseguido realizar por intermédio das artes técnicas, no campo da mecânica e da indústria, têm dado aos homens uma crença que é possível realizá-las iguais nos outros departamentos da atividade intelectual; daí, o orgulho médico, que, não contente de se exercer no âmbito da medicina propriamente, se estende a esse vago e nebuloso céu da loucura humana. (p. 174)

Ao atravessar as fronteiras entre a psiquiatria e a psicanálise, meu próximo passo, não tenho a pretensão de ter deixado para trás todos os problemas relativos a esse vago e nebuloso céu da loucura. Bercherie aponta a presença da atitude diagnosticadora... como um remanescente psiquiátrico dentro da orientação psicanalítica. (p. 319). Gay (1989) traça a dimensão da transformação produzida por Freud num ambiente científico marcado pelas já assinaladas concepções organicistas sobre a vida mental e seus distúrbios:

A subversão por Freud da ortodoxia reinante foi resultado de uma lenta transformação de suas ideias, deforma alguma planejada claramente. Quando ele finalmente realizou sua revolução, ela não consistiu em descartar a teoria neurológica, mas em inverter a hierarquia aceita na interação corpo- mente. Ele atribuiu a primazia, mas não o monopólio, à dimensão psicológica na elaboração mental. (p. 126)

Algumas importantes mudanças podem ser claramente detectadas: Freud tornou mais permeável a fronteira entre razão e desrazão e voltou sua atenção para a dimensão de verdade do discurso do sujeito, sem res-

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tringir suas preocupações aos aspectos formais desse discurso, nem usá-lo apenas como índice clínico para o diagnóstico. A dimensão do corpo (e suas relações com a mente) não foi, de fato, abandonada, mas mereceu por parte de Freud uma elaboração totalmente nova, constituindo a teoria das pulsões.

O DESAFO EPISTEMOLÓGICO DA EXPERIÊNCIA PSICÓTICA OU A RAZÃO ENTRE DESCARTES E FREUD

O futuro decidirá se a teoria contém mais delírio que eu pretendia ou o delírio mais verdade que os outros estão dispostos a acreditar.

Sigmund Freud, Sobre um caso de paranóia descrito autobiograficamente (Schreber).

Entre Descartes, o fundador do pensamento moderno, e Freud, o mais radical crítico do império da consciência, situa-se um inquietante problema sobre as fronteiras da loucura com a razão. Examinando a interseção da epistemologia com a psicose, coloco em questão os fundamentos da Psiquiatria e suas relações com a Psicanálise.

Foucault (1972), na História da loucura na Idade Clássica, discute as transformações que a noção de loucura sofreu até chegar a constituir o que hoje chamamos doença mental. Até o século 18, a loucura era encarada sob duas formas diversas: como experiência moral, na ótica do que não é razoável, e como experiência racional, na ótica do que é insensato. Assim era na antiguidade greco-romana, quando não se associava a degradação moral com o comprometimento da razão. Foucault Iocaliza o momento de mudança dessa visão:

Ora, o que ocorreu no século 18 foi um deslizamento das Perspectivas graças ao qual as estruturas do razoável e do racional inseriram-se umas nas outras, parafinalmenteformar um tecido tão cerrado que não será mais possível, durante muito tempo, distingui-lo. Elas se ordenaram progressivamente na unidade de uma única e mesma loucura que é percebida ao mes-

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mo tempo em sua oposição ao razoável e no que oferece de si mesma ao racional. (p. 201).

A negatividade moral do louco se encontra com a positividade, sob a forma de uma razão alterada: o contra-senso (déraison). O desenvolvimento das idéias foucaultianas demonstra como a loucura vai constituir o objeto de uma especialidade médica — a psiquiatria — e transformar-se em doença mental.

Nesse ponto me afasto da linha de pensamento seguida por Foucault, para indagar o que de original a psicanálise tem a dizer quanto à experiência da loucura.

Freud (1911), ao analisar a autobiografia de Schreber, lança ao futuro a afirmação que usei como epígrafe e, de forma intrigante, relaciona verdade e delírio. Ele compara suas próprias teorias sobre a libido com as teses expressas pelo delírio de Schreber e encontra uma notável proximidade. Tão ousada afirmação não deixa de causar espanto e constitui um desafio radical a tudo que o saber psiquiátrico havia formulado até então. Verdade e delírio — um dos paradigmas da loucura — são tomados no mesmo nível, rompendo a dicotomia entre razão e desrazão. Encontrar verdade na loucura não é um registro raro na obra de Freud. Ao contrário, é essa uma de suas marcas, ponto de ruptura com o saber psiquiátrico, que considerava a loucura como correlato do erro.

Desde o início Freud vai interessar-se pelo desprezado pela razão e pela ciência da época: o sonho, o chiste, o lapsus. Nessa linha coloca-se sua intervenção na questão da loucura enquanto portadora de um grão de verdade:

Se o enfermo crê com tanta firmeza em seu delírio, isso não se produz por um transtorno (Verkehrung) da sua capacidade de julgar nem se deve ao

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(8) Or, ce qui s’est passé au 18 siécle, c’est un glzssement des perspecteves grâce auquel les structures du raisonable et celles du rationnel se sont insérées les unes dans les autres, pour formerfinalement un tissu si serré qu’il ne sera plus possible pendant longtemps de le distinguer. Elles se sontprogressivament ordonnées à l’unite d’une seule et mêmefolie qui estperçue tout ensemble dans son opposztzon au razsonable et dans ce qu’elle offre d’elle-même au ratzonnel.

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que há de errôneo em seu delírio. Antes ao contrário, em todo delírio se esconde um grão de verdade; há algo que realmente merece crença e é essa a fonte da convicção do enfermo, que portanto está justificada nessa medida. (1907/1986, p. 67)

É interessante verificar como essa relação delírio/verdade é reafirmada ao longo de toda a obra de Freud. A citação, retirada de um escrito de 1907, é parcialmente reproduzida num dos seus últimos trabalhos, Moisés e a religião monoteísta, de 1939: também o delírio psiquiátrico contém um grão de verdade, e o convencimento do enfermo transborda desde essa verdade até sua envoltura delirante. (p. 125)

O interesse da psicanálise pela loucura é parte substancial de seu corpo teórico. Voltada para a singularidade do sujeito, a psicanálise não pode deixar de registrar que a escuta do psicótico contribui para a com- preensão da estrutura psíquica. Em textos básicos de Freud, como Introdução ao narcisismo (1914), a reflexão sobre a psicose permite elucidar questões teórico-clínicas fundamentais.

BIRMAN (1989) assinala as características do discurso psiquiátrico sobre a loucura, marcado pela divisão entre verdade e não-verdade:

Em consequência disso, este saber sobre a loucura era necessariamente um discurso explicativo, na medida em que não considerava o sujeito na experiência da loucura e a ordem do sentido da sua experiência na construção teórica. (p. 209)

A clínica psiquiátrica busca na palavra do louco indicações de um fenômeno subjacente, da ordem de um suposto processo orgânico. A palavra vale enquanto índice clínico de uma manifestação patológica oculta no corpo. Em ruptura com este discurso a psicanálise toma a palavra do psicótico como o produto de um sujeito que aspira registrar sua verdade e dotá-la de sentido.

Como pai da filosofia moderna, Descartes lançou os fundamentos das questões que viriam interessar a Freud e a Schreber: Verdade, Certeza e suas relações com Deus. Pode-se argumentar, como fez Koyré (1986), que o Deus de Descartes talvez não seja o Deus cristão e sim um Deus filosófico. De qualquer forma, permanece como fundamental a questão

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cartesiana da origem da garantia de certeza que permita discernir o falso do verdadeiro.

Descartes, em 1641, nas suas Meditações, estava preocupado em encontrar um ponto de certeza para o seu pensamento. Coloca metodicamente em dúvida todo o conhecimento, quer venha dos sentidos, quer provenha das cogitações aparentemente mais racionais. De seu questiona- mento não escapam nem mesmo a aritmética e a geometria, que parecem livres de falsidade ou da incerteza. Sua dúvida hiperbólica hipotetiza a existência de um Deus enganador ou de Gênzo Maligno, capazes de corromper mesmo as certezas mais puras.

A dúvida cartesiana não é, porém, uma dúvida cética mas a aspiração a uma certeza que vai ser encontrada no pensar, na certeza do ato de pensar. O Cogito vai ser o fundamento: tudo o que é pensado pode ser falso, menos o ato mesmo de pensar. Há uma determinação do ser como aquele que pensa. Mas o problema ainda não se esgota: a certeza do filósofo continua referida a um só ponto — o Cogito. A investigação científica necessita ainda de um suporte: Deus, um Deus honesto. Descartes precisa demonstrar que é inerente à perfeição divina que Ele não minta. As consequências da demonstração de Descartes são decisivas para o mundo moderno, como indica Koyré (1986):

Quanto a este mundo, Ele o criou porpura vontade, e mesmo que Ele tivesse algumas razões para criá-lo, essas razões só Ele as conhece. Não temos, nem podemos ter, a menor idéia sobre elas. Por conseguinte não só é inútil, como ainda absurdo, tentar descobrir Seus desígnios. Concepções e explanações teleológicas não têm lugar e nenhum valor na ciência física, tanto quanto não têm lugar na matemática, tanto mais que o mundo criado pelo Deus cartesiano, isto é, o mundo de Descartes não é de modo algum o mundo colorido, multiforme e qualitativamente determinado dos aristotélicos... o mundo de Descartes é um mundo matemático rigidamente uniforme, um mundo de geometria reificada, de que nossas idéias claras e precisas nos dão um conhecimento evidente e certo. (pp. 100/101)

Esse modelo de mundo cartesiano que Koyré tão claramente descreve levou Foucault (1972) a afirmar que Descartes teve papel importante no silenciamento da loucura na Idade Clássica. Descartes, na primeira de

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suas meditações, questiona a realidade da percepção do seu próprio corpo e conclui que não pode negá-la:

A não ser, talvez, que eu me compare a esses insensatos cujo cérebro está de tal forma perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bile que constante- mente asseguram que são reis quando são muito pobres; que estão vestidos de ouro e de púrpura quando estão inteiramente nus; ou imaginam ser cântaros ou ter um corpo de vidro. Mas quê? São loucos e eu não seria menos extravagante se me guiasse por seus exemplos. (p. 86)

Assinalo que, ao opor seu conhecimento ao do insano, o filósofo não encontra ainda uma diferença conclusiva que lhe permita fundar definitivamente sua certeza e obriga-se a prosseguir nas suas reflexões em direção ao Cogito e à hipótese do Deus não enganador. Bem ao contrário de contribuir para o definitivo silenciamento do louco, não estaria Descartes tocando num tema fundamental da loucura, a busca de um ponto de certeza? Nessa questão Foucault encontra decidida oposição de Derrida (1967), que não admite que o Cogito cartesiano exclua a loucura como afirma o autor da Histoire de la Folie à L’Age Classique.

Deslocando a problemática cartesiana da garantia da verdade, a psicanálise aponta para a possibilidade do equívoco, da palavra que revela e oculta. Esse oculto não é aquele que a psiquiatria procura descobrir numa dimensão corporal, neurofisiológica ou neuroquímica. O dispositivo psicanalítico é fundamentado pela articulação entre uma fala e uma escuta, uma produção discursiva onde o sujeito se revela pela palavra. Palavra que não é unívoca, que vai apontar a divisão do sujeito.

O rompimento do discurso psicanalítico com o discurso psiquiátrico está calcado numa nova concepção de subjetividade. Garcia Roza (1984) sintetiza:

Não se trata, em Freud, de apontar uma nova dimensão da consciência, algo que pudesse ser entendido como sua face oculta, mas de apontar um novo objeto — o inconsciente. Com isso, a questão do sujeito sofre um deslocamento radical. (p. 196)

Não é no questionamento racional, produzido pela consciência, que se apresenta o sujeito. Sua presença se revela nas falhas do discurso consci-

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ente (racionalizante), como sujeito do inconsciente, lugar onde se inscreve o desejo. O conceito de inconsciente em Freud está em ruptura com todas as apropriações românticas anteriores. Não é o abismo, a profundidade, a escuridão. É um outro lugar, onde se articula um sujeito num nível de elaboração que se acreditava privilégio da consciência.

Lacan vai reconhecer na produção freudiana uma genial antecipação da linguística moderna, o que lhe permite formular que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Essa fórmula abre novas possibilidades para o desenvolvimento da psicanálise e para a noção de sujeito, compreendida no seu arcabouço teórico. Deixamos assim o campo do inefável na definição de sujeito:

O inconsciente são os efeitos da fala sobre o sujeito, é nessa dimensão em que o sujeito se determina no desenvolvimento dos efeitos da fala, em consequência do que, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. (Lacan, 1979, p. 142)

A noção de sujeito nesse referencial é inseparável da questão da linguagem, que Lacan vai situar como o lugar do Outro (A) — do francês Autre —, lugar da cadeia dos significantes no qual o sujeito se aliena para representar-se. A linguagem serve de habitat ao sujeito, constituindo os discursos que o determinam.

Diferenciando signo de significante, Lacan (1979) pode enunciar que um significante é o que representa um sujeito para um outro significante (p.197). O sujeito desliza sob uma cadeia de significantes como algo evanescente, um significante representando o sujeito para outro significante. Sob este segundo significante aparece o que se chama sentido ou significação, mas o segundo significante vai representar o sujeito para um outro significante e assim por diante.

O desejo, metonímia da significação, vai permitir uma segunda operação de constituição do sujeito: a separação, surgida do intervalo da primeira articulação significante. Lacan (1979) imaginariza esse momento, situando a posição do sujeito frente ao Outro (A), ilustrado pelo discurso da mãe: é no que seu desejo está para além ou para aquém no que ela diz, no que ela intima, do que ela faz surgir como sentido, é no que seu desejo é desconhecido, é nesse ponto de falta que se constitui o desejo do sujeito. (p. 207)

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A descoberta da falta no Outro — o que, com Freud, podemos denominar castração — é a condição para a produção do sujeito desejante. Nessa operação há um resto, o obscuro objeto do desejo, desde sempre perdido, mas suporte do que surge como sujeito.

Pela construção de uma fantasia fundante, o sujeito dividido (barrado) inventa-se/é inventado, numa resposta à falta no Outro. O que garante o registro, a patente dessa invenção é o Nome-do-Pai: ponto-de-basta ao deslizar do desejo, constitui uma metáfora, âncora do sujeito no simbólico.

A cria humana nasce duas vezes, uma como indivíduo biológico, outra como sujeito. O segundo parto, como o primeiro, não é isento de riscos. Existem vicissitudes diversas do nascimento no registro do simbólico. A mais corriqueira delas é o sintoma, articulação significante que delimita a posição do sujeito em relação ao Outro, marca da vigência da metáfora paterna. Outra possibilidade é que o registro não se complete, algo impeça a afirmação primordial do indivíduo numa bateria significante, apagando o traço da sua identificação simbólica.

Lacan (1981) vai dar um peso especial ao termo freudiano Verzverfung, do qual propõe a tradução Forcluszon (foraclusão), alçado à posição de mecanismo primordial da psicose que, respondendo pela radical rejeição de um significante primordial, não permitiria ao sujeito inscrever-se num corpo de significantes que o representasse.

Encontrar-se desprovido da metáfora paterna, Lacan compara, é como não achar um caminho direto, uma estrada principal, entre duas cidades. Fica-se obrigado a percorrer diversos pequenos caminhos, aproximando-se aos poucos, buscando atalhos para chegar ao destino.

Quando alguma situação vital obriga o psicótico a defrontar-se com sua carência estrutural no campo simbólico, desencadeia-se uma série de fenômenos onde significante e significado não se dão mais os braços e seu discurso desintegra-se, perde o rumo.

Retomo a questão da certeza, da filosofia cartesiana, à luz das teorias de Freud e Lacan sobre o delírio. Freud (1911) aponta mais um novo as-

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(9) O conceito de identificação simbólica e sua relação com a identificação imaginária está desenvolvido no capítulo 4.

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pecto da importância do delírio, para além do valor meramente diagnóstico ou nosográfico que a psiquiatria lhe atribui: a formação delirante e, em realidade, a tentativa de restabelecimento, a reconstrução. (p. 65).

De que reconstrução se trata senão a da realidade, do restabelecimento de um mundo coerente para o sujeito? A necessidade do delírio deriva da recusa da crença por parte do psicótico. Como assinala Balbi, a certeza delirante funciona pois como um substituto da crença primária (p. 200) que falta ao psicótico. A realidade do homem é uma realidade simbólica e portanto construída. Sua construção envolve a ancoragem no Outro, conforme aponta Lacan. Conceito chave no referencial lacaniano, a noção de Outro ou de Grande Outro provém da abordagem lacaniana da linguística: o Outro (A) é o lugar fundador da palavra, fazendo com que toda comunicação humana não se esgote entre aquele que fala e o que escuta mas remeta ao conjunto da linguagem (o tesouro dos significantes — como diz Lacan).

O que haveria de particular na relação do louco com a linguagem? A falta de um suporte, de uma âncora que prenda o indivíduo no processo simbólico, que o instale na lei simbólica — a Lei por excelência. O Nome- do-Pai nada mais é que um significante que não significa nada, mas será a condição para toda futura significação.

O significante serve de envelope à significação e não se confunde com ela, como afirma Lacan (1981), baseando-se na linguística de Saussure. A relação entre significante e significado é de uma associação sempre provisória, passível de desfazer-se, mantida pelo ponto-de-estofo (point-de- capiton). O ponto-de-estofo detém o contínuo deslizamento da significação, permitindo o aparecimento de um discurso dotado de sentido.

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(10) Pessotti (1994) refere-se às concepções de Cotard, datadas do final do século XIX, sobre as ideias delirantes, que apresentam afinidades com as de Freud. Cotard admite a semelhança entre o pensamento delirante e o racional, atribuindo as distorções subjetivas aos estados emotivos (alterações da sensibilidade moral): a criação de uma ideia delirante é uma espécie de descoberta, é o parto de uma teoria que satisfaz o entendimento e Parece resolver os problemas criados pelo estado de sensibilidade moral. (pp. 198/199)

(11) Fórmula usada por Freud, no Manuscrito K (1895), para caracterizar, em conjunto com a projeção, o mecanismo específico da paranoia: o elemento que comanda a paranoia é o mecanismo projetivo com desautorização da crença na censura. (p. 267)

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O Nome-do-Pai vai desempenhar o papel de Ponto-de-Estofo no que respeita à mínima ligação necessária entre significante e significado que permita a um ser humano não ser psicótico. Sua falta, suaforaclusão, vai produzir o desregramento significante tão comum nas psicoses, aparecendo como perda do sentido comum das palavras ou o seu uso descompromissado de qualquer intenção comunicacional. É dessa experiência que fala o presidente Schreber (1903):

Como já foi observado no capítulo 9, já naquela época a conversa das vozes consistia predominantemente de um fraseado vazio, feito de expressões monótonas, que se repetiam de modo cansativo, que além disso traziam cada vez mais a marca da falta de acabamento gramatical, devido à omissão de palavras e até mesmo de sílabas. (p. 164)

o célebre bailarino Nijinsky, por muito tempo internado em manicômios, faz uma interessante observação, parafraseando Descartes: eu não penso, e portanto, não possoficar louco (Porter, 1990, p. 97). Sua frase contém um interessante paradoxo: para formular que não pensa é obrigado a pensar; contrapondo-se a Descartes, usa a formalização cartesiana. Caso Nijinsky tenha sido mesmo louco teríamos uma confirmação de que o Cogito não exclui a loucura. Em todo caso já existem elementos suficientes para formular que o movimento de construção do delírio não é fundamental- mente diverso do que funda todas as crenças tidas por normais.

Miller (1990) identifica uma diferença entre psicose e lógica no elemento certeza subjetiva onipresente no delírio e puramente utilitário em lógica:

Se toma esse axioma, o colocamos à prova, porém se pode tomar qualquer outro. Além disso, a criação lógica tem por objeto que qualquer outro possa pensar no lugar do lógico, enquanto que o psicótico estará encantado com seulugardeúnico. (p. 119)

No mesmo texto Miller vai apresentar o ponto de vista do delírio generalizado, concluindo que, formalmente, a construção delirante obedece aos mesmos princípios fundantes da realidade humana. A diferença reside em que a ancoragem do psicótico no simbólico não está dada, precisa ser criada, na ausência do Nome-do-Pai, por uma metáfora dita delirante.

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A conceituação freudiana do Complexo de Édipo é retomada por Lacan (1966) e dividida em três momentos lógicos. O segundo momento é de particular importância para a compreensão das relações do psicótico com a lei simbólica: o momento da castração, quando há a interposição do pai entre a mãe e o filho. Trata-se de uma operação essencialmente simbólica, pois o que está em jogo é o pai simbólico, ou seja, um termo ordenador que aponta para uma lei que rege o desejo da mãe. Esse termo aparece, numa construção metafórica, para registrar no simbólico o que a mãe pode desejar, o que tem um nome, um significante. O nome vai aparecer pelo movimento da metáfora, que é o da substituição significante, como Nome-do-Pai, representante da incógnita do desejo materno.

Todo ser humano precisa passar por esse processo para ter assegura- do sua posição de sujeito — seu ponto de certeza — e ter acesso a uma realidade — um saber organizado sob a forma de um mundo. Ao psicótico, no qual esse processo fracassou, nada mais resta que tentar reproduzi-lo pela metáfora delirante, uma opção à metáfora paterna faltante. Os diversos graus de sucesso dessa empresa não devem apagar o registro de que o delirante com- partilha das mesmas questões de todos os indivíduos humanos na sua relação primordial com a linguagem.

A ciência moderna, a ciência que Descartes tornou possível, parte do princípio da disjunção entre significante e significação, entre simbólico e imaginário. O mundo cartesiano é o da geometria reificada onde os desígnios de Deus — as significações — não têm lugar e Ele mesmo só é chamado como Sujeito Garante do saber. A ciência para ser posta em marcha só necessita de um ponto de certeza e da suposição de que no real a ser investigado não há um a priori enganador. O louco para organizar minimamente o seu saber percorre o mesmo caminho. Neste caso trata-se de escapar de um real aterrador que pode aparecer ao psicótico sob a forma de Outro fenômeno psicótico básico: a alucinação.

Só o testemunho dado pelo próprio sujeito que passou pela experiência-limite da psicose pode transmitir o horror de ter que defrontar-se com o real, na ausência da palavra. A dimensão mortal implicada nessa ausência pode ser identificada nos primeiros registros da civilização ocidental que os gregos nos legaram:

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Ao guerreiro é preferível uma morte cantada e lembrada a uma sobrevivência no esquecimento. A verdadeira morte não é a do corpo, mas a da lembrança. Morte da palavra, morte pela ausência da palavra, esta é a ameaça maior que pairava sobre os Gregos dos tempos homéricos. (GARCIA-ROZA, 1990, p. 32)

A psicanálise, situada no cruzamento da questão do sujeito com a linguagem e o desejo, constitui um campo do saber indispensável para a abordagem da psicose. Sua contribuição, entretanto, pode ir mais além: explorando as vicissitudes do psicótico para constituir um discurso que faça laço social, a psicanálise pode ajudar na compreensão dos impasses do indivíduo em sua inserção na sociedade moderna.

Marramao (1990) chama Freud à companhia de Marx e Nietzsche para nos dar a chave para a crítica da sociedade contemporânea. Num contexto mais amplo que o da psicose, Marramao recoloca a problemática do sujeito dentro de uma sociedade em que a grande questão é a produção de códigos de linguagem:

Temos que retomar radicalmente o discurso sobre o simbolismo nas nossas sociedades até para poder entender como é que hoje poderíamos reconstruir o sujeito. (p. 125 — grifo nosso)

Investigar os processos de desestruturação e restruturação do psicótico pode conduzir não só a avanços no conhecimento da clínica e da terapêutica, mas também a respostas sobre a capacidade do indivíduo em articular-se no universo social simbólico, tarefa básica de que o adolescente deve dar conta.

PSICOSE E PSICANÁLISE

A loucura nos faz perder nossa especificidade, tudo que nos individualiza no universo, nossa perspectiva própria, o giro particular de nosso espírito.

Cioran, No cume do desespero.

As críticas sobre a carência na obra de Freud de uma teoria ou de uma conceituação precisa da psicose nascem, muitas vezes, da expectativa

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de reencontrar a abordagem psiquiátrica embutida nas concepções psicanalíticas. O pensamento freudiano desliza, lenta mas continuamente, de concepções próximas à psiquiatria da época para a construção de novas noções sobre psicose, ligadas à elaboração de um particular conceito de sujeito, a que já me referi, acrescentando a leitura lacaniana sobre o tema. Enquanto a psiquiatria vai abordar a loucura como um processo de ruptura radical com a normalidade, a psicanálise freudiana busca aproximar os mecanismos que seriam próprios dos insanos daqueles da vida psíquica normal, ainda que aponte, em determinados momentos, as linhas de partição entre eles.

A evolução do pensamento freudiano sobre a psicose (ou as psicoses) poderia ser esboçado segundo diversos pontos de vista: acompanhando as transformações das suas concepções nosológicas — até certo ponto em diálogo com aquelas da psiquiatria; descrevendo as diversas caracterizações dos mecanismos da psicose esboçadas ao longo da obra; ligando a produção do conceito psicanalítico de psicose com a evolução dos conceitos metapsicológicos. Seguir todos esses pontos de vista, ao mesmo tempo, daria margem à elaboração de um outro livro: a evolução da teoria freudiana de psicose. Opto por destacar os pontos mais relevantes na abordagem de Freud — alguns retomados por Lacan — sem a preocupação de uma revi- são exaustiva e procurando, na medida em que a coerência do texto permitir, não repetir os temas já abordados.

No trabalho As neuropsicoses de defesa (1894) aparece um ponto de vista freudiano sobre a confusão alucinatória. A formação dessa psicose vai ser comparada com as das outras neuropsicoses: em todos os casos tratava-se da defesa frente à representação inconciliável (p. 59), mas na histeria, nas representações obsessivas e nas fobias, a representação atingida pela defesa deixa no eu o lastro de um símbolo mnêmico (p. 51); na confusão alucinatória a defesa é mais enérgica e o eu rejeita [verwerfen] a representação insuportável junto com seu afeto e se comporta como se a representação nunca houvesse se apresentado (p. 59). As consequências para a teoria psicanalítica dessa formulação inaugural serão examinadas mais adiante.

Um ano mais tarde, em 1895, Freud anexou o Manuscrito H a uma carta enviada a Fliess, apresentando o primeiro de seus estudos sobre a paranóia, que contém o germe de algumas concepções originais. Em pri-

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meiro lugar o manuscrito aponta a existência de um conflito, de um processo psicológico na paranóia, originado de perturbação afetiva, afastando-se da postura psiquiátrica que supunha a representação delirante, assim como a representação obsessiva, como distúrbios de origem puramente intelectual. Freud admite estar mais próximo da concepção leiga, que supõe derivar a loucura de algumas vivências anímicas perturbadoras (p. 247). Nesse caso, como em outros — sonhos, lapsos, chistes, etc —, Freud dá créditos a um saber ligado ao inconsciente, mas afastado do consagrado pela ciência da época, e cita uma frase extraída de Emilia Galotti, de Lessing: quem em certas circunstâncias não perde seu entendimento é que não tem nenhum a perder (p. 247).

A loucura é uma possibilidade ligada às circunstâncias vivenciais do sujeito, apesar de necessitar também de uma outra ordem de determinação — como abordarei a seguir — que precederia seu desencadeamento e concederia à vivência uma importância específica. Birman (1989) descreve como o sujeito é levado em conta na ordenação da experiência do delírio, que para Freud não era puramente um acidente de percurso, nem tampouco a resultante de um processo de desregulação do corpo biológico e de alteração do corpo anatômico. Já se pode antever em seus primórdios que a psicanálise vai apresentar uma concepção em que a experiência delirante implica necessariamente o sujeito e se tece na trama do discurso (p. 141).

A paranóia estaria inserida num conjunto com a histeria, a neurose obsessiva e a confusão alucinatória (amência), constituindo, junto com essas, as neuropsicoses de defesa, produzidas por um mecanismo psíquico, a defesa, que visava reprimir, de maneira inconsciente, uma representação penosa e inconciliável com o eu — como no Manuscrito K(1896) e nas Novas observações sobre as neuropsicoses de defesa (1896).

No Manuscrito H aparece, pela primeira vez, projeção como um mecanismo de defesa usual na paranóia. Sua ação é ilustrada por um caso clínico: uma mulher de cerca de 30 anos passa por um episódio equívoco, de ordem sexual — um homem que morava em sua casa coloca o pênis na sua mão. Reprime esse acontecimento e alguns anos depois apresenta um episódio delirante, durante o qual acredita que é perseguida por comentários das vizinhas sobre suas relações com aquele homem. Não admitia recordar-se do episódio do incidente sexual. O mecanismo da projeção, utilizado na vida psíquica normal, estava sendo usado de forma abusiva com o

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intuito de afastar do eu, colocando no exterior, uma possível reprovação interna à sua participação no episódio da exibição genital.

Freud generaliza sua concepção para todos os casos de paranóia: os querelantes, os delírios de ciúme dos alcoólatras, os delírios hipocondríacos, os delírios de grandeza e até os delírios coletivos — por exemplo massas nacionalistas que atribuem à traição a derrota na guerra. A ideia delirante defende o eu contra alguma outra ideia penosa insuportável. Assim pois (os paranoicos) amam o delírio como a si mesmos (pp. 25 1/252). Esta frase antecipa um importante desenvolvimento freudiano que será a conexão entre narcisismo e psicose.

As explicações sobre os mecanismos do sepultamento e da reconstrução do mundo (pelo delírio) constituem os aportes teóricos básicos da aná- lise de Schreber (12), a mais extensa obra de Freud dedicada ao estudo da psicose. Essas explicações ligam-se à construção das teorias sobre o narcisismo e a evolução (fixação e regressão da libido). Devo assinalar que a análise do caso Schreber traça o paradigma da abordagem psicanalítica da loucura, deixando nítidas as diferenças em relação ao interesse estritamente psiquiátrico sobre o tema. Freud (1911) aponta como se esgota rapidamente o interesse do psiquiatra em relação às formações delirantes, após haver constatado a ação do delírio e sua influência sobre a vida do paciente — o assombro do psiquiatra não é o começo do seu entendimento (p. 18). Já o psicanalista acostumou-se, a partir do estudo das psiconeuroses, a observar que mesmo formações de pensamento tão extravagantes, tão afastadas do pensamento comum dos homens, se originaram nas moções mais universais e compreensíveis da vida anímica (p. 18). Por isso, quem esta aberto à escuta psicanalítica se dispõe a aprofundar-se no conteúdo do delírio, nas suas mudanças e correlações com a história do sujeito.

Na observação sobre o presidente Schreber, o psiquiatra assinala os pontos básicos do delírio: o papel de redentor da humanidade e a transformação em mulher. Freud procura discernir um sentido e um desenvolvimento na temática delirante: a transformação em mulher (emasculação) foi o ponto inicial, tendo sido vivida como grave ameaça a um honrado e digno magistrado; constituiu-se um delírio de perseguição que ligava a um-

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(12) Sobre um caso de paranóia (Dementia paranoides) descrito autobiograficamente (Schreber), 1911.

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dança de sexo ao abuso sexual que seria cometido contra ele; alvo de um complô articulado por seu antigo psiquiatra — Flechsig — e até mesmo por Deus, Schreber seria vítima de homicídio; aos poucos o aspecto persecutório é substituído, passando a vigorar a ideia de uma relação privilegiada com Deus — ser a mulher Dele, responsável pela criação de uma raça de homens novos de espirito schreberiano.

A interpretação psicanalítica põe em conexão, no caso Schreber, a transformação em mulher, a ligação privilegiada com Deus e a atitude feminina frente a Ele, procurando uma ligação genética entre esses dados. Freud conclui que o caráter paranoico reside em que para defender-se de uma fantasia de desejo homossexual se reage, precisamente, com um delírio de perseguição dessa classe (p. 55). Essa explicação requer esclarecimentos suplementares sobre a história do desenvolvimento libidinal e maior detalha- mento acerca do mecanismo de formação de sintoma na paranoia.

Conforme o próprio Freud (1914) assinala, o estudo do narcisismo obedece à necessidade de tornar a teoria da libido capaz de dar conta dos aspectos clínicos da demência precoce ou esquizofrenia, assim como dos casos de paranoia. Aqueles pacientes, referidos por Freud como parafrênico (13), diferiam dos histéricos e obsessivos por seu radical afastamento do mundo, que os tornava imunes à psicanálise (p. 72). Enquanto os neuróticos retiravam seu investimento libidinal do mundo e o voltavam para objetos imaginários, conservando, na fantasia, o vínculo com pessoas e coisas, os parafrênicos (psicóticos) retiravam radicalmente e sem sucedâneos seus investimentos libidinais do mundo. A pergunta que se impõe diz respeito ao destino tomado pela libido nesses pacientes. A resposta encontrada por Freud é o delírio de grandeza, cujo mecanismo fica esclarecido com a noção de narcisismo:

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(13) Freud tenta introduzir o termo parafrenia em substituição às denominações demência precoce ou esquizofrenia, argumentando que com ele fazia alusão tanto à paranoia quanto à hebefrenia. Apesar de não desconhecer o sentido do termo em psiquiatria — psicoses delirantes crônicas com atividade alucinatória, sem desorganização da personalidade — Freud alega a favor da sua proposta a pouca aceitação da acepção tradicional. Alguns anos depois renuncia à sua inovação, parecendo conformar-se com o sucesso da expressão esquizofrenia, cunhada por Bleuler, e afasta-se das querelas nosográficas da psiquiatria.

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A libido subtraída ao mundo exterior foi conduzida ao eu, e assim surgiu uma conduta que podemos chamar narcisismo. Entretanto, o delírio de grandeza não é por sua vez uma criação nova, senão, como sabemos, a amplificação e o desdobramento de um estado que já havia existido antes. Assim, nos vemos levados a conceber o narcisismo que nasce por retirada dos investimentos de objeto como um narcisismo secundário que se edifica sobre a base de outro, primário, obscurecido por múltiplas influências. (p. 73)

Ainda no artigo Introdução ao narcisismo são postos em conexão os mecanismos de desenvolvimento das neuroses de transferência com aqueles das parafrenias. Nas neuroses, a angústia pode ser elaborada pelos mecanismos de conversão, formação reativa e deslocamento, produtores dos sintomas que vão caracterizar suas diferentes formas. Nas parafrenias também existe uma tentativa de restituição da libido ao mundo, fazendo com que nesses quadros possam ser identificadas as diferentes origens de três grupos de manifestações: as manifestações residuais, ou seja, a parcela neurótica ou normal conservada pelo indivíduo; aquelas do processo patológico, ou seja, do desprendimento da libido dos objetos, gerando o delírio de grandeza, a perturbação afetiva, a hipocondria e as regressões; finalmente as de restituição que fazem retornar a libido aos objetos ao modo de uma histeria (dementia praecox, parafrenia propriamente dita) ou ao modo de uma neurose obsessiva (paranóia). (p. 83)

Assim, do ponto de vista libidinal, todo o percurso de Schreber esta- ria esclarecido: a idéia de que deveria ser realmente bom ser uma mulher se sub- metendo ao coito (Schreber, 1984, p. 60), ocorrida ao paciente pouco antes da abertura do quadro psicótico, num estado de sem vigília, que apontaria para o fracasso da defesa frente ao desejo homossexual reprimido; a regressão libidinal, desde a homossexualidade sublimada até o narcisismo (Freud, 1 9 1 1, p. 67) — cuja intensidade seria determinada pela fixação narcísica dos paranóicos — esclarecendo os aspectos do sepultamento do mundo e do delírio de grandeza pela retirada da libido do mundo e seu retorno ao eu. Nos esquizofrênicos a regressão libidinal ultrapassaria a fase narcísica chegando ao auto-erotismo, situando-se a fixação num estágio anterior ao que ocorre na paranóia.

Um outro aspecto importante da análise que Freud realiza a partir do texto de Schreber diz respeito às diversas possibilidades de transforma-

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ção da frase Eu (um homem) o amo (a um homem). Não exatamente porque contenha as várias possibilidades de defesa contra a fantasia homossexual, que estaria na base da paranóia — explicação que os desenvolvimentos teóricos posteriores vão caracterizar como insuficientel (14). O valor da abordagem freudiana está ligado ao modo de correlacionar o delírio com a linguagem, abrindo um campo de exploração que irá revelar-se bastante frutífero no momento em que o desenvolvimento da linguística permitiu a Lacan retomar e desenvolver as indicações de Freud.

Procurando explicar as diversas formas clínicas da paranóia (perseguição, erotomania, ciúmes e grandeza) Freud determina as alternativas para o que seria a frase básica (não formulada, óbvio) do paranóico: Eu não o amo — pois eu o odeio (que por projeção levaria a Ele me odeia); Eu não o amo — pois eu a amo (com a projeção Ela me ama); Ela é quem o ama (ou ele é quem a ama — no caso do delírio de ciúmes das mulheres); Eu não amo a ninguém (o amor é todo voltado ao próprio eu). As quatro variedades de contradição da frase corresponderiam a mudanças introduzidas nos componentes gramaticais: o delírio de ciúmes contradiz o sujeito, o delírio de perseguição contradiz o verbo, a erotomania o objeto... a quarta variedade da contradição, a desautorização em conjunto da frase toda (Freud, 191 1, p. 60). Fenômenos clínicos, aparentemente diversos, escondem uma mesma organização estrutural e sua variabilidade pode ser explicada em função da alternância de lugares gramaticais ou lógicos.

Freud descreve a função privilegiada do mecanismo de projeção na paranóia mas dá mostra de insatisfação com suas próprias explicações e remete a outro contexto o estudo do problema. Não há registro desse estudo que seria retomado em outro lugar (15), e a única indicação sobre o tipo de mudança que Freud pensava em fazer quanto ao mecanismo da paranóia pode ser: não era correto dizer que a sensação interiormente sufocada é projetada

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(14) Concordando, nesse ponto, com as críticas de Macalpine à interpretação de Freud, Lacan (1966) afirma: a homossexualidade, pretendida determinante da psicose paranóica, é propriamente um sintoma articulado no seu processo. (p. 544)

(15) James Strachey sugere que o estudo da projeção teria sido retomado num dos 7 trabalhos metapsicológicos de Freud que não foram encontrados (Schreber, 1911, p. 62, nota 13).

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para fora; melhor entendemos que o cancelado dentro retorna desde fora (p. 66 — grifo meu). Logo abordarei a retomada dessa afirmação por Lacan, quando procura esclarecer o mecanismo fundamental da psicose.

Em trabalhos um pouco posteriores à introdução ao narcisismo (Pulsões e destinos das pulsões — 1915; O inconsciente — 1915; Complemento metapsicológico à doutrina dos sonhos 1917; Luto e melancolia — 1917), Freud decide usar a expressão original neurose narcísica para qualificar o que posterior- mente passa a denominar, preferencialmente, psicose. As neuroses narcísicas vão englobar a paranóia, a esquizofrenia, a melancolia e a confusão alucinatória aguda (amência de Meynert) e se colocam em oposição às neuroses de transferência — histeria e neurose obsessiva. Apesar da curta permanência da expressão na obra de Freud, seu aparecimento foi importante pois, como assinala Simanke (1994), trata-se da primeira categoria genuinamente freudiana fundamentada num conceito recém-formado por Freud, que abarca mais ou menos completamente aquilo que em breve virá incluir-se sob o rótulo de psicose (pp. 132/133). A criação dessa categoria aponta para a ruptura entre o conhecimento psicanalítico e o psiquiátrico: ainda que Freud renuncie a seu uso, fica patente a ligação entre a teoria em elaboração e a construção de um conceito de psicose estritamente psicanalítico.

Em O inconsciente (1915) Freud esclarece as relações entre investimento pulsional e representação na psicose, apontando que o caráter de estranheza dos fenômenos esquizofrênicos deve-se ao predomínio da referência à palavra sobre a referência à coisa (p. 197). Os investimentos que se perdem na esquizofrenia são os referidos à representação-coisa (Sachvorstellung ou Dingvorstellung), no inconsciente, enquanto são mantidos ou aumentados os investimentos na representação-palavra (Wortvorstellung), própria do pré-consciente. Com isso, assinala Freud sobre o modo de pensamento dos esquizofrênicos: eles tratam coisas concretas como se fossem abstratas (p. 201). Esse é um ponto de fundamental importância pois o que está em jogo, no psicótico, é a possibilidade de constituir representações, o que implica numa interferência em sua capacidade de constituição da realidade.

As reformulações teóricas acerca da constituição do aparelho psíquico, trazidas pelo extenso artigo de 1923 O eu e o isso, impulsionam Freud a explicitar as diferenças entre psicose e neurose. No artigo de 1924, Neu-d

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rose e psicose, figura em destaque a afirmação de que a neurose é o resultado de um conflito entre o eu e seu isso, enquanto que a psicose é o desenlace análogo de uma perturbação similar nos vínculos entre o eu e o mundo exterior (p. 155). Alguns meses após Freud reconhece a imprecisão da sua afirmação, pois tanto na neurose como na psicose acontecem alterações no vínculo com a realidade e tentativas de substituição da realidade insatisfatória. O assunto é retomado em A perda da realidade na neurose e na psicose (1924). Nesse artigo ficam melhor especificadas as diferenças entre neurose e psicose: na primeira há uma tentativa de fuga de um fragmento inaceitável da realidade (através da repressão), que fracassa (retorno do reprimido), dando margem à constituição do sintoma (distúrbios histéricos, fobias, rituais obsessivos, etc); na segunda ocorre uma ruptura radical com a realidade seguida de uma tentativa de reconstruí-la de forma a torná-la totalmente remodelada (delírio).

O ponto de vista sobre a perda da realidade é ainda mais uma vez reelaborado em 1927, no artigo sobre o Fetichismo. Freud novamente se dá conta da complexidade que envolve a questão da perda da realidade. Examinando os casos de fetichismo e de neurose obsessiva ele pode constatar que um fragmento sem dúvida substantivo da realidade (p. 150) podia ser desmentido (16), o que de resto poderia acontecer, frequentemente, na infância. O acontecimento a ser desmentido, no caso dos fetichistas, é a castração da mulher, mas outros fragmentos da realidade poderiam sofrer o mesmo processo. No artigo aparece como exemplo, retirado de dois casos de neurose obsessiva, a cisão da vida psíquica que permitia uma oscilação entre reconhecer ou não a morte do pai, ocorrida na infância dos pacientes. A solução proposta por Freud para solucionar a questão da diferença entre os casos de neurose e fetichismo e os de psicose passa pela consideração de que nos primeiros duas correntes permanecem válidas — e opostas — na vida psíquica enquanto que no caso da psicose uma dessas correntes, aquela de acordo com a realidade faltaria efetivamente (p. 151).

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(16) Verleugnung é o termo freudiano que caracteriza o mecanismo fetichista, apontado também, em alguns textos, como mecanismo psicótico. Foi traduzido no Vocabulário da psicanálise (Laplanche e Pontalis, 1979) como Recusa, mas a tradução Renegação também tornou-se usual.

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Resta acrescentar que está em jogo, tanto na neurose quanto na psicose, a realidade psíquica, o registro que cada sujeito constrói da realidade objetiva ou material. Só existe sujeito, do ponto de vista psicanalítico, quando da possibilidade das representações constituírem o inconsciente, inscrevendo ou nomeando algo que, ao mesmo tempo, se presentifica e se ausenta — presente enquanto simbólico e perdido enquanto coisa (das Ding). Daí, a perda da realidade de que fala Freud toma um sentido particular em psicanálise, não se referindo a um simples afastamento, por parte do psicótico, da realidade compartilhada, mas à falência da distinção entre representação e coisa. O movimento de perda da realidade liga-se à profunda alteração da vida psíquica, atingindo a constituição do mundo para o sujeito (sepultamento do mundo).

As mudanças na teoria pulsional, com a oposição entre as pulsões de morte e as de vida (17), também trariam consequências para a teoria freudiana das psicoses. No artigo A negação (18) (1925), Freud articula o estudo da formação do juízo (de atribuição e de existência), e portanto da gênese da uma função intelectual, com o jogo pulsional. Para existir o julgamento sobre a presença de algo no mundo exterior é necessária a afirmação (Bejahung) anterior de uma representação no eu — urna carta de cidadania que certifica a realidade do representado (p. 255). Essa inclusão, no interior do eu — ou do registro simbólico —, obedece ao princípio do prazer e o que não satisfaz essa condição é colocado fora, expulso do eu. Pode-se então acompanhar a ação dos dois princípios pulsionais:

A afirmação — como substituta da união pertence ao Eros, e a negação — sucessora da expulsão —, à pulsão de destruição. O gosto de negar tudo, o negativismo de muitos psicóticos, deve compreender-se provavelmente como indício da desfusão das pulsões pela retirada dos componentes libidinais. (pp. 256/257)

Parece haver um momento na psicose em que a pulsão de morte encontra-se livre, desligada da pulsão erótica e portanto não representável.

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(17) Mais além do princípio do prazer (1920).

(18) Verneinung foi traduzido por negação ou denegação, termo que parece conservar melhor o sentido original.

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Sua presença pode ser apenas inferida pelos fenômenos do negativismo que podem tomar uma forma radical principalmente nos quadros mais graves das catatonias (recusa a alimentar-se e movimentar-se, posição fetal, etc).

As considerações de Freud sobre a psicose alcançam seus últimos trabalhos, como Esquema da psicanálise (1940), no qual voltam a exame o mecanismo da Verleugnung e a clivagem ou cisão do eu (Ichspaltung). A partir do exemplo de um delírio de ciúmes Freud realça a divisão do eu e seu papel na psicose. O delirante tinha sonhos que retificavam os delírios diurnos, permitindo supor a existência de duas correntes na vida psíquica: a que leva em conta a realidade objetiva, a normal, e outra que sob o influxo do pulsional desprende o eu da realidade (pp. 203/204). A ocorrência da psicose seria então dependente da força relativa das duas correntes — a que afasta e a que Iiga o eu à realidade. O que parece ser uma indicação de que a psicose depende originalmente apenas de fatores quantitativos vai ser relativizado no mesmo parágrafo, quando Freud afirma que a cura da enfermidade delirante é apenas aparente. Nos casos onde prevaleceria a ligação com a realidade haveria apenas a retirada do delírio para o inconsciente, e numerosas observações permitem inferir que o delírio estava formado e pronto desde muito tempo atrás, antes de advir a irrupção manifesta (p. 204). A clivagem do eu não seria um privilégio da psicose e poderia estar presente nas neuroses e, certamente, no fetichismo.

Ainda que no contexto de seus últimos trabalhos se faça frequente menção ao comprometimento da Verleugnung com a perda da realidade, subsiste, até o final de sua obra, a pergunta que Freud formula em Neurose epsicose sobre o mecanismo básico da psicose: qual será o mecanismo análogo a uma repressão, por intermédio do qual o eu se desprende do mundo exterior? (p. 159)

Lacan toma para si a tarefa de responder a essa pergunta de um modo original, ainda que calcado em algumas importantes indicações freudianas. As questões em torno da noção de castração estão entre as mais importantes para a elucidação do mecanismo psicótico. No Homem dos lobos (Da história de uma neurose infantil, 1918), Freud refere-se por diversas vezes a um processo psíquico utilizado pelo paciente para evitar a angústia

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de castração: Verwerfung (19). Fica explícita, no artigo, a diferença entre esse processo e o mecanismo básico da defesa neurótica: Uma repressão [Verdrängung] é algo diverso de uma rejeição [Verwerfung] (p. 74).

Freud prossegue identificando as diversas atitudes do Homem dos lobos quanto à castração. Inicialmente ele rejeitou (verwerfen) a possibilidade da castração, atendo-se à teoria de que o órgão sexual feminino era o ânus, o que evitava qualquer juízo sobre a ausência/presença do pênis na mulher. Freud é incisivo: quando digo que a rejeitou, o significado mais imediato dessa expressão é que não quis saber nada dela, seguindo o sentido da repressão. Com isso, na verdade, não se havia pronunciado nenhum juízo sobre sua existência, pois era como se ela não existisse (p. 78). O desenvolvimento da neurose infantil do paciente vai permitir a identificação de duas outras correntes psíquicas que admitiam a castração como um fato: uma a abominava, outra a aceitava e conduzia a uma identificação com a mulher.

O mais importante contudo era a persistência da corrente mais primitiva que simplesmente havia rejeitado a castração, com o qual nem sequer estava em questão o juízo acerca da sua realidade objetiva... Essa corrente, segundo Freud, seguia sendo sem dúvida passível de ativação. (p. 78)

Em primeiro lugar Lacan (1981), apoiando-se no texto freudiano, assinala a oposição entre o que é da ordem do recalque (Verdrängung) e o que cai sob a foraclusão (Verwerfung). Aquilo que se oculta no recalque reaparece, articulado simbolicamente, nos sintomas. O recalcado e seu retorno são homogêneos, pois compartilham da mesma natureza simbólica. No caso da foraclusão não há uma articulação simbólica primeira e o que é repudiado carece de representação no eu. O artigo A negação, já citado, assinala a fase da constituição primordial do sujeito, a afirmação (Bejahung) inaugural no simbólico, correlativa de uma expulsão (Ausstossung) — para o exterior do sujeito — do que é intolerável. É a esse nível de recusa básica da

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(19) Verwerfung está traduzido no Vocabulário de psicanálise como rejeição ou repúdio. O termo mais usual em português é, entretanto, foraclusão, um neologismo cunhado para traduzirforclusion, a expressão francesa que Lacan escolhe para traduzir a palavra alemã. Lacan realça o sentido jurídico da palavra forclusion: algum direito perdido por não ter sido requerido em prazo hábil. No alemão a palavra Verwerfung também tem o sentido de falha geológica.

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inscrição simbólica que Lacan aponta o funcionamento do mecanismo psicótico:

De que se trata quando eu falo de Verwerfung? Trata-se da rejeição de um significante primordial nas trevas exteriores, significante que faltará desde então a esse nível. Eis o mecanismo fundamental que eu suponho na base da paranóia. Trata-se de um processo primordial de exclusão de um interior primitivo, que não é o interior do corpo, mas aquele de um primeiro corpo de significantes. (p. 171)

A explicação lacaniana é reforçada pelo relato de um episódio alucinatório na infância do Homem dos lobos: quando tinha cinco anos, ele estava brincando com um canivete e subitamente notou, aterrorizado, que seu dedo mínimo havia sido cortado e pendia preso apenas pela pele. Não conseguiu falar nada a sua babá, pessoa da sua grande estima e que estava bem próxima; permaneceu sentado, sem poder olhar o dedo. Após tranquilizar-se um pouco, voltou a olhar o dedo que estava intacto. Essa descrição leva Lacan (1981) à seguinte formulação: o que é recusado na ordem simbólica, ressurge no real (p. 22). Essa fórmula articula-se com a observação, já citada, de Freud acerca do caso Schreber, quando afirma que o cancelado dentro retorna desde fora (p. 66 — grifo meu).

A teoria lacaniana sobre a psicose retoma a questão da castração, no contexto da constituição da ordem simbólica. Não se trata apenas da descrição de um mecanismo a foraclusão — responsável pela psicose, mas de toda uma articulação teórica, com forte incidência da linguística. Nessa vertente, Lacan faz uma releitura do complexo de Édipo, dentro da qual a noção de castração dá ensejo às formulações sobre a psicose.

Para Lacan, o que está em jogo com a recusa do reconhecimento da castração é a impossibilidade da articulação simbólica estruturada pela metáfora paterna. A castração na teoria lacaniana diz respeito à função do pai enquanto introdutor de uma lei: a ordem simbólica. A questão edípica é uma formulação sobre a estruturação do sujeito: a instalação do triângulo rivalitário livra a criança do acolamento a uma mãe mítica, não castrada — isto é, não submetida a nenhuma lei. Antes do corte produzido pela castração a mãe, imaginariamente, possui um falo com o qual a criança se identifica. Uma vez que não é possível a aglutinação mãe/filho num só

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corpo de gozo pleno, a via para a existência do sujeito é recobrir, nomear e não apagar a falta propulsora do desejo. O desejo, assinala Lacan (1981), desempenha uma função fundadora: o desejo sexual é com efeito o que serve ao homem para se historicizar, pelo que é a esse nível que se introduz pela primeira vez a lei (177).

Para além da sua dimensão imaginária — atributo de que alguns seriam privados liminarmente e outros estariam ameaçados de perder — o falo deve ocupar o lugar de significante do desejo constituindo o padrão para todas as suas metamorfoses. Nessa função ele vai marcar toda a relação do sujeito ao significante, sendo o significante privilegiado dessa marca onde a parte do logos se une ao advento do desejo. (Lacan, 1966, p. 692). Para que isso aconteça é necessário que a criança seja separada da mãe, no sentido de ter uma referência outra, dada pelo registro simbólico que lhe é apresentado pelo Nome-do-Pai — quer dizer do significante que no Outro, enquanto lugar do significante, é o significante do Outro enquanto lugar da lei. (Id., p. 583).

A metáfora paterna, como em qualquer produção metafórica, quando um significante vem em lugar de outro significante, funciona nesse caso fazendo com que no lugar do significante do desejo da mãe — para sempre recalcado — surja o significante do Nome-do-Paz. O enigma do desejo está criado e toda sua significação possível corresponde ao falo, evocada que foi no imaginário do sujeito pela metáfora paterna (Id., p. 557). Como significante do enigma do desejo sexual o falo é o significante-chave para toda significação possível e se essa função não se constitui, no caso de ausência da metáfora paterna, acontece a ruptura da cadeia significante.

A teoria lacaniana sobre a psicose procura dar conta das principais questões levantadas por Freud: o mecanismo que torna possível a perda da realidade; a reconstrução (pelo delírio) dessa realidade; a conformação dos fenômenos psicóticos e o processo do seu desencadeamento. Todos esses aspectos são trabalhados por Lacan nos três registros ou dimensões onde habita o falante: o simbólico, o imaginário e o real.

O mecanismo básico, como já expus, é a foraclusão de um significante fundamental, o Nome-do-Pai, disfunção simbólica que traz consequências para o registro imaginário, pois pelo buraco que abre no significado atrai a cascata de remanejamentos do significante de onde procede o desastre crescente do imaginário, até que seja atingido o nível onde significante e significado se esta-

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bilizem na metáfora delirante (Lacan, 1966, p. 577). A função do delírio é caracterizada pela reaproximação entre significante e significado, criando os pontos mínimos de ligação —points de capiton/pontos-de-estofo — que permitam a articulação de um discurso, conforme indiquei anteriormente.

O processo de desencadeamento da psicose ocorre quando ao apelo do Nome-do-Pai responde a carência desse significante: para que a psicose se desencadeie, é necessário que o Nome-do-Pai, verworfen, forcluído, quer dizer nunca vindo ao lugar do Outro, aí seja chamado em oposição simbólica ao sujeito. (Id., p. 577)

Lacan usa, entre outros exemplos, o caso Schreber para esclarecer a questão do desencadeamento psicótico. A nomeação de Schreber para o cargo de presidente do Supremo Tribunal de Dresden, capital da Saxônia — nomeação equivalente a uma determinação, por seu caráter irrecusável —, o conduz a um posto de grande importância, no qual deverá chefiar pessoas mais velhas que ele. É incontestável que sua nova posição hierárquica faz apelo a Um-pai. Nesse momento da sua vida Schreber não tem como fugir da necessidade de responder com o significante paterno para dar conta do lugar que lhe é indicado pelo Outro: a função simbólica de um pai. A essa injunção não pode responder, pois o Nome-do-Pai a ser chamado pelo sujeito nunca esteve no lugar de onde deveria advir. Após uma tentativa de suicídio Schreber é internado e acometido por toda a série de transtornos que narra magistralmente nas suas Memórias de um doente dos nervos.

Esse não é, entretanto, o primeiro grave transtorno psíquico de Schreber. Cerca de nove anos antes apresentou um episódio hipocondríaco grave; considerando-se doente incurável tentou por duas vezes o suicídio, passando alguns meses hospitalizado. Apesar de menos esclarecida, essa primeira doença pode ser ligada à posterior pois, como Freud afirma, a hipocondria é para a parafrenia (20), aproximadamente, o que as outras neuroses atuais são para a histeria e a neurose obsessiva (1914, p. 81). Qual o fator desencadeante dessa vez? Algumas semanas antes Schreber fora fragorosa-

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(20) O emprego que Freud fez desse diagnóstico — conjugando esquizofrenia e paranóia — foi esclarecido anteriormente.

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mente derrotado na eleição em que postulava um mandato de deputado. Um jornal, para ridicularizar sua candidatura, estampou: quem, afinal, conhece o Dr. Schreber? (Niederland, 1981, p. 113). Novamente aparece o chamamento e o fracasso em evocar o Nome-do-Pai para formular uma resposta. As situações apresentam diferenças: nesse caso a evocação da metáfora paterna parte de um fracasso social, na segunda, a eclosão da psicose surge de um brilhante sucesso profissional. Traço de união a ligar os dois tempos é a figura do Dr. Flechsig, médico que se torna o salvador de Schreber na ocasião da primeira doença — a ponto da sua esposa manter, durante anos, o retrato do médico sobre uma mesa — e grande personagem do delírio no momento da segunda.

Quando abordar os casos de adolescentes psicóticos voltarei ao tema do desencadeamento da psicose. Retomarei também o papel de suplência imaginária do Nome-do-Pai que certas figuras assumem na vida dos psicóticos, como pode ter sido o caso do Dr. Flechsig para o presidente Schreber.

O conceito de real talvez seja a construção lacaniana que o conduziu a desenvolvimentos mais afastados das teorias freudianas. Assim mesmo podem ser encontrados pontos de contato, sobre o tema, entre as duas obras. No seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan (1979) faz diversas considerações sobre o real como trauma e sua relação com o além do princípio do prazer: o real está para além do autômaton, do retorno, da volta, da insistência dos signos aos quais nos vemos comandados pelo princípio do prazer (p. 56). Na noção freudiana de repetição (Wiederholung) Lacan busca a relação do pensamento com o real, permitindo formular que o real é aqui o que retorna sempre ao mesmo lugar (p. 52). Essa fórmula se reproduz, com modificações, no contexto em que o real se Iiga ao impossível: o que não para de não se escrever (1982, p. 81).

A psicose é um campo privilegiado para apreender os efeitos do real. Já me referi à proposição sobre a alucinação pela qual o que é recusado na ordem simbólica ressurge no real. O fenômeno resulta da foraclusão, de algo que fica fora da simbolização mas que está longe de cessar de manifestar-se. Só que essas manifestações, por não estarem inscritas na ordem simbólica, não produzem sentido, não havendo possibilidade da sua instalação no jogo do desejo, guiado pelo significante fálico.

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O real transtorna a possibilidade de um gozo regulado, que é o gozo sexual, delimitado pelo falo: a satisfação medida, que é possível aos seres de linguagem, aos quais o objeto do desejo falta estruturalmente. Lacan aponta na psicose a presença de um outro gozo, o gozo do Outro, o gozo não inscrito no simbólico, o gozo do corpo. Essas diversas expressões de cunho lacaniano devem dar conta de um gozo mudo, que se supõe presente no corpo animal — e, por desesperadores momentos, nos corpos dos psicóticos quando desprovidos da palavra humanizadora. Nesse caso, como em outros, Schreber, ao falar do milagre dos urros, é o guia de Lacan nas indicações sobre esse real desumanizado: os músculos que concorrem para a respiração são postos em movimento pelo deus inferior (Ariman) de tal modo que sou forçado a emitir o barulho do urro... em certos momentos os urros se sucedem numa repetição tão rápida e frequente que o resultado para mim é uma situação praticamente insuportável... (p. 200).

Na apresentação da tradução francesa das Memórias de Schreber, Lacan (1987) vai definir a paranóia como identificando o gozo nesse lugar do Outro como tal (p. 22). O Outro deixaria de ser um lugar para subjetivar-se como gozador — expressão que em português ganha em polissemia, aproximando o ato de usufruir ao de tripudiar. No exemplo acima já se observa a articulação do delírio, com a responsabilização do deus inferior Ariman pela produção dos urros. O delírio parece estabelecer uma ordenação, um controle sobre esse gozo excessivo, transformando-o em algo mais tolerável. A volúpia de alma, que Schreber sente e classifica como uma espécie de beatitude ou gozo voluptuoso ininterrupto, é coetânea à articulação do pro- cesso delirante da sua transformação em mulher de Deus.

Solidária com o conceito de real, Lacan desenvolve a noção de objeto a, que vai permitir articular a função do real na estrutura subjetiva. Na constituição da realidade (21) extrai-se um elemento que permanece real, enquanto parte de um exterior — que não se poderia dizer mundo exterior pois mundo supõe uma organização que exatamente falta a esse exterior ao simbólico. Mas essa coisa (das Ding, como Lacan (1986) a apresenta no seminário A ética da psicanálise) de que o sujeito para se constituir se separou é

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(21) Realidade psíquica, pois, como já apontei anteriormente a propósito da obra de Freud, essa é a realidade propriamente dita da psicanálise.

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justamente a marca de que algo falta, está definitivamente perdido. Essa perda permite o nascimento do sujeito e demarca sua impossível mas inabalável relação com o objeto causa do desejo — o objeto eternamente faltante que a pulsão contorna. O objeto é pré-subjetivo mas sustenta um giro particular de cada sujeito, na medida em que em torno do objeto faltante se articula a construção da fantasia que permite a cada um desejar de modo único e próprio: o sujeito se situa a si mesmo como determinado pela fantasia (Lacan, 1979, p. 175)

Na psicose, pela abolição da trama simbólica, o objeto a retorna desde o real, aparece reificado nas alucinações. O imaginário e o simbólico, que formavam uma tela, enquadrando o gozo na sua dimensão de gozo fálico, estão desarticulados, e o objeto a pode fazer retorno desde o real. A consequência é a perda da dimensão propriamente subjetiva do psicótico, identificado com esse objeto que ressurge e com o próprio gozo — na verdade não diremos que alguém goza alucinando, mas que ele é o gozar da experiência alucinatória (Nasio, 1991, p. 92).

Para a psicanálise a loucura, na sua forma radical de psicose, implica na experiência de perda do giro particular de nosso espírito, mas também num esforço do sujeito de readquirir uma forma de dizer sua verdade particular. Esses dois momentos se deixam apreender em situações-limite de indivíduos na travessia da adolescência.

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ADOLESCÊNCIA, SOCIEDADE E INDIVÍDUO

Antes de qualquer tentativa de avaliar as relações entre psicose e uma determinada idade da vida — a adolescência — torna-se necessário delimitar o que essa idade tem de específico. O primeiro passo é reconhecer a singularidade do recorte que cada sociedade faz dos acontecimentos biológicos e a forma particular com que cada uma organiza suas relações de parentesco. A falta desse cuidado implicaria em endossar modelos teóricos acerca da adolescência que resvalam para uma caracterização trans-histórica e naturalizante de conceitos como família e sociedade (22).

Como o adolescente a ser estudado é o da sociedade contemporânea, cumpre abordar as características principais dessa sociedade e, sobretudo, um valor basal para os modernos: o individualismo.

Traçadas as linhas básicas quanto ao que é a adolescência, na visão que orienta minha abordagem, pode-se passar ao exame das relações a serem estabelecidas entre essa visão e o conceito psicanalítico de identificação. Esse conceito vai merecer um desenvolvimento específico, em contraponto com a noção de identidade, em virtude da sua importância para o campo psicanalítico e, em particular, para a vida subjetiva do adolescente.

FAMÍLIA, SOCIABILIDADE E AS IDADES DA VIDA

Jovem: júbilo em tua juventude

e bonança em teu coração f na infância dos teus dias

e vai .f pelas vias do teu coração

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(22) Uma crítica a esse tipo de abordagem constitui o principal objeto da minha dissertação de mestrado Adolescência: as ideologias das teorias. Rio de Janeiro, UFRJ, Instituto de Psiquiatria, 1983. (mim.)

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e pela miragem dos teus olhos

E sabe

por tudo isso Elohim tefará vir a julgamento



Qohélet / O-Que-Sabe / Eclesiastes

Transcriado por Haroldo de Campos

Tanto a estrutura familiar quanto a delimitação das diversas fases ou idades da vida sofrem mudanças determinadas por transformações sociais. Philippe Ariès (1986) descreve o surgimento da moderna noção de família e do sentimento da infância a partir do século 18. A família medieval confundia-se com o espaço comunitário que a envolvia e a nuclearização e privatização de um espaço familiar obedeceu a um longo processo de evolução. A construção do sentimento da infância foi parte integrante da formação da família moderna. Ariès explica que o sentimento da infância não é a mesma coisa que a afeição pelas crianças, mas o reconheci- mento da existência de um ser dotado de características particulares, diferentes das do adulto — a criança.

A distância entre o mundo infantil e o adulto, tal como se apresenta atualmente, não existia na idade média. O que hoje denominaríamos infância, com suas diversas subdivisões etárias, podia ser separado, no período medieval, em apenas duas etapas: enquanto muito pequena e dependente de cuidados básicos para a sobrevivência, a criança vivia com a mãe ou a ama; logo que possível misturava-se ao mundo adulto, participando das atividades sociais corriqueiras.

O distanciamento entre o estado infantil e a condição de adulto é acompanhado pelo surgimento de um novo período etário: a adolescência. Ariès assinala a inexistência dessa categoria etária antes do século 18:

Observamos que, como juventude significava a força da idade, idade média, não havia lugar para a adolescência. Até o século 18, a adolescência foi confundida com a infância. No latim dos colégios, empregava-se indiferentemente a palavra puer e a palavra adolescens. Existem, conservados na Bibliothèque Nationale, alguns catálogos do colégio dos jesuítas de Caen, uma lista dos nomes dos alunos, seguida de apreciações. Um rapaz de 15 anos é descrito aí como bonus puer, enquanto seu jovem colega de 13 anos é chamado de optimus adolescens. Baillet, um livro consagra-

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do às crianças-prodígio reconheceu também que não existiam termos em francês para distinguir pueri e adolescens. Conhecia-se apenas a palavra enfant (criança). (p. 41)

Devo assinalar a diferença entre puberdade, o período de transformações biológicas por que passam os indivíduos em determinada idade, e adolescência ou puberdade social, estado transitório, de duração indeterminada, marcado por vicissitudes psicológicas e sociais que atingem o jovem nas proximidades do período púbere.

Van Gennep (1981) se esforça por demonstrar a diferença entre o que chama de puberdade fisiológica e puberdade social (p. 94). Para Van Gennep a puberdade física estaria para a puberdade social assim como o parentesco físico (consanguíneo) estaria para o parentesco social (p. 98). Calcado na variação da idade de aparecimento dos sinais de puberdade (menarca, por exemplo), ele aponta a dificuldade de uma instituição social apoiar-se sobre um elemento fisiológico tão pouco determinado. O autor acrescenta uma série de dados etnográficos para reforçar sua tese de que a puberdade social — marcada por ritos de iniciação — pouco tem a ver com a puberdade fisiológica. Entre os índios Thomson da Colúmbia Britânica, a cerimônia de puberdade a que se submetem os meninos varia segundo a profissão que devem seguir (caçador, guerreiro, etc). Além disso, cada adolescente somente participa das cerimônias a partir de um evento que poderíamos classificar como simbólico: o dia em que sonha pela primeira vez com uma flecha, uma canoa ou uma mulher, o que se dá, usualmente, entre os doze e os dezesseis anos. Os meninos das tribos Hotentotes da África do Sul permanecem junto às mulheres e às outras crianças até os 18 anos, portanto muito após a puberdade fisiológica.

As sociedades tradicionais, como descrevo mais adiante, possuem mecanismos rituais para marcar a travessia da fase púbere e indicar ao indivíduo o seu lugar no mundo adulto. Nesses casos é abusivo falar de adolescência, no sentido que o termo toma nas sociedades modernas. Ritualizada, a passagem de criança a adulto não implica, nas sociedades tradicionais, no montante de conflito e indefinição que encontramos entre nós. De acordo com Elias (1994), na moderna civilização ocidental Os problemas existenciais frequentemente aparecem ao sujeito como um con-

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flito entre o indivíduo e a sociedade, com tempos de ruptura e de busca de um lugar, ainda indeterminado, no universo social.

Antes de examinar o papel da família em nossa sociedade e sua relação com a subjetividade adolescente, dirijo a atenção para a maneira que sociedades diversas da nossa lidam com a travessia dos diversos períodos etários e os momentos de integração ou separação dentro de um grupo.

Ao abordar as maneiras como outras sociedades lidam com as diferentes etapas etárias não proponho uma equivalência, como se ritos de passagem, comuns nas sociedades tradicionais, fossem uma espécie de adolescência primitiva. No entanto olhar para o diferente pode ser importante no esclarecimento do familiar. Familiar toma aqui um duplo sentido: o que faz parte da nossa experiência sócio-cultural e o que faz parte da família, compreendida aqui como a família nuclear da sociedade moderna. E a família, como diz Gilberto Velho (1987),

é uma instituição fundamental no processo de socialização da subjetividade. Ela será de algum modo construída, elaborada ou desenvolvida, dependendo do ponto departida, em função de certas agências, mediante determinadas instituições, e a família é uma instituição privilegiada. (p. 80)

Já abordei, inicialmente, a sociedade medieval onde não se levantavam fronteiras entre o privado e o público e as diversas idades da vida não viviam compartimentadas. Como propõe Ariès (1978), a civilização medieval não reconhecia a infância e a vida adulta como mundos diferentes entre os quais fosse necessária uma passagem. Na medida em que a antiga sociabilidade coletiva medieval começa a restringir-se surge a família moderna, preocupada com a criação dos filhos e a privacidade.

As sociedades tribais, onde predominantemente encontramos os ritos de passagem, são fundadas no eixo sincrônico e a vivência do transcurso do tempo não é equivalente ao que experimentamos na nossa sociedade. Roberto Da Matta (1981) aponta para a função dos ritos nas sociedades tradicionais:

Aqui, os ritos são em geral momentos individualizadores, voltados para a resolução de crises de vida ou, como colocou Victor Turner (1 968), de momentos aflitivos. Trata-se de destacar os noviços (para que possam ser domesticados dos seus impulsos anti-sociais e novamente incorporados à sociedade)... A direção do movimento ritual na sociedade tradicional é para

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engendrar uma complementaridade interna, daí a atenção aos processos de crise que separam categorias de pessoas umas das outras, e consequentemente, o esforço em individualizar controladamente, com o grupo tomando a iniciativa desse processo e por meio dos agentes certos em momentos adequa- dos e programados. Assim fazendo, o grupo impede o processo de livre individualização, criando as condições para que tudo fique novamente junto. (pp. 26/27 — grifo nosso)

No processo de individualização ou da diferenciação sob o controle da sociedade, Van Gennep assinala a importância das mutilações. As mutilações, assim como as máscaras ou as pinturas corporais, são marcas de diferenças, temporárias ou definitivas, que assumem grande importância nos ritos de passagem. Os muitos exemplos etnográficos mostram uma equivalência de sentido: cortar o prepúcio, cortar a última falange do dedo mínimo, cortar o lóbulo da orelha, perfurar o septo nasal, tatuagens ou escarificações, etc apontam para uma operação que afasta o indivíduo mu- tilado da humanidade comum, por um rito de separação (ideia de secção, de perfuração, etc) que automaticamente o agrega a um grupamento determinado, e de tal maneira que a operação deixando traços indeléveis, a agregação seja definitiva. (p. 103)

A questão da separação de uma vida ou de um meio anterior é fundamental nos ritos de passagem e costuma anteceder a parte da cerimônia que vai ligar o indivíduo a sua nova situação de vida. Em algumas tribos australianas as cerimônias de iniciação ao grupamento totêmico começam pela separação do noviço do mundo das mulheres e crianças. A separação da mãe é violenta e, depois de ligar-se ao mundo dos homens, todos os jogos da infância devem ser abandonados. Em certas tribos, ainda na Austrália, o principiante é considerado morto durante o período da iniciação. A situação assemelhada com a morte é obtida pelo enfraquecimento físico e mental que pode incluir jejuns, reclusão, maus tratos e até o uso de substâncias psico-ativas como o tabaco, o peyote. O sentido do processo é permitir a perda dos registros da vida infantil, da personalidade anterior, e um ressuscitar para uma vida diversa (Van Gennep, pp. 107/108).

Esses ritos têm uma parte positiva, de inscrição do indivíduo no grupamento a que vai pertencer por toda sua vida adulta (o clã totêmico,

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no caso). As mutilações, a que já me referi, vão identificar o novo membro com os demais componentes do clã, e o ensino de código de costumes, o aprendizado dos mitos e do cerimonial tradicional completam a integração. É importante notar, como faz Cahn (1991), que a produção de uma identidade para o sujeito nessas sociedades só é possível através das relações com os outros, exercendo uma função que os ritos vão introduzir. Não se trata, como entre nós, de algo que se passa no campo de uma interioridade psíquica.

A passagem de uma classe de idade a outra não produz conflitos nas sociedades tradicionais, por ser conduzida por caminhos conhecidos, dentro dos ritos apropriados. Entre os Masai, do Quênia, a circuncisão que marca a passagem para a vida adulta, se não pode realizar caso o pai não aceite tornar-se um velho e passar a chamar-se O Pai-de-[o nome do filho] (Van Gennep, p. 122). Todo remanejamento geracional está construído de forma a manter a agregação social.

A agregação do indivíduo ao seu grupo pode passar por cerimônias de denominação, em que, segundo Van Gennep, a imposição das Armas ou Brasão equivale às escarificações rituais ou à representação do totem para outras sociedades. Entre os Lekugnen da Colúmbia Britânica, um velho chefe proclama o nome e os títulos dos ancestrais que serão dados ao filho pela vontade do pai, segue-se um banquete ritual e o jovem passa a ser conhecido apenas pelos títulos e o nome recebido (pp. 143/144). Esse tipo de cerimônia parece ser do mesmo gênero daquelas praticadas na Europa medieval, na sagração de Cavaleiros, num período da civilização ocidental em que não podemos reconhecer a existência do que hoje chamamos adolescência.

Elias (1994) assinala as dificuldades da sociedade moderna em fornecer caminhos de passagem entre as idades da vida, devido ao fosso que separa o comportamento espontâneo das crianças das exigências feitas aos adultos:

Até na sociedade da Idade Média européia, era freqüente o jovem ser treinado diretamente a serviço do mestre adulto. O pajem servia ao cavaleiro, o aprendiz ao mestre da guilda. E, ainda que o período de serviço fosse longo e, em muztos casos, o degrau mais alto fosse inatingível para o indivíduo, a escala da carreira era relativamente baixa e tinha poucos degraus. Quando

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as sociedades se tornaram mais complexas e centralizadas, quando a especialização aumenta e se diversificam as carreiras oferecidas pela sociedade, a preparação necessária para o desempenho das tarefas adultas também se torna mais prolongada e complexa. (p. 1 04)

A partir do século XVIII e mais acentuadamente no século XIX a adolescência vai tornando-se, no mundo ocidental, uma classe etária delimitada. Nem adulto nem criança, nem dentro nem fora da família, o adolescente começa a constituir um mundo à parte. A falta de integração do adolescente pode ser ilustrada pelos heróis do período conhecido como Romantismo Alemão, jovens que buscam, conflitivamente, uma definição singular e única para suas vidas.

Paulatinamente foi sendo criada uma espécie de subcultura, reunindo os jovens em grupos de iguais, que constituem uma opção à vida familiar e lhes permitem arregimentar forças para o chamado conflito de gerações. O grupo, entretanto, não desempenha nas sociedades modernas o papel que a comunidade desempenhava nas sociedades tradicionais. Aries (1991) descreve o funcionamento da comunidade tradicional:

A comunidade que enquadra e limita O Indivíduo — a comunidade rural, a cidadezinha ou o bairro — constitui um meio familiar em que todo mundo se conhece e se vigia e além do qual se estende uma terra incógnita, habitada por alguns personagens de lenda. Era o único espaço habitado e regulamentado segundo determinadas leis. (pp. 7/8, grifo nosso)

Se a família constitui um elo precário a ligar os indivíduos solitários do mundo moderno, o grupo — no sentido dos pequenos grupos ou tribos urbanas — também não é capaz de sustentar o adolescente numa sociedade onde o espaço público oscila entre o indiferente e o hostil. Bloch e Niederhoffer (1963) encontram semelhanças entre os ritos não estruturados dos grupos de adolescentes contemporâneos e os ritos pubertários das sociedades primitivas. Para eles, os adolescentes, ao instituírem cerimoniais dentro de suas turmas ou galeras, estariam procurando meios psicologicamente eficazes de enfrentar as vicissitudes de um período crítico da vida. O parco e instável consolo emocional que esses grupos dão aos seus membros e a dificuldade de integração que apresentam em relação ao conjunto da so-

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ciedade são suficientes para indicar as limitações da correlação entre os ritos modernos e os tradicionais.

A situação, anterior ao século XVIII, mudou radicalmente para a maioria da população, concentrada em grandes e anômicos centros urbanos. A terra incógnita de que nos fala Aries passa a ser todo o espaço extrafamiliar. A família, já nesse contexto família nuclear, se transforma no único refúgio de um espaço privado. O trabalho, o lazer e o convívio familiar são separados. A família deixa de ser uma unidade econômica e passa a ser um lugar de afetividade onde se estabelecem relações de sentimento entre o casal e os filhos, crianças e adolescentes.

Prost (1992) nos fornece estatísticas francesas sobre a privatização do espaço familiar: ainda no começo do século quase dois terços e certamente mais da metade dos franceses trabalhavam em casa. No final do século, pelo contrário, quase todos os franceses trabalham fora (p. 21). O trabalho em casa compreende uma série de situações que vão desde os operários que trabalham intensamente, em condições talvez piores do que viriam obter nas fábricas, até agricultores e comerciantes que podem desfrutar de condições muito mais razoáveis. O que quero evidenciar é a segmentação progressiva do espaço-família/trabalho, constituindo mais um passo na direção do isolamento da família. A construção do estado moderno com seus corolários de liberalismo econômico, racionalismo, democracia representativa, etc é o motor da separação entre o público e o privado, este representado sobretudo pela família.

A família constitui um espaço especial na sociedade moderna. Dentro dela permanecem regras já abolidas no contexto social mais amplo, como a predominância do afetivo e a hierarquização das relações. A medi- ação entre o nascimento biológico e a socialização primária do ser humano parece ser uma função para qual a família ainda é insubstituível. O paulatino desligamento da família do espaço social e a partilha de funções entre ela e outras instâncias sociais não se dá sem problemas. Simmel (1977) assinala, ao mesmo tempo, a transformação da família e a manutenção da sua importância para o indivíduo:

A família, cuja significação tem primeiro um caráter político e real, porém que, ao avançar a civilização, vai tomando cada vez mais um caráter psicológico e ideal, oferece, como indivíduo coletivo, a seus membros, por um

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lado uma diferenciação provisória que os prepara ao menos para o que é próprio da individualidade absoluta, e por outro lado, uma proteção, sob a qual a última pode desenvolver-se até adquirir resistência suficiente frente à totalidade. (p. 752)

Simmel procura dar conta da passagem necessária entre círculos sociais estreitos e grandes que vai caracterizar a trajetória do indivíduo na sociedade moderna. Nesse processo a família ocupa um lugar ambíguo, ora representando ela mesma o indivíduo para o conjunto social, ora apresentando-se como o círculo menor do qual o indivíduo deve separar-se. Apesar de que vida dentro de um pequeno círculo, a família, pode não ser favorável à manutenção da individualidade, ainda assim, frente a uma grancomunidade cultural, a inclusão numa família fornece certo amparo ao sentimento de ser um indivíduo:

O indivíduo não pode salvar-sefrente à totalidade; só entregando uma parte de seu eu absoluto a um par de pessoas, ligando-se com elas, pode manter todavia o sentimento da individualidade, sem uma exclusão exagerada, sem amargura, nem afastamento. Além disso, desde o momento em que amplia sua personalidade e interesses, fundindo-os com outra série de pessoas oferece, por assim dizer, uma superfície mais ampla ao resto da totalidade. Certamente uma vida sem família em um amplo círculo deixa grande espaço para a individualidade, entendida no sentido da arbitrariedade e da anormalidade. (p. 752)

A crise da família, seja na sua vertente de família patriarcal, seja na versão de família conjugal, liga-se à dicotomia entre os espaços intra e extrafamiliar. A função educativa exemplifica bem a questão. Muniz Sodré (1992) chama atenção para o declínio da sabedoria familiar em favor dos discursos da competência especializada:

Pouco a pouco, tem perdido a força o exercício da função educativa dentro do grupo familial. A informação generalizada, ao mesmo tempo que contribui para a dessacralização da imagem tradicional das figuras parentais, oferece ao jovem formas discursivas ou vicárias de participação social (em vez da ação real implicada na ética familial) e valores mais compatíveis com a ética do consumo. Nesse embate, qualidades mais rápidas

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(agressividade, prazer, prestígio) sobrepõem-se a qualidades lentas (sabedoria, prudência), comprometidas com a socializaçâo tradicional. (p. 72)

Crise da família ou crise da sociabilidade contemporânea? Ariès (1981) responde a essa questão afirmando que o mundo pós-industrial do século xx, até agora não foi capaz nem de manter a sociabilidade do século XIX, nem de substituí-la por outra forma mais nova. (p. 23). Vivendo um período etário marcado pela transição entre o mundo familiar e um círculo social ampliado, o adolescente está no centro das pressões que atingem tanto o indivíduo-família como o indivíduo-singular. Pressionado a deixar o círculo familiar que se encontra cada vez mais desprovido de instrumentos para mapear o caminho de seus filhos no espaço social externo, o jovem está exposto como indivíduo, segundo constata Simmel, à arbitrari- edade e anormalidade.

INDIVIDUALISMO E ADOLESCÊNCIA

Como entender a crise da sociabilidade contemporânea e que relações teria com a adolescência? Quais as mudanças fundamentais ocorridas na vida social entre o século XIX e o século XX? Para responder, torna-se necessário abordar as questões ligadas a um valor básico da vida moderna: o individualismo.

As noções de subjetividade e de indivíduo, embora inter-relacionadas, não estão obrigatoriamente superpostas. Reconhecer a presença de sujeitos nas diversas sociedades não condiciona a aceitação automática da universalidade da categoria indivíduo. Dados históricos e antropológicos levam a crer que existem formações sociais onde os sujeitos não se pensam como independentes ou em oposição à comunidade em que vivem. O tipo de autoconsciência que conduz um componente de uma sociedade ocidental moderna a pensar-se como indivíduo já é fruto de uma determinação social.

A separação entre o espaço público e o privado, representado sobre- tudo pela vida familiar, é homóloga ao predomínio do individualismo no mundo ocidental. As transformações sofridas pelas estruturas familiares

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tradicionais estão diretamente ligadas à aparente oposição entre um indivíduo livre e uma pessoa presa ao domínio familiar — problema tido por fundamental na travessia do período adolescente. Gilberto Velho (1981) recoloca a questão, numa crítica às posições antropologicamente ingênuas da antipsiquiatria:

No caso da sociedade ocidental-moderno-contemporânea, a noção de indivíduo, tal como a conhecemos, está intimamente associada à desagregação da família extensa, das redes de sociabilidade mais amplas e diversificadas e ao desenvolvimento da família nuclear que, com todas as suas ambigüidades, seria individualizante por excelência. Talvez uma grande limitação da chamada antipsiquiatria seja não perceber que estes dois fenômenos estão associados — a exacerbação da individualidade e o caráter coercitivo e repressor da família nuclear. Por iluminar apenas um lado da moeda, correndo o risco de denunciando-o fortalecer o outro pólo, quando me pareceinviável separá-los. (p. 9)

O caráter de crise que marca, em nossa sociedade, a passagem da infância à vida adulta não pode ser corretamente compreendido se pensarmos a família nuclear como uma estrutura de parentesco natural e universal. A própria ideia de passagem indica a existência de um tipo de sociedade em que os espaços intra e extrafamiliar são pensados em oposição. A família torna-se um baluarte hierárquico numa sociedade individualista, um elemento pré-moderno, que sobrevive na sociedade contemporânea.

A passagem das sociedades tradicionais para a sociedade individua- lista foi coetânea a diversas transformações sócio-culturais e econômicas, como a revolução comercial, a revolução burguesa, a reforma protestante, a revolução industrial, enfim ao conjunto de eventos que, a partir do Renascimento, criou o que chamamos de mundo ocidental moderno. Burckhardt (1991), em seu famoso livro sobre A cultura do Renascimento na Itália, aponta como um exemplo do aparecimento do individualismo a inexistência de uma moda padronizada em Florença, em torno de 1390:cada homem procurava ter sua própria maneira de trajar-se, parecer diferente, e sobressair passa a ser motivo de orgulho. A imposição da vontade do sujeito e seu desenvolvimento em busca da glória individual são também marcas da modernidade. Leon Batista Alberti, protótipo do homem

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renascentista, afirma: os homens, por si sós, tudo podem; basta que queiram (p.118). Significativo também é o cosmopolitismo que vai marcar a época, levando Dante a proclamar: minha pátria é o mundo todo! Burckhardt contrasta a visão medieval do homem e do mundo — encoberta por um véu tecido pela ilusão e a fé — com aquela que vem a imperar na Renascença:

o homem reconhecia-se a si próprio apenas enquanto raça, povo, partido, corporação, família ou sob qualquer outra das demais formas do coletivo. Na Itália, pela primeira vez, tal véu dispersa-se ao vento; desperta ali uma contemplação e um tratamento objetivo do Estado e de todas as coisas deste mundo. Paralelamente a isso, no entanto, ergue-se também, na plenitude de seus poderes, o subjetivo: o homem torna-se um indivíduo espiritual e se reconhece enquanto tal. (p. III — grifos do autor)

A oposição entre holismo e individualismo é desenvolvida em diversos trabalhos (23) de Louis Dumont, que identifica dois tipos básicos de sociedades — as tradicionais e a moderna — regidas por valores divergentes. Nas sociedades tradicionais predomina a hierarquia, baseada na diferença e na complementaridade, existe um ordenamento de todo o universo social por um valor encompassador, sagrado ou religioso. Na sociedade moderna isola-se um valor, o indivíduo, separado e sobreposto aos demais, predominando a noção de igualdade entre esses indivíduos, supostamente livres para estabelecerem relações.

Dumont (1985) traça o caminho percorrido pelo individualismo no ocidente que, partindo do indivíduo-fora-do mundo do cristianismo, chega ao moderno indivíduo no mundo. O ponto de chegada seria o Calvinismo, fundamento do espírito moderno, em que o homem, para cumprir os desígnios de Deus, está obrigado a intervir no mundo e trabalhar para Sua maior glória. Nesse ponto do desenvolvimento do cristianismo apaga-se a distância entre o mundo real desvalorizado e o valor infinito do indivíduo unido diretamente a Deus. Dumont afirma que a tensão gerada pela separação entre a vida real do homem e aquela prometida por Cristo, mantida

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(23) Referimo-nos principalmente a Homo Hierarchicus (1972), à coletânea de alguns de seus trabalhos publicada no Brasil sob o título de O individualismo (1985) e a Homo Aequalis II – L’Ideologie Aleemand-France-Alemagne et Retour (1991).

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por tão longo tempo na história do cristianismo, terminou por desembocar nessa loucura moderna que é a idéia de mudar o mundo (p. 43).

Com os estudos de Dumont passamos a ter duas concepções sobre a noção de indivíduo, que as teorias psicológicas, muito frequentemente, tomam numa única vertente: Assim, quando falamos de indivíduo, designamos duas coisas ao mesmo tempo: um objeto fora de nós e um valor. A comparação obriga-nos a distinguir analiticamente esses dois aspectos: de um lado, o sujeito empírico que fala, pensa e quer, ou seja, a amostra individual da espécie humana, tal como a encontramos em todas as sociedades; do outro, o ser moral independente, autônomo e, por conseguinte, essencialmente não social, portador dos nossos valores supremos, e que se encontra em primeiro lugar em nossa ideologia moderna do homem e da sociedade. (p. 37)

A ideologia moderna apresenta ao sujeito (reconhecido como indivíduo, no segundo sentido definido por Dumont) um mundo desprovido de valores fixos, desnaturalizado, onde ele deve achar seus valores e fazer suas escolhas. A sociedade aparece como um campo de possibilidades e não como um conjunto ordenado que incluiria o homem e o universo.

A relação entre holismo e individualismo não pode ser simplificada. Em toda sociedade existe a possibilidade da individualização, como o próprio Dumont demostra com o exemplo do renunciante na Índia — o indivíduo fora do mundo (24). A questão é a relação mantida por esses dois pólos — holismo e individualismo — nas diversas sociedades: nas tradicionais domina o primeiro e na moderna o segundo. Ou, como melhor esclarece Gilberto Velho (1981), nas sociedades tradicionais as regras para a individualização são mais ou menos explícitas, e o indivíduo é valorizado enquanto parte de um todo — linhagem, clã, família, etc — não se constituindo na unidade significativa (p. 25). Conforme já assinalei anteriormente, essas sociedades Possuem, sob a forma de ritos, por exemplo, mecanismos preestabelecidos de controle do processo de individualização.

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(24) O renunciante basta-se a si mesmo, só se preocupa consigo mesmo. O pensamento dele é semelhante ao do indivíduo moderno, mas com uma diferença essencial: nós vivemos no mundo social, ele vive fora deste. (Dumont, 1985, p.38)

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O que se verifica na maioria das sociedades atuais é a interação do individualismo, como força predominante, e dos valores holistas, que subsistem em diversas proporções. É interessante verificar como formas particulares dessa interação, em determinados momentos históricos, podem conduzir sociedades inteiras a situações dramáticas. Foi o caso do nazismo, instalado sobre a crise da variante alemã da ideologia individualista moderna, em que o elemento hierárquico está presente em doses mais fortes que em outros países europeus. Dumont (1985) afirma que o totalitarismo é uma doença da sociedade moderna que resulta da tentativa, numa sociedade onde o individualismo está profundamente enraizado, e predominante, de o subordinar ao primado da sociedade como totalidade. (p. 151). Na falta de uma sociedade verdadeiramente solidária e complementar, Hitler vai utilizar o racismo — a extirpação do elemento judeu, pretenso responsável por todos os males — como um fator de agregação, o sucedâneo de um sentimento comunitário capaz de unir os alemães.

Erikson (1976b), na Legenda da infância de Hitler, traça um retrato do rebelde adolescente alemão da época e justifica o que chama de imaturidade política dos alemães pela desunião sistemática entre a rebelião individualista precoce e a cidadania desiludida e obediente (p. 310). Provavelmente, a união da desilusão, da obediência e da rebelião juvenil contribuiu para a implantação do totalitarismo, conduzindo ao que Erikson vai chamar um aborto do individualismo. Trata-se de um processo que envolveu toda uma sociedade e não só os jovens, um período histórico com suas particulares determinações econômicas, políticas e ideológicas. Mas creio poder destacar a particular vulnerabilidade dos adolescentes às crises sociais que apontam para a fragilidade do seu processo de individualização. Um dos sustentáculos da ascensão do nazismo, ajuventude Hitlerista, tinha como lema A juventude plasma seu próprio destino. Animadora e falaciosa afirmação: garante aos jovens a existência, sob o nacional-socialismo, de uma via de escape à errância em que se encontravam; baseia essas esperanças numa suposta potência, inerente à juventude, prescindindo dos desacreditados valores paternos.

A crise que atingiu a juventude alemã tem suas raízes na derrocada do liberalismo clássico e no abalo sofrido pelos valores do século XIX, na aurora do século XX. Antes de abordar esse tema, relevante para a com-

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preensão dos problemas do indivíduo contemporâneo, convém explorar uma questão do individualismo que vai além da sua oposição ao holismo.

A condição de indivíduo na nossa sociedade passa por outro complicador. Simmel (1964) distingue dois tipos de individualismo: o do século XVIII, individualismo quantitativo (singleness), ligado à noção de igualdade entre os homens, livres dos grilhões medievais; o do século XIX, individualismo qualitativo (uniqueness), superposto ao primeiro e calcado na noção de singularidade, da peculiaridade distintiva entre um homem e outro. A ênfase, neste segundo tipo, não está mais em ser livre e igual, mas único e diferente. Entre o universalismo do direito à igualdade, fruto das revoluções inglesas e francesas, e a necessidade de buscar um particularismo interior balança a alma moderna. No século XVIII, vai acentuar-se a de- manda por liberdade e igualdade, pelo desejo de livrar o homem de todas as retrógradas limitações políticas, religiosas ou corporativas. Rousseau, talvez o mais expressivo representante do pensamento libertário do século XVIII, logo no primeiro capítulo do Contrato social, lança a frase que se tornaria famosa: o homem nasce livre, e por toda parte encontra-se a ferros. (1983, p. 22). Ao afirmar a liberdade como direito fundamental do homem, Rousseau procura também os fundamentos legítimos para a organização de um pacto social igualitário. A resposta estaria na vontade geral, que traduziria a disposição comum dos sujeitos, a união do eu individual ao eu coletivo, a realização social da natureza livre do homem.

Uma vez livre e igual, o que distinguiria um homem do outro? Simmel (1979) aponta para os limites do individualismo do século XVIII: o indivíduo era igual aos seus semelhantes, enquanto ser humano em geral, mas os indivíduos liberados de vínculos históricos agora desejavam distinguir-se um do outro (p. 27). No século XIX a ênfase recai sobre o que é idiossincrático e não sobre os traços igualitários do homem. O individualismo qualitativo ou da singularidade parece ser a retomada daquele individualismo renascentista, a que Burckhardt se refere. Entre o fim do século XVIII e o início do século XIX situa-se o período do Romantismo Alemão que apresenta indivíduos, sobretudo jovens — como em Werther de Goethe — buscando um significado único e singular para suas vidas, em meio a um conflito de sentimentos e crenças — a escolha amorosa tendo por base a decisão individual. Simmel circunscreve aspectos nacionais e econômicos associa-

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dos aos dois tipos de individualismo: o individualismo igualitário liga-se ao liberalismo racional da França e da Inglaterra, enquanto o individualismo da uniqueness aproxima-se da mentalidade alemã; o indivíduo livre e igual relaciona-se com a livre concorrência e aquele no qual se realça a personalidade diferenciada está na base da divisão do trabalho.

O homem, para encontrar sua individualidade, deveria construir, livremente, uma personalidade bem formada e integrada. Essa tarefa, a ser exequível, necessitava de um mundo bem ordenado para fornecer o enquadre ao indivíduo. Esse mundo teria crenças sólidas na cultura, no progresso e aperfeiçoamento da humanidade, na racionalidade científica, enfim o mundo do otimismo iluminista —Aufklärung. A construção abrangente do caráter — Bildung — tem como correlato o progresso trazido pelo Iluminismo. Le Rider (1993) sintetiza a questão:

A modernidade iluminada se colocara sob o signo da liberdade subjetiva, garantida na ordem social pelo direito privado, no Estado pela reivindicação de igualdade política, na esfera da vida pela autonomia moral e a Bildung, mediação individual da Kultur coletiva. O espírito subjetivo questionara as formas de vida legitimadas pela religião ou pela tradição. Mas o processo de emancipação em breve passa a ser sentido como um risco de alienação, como perda das forças de integração social. (p. 54 — grifos do autor)

Dumont (1985) chama a atenção para as peculiaridades do individualismo alemão, marcado pela interioridade da Bildung: um individua- lismo que dá margem à integração com a comunidade, pois de alguma forma o sujeito estava fora do mundo, espiritualmente, e contido nele, enquanto parte da nacionalidade germânica. Mas o poder desintegrado da modernidade e do progresso rapidamente se faz sentir em toda parte e não poupa a nação alemã. O processo de transformação econômico, político e social rompe o precário equilíbrio entre o indivíduo e a comunidade, solapando a coerência tanto da vida social como da subjetiva. Le Rider assinala que o individualismo, conquista moderna, parece ser ambivalente para a maioria dos críticos da modernidade; permanece como exigência ética, lógica, estética, mas se faz sentir a necessidade de distingui-lo de seus estreitamentos e de suas deformações (p. 54). Haveria mesmo a de-

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formação do individualismo ou não seria melhor dizer que há uma conformação do indivíduo à desintegração da vida moderna que, transformando tão rapidamente o universo social, destrói todos os alicerces para a vida subjetiva?

Nos últimos três séculos assistimos a uma rápida sequência de implantação e demolição de valores caros à alma moderna: a liberdade, conquistada pelas revoluções e rapidamente perdida com o terror e o totalitarismo; a igualdade com autonomia, ilusão que se desmancha com a produção em série e a uniformização da cultura pela mídia eletrônica. A falência da solução baseada na Bildung é exemplar quanto às dificuldades que o homem contemporâneo enfrenta para encontrar um lugar, o seu lugar, no mundo. Inculcar aos filhos valores burgueses clássicos como a autodisciplina, a confiança, a prudência só tem sentido pelaexpectativa de que ele encontre um mundo ordenado, parâmetro paraum eu bem moldado. O que valeriam hoje os princípios de regularidade e controle moral do personagem de um Bildungsroman de meados do século passado?

O pai de Heinrich resumia sua visão da vida no seguinte princípio: Cada coisa e cada pessoa só podem ser uma coisa; mas isso ela tem de ser plena- mente. Sobre esse princípio de especialização, foi inculcado aos filhos o espírito da estrita exatidão, que seria a base de uma formação de caráter capaz de conduzir a uma vida de realização pessoal. Desse ponto de vista, a grandeza não residia no excepcional e no destacado, mas no regular e aperfeiçoado. (Schorske, 1988, p. 269)

Costuma-se identificar a modernidade com o acentuado progresso técnico-científico e econômico do século passado, que mudou a face do mundo provocando a ruptura da vida tradicional, um acentuado processourbanização e um acelerado ritmo de transformação nos valores individuais e coletivos. O modernismo seria a elevação à máxima potência dasidéias modernas, concebendo uma só tradição: a renovação constante. Nocampo estético sua marca é a sucessão de movimentos vanguardistas; noterreno social caracteriza-se pela radicalização e crise do individualismo e no plano filosófico pela desconfiança com o projeto racionalista do iluminismo.

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Tomando o caso de Viena fin-de-siècle como uma condensação da experiência sociocultural moderna ou pós-moderna (25), Schorske analisa a revolta dosjungen — os ovens inovadores vienenses — como um movimento não tanto contra os pais mas contra a autoridade da cultura paterna que lhes fora legada. O que atacavam numa frente ampla era o sistema de valores do liberalismo clássico predominante em que tinham sido criados (p. 21). Por que, através da crise vienense, concentrada nos limites entre o século passado e o atual, tenta-se compreender o drama do indivíduo contemporâneo? Provavelmente porque em Viena pode ser registrada, por artistas, cientistas e filósofos de excepcional talento, toda a trama de questões que acompanham o homem até esse novofin-de-siècle, do século XX.

Le Rider (1993) destaca, a partir do contexto vienense, a fragilidade em que vive o indivíduo que toma sua subjetividade como o último refúgio frente ao fracasso dos projetos políticos e culturais contemporâneos. Dessa fragilidade, imediatamente ligada à civilização moderna, nasce um tema que assedia a mente dos modernos: o nervosismo. Além de ser assunto quase obrigatório para escritores como Hofmannsthal, Schnitzler e Bahr, é matéria para cientistas como Freud, Binswanger e Krafft-Ebing. A vida nas grandes metrópoles modernas apresenta um grau de complexidade jamais alcançado por nenhuma sociedade na história, gerando indivíduos recolhidos sobre si mesmos e propensos ao nervosismo, pois são frágeis os laços sociais a reuni-los, apesar da sua interdependência material.

Mesmo admitindo a singularidade dos destinos individuais em qual-

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(25) Modernismo ou pós-modernismo? Alguns autores – como Tourraine (1969), Bell (1978) e Lyotard (1993) e outros – identificaram, a partir dos anos sessenta, o início de uma nova época que chamaram de pós-moderna: uma sociedade pós-insdustrial, controlada pela informatização, onde o vanguardismo se esgotara assim como as formas tradicionais de representação política. Todos os parâmetros que legitimavam o conhecimento e o saber tenderiam à desintegração. Outros autores como Lipovetsky (1983) e Berman (1990) contestam a noção. Berman afirma, em defesa do poder explicativo do conceito de modernidade: outros adotaram a mística do pais-modernismo, que se esforça para cultivar a ignorância da história e da cultura modernas e se manifesta como se todos os sentimentos humanos, toda a expressividade, atividade, sexualidade e senso de comunidade acabassem de ser inventados – pelos pós-modernistas – e fosse desconhecidos, ou mesmo inconcebíveis, até a semana passada. (p.32)

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quer rede de relações grupais, Elias (1994) ressalva que as diferenças entre os rumos seguidos por diferentes indivíduos, entre as situações e funções por que eles passam no curso de sua vida, são menos numerosas nas sociedades mais simples do que nas complexas. (grifo meu). Mas, além de reconhecer a diferença entre as sociedades simples e complexas, Elias afirma que o grau de individualização dos adultos nestas últimas sociedades é consoantemente maior (grifo meu). Parece-me claro que, na questão da individualização — e suas vicissitudes — está implícita a tarefa de tornar-se adulto numa sociedade complexa. Mais adiante, no mesmo texto, Elias volta a assinalar como uma dificuldade no processo de individualização dos jovens a ruptura existente entre seus ideais e desejos e a realidade das tarefas adultas:

Entre a vida nas reservasjuvenis e no campo bastante restrito e especializado do trabalho adulto, raramente existe uma verdadeira continuidade. Muitas vezes, a transição entre os dois é uma ruptura brusca. Não raro se oferece ao jovem o mais amplo horizonte possível de conhecimentos e desejos, uma visão abrangente da vida durante seu crescimento; ele vive numa espécie de ilha afortunada de juventude e sonhos que marca um curioso contraste com a vida que o espera como adulto. É incentivado a desenvolver váriasfaculdades para as quais, nas estruturas atuais, as funções adultas não deixam margem alguma, e diversas inclinações que o adulto tem que reprimir. Isso reforça ainda mais a tensão e a cisão psíquica do indivíduo a que anteriormente nos referimos. (p. 33, grifo meu)

Nervosismo, tensão, cisão. Nietzsche (1950), no mesmo contexto só- cio-cultural diria claramente loucura, ao se referir à superexcitação dasforças nervosas e pensantes que atinge o homem civilizado e faz com que quase toda família conte com um parente que está muito próximo da loucura.

Lipovetsky (1989) retoma a análise de Durkheim sobre o suicídio e sua relação com a anomia da sociedade moderna: concorda basicamente com a clássica análise de que as taxas de suicídio aumentam onde a desinserção individualista toma maior amplitude (p. 196); discorda, entretanto, da previsão de Durkheim que diz que o fenômeno seria passageiro por não ser exatamente resultado da sociedade moderna e sim das suas condições peculiares de implantação. Lipovetsky, analisando a evolução da taxa de suicídios na França, encontra que, após uma queda até os anos 60, as

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taxas voltam a subir (não só na França mas também em outros países desenvolvidos) (26), o que o faz concluir que: longe de ser um acidente inaugural das sociedades individuastes, o movimento ascensional dos suicídios é correlativo delas, no plano da longa duração (p. 197).

Mais que a elevação da taxa de suicídio, chama atenção o fato do aumento dos suicídios e tentativas dar-se preponderantemente entre os jovens. Reunindo essa constatação com aquela que também aponta para o crescimento das condutas violentas e criminais entre os jovens (27), Lipovetsky destaca a especial vulnerabilidade da juventude ao individualismo contemporâneo:

O processo de personalização promove um tipo de personalidade cada vez menos capaz de afrontar a prova do real: a fragilidade, a vulnerabilidade crescem, e isto principalmente entre a juventude, categoria social mais destituída de pontos de referência e de enraizamento. Os jovens, até há pouco relativamente preservados dos efeitos destruidores do individualismo através de uma educação e de um enquadramento estáveis e autoritários, sofrem em cheio a desestabilização narcísica; são eles que hoje representam afigura última do indivíduo desinserido, estilhaçado, desestabilizado por excesso de proteção ou de derrelição e, por isso, candidato ideal ao suicídio. (p. 1 98).

Partindo das origens da sociedade moderna e chegando aos dias atuais, desdobra-se a questão de como se chega a ser um indivíduo — o ser moral, independente e autônomo que a nossa ideologia consagra. Nas últimas décadas deste século, acelera-se a precariedade de todos os modelos pelos quais um homem pode encontrar seu posto singular no universo social

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(26) Estatísticas recentes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Atlanta, EUA,registram um aumento na freqúência de suicídios de crianças e adolescentes entre 10e 14 anos: entre 1980 e 1992, o número de suicídios passou de 0, 8 casos por 100 milhões para 1, 7, um aumento de 120%. (Jornal do Brasil, 21/04/95)

(27) No caso do Brasil, ou ao menos do Rio de Janeiro, existe um forte complicador da questão da criminalidade, que, provisoriamente, chamo de individualismo na miséria. Um menino de rua responde à pergunta sobre o que quer: vocês querem saber o que eu quero... mas o que eu quero mesmo? Quero é trabalhar na boca porque aí ninguém vai mexer comigo e eu não vou apanhar da polícia. (Silva, H.R.S. & Milito, C., 1995)

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individualista. Lipovetsky fala na Era do vazio, Lasch (1987) na Cultura do narcisismo, Costa (1994) analisa, no contexto brasileiro, a falência do horizonte de ideais imprescindível para a existência do sujeito. Um fenômeno urbano bastante comum, a pichação de paredes, muros, placas de sinalização, etc permite o desenvolvimento de algumas hipóteses sobre individua- lismo e adolescência.

As inscrições —. pichações — que cobrem diversos espaços das nossas cidades são, sem dúvida, fruto de um trabalho essencialmente adolescente. Organizados em grupos ou agindo solitariamente, um grande número de jovens reveza-se, numa atividade diuturna, pichando. Os pichadores desafiam as advertências das autoridades, o clamor dos meios de comunicação que fazem editoriais lamentando a incivilidade e o vandalismo. Ao contrário das frases completas (Celacanto provoca maremoto, por exemplo) que ornavam muros e paredes, há alguns anos, as inscrições atuais são, geralmente, muito mais sucintas, limitando-se a assinaturas com maior ou menor criatividade gráfica.

Conversas com esses adolescentes pichadores podem fornecer algumas pistas para a compreensão do fenômeno. Longe de constituir uma atividade puramente negativa e suja, como uma visão preconcebida poderia supor, existem regras e intenções várias nas atividades pichatórias. Há uma valorização da extensão geográfica na qual uma determinada assinatura se espalha, assim como do grau de dificuldade contido na ação. Os mais audaciosos e ativos espalham suas grifes por toda a cidade e até (gloriosamente) em cidades vizinhas ou distantes. Escolhem lugares bem visíveis para as inscrições, enfrentando difíceis condições de acesso ou forte repressão social (porteiros, proprietários, polícia, etc). Encontram-se também os oportunistas, que imitam assinaturas divulgadas e se aproveitam do sucesso alheio, desfrutando de falso prestígio. O verdadeiro prestígio advém, no entanto, do reconhecimento dos pares e admiradores da coragem desafiadora com que os pichadores enfrentam todas as adversidades, incluindo a oposição familiar, para grafar suas assinaturas cada vez mais longe e mais alto. Para alguns adolescentes essa atividade constitui-se como a principal do seu dia-a-dia, para outros é apenas uma ação ocasional. Uns envolvem-se em complicações mais ou menos sérias (expulsões da escola, detenções, agressões), outros recebem somente admoestações paternas.

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O que querem os pichadores? Buscam a atenção pública, transgredindo regras sociais supostamente aceitas. Essa transgressão produz prestígio e constitui uma das poucas fontes possíveis de reconhecimento. As marcas que os adolescentes deixam inscritas em Iocais que funcionam como painéis têm de ser vistas e está visibilidade os destaca no panorama social onde muitas vezes o mais visível (ou até bem visto) é o transgressor — aquele que gosta de levar vantagem em tudo, fiel cumpridor da Lei de Gerson. Esses jovens recusam qualquer sentido no seu protesto, suas inscrições não significam especialmente nada: são marcas de recusa e originalidade mas apontam, de qualquer modo, para a carência das normas sociais.

Como o adolescente de nossos dias poderia responder à advertência que o Fausto goethiano lança ao homem moderno, que aspira por singularidade?

O que hás herdado de teus pais,

Adquire para que o possuas,

O que não se usa, um fardo é, nada mais,

Pode o momento usar tão só criações suas. (28)

Dolto (1988) aponta para a necessidade de um projeto que serviria ao adolescente como uma espécie de substituto dos ritos de passagem, que perderam o sentido numa sociedade carente de modelos tradicionais. A ênfase recai cada vez mais nas criações suas e menos no herdado de teus pais quando se trata, para o jovem, de atingir um nível de domínio da vida coletiva correspondente ao adulto.

Gilberto Velho (1981 e 1994) discute a noção de projeto no contexto da antropologia das sociedades complexas. Suas questões não são exatamente as mesmas de Dolto e dizem respeito às relações entre as ciências sociais e aquelas voltadas para o comportamento individual: as diversas

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(28) Goethe. Fausto. São Paulo: Itatiaia/Editora da USP, 1981, p. 51. Tradução de Jenny Klabin Segall.Outra versão do Fausto para o português é a de Antonio Feliciano de Castilho (Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s/d):o que o homem herda só pode chamar seu quando o utiliza. Haver que não nos presta é simples ônus, Só no uso consiste a propriedade. (p. 79)

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possibilidades de explicação sociológica acerca do comportamento individual deixam sempre uma margem de desconhecimento sobre o particular e idiossincrático de uma biografia. Reconhecendo uma dimensão não-consciente na elaboração dos projetos individuais, Velho refere-se à possibilidade de reconstrução das referências do sujeito na constituição de um projeto singular. No projeto o sujeito-indivíduo procura constituir um significado para sua vida e produzir amarras para sua identidade social.

O drama do homem moderno pode ser sintetizado pelas afirmações de Simmel (1964) que servem para apontar a direção que toma o individualismo contemporâneo:

Esta direção pode ser expressa pela afirmação de que o indivíduo busca seu eu como se ele não o tivesse, e no entanto, ao mesmo tempo, tem certeza de que seu único ponto fixo é este eu. À luz da inacreditável expansão dos horizontes teóricos e práticos, é compreensível que o indivíduo tenha cada vez mais urgência na busca desse ponto fixo, mas que ele não seja mais capaz de encontrá-lo em nada fora dele mesmo. (29) (pp. 78/79)

A experiência de ser adolescente confronta o sujeito com o desafio de construir um projeto individual, o que implica o paradoxo colocado por Simmel, sem aproteção da família (o baluarte hierárquico que é obriga- do a abandonar) e sem o auxílio eficiente de outra instância social ou de algum rito suficientemente abrangente para conduzi-lo na travessia.

IDENTIDADE E IDENTIFICAÇÃO

Acabei descobrindo tudo que teus papéis não confessaram nem a memória de família

Nota de Rodapé

(29) Traduzido da versão em inglês: This direction may be expressed by statzng that the individual seeks hzs selfas zfdzd notyet hove zt, andyet, at the same tzme, zs certazn that hzs onlyfixed point is this self In the light of the unbelievable expansion ofiheoretical andpractzcal horzzons, it is understandable that the individual should ever more urgently seek such a fixed poznt, but that he should be no longer capable offinding zt zn anything external to himself (pp. 78/79)

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transmitiu como fato histórico

e agora te conheço mais

do que a mim próprio me conheço,

pois sou teu vaso e transcendência

teu duende mal encarnado.

Refaço os gestos que o retrato

não pode ter, aqueles gestos

que ficaram em ti à espera de tardia repetição,

e tão meus eles se tornaram,

tão aderentes ao meu ser que suponho tu os copiaste

de mim antes que eu os fizesse,

e furtando-me a iniciativa,

meu ladrão, roubaste-me o espírito.

Carlos Drummond de Andrade. Antepassado.

As vicissitudes pelas quais passa o adolescente no processo de tornar-se um individuo na sociedade contemporânea, já levantadas ao nível sócio antropológico, podem ser retomadas e examinadas à luz do referencial psicanalítico. Freud poderia ser chamado para indicar onde se encontra, no sujeito, opontofixo a que se refere Simmel?

A questão da identidade, para a psicanálise, deve ser deslocada da sua vertente ontológica clássica, segundo a qual identidade surge da igualdade de uma coisa com ela mesma, e recolocada através do conceito de identificação (30), que se organiza em torno da diferença. Nesse sentido não estou de acordo com Erikson (1976a), que desvaloriza o conceito de identificação no es- tudo da adolescência, enfatizando que aformação da identidade começa onde a utilidade da identificação acaba (p. 159). O processo ideal de construção de uma individualidade definida é descrito por ele nos seguintes termos:

Nota de rodapé

(30). Freud (1 92 1) reconhece três principais tipos de identificação: a identificação com o pai da pré-históriapessoal, anterior a qualquer investimento objetal; a identificação regressiva, em que o objeto, ao mesmo tempo que perde sua carga libidinal, é introjetado no eu; a identificação entre dois sujeitos pela percepção de um aspecto comum — afetivo — entre eles.

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A criança em crescimento deve, a cada passo, derivar uma sensação vitalizante de realidade a partir da percepção de que sua forma individual de dominar a experiência (síntese do ego) é uma variante bem sucedida de uma identidade grupal e está em harmonia com seu espaço tempo e seu plano de vida. (Erikson, 1976b, p. 216 — grifo meu)

A visão eriksoniana3 vai privilegiar um caráter sintético do eu — o ego — cujo alcance me parece limitado à tentativa de transformar em essência o conjunto de imagens fluidas que o constituem. Outro postulado de Erikson diz respeito à possibilidade de ancoragem social do sujeito que, como abordei no capítulo anterior, foi seriamente abalada na sociedade moderna.

Florence (1994), ao abordar o conceito de identificação em Psicanálise, faz uma afirmação que se aplica ao drama do sujeito que deve buscar um ponto fixo —sua própria identidade — dentro de si mesmo: não há carteira de identidade do sujeito, nem unidade constituída, mesmo que o administrador que dorme em cada pessoa sonhe com talficha de identificação! Prossegue, assinalando que o sujeito é, existe antes de qualquer precipitação em uma imagem, antes do eu. O sujeito, antes de ser um eu, está fadado ao padecimento e à espera, ou melhor: falta em ser, desejante. (p. 1 43)

Com efeito, para a psicanálise a questão da identidade — ou da sua irremediável falta — remete à incompletude, à discordância do sujeito consigo mesmo. Na concepção freudiana a vida subjetiva está sujeita a uma precária integração, clivada de várias formas: mergulhada numa dimensão inconsciente que escapa a todo controle racional; tributária da dualidade das pulsões; sujeita aos deslocamentos do desejo que desafia a necessidade de coerência do eu; dividido entre as muitas identificações, registros da errância do sujeito em torno do objeto.

É sob o ângulo da necessidade do remanejamento das identificações infantis que O. Mannoni (1992) vai apontar as dificuldades para a constituição de uma teoria psicanalítica da adolescência. Passar de criança a adulto

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(31) Uma crítica mais extensa das teorias de Rick Erikson sobre a adolescência é arte da minha dissertação de Mestrado: Adolescência: as ideologias das teorias. Rio de Janeiro, UFRJ, 1983). (mim).

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obrigaria o indivíduo a uma ruptura com as identificações passadas ou a uma difícil harmonização identificatória a nível egóico:

As aves na muda são infelizes. Os seres humanos também têm sua muda, no momento de adolescência, suas penas são penas emprestadas — e diz-se com frequência que o adolescente que começa a perder suas antigas identificações adquire um ar emprestado. Suas roupas não parecem ser as dele, sejam roupas de criança ou de adulto; mas sobretudo no que diz respeito às suas opiniões, ocorre o mesmo — são elas tomadas de empréstimo. Aquele que primeiro criou essa metáfora, esse emprego da palavra emprestado, como se o indivíduo estivesse usando as roupas de um outro, como se fizesse os gestos de um outro, como se falasse afala de um outro, este tinha adivinhado bem as dificuldades da identificação consigo mesmo, através da identificação com outros, e como é árduo conseguir que ela se torne confortável. Mas, é claro, ele sabia sem saber, e iós estamos quase no mesmo ponto... (p. 121 — grifo nosso).

Em primeiro lugar, para esclarecer as dificuldades que envolvem o tema identificação na adolescência, deve-se separar o conceito psicanalítico de identificação das noções espontâneas sobre as identificações nosjovens. Segundo Zizek (1992) são dois os equívocos cometidos quando se fala de identificação, destacando-se o aspecto da constituição de modelos sobre imagens de atores famosos, desportistas vencedores, etc, a serem imitadas por adolescentes imaturos. Em primeiro lugar, o traço que produz a identificação — no sentido psicanalítico — com o outro é, geralmente, oculto e não necessariamente ligado a características valorizadas socialmente. Em segundo lugar, e de especial importância, a identificação deve ser desdobrada nas suas vertentes imaginária e simbólica. A identificação imaginária aponta para uma imagem — o eu ideal — que nos faria dignos do amor do outro, ela se constitui para um olhar do Outro. A identificação simbólica está situa- da nesse lugar do Outro — o ideal do eu —, o ponto de onde somos observa- dos para a avaliação se somos dignos de amor.

Nasio (1989) também concorda com a radical oposição entre o uso corrente do vocábulo identificação e a maneira psicanalítica de compreender a relação identificatória no inconsciente — a identificação não é uma imitação em que A se transforma em B — e aponta a origem diversa dos

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modos simbólico e imaginário de identificação. A reprodução dos mesmos gestos e atitudes do pai por parte do filho de um homem recém-falecido não garante a existência de uma identificação inconsciente, ao passo que um desmaio, sem causa aparente, indica uma identificação, do tipo histérica, do filho com o pai morto.

Na clássica descrição de Lacan (1949 — Le stade du miroir comme formateur de lafonction du,7e) sobre o estágio do espelho, a criança, a partir dos seis meses, manifesta intenso júbilo ao contemplar sua própria imagem no espelho. Numa fase em que não tem ainda o domínio corporal que lhe permita sustentar-se de pé ou controlar plenamente seus movimentos, o infante reconhece como sua uma imagem com características idênticas às dos humanos a sua volta. Para assumir essa sua imagem refletida no espelho, ele necessita da garantia vinda do testemunho do olhar de um semelhante. A partir desse momento o sujeito está duplamente capturado:por uma imagem, unificada e totalizante, de um eu que não corresponde a uma real capacidade motora e postural; por um olhar que, vindo do outro, instaura a necessidade da garantia de uma matriz simbólica.

Surgindo em conjunto com a formação do eu imaginário, no estágio do espelho, a identificação simbólica consiste precisamente no nascimento do sujeito do inconsciente, compreendido como a produção de um traço singular que se distingue ao retomarmos um a um cada significante de uma história... o traço que unifica o conjunto dos significantes. (Nasio, 1989, p. 114)

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(32) Lacan (1992) assinala a importância do termo freudianoeinzigerZug32— traço unário — como a referência original ao Outro, a um signo que marca a interiorização do Outro, constitutiva do ideal do eu, entendido como uma introjeção simbólica, diferente do eu ideal, uma projeção imaginária. A distinção entre eu ideal e ideal do eu marca uma duplicidade na constituição do indivíduo e seu aprisionamento original ao outro/Outro. Um outro,

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com minúscula, indica o semelhante enquanto imagem especular e o Outro com maiúscula, aponta para um lugar que sela a identificação do ser inerme com a sua imagem. O Outro funda com seu olhar, interiorizado por um signo, um campo de referência que será a medida de toda futura satisfação narcísica, indicativa da aproximação do eu ao seu ideal.

Como o conceito de identificação simbólica será de grande importância para a compreensão de questões fundamentais da adolescência, julgamos oportuno acompanhar o desenvolvimento de Nasio (1989) nas suas colocações sobre os diversos aspectos desse signo interiorizado, o traço unário:

Cada uma dessas expressões, ideal do eu e falo, situa o traço unário num contexto diferente e, por conseguinte, concebe diferentemente a identificação simbólica. Quando essa instância é chamada de traço unário, inscrevemo-la no contexto da repetição dos significantes; quando se chama ideal do eu, pensamos nela como o referencial constante que regula as identificações sucessivas do eu com as imagens; e por último, quando ela é chamada de falo, concebemo-la como o referencial que ordena as diferentes modalidades de satisfação sexual. Em suma, trata-se sempre da mesma instância externa ao conjunto regulado por ela, e à qual damos o nome de traço unário quando o conjunto é um conjunto de significantes, de ideal do eu quando o conjunto é o das imagens, e finalmente, de falo, quando o conjunto é o dos diferentes modos que a sexualidade adota. (p. 115)

Apesar de funcionarem em conjunto, identificação simbólica e imaginária não estão situadas no mesmo nível. Na identificação imaginária ainda está em jogo a semelhança, a aparência, enquanto a identificação simbólica aponta para um traço — ein einziger Zug — do Outro que escapa à imitação e que sustenta, de uma certa posição externa, toda a possibilidade de articulação do universo de identificações. No modo imaginário a relação tende à complementaridade, ao preenchimento da falta em ser — fundamento do desejo — enquanto no modo simbólico a relação é diferencial: um elemento, longe de completar o outro, demarca o lugar da falta.

Zizek (1992) procura dar conta da diferença entre os dois tipos de identificação, recorrendo a personagens cinematográficos do filme Sonhos de um sedutor. O personagem interpretado por Woody Allen tem o seu desastrado comportamento com as mulheres constantemente comentado pelo

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personagem de Humphrey Bogart que parece sair de Casablanca para vir aconselhá-lo. Ao final do filme, o personagem de Allen, após passar a noite com a mulher do seu melhor amigo, renuncia ao seu amor por ela, despedindo-se do casal, no aeroporto, reproduzindo-se o final de Casablanca. Após esse episódio, a figura de Bogart aparece pela última vez e diz que agora o herói tinha estilo e não precisava mais dele. Zizek repudia a interpretação mais fácil de que agora o herói se tornou ele mesmo porque se apropriou do modelo de Bogart, que antes queria copiar, e tornou-se autônomo através de uma identificação imaginária. Para Zizek o importante está na afirmação que o personagem de Allen faz sobre Bogart: é verdade que você não é lá muito alto e é meio frio, mas, que diabos, sou suficientemente baixinho e feio para ter sucesso sozinho. Essa afirmação descaracteriza a cristalização de uma identificação imaginária e aponta para o terreno do simbólico: o herói realiza essa identificação desempenhando na vida real o papel de Bogart em Casablanca, ou seja, assumindo uma certa missão, ocupando um certo lugar na rede simbólica intersubjetiva (sacrificando uma mulher em nome da amizade...). É essa identificação simbólica que desfaz a identificação imaginária (isto é, que faz desaparecer afigura de Bogart), ou, mais precisamente, que modifica radical- mente seu conteúdo — no nível imaginário, o herói pode agora identificar-se com Bogart através dos traços que lhe são repulsivos: sua baixa estatura e sua friúra. (pp. 108/109)

O que está em jogo na adolescência é mais que uma mudança de penas identificações imaginárias, mas a capacidade do sujeito de integrar-se no campo sócio simbólico, que testa sua capacidade de res- posta desde o plano da identificação simbólica fundante. Assim, os transtornos do narcisismo adolescente (como a profunda preocupação que as transformações corporais trazem ao púbere) são correlatos às oscilações do ideal do eu que o sustenta e que sofre injunções advindas do campo social.

Conforme Norbert Elias (1994) assinala, há uma tensão entre a dimensão social e a individual quando se trata do ideal:

É algo sumamente pessoal, mas ao mesmo tempo, especifico de cada sociedade. A pessoa não escolhe livremente esse ideal entre diversos outros como o único que a atrai pessoalmente. Ele é o ideal individual socialmente exigido e inculcado na grande maioria das sociedades. (p. 118)

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Comparar-se a um ideal — ideal do eu — vai ordenar a errância das identificações imaginárias e ancorar o adolescente em algum lugar dentro de si — no sentido de um registro simbólico internalizado — de onde pode ver-se como indivíduo. Costa (1994) assinala como a condição da subjetividade está ligada à descrição ideal de si:

Só existe sujeito a partir de um horizonte de ideais. O sujeito só se reconhece como sujeito quando pode dar uma descrição ideal de si, sem o que não poderia julgar o que é. Este é o jogo de linguagem da idealidade como condição da subjetividade. (p. 54)

Elias aponta para a mesma direção ao enfocar a importância do ideal do eu, realçando seu papel fundamental na pessoa individualmente considerada: trata-se de algo sem o qual ela perdera, a seus próprios olhos, sua identidade deindivíduo. (p. 118)

No conto O espelho — esboço de uma nova teoria da alma humana, Machado de Assis (1987) parece antecipar, em mais de meio século, as proposições sobre o ideal do eu/eu ideal formuladas por Freud e Lacan. Essa narrativa ficcional aponta, ao mesmo tempo, para a constituição do eu na relação com suas imagens ideais e para a função do olhar do outro nas crises identificatórias do sujeito.

Para ilustrar suas ideias — a teoria das duas almas — Jacobina, um personagem do conto, narra um episódio da sua vida, quando tinha 25 anos e foi nomeado alferes da Guarda Nacional: sua mãe, a família e os amigos ficaram orgulhosos e contentes com o feito. Uma de suas tias, viúva de um capitão, fez questão que o jovem alferes, de uniforme completo, passasse um bom tempo com ela, em seu sítio, retirado da vila. O encanta- mento da tia com o alferes era insuperável, tendo reservado para o sobrinho o que havia de melhor na casa, incluindo um velho espelho, com detalhes em ouro, que teria pertencido a uma fidalga da corte de D. João vI. Tais foram as atenções recebidas que o ânimo do rapaz sofreu notável alteração:

O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do

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que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exerceu da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não? (p. 1 35)

Após toda a bajulação e os rapapés, aconteceu ao alferes, conta-nos o narrador, a solidão mais absoluta. A tia abandonou a casa, às pressas, para cuidar da filha doente, todos os escravos aproveitaram a oportunidade para fugir e o sítio era um local ermo. Preso à responsabilidade de cuidar da casa, o sobrinho permaneceu esperando a volta da tia. Jacobina, contestando seus ouvintes, diz que não sentiu medo: tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Só sentia alívio no sono e então sonhava-se fardado, orgulhosamente, no meio da família e dos amigos que me elogiavam o garbo e me chamavam de alferes (p. 1 35). A pior experiência do personagem ainda estava por vir: olhar-se no aristocrático espelho:

...deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do uni- verso; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra... De quando em quando olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos (pp. 138/139).

O que faltaria para dar definição às linhas soltas que a imagem especular refletia? O próprio personagem machadiano encontra uma solução, uma cura para seu processo de despersonalização:

Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me todo, e como estava defronte do espelho levantei os olhos e.. não lhes digo nada, o vidro reproduziu então afigura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alforres, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com os escravos, ei-la recolhida no espelho... Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado.Daíem diantefui outro. (p. 139)

Com Machado de Assis advertimos que os efeitos da redução imaginária dos homens ao alferes conjuga a imagem ao olhar e à fala. Assim como a

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criança frente ao espelho necessita de uma testemunha para, literalmente, ganhar corpo, a identificação do homem ao alferes é dependente de uma presença. Na sua falta esboçam-se inclusive os fenômenos de dissolução corporal, quando a magia do espelho torna-se negra: já não é possível ao espelho cumprir seu papel de permitir, supostamente, ver-nos como nos vêem os outros. Inflada a vertente imaginária, que substancia o eu, desencaminha-se o sujeito da sua outra alma — aquela que pode fazer deslizar o desejo, desfazendo a captura imaginária.

O nosso herói, Jacobina, é claro, não enlouquece de fato. O alferes precisa da farda mas está além dela. Capturado numa imagem sim, mas ancorado num ideal. O simbólico vigora e é capaz de dirigir o reassegura- mento imaginário, revelador da alienação reconstrutiva do eu (era eu mesmo, o alferes... Daí em diante fui outro.).

Se o conceito psicanalítico de Ideal do Eu pode dar conta da integração — ou a desintegração — do sujeito no campo sócio simbólico podemos, a partir desse ponto, explicitar melhor tanto a crise da adolescência quanto sua relação com a esquizofrenia, cuja incidência O. Mannoni (1992) supõe aumentar nas sociedades evolutivas:

Mas cumpre acrescentar, obviamente, que essa crise apresenta riscos, que pode deteriorar-se em razão de um infortúnio, e estou persuadido — embora seja difícil de provar — de que um certo número de esquizofrenias são resultado de crises de adolescência que foram impedidas, e não resolvidas. A história das doenças mentais — disciplina que nos falta um pouco — mostra- ria, talvez, que a freqüência dos casos de esquizofrenia aumenta simultaneamente com o caráter evolutivo da sociedade... Eles eram mais raros nas sociedades estáveis. (p. 114)

O impedimento à resolução de certas crises de adolescência liga-se à incapacidade do adolescente que deve, a partir da sua identificação simbólica fundante, responder às injunções que a sociedade lhe propõe.

A necessidade, produzida pela sociedade, de remanejar antigas identificações gera respostas sintomáticas do adolescente. As dificuldades de conciliar as exigências atuais com as do ideal que carrega resultam em diferentes níveis de fracasso, sendo o mais grave deles a psicose. Nesta estão comprometidas tanto a capacidade do ideal do eu de ordenar o con-

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junto de imagens identificatórias do sujeito quanto o poder do falo em ordenar o exercício da sexualidade. A compreensão dos mecanismos imaginários e simbólicos que vão dar consistência ao sujeito remete a importantes questões psicopatológicas da adolescência.

Na junção do imaginário com o simbólico encontramos a explicação para o fascínio dos espelhos. Como pode o sujeito apreender-se, se ele é a imagem que vê sendo vista por alguém? Ele está onde é chamado por um nome próprio? Na imagem está alienado entre a insuficiência e a antecipação (Lacan, 1966, p. 97), preso a um irrecuperável eu ideal que jamais esteve onde foi visto, No nome próprio divide-se entre o sujeito do enunciado e o da enunciação, marcado pela falta-a-ser da ordem significante.

Umberto Eco (1989) fala de um duplo sonho no qual os espelhos estão implicados: o sonho semiótico de nomespróprios que sejam imediatamente ligados a seus referentes (assim como o sonho semiótico de uma imagem que tenha todas as propriedades do objeto ao qual está relacionada) nasce exatamente de uma espécie de nostalgia caótica (p. 22). Trata-se de um sonho impossível, já o sabemos da psicanálise. O universo caótico é uma realidade capaz de dar a impressão da virtualidade. O universo semiótico é uma virtualidade capaz de dar a impressão da realidade (p. 37). Ambos marcados por uma insuficiência: a imagem especular presa a um referente objetal está permanente- mente congelada, impossível fazê-la deslizar em qualquer interpretação; o simbólico, inversamente, só estabelece relações sem consistência, entre tipos genéricos. Juntos, os dois universos são capazes de fornecer ao homem sua precária realidade.

Na psicose as identificações emprestadas de que nos fala Mannoni não são jogos imaginários especulares que terminam no encontro do baseamento da identificação simbólica. Em certo sentido todas as nossas identificações/significações são emprestadas — ou o eu não é sempre um aglomerado de identificações com o outro? Mas, do registro do simbólico, uma lei, um ideal, uma marca, vem legitimar todos OS empréstimos. Essa legitimação passa pela questão do pai na adolescência, nos seus vários níveis de carência que correspondem a ocorrências diversas no campo clínico.

Freud (1923) correlaciona a gênese do Ideal do Eu com um tipo especial de identificação, primeira, e de maior valência, do indivíduo: a identificação ao pai — o paz da pré-história pessoal, ele acrescenta. Lacan (1992)

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registra esse momento como a referência original ao Outro na relação narcísica, interiorizada por um termo simbólico primordial (p. 344): o traço unário — a que já me referi. Essa identificação, direta e imediata, e mais precoce que qualquer investimento de objeto (p. 33) toma o pai como ideal, já havia assinala- do Freud (1921) em Psicologia das massas e análise do eu, onde também fica assentada a contribuição dessa identificação fundamental para as fundações do complexo de Édipo. A passagem pelo complexo de Édipo deve sedimentar a instância ideal, que sob o nome de Supereu ou Ideal do eu33 vai constituir sua herança fazendo parte da estrutura do aparelho psíquico. Trata-se de instância fundamental na condução de toda vida psíquica pois é expressão das mais potentes moções e dos mais importantes destinos libidinais do isso. Mediante sua instituição, o eu se apodera do complexo de Édipo e simultaneamente se submete, ele mesmo, ao isso (Freud, 1923, p. 37).

Longe de adaptar o indivíduo às exigências do mundo externo o supereu vai constituir-se em advogado do mundo interior, do isso, fonte do conflito para o eu, obrigado a conciliar as exigências do ideal com as da realidade. Os conflitos, segundo Freud, serão continuação daqueles do complexo de Édipo, que, não dominados, alimentarão a formação reativa do ideal do eu (p. 40).

O pai do ideal e o pai da vida real do sujeito evidentemente não coincidem. Temos aqui a oposição entre uma instância psíquica e uma pessoa. Imaginariamente, pessoa e instância ideal são, no entanto, postos em relação pelo jovem, como consequência dos conflitos não dominados do complexo de Édipo. Podemos depreender esse tipo de questão do texto em que um personagem do romance O adolescente de Dostoiévski fala de sua decepção no reencontro com pai:

Ora, acontece que esse homem é apenas um sonho, um sonho de meus anos de infância. Fui eu quem o imaginou desta maneira: em realidade ele é bem diferente, bem abaixo de minha fantasia. (pp. 68/69)

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(33) Os dois termos se interpenetram no decorrer da elaboração dos trabalhos freudianos no texto Introdução ao narcisismo (1914), o conceito de Ideal do eu – herdeiro do narcisismo originário – é definido em Psicologia das massas e análise do eu (1921) como portador das atribuições de observação, de consciência moral, censura onírica e principal influência na repressão. Em o eu e o isso (1923) o termo passa a ser equivalente ao de supereu, expressão que daí em diante parece recobrir a anterior.

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Em um texto de 1909, A novela familiar do neurótico, Freud já abordava a questão da discordância, que a criança ou o jovem descobre, entre os pais idealizados dos primeiros anos da infância e os pais reais. O que está em jogo são, sobretudo, a autoridade e o valor do pai, contestados a partir de motivações de raízes edípicas. Dos sonhos diurnos infanto-juvenis surge a novela familiar, pela qual o sujeito fabula uma nova filiação, de nobre origem, que restituiria o valor à sua ascendência. Mas, ao final do artigo, Freud vai apontar o que julgo ser o mais importante: não se trata exatamente de uma desvalorização do pai e sim, em certo sentido, do seu enaltecimento:

Tudo o esforço para substituir o pai verdadeiro por um mais nobre nada mais é do que a expressão da saudade da criança da idade feliz e perdida em que seu pai lhe parecia o homem mais nobre e poderoso e sua mãe a mulher bela e amorosa. Então, se afasta do pai tal qual agora conhece eregressa àquele em quem confiava na primeira infância. (p. 220)

O pai do ideal não encontra correspondente no pai que a realidade concreta apresenta. Essa discordância entre Um Pai — enquanto fundador de uma função ideal — e o pai da filiação é marca das sociedades modernas, onde os ideais flutuam e o pai-de-família perdeu os emblemas e os brasões que em outras épocas imaginariam seu lugar simbólico. Sua figura já não funciona nem mesmo como cristalizador de duras tradições contra as quais se manifestariam as revoltas juvenis, como confessa o rock do Ultraje a Rigor: meus dois pais me tratam muito bem... Não vai dar, assim não vai dar. Como vou crescer sem ter com quem me revoltar.

Procuro indicar as articulações entre o pai real, o pai imaginário e o pai simbólico, e seus efeitos na adolescência, assinalando a pertinência da ressalva de Lacan (1958) sobre a questão da carência paterna: falar de sua carência na família não é o mesmo que falar de sua carência no complexo, é preciso introduzir uma outra dimensão que não a realista (Les formations de linconscient, seminário inédito de 22/1/58). Assim, fica assentado que a importância da função paterna, no referencial analítico, só ganha sentido quando articulada nas três vertentes já referidas e, sobretudo, enfatizando a dimensão estruturante da metáfora paterna, a outra dimensão a que Lacan se refere.

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Assinaladas as questões referentes às carências paternas na adolescência, resta abordar suas repercussões na clínica, explorando as particularidades da articulação dos seus aspectos imaginários e simbólicos na psicopatologia desse período etário.

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ADOLESCÊNCIA E PSICOSE

As concepções sobre os comportamentos normais do adolescente — e suas variantes patológicas — são, em geral, oriundas de uma fundamentação psicobiogenética da partição das idades da vida. Para essa linha de pensamento a compreensão dos limites da normalidade na adolescência deve levar em conta os parâmetros de uma evolução etária, com seus períodos de continuidade e ruptura preestabelecidos, constituindo a adolescência um período de crise ou ruptura no processo de desenvolvimento. Seguindo essa corrente desenvolvimentista, os conceitos sobre normalidade e patologia na adolescência encontram-se, ainda hoje, fortemente influenciados pelas concepções de Anna Freud, que caracteriza a adolescência como um período de ruptura do equilíbrio pulsional obtido na latência.

Essa abordagem conduz a problemas diagnósticos de difícil solução, como a própria autora aponta ao assinalar a semelhança entre a adolescência e transtornos emocionais ou desequilíbrios estruturais. Para Anna Freud(1976) o diagnóstico diferencial entre a verdadeira patologia e os transtornos próprios da adolescência seria uma tarefa complexa porque: as manifestações adolescentes são similares às formações de sintoma de tipo neurótico, psicótico ou associal e se confundem com estados fronteiriços e com as formas iniciais, frustras ou completas, de quase todas as enfermidades mentais até se fazerem indistinguíveis destas. (p. 176)

Esse tipo de perspectiva teórica conduziu à criação do conceito de síndrome da adolescência normal (Knobel, 1974), ratificando e difundindo a expectativa de que um certo grau de patologia seria inerente à evolução normal na adolescência.

Autores como Masterson (1972) e Offer, Ostrov e Howard (1981) contestaram essa opinião afirmando que a crise da adolescência teria pouca importância como fator psicodinâmico universal e seus efeitos psicopatogênicos seriam muito menos significativos que anteriormente se

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acreditava. Para eles Anna Freud e a maioria dos psicanalistas confundem as características de alguns pacientes em análise com o aspecto global da adolescência normal. A generalização indiscriminada e a falta de estudos e estatísticas eficientes seriam determinantes do erro no enfoque da questão.

Masterson pensa ser perfeitamente possível delimitar o normal do patológico na adolescência, analisando a interação entre a crise e a estrutura de personalidade do adolescente:

No sadio, cuja estrutura de personalidade não só é forte como teve suficiente flexibilidade para suportá-la, a crise da adolescência acarreta no máximo níveis subclínicos de ansiedade e depressão... Nos que sofrem de esquizofrenia e de alterações de personalidade, cujas estruturas têm uma organização deficiente e desconexa, com a mínima flexibilidade para responder às tensões, a crise da adolescência exerce seu efeito caótico porque piora os estados preexistentes, que então tendem a persistir até a vida adulta (p. 1 63)

As duas abordagens parecem insatisfatórias por conduzirem a impasses conceituais e diagnósticos, além de naturalizarem o conceito de adolescência34. Anna Freud tem dificuldades em discriminar o normal do patológico na adolescência, onde descobre uma espécie de terra de ninguém, o que acarreta consequências desagregadoras tanto para a clínica quanto para as concepções sócio-antropológicas sobre a adolescência. Os aportes de Masterson, por outro lado, pouco contribuem para esclarecer os processos psicopatológicos no indivíduo adolescente: como conceituar o que se- ria uma estrutura de personalidade forte e com suficiente flexibilidade? Como explicar a ação da crise da adolescência sobre a estrutura prévia da personalidade, se a premissa colocada é a da pouca importância da crise como fator psicodinâmico universal?

Esses impasses contribuem para a disseminação da categoria diagnóstica Borderline na clínica de adolescentes. O exame que farei mais adiante do uso desse diagnóstico pode trazer alguns esclarecimentos teórico-clínicos suplementares.

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Apesar das explicações para a relação entre a crise da adolescência e o desencadeamento de quadros psicopatológicos não serem satisfatórias, o reconhecimento dessa inter-relação não é novo. Na pré-história da formação do conceito de esquizofrenia já existem marcantes referências à adolescência. Hecker, em 1871 — conforme Bercherie (1989) e Bleuler (1960) —, descreve a hebefrenia, inspirado pelos trabalhos do seu mestre Kahlbaum, que defendia a existência de um grupo de doenças mentais relacionado com os períodos de grandes mudanças biológicas. O próprio Kahlbaum criaria, em 1890, o termo heboidofrenia, uma forma leve e curável da hebefrenia, possivelmente semelhante ao que atualmente se denominaria a síndrome da adolescência normal.

Kraepelin e Bleuler concordam sobre a especial vulnerabilidade do adolescente à demência precoce ou esquizofrenia, apesar de discordarem em relação às cifras: para Kraepelin 60% dos pacientes adoece antes dos 25, anos enquanto para Bleuler esta taxa se reduz a 44% (Bleuler, 1960) (35).

Bleuler faz duas observações curiosas acerca das causas da esquizofrenia nos jovens. Em ambas trata negativamente o peso dos acontecimentos no desencadear da psicose. Admite que vários líderes proeminentes do Sturm und Drang do romantismo alemão se tornaram esquizofrênicos (p. 358). Explica o fato registrando que os esquizofrênicos, por serem mais propensos a levar adiante uma idéia — uma certa independência autista — são atraídos pelos novos movimentos e causas sociais. Em outra observação, argumenta em favor do respeito ao leitor para deixar de comentar a seguinte afirmação publicada em uma revista científica da época: a esquizofrenia é causada pelo fato dos jovens já não obedecerem a seus pais (p. 360) (36).

Weitbrecht (1970) parece resumir a visão psiquiátrica sobre a relação entre a crise puberal e as psicoses endógenas: o aparecimento dessas psicoses em períodos de crise biológica confirmaria seu caráter de doença (no sentido de K. Schneider); existem crises puberais semelhantes à

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(35) Estatísticas mais recentes como as de Babigian (1980) apontam que na população americana, durante o ano de 1970, 70% dos casos novos de esquizofrenia surgiram entre as idades de 15 e 35 anos, sendo 45% no grupo entre 15 e 24 anos.

(36) Abordo essas questões, sob um ponto de vista menos reducionista, nos capítulos sobre adolescência, sociedade e indivíduo.

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esquizofrenia mas que, apesar da sua base somática, curam-se com o tempo; finalmente apresentam- se os desenvolvimentos anômalos neuróticos indicativos da não superação das mudanças instintivas puberais cujo objeto é o paulatino desprendimento da relação filhos-pais e a edificação de um si-mesmo autônomo... (p. 425).

No enfoque que dou às relações entre adolescência e psicose procuro me situar numa vertente que, não fugindo à tarefa de discernir estruturalmente os fenômenos da clínica com adolescentes, permita estabelecer vínculos entre esses fenômenos e as circunstâncias da adolescência enquanto período crítico para o indivíduo.

O (DES) CAMINHO DO MEIO

Ofisiólogo trata do leão-formiga; o pai tem forma de leão, a mãe de formiga; o pai se alimenta de carne e a mãe de ervas. E estes engendram o leão- formiga, que é mescla dos dois e que se parece com os dois, porque a parte dianteira é de leão, a traseira de formiga. Assim constituído não pode comer carne, tal o pai, nem ervas, tal a mãe; por conseguinte, morre.

Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero, O Mirmecoleão.In: O livro dos seres imaginários.

Observo, já há muitos anos, um interesse crescente pelos casos ditos borderline, que, tanto na clínica de adultos como na de adolescentes, passaram a constituir uma entidade própria, uma terceira via para o diagnóstico diferencial entre neurose e psicose.

Borderlznes não seriam apenas casos não encaixáveis nos diagnósticos clássicos de neurose ou psicose mas sim um agrupamento com uma certa homogeneidade. Dentre os muitos autores que têm escrito sobre o tema escolhi comentar a abordagem de Kernberg pela sua difusão e influência. Este autor sistematiza a estrutura borderline, cuidando de delimitá-la das estruturas psicóticas e neuróticas.

A análise desse ponto de vista torna-se relevante não só para o esclarecimento das relações entre psicose e adolescência como vai permitir analisar outras questões teóricas importantes. O diagnóstico de fronteiriço ou borderline

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torna-se especialmente atraente na psicopatologia do adolescente, constituindo uma saída para os impasses clínicos e controvérsias teóricas já apontadas. Mas em que medida essa alternativa conduziria a respostas convincentes?

Para caracterizar a estrutura borderline de personalidade Kernberg (1980) baseia-se em três aspectos: o grau de integração da identidade; o nível das operações defensivas e a capacidade de teste da realidade.

Quanto à identidade o border apresentaria uma integração deficiente dos aspectos contraditórios do self constituindo a chamada difusão da identidade (37).

No aspecto das defesas do ego (eu) predominariam as operações ditas de baixo nível: a dissociação e outros mecanismos como a idealização, a identificação projetiva e a negação, com o fito de proteger o ego do conflito por meio da dissociação de experiências contraditórias do self.

O teste da realidade seria mantido pelo paciente fronteiriço, capacitando-o a diferenciar o self do não-self e, por conseqüência, percepções e estímulos intrapsíquicos dos de origem externa.

Não me parece convincente a caracterização do borderline como representante de uma estrutura diversa das estruturas neurótica e psicótica. Antes de correr o risco de buscar a construção de uma estrutura adicional que explique fatos clínicos ditosfronteiriços, seria necessário explicitar qual o aspecto central da psicose e em que difere da neurose.

Ao verificar quais seriam as características da estrutura borderline depara-se com uma série de concepções empíricas e superficiais cuja crítica passa pelo questionamento de alguns aspectos da Psicologia do Ego e da Teoria das relações objetais.

O teste da realidade seria um dos parâmetros definitivos da estrutura border. Constatar sua preservação depende, no entanto, do testemunho do terapeuta, como representante das normas sociais, juiz último da verdadeira realidade e responsável pela adaptação do paciente a padrões aceitáveis e compartilhados de realidade. Kernberg, percebendo a fragilidade dessa Posição, tenta precisar seus conceitos:

Nota de rodapé

(37) Esse conceito foi criado por Erikson, que posteriormente passou a chamá-lo confusão de identidade, que consiste em: divisão das imagens do self, perda da centralidade, sentimento de dispersão e confusão e medo da dissolução. (Paul Roazen, 1976)

Fim da nota de rodapé

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O psiquiatra pode presumir que o teste de realidade esteja preservado se as informações do paciente indicam que ele não sofreu alucinações ou delírios no passado nem os manifesta no presente ou que, se ele teve alucinações ou delírios no passado, tem a capacidade de avaliá-los inteira e totalmente e pode expressar preocupação ou espanto adequados em relação a tais fenômenos. (p. 1084) (38).

A partir dessas informações (a ausência de alucinação ou delírio) torna-se possível cogitar do diagnóstico de borderline. Mas onde se encontra a garantia para classificar a alucinação e o delírio como os verdadeiros marcos entre a psicose e a não-psicose? O que, estruturalmente, caracteriza a alucinação e o delírio e os marca com a chancela da psicose, excluindo sua presença nos demais quadros psicopatológicos?

As concepções de Kernberg não parecem corresponder a um grande avanço nessa questão. No que concerne ao teste da realidade, por exemplo, nada foi acrescentado ao que Freud (1924) caracterizou como A perda da realidade na neurose e na psicose. Na primeira perder-se-ia uma parte da realidade psíquica que, sem dúvida, subsistiria sob a forma inconsciente, enquanto que nas psicoses haveria uma ruptura com a realidade exterior. O próprio Freud, porém, não ficou satisfeito com as conclusões desse trabalho, conforme já assinalei.

Se não foi possível encontrar no teste da realidade a garantia para o reconhecimento da originalidade do fenômeno borderline, passo a examinar o item operações defensivas.

A primeira crítica se dirige à separação, feita por Kernberg, entre defesas de baixo nível ou primitivas (clivagem ou divisão, idealização, identificação projetiva, negação, onipotência e desvalorização), características dos quadros fronteiriços, e de alto nível (repressão, formação reativa, isola- mento, anulação, racionalização, intelectualização). Não parece possível

Nota de rodapé

(38) The psychiatrzst can assume that realzty testing zs preserved zfthe patzents znformatzon zndzcates that he not suffered from hallucination or delusions zn the past or manzfests them in the present or that, zf has had hallucinations or delusions zn the past, he has the capaczty to evaluate themfully and totally and can express approprzate concern orpuzzlement over such phenomena. (p. 1084)

Fim da nota de rodapé

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excluir a presença de qualquer um desses mecanismos no indivíduo neurótico e não se justifica, a não ser por critérios morais, a hierarquização dos processos defensivos em baixo e alto nível. Seria a neurose obsessiva, com seus aparatos de formação reativa, isolamento, anulação, etc, superior à histeria, com seus aspectos dissociativos ou conversivos? Até onde os valores do cidadão médio, adepto do amerzcan way oflifr, estariam agindo quando se desqualifica os mecanismos histéricos, por sua teatralidade e disfuncionalidade e se valoriza a organização obsessiva?

Anna Freud (1968) localiza, do ponto de vista genético, o recalque como o mais primitivo dos processos defensivos, ligado, em crianças de tenra idade, aos sintomas histéricos. Lacan (1966), apesar de ter posições extremamente opostas às de Anna Freud, chega a idênticas conclusões: ressaltando a importância da redução simbólica na produção das defesas do ego (moi). Lacan situa a repressão histérica e suas repetições num estado mais arcaico que a inversão e o isolamento obsessivo, que ainda seriam precursores da alienação paranóica que se situaria na virada do eu especular em eu social.

Se não é possível, com o aporte genético, encontrar apoio para a hierarquização de defesas feita por Kernberg, não haverá maior sucesso quando se busca esse respaldo no ponto de vista clínico. Freud (1940) aponta para a posição que o mecanismo da divisão (splitting ofthe ego) ocuparia na clínica, reconhecendo sua presença tanto nas psicoses como nas neuroses. Como respaldar a singularidade do mecanismo de clivagem e seus correlatos nos casos ditos borderlines?

O último (ou primeiro?) alicerce da construção da estrutura borderline é o deselfnão integrado. Cabe discutir o conceito de self, seguindo Kernberg, verificar como diferenciá-lo do conceito de ego.

O autor questiona a tradução do termo Ich e os diversos sentidos derivados dessa tradução. Concorda com Laplanche e Pontalis quanto à ambiguidade proposital que Freud extrairia do Iclz, impropriamente reduzida pela tradução inglesa Ego. Laplanche e Pontalis (1976) assinalam:

Finalmente não nos parece desejável apresentar desde logo uma distinção decisiva entre ego como pessoa e o ego como instância, porque a articulação destes dois sentidos está precisamente no centro da problemática do ego... A ambiguidade terminológica que se pretenderia denunciar e ver dissipada encobre um problema de fundo. (pp. 172/173)

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Esse problema de fundo é elucidado por Freud na obra em que pretende sintetizar toda a evolução da psicanálise: Esboço da Psicanálise (1940). Freud reafirma a dependência e profunda ligação que o ego (Ich) mantém com o id (Isso), de onde traz sua marca de origem como os produtos alemães trazem o made in Germany.

A mesma expressão (made in Germany) é usada por Freud no seu artigo de 1925, sobre a Denegação (Die Verneinung), com o mesmo sentido de marca de origem, neste caso a marca que a repressão deixa no seu próprio processo de superação. No exemplo em que Freud analisa as associações do paciente sobre um sonho, pode-se acompanhar a divisão entre um ego e o sujeito do inconsciente. Onde aquele diz não (Não é a minha mãe), aponta um Outro que afirmaria (É a minha mãe) — conforme a interpretação de Freud. Flagra-se, nesse momento, a prova da impossibilidade de situar o ego como o titular da função sintética no indivíduo.

Compreende-se o problema de fundo do Ich freudiano: a impossibilidade de reduzir o sujeito ao seu eu (ego) que, todavia, o representa (e o engana). Nas palavras de Lacan (1978): o núcleo de nosso ser não coincide com o eu... literalmente o eu é um objeto que preenche uma certafunção que aqui chamamos defunção imaginária. (pp. 59/60). (39)

A suposição de um ego autônomo e integrado como ponto final do desenvolvimento do indivíduo está na raiz dos impasses que afetam o conceito de borderline. Não foi parte essencial da tarefa de Freud caracterizar a relevância do papel do inconsciente e o desenterramento do sujeito em relação ao seu ego?

A introdução do conceito de self parece uma tentativa canhestra de rearticular o que Freud havia afirmado: o predomínio do sujeito do inconsciente, irredutível a qualquer ego e não sintetizável por nenhuma alquimia meta psicológica.

Por que não reconhecer a equivalência ego/self nesse contexto, e a oposição consciente/inconsciente? Porque a estrutura borderline perderia então todas as suas particularidades e seus mecanismos específicos de instalação seriam reduzidos à repressão e seus correlatos, caindo no campo

Nota de Rodapé

(39) Le Noyau de notre être ne coincide pas avec le moi.. literalmente le moi est un objet quz remplit une certainefonction que nous appelons zcifonctzon imagznaire. (p.59/60)

Fim da nota de rodapé

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das neuroses, com seus diversos graus de gravidade clínica. Mas, renunciando ao conceito de estrutura borderline — uma solução teórica frágil para explicar as fragilidades da condição adolescente —, quais seriam as alternativas para esclarecer os quadros neuróticos que parecem se alternar com sintomas psicóticos?

Vou procurar a resposta discutindo dois casos de adolescentes que ora parecem trilhar o caminho da psicose, ora seguir as sendas da neurose. Prescindindo do acréscimo de uma estrutura intermediária entre a psicose e a neurose, atenho-me às formulações teóricas de Freud e Lacan.

Carla, 16 anos, parou de sair de casa há um mês, não vai à escola— em que cursava a 7a série —, não ajuda mais o pai no seu pequenocomércio. Tem medo de ser atacada por mendigos na rua e de ser mordida pelo seu próprio cachorro. Diz que suas roupas estão diferentes — não dão nela —, seus óculos estão estranhos. Outras queixas referem-seà sensação de que está afundando, a formigamento no corpo, ao tênisque está grande — não dá mais nela — e seu quarto está cheio de baratase formigas.

Durante a primeira entrevista Carla diz estar vendo bolas vermelhas no céu, que a mesa está se mexendo, vê formigas na sala e olha insistentemente para a cicatriz de um corte na mão — queixa-se de dormência no local do corte que foi produzido há três anos. Diz que é um cavalo, mostrando sua perna e perguntando à analista se não acha que ela parece mesmo um cavalo. Compara-se também a um galo.

Não quer vestir as calcinhas e os shorts que sua mãe lhe dá, alegando que não são seus — são grandes. Após ter ficado 2 semanas quase sem comer ou dormir, a mãe a levou a um centro espírita, o que não lhe propiciou melhoras significativas.

Tinha um namorado mas não saía sozinha com ele, sempre chamando a mãe para acompanhá-la. Parecia não Iigar para o namorado, que deixou de aparecer há quatro meses. Agora Carla chora sua perda e pede para tirarem do quarto uma bola, presente que recebeu dele.

Um episódio parece estar envolvido no desencadeamento dos problemas: uma vizinha contou que tinha sido agredida na rua onde moram por um mendigo; Carla escuta com os olhos arregalados e fica temporariamente sem fala. Depois disso começou a recusar-se a sair às ruas.

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O pai abusa com frequência da bebida, tornando-se desagradável nessas ocasiões. Há 4 anos ingressou num período de declínio econômico. Segundo afirma, foi obrigado a vender casa, telefone, automóvel, etc, para custear despesas judiciais decorrentes de um processo por atropelamento. Uma das queixas da mãe sobre o pai é de que ele, durante as brigas — geral- mente quando está bêbado — nega que sejam casados depapelpassado.

Após a primeira semana de atendimento Carla passa a dormir muito de dia, solicita com frequência a mãe, quer que todas as janelas e basculantes da casa estejam fechados. Para tomar banho ela cobre o espelho com uma toalha e banha-se rapidamente. Em uma sessão pergunta: o meu pai tá onde? Cadê meu pal? Olha suas mãos e as mãos da analista. Olha para a orelha da analista e indaga: você está de brinco?

Um mês após o início do atendimento a adolescente está com melhor aparência, arrumada e enfeitada com brincos e anéis. Nas sessões parece, às vezes, pouco colaborativa, pedindo para ir embora antes do final. Alterna seu comportamento com a analista, ora é mais comunicativa ora muda, mas traz uma questão sobre o comportamento masculino: tem medo de pegar carona com homem pois o que eles fariam? Sempre se aproveitam das mulheres. O relato da família aponta para o atual comportamento infantilizado de Carla em casa: quer muitas balas, doces e chupeta (sic).

Quatro meses após o início do tratamento — sem utilização de medi- cação — a mudança em Carla já é notável: muito animada, bem mais gorda - com um corpo marcantemente feminino, contrastando com a anterior aparência assexuada —, vestindo-se e enfeitando-se com apuro. Comenta com a analista que gosta de ser olhada nas ruas e sentir-se desejada — os homens ficam chamando minha mãe de minha sogra. Inscreveu-se como candidata a Rainha da Piscina no clube que frequenta.

Maleval (1987) chama atenção para as loucuras histéricas, quadros abandonados pela moderna nosologia psiquiátrica. Muitos desses quadros passaram a pertencer ao terreno da esquizofrenia (40): a introdução do conceito de esquizofrenia consagrou tanto a desaparição do delírio histérico (a qual, em 1911, não era total) como a expulsão da histeria parafora do campo da loucura

Nota de rodapé

(40) No capitulo Da loucura à psicose faço uma crítica à exagerada abrangência assumida pelo conceito de esquizofrenia.

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(p. 304). O trabalho de apagamento da noção de loucura histérica foi completado, mais recentemente, pelo conceito de borderline. Como seriam entendidos hoje os casos que Freud e Breuer (1893) incluíram nos Estudos sobre a histeria? A Srta. Anna O. apresentava períodos de mutismo, de desorganização formal da linguagem (p. 50), não reconhecia as pessoas, etc; a Sra. Emmy von N padecia de delírios, alucinações e ilusões (p. 1 14).

No caso de Carla, o relato da agressão a uma mulher que lhe era próxima pode ter desencadeado a agudizarão de uma questão latente na histérica: o que é uma mulher? Mesmo marcada pela metáfora paterna, a mulher não está inteiramente definida sob o significante fálico. A histérica denuncia a incapacidade paterna de dar um significante para a identidade feminina. A adolescência é para a mulher um momento decisivo, durante o qual deve dar conta do que é o feminino — o artigo masculino dá, na língua portuguesa, a dimensão da tarefa de uma mulher para situar-se na divisão do sexo. Freud (1914) destaca uma particular sensibilidade do narcisismo feminino aos processos da adolescência: com o desenvolvimento puberal, pela conformação dos órgãos sexuais femininos latentes até então, parece que lhe sobrevém um acréscimo do narcisismo originário (p. 85). Na mulher há, então, um sobre investimento da imagem corporal, indicativa de um valor fálico especial, que o corpo feminino assume para compensar a falta do significante da feminilidade.

Os fenômenos da loucura de Carla giram em torno do corpo: suas transformações, sua inadequação em relação a suas vestes, a estranheza com seus membros, o ocultamento da sua nudez e a fixação num corte — a cicatriz. O que o Outro quer do seu corpo? A cena da agressão precipita uma resposta que parece congelada entre o erotismo e o horror — Carla reage como se de fato presenciasse a cena, com um olhar fixo. O corpo está reduzido a um estranho objeto do qual o homem goza de uma maneira brutal. Esse seria o verdadeiro corpo feminino, ao nível do corpo do animal — o cavalo, o galo?

O refúgio na condição assexuada de criança — balas, doces e chupeta— logo dá lugar a uma nova tentativa de resposta sobre o que é a mulher, através da identificação com a analista. Para além da dimensão imaginária da identificação, ocorre também a possibilidade de Carla relançar a pergunta sobre o desejo do Outro — ser olhada nas ruas e sentir-se desejada.

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Esse parece ser o caminho da sua cura ou, como escreve Serge André (1987), da normalização da sua histeria: se não pode obter um signo que assegure sua identidade feminina, recusará pelo menos identificar-se ao objeto do gozo do Outro: aceitará suscitar seu desejo, mas se furtará à sua satisfação (p. 1 1 9).

A denominação — ou melhor, a recusa da denominação esquizofrênico ou psicótico — dada ao acontecimento vital de uma adolescente ultrapassa o interesse acadêmico sobre a nosologia dos transtornos mentais (41). Não medicá-la e escutar sua tentativa de articulação sobre uma questão vital — quem era ela enquanto mulher— pode ter um papel importante na determinação de seu futuro. Melman (1985) recusa o conceito de borderline e propõe o termo parapsicose para essas eclosões de loucura nas estruturas histéricas e defende a racionalidade do seu ponto de vista:

O conceito racional de parapsicose (muito mais que o conceito anglo-saxão de border1in que deixa supor a graduação de uma escala que vai do normal ao patológico) pode ser útil para evitar uma cronicização da- quilo que pode ser considerado como uma sublimação bem sucedida da histeria, quer dizer, uma sublimação consumada por um sujeito que se reclama do lugar do Outro. (pp. 132/133 — grifos do autor)

Seria de todo contraditório com as posições teóricas expostas negar a eficácia do simbólico e o valor da nomeação sobre os destinos do sujeito. Para quem sai da posição de estudioso da adolescência para desempenhar um papel nos cuidados de adolescentes singulares, os argumentos éticos se acrescentam ao ponto de vista racional. Se não há como negar a importância da denominação sobreposta aos fatos clínicos, é necessário assumir a

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(41) A propósito de classificações, Hornstein e Putnan (1992), usando o DSM-III-R, pesquisam o diagnóstico de distúrbios dissociativos (Neurose histérica tipo dissociativo) em dois grupos de crianças e adolescentes. Os autores assinalam que, apesar de conhecidos desde o século XIX, os distúrbios dissociativos em adultos, adolescentes e crianças passaram a ser ignorados em épocas mais recentes. Suas conclusões indicam que crianças e adolescentes com sintomas psicóticos devem ser cuidadosamente avaltados para transtornos dissociativos — que, nos seus achados, incluem sintomas como alucinações e vivências de influência sobre o corpo e o pensamento.

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tarefa de avaliação estrutural, ponderando as consequências de um equívoco sobre o futuro dos adolescentes.

O segundo caso, remetendo ao que examinei no capítulo Identidade e identificação, aponta para a importância das questões ligadas ao Ideal-do- eu durante a adolescência.

Ricardo, 15 anos, chega a uma emergência psiquiátrica agitado, fazendo movimentos como se pilotasse um carro de corridas. Os pais contam que sua agitação começou a partir de um conflito com a mãe: durante uma reunião de estudos bíblicos na casa da família, extremamente religiosa, Ricardo pede para dirigir o encontro, a mãe nega alegando que o filho não está pronto para a tarefa e enumera publicamente suas falhas (más- criações, desobediências, etc). Ricardo fica muito magoado e retira-se para o quarto. Após o término da reunião a mãe tenta falar com o adolescente, que está muito nervoso. Ele começa a gritar e quando a mãe toca no seu braço a agride, torcendo o braço dela e dizendo não toque em mim! Outros membros da família interferem, Ricardo continua nervoso e pede para chamarem os bombeiros e a ambulância porque iria explodir. Na emergência psiquiátrica é medicado com antipsicótico e retorna para casa.

Na primeira entrevista com a analista, conta que sempre quis ser piloto de corrida e ficava muito aborrecido quando o Senna não ganhava: se fosse eu teria ido ao pódio. Acredita que sua doença de nervos começou quando o Senna morreu: chorei muito, fiquei no quarto pensando na minha garota e na minha vida. Eu tenho amor à vida e por isso não vou mais ser piloto. Senna morreu e eu não quero morrer. Queixa-se de que em família todos implicavam com ele dizendo que era pobre e por isso não poderia ser piloto.

Ricardo é filho adotivo. Sua mãe biológica é irmã da mãe adotiva. Quando ainda era bebê sua mãe o levou para a casa da irmã dizendo que não tinha condição de criá-lo. Acabou por deixá-lo definitivamente e consentiu na sua adoção legal. Posteriormente uma irmã biológica de Ricardo— apenas por parte de mãe — também foi adotada pela tia. A mãe biológica parece ser dependente do álcool, vivendo em precárias condições econômicas. Em sua companhia vive uma filha de 7 anos, cujo pai não é o mesmo de Ricardo. A mãe adotiva tem filhos mais velhos que não são filhos do atual marido, que se tornou pai apenas de Ricardo e de sua irmã.

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A mãe (adotiva) de Ricardo conta que os outros filhos tiveram ciúme dele e, até hoje, acham que ele tem mais atenção. Quando da adoção da irmã Ricardo sentiu ciúmes, o que a mãe achou natural. No ano passado, ainda segundo a mãe, começou a rebeldia. Ricardo passou a dizer que eles não eram seus pais e que não mandavam nele. Aborrecida, sua mãe retruca que ele devia dar graças a Deus, pois tem casa, comida, estudo e carinho. Após dizer isso sentiu remorsos por ter sido tão objetiva, mas estava magoada por- que pra Ricardo nada tá bom. A mãe disse-lhe ainda que se não estiver satisfeitopode ir ver a sua mãe ejicar com ela. De fato, ano passado, Ricardo foi com a irmã passar as férias na casa da mãe (biológica). Voltou após o primeiro dia, reclamando que lá não tinha nada: nem luz elétrica, nem um lençol para ele dormir. Fala para a mãe (adotiva) que ela é a sua mãe.

Ricardo admite que a mãe trata todos os filhos do mesmojeito, mas se sente diferente, inferiorizado, apesar de o pai dizer que isso é besteira. Afirma que deve tudo que tem aos pais adotivos e que eles lhe dão carinho, mas sente-se inferiorizado porque na rua vê que todos têm pai e mãe. Acha que não tinha direito de ter nascido — não devia nascer porque não é certo. Completa: minha mãe não era casada, teve relações com um homem antes do casa- mento e isso não é certo. Eles erraram e eu nasci. Quando a analista põe em dúvida seus conceitos de certo e errado, responde: se Deus acha errado, como pode eu, que não sou nada perante ele, achar certo?

O adolescente é muito ligado à religião dos pais. Estuda para preparar o discurso 2, um dos níveis de discurso que deve ser proferido pelos estudantes, no salão da igreja, a cada 2 meses. Quer chegar ao discurso 4, que é para assistentes. Pelas regras da sua religião o batismo não se dá ao nascer e Ricardo deve preparar-se para recebê-lo, mas ainda tem pecados demais: falo palavrões, às vezes — só merda —, mas preciso melhorar para poder ser batizado. Prefere a companhia das garotas pois os garotos falam muitas bobagens sobre sexo. Quer ter um discurso bonito e consistente para falar com as garotas. A mãe de Ricardo admite que na igreja ele é outra pessoa: responsável, solícito, educado. Ela costumava ajudá-lo a fazer os discursos, mas agora ele quer fazê-los sozinho.

Ricardo costumava vir às entrevistas trajando um traje de terapia — calça social e camisa social de seda, sempre a mesma. Só após certo tempo, quando já está mais à vontade com a analista, passa a vestir-se de um jeito

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mais adolescente. Numa sessão, em que chega de boné, reclama que a mãe o lembrou de retirar o boné ao entrar na sala: não erapreciso, eu sei me comportar, vou ser um industrial, um empresário com muito dinheiro... Aos poucos, presente e futuro se confundem e Ricardo fala como se suas fantasias já estivessem realizadas, incluindo as amorosas: ... e aí ela pegou minha mão e me deu um beijo. Quando é questionado sobre o que sentiu, admite: mas é um sonho. Em outra sessão retorna com o assunto garotas: são tantas as garotas lindas que querem namorar comigo que fico enjoado. Gosto de mulher, mas demais enjoa... elas me agarram, beijam, me esperam até na porta de casa. Quando a analista começa a questionar, delicadamente, suas histórias, Ricardo desconversa, muda de assunto e depois fica em silêncio.

Alguns meses após o episódio que o levou à emergência psiquiátrica acontece um outro incidente com Ricardo: foi passar o fim de semana fora, com outros parentes jovens. Uma prima o repreendeu rispidamente por comer a comida toda. Ele reagiu com indignação pois não podia deixar uma mulher bater em mim, eu sou homem, mais forte. Estava nervoso e gritei com ela, veio o irmão dela e disse que se eu botasse a mão nela ia me enfiar a po... (como é seu hábito, diz apenas a primeira sílaba do palavrão). Eu disse vem, qualé? As informações sobre o que ocorreu depois são truncadas, mas parece que a prima acalmou a situação e Ricardo regressou à casa antes dos demais.

Desde esse incidente Ricardo está muito agitado. Durante a sessão fala sem parar, ignora as intervenções da analista, mistura os assuntos, quando sentado mexe as pernas incessantemente: por que ela acha eu chato (se refere a uma colega)? Só pode ser porque eu sou o mais inteligente da turma, o mais capaz... ela deve achar eu metido porque sou o único que levanto e respondo todas as perguntas, lá na frente. Volta ao conflito com a prima: eu fui sentar ao lado dela e ela tomou um susto, virou o rosto e eu falei o que foi (mostra uma atitude agressiva)... Só porque um cara não quis lavar a louça ela foi logo batendo, dando tapas nas costas... comigo não, eu não admito. Imagina mulher gritando com um homem, me batendo. Se ela sabe que sou mais forte, só se quer apanhar... Na minha sala querem que eu seja o representante, mas eu não quero... vira política e é errado. Vou ter que tomar conta da turma, posso fazer isso porque sou o mais responsável, mais capacitado. Mas ter que aturar as garotas falando falando no meu ouvido eu não quero. Tô cheio disso, ainda mais que elas me abandonaram. Conta que todas as garotas que viviam dando em cirna dele

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sumiram. Diz que tem enchido a cara: hoje os caras vão passar lá pra gente (faz o gesto com o polegar em direção à boca que indica beber)... você entendeu? Outro dia tomei um porre e caí bêbado, minha mãe só colocou uma almofada pra mim botar a cabeça.

A psiquiatra que atende Ricardo interroga-se sobre seu discurso fantasioso (fabulação, delírio?) e preocupa-se com a agressividade que ele exibe em algumas ocasiões. O adolescente reclama com a analista que o pai e a médica dizem que deve descer do avião — numa referência à pretensa viagem ao exterior que faria com seu instrutor da igreja. Está irritado porque não acreditam que vai conseguir. Fala do ódio aos adultos que lhe dizem que tudo é impossível, achando que eles estão cansados da vida, mas eu ainda tenho esperança. Mostra um bilhete que recebeu de uma colega, que escreve que ele é 100% e comenta: não sou tudo isso que está escrito, só jeová é 100%.

Ricardo está preocupado com as críticas que recebe sobre seu comportamento infantil. Compara-se com a irmã que sai todos os dias e diz que é diferente: sou muito caseiro, mais solitário. Seu primo lhe deu uma bronca porque ele só fica brincando com crianças menores —faz besteiras, não sabe se comportar como homem! Eu sou homem mas não me comporto, não ajo, não penso como homem. Eu sei que eles têm razão, que eu tenho que mudar, mas eu ainda ajo como criança. Minha mãe diz que é pra eu sair da barra da sua saia, ir falar com os jovens, ficar com os jovens. A analista pergunta se ele quer sair da barra da saia da mãe, ele ri e responde que quer sim mas não sabe como.

Em certo sentido todos os adolescentes estão na situação de Ricardo, são adotados, pois o nascimento biológico não dá garantias sobre o registro simbólico. A filiação, que é essencialmente simbólica, deve dar indicações mínimas — já descrevi a precariedade dessas indicações na sociedade individualista — sobre quem é o sujeito, sobretudo durante a adolescência, esse segundo nascimento, nas palavras de Rousseau.

Frente à requisição de tornar-se um indivíduo, no sentido que já delimitei (42), presentificando a sua herança paterna, o adolescente

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(42) Principalmente quanto à questão da filiação na adolescência, ver os esclarecimentos do capítulo Identidade e identificação, onde comento aspectos da Novela familiar do neurótico e a intimação do Fausto: o que hás herdado de teus pais, Adquire para que o possuas...

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Defronta-se com as vicissitudes do ideal. A sua posição enquanto indivíduo num campo sócio-simbólico deve ser assinalada pela orientação ao ideal, compreendido aqui como Ideal-do-eu. Ricardo tem dificuldades para conciliar as exigências que recaem sobre ele com as do ideal que carrega, o que gera respostas sintomáticas. Com a adolescência as exigências pulsionais ou são articuladas pelas aspirações desejantes, ou apresentam-se como terríveis mandatos do supereu.

A dificuldade do adolescente em continuar no lugar que ocupava junto à mãe, como o seu falo imaginário — sair da barra da saia da mãe —, faz com que tenha que lidar com sua falta e a errância do desejo. Reabre-se o conflito edípico, tornando-se válidas, para Ricardo, as observações de Freud (1923): se o eu não logrou dominar bem o complexo de Édipo, o investimento energético deste, proveniente do isso, retomará sua ação eficaz na formação reativa do ideal-do-eu (p. 40). A culpa, essa companheira incômoda do desejo, liga- se com o sentimento de inferioridade: no registro moral a culpa, no plano erótico a inferioridade (Freud, 1933, p. 61).

Ricardo se declara filho do erro — não devia nascer porque não é certo — e explicita: minha mãe não era casada, teve relações com um homem antes do casamento e isso não é certo. Eles erraram e eu nasci. Quando seus conceitos de certo e errado são questionados, responde: se Deus acha errado, como pode eu, que não sou nada perante ele, achar certo? Deus, como representante da nostalgia pelo pai idealizado, está presente no discurso do adolescente atualizando as considerações de Freud (1923) sobre o sentimento de insuficiência: o juízo acerca da própria insuficiência na comparação do eu com seu ideal dá como resultado o sentimento religioso da humilhação, que o crente invoca em sua nostalgia (p. 38).

Quando se podia esperar uma reação exultante de Ricardo ao receber o bilhete em que uma garota confirma, de alguma forma, suas fantasias de valor — Você é 100% — ele contesta: não sou tudo isso que está escrito, só Jeová é 100%. O enaltecimento do Pai-Ideal se acompanha de uma desvalorização do sujeito, para o qual o acesso à mulher implica em alcançar um ideal de homem que lhe estaria vedado —Eu sou homem mas não me comporto, não ajo, não penso como homem.

As crises de Ricardo são desencadeadas por situações em que é criticado por mulheres significativas — a mãe, a prima mais velha. Nessas

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ocasiões atualizam-se traumatismos primitivos — a incapacidade da mãe em criá-lo — e coloca-se em jogo sua condição de homem — comigo não, eu não admito. Imagina mulher gritando com um homem, me batendo. Seu comporta- mento agressivo está ligado ao que Lacan (1979) chama figura feroz do supereu — ... figura que podemos ligar aos traumatismos primitivos, sejam eles quaisforem, que a criança sofreu. (p. 123). Na primeira crise, que o levou à agressão e à emergência psiquiátrica, a busca de Ricardo por um caminho, entre o sublimatório e o idealizado, através da religião, foi cortado pela mãe — que nega seu desejo de dirigir os estudos bíblicos, alegando que ele não está pronto para a tarefa e enumerando suas falhas.

A versão do próprio adolescente sobre o início da sua doença dos nervos testemunha como o sucesso, em seu caso, confluiria no real com a morte — Eu tenho amor à vida e por isso não vou mais ser piloto. Senna morreu e eu não quero morrer. Só lhe resta o refúgio no mundo de fantasias, único caminho não barrado pela culpa e pelo sentimento de inferioridade, único acesso às mulheres e ao sucesso. Nesse sentido não parece ultrapassada a concepção freudiana pela qual na neurose a realidade indesejada é substituída por outra, mais de acordo com o desejo, o mundo dafantasia (Freud, 1924, pp. 196/197). Mas, como ;á abordei, não é essa a perda da realidade que caracteriza a psicose.

DIAGNÓSTICO DE (S)ESTRUTURA NA ADOLESCÊNCIA

La théorie, cest bon, mais ça nempêche pas dexister.

Charcot, citado por Freud (1893)

Abandonado o recurso à terceira via — Borderline — continuaria em aberto a questão das relações entre psicose e adolescência. Nesse ponto cabe convocar, para esclarecer essas relações, a abordagem psicanalítica anteriormente exposta. Não posso negar que o referencial teórico que es- colhi para respaldar o processo diagnóstico na adolescência nem sempre traz respostas inequívocas sobre as fronteiras entre os quadros clínicos. Como já tive ocasião de assinalar, a psicanálise não é uma espécie de teoria

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psiquiátrica mais sutil e seguindo os seus rumos vamos nos deparar com certas dificuldades, como as que Freud aponta ao referir-se às aplicações da psicanálise. Ressalvando que as estatísticas sobre os resultados do trabalho analítico melhorariam se não fossem tomados em tratamento esta- dos narcísicos ou psicóticos, Freud (1933) localiza no diagnóstico inicial as dificuldades para um critério mais seguro:

Nossos diagnósticos se obtêm, a miúdo, só a posteriori, são do tipo de prova de bruxaria aplicada por aquele rei escocês acerca de quem li em Victor Hugo. Este rei afirmava possuir um método infalível para distinguir uma bruxa. Fazia com que fosse jogada numa panela de água fervente, e depois provava o caldo. Depois disso podia dizer: Era uma bruxa, ou então: Não, não era. Algo semelhante acontece conosco, só que somos nós mesmos os prejudicados. Não podemos formular um juízo sobre os pacientes que vêm ao tratamento, nem sobre os candidatos que demandam formação antes de havê-los estudado analiticamente durante semanas ou alguns meses. Assim, de fato, recebemos a todos os gatos num mesmo saco. (Novas conferências de introdução à Psicanálise. Conferência 34, pp. 143/144)

Mesmo mergulhado no trabalho de discernir a estrutura psicótica da neurótica, Lacan (1981) também aponta para as dificuldades diagnósticas a serem enfrentadas: nada se parece tanto a uma sintomatologia neurótica que uma sintomatologia pré-psicótica (p. 216). Esta afirmação não o afasta da tarefa de discernir as fronteiras e tampouco faz com que se prenda na solução fácil da pré-psicose como uma espécie de estrutura intermediária.

O diagnóstico estrutural na adolescência traz algumas questões que supõem a retomada da reflexão teórica, sob pena de um indesejável afasta- mento entre esta e os fatos clínicos. O conceito de estrutura não deve tornar-se uma camisa-de-força teórica, de consequências quase tão nefastas como as da camisa que outrora tolhia o corpo dos pacientes psiquiátricos. A noção de estrutura como um grupo de elementos formando um conjunto covariante (Lacan, 1981, p. 207) vai permitir pensar o diagnóstico incluindo o analista como um dos elementos desse conjunto. No conjunto estabelecido na transferência identificam-se os lugares ocupados pelo paciente e pelo analista, que são elementos da estrutura. Dessa forma o diagnóstico

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não é formulado, como para a psiquiatria, supondo um observador externo que julga a posição de um sujeito a ser diagnosticado.

Não cabe no presente contexto aprofundar as querelas que envolvem estruturalistas e anti-estruturalistas e, mesmo, deslindar as diversas questões próprias do campo do estruturalismo. Falo em diagnóstico estrutural porque julgo útil o conceito no lidar com o emaranhado de dados clínicos para os quais, ou optamos por dar uma ordenação ou a isso renunciamos definitivamente, seguindo as observações de Lima Barreto (43). Vale entretanto reproduzir o comentário de Derrida (1976), que se refere aos ensaios estruturalistas de Lévi-Strauss como sempre abertos a mudanças trazidas por novos dados: os esquemas estruturais são sempre propostos como hipóteses resultantes de uma quantidade finita de informações e sujeitas à prova da experiência. (p. 271)

Vou examinar algumas hipóteses que permitem o uso do conceito de foraclusão, pelo qual baseio o diagnóstico estrutural de psicose, sem violentar os fatos colhidos pela minha própria experiência clínica com adolescentes.

Como pretendo abordar no próximo capítulo, a estrutura psicótica só pode ser avaliada no a posteriori, após a ação de um fator desencadeante— o imperativo de situar-se em relação ao Nome-do-Pai. Como pensar, então, numa estrutura que não presentifica seus efeitos? Calligaris (1989) fornece elementos para a resposta ao considerar que o conceito de foraclusão implica num tarde demais: um prazo perdido para o exercício de um direito; enquanto não decorre o prazo não haveria a inevitabilidade da foraclusão. Assim se expressa Calligaris:

Quando falamos que a construção de uma estrutura precisa de um tempo, de fato queremos dizer que precisa de tempos. Eu conto quatro pelo menos. Primeiro, uma disposição já inscrita no Outro, e que por sua vez já precisa de uma sucessão de tempos lógicos para ser eficiente. Segundo, algo relativo à primeira relação com o Outro dito materno . Terceiro, o tempo do Édipo. Quarto, o período de latência e a saída na puberdade. Eu não falaria propriamente de estruturação neurótica ou psicótica que seja, antes deste

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(43) Citadas no capítulo primeiro.

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quarto tempo. Portanto, quando falo de psicótico fora de crise, que nunca encontrou crise, quero dizer que nunca encontrou desde este quarto tempo que sanciona a sua estrutura. Deste ponto de vista, poderíamos dizer que só se pode falar propriamente de forclusão da função paterna como efeito de uma crise depois do quarto tempo. (p. 67. O grifo é de minha responsabilidade.)

Para destacar a influência da puberdade na expressão de uma estrutura clínica retomo o diálogo de Freud com Lacan, conectando o ponto de vista estrutural com o econômico. No artigo de 1937 (Análise terminável e interminável) Freud questiona-se sobre a eficácia do tratamento psicanalítico e a durabilidade dos seus efeitos. Expõe 05 fatores que deixariam em aberto o resultado final de uma análise e destaca o fator quantitativo, a intensidade pulsional, como capaz de desestabilizar o sujeito:

Por duas vezes no curso do desenvolvimento individual emergem reforços consideráveis de certas pulsões: durante a puberdade e, na mulher, na ocasião da menopausa. Em nada nos surpreende que pessoas que antes não eram neuróticas passem a ser nessas épocas. O domínio das pulsões que haviam conseguido quando essas eram de menor intensidadefracassa agora com o seu reforço. As repressões se comportam como diques contra o esforço de assalto (Andrang) das águas. O mesmo que produzem aqueles reforços pulsionais que podem sobrevir de maneira irregular em qualquer outra época da vida por obra de influxos acidentais. Chega-se a reforços pulsionais em virtude de novos traumas, frustrações impostas, influxos colaterais recíprocos das pulsões. O resultado é em todos os casos o mesmo e confirma o poder incontrastável dofator quantitativo na causa da enfermidade. (p. 229)

Freud cita especificamente a puberdade como um dos momentos- chaves do recrudescimento das pulsões. Pensando em puberdade no plano das pulsões, não abandonamos o conceito mais amplo de adolescência, situado no campo social. É justamente nesse cruzamento entre o pulsional, quantitativo, e o que deve ser inscrito no simbólico que localizo a questão estrutural. A exigência pulsional, exigência de inscrição da pulsão na ordem simbólica — o real que não cessa de não se inscrever —, encontra-se com as demandas feitas ao sujeito adolescente, a partir do campo do Outro, para que tome a palavra como indivíduo.

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Em A perda da realidade na neurose e napsicose (1924) Freud comenta como o inundo da fantasia constitui uma reserva de onde a neurose toma o material para suas neoformações de desejo, e comumente o faz, pelo caminho da regressão, a uma pré-história real mais satisfatória (p. 197). Esse é o processo pelo qual, na neurose, ocorre o afastamento do fragmento da realidade que traz de volta a exigência pulsional, antes reprimida, e ao mesmo tempo permite a obtenção de alguma forma de satisfação dessa exigência. Haveria, então, semelhanças e diferenças nos mecanismos da neurose e da psicose, conforme Freud segue esclarecendo:

Pouco caberia duvidar de que o mundo da fantasia desempenha na psicose o mesmo papel, de que também nela constitui a câmara do tesouro de onde se recolhe o material ou o modelo para edificar a nova realidade. Porém o novo mundo exterior, fantástico, da psicose quer substituir a realidade exterior; pelo contrário, o da neurose gosta de apoiar-se, como o jogo das crianças, num fragmento da realidade — diverso daquele contra o qual foi preciso defender-se — emprestando a ele um significado particular e um sentido secreto, que, de maneira nem sempre de todo acertada, chamamos simbólico. Assim, para ambas — neurose e psicose — não só conta o problema da perda da realidade, senão o de um substituto da realidade. (p. 197 — grifos de Freud)

Podemos compreender uma dificuldade adicional do diagnóstico na adolescência, pois o conflito psíquico nessa fase toma freqüentemente o caminho da regressão, indo ao encontro daquele mundo da fantasia de que Freud nos fala como o caminho percorrido pela neurose. Temporariamente esse caminho pode ser confundido com o da psicose, que também recorre ao mundo da fantasia, como câmara do tesouro, de onde pode retirar material para a constituição da nova realidade.

O caso de Nilo (17 anos) pode ilustrar bem esse tipo de confusão. O próprio adolescente conta que seus problemas começaram há mais ou me- nos um ano, depois que teve uma séria crise de amigdalite que o afastou da escola por 6 meses, gerando dificuldades escolares. Estudava muito — diz — tentando recuperar tudo, até que não aguentei, era muita exigência... minha cabeça ficou confusa, não dava para mais nada... acabei sendo reprovado. Acha que antes era tímido, vivia de casa para a escola, agora quer conversar, sair, eu quero viver.

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Nilo queixa-se dos pais: me vigiam o tempo todo, mandam as pessoas me olharem, verem o que estou fazendo, não me deixam sair de casa, querem me manter preso, até a chave da casa me tomaram. Diz que não ficará na mesma sala que os pais para a entrevista. Nilo chama atenção pelo seu aspecto descuidado, sujo, emagrecido, mal-cheiroso. Parece indiferente ao seu aspecto e mostra-se irritado e agressivo.

A mãe de N. refere-se a ele como o meu garoto e o pai afirma que o filhinho era tão diferente.

A mãe pergunta se é para contar tudo e, diante de uma resposta afirmativa, fala sobre aspectos da crise de Nilo que ela havia ocultado até do pai: o adolescente se recusa a tomar banho, urina em qualquer lugar — no tapete, pela janela —, coloca fezes dentro dos bolsos, come no chão com as mãos, anda de bicicleta carregando fezes enroladas em roupas sujas, guarda restos de comida nos armários do quarto e embaixo da cama. Passa a tarde deitado no chão do quintal com a cabeça dentro da casinha de cachorro.

Retomando sua narrativa, o adolescente diz: há dois anos eu era um garoto estudioso, educado5 não tinha amigos, só assistia TV e vivia para os estudos. Dormia, estudava, acordava preocupado com os afazeres da escola até que comecei a ter febre, diagnosticaram amigdalite e fiquei 6 meses sem ir à escola. Passei a ser discriminado na escola. Era estranho, eu ficava sempre só nos trabalhos de grupo, acho que é porque eu mudei muito e eles não me reconhecem. Eles inventam que passo o dia no telefone, ligando para casa mas não é verdade. Colocaram na minha agenda: só entra com o responsável. O responsável assinou e eu entrei na escola. A situação foi piorando, eu cresci, cresci e fui parar em Minas. Briguei com os responsáveis (os pais)porque eles andam falando de mim, dizem que tenho o diabo no corpo, que sou o Satanás... Eles fazem isso tudo comigo, eu me defendo, ou você acha que eu ia deixar alguém arrancar minha cabeça, meu braço, o outro, minha perna, a outra, o pé, o outro pé? A coisa tá muito fria, é assim que eu me sinto... A minha voz vem mudando muito, eu acho que uma corda vocal minha quebrou... Eu vivo sem paz, me vigiam o dia todo, ficam rindo de mim, eu pergunto: tem algum palhaço aqui? Tá rindo de quê? Eles me olham diferente.

Nilo continua contando episódios que aparentam ser da ordem da psicose. Fala sobre alguns fatos que parecem estar ligados ao início dos

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seus problemas: após um acidente de automóvel que meu pai sofreu, necessitando ficar internado, um cachorro pulou o portão de casa e espalhou o lixo. Eu já achei estranho, aí meu tio chegou e eu senti que ele queria dizer que eu queria comer lixo. Eu acho que era isso que o cachorro estava querendo dizer que ia acontecer, eu fui dormir na casa da minha tia. Os pais sofreram, de fato, um acidente de automóvel que motivou uma breve internação do pai.

Durante o atendimento Nilo apresenta sensível melhora e, para surpresa da psiquiatra que o atendia, a mãe conta que ele joga fora os remédios que, supostamente, estaria tomando. Não sai de casa e justifica-se pelo fato de os pais não lhe darem a chave de casa, apesar de que eles não trancam a porta. Nilo cada vez expressa mais claramente sua irritação com os pais: eu quero que um assaltante entre na minha casa e os mate, só assim eu me livro deles... eu não tenho coragem, não sou eu que vou matá-los, mas que eu quero que outro faça, eu quero, alguém desconhecido.

Os pais enfatizam o quanto sair de casa é perigoso: os vizinhos são ameaçadores — gente de morro, matam, roubam. Querem que as relações com o filho voltem a ser como antes, que ele volte a ser um bom garoto. Nilo responde, extremamente agressivo, que os odeia e que não quer mais o amor deles.

Chama atenção a impossibilidade de se desenvolver o processo de separação da família inerente à adolescência. O contato de Nilo com as fezes (se sujando) parece estar relacionado ao movimento regressivo que fazia apelo aos pais acidentados e temporariamente incapazes. A súbita ameaça de perda dos pais parece ter desencadeado um movimento regressivo no filho, extremamente dependente e infantilizado. O supereu parece perder seu caráter internalizado e impessoal, recuando para uma situação em que a mãe o personificava, cuidando do filho e o vigiando todo o tempo.

Nilo fala freqüentemente sobre as dificuldades em lidar com os pais: eu não sei... parece que a palavra não é impossível de dizer, eu acabo fazendo o que eles querem. Chora muito e sua expressão facial é infantil. Ela (a mãe) entra no banheiro, que está sem chave, e me diz: toma banho direitinho que eu estou olhando, quero ver se você faz as coisas direitinho mesmo. Nilo, como já assinalei, tem 17 anos, cerca de 1, 80m e, depois de recuperar-se do período de emagrecimento, pesa mais de 90 kg. Apesar do aspecto físico de adolescente, Nilo encontra-se numa situação que mimetiza a do estágio

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anal: oposição aos cuidados maternos e demanda dos mesmos. O contexto familiar favorece a permanência da situação, pois o casal não admite o crescimento do filho e constrói toda sua relação em torno desse garoto que deve ser cuidado.

Nesse caso o diagnóstico na transferência, embora se revele frutífero, também pode dar margem a dúvidas quanto ao diagnóstico estrutural. Em determinada sessão Nilo pergunta à analista: você vai lá no meu bairro mudar as coisas, o ambiente? A analista pede um melhor esclarecimento e Nilo completa: o que eu falo aqui... me queixo, na semana seguinte melhora, só pode ser você que vai lá, pessoalmente ou em espírito, não sei... Você sabe ir até o meu bairro? A resposta negativa da analista parece convencer o adolescente de que ela não vai, de fato, ao seu bairro. Nilo tem feito progressos, quanto à sua independência, como sair com uma amiga e fazer compras.

Em outra sessão Nilo comenta: eu até pensei que você ia lá no bairro, mas eu vi que é impossível acontecer isso, se algo mudou foi por minha causa, e você não tem nada com isso... No ano que vem não quero estar aqui, quero reto- mar os estudos para ser veterinário, quero tratar de bicho que não fala.

De fato Nilo exige marcar uma data para o fim do tratamento. Avisa que não virá na próxima sessão, para ver como se sente e se vir aqui tem me feito mal. Quer saber — só pra saber — se nesse dia a terapeuta estará no serviço. Diz que pode ser que resolva vir, mas que é muito difícil. Em outra ocasião quer saber quem paga à terapeuta, quanto ganha — deve ser meu pai ou o seguro saúde.

Nilo, apesar da suspeita sobre o alcance dos poderes da analista, questiona esses poderes e o desejo que os alimenta (enquanto desejo do Outro). Seu delírio não tem a condição de certeza insofismável no saber do Outro. Interroga-se sobre o ganho da analista — afinal o que ela quer dele? A analista é reconhecida como um sujeito marcado pela falta, submetido à castração.

Na última sessão o paciente se despede sorrindo e diz que se lembrará da terapeuta como o urubu mexendo no lixo! A separação, que reconduz Nilo à necessidade de procurar sozinho suas próprias respostas, traz algo de insuportável. Nilo recorre ao significante que já apareceu durante a crise: o lixo. Apesar de toda conotação depreciativa envolvida na imagem da ave de rapina que revolve a sujeira, há um ponto de articulação entre o

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sujeito e o Outro, uma fantasia que está na base dos bizarros sintomas do período crítico.

A separação aponta para o insuportável pois está diretamente ligada ao ponto de falta do desejo materno (44). Lacan (1979) indica que o primeiro objeto proposto pelo sujeito para interrogar essa falta, cujo objeto é desconhecido, é sua própria morte ou desaparecimento — Pode ele [o Outro] me perder? (p. 203). O contexto familiar de Nilo dificulta a superação dessa questão que conjuga a falta no Outro com a ameaça de desaparecimento do sujeito. Conforme anteriormente descrevi, a adolescência aporta uma pressão no sentido da ruptura com a vida familiar, o que atualiza essa ameaça.

O caso de Elizabete (15 anos) serve de contraponto ao de Nilo no que tange à tipicidade da estrutura psicótica na adolescência.

Aos 12 anos Elizabete torna-se alvo de chacotas dos colegas de colégio pois passa a apresentar um comportamento muito retraído, não falando quase nada, seu rendimento escolar decresce, repete a 7a série e acaba deixando a escola. Antes era alegre e extrovertida. Conta, na primeira entrevista com a analista, sobre as paredes invisíveis da sua casa: Joana — uma vizinha? — pode vê-la através dessas paredes. Tentou saber como seria possível ser vista, colocando-se na casa de Joana, mas não conseguiu ver nada. Fecha as janelas e toma banho no escuro e com roupas para não ser vista nua. Escuta vozes que falam mal dela, implicam, fica nervosa, bate as janelas quebrando os vidros.

Os pais de Elizabete — que tem 3 irmãos mais novos — mantêm desavenças religiosas: o pai é espírita e a mãe protestante. Após a doença da filha aumentam as desavenças no casal e o pai procura explicar a doença da filha como um mal espiritual. O pai sempre que fala procura autorizar-se a partir de um texto ou de uma palavra oriunda da religião. A mãe parece desqualificar as coisas que o pai fala com veladas expressões de desdém.

O olhar do Outro ganha, para essa adolescente, consistência e personifica-se, é real — o olhar de Joana. É como se Elizabete estivesse no centro do caldeirão da bruxa, que vigia o mundo pela sopa desse caldeirão — uma forma de imaginarizar o olhar de um Outro onipotente. Um ano após

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(44) Desenvolvi mais extensamente a questão da separação, enquanto conceito Iacaniano, no capítulo O desafio epistemológico da experiência psicótica.

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o início do atendimento (psicanalítico, familiar e psicofarmacoterápico) Elizabete volta à escola. O tratamento parece propiciar um esvaziamento do gozo do Outro, na medida em que há um endereçamento da palavra da paciente. A fala da paciente pode ser pensada como a parede que ela não havia conseguido construir entre ela e o olhar do Outro.

Elizabete diz que tem muito medo de ser chamada, isto é, de ser convocada pela professora a ir ao quadro-negro. Vai ao colégio em companhia de uma vizinha, sai de casa para festas e corre na praia. Faz uma referência ao retorno das vozes: foi convidada, por vozes que reconhece como pertencentes ao grupo Dominó, para ir a um show. O pai não permitiu. As vozes retornam modificadas: são menos frequentes e deixam de ser persecutórias, passando a fazer um convite que, mesmo sendo uma alucinação, deixa uma margem de resposta ao sujeito: pode ir ou não ao show. O medo de ser chamada ao quadro-negro pode derivar do temor de ter que responder a um Outro que ela supõe não barrado, de uma onipotência assustadora. Este Outro, entretanto, parece não ser sempre persecutório como no exemplo do grupo Dominó: aponta em direção ao caminho da erotomania — o Outro me ama, Ele me quer.

Elizabete vai à escola por pouco tempo. Acentua-se o medo de ser chamada ao quadro pela professora e Elizabete recusa-se a continuar freqüentando as aulas. Passa a ter medo de sair de casa. Para de comer regularmente porque as vozes dizem que deve fazer penitência. Tem dificuldade em vir aos atendimentos. Quando vem não quer separar-se da mãe — inclusive passou a dormir com ela —, parece muito angustiada e não fala, olhando constantemente para os lados, em atitude alucinatória.

As mudanças em Elizabete podem estar relacionadas com a interrupção do atendimento por 3 semanas — férias da terapeuta — e/ou a sus- pensão da medicação — por incentivo do pai, que não achava mais necessário. Chama a atenção a participação do pai, nesse contexto: recomendou a interrupção da medicação e após a piora parece afastar-se de qualquer responsabilidade em relação aos problemas da filha, não vem mais aos atendimentos.

Após 3 anos de atendimento, o que predomina em Elizabete é um estado de esvaziamento: calada e sempre dentro de casa, realiza algumas poucas tarefas domésticas. A analista pergunta po rjoana e a paciente responde que joana mudou, as portas estão frechadas, a casa está vazia.

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No 4° ano de atendimento Elizabete passa por um período de piora: a mãe reclama que ela se irrita em casa e quebra coisas. Numa sessão muda rapidamente a expressão, do riso para o sério. Conta que são as vozes que estão rindo, rindo dela. Faz sinais que parecem destinados a interromper a interferência das vozes. O volume de sua voz começa a diminuir, tornando-se quase inaudível. O fato das vozes só rirem e não significarem nada — nada na direção de uma articulação delirante — parece indicar um pior prognóstico.

Na sessão seguinte a analista fica sabendo que as vozes agora mandam parar de comer, não falar e não tomar banho. A mãe confirma que Elizabete não faz quase nada sozinha. Não pode ver televisão porque as vozes atrapalham. São vozes de artistas que estão na televisão. A paciente falta às sessões. Quando retorna, a mãe conta que Elizabete tentou jogar um objeto na televisão e depois jogou água, estragando o aparelho. Na sua sessão Elizabete fala sobre a destruição da televisão, parece mais segura, fala mais alto e tem saído com a mãe para ir à igreja. Ao término da sessão volta a dar dois beijos na terapeuta, o que há muito não fazia.

Pode-se acompanhar um processo evolutivo no comportamento de Elizabete: as vozes, antes anônimas, são personificadas nos artistas; Elizabete reage contra a televisão que os artistas gozadores usavam para atingi-la. Após este episódio parece sair da situação de puro objeto de gozo, dando alguma significação ao que se passa com ela — as alucinações — e reassumindo uma posição de sujeito.

Após duas semanas de interrupção — por impossibilidade de comparecimento da analista — Elizabete retorna pior: quase não fala, alegando que as vozes não querem que ela fale. Mais uma vez aparece a relação entre a interrupção do contato com a analista e o recrudescimento das manifestações psicóticas mais próximas ao negativismo. Nesse caso podem ser testemunhados o alcance e o limite da atuação do analista que se dispõe a ajudar o psicótico a reconstruir sua verdade particular. As forças que encaminham o indivíduo na direção da destituição subjetiva sobrepujam às vezes qualquer possibilidade de articulação de um sentido. Assinalo também o papel preponderante assumido pelas alucinações nesse caso. Na medida em que só há uma precária rearticulação do sujeito que poderia ser melhor promovida por um delírio mais sistematizado, os fenômenos

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alucinatórios permanecem ativos, presentificando o que do real padece de inscrição no simbólico.

Freud (1937) em Construções na análise lança a hipótese de que nos fenômenos alucinatórios retorne algo vivenciado em idade precoce e logo esquecido, algo que a criança viu ou ouviu na época em que quase não era capaz de linguagem, e que agora força seu acesso à consciência... Freud prossegue nessa linha de raciocínio abordando as formações delirantes que se articulam às alucinações e indicando que esses delírios talvez não sejam tão independentes, como ordinariamente supúnhamos, da pulsão emergente do inconsciente e do retorno do reprimido (p. 268). Reaparece então a concepção freudiana da verdade histórico-vivencial presente nos delírios, à qual já me referi — o grão de verdade, oriundo de uma fonte infantil, de onde surgiria a crença tão arraigada no delírio. As formações delirantes seriam para Freud equivalentes das construções edificadas pela análise. Ambas têm como função restaurar fragmentos de realidade desaparecidos na pré-história do sujeito.

Essas idéias freudianas e os fatos vindos da clínica com adolescentes permitem pensar que os fenômenos psicóticos apresentam um grau de complexidade que não deve ser subestimado. O próprio Freud escreve na sua obra inconclusa Esquema da psicanálise (1940): o problema da psicose seria simples e transparente, se o eu se destacasse totalmente da realidade objetiva sem deixar rastos. Mas, ao que parece, isso é uma coisa que acontece raramente, talvez nunca. (p. 203)

A foraclusão não deve ser tomada como um apagamento definitivo e absoluto de toda possibilidade do adolescente de lidar com questões como a castração, a filiação e a diferença sexual. Apesar de não admitir a realidade da castração, o sujeito pode ter registros fragmentários acerca de situações que exigiam a inscrição da castração. Uma vez reatualizadas essas exigências, fazendo eclodir a psicose, voltariam do real fragmentos significantes a serem, possivelmente, rearticulados no delírio. Calligaris (1989) afirma que o paciente dispõe de significantes para falar de seu pai, da sua família, o problema é que estes significantes não têm a função de uma amarragem central como uma metáfora neurótica (p. 44).

Nasio (1991) apresenta a concepção da foraclusão como atingindo uma realidade local: tal realidade constituída pelo acontecimentof orclusivo não será incompatível com uma outra realidade de consistência significante. Elas não

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são incompatíveis, nem em uma sucessão temporal, nem em uma coexistência virtual. (p. 85)

Nos dois casos que relato a seguir podem ser verificadas tentativas de construção de sentido, em adolescentes psicóticos, mesmo na falta da demarcação gerada pelo Nome-do-Pai, que nos neuróticos é o fio condutor de toda a produção de sentido.

Um adolescente de 15 anos repete nas entrevistas histórias confusas que giram em torno da sua idade e da necessidade de tirar seus documentos. Quando a analista propõe que escreva o nome do pai e da mãe — o assunto era a filiação — ele compara seu nome com o nome do pai e diz que a única diferença é o Filho — na realidade os nomes do pai e do filho são diferentes. Ele escreve Vilho — que parece condensar Filho e Vila, seu último sobrenome. Diz que é escravo: de quem? Do chefão. Quem é o chefão? Deus. Estou nas mãos de Deus. Vou manter meu sangue limpo.

Deílson tem um irmão chamado Dílson e estabelece quanto aos nomes uma diferença singular: diz que como seu nome tem um e é mais fácil virar mulher.

Dois temas chaves: o da filiação e o da mudança de sexo (tornar-se mulher). A filiação simbólica problemática parece ser buscada no nível da concretização do significante, num esboço de metáfora/condensação (Filho/Vila = Vilho). A questão da feminização, recorrente na psicose, aparece aqui no contraste Deílson/Dílson — uma tentativa de dar conta da diferença sexual e uma referência ao risco da transformação em mulher.

Aluísio, de 16 anos, tenta organizar um saber sobre sua posição em relação ao sexo nos escritos que entrega ao analista (45):

Eu passei a me ver no passado. Existe uma música do Belchior em que ele fala que não foi e nem será, porque quem foi ou será não é. Conclusão: eu fui tão bem na minha infância que eu fiquei no que fui.

Outro dia eu estava olhando-me no espelho e beijei a minha boca que estava refletida nele.

Passei a ser narcisista, admirar-me no meu passado, daí é que eu acho que veio o homossexualismo, eu passei a amar outro homem, eu mesmo, mas a

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(45) Mantenho integralmente a forma original dos escritos.

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realidade é outra, existem pessoas do sexo masculino, como eu, e que são iguais como eu era, na maneira de agir.

Agora quanto aos beijos é o seguinte; o Aluísio homossexual representa o rapaz que ainda não se libertou da mãe, é feto, de dentro da barriga da mãe, é o bebê que ainda está ligado ao corpo da mãe por alguma coisa, como por exemplo: o cordão umbilical; é a criança que é menos liberta que as outras, que fica ligada a mãe; mas o sexo existe, ele tem que existir assim como existe o orgasmo portanto, esse homossexual que fica ligado a mãe, tem sexo, e sexo de uma pessoa que fica ligada a mãe dá nisso, não que eu tenha relação sexual com a minha mãe, mas é que passa a existir o sexo ao cordão umbilical.

Quem conhece a vida conhece o sexo, e por isso têm que se soltar do cordão umbilical para evitar coisas como esses beijos que eu sinto agora, a pessoa que não tiver relação sexual têm que ser padre, no caso tem que também ser adulta, pois o sexo consiste da formação do ser humano até a fase adulta. Uma pessoa que também não é padre, e não tem contato carnal de espécie alguma, trilha o caminho para ficar, completamente pirada, mesmo que pense em sexo e se masturbe. Em resumo, o ser humano é escravo do sexo, desde que não seja escravo da loucura ou padre.

Quanto aos padres, eu acho que eles não são escravos do sexo, e a explicação, está em duas frases de uma oração, creio no espírito Santo e na Santa igreja católica, e também no fato de que se não fossem reais essa duas frases como os padres conseguiriam deixar de serem escravos do sexo? sem trilharem o caminho da loucura? é querer dizer que os padres tem relação sexual. Eu acredito também que os padres não se masturbem, nem pensem em sexo, além de não terem relação sexual pois se eles se masturbassem ou pensassem em sexo não tendo relação sexual carnal, estariam trilhando o caminho da loucura. Para mim ser escravo do sexo é ter relação sexual carnal ou se masturbar, pensar em sexo e quem se masturba e pensa em sexo e não tem relação sexual carnal trilha o caminho da loucura.

As teorias de Aluísio sobre homossexualidade, narcisismo e loucura não são produto de nenhuma familiaridade com a psicanálise, exceto aquela que advém do saber inconsciente e que fez Freud comparar suas próprias doutrinas com as de Schreber.

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O que o adolescente diz sobre suas alucinações cenestésicas — os beijos que sente — apontam para as articulações freudianas de 1917 (Complemento metapsicológico a doutrina dos sonhos): a fase alucinatória da esquizofrenia não está tão bem estudada; em regra geral, parece ser de natureza mais complexa, porém no essencial responderia a uma nova tentativa de restituição que pretende devolver às representações-objeto seu investimento libidinal (p. 229). Aluísio indica a possibilidade de ser o objeto de gozo e ao mesmo tempo distanciar-se desse objeto, fugir ao congelamento da identificação ao objeto num processo de desaparecimento/reaparecimento do sujeito: voltei a sentir os beijos quando voltei a me masturbar. Acho que a mente tinha ferrugem e a masturbação tira a ferrugem... é como se o pau arranhasse a boca. Leva dois dedos aos lábios quando pergunto sobre o que pensa quando se masturba.

Se lidar com a clínica demanda um ordenamento e, segundo algum critério, um diagnóstico, no sentido da exigência do pensamento científico moderno por uma explicação estruturada do fenômeno, isso não implica em se desfazer do legado freudiano que tornou mais permeável a fronteira entre razão e desrazão, destacando a dimensão de verdade do discurso do sujeito. Por acreditar nessa dimensão é que inicio o próximo capítulo com as palavras de um adolescente ameaçado pela destituição subjetiva da psicose.

TRAVESSIA E QUEDA: O DESENCADEAMENTO DA PSICOSE NA ADOLESCÊNCIA

A adolescência é um abismo e os problemas causados na infância podem jogar a pessoa nesse abismo. Aluísio, 16 anos.

Como uma falha instalada nos momentos constitutivos do sujeito, a foraclusão do Nome-do-Pai, vem revelar-se em tempos tão diversos como nos mostra a experiência clínica? Episódios psicóticos podem surgir na infância, na adolescência ou na vida adulta: quais seriam então as circunstâncias vivenciais ligadas ao desencadeamento da psicose que dariam à adolescência uma posição destacada?

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Alguns autores como Helen Deutsch (1970), com a noção de personalidade como se, e Bychowski (1964), com a descrição da fachada obsessivo-compulsiva na esquizofrenia, apontam para a possibilidade de encobri- mento temporário da estrutura psicótica.

Lacan (1981) comenta um caso que se encaixa nas noções do mecanismo do como se: um mecanismo de compensação imaginária... do Édipo ausente. Um adolescente, não tendo como situar-se em relação ao comporta- mento que seria próprio de um homem, procura imitar as atitudes de um de seus amigos. Como por coincidência ele se interessa por uma moça pela qual o amigo havia se interessado. A psicose se desencadeia quando a moça revela-se apaixonada por ele e não pelo amigo — o elemento piloto da sua tentativa de estruturação no momento da puberdade... (p. 218). Os elementos do delírio incluem a idéia de que seu pai quer matá-lo, roubá-lo ou castrá-lo. A volta de Um pai através do delírio não teria ocorrido se sua estruturação edípica tivesse se completado, o que lhe teria dado a virilidade sob a forma, não da imagem paterna, mas do significante do nome-do-pai (p. 218).

A questão da fachada obsessivo-compulsiva que pode ocultar a psicose aparece no caso de Aluísio. Os pais notaram profundas mudanças no comportamento do filho a partir dos 12 para os 13 anos: passou a ficar mais retraído e agressivo; era bom aluno mas deixou de ir à escola, permanecendo a maior parte do tempo dentro do seu quarto; passou por um período de nojo da mãe a ponto de levantar-se quando ela sentava à mesa — a mãe relaciona esse comportamento com a primeira experiência sexual de Aluí- sio, levado ao encontro com uma prostituta pelo pai.

O mais incômodo no seu comportamento eram as manias: deve dar sempre um determinado número de passos, lava as mãos com muita frequência, os pais devem responder seguidamente a perguntas referentes a nomes próprios ligados ao nome de um tio materno morto. O nome do tio, porém, não pode ser pronunciado, assim como o do lugar em que o tio morava. Aluísio diz que ouvir é como se falasse, o que o impede, às vezes, de ouvir rádio ou ver televisão — do que gosta — pois falam, em certas ocasiões, no nome do bairro onde o tio morava. As perguntas repetidas são necessárias — segundo ele — para tirar nomes da cabeça. Reclama de músicas que não lhe saem da cabeça e que precisa juntar a outra frase: antigamente quando eu me excedia... Meu pai é o Ivo.

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O início dos problemas com Aluísio coincide com um período economicamente conturbado para a família: o pai resolveu deixar o emprego numa financeira, onde tinha um bom cargo, para trabalhar como autônomo. Fracas- sou na tentativa e não pôde recuperar seu antigo emprego. A situação financeira obriga a família a solicitar ajuda aos parentes para subsistir. O pai atribui seu fracasso à inveja de um colega que teria lhe lançado um mau olhado.

Após alguns meses de tratamento Aluísio esclarece suas manias: tenho medo do meu tio que morreu, irmão da minha mãe. Acho que ele haviafrito um exorcismo comigo. Eu fiquei chateado. Pouco depois ele morreu de acidente. Tudo que se refira a ele passou a me dar medo. Não sei se ele fiz exorcismo mesmo... mas falou no meu nome, como se eu fosse o diabo.

Traz uma explicação, por escrito, sobre a origem dos seus problemas com o tio:

Eu sempre achei o meu tio que morreu, o irmão da minha mãe mais ligado a ela, e então talvez pelo fato de que eu estava muito ligado a ela, e de que ele tinha morrido, é que eu me enrolava quanto a eu ser ou não ele; se ele estivesse vivo, eu saberia que ele não era eu, mas como ele estava morto, eu não sabia onde ele estava, e então eu passei a achar que ele poderia ser eu mesmo.

Um ano após o início do tratamento as manias começam a desaparecer. Aluísio volta a sair de casa, ir a cinemas, frequentar a casa de parentes e seu relacionamento com a família melhora. Surge, entretanto, outro problema, os beijos — sente beijos na boca e no corpo. Articula um delírio hipocondríaco e, algum tempo depois, passa a construções delirantes persecutórias.

Freud (1913), em Thtem e tabu, estabelece os pontos de contato entre a neurose obsessiva e as crenças dos povos ditos primitivos, apontando as semelhanças entre os tabus e proibições obsessivas e aquelas dos primitivos (proibição do contato — até pelo pensamento, o contágio, o cerimonial, etc). Um dos componentes mais importantes das atitudes compartilhadas por esses povos e pelos neuróticos seria a ambivalência em relação a quem está no lugar simbólico do pai (o chefe, o rei ou o pater famílias). O fio condutor da questão vai ser definido a partir do complexo edípico no qual o pai vai ocupar um lugar central, enquanto representando uma função simbólica. Para desempenhar essa função é necessário que o pai esteja

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morto, isto é, seja apenas uma referência, um lugar — o mito freudiano do assassinato do pai da horda primitiva imaginariza essa necessidade.

Aluísio traz um testemunho extraordinariamente claro às teses freudianas: procura situar o tio materno — o irmão da minha mãe mais ligado a ela — no lugar simbólico de um pai — como ocorre na estrutura de parentesco de algumas sociedades. A partir dessa tentativa tece-se toda a trama da construção de uma interdição e de uma filiação (os preceitos-tabus acerca dos mortos que eram alvo da ambivalência do complexo paterno) que finalmente fracassa. A clareza do conhecimento de Aluísio sobre todo o processo, que revela sem necessidade de um longo percurso analítico, já pode- ria indicar que sua posição de sujeito não estava submetida aos constrangimentos da estrutura neurótica.

Calligaris (1989) assinala sobre o sujeito na crise psicótica que o que volta no Real para ele são os significantes singulares que preencheriam a função paterna, se ele fosse neurótico. Porém não são significantes quaisquer, mas significantes paternos que fazem parte do saber singular do sujeito, apesar de não estarem colocados num lugar central organizador do qual este saber não dispõe (p. 54). No caso que descrevi, o adolescente passa por uma etapa transitória em que parece situar-se numa estrutura obsessiva, expressa sob a forma de uma grave neurose do gênero. Os significantes que preencheriam a função paterna ainda não aparecem como vindo claramente do Real. A estabilidade obtida é precária, não sustentada por esse lugar central organizador — o Nome-do-Pai — de que fala Calligaris.

Freud (1940) estabelece as condições para que a psicose permaneça oculta, a partir da cisão ou clivagem psíquica:

Se formam duas posturas psíquicas em vez de uma postura única: a que leva em conta a realidade objetiva, a normal, e outra que, sob o influxo do pulsional, desliga o eu da realidade. As duas coexistem uma junto à outra. O resultado depende da força relativa de ambas. Se a segunda é ou se torna a mais poderosa, a condição para a psicose está dada. Se a proporção se inverte, o resultado é uma cura aparente da enfermidade delirante. (pp.203/204)

Freud prossegue ressalvando que a enfermidade delirante apenas se retira para o inconsciente e acrescenta que, como numerosas observações

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clínicas podem comprovar, o delírio estava formado e pronto desde muito tempo atrás, antes da irrupção manifesta (p. 204). Lacan (1981) também aponta na mesma direção quando localiza que na economia psíquica o ego não está nunca só, mas sempre acompanhado por um gêmeo prenhe de delírio, o eu- ideal (p. 165). O processo de desencadeamento da psicose consistiria em fazer falar esse gêmeo delirante, que se transforma num personagem, comandando, comentando ou fazendo eco aos pensamentos do sujeito. Evidente que o grau de articulação desse delírio será diferente para cada um, variando desde a organização do discurso paranóico até a fragmentação dos significantes na esquizofrenia.

A eclosão da psicose dependeria de circunstâncias-limite que ativassem o que Freud chamou de pré-condição necessária. Calligaris (1989) aponta a adolescência como um momento-chave para o desencadeamento da psicose, articulando uma explicação teórica sobre a exigência a que o sujeito é submetido na adolescência:

Sabemos com quanta facilidade crises psicóticas se desencadeiam na fase da adolescência, e podemos pensar tranquilamente que a adolescência é um momento particular no qual o sujeito encontra uma injunção a situar-se falicamente, a tomar o falo e ir na vida, a referir-se a uma instância pater- na, entrar na vida ativa. (p. 36)

Tausk (1990) antecipou, de certa forma, essa linha de argumentação, já em 1919, no seu artigo Da gênese do aparelho de influenciar no curso da esquizofrenia: uma primeira fase da psicose (sentimentos de alteração ou de estranheza) aparece antes da puberdade mas permanece oculta sob a forma de traços de caráter infantis de difícil apreciação. A puberdade, com suas exigências de uma adaptação ao mundo cultural... torna a doença patente (p. 46).

A dificuldade para o adolescente consiste em não poder fugir da solicitação de ser um indivíduo e com isso evitar expor-se a uma situação em que deveria lançar mão do significante da metáfora paterna de que não dispõe. Não é a mesma coisa afirmar que a psicose é desencadeada por uma pressão social indiscriminada, exercida sobre o adolescente. A adolescência, da maneira que já foi caracterizada, supõe um momento privilegiado que cria situações em que o indivíduo deve responder de uma forma única, individual. Essas situações podem não advir na adolescência,

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permitindo que o sujeito passe incólume por esse período, só sendo confrontado mais tardiamente com o que Calligaris chama de injunção eficiente:

Mas acontece que existem sujeitos que atravessam perfeitamente esse tipo de prova — adolescência, chegada à vida adulta, mesmo a paternidade, isto é, qualquer tipo de momento clássico relativo ao desencadeamento da psicose— e que acabam encontrando uma injunção eficiente em situações que do ponto de vista da realidade parecem quase insignificantes. Por exemplo, uma situação na qual, aos 40 anos, trabalhando numa empresa, o sujeito é chamado a assumir uma responsabilidade apenas maior. Aí se produz alguma coisa que tem esse efeito de injunção absolutamente inevitável. Injunção a referir-se a uma amarragem fixa, a uma função paterna. Uma injunção a se sustentar num saber organizado como o saber neurótico. (p. 36)

Lacan (1981) chama de muletas imaginárias os suportes que sustentam o psicótico num precário equilíbrio até que seja confrontado com de- terminadas questões que deslocam esses pontos de apoio imaginários: vocês sabem que os pontos de apoio significantes que sustêm o pequeno mundo dos pequenos homens solitários na multidão moderna são em número muito reduzido (pp. 228229) (46).

Num certo momento da sua história vital, o sujeito não se mantém mais no equilíbrio, essencialmente imaginário, que impedia o desencadeamento da psicose. Essas muletas imaginárias podem ser compreendidas como uma relação dual onde um outro é tomado no registro da identificação especular.

A mãe, um amigo, um irmão permitem um precário ponto de fixação para o sujeito, numa situação pouco estável, que Lacan compara a um banquinho de três pés que ainda assim se equilibra, mas sem a estabilidade que só aos bancos de quatro pés está garantida.

Pedro, 14 anos, fracassa na escola, sendo reprovado. O pai o recrimina violentamente. Seu irmão mais velho (16) obtém sucesso escolar, correspondendo às expectativas do pai. O rendimento escolar parece ser um frágil fator de estabilidade para Pedro, através da identificação com

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(46) Para explicitar essa questão desenvolvi anteriormente os temas individualismo e identificação, no contexto da adolescência.

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um irmão bem sucedido. Posteriormente Pedro comentaria, invertendo o sentido do processo: minha letra é ilegível e a do meu irmão é legível, mas ele falsifica a minha letra.

Pouco tempo após o episódio de fracasso escolar, ocorre uma séria briga com o irmão que, maior e mais forte, o agride. Antes do aparecimento de francos sintomas psicóticos há um período de apatia e desinteresse pelas atividades de que o adolescente anteriormente gostava. Certo dia ele sai com o pai e vai a uma feira de pássaros — o pai é aficcionado por criação de pássaros. Durante o regresso da feira, Pedro permanece olhando fixa- mente a gaiola do curió, pertencente ao pai, numa atitude que este descreve como estranha. Seu comportamento, a partir desse dia, começa a alterar-se progressivamente: primeiro choro e insônia; na escola imita o canto dos pássaros, vai para uma platibanda, durante as aulas, observar as aves. Nas entrevistas desenha bonitos pássaros coloridos. Após um período de remissão sintomática, um novo episódio psicótico é anunciado pela volta da preocupação com os pássaros.

A ligação de Pedro com a temática pássaros parece uma tentativa de reconstruir algum traço paterno, pela via do imaginário. Impossibilitado de aceder ao Nome-do-pai, enquanto significante que permitiria situar-se no simbólico, o que restaria ao sujeito? Lacan (1981) propõe uma resposta para essa questão:

A ele resta a imagem à qual se reduz a função paterna, é uma imagem que não se inscreve em nenhuma dialética triangular; mas cuja função de modelo, de alienação especular, dá assim mesmo ao sujeito um ponto de enganchamento, e lhe permite apreender-se sobre o plano imaginário. (p. 2 30)

Pedro relata numa sessão: meu pé está doendo, é o peso do meu pai que eu carrego e está me dando dor no pé. Em outra sessão acrescenta: minha mão é igual à do meu pai, meu pé também; meu irmão... acho que ele não é filho do meu pai, ele quebrou a cabeça e tem uma coroinha na cabeça, ele pode ficar calvo, igual ao tio Ronaldo. Algum tempo depois, após escrever a palavra help, comenta: meu pai está morto... meu irmão está morto... não, meu pai está vivo... eu estou morto de tanto mimo.

A adolescência é um período particularmente rico em possibilidades desestabilizadoras do sujeito pré-psicótico, isto é, aquele que

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apresenta uma estrutura psicótica encoberta. Momento de definições diversas no campo sexual, profissional, familiar, a adolescência, como já assinalei, lança questões que alguns indivíduos não têm condição de contornar. Lacan (1981), a propósito das condições de entrada na psicose, comenta:

O que se pode propor de mais árduo a um homem, e o que seu ser no mundo não afronta tão freqüentemente — é o que se chama tomar a palavra, eu entendo a sua, tudo ao contrário de dizer sim, sim, sim, àquela do vizinho. Isso não se exprime necessariamente em palavras. A clínica mostra que é justamente neste momento, sabendo-se reparar a níveis muito diversos, que a psicose se declara. (p. 285)

As situações onde a psicose se declara giram em torno do Nome do Pai faltante, confronto com o buraco preexistente no campo simbólico. Na adolescência, freqüentemente, ocorrem essas situações propiciatórias quando o jovem é obrigado a tomar a palavra, lato sensu, para definir seu ser e já não pode contar com a referência às amarras do espaço familiar. Os exemplos incluem acontecimentos como a primeira relação sexual, o confronto com um rival numa triangulação amorosa, a chamada da paternidade, a separação da figura-âncora da identificação especular. Para cada sujeito haverá uma incidência particular da questão do Nome-do-Pai, integrada às vicissitudes da sua história e trazida à Iuz a partir das peculiaridades do seu processo de travessia da adolescência.

Ernesto, 16 anos, vem do interior de Minas, trazido pelas irmãs que moram no Rio. Há alguns meses apresenta mudança de comportamento:irritado, briga com a família, principalmente com o pai, recusa-se a trabalhar. Expulsou o pai de casa e ameaçou matá-lo. Não quer que o pai durma mais com a mãe porque ele tem outras mulheres. Acusa uma dessas outras mulheres — uma vizinha — de fazer macumba contra ele. Recusou-se a comer uma galinha porque estava com macumba. Justifica essa idéia dizendo que quando a irmã pegou a galinha para matar ela fez cocô na mão dela. Ernesto toma alguns cuidados especiais ao urinar, temendo virar mulher — o temor se relaciona com determinadas posições assumidas ao urinar. Após já estar na casa da irmã, pediu uma faca para defender-se, quando ouviu as galinhas cantarem à noite, pois isso indicaria que estavam querendo matá-lo.

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Ernesto, apesar de não ser o filho mais velho, assumiu muitas tarefas na pequena propriedade rural da família, após o pai ter sofrido um sério acidente automobilístico. Por conta desse acidente o pai teve que ser removido para Belo Horizonte para tratamento médico-hospitalar. Um dos motivos de discussão entre o adolescente e o pai é o desejo deste de que o filho vá para uma cidade grande trabalhar, como outros irmãos já fizeram. A mãe passa a tratar Ernesto de forma mais amorosa — o abraça e beija — após o desencadear de sua crise, o que acirra a rivalidade com o pai, que manifesta ciúme.

Como não é raro ocorrer na adolescência, Ernesto foi diretamente chamado para ocupar o lugar do pai, após a temporária incapacitação deste. Com o retorno do pai abre-se o campo de uma rivalidade edípica, insuportável para o filho, porque esse ternário simbólico ao qual Lacan (1966) se refere nunca foi articulado, nesse jovem, pelo significante do Nome-do- Pai. O caso de Ernesto auda a esclarecer a questão do pai nos registros imaginário, real e simbólico. O adolescente sempre viveu em companhia do pai, descrito como bastante severo para com os filhos. Não se deve imaginarizar a falta do pai, ocorrência a ser valorizada no registro simbólico. O pai, que retorna para reclamar sua posição, assumida imaginariamente pelo filho no momento da adolescência, aparece desde um lugar no real, suscitando para Ernesto a necessidade de responder a partir de uma posição edípica nunca completada. Não seria necessário que o agente desencadeante da psicose fosse o pai do sujeito, conforme esclarece Lacan:

Mas como o Nome-do-Pai pode ser chamado pelo sujeito ao único lugar de onde ele poderia lhe advir e onde ele nunca esteve? Por nada mais que um pai real, não forçosamente pelo pai do sujeito, por Um-pai. É suficiente que esse Um-pai se situe na posição terceira em qualquer relação que tenha por base a dupla imaginária a-a quer dizer o eu-objeto ou ideal-realidade, interessando o sujeito no campo da agressão erotizada que ele induz. (pp. 577/578)

A intromissão do pai na relação de Ernesto com a mãe, a pressão para que o filho se afaste — vá para cidade — deságuam na agressão e no delírio persecutório que, após uma fase aguda, desaparece — retira-se para o inconsciente — deixando o adolescente num estado de inércia que só muito lentamente parece se reverter.

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No caso que passarei a descrever, além da forma singular com que se apresenta a questão paterna no desencadear da crise, pode-se constatar também que, mesmo nas situações onde a psicose já está manifesta, qual- quer precária estabilidade alcançada pelo sujeito pode ser abalada desde que Um-pai venha a esse lugar onde o sujeito não pode chamá-lo anteriormente (Lacan, 1966, p. 577).

Augusto, 15 anos, anda de um lado para o outro, cospe e reclama dos gases que entram pelo seu corpo: meu corpo está acabado. Quando fica mais calmo pergunta à terapeuta se ela sabe dirigir; quando ela responde que não Augusto fica indignado: é óbvio que sabe! Reclama da suafichação — referindo-se ao seu registro no serviço psiquiátrico — responsabilizando por isso um tio médico e querendo que uma tia, advogada, o desfiche. Em outros momentos pede uma camisa com um adesivo do Instituto. Afirma que é... diz o nome de um artista conhecido — o artista morreu, vítima de envenenamento por gases, poucos dias antes do pai de Augusto, de quem era amigo, viajar para o exterior. Quando a mãe se refere ao pai, o adolescente se exalta: que pai? Eu não tenho pai! Eu não tenho ninguém.

As vozes que perturbam o adolescente dizem: joga hormônio nos olhos e na boca desse cara! Para Augusto, as ordens provêm da humanidade: meu corpo está acabado. Olha o que a humanidade fez. Acabaram com o meu corpo. Vai pro inferno, humanidade! Mostra cicatrizes, diz: foi minha mãe quem fez. Meu corpo está podre.

Segundo a mãe, os problemas do filho iniciaram-se aos 14 anos, quando ele levantou e disse que ia morrer. Augusto comenta: eu preciso de ajuda... eu estava só com a minha mãe. Ele evoca, novamente, as lembranças sobre a morte, por intoxicação com gases, do conhecido artista, amigo do pai: foi no dia... (diz a data completa), dois dias antes da viagem do meu pai. A data antecede em um dia àquela referida pela mãe como a da primeira crise.

Augusto fala sobre suas namoradas com a analista: a Ritinha tem 1 7, 18, 19, 20 anos. A analista comenta que suas namoradas são mais velhas. Claro, eu não tenho pensamentos de menino, tenho pensamentos de homem. A analista quer saber quais são os pensamentos de homem. Quero comprar um revólver. Ordena, a seguir: tira a roupa toda! Ameaça tirar suas próprias roupas, mas atende quando lhe é dito para não fazê-lo. Reage às férias da terapeuta, quando seria atendido apenas por um médico: não vim aqui para

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falar com homem. Compara seu braço com o do médico, para verificar qual é mais cabeludo e grosso — de homem. Em diversas ocasiões insiste com a analista: tira a blusa e eu tiro a camisa, tira a saia e eu tiro as calças... Faz referência às palavras roncho e macho. Em determinada sessão Augusto, após mandar a analista tirar a roupa, fala, com voz feminina: miserável. Quando a analista questiona o que disse, ele explica: miserável sou eu5 que pedi para você fazer isso.

A relação de Augusto com a mãe é estreita e quase exclusiva: vivem sós depois que o pai partiu para o exterior, para um período de trabalho, de onde raramente manda notícias. Há informações de que ele teria outra família no país onde se encontra. Anteriormente a família já esteve separa- da. A mãe parece estimular essas separações — quando o pai estava no Rio, ela ficou com o filho em Pernambuco, quando ela veio para o Rio o marido foi para o exterior. Acho que empurrei o... (diz o nome do marido)para trabalhar fora daqui — conta a mãe. Não é raro Augusto agredi-la e até durante os atendimentos isso já ocorreu. Ele entrou na sala onde a mãe estava sendo atendida e a ouviu dizer que temia perder seu poder sobre ele. Augusto então disse: você não vai perder o poder e a agrediu. Ao longo do atendimento fica mais evidente o grau de ligação entre Augusto e a mãe: ela antecipa suas ações dizendo, por exemplo, antes de consultá-lo, que ele não atende- rá o telefone, vem nos horários de atendimento reservado para o filho, quando ele não quer vir.

A mãe, que recebe atendimento paralelo ao do filho, comenta: tem sido boa a solidão. Assim provo pra todo mundo que posso resolver tudo sozinha. Não tem isso de pai e mãe, eu sou as duas coisas. Em outra ocasião, reclama dos seus limites: Augusto, apesar de ser meu filho único não é verdadeiro. Explica: é meu filho sim, mas eu não posso ficar, por exemplo, resolvendo as coisas pelos médicos, tirando dos médicos o que eles fazem.

Ao entregar um novo cartão de atendimento a Augusto — que havia rasgado o anterior — a secretária deve preencher o campo Filiação. A mãe pede para colocar o nome dela. Augusto exige que se coloque o nome do seu pai, que dá por inteiro. A mãe comenta: não precisa! Quando ela tinha dez anos, seu pai — o avô materno de Augusto — desapareceu de casa. Ela era a filha mais velha e passou a ser arrimo de família, sustentando a mãe e os irmãos.

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O comportamento do adolescente em casa é complicado, provoca do reclamações dos vizinhos que terminam numa queixa judicial. Augusto atira objetos pela janela. A síndica o proíbe de frequentar a garagem, onde gostava de ficar orientando a manobra dos carros. Ele é interessado em carros, fala em tirar carteira de motorista e da idéia de possuir um dia uma carteira de couro legítima. A mãe, a propósito das dificuldades no prédio, afirma: o que falta é dinheiro, é padrão de homem. Não tem homem no prédio. Um homem!

Cerca de 5 meses após o início do atendimento, Augusto, que pare- cia já estar mais tranquilo, é internado nas seguintes circunstâncias: estava muito agitado em casa, jogando água no corpo e dizendo que eles tinham que sair dele. Foi à janela nu, exibindo-se para os vizinhos, que foram ao apartamento e tentaram acalmá-lo. Em meio à confusão chegaram os bombeiros, que amarraram as mãos de Augusto e o levaram para o Hospital. A mãe relata a sua revolta com os acontecimentos, principalmente com a forma com que o filho foi conduzido pelos bombeiros — chamados provavelmente pelos vizinhos.

Poucos dias antes da internação houve um acontecimento dramático para Augusto. Tocaram a campanhia e ao abrir a porta ele reconheceu Manoel — amigo do pai, que também estava na cidade em que o pai está. Augusto desmaiou imediatamente e ao recobrar os sentidos perguntou: meu pai... meu pai está vivo? A mãe já havia se referido a um episódio anterior de desmaio do filho: ele saiu de si. Parece que estava desagregando, fazendo alguma viagem e indo buscar meu pai em... (diz o nome do lugar onde o pai de Augusto está).

A precária estabilidade de Augusto é desfeita com a viagem do pai no momento da sua adolescência. As separações anteriores não haviam produzido resultados dramáticos: era possível para a mãe resolver tudo sozinha, ser, imaginariamente, as duas coisas. Ainda não havia chegado para Augusto o momento da travessia, para ele impossível.

A temática do seu fragmentado delírio liga o pai que se ausenta com o amigo paterno morto por gases. Novamente chamo atenção para que a ausência física do pai e a falha do significante paterno ocupam dois registros diferentes. A presença do pai ou de alguma figura-âncora dá uma certa

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consistência imaginária ao sujeito, mas não assegura sua posição no campo simbólico. A referência à fragmentação corporal — meu corpo está podre, acabado — dá a dimensão imaginária da questão e, ao mesmo tempo, aponta para a tentativa de fixação simbólica através da articulação delirante: os gases que entram pelo corpo, o ataque da humanidade.

Já desde o primeiro contato do adolescente com um serviço de saúde mental aparece sua requisição por uma filiação que o faça escapar do aprisionamento materno. Reclamar da fichação ou insistir em receber um adesivo do Instituto são dois momentos de um mesmo pedido por existir baixo a chancela de um significante que viesse em lugar da metáfora paterna.

Impossibilitado de registrar-se definitivamente sob uma identidade masculina, na ausência da marca fálica, Augusto busca remediar sua limitação através de atuações especulares ou socorrendo-se de atributos imaginários da masculinidade — comparação do seu braço com o do médico; comprar um revólver; tira a saia que eu tiro as calças; etc).

O que chamei acima de aprisionamento materno não remete a uma acusação tipo mãe psicotizante ou qualquer outra do gênero (47). O aprisionamento do adolescente inclui o da sua mãe, ao ponto em que a única separação possível entre os dois ter sido, em determinado momento, a promovida pelo violento episódio de internação de Augusto. Os limites do que se poderia chamar de sintoma de uma estrutura familiar são ultrapassados nesse caso. A relação que se apresenta na família está praticamente reduzida à subjetividade da mãe e seu objeto, como Lacan (1986) articula:

Aqui, é diretamente como correlativo de um fantasma que a criança é interessada. A distância entre a identificação ao ideal do eu e a tomada de partido do desejo da mãe, se não existe a mediação (que a função do pai normalmente assegura), deixa a criança aberta a todas capturas fantasmáticas. Ela torna-se o objeto da mãe, e não tem outra função senão

Nota de rodapé

(47) A questão da travessia entre o intra e o extrafamiliar já foi abordada sob o aspecto das relações da crise da adolescência com a crise da família e a crise da sociabilidade contemporânea.

Fim da nota de rodapé

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revelar a verdade desse objeto. A criança realiza a presença do quejacques Lacan designa como o objeto a nofantasma. (pp. 13/14) (48).

Há um encontro da história da infância da mãe com a situação atual: o abandono do pai e o do marido. Abandono que não parece pertencer ao acidental mas fazer parte da repetição que torna impossível a permanência junto ao marido/pai — sempre estimulado a ficar longe. O lapso da mãe, narrando o episódio do desmaio do filho (ele saiu de si. Parece que estava desagregando, fazendo alguma viagem e indo buscar meu pai em...), é indicativo da função que Augusto ocupa na subjetividade materna.

Os desmaios de Augusto, como os rituais obsessivos de Aluísio, também dão conta de tentativas fracassadas de uma amarração sintomática própria da neurose. Nesse sentido o lugar que o filho ocupa no fantasma materno não significa que ele deixe definitivamente de lutar por uma posição de sujeito.

Quando Augusto se recupera do desmaio que seguiu o encontro inesperado com o amigo do pai diz imediatamente meu pai... meu pai está vivo? A conexão entre pai e desmaio remete às considerações de Freud (1928) em Dostoiévski e o parricídio. Na análise freudiana, tanto os estados de sono letárgico de Dostoiévski quanto seus supostos ataques epilépticos seriam sintomas neuróticos. O estado de morte aparente do sono ou da crise representaria, ao mesmo tempo, a morte do pai e a punição desta morte — encenação do crime e do castigo. O sujeito dividido aparece tanto no eu/ pai morto quanto no supereu/pai que castiga. Ao mesmo tempo atende-se ao desejo viril de ocupar o lugar do pai e à satisfação masoquista frente a ele, atualizando a castração. Para Augusto, no entanto, o drama encenado com o corpo é apenas um episódio sem sequência de uma novela que não se escreveu.

Nota de rodapé

(48) Ici, cest dzrectement comme corrélatzfdun fantasme que lenfant est intéressé. La distance entre lidentification à lideal du moi et la part prise du désir de la mère, si elle na pas la médiation (celle quassure normalement lafunction du père) laisse lenfant ouvert à toutes les prisesfantasmatiques. 11 devient lobjet de la mère, et na plus defonction que de réveler la vérité de cet objet. Lenfant réalize laprésence de ce queJacques Lacan désigne comme lobjet a dans lefantasme.

Fim da nota de rodapé

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DESTINOS: OS ADOLESCENTES PSICÓTICOS, SEUS IMPASSES E AVANÇOS

Se é verdade que não podemos generalizar a partir de um só caso, então é mais verdade ainda que não se pode perceber o indivíduo em um levantamento amplo.

Winnicott, D.W. Explorações psicanalíticas.

Falar em evolução de um caso de psicose na adolescência, permanecendo preso a um modelo médico, reduz o alcance da compreensão que se poderia atingir sobre a situação do adolescente psicótico. Escolho apresentar, de preferência nas palavras dos próprios adolescentes, seus impasses e avanços. Eles devem enfrentar, a um só tempo, a tarefa de ordenar sua vida subjetiva e lidar com conturbadas relações intra e extrafamiliares.

Apresentarei fragmentos da história de dois adolescentes, que já foram mencionados nos capítulos anteriores. Esses fragmentos abordam principalmente as tentativas de rearticulação simbólica desses jovens e suas dificuldades de inserção no universo social mais amplo. Faço também referências às relações dos adolescentes com os profissionais de saúde mental que os atendiam, a partir da posição de analistas, e que desempenhavam um papel relevante na sua tentativa de rearticulação.

Aluísio estava com 16 anos quando o vi pela primeira vez. É um adolescente alto, magro, rosto marcado pela acne. Parece um pouco alheado, mas responde às perguntas e sorri, com um jeito tímido mas simpático. Aluísio já foi internado, por alguns dias, tomou neurolépticos e recebeu 5 aplicações de eletro convulso terapia.

Por quatorze anos, com breves interrupções em algumas ocasiões, acompanhei o percurso de Aluísio. Nossos contatos se davam com periodicidade variável, mas, na maior parte do tempo, uma a duas vezes por semana.

Durante um longo período do tratamento Aluísio traz sempre escritos ou recortes para a sessão: são letras de música de seus compositores prediletos (Chico Buarque, Raul Seixas, John Lennon, Belchior, etc), recortes de jornal ou revistas, poemas, fragmentos bíblicos ou de diversos tipos de ensaios. Esses textos ou sofrem ligeiras alterações ou são

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costurados uns com os outros de forma que o adolescente torna-se uma espécie de co-autor. O material sempre faz referência às suas questões, impasses e dramas. Seu nível de articulação é mais significativo quando comparado com sua escolaridade: Aluísio não chegou a completar o primeiro ciclo do primeiro grau — em algumas ocasiões aparecem suas limitações, que aqui são conservadas, para preservar a autenticidade dos textos.

Nem seja a vida um fato constatado Quero ganhar o meu próprio punhado...

A personalidade humana varia de indivíduo para indivíduo e esse ponto, dentro da recuperação do interno é muito importante...

Jesus disse a Nicodemos (7oâo 3: 7): necessário vos é nascer de novo.

Olhe bem as montanhas...

Talvez o mundo não seja pequeno,

nem seja a vida um fato consumado

Esses fragmentos foram ordenados por Aluísio em uma só folha e parecem registrar sua tentativa de resituar-se como um indivíduo e escapar das restrições impostas pela psicose. Com o auxílio dos seus compositores preferidos, revela alguns dos seus tormentos:

Eu tenho um pouco de enigma de uma vida, um pouco de o céu por testemunha e um pouco de sinfonia inacabada.

Tenho ginecofobia

Tenho oclofobia (49).

Tratamento de choque (Cold turkey)

A temperatura está subindo

A febre é alta não posso ver nenhum futuro

Nota de rodapé

(49) Horror ou aversão à plebe ou à multidão.

Fim da nota de rodapé

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não posso ver o céu meus pés estão tão pesados

E a minha cabeça também

Queria ser um bebê

Queria morrer o tratamento de choque me pegou de surpresa o corpo está doendo os ossos arrepiados não posso ver ninguém me deixem a sós meus olhos estão arregalados não consigo dormir

só de uma coisa estou certo estou na pior o tratamento de choque me pegou de surpresa...

Apavorado (Scared)

Estou apavorado, apavorado, apavorado

Enquanto os anos se vão

e o preço que paguei

se desmancha como palha

você não tem que sofrer

é o que é

nem o sino, nem a vela, nem o livro

podem tirar você disso, oh não!

Estou ferido, ferido, ferido

cada dia da minha vida

não faço mais do que sobreviver

só quero continuar vivo...

A sua tristeza (Your blues)

Sim, estou só, quero morrer

Sim, estou só, quero morrer

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Se não morri até agora

oh, garota, você sabe porquê

de manhã quero morrer de noite quero morrer

se não morri até agora

oh, garota, você sabe porque

minha mãe era do céu meu pai era da terra

mas eu sou do universo

E voce sabe o que isso significa Estou só, quero morrer

Senão morri até agora

Oh, garota, você sabe porquê...

Aluísio escreve também sobre a adolescência, seus riscos e as transformações que traz ao mundo infantil. Suas tentativas de articular um saber sobre o sexo e situar-se enquanto um ser sexuado já foram abordadas em outro capítulo. Transcrevo mais algumas passagens das suas considerações sobre o tema, contextualizando-o no momento da adolescência:

Eu acho que deixar de ser criança para ser adulto, é deixar de ver as cores numa TVpreto e branco para ver as cores numa TV à cores.

A adolescência é um abismo e os problemas causados na infância podem jogar a pessoa nesse abismo.

Eu passei a me ver no passado.

Existe uma música do Belchior em que ele fala que não foz e nem será, porque quemfoi ou será não é. Conclusão: eufui tão bem na minha infância que eufiquei no quefui.

Eu continuo com aquele medo de ser padre; eu quero saber se é real a idéia de que só na adolescência se constrói as fantasias sexuais, que se a pessoa passar pela adolescência, sem fazer sexo, ela não terá fantasia, para ter uma vida sexual quando adulta; mas eu digo fazer sexo, no sentido de namorar, beijar, e até mesmo trepar; se é verdade que se não houver

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alimento para as fantasias durante a adolescência não haverá fantasias durante a fase adulta; se a fantasia morre de fome; ou se é ela que mata a pessoa de fome; se isso é uma coisa condicionada, está em condição removível ou não? Eu quero saber se pode haver a condição; eu acredito que possa se trazer o adulto para a adolescência, no campo sexual, dar novas energias efantasias.

Muita punheta não cansa a mente, mas pode pode fazer o cara enjoar de mulher, por ser praticada com mais frequência, por uma pessoa ainda não preparada completamente para o sexo, uma pessoa adolescente.

As concepções de Aluísio não se distanciam muito das teorias freudianas, expressas nos Três ensaios de teoria sexual (1905), sobre o papel da adolescência (puberdade no texto de Freud), ambas atribuindo um papel importante à sexualidade adolescente para se alcançar a condição de adulto diferenciado sexualmente. Apesar de existirem disposições masculinas e femininas na infância, Freud reconhece que... a ativação auto-erótica das zonas erógenas é a mesma em ambos os sexos, e essa similitude suprime na infância a possibilidade de uma diferença entre os sexos como a que se estabelece depois da puberdade. (p. 200)

Uma pessoa que entra na adolescência é como se estivesse andando sobre um abismo, em uma ponte invisível. Então se a pessoa cai no abismo, ela precisa de alguém que lhe jogue uma corda e a tire do abismo, ela não consegue sair do abismo sozinha, e uma pessoa que está fora da adolescência, está com o pé no chão e não sobre uma ponte invisível, então ela pode sair sozinha dos problemas e não deixar que a levem de volta à adolescência, dentro do abismo que existe sob a ponte. Eu acho que a adolescência é igual ao útero materno por isso que as crianças também tem problema de abismo, algum trauma causado na criança quando ela está dentro do útero da mãe (o útero da mãe é um abismo) podefazê-la ver sempre aquele abismo e em conseqüência torna-la mongokside.

Quando a criança fica traumatizada com alguns meses ou dias de vida pode ser porque quando ela estava no útero da mãe, se sentia confortável, automaticamente ela não se sente bem sem esse conforto e apesar de não ser mongolóide pode ser uma criança esquizofrênica, paranóica, etc.

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Aluísio constrói sua teoria sobre a adolescência como a travessia, que pode não se completar. Sua comparação entre o abismo da adolescência e o útero materno evocam o auto-erotismo como o caminho regressivo que pode tomar a libido nos impasses mais graves da adolescência— o que ocorre de fato nos quadros ditos esquizofrênicos. Assim pelo menos pensava Freud (1911) ao procurar delimitar as características diferenciais que determinam a evolução mais desfavorável da demência precoce em relação à paranóia: a regressão não chega até o narcisismo exteriorizado no delírio de grandeza [como na paranóia], mas até a liquidação do amor de objeto e o regresso ao auto- erotismo infantil (p. 71).

Complementando suas considerações sobre o abismo da adolescência, Aluísio escreve ao analista: o senhor está me tirando do abismo e colocando sobre ele uma ponte para que eu quando sair dele, e olhar para trás, não veja o fundo do abismo e sim a ponte.

Os primeiros comentários de Aluísio sobre sua relação positiva com o analista são a seguir relativizados em outros escritos:

Depois que eu comecei a me tratar com o senhor que eupassei a ter encucações quanto a ter sido, por algum momento, outra pessoa.

Gravitar: seguir (uma coisa ou pessoa o destino de outra).

Começa a surgir um impasse que terá consequências no transcurso do tratamento. Lacan (1987) assinalou como no psicótico o gozo é situado no lugar do Outro. O analista, que deveria ser um sujeito suposto saber, pode passar ao lugar de sujeito suposto gozar, reduzindo então o paciente a uma condição de objeto — objeto de gozo. Não é raro acontecer que aquele que deseja tomar a posição de analista junto ao psicótico seja colocado como um perseguidor ou objeto de uma erotomania. Ocupei para Aluísio, durante muito tempo, um lugar que Lacan (1981) chamaria desecretário do louco (p. 233), caso essa expressão possa ser tomada no sentido do respeito, acolhimento e atenção a toda a produção que o adolescente me aportava. Mas que sentido poderia tomar a análise? A direção da reprodução na transferência do complexo paterno, com a rivalidade característica e a identificação com o lugar simbólico do pai, permitindo ao sujeito prosseguir sua sina desejante? Esse parece ser um projeto ambicioso demais, considerando os limites do psicótico em relação ao acesso à metáfora paterna. Mas, de

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alguma forma, Aluísio parece tangenciar essa questão quando anota defi- nições do dicionário:

Ansiar, V T Causar ânsia a; angustiar; desejar ardentemente; INT ter ânsias; padecer ânsias; angustiar-se. (conjuga-se como odiar)

Almejar: desejar com ânsia, ansiar

INT estar próximo a dar a alma, agonizar

Aluísio passa por um período de conquistas: consegue sair sozinho, frequenta cinemas, faz tentativas de retornar à escola, reencontra antigos colegas. Começa, no entanto, a expressar claramente a preocupação com a importância que assume para ele a relação com o analista. Reclama que se sente um palhaço no tratamento: é como se minha vida estivesse reduzida a um funil. As interrupções do atendimento, devidas a impossibilidades do analista (doenças, férias, etc), começam a causar-lhe profunda inquietação. Procura soluções externas iniciando uma fase de amor e despeito (de acordo com a descrição de Clérambault para a erotomania): apaixona-se por uma vizinha que mal conhece, pois percebe que ela gostava dele — sic. A insistência do seu assédio acaba provocando reações da família da moça e Aluísio sofre ameaças.

Aluísio pede, insistentemente, por várias sessões seguidas, que eu receite determinada medicação. Como recuso, procura um antigo médico com quem obtém a receita. Toma o remédio, em dose mínima, e tem medo de passar mal. Telefona-me em busca de socorro. Na sessão seguinte traz duas novas letras de música:

Oh, pedaço de mim

Oh, metade estuprada de mim leva o rombo teu

que a saudade é o pior ferimento é pior que o escorrimento

é pior do que menstruar

Ei, quem é você? Ei, quem é você?

vamos responda!

Eu sou, eu sou Judas

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Parte de um plano secreto Amigo fiel de Jesus

fui escolhido por ele para prega-lo na cruz

Cristo morreu como um homem um mártir da salvação

deixando prá mim seu amigo o sinal da traição

mas é que lá em cima lá na beira da piscina

olhando os simples mortais das alturas fazem escrituras E não me perguntam

se é pouco ou demais

se eu não o tivesse traído morreria cercado de luz

e o mundo hoje então não teria

a marca sagrada da cruz.

Aluísio comenta, como já havia feito em outras ocasiões, que era Judas. Percebo a ligação com a procura do antigo médico e a obtenção da receita que eu lhe havia negado. Compreendo, a partir da primeira das duas letras de música que trouxe, a retomada da questão sobre a importância da relação com o analista, que pode ser medida pelo que o adolescente acrescenta ao final da sessão: Aluísio não existe... só tenho esse nome.

Parte dos escritos de Aluísio são dedicados à constituição de um saber sobre a loucura, um esforço de entender a sua doença, para cuja primeira fase — as manias — já descrevi sua aguçada compreensão:

Eu falei em esquizofrenia e homossexualismo porque o esquizofrênico é homossexual.

Toda pessoa insensata é coerente.

A epilepsia é que provoca a disritmia, quando o seu primeiro ataque traumatiza formando um complexo de mongolismo.

Quando não traumatiza, fica sendo só a epilepsia (um ataque de mongolismo momentâneo), causado pela descolação, transição para o longe,

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desgoverpegação, desgovercolação mental, e não uma desgovernamentação, porque se a mente está desgovernada, ela deixa de existir, pois ela tem que estar aqui ou ali. Se cura a epilepsia e a disritmia através da auto base da suficiência, com exercícios mentais que se centralizam na mente, exercícios esses que são o esquecimento, não um desprezo ou um deixar prá tráz, mas um esquecimento daquilo que em base representa o inferior à normalidade.

A desgovernamentação da mente seria ela estar em mil lugares ao mesmo tempo o que não existe; existe é uma descopegação, o daqui, para ali. A pessoa tenta pegar, mas não consegue porque a descopegação, é o daqui para ali, a pessoa tenta pegar, e o negócio vai para lá de teerã. Eufalo que a pessoa tenta, como prova de insegurança, porque é lógico que a pessoa pode pegar.

Se você dormisse — O que não tem descanso.

Se você cansasse — O que não tem cansaço.

Se você morresse — O que não tem limite.

Talvez os únicos loucos, sejam os que não são loucos, os verdadeiros loucos zombam da loucura, ela não os colhe pelas costas, ela não é uma intrusa mas uma locatária.

Poema deAndréHenry

Arrancaram o cadarço de teus sapatos, tuas facas tuas casas, teus jardins. E como não bastava... E não foi o bastante: fecharam-te portas sucessivas e isso não bastou, tomavas demasiado espaço, ouviam-te a voz, ouviam-te os passos. Vieram por tráz atacar-te, cobriram teu corpo do pano

Do falso sono.

mas não bastava ainda.

lançaram sobre ti a sombra e

os muros que te haviam deixado.

teriam desejado murar-te os gritos, os olhos, teriam desejado que desaparecesses.

Logo a seguir, na mesma folha:

está sem mulher

está sem discurso

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Em outra folha:

Nunca vi rabo de cobra nem couro de lobisomem, se correr o bicho pega seficar o bicho come — lição de personalidade.

Eu quero ser um morto vivo da realidade, não um morto vivo da ilusão. Eu não quero ser de uma realidade

eu quero ter uma realidade

Aluísio precisa que sua situação não é de uma desgovernamentação da mente, uma condição em que seu discurso estaria fragmentado, despedaça- do — estar em mil lugares ao mesmo tempo. O que acontece é uma descopegação, falta o ponto-de-basta representado pelo Nome-do-Pai, uma âncora sem a qual o sujeito está condenado a errar daqui, para ali. Com isso cresce o risco de que a única solução seja gravitar na órbita de alguém que venha a encarnar o Grande Outro. Fora da situação de crise, não se trata para Aluísio da perda da realidade, mas ainda sim sua vida está marcada pelo impasse: eu não quero ser de uma realidade... eu quero ter uma realidade. Ter uma posição como sujeito desejante organizaria seu mundo, mas isso supõe a passagem pela castração. Descoberta da falta no Outro, a castração é a condição para a produção do sujeito desejante. O que está em jogo com a recusa do reconhecimento da castração é a impossibilidade do exercício da função do pai enquanto introdutor de uma lei: a ordem simbólica. A questão edípica é uma formulação sobre a estruturação do sujeito: a instalação do triângulo rivalitário livra a criança do acolamento a uma mãe mítica, não castrada — isto é, não submetida a nenhuma lei.

A constituição de um saber sobre a doença inclui comentários e propostas sobre procedimentos terapêuticos. Evidente que essas propostas tinham um endereçamento ao analista/médico e nelas continuam a ecoar as questões transferenciais que já comecei a assinalar. Desencadeia-se um contínuo questionamento acerca do uso de medicação, que passa a ser um assunto privilegiado pelo adolescente. Doses, efeitos colaterais, tipos de remédios, tudo constitui pretexto para Aluísio demandar minhas intervenções e opiniões. Problemas corporais, mudanças físicas são relacionadas ao uso da medicação, assim como à eletroconvulsoterapia. Além disso surgem referências ao choque químico que supostamente teria recebido. Essa

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idéia retorna permanentemente nas sessões, alternando-se com preocupações com as consequências de um único episódio de uso de maconha. O choque químico ou o uso de drogas são responsabilizados por hipotéticos danos corporais: gosto de podre, lesões cerebrais, câncer no ouvido, câncer no nariz, vários órgãos internos que se dissolviam. O relato das lesões corporais torna-se constante, apresentando-se com maior ou menor angústia, demandando ou não uma resposta urgente por parte do analista. A castração ameaça a partir do real do corpo e necessita de uma inscrição simbólica. Aluísio apela ao analista por uma ajuda nessa tarefa.

O eletrochoque é como amputar a perna colocando debaixo de um trem.

Doutor Edson, eu quero que o senhor saiba que o eletrochoque é coisa da idade da pedra, violenta, covarde.

Que nem dez mandamentos vão conciliar.

Doutor Edson, não adianta eu lhe contar os meus problemas sem que o senhor se prontifique a resolvê-los, ou ao menos diga o porquê deles. Doutor Edson eu quero saber se eu vou ficar com atrofia ou bloqueio na mente se eu não tomar choque.

Peso na cabeça eu sinto tudo por dentro da cabeça como se estivesse torto.

O eletrochoque é reversível, depois de algum tempo a pessoa pode ter que tomar novamente.

Quero saber se a lobotomia, causa algum problema físico.

Doutor Edson eu acho que eu não preciso de tranquilizantes e sim de algo que desbloqueie, que faça a minha cabeça ficar mais leve.

Quero saber se quem faz lobotomia pode precisar depois tomar eletrochoque.

(segue desenho em que duas linhas ligam duas palavras Eu a um ponto onde está escrito nervo central)

Eu prefiro fazer logo a lobotomia antes que minha mãe falte, e me dêem eletrochoque. Eu já conversei com meus pais e eles aceitaram a lobotomia.

Doutor Edson se o senhor quiser fazer a lobotomia em mim eu posso pagar particular.

Eu já tomei eletrochoque tenho uma mentalidade, e acredito que o senhor tenha outra.

Pensamentos de música, errados.

Eu acho que os médicos preferem o eletrochoque, porque é mais simples, que uma operação para retirar o nervo central.

Eu quero que o senhor use a lobotomia para resolver o meu caso já que remédio não adianta e eletrochoque dói.

Doutor Edson eu estou me aclimatando ao encontro do meu Eu, mas como eu também tenho problema no nervo, e não só psicológico, chega um ponto em que o progresso psicológico começa a afetar o nervo central, parece que vou andar de lado e de costas.

Eu acho que seria melhor o senhor se abrir comigo e com a minha família.

Aluísio apela ao Dr. Edson para que corte de alguma forma sua aglutinação com o Outro. Acolamento que cerceia sua condição desejante mas cujo desprendimento também o ameaça por não ter como recobrir, nomear a falta propulsora do desejo: eu prefiro fazer logo a lobotomia antes que minha mãe falte, e me dêem eletrochoque.

O apelo pela lobotomia apresenta-se como a tentativa de organizar uma metáfora delirante, uma castração que aponta ao mesmo tempo para o simbólico e para o real. Calligaris (1989) destaca que o delírio organiza a metáfora ao redor de um pólo central que está no registro do Real (pp. 74/75). O pedido de Aluísio coloca em cheque o analista. Mesmo tendo se equilibrado entre os limites da erotomania e da perseguição, sem situar-se definitivamente em nenhum desses extremos, o analista está num impasse. Michel Silvestre (1985) toca na posição do analista em seu trabalho com psicóticos, assinalando o quanto é difícil para ele evitar ser confundido com o Outro: tanto quando o sujeito lhe pede que suporte sua busca de uma metáfora de substituição, como quando se oferece a seu gozo (p. 36).

Na medida em que o adolescente tenta ocupar um lugar de indivíduo no universo social, reaparece para ele a exigência de situar-se sob o significante fálico, o que traça um limite para sua progressão: eu estou me aclimatando ao encontro do meu Eu, mas como eu também tenho problema no

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nervo, e não só psicológico, chega um ponto em que o progresso psicológico começa a afetar o nervo central, parece que vou andar de lado e de costas.

Andar de lado e de costas é o que de fato acontece não só com Aluísio mas com outros adolescentes na mesma situação. Já assinalei esse problema no caso de Elizabete e seu medo de ser chamada ao quadro, que impossibilitou o prosseguimento dos seus estudos. Com Deílson também ocorreu algo semelhante.

Durante a primeira entrevista o adolescente demonstra irritação, sendo difícil acompanhar o seu discurso, pouco encadeado, interminável—parece várias pessoas falando ao mesmo tempo, diz a terapeuta. Fala que não é filho de fato dos seus pais, que é diferente, o que parece relacionar-se com a necessidade que ultimamente revela de pintar os cabelos. Refere-se aeles— sem precisar exatamente quem são e diz que é conhecido, que sabem quem é! — sic. Após 3 meses de atendimento, Deílson organiza um discurso mais coerente e arranja um emprego numa oficina mecânica. Com isso falta 3 sessões seguidas pois, segundo informações da mãe, não queria faltar ao serviço. Quando retorna às sessões parece muito deprimido. Conta que não está mais trabalhando — não diz se foi despedido ou saiu por sua iniciativa, mas relata: era muito difícil, não aguentava mais, era muito pesado. Seu irmão mais novo, que foi trabalhar no mesmo local, continua empregado, acentuando sua inferioridade frente às exigências de tornar-se adulto. Deílson fica bastante tempo calado e a analista diz que nunca o viu tão deprimido. Na sessão seguinte o adolescente diz: já nasci morto; por que um carro não me atropela?

Deílson revela o temor de completar 1 8 anos e ter que servir ao Exército: o Exército é coisa de homem, vão dizer que eu não sirvo. Na falta da divisão simbólica dos sexos, produzida pelo significante fálico, como situar-se na posição masculina, como responder às exigências de ocupar-se de coisa de homem?

Freqüentemente podem ser constatados fracassos escolares, laborativas ou amorosos ligados à impossibilidade do sujeito de sustentar os novos laços sociais necessários a essas atividades. Essa questão, relacionada à inserção social do psicótico, se apresenta aqui duplicada por apresentar-se na adolescência. Percebemos a precariedade do sujeito psicótico frente às situações que fazem apelo à marca do significante fálico de que

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carece. Daí a angústia ou a depressão de Deílson frente a toda expectativa social de que trabalhe, sirva ao Exército, etc. Nesses momentos torna- se flagrante a debilidade do psicótico quando é chamado a tomar uma posição no contexto social, o que ocorre habitualmente durante o período adolescente.

Deílson fala sobre os antecedentes do seu nascimento: era um formigueiro, um aglomerado sem sentido. Quando nasci já tinha um bolo de gente. Fala sobre sua situação atual: ser-sozinho... Pedro Álvares Cabral deu o grito de Independência ou Morte — sic.

O adolescente parece assinalar sua situação entre o acolamento — fazer parte de um formigueiro/família ou a solidão e o abandono (ser-sozinho). Buscar um sentido individual para além do estreito círculo familiar é ao mesmo tempo uma necessidade e uma impossibilidade para Deílson. Retornam aqui as palavras arbitrariedade e anormalidade, que Simmel utiliza para apontar o risco que corre o indivíduo ao expor-se à vida em um amplo círculo social (50). De alguma forma a vida para esse adolescente psicótico é como para as formigas, que, na falta de um mundo simbólico, só sobrevivem seguindo um padrão inato/imaginário, não podendo abandonar o formigueiro. Não afirmo que Deílson esteja fora do simbólico. Bastaria a transcrição das suas palavras para provar o contrário. Mas o lugar por ele ocupado no simbólico beira o insustentável, ao que ele mesmo remete quando, falando de gibis, parece questionar a fragilidade da sua situação subjetiva, dizendo que não gosta do homem-fantasma e que está num quarto sem pare- des. Na minha cadeira está faltando um pé para ficar legal.

Após as férias da analista, Deílson retorna mais ansioso e com risos aparentemente imotivados. Nas sessões seguintes compara-se a um trem descarrilado e questiona a relação com a analista: aproveita uma conversa que faz referência a 2 +2 =4 para dizer que no seu caso é diferente — ele não é 2, é 1 e não se soma a ela. Em alguns outros momentos a fala de Deílson expressa a necessidade de diferenciar-se da terapeuta: pergunta se ela bebe; a analista reponde que bebe cerveja, pergunta então se ela bebe cachaça; a analista diz que não, e ele completa: cachaça é bebida de homem.

Nota de rodapé

(50) Tema desenvolvido no capítulo Família, sociabilidade e as idades da vida.

Fim da nota de rodapé

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O adolescente fala de um outro Deílson que esteve a seu lado desde que nasceu, seu irmãozinho, o único que nunca cuspiu no seu prato. Faz planos para este outro Deílson: tem que chegar no seco, do outro lado, encontrar a outra ponta, porque estamos no meio do lago. Quero fazer minha soma certa, chegar na claridade.

Neste ponto da análise — que havia começado há cerca de 2 anos — Deílson articula melhor um discurso sobre si próprio — antes suas palavras eram quase desconexas. Parece fazer projetos de reconstrução — referências ao outro Deílson — e para o futuro (ao menos criando metáforas — atravessar o lago).

Por algum tempo trabalha num restaurante. Conta que namorou no período em que esteve empregado, mas por pouco tempo: eu não quis. As mulheres de lá são muito bravas. Os homens de lá apanham e depois morrem. Após deixar este emprego retorna mais triste. Fala do pai velho e inválido.

Durante o período de atendimento de Deílson seu pai morre. Na sessão em que comenta o acontecido, parece resumir o que significavapai para ele: chato, né? Era meu pai de carne e osso.

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CONCLUSÃO

Antes de discutir, diretamente, as relações entre adolescência e psicose, fui compelido a abordar duas grandes questões: as particularidades das diversas noções de loucura que precederam a constituição do discurso psicanalítico e as características da adolescência, enquanto criação da sociedade moderna.

O estudo sobre a passagem das concepções psiquiátricas para o ponto de vista psicanalítico permitiu-me situar historicamente o momento do reconhecimento de uma verdade intrínseca ao discurso do louco. Reconhecendo esse grão de verdade que se encontra no delírio e dedicando-lhe atenção, o interesse da psicanálise vai se estender para além das preocupações quanto aos aspectos formais e às classificações dos tipos de loucura. Onde a psiquiatria vê as manifestações de um indivíduo doente — suposta- mente com um transtorno orgânico subjacente — a psicanálise vai tomar a palavra do psicótico como a tentativa de registrar a sua verdade e dotar de sentido o seu discurso.

A formulação de um modelo de adolescência baseado no reconheci- mento da especificidade dos recortes que cada sociedade faz das idades da vida implicou na superação dos conceitos trans-históricos e naturalizantes que, em geral, marcam as teorias sobre a adolescência. Tomar um período etário e caracterizá-lo como um momento crítico — a crise da adolescência — só faz sentido no contexto de uma análise da sociedade moderna e do seu valor básico: o individualismo. Somente a partir desse enfoque é possível pensar a adolescência como um momento de travessia, de passagem de um círculo mais estreito — a família — para um espaço social mais amplo, onde o sujeito se encontra exposto à necessidade de buscar um lugar próprio que dele faça um indivíduo. No momento em que se defronta com a situação de transição entre os espaços intra e extrafamiliar, deixando o que seria o último baluarte hierárquico da sociedade individualista, o jovem deve reivindicar um destino autônomo.

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Diversamente das sociedades tradicionais, que possuem mecanismos para demarcar os lugares que cada um dos seus membros deve ocupar ao se tornar adulto, a sociedade moderna desafia seus jovens a buscar uma definição singular e única para suas vidas. Procurei demonstrar como a tarefa, inerente ao homem moderno, de apresentar-se como um sujeito singular encontra seu clímax na adolescência, quando o indivíduo é compelido a tomar a palavra para definir suas opções frente às diversas exigências próprias à sua inclusão no mundo adulto.

Explorando o conceito psicanalítico de identificação, pude apontar as vicissitudes por que passa o adolescente ao ter que responder às injunções que a sociedade lhe apresenta, exigindo o remanejamento de antigas identificações e expondo o jovem a novas formas de confrontação com o ideal do eu.

Após articular novos suportes teóricos que permitissem melhor discernir os vínculos entre as circunstâncias críticas com que se depara o adolescente e os fenômenos da clínica, apresentei minhas observações, extraídas dos relatos daqueles que, de alguma maneira, fracassaram na travessia da adolescência.

Discutindo o conceito de borderline, encontrei o caminho para contestar um pseudo- avanço acerca do conhecimento das estruturas clínicas e explorei, atendo-me ao referencial freudiano e lacaniano, dois casos de adolescentes nos quais o comportamento qualificável como louco não remetia à estrutura psicótica.

Sem deixar de reconhecer e discutir as dificuldades do diagnóstico estrutural na adolescência, minha experiência clínica conduziu-me à confirmação da validade do conceito de foraclusão como divisor de águas entre as estruturas psicótica e neurótica.

Para explicar o desencadeamento da psicose na adolescência, sem renunciar à concepção da foraclusão como uma falha instalada nos momentos de constituição do sujeito, articulei a antropologia à psicanálise. Mostrei, a partir de exemplos retirados da clínica, como a solicitação de ser um indivíduo conduz o adolescente a situações em que deveria lançar mão do significante do Nome-do-Pai, de que não dispõe, desencadeando- se então os fenômenos psicóticos.

Finalmente, apresentei o testemunho de dois adolescentes psicóticos

Página 153

sobre suas tentativas de ocupar um lugar no universo social e articular um saber acerca de seus impasses subjetivos. Utilizar-me, o mais possível, de suas próprias palavras respalda-se na concepção que atravessa todo o meu texto: o discurso do psicótico constitui um esforço de reconstrução da sua verdade particular. Nos meus comentários em torno dos impasses e avanços desses jovens destaco que a dificuldade para a inserção social do adolescente psicótico está ligada à sua fragilidade frente às situações que fazem apelo à marca do significante fálico.

Apesar de não estar entre os objetivos deste livro discutir a viabilidade e os caminhos da psicanálise com psicóticos, não posso deixar de assinalar o papel que ela desempenha na manutenção da esperança para alguns jovens. Essa conclusão nasce da experiência adquirida no contato, longo e contínuo, com adolescentes para OS quais a escuta psicanalítica foi um dos poucos registros de que o fato de serem diferentes não os condenava à solidão absoluta.

Página 154 – página em branco

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Psicanálise e Tempo: Erik Porge

Psicanálise e Análisedo Discurso: Nina Leite

Letra a Letra: Jean Allouch

Mal-Estar na Procriação: Marie-Magdeleine Chatel

Marguerite ou A Aimée dc Lacan: Jean Allouch

Revista lnternacional n° 1: A Clínica Lacaniana

A Criança na Clinica Psicanalítica: Angela Vorcaro

A Feminilidade Velada: Philippe Julien

O Discurso Melancólico: Marie-Claude Lambotte

A Edificação da Psicanálise: Jean Allouch

Roubo de Idéias?: Erik Porge

Os Nomes do Paiem Jacques Lacan: Erik Porge

Revista Internacional n° 2: A Histeria

Anorexia mental, ascese, mística: Ëric Bidaiid

Hitler — A Tirania e a Psicanalise: Jean-Gérard Bursztejn

Littoral: A Criança e o Psicanalista

O Amor ao Avesso: Gerard Pommier

Paixões do Ser: Sandra Dias

A Ficção do Si Mesmo: Ana Maria Medeiros da Costa

As Construções do Universal: Monique David-Ménard

Littoral: Luto de Criança

Trata-se uma Criança — Tomos I e II: Congresso internacional de Psicanálise e suas Conexões — Vários

O Adolescente e o Psicanalista: Jean-Jacques Rassial

— Aló, Lacan?

— Ë claro que não.

Jean Allouch

A Crise de Adolescência: Octave Mannoni e outros

O Adolescente na Psicanálise: Raymond Cahn

A Morte e o imaginário na Adolescência: Silvia Tubert

Invocações: Alajn Djdier-Weill

Um Percurso em Psicanálisecom Lacan: Taciana de Melo Mafra

A Fantasia da Eleição Divina: Sergio Becker

Lacan e o Espelho Sofiânico de Boehme: Dany-Robert Dufour

O Adolescente e a Modernidade — Tomos I, II, III: Congresso Internacional dePsicanálisee suas Conexões — Vários

A Hora do Chá na Casa dos Pendlebury: Alain Didier-Weill

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W. R. Bion - Novas Leituras: Arnaldo Chuster

Crianças na Psicanálise: Angela Vorcaro

O Sorriso da Gioconda: Catherine Matheljn

As Psicoses: Philippe Julien

O Olhar e a Voz: Paul-Laurent Assoun

Um Jeito de Poeta: Luís Mauro Caetano da Rosa

Estética da Melancolia: Marie-Claude Lambotte

Desejo do Psicanalista: Díana F. Rabjnovich

Os Mistérios da Trindade: Dany-Robert Dufour

A Equação do Sonhos: Gisèle Chaboudez

Abandonarás teu Pai e tua Mãe: Philippejulian

Estrutura na Obra Lacaniana: Taciana de Melo Mafra

Crianças na Psicanálise: Angela Vorcaro

Ciúmes: Denise Lachaud

Trilhamenos do Feminino: Jerzuí Tomaz

Gostar de Mulheres: Autores Diversos



Os Errantes da Carne: Jean-Pierre Winter

As intervenções do Analista: Isídoro Vegh


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