Ed & Lorrain Warren: Domonologistas



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Ed & Lorrain Warren Domonologi - Gerald Brittle
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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento,
e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa
sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."


“Enquanto conversávamos, Lorraine me chamou lá para cima
para atender a um telefonema interurbano. Eu disse ao detetive
que ficasse à vontade para olhar o meu escritório, mas que
tomasse o cuidado de não tocar em nenhum dos objetos, porque
vinham de casos em que forças demoníacas haviam sido
invocadas.
“Bem, não devia fazer mais de cinco minutos que eu havia saído
do escritório quando esse detetive apareceu lá em cima,
absolutamente branco. Quando lhe perguntei o que acontecera,
ele se recusou a falar”, lembra Ed, abrindo um largo sorriso. “O
homem apenas ficava murmurando: ‘A boneca, a boneca de
pano é real...!’ Ele estava falando de Annabelle, é claro. Aquela
bonequinha fez com que ele passasse a acreditar nessas coisas!
Na verdade, pensando bem, todas as reuniões que tive com o
detetive depois daquele dia aconteceram sempre no escritório
dele”
“Ainda na semana passada, ocorreu um incidente parecido aqui”,
acrescenta Lorraine. “Contratamos um carpinteiro para vir
construir mais estantes no escritório de Ed enquanto ele estava
fora, na Escócia.
O carpinteiro subiu as escadas e pediu que eu levasse a boneca
para outro lugar, para que ele pudesse continuar trabalhando.
Com toda a franqueza, a boneca me assusta. Mas Ed não estava
em casa, então tive que tirá-la de lá.
“Objetos profanos como a boneca Annabelle têm uma aura
própria. Quando você os toca, sua aura humana se mistura com
a deles. Essa mudança atrai espíritos imediatamente. É quase
como disparar um alarme de incêndio. Portanto, para me
proteger, eu me aspergi com água benta e, em seguida,
‘abençoei*
a boneca de pano com água benta, fazendo o sinal da cruz sobre
ela. Quando perguntei ao carpinteiro se ele queira se aspergir


também, ele me lançou uma espécie de sorriso obsequioso,
dizendo que não acreditava em espíritos nem em religião, e que
dispensava esse negócio de bênção.
“Nessa hora, nossa gatinha, Mareie, estava deitada no escritório
de Ed, como sempre faz. Assim que peguei Annabelle para levá-
la para o outro lado da sala, os pelos de Mareie se arrepiaram e
ela começou a soltar uns miados estridentes, aflita de pavor. Ela
se esgueirou até a porta que dá para fora e começou a chamar
de uma forma estranha, como eu nunca tinha ouvido um gato
fazer antes. Mareie não parou até que abri a porta do escritório e
deixei que ela saísse para a luz do sol. O carpinteiro observou
tudo, pasmo.
Então, sem dizer uma palavra, ele estendeu o braço, pegou o
frasco de água benta da minha mão”, diz ela, com um grande
sorriso, “e se aspergiu na mesma hora. É como digo quando
estamos fazendo trabalho de campo — nunca encontrei um ateu
em uma casa mal-assombrada.”
“É difícil para as pessoas aceitar a existência de algo que foram
condicionadas a acreditar que não existia”, afirma Ed. “No
entanto, falta de conhecimento permitiu que esse espírito
negativo conseguisse entrar na vida de três jovens incautos. Se
eles soubessem que tais espíritos sinistros existem, então é
bastante provável que, hoje, um rapaz não teria sido fisicamente
ferido com a marca da besta.”
Não obstante, muitos sustentam que a noção de espíritos é
irracional e infundada, dizendo que o fenômeno é uma ilusão,
uma alucinação ou que simplesmente não existe. Na melhor das
hipóteses, a atividade pode ser esclarecida pela ciência. Será
mesmo? Recentemente, os Warren abordaram tal assunto em
rede nacional de televisão.


FENÔMENOS SOBRENATURAIS
Uma hora e meia após deixarem Connecticut, Ed e Lorraine
Warren estão sentados em uma sala de bastidores, aguardando
para gravar o David Susskind Show, na cidade de Nova York.
O tema do programa daquela noite é “O Oculto” e, durante o
primeiro bloco, três pessoas contam como é morar em uma casa
mal-assombrada. Os Warren vão participar do restante do
programa, em uma discussão em formato de painel com o padre
Alphonsus Trabold, o dr. Alex Tanous e dois pesquisadores de
fenômenos psíquicos, que o casal acabou de conhecer. O padre
Trabold, um amigo de longa data de Ed e Lorraine, é frade
franciscano e professor de teologia. Ele também é especialista
em demonologia e fenômenos paranormais. O dr. Tanous é um


respeitado médium e teólogo que dá aulas na Universidade de
Southern Maine. Para esse grupo, que está assistindo ao
programa pelo monitor, fica logo evidente que o seu verdadeiro
tema não é tanto o oculto em geral, mas os fenômenos
espirituais em particular.
Quando o primeiro bloco termina, esses especialistas e escritores
deixam a sala nos bastidores para tomarem seus lugares no set
de filmagem. Após o intervalo comercial, David Susskind conduz
a discussão diretamente ao ponto. “O fenômeno é real — ou é
apenas uma excentricidade da mente humana?”
Apresentando explicações parapsicológicas, o dr. Tanous e
outros convidados defendem a opinião de que grande parte dos
fenômenos é provocada por psicocinese, ou telecinese — o
poder da mente sobre a matéria. O padre Trabold e os Warren
concordam com as explicações, mas também alertam que parte
da atividade é causada por alguma instrumentalidade exterior.
Eles acrescentam também que é imprudente, quando não
perigoso, subestimar acontecimentos incomuns em uma
residência, em especial aqueles que podem de fato ser de
origem demoníaca. Os Warren explicam ainda que o caso
Amityville não foi uma fraude, e que os fenômenos absurdos,
normalmente fantásticos, relatados pelos principais envolvidos
eram indicativos da estratégia de forças demoníacas. “No
entanto", ressalta o padre Trabold, “não se deve ter pressa
demais em acreditar que toda e qualquer ocorrência estranha
seja de origem sobrenatural.”
O programa correu bem. No entanto, ele não explorou as
implicações mais profundas dos fenômenos espirituais nem o
que está realmente por trás deles. Ainda assim, quando tudo
terminou, David, de fala tão amável atrás das câmeras quanto
diante delas, agradeceu a todos por fazerem daquela noite tão
interessante. Todos estavam felizes por atender ao convite. Para
o telespectador, porém, que agora era agraciado com um
entretenimento ameno, ainda havia muitas perguntas a


responder. Qual é o papel da ciência no estudo do sobrenatural?
O que é parapsicologia? Quais são os limites da abordagem
científica de fenômenos espirituais? Onde a atuação do
parapsicólogo se separa da atuação do demonologista?
Por certo, Ed e Lorraine Warren serão os primeiros a explicar que
nem todo movimento ou atividade estranha é resultado da
atuação de espíritos, menos ainda de forças demoníacas. “Em
grande parte das vezes”, diz Ed, “existe uma explicação natural
para ocorrências esquisitas em uma casa, como cientistas já
conseguiram provar para além de qualquer dúvida. No entanto, é
errado crer que a legitimidade dos fenômenos espirituais
dependa, em última instância, do veredicto da comunidade
científica. O
sobrenatural não é um tema científico per se; sua validade não
pode ser determinada apenas por uma
análise científica. É verdade que atividade espiritual genuína já
foi registrada em fotografias e por meio de outros equipamentos
de gravação, mas a questão envolve muito mais do que
fenômenos observáveis.”
Além disso, como observa Ed, não faltam evidências. “Aqueles
de nós que lidam com o sobrenatural o tempo todo sabem que os
fenômenos são reais — não há dúvida disso. Portanto, quando
as pessoas me dizem que não acreditam em fantasmas e forças
espirituais, o que estão de fato dizendo é que não têm
familiaridade com os dados sobre o assunto. Ainda assim, eles
existem — caso alguém se dê ao trabalho de procurar. Na
verdade, grande parte deles foi reunida sob condições tão
rigorosas que fazem com que muitas outras pesquisas científicas
pareçam frágeis, em comparação. Por exemplo, tomemos um
caso que Lorraine e eu começamos a investigar no último verão
[1978], em Enfield, Inglaterra, no qual fenômenos envolvendo
espíritos inumanos estavam em curso. Então, não era possível
registrar a atmosfera perigosa e ameaçadora dentro daquela
casinha. No entanto, era possível filmar as levitações, os


teletransportes e as desmaterializações de pessoas e objetos
que estavam ocorrendo ali — e isso para não mencionar as
muitas centenas de horas de gravações em fita cassete das
vozes desses espíritos falando alto pelos cômodos. [Em uma
conexão transatlântica com Enfield, essas vozes foram
transmitidas pela rádio WVAM
(Pensilvânia) em 16 de junho de 1978.] Não vou repetir o
linguajar vulgar que as vozes usavam quando entrei no cômodo
com elas, mas, enquanto estivemos lá, a Sociedade Britânica de
Pesquisas Psíquicas já havia gravado, em videoteipe, 1.300
horas desses fenômenos, enquanto ocorriam. A BBC estava ali
filmando o caso em separado, aparentemente para um
documentário de televisão.
“Os fenômenos estão lá, realmente estão! É por isso que digo
que ou você sabe ou não sabe que fenômenos espirituais
existem. Se não sabe, vá investigar as descobertas por si
mesmo, mas não me venha dizer que não acredita em espíritos.
Porque eu vou provar a existência deles para você: na realidade,
vou mostrar coisas que acontecem neste mundo que você não
acreditaria que pudessem acontecer!”
Apesar da enorme quantidade de dados que cientistas e outros
investigadores já conseguiram coletar, a abordagem científica
continua sendo algo como uma espada de dois gumes. Embora o
cientista talvez consiga confirmar a ocorrência de fenômenos
incomuns, ele de fato í não está em posição de julgar se tal
atividade está sendo provocada por i agentes espirituais. Por
essa razão, o papel mais apropriado à ciência no estudo do
sobrenatural é mostrar onde eventos estranhos não são obra de
espíritos. Porque, via de regra, é possível encontrar explicações
naturais para a ocorrência de atividades insólitas em uma
residência.
“Interpretações equivocadas, identificações incorretas, enganos e
alucinações explicam uma grande parcela da atividade
‘sobrenatural’ que é relatada”, aponta Ed. “Um encadeamento de


coincidências pode levar uma família a supor que tem um
fantasma em casa. Outras pessoas podem ouvir ‘vozes de
espíritos’
quando, na realidade, seu alto-falante de alta definição está
captando ondas de rádio por conta própria.
Problemas na fiação de uma casa podem fazer com que luzes
pisquem ou eletrodomésticos não funcionem quando os circuitos
estão sobrecarregados. E pessoas com tendências paranoicas
vão tirar proveito de qualquer atividade incomum para satisfazer
suas fantasias.
“Muitas vezes, as pessoas leem uma história de horror ou
assistem a um filme aterrorizante e ficam assustadas. Em poucas
semanas, essas pessoas começam a acreditar que há um
fantasma no porão ou um vampiro no sótão, e não é possível
convencê-las do contrário. Então, elas contratam supostos
especialistas para irem à sua casa e se livrarem do ‘fantasma’.
Esses especialistas vão entrar na casa, desfilar para lá e para cá
com túnicas de mago, acender cartuchos de fumaça comprados
em lojas de produtos para mágica, recitar um monte de coisas
ininteligíveis e, em geral, fazer um espetáculo de fingimento!
Depois, vão cobrar milhares de dólares pela prestação de
serviços de ocultismo.
E isso continuará até que tenham arrancado até o último centavo
daqueles infelizes. Sei de um caso em que impostores desse tipo
engaram duas mulheres, dando-lhes um desfalque de 50 mil
dólares!”
Talvez a primeira explicação legítima para incidentes peculiares
em uma casa seja a psicocinese, o
poder que a mente tem de levitar ou teletransportar pequenos
objetos por um espaço. A PK, como é abreviada, é provocada
pela transferência de energia psíquica para objetos. Tipicamente,
o indivíduo que emana essa energia está em um momento de


intensa pressão e estresse. Crianças frustradas ou furiosas
costumam ser a origem de atividade PK. “Embora seja incomum,
a psicocinese pode se assemelhar a fenômenos provocados por
espíritos”, sugere Ed. “Levitações PK raramente envolvem pesos
acima de meio quilo. Até hoje, nenhum experimento demonstrou
que a mente humana possa mover pesos superiores a um quilo.
Espíritos demoníacos, ao contrário, normalmente movimentam
móveis ou eletrodomésticos que demandariam dois homens
fortes para serem erguidos.
“Às vezes, existem razões físicas comuns para movimentos
estranhos”, prossegue ele, “tais como perturbações magnéticas
ou geológicas na área em que são relatadas as movimentações.
Vez por outra, a eletricidade cria forças que promovem uma
suspensão da gravidade ou outros efeitos inusitados perto de
paredes. Aquecedores elétricos instalados em rodapés podem
gerar eletricidade estática capaz de atrair ou levitar objetos leves
de plástico ou de papel. Sabe-se que canos de aço e outros
objetos metálicos dentro das paredes podem ficar magnetizados,
o que lhes dá a capacidade de atrair pequenos pregos ou clipes
de papel. Embora tal atividade possa parecer misteriosa, o que
está realmente acontecendo é perfeitamente normal. Nas
ocasiões em que não há uma explicação humana nem física para
acontecimentos estranhos, então a causa da perturbação tende a
ser mesmo a presença de espíritos. E
quando espíritos são os responsáveis, na maioria das vezes, a
atividade pode ser atribuída a poderes espirituais inumanos.” Não
obstante, fenômenos insólitos, em si, não constituem a principal
preocupação do demonologista. Em regra, esse é o trabalho do
parapsicólogo, que estuda fenômenos incomuns a partir de um
ponto de vista científico. No passado, a parapsicologia era muito
malvista porque aqueles que se intitulavam parapsicólogos
costumavam ser pessoas que se afirmavam especialistas e
ostentavam títulos solicitados por correio como credenciais. Hoje
em dia, porém, o assunto é uma área legítima de investigação,


estudada por profissionais certificados nas principais
universidades e instituições de pesquisa.
“Em geral”, afirma Ed, “o parapsicólogo está em busca de uma
única coisa: uma ligação entre fenômenos insólitos e as
capacidades latentes da mente humana. No entanto, quando se
depara com a problemática dos fenômenos espirituais inumanos,
o parapsicólogo costuma se referir a eles como uma atividade
‘poltergeist’. Poltergeist é uma palavra do alemão antigo que
significa ‘fantasma barulhento e travesso’. O termo, porém, é
uma forma inadequada de registrar os fatos, porque não
especifica nem lida com a verdadeira causa da perturbação.
“Ainda assim, a parapsicologia, por estar aliada à ciência, pode
oferecer apenas explicações dentro do âmbito de conceitos
científicos e técnicas de teste já aprovados. Em consequência, o
parapsicólogo normalmente é colocado na posição contraditória
de analisar o reino sobrenatural usando princípios que se aplicam
apenas ao reino natural. Infelizmente, dada essa limitação, na
maioria das vezes, o parapsicólogo conclui que aquilo que ele
não pode testar simplesmente não existe. Por isso, ele lança mão
de uma palavra evasiva como ‘poltergeist’ quando se faz
necessária uma linguagem mais específica.”
Como observa Ed: “Grande parte dos fenômenos espirituais é
invisível e imensurável. As manifestações exteriores representam
apenas uma parte de um quadro muito maior que não pode ser
medido com instrumentos de teste. Embora a parapsicologia
tenha nos fornecido muitos dados sobre fenômenos insólitos e a
ligação deles com o homem, ela nunca sequer se aproximou de
uma compreensão dos verdadeiros princípios metafísicos que
regem a maioria dos fenômenos espirituais. Na realidade, como
regra, o parapsicólogo não acredita na existência de espíritos —
às vezes, até o ponto do ridículo.
Ainda recentemente, por exemplo, eu estava em uma residência
com problemas que eu sabia que estavam sendo causados por


um espírito. Por acaso, acabei mencionando isso ao investigador
chefe do projeto.
‘Esse negócio de espíritos não existe’, ele me disse. Bem, assim
que ele falou isso, uma caixa de lenços
de papel se ergueu no ar, atravessou a sala voando e o acertou
na cabeça. ‘Acho que admito estar errado desta vez’, disse ele,
perplexo”.
Os Warren não se consideram parapsicólogos, visto que existe
uma diferença fundamental entre a parapsicologia e a
demonologia. A parapsicologia não dá credibilidade ao
sobrenatural, ao passo que a demonologia se ocupa apenas de
eventos sobrenaturais. Embora o parapsicólogo e o
demonologista possam investigar o mesmo caso, cada um tende
a olhar para os fenômenos a partir de perspectivas
completamente diferentes.
“Meu trabalho”, diz Ed, “é cuidar para que pessoas não se
machuquem — seja física ou mentalmente
— e fazer com que os fenômenos cessem ou entrar em contato
com alguém que possa fazê-lo. Quando forças demoníacas estão
envolvidas, esse ‘alguém’ acaba sendo o clero. Na minha
experiência, o parapsicólogo parece estar preocupado apenas
com o seu livro de registros. Ele costuma estar em uma
investigação porque foi enviado para lá ou porque está
trabalhando com alguma espécie de subvenção.
Ele olha para as pessoas como a origem do problema e sua
função é listar e registrar o máximo de fenômenos que puder. E é
realmente melhor que ele não volte aos seus superiores com a
explicação de que um fantasma estava por trás da perturbação!
“Eu não tenho esses problemas. Entro em um caso primeiro
como investigador de fenômenos psíquicos”, continua Ed. “E não
entro nele esperando encontrar atividade espiritual. Se me


convenço de que nenhum espírito está envolvido, saio do caso.
Como demonologista, tenho interesse apenas em fenômenos
sobrenaturais: se é natural, não é da minha alçada. A atividade
natural continuará sem propósito ou direção e acabará
desaparecendo. Mas perturbações sobrenaturais acontecem por
um motivo. O cientista pode passar meses em um local mal--
assombrado sem que ocorra nada passível de teste. Então, certa
tarde, eu chego ao lugar com objetos religiosos, provoco o que
está ali e, de repente, diante de testemunhas, começa o
pandemônio. Esses são fenômenos sobrenaturais: você precisa
ir além do manual de ciências para encontrar as respostas aqui.”
“No nosso trabalho”, Lorraine aproveita o gancho, “não estamos
interessados apenas nos fenômenos, como o cientista estrito
costuma estar. A base das nossas funções é com as pessoas
porque, na maioria das vezes, a atividade espiritual está
direcionada para as pessoas. Em geral, entramos em um caso
quando a família já está sendo assediada há algum tempo.
Normalmente, a polícia, os psicólogos e os parapsicólogos terão
dito a essas pessoas que elas estão imaginando coisas ou que
não estão dizendo a verdade. E eles falam isso porque não
compreendem — ou não querem compreender — os fenômenos
espirituais.
“Dada a nossa experiência, enxergamos as coisas de forma
diferente: vemos pessoas normais nas garras de um verdadeiro
horror. Nós não as desacreditamos sumariamente como se
fossem desequilibradas nem lhes dizemos que estão tendo uma
reação exagerada. Perguntamos a elas por que os seus
sentimentos são tão intensos. Sabe, às vezes, as pessoas
envolvidas em um caso ficam fora o dia todo e voltam para casa
tarde da noite só para evitar sua residência, porque sabem que
ela está mal-assombrada. Outras vezes, as pessoas são
oprimidas ao ponto de se tornarem prisioneiras na própria casa,
sem nunca sair de lá. Isso não é um comportamento normal.”


“Para colocar de outra maneira”, completa Ed, “quando tive que
pegar as chaves com George Lutz para entrar na mansão de
Amityville, ele não queria ficar a uma distância menor que quatro
quarteirões da própria casa! Ele é um homem grande e robusto,
faixa vermelha em caratê, ex-oficial da Marinha. Ele não respeita
o que não existe. Antes de se mudar para aquele lugar de
Amityville, a opinião de George era que os mortos estão mortos e
não podem fazer mal a ninguém. Na noite em que ele me
entregou as chaves, perguntei o que ele viu dentro da casa. O sr.
Lutz me olhou bem nos olhos e disse: ‘Sr. Warren, o senhor sabe
o que eu vi’.
“Esse é o aspecto humano”, ressalta Ed. “Mas os fenômenos
também; são importantes. Como demonologista, procuro
determinados tipos de atividade, porque é a minha função — e
do clero
especializado — determinar se existe um agente externo; se de
fato há uma inteligência por trás da atividade — uma inteligência
de origem sobrenatural.”
No entanto, como os Warren podem saber se uma inteligência
está realmente por trás da perturbação se tal agente externo é
invisível?
Lorraine explica: “Embora essa inteligência em geral escolha
permanecer invisível, não há como cometer equívocos quanto ao
que está por trás dos fenômenos, em especial se for um espírito
demoníaco inumano. A atividade ocorrerá em círculos, ao
contrário, em sentido anti-horário, ou em alguma evidente
violação às leis da física. Pedras, por exemplo, ou porcas e
parafusos cairão de um céu aberto sobre uma casa que está
sofrendo um ataque demoníaco. Essas pedras vão cair com tal
força que podem de fato penetrar o telhado. Também já vimos
essa mesma chuvarada de pedras acontecer dentro de uma
casa. E


para que se perceba que tais eventos não são de origem natural,
os objetos cairão em zigue-zague, desafiando a lei da gravidade,
de modo que não reste dúvidas quanto ao que está realmente
por trás deles. A propósito, essa chuva de pedras, ou até mesmo
de pequenos animais como rãs ou peixes, não é rara — ela
acontece em algum lugar deste país mais ou menos uma vez por
semana.
“E não serão apenas objetos caindo: uma dúzia de outras
ocorrências sobrenaturais estará acontecendo dentro da
residência exatamente ao mesmo tempo. E enquanto esse show
de fenômenos exteriores está acontecendo, um ataque
semelhante, de caráter subjetivo, será lançado contra as próprias
pessoas. Coisas pavorosas, como crianças inocentes se
transformando em monstros sórdidos com força sobre--humana.
Ou adultos envelhecendo de repente, da noite para o dia, ou
assumindo as feições dos mortos. E, em muitos casos, esses
efeitos não são totalmente reversíveis. Sim, essas coisas
acontecem! Isso é muito real, algo seriíssimo. Quando forças
demoníacas são as responsáveis por uma perturbação,
normalmente, vidas são arruinadas.”
Quando os Warren são chamados a investigar uma possível
presença demoníaca, que procedimento usam para determinar a
natureza do espírito presente?
“Quando nos encaminham um caso”, responde Ed, “em geral é
por meio de autoridades eclesiásticas.
Depois de tomarmos conhecimento do problema, contatamos de
imediato os principais envolvidos.
Naturalmente, o fator tempo é essencial. Estamos lidando com
algo que é bem capaz de provocar ferimentos ou até mesmo a
morte.


“Ao chegarmos ao local dos fatos, eu me sento com a família e
faço um interrogatório completo. Essas entrevistas são gravadas.
Tenho milhares de casos gravados. Geralmente, falo muito pouco
para que as pessoas tenham que me dizer o que vivenciaram.
Fico atento a certas pistas e características que distinguem a
atuação do espírito demoníaco de outros tipos de fenômenos.
“Vou querer saber, por exemplo, quando a família vivência a
atividade. A maioria dos problemas espirituais ocorre durante a
noite, depois que o sol se põe. A família notou odores estranhos
na casa ou rápidas variações de temperatura? É comum que um
espírito projete odores para sinalizar a sua presença, ou absorva
energia do cômodo, deixando-o muito gelado. Eles ouviram
barulhos que sugerem a presença de um estranho na casa?
Portas que batem sozinhas, sussurros, respirações pesadas e
luzes que se acendem e apagam por si mesmas são fortes
indicações de uma presença espiritual. A família é acordada em
horários específicos da noite? Muitas vezes, um espírito vai
recriar a sua própria tragédia no mesmo horário, todos os dias,
normalmente no instante em que sua vida física chegou ao fim. A
família tem medo de entrar em alguma área ou cômodo
específico da casa? Um espírito humano tende a permanecer em
um cômodo que lhe era familiar em vida; um espírito inumano
habitará uma área da casa que ele considere mais hospitaleira
em termos psíquicos.
“Se a resposta for sim a várias dessas perguntas, vou adiante e
pergunto se eles usaram um tabuleiro Ouija. Essa é a forma mais
comum pela qual espíritos negativos são atraídos. Eles
realizaram uma sessão espírita? Aqueles que incentivam
entidades invisíveis a entrar na sua casa costumam atrair
espíritos de
uma espécie que nunca imaginaram existir. Eles realizaram
rituais satânicos ou de magia negra? As pessoas riem da história
de vender a alma ao diabo, mas o triste fato é que isso pode ser
feito — e, aliás, com muita facilidade. Alguém da família esteve


em uma casa mal-assombrada? Uma pessoa que demonstre
interesse suficiente para entrar em uma casa verdadeiramente
mal-assombrada está propensa a trazer consigo, para a própria
residência, um espírito desesperado. Eles vêm tendo sonhos
bastante realistas ou pesadelos ameaçadores que, depois,
acontecem? Muitas vezes, o súbito conhecimento de eventos
futuros é sinal de uma presença espiritual. Os espíritos
costumam se comunicar com as pessoas por sonhos, estado em
que o inconsciente está aberto e receptivo. Eles mataram
alguém, por acidente ou de outra forma? O túmulo não é o fim, e
um fantasma em busca de vingança por uma morte prematura é,
às vezes, capaz de exigir uma forma própria de justiça. Algum
membro da família esteve em contato com alguém que esteja
possuído ou realize rituais de ocultismo com frequência? É muito
comum que indivíduos possuídos ou envolvidos com as artes
negras estejam cercados por uma multidão de espíritos.
Uma pessoa vulnerável que tenha contato com um indivíduo
possuído — ou até mesmo com um amador no trato com o oculto
— corre o risco de se colocar sob a influência de espíritos, quer
tal influência seja desejada ou não. Alguém da família sabe se foi
amaldiçoado? Isso parece superstição, mas já lidei pessoalmente
com dúzias de casos em que pessoas foram amaldiçoadas ou
esconjuradas por outras de forma metódica. Um dos piores casos
de possessão já registrados pela Igreja Católica Romana nos
Estados Unidos ocorreu na década de 1920, quando um pai
amaldiçoou a própria filha para que fosse atormentada pelo
diabo.
“Depois que certas perguntas são respondidas”, continua Ed,
“peço que a família explique os fenômenos que ocorreram. Eles
viram objetos se mover ou levitar? Se me dizem que um
refrigerador levitou, sei que isso está além do poder da PK
humana. Eles viram coisas desaparecer? Viram objetos
atravessar paredes? Substâncias, objetos ou animais se
manifestaram misteriosamente? Depois de uma hora fazendo
essas perguntas, vou saber se as pessoas estão ou não sendo


honestas; se a atividade é aleatória ou proposital; se há uma
inteligência por trás dos fenômenos e se essa inteligência é de
origem humana ou demoníaca."
Quando chamados a investigar um caso típico em que eventos
estranhos estão acontecendo, os Warren trabalham sozinhos ou
há outras pessoas presentes para testemunhar a perturbação?
"Em primeiro lugar”, diz Lorraine, “não existe essa coisa de um
‘caso típico’: cada caso é diferente e tem a própria dinâmica
peculiar. Quanto a testemunhas, na maioria das vezes, além de
Ed, eu mesma e os principais envolvidos, outros indivíduos veem
a atividade. Às vezes, Ed e eu de foto acabamos sendo as
primeiras pessoas de fora a chegar ao local dos fenômenos mas,
depois de feitos os preparativos para começarmos uma
investigação, trabalhamos com diversos assistentes muito
capacitados. Por exemplo, o principal assistente de Ed é um
rapaz muito versado de nome Paul Bartz. Ele já está conosco há
muitos anos e tem sido frequentemente exposto a atividade
demoníaca. Além disso, costumamos chegar com um fotógrafo
que estará ali para fotografar a atividade à medida que ela
ocorre, bem como quaisquer formas espirituais que possam ser
capturadas em filme. Nos raros casos em que é necessária a
comunicação com a entidade, um médium de transe profundo
também pode nos acompanhar. Se espíritos inumanos parecem
estar por trás da perturbação, então Ed em geral traz consigo um
padre ou acólito que queira ter uma experiência em primeira mão
com fenômenos demoníacos. Posteriormente, se a atividade
estiver sendo provocada por poderes inumanos, um clérigo local
e um exorcista estarão presentes como testemunhas.
“No entanto, também é preciso lembrar que, antes de
chegarmos, amigos, vizinhos, parentes, policiais, parapsicólogos,
psicólogos e pesquisadores de fenômenos psíquicos podem já
ter testemunhado a atividade na tentativa de ajudar a determinar
o que está por trás do problema. Como a última coisa que as


pessoas costumam pensar é em espíritos, Ed e eu somos,
portanto, os últimos a serem chamados.”
Existe alguma forma especial pela qual esses casos começam —
quero dizer, os piores?
“Essa é uma pergunta muito genérica”, responde Lorraine, “mas
deixe-me respondê-la desta maneira.
As emoções em uma casa tendem a desencadear os fenômenos.
Desse modo, um lar feliz é a melhor proteção contra intrusos
invisíveis. Como regra, fantasmas não tendem a ser felizes; eles
normalmente vão se manifestar para alguém com que possam se
identificar emocionalmente. O mesmo se aplica a espíritos
inumanos — com a ressalva de que, nesses casos, as emoções
teriam que ser muito intensas para atrair uma entidade
demoníaca negativa. Contudo, em muitíssimos dos casos que
temos investigado, os fenômenos foram convidados a entrar.
Pessoas que pensavam que o sobrenatural fosse inofensivo ou
que não acreditavam na sua existência trouxeram a atividade
para as suas vidas por livre e espontânea vontade!”
Um aspecto particularmente impressionante dos fenômenos
demoníacos é que o espírito demoníaco de fato apela para a
violência quando exposto a artefatos religiosos, a recitações de
orações ou a referências a Deus ou a Jesus Cristo. Como explica
Ed, é por isso que o estudo das forças demoníacas é um assunto
religioso, não científico.
“O assunto não é religioso porque eu digo que é religioso ou
porque eu quero acreditar que seja verdadeiro”, declara Ed. “Digo
que o fenômeno é religioso porque é a esse poder que ele — o
espírito demoníaco — responde. As pessoas podem não
acreditar em Deus, mas esses espíritos acreditam.”
Existe outra maneira de compreender o espírito demoníaco
inumano exceto em um contexto religioso?


“Em última análise, a resposta é não. Você acha que não percorri
essa mesma linha de raciocínio?”, indaga Ed. “Você pode chamar
o fenômeno de poltergeist, como faz o cientista, mas quando o
espírito começa com a sua ação profana, esse rótulo se desfaz
bem depressa. Simplesmente não há uma explicação secular —
ou seja, não religiosa — para a existência desses espíritos.”
Ed e Lorraine Warren dão palestras ao público — e a grupos
profissionais que se ocupam de fenômenos espirituais — há
pouco mais de Fuma década. Em 1968, quando os Warren
fizeram sua primeira palestra pública, Ed e Lorraine já haviam
dedicado mais de 22 anos à pesquisa e ao estudo dos
fenômenos sobrenaturais. Contudo, eles não faziam ideia de que
pessoas comuns tinham interesse em ouvir sobre suas
experiências. Para grandes plateias, ponderavam Ed e Lorraine,
o assunto em pauta era demasiado assustador. Além disso,
apenas aqueles que haviam vivenciado os fenômenos teriam
interesse no tema. É muito melhor deixar essas questões para lá.
“Não exatamente”, argumentou o chefe de um comitê local de
bolsas de estudo. “Por que não trazem uma dúzia das suas
pinturas de casas mal-assombradas para a prefeitura e, então,
dão uma palestra no dia da Exposição Artística de Jogos de
Chá? O dinheiro dos ingressos daria um verdadeiro impulso à
campanha de bolsas de estudo.”
Em um gesto em prol da comunidade, os Warren concordaram.
No dia marcado, suas pinturas foram expostas, uma ao lado da
outra, em cavaletes ao longo do palco. Nervoso, Ed Warren,
munido de um ponteiro, esclareceu os detalhes insólitos de cada
caso diante de uma plateia lotada. A palestra prosseguiu por bem
mais de uma hora.
No final, os Warren conseguiram levantar dinheiro suficiente para
bancar não uma, mas duas bolsas de estudos naquele dia 7 de
setembro de 1968 — aniversário de Ed Warren.


Embora as pessoas estivessem interessadas em ouvir histórias
de fantasmas, Ed e Lorraine Warren acabaram percebendo que
não podiam talar abertamente sobre fenômenos demoníacos. O
tema era impopular: ele parecia envolver paradoxos e
superstição — e desagradou às sensibilidades da época.
Nem todos estavam preparados para aceitar o que os Warren
tinham a dizer. Então, por alguma estranha razão, tudo isso
mudou de repente.
"Em 1970", explica Ed, “quando começamos a palestrar em
faculdades, comecei a ficar insatisfeito, indignado até, com as
apresentações. Lorraine e eu presumimos sinceramente que
pessoas mais instruídas quisessem saber toda a história sobre o
tema dos fenômenos espirituais. Mas, naquela época, todos
estavam em busca da ‘verdade’, só que tinha que ser um certo
tipo de verdade que estivesse de acordo
com os preconceitos em voga.
"Enquanto falávamos sobre casas mal-assombradas e
fantasmas, as pessoas ficavam satisfeitíssimas.
Quando tínhamos que mencionar espíritos demoníacos,
demonologia, o diabo — ou pior, se citávamos Cristo, padres, ou
religião —, uma onda de animosidade emergia da plateia, como
se alguém tivesse apertado um interruptor. A hostilidade às vezes
era tão intensa que não conseguíamos sequer prosseguir.
Embora muitos estivessem acompanhando o que estávamos
dizendo, outros se levantavam e iam embora.
Na mesma hora, professores se tomavam especialistas e nos
desafiavam com argumentos irrefletidos sobre a inexistência dos
espíritos. Alguns chegaram a nos dizer que tudo que tínhamos
vivenciado desde a década de 1940 não havia sequer
acontecido! A situação chegou a tal ponto que pensei seriamente
em voltar para o meu estúdio e levar uma vida tranquila como


pintor enquanto trabalhava com pessoas que de fato
precisassem de ajuda em questões espirituais.
“Um dia, no carro, eu disse a Lorraine: ‘Chega. Não vou nem
mesmo mencionar o assunto demonologia de agora em diante.
Se as pessoas querem pensar que a coisa para em fantasmas e
casas mal-assombradas, pois que seja. Não vou expor nosso
trabalho ao ridículo para que algum repórter ressentido consiga
publicar uma história, e não vou deixar que as pessoas
transformem em zombaria o trabalho sério que o clero
especializado faz nessa área’. Lorraine concordou comigo."
“Enquanto eu falava essas coisas, passamos por acaso por um
grande prédio abobadado de uma sede de missão, situado às
margens do rio Hudson. Eu sempre quis entrar naquele local,
então dei meia-volta com o carro e estacionei. Entramos pela
porta da frente e nos vimos em um saguão silencioso e de muito
bom gosto. Um padre já idoso e curvado, com uma bengala,
estava olhando vasos e outros objetos ornamentais chineses
dentro de uma vitrine. Atravessei o saguão e parei ao lado dele.
‘Nossa, padre’, disse eu, ‘essas coisas com certeza vieram de
muito longe.’ Ele tinha um semblante muito sereno, muito belo. O
homem ergueu os olhos para mim e disse: ‘Passei muitos anos
de minha vida trabalhando na China, como missionário’. Com
isso, começamos a conversar. Falei sobre o meu trabalho, e ele
ficava assentindo com a cabeça, como se conhecesse bem tudo
aquilo.
“‘Realizei muitos, muitos exorcismos na China’, disse ele, ‘mas
não conto a alguns padres daqui o que já fiz. Eles não sabem.
Não acreditam.’ Então, ele olhou bem dentro dos meus olhos e
disse: ‘Gostaria que você fosse ver a freira japonesa na biblioteca
do primeiro andar’. “‘Por quê, padre?’, perguntei a ele.
“‘Porque ela tem algo a lhe dizer. Algo que você deveria saber.’
“Lorraine e eu subimos as escadas, entramos na biblioteca e
encontramos a freira. Ela parecia uma mulher muito inteligente,
tinha mais de 50


anos e vestia um hábito preto. Nós nos apresentamos e, então,
contei sobre a conversa que tive com o padre idoso lá embaixo.
Ela sorriu e assentiu do mesmo jeito que ele tinha feito.
“‘Você está muito desanimado com as coisas que vêm lhe
acontecendo ultimamente, sr. Warren’, disse ela, exatamente
assim. ‘Não sinta mais esse desânimo. O trabalho que está
fazendo tem um propósito. As coisas vão mudar para você muito
em breve. Antes do que imagina!’ “Então, ela continuou e nos
contou sobre o trabalho dela como freira e suas experiências
com exorcismos pelo mundo todo. Quando terminou de falar, ela
me deu um livro muito erudito sobre demonologia religiosa e
exorcismo. O livro veio a ser importante para mim
posteriormente. Porém, daquele dia em diante, quando saíamos
para dar as palestras e acabávamos falando às pessoas sobre a
existência das forças demoníacas, não houve mais
ridicularização. Foi como se um enorme peso tivesse sido tirado
das minhas costas. De repente, as pessoas passaram a ter
interesse naquilo que estávamos dizendo e começaram a fazer
perguntas sérias.
Foi uma grande reviravolta. E agora, hoje em dia, o assunto
desperta um interesse tremendo.”


CONJURAÇÕES NO NATAL
Em meados de maio de 1978, os narcisos já floresciam, mas a
primavera ainda não havia chegado a Connecticut. Lorraine
planejara passar o sábado, dia 13, plantando cóleus no jardim do
seu quintal, mas tempestades de vento atingiram o estado,
seguidas de cinco dias de fortes chuvas. A condição climática foi
o encerramento adequado de uma semana em que nada havia
dado certo. Na realidade, tensões vinham se acumulando em
torno de Lorraine desde o início do mês, e ela sabia que algo
logo teria que eclodir.
Com uma chuva torrencial que açoitava a casa, os Warren
passaram aquela tarde de sábado planejando o itinerário da sua
iminente viagem para a Inglaterra. Como seu trabalho


frequentemente os levava ao Reino Unido, os Warren acabaram
adquirindo um conhecimento especializado também dos locais
mal-assombrados britânicos e, por causa disso, haviam sido
convidados a apresentar uma palestra a bordo do Queen
Elizabeth II, em junho. Ao chegarem à Inglaterra, eles passariam
dois dias em Londres, cumprindo compromissos de entrevistas à
BBC, e, em seguida, viajariam a Yorkshire, Edimburgo, às terras
altas escocesas próximas do lago Ness e do Stonehenge antes
de regressar a Southampton, em julho, para dar uma palestra na
viagem de volta do navio.
Após terem feito algum progresso nos seus planos sobre o Reino
Unido naquela tarde, os Warren saíram para jantar. Retomando
pouco depois da meia-noite, Lorraine verificou as ligações
registradas na secretária eletrônica: havia uma mensagem de um
amigo de Los Angeles; em seguida, um telefonema da sua filha
Judy, que estava de férias na Virgínia; depois, a solicitação de
um rapaz para marcar um horário com Ed; e, por fim, uma
estranha sequência de cliques e zumbidos incomuns, seguida da
voz aflita de uma desconhecida:
“Espero que consigam me ouvir. Meu nome é Foster, sra. Sandy
Foster. Não sei exatamente o que aconteceu aqui", disse ela,
com a voz à beira do descontrole, “mas meus filhos ficaram
assustados e... e...
e foram perseguidos por alguma coisa...” Hesitação. Em seguida:
“E tem alguém ou alguma coisa na casa, lá em cima, no quarto
de uma das crianças. Por favor, liguem de volta assim que
puderem”.
Ed e Lorraine ouviram em silêncio enquanto a mulher angustiada
dava seu endereço e número de telefone. Embora já fosse 0h40,
Lorraine prontamente tentou retomar a ligação. “Quando um caso
nos é encaminhado”, explica Ed, “entramos imediatamente em
contato com a pessoa ou a família que está tendo problemas. Se
nos parecer necessário entrar no caso, então ofereceremos
ajuda. Dizemos à família que não cobramos pelo nosso tempo,


mas que precisamos ser reembolsados pelas despesas básicas
[como tarifas aéreas, quartos de hotel e assim por diante].
Esclarecido isso, agendamos uma visita para acontecer o mais
depressa possível. Em geral, já estamos a caminho dentro de
uma ou duas horas.”
O telefone da sra. Foster chamou inúmeras vezes mas, em
seguida, a conexão caiu. Lorraine desligou e discou de novo.
Dessa vez, parecia que alguém havia atendido, mas o telefone
continuava a chamar. Na terceira tentativa de contatar o número,
Lorraine teve o mesmo resultado frustrante.
Sem saber o que fazer, Lorraine discou para a operadora de
telefonia, que então discou o número e teve exatamente o
mesmo problema. Por sua vez, a operadora chamou a
supervisora dela, que ouviu à explicação de Lorraine de que
estava tentando retomar a ligação de uma pessoa aflita.
Compreensiva e solícita, a supervisora submeteu a linha a
diversos procedimentos de testes eletrônicos, mas em vão. Ela
admitiu estar intrigada: “Não há nada de errado com o telefone
receptor; sua ligação deveria ser completada”. Todavia, os
Warren não conseguiram contatar a mulher naquela noite.
Como bem sabem Ed e Lorraine, o que aconteceu ao telefone
dos Foster não era incomum. Na verdade, essa espécie de
artificio eletrônico era clichê quando um espírito maligno estava
atuando. Interferências, obstruções, confusão — táticas para
ganhar tempo — são rotineiras para um espírito determinado e
dotado da habilidade de manipular variáveis físicas e metafísicas.
Na manhã seguinte, domingo, 14 de maio, os Warren foram de
carro até a igreja. No caminho, um intenso fedor rançoso de
excremento espalhou-se pelo veículo. Então, na metade da
celebração, o mesmo odor pútrido psiquicamente projetado
assaltou os sentidos do casal. Mais uma vez, quando voltavam
para casa, no carro, ficaram nauseados devido a um fedor


repugnante. Contudo, Ed e Lorraine não o associaram ao caso
demoníaco que estavam prestes a investigar naquela tarde.
Quando os Warren chegaram da igreja, Lorraine telefonou de
imediato para a família Foster. A sra.
Foster atendeu ao telefone no segundo toque. Lorraine contou-
lhe sobre a dificuldade que teve para entrar em contato na noite
anterior. “O telefone estava funcionando normalmente”,
respondeu a mulher, “mas não tocou depois da meia-noite. Sei
disso porque estava esperando a sua ligação.” O problema com
o telefone perturbou ainda mais a mulher e, por isso, Lorraine
marcou um horário para visitar a família naquela tarde.
Às 14h, os Warren já haviam chegado à residência dos Foster. A
residência da família era uma típica casa ao estilo Cape Cod em
uma área arborizada e na qual, Ed e Lorraine vieram a descobrir,
a família já morava havia treze anos.
Todos os membros da família estavam presentes naquela tarde.
Al Foster, guarda-fios de uma empresa de telefonia, era um
homem de t 35 anos e aparência jovial. Sua esposa, com quem
Lorraine havia falado ao telefone, tinha a mesma idade do
marido, mas parecia exaurida e perturbada. Todavia, eles não
tinham testemunhado os fenômenos. Tudo fora vivenciado pelos
três filhos do casal: Meg, de 15 anos; Joel, de 14; e Erin, de 11
anos.
Ed ajeitou a sua aparelhagem de gravação em uma mesa
próxima enquanto Lorraine pedia permissão para caminhar pela
casa. Quando os Warren trabalham juntos, Lorraine normalmente
investiga a propriedade usando sua clarividência enquanto Ed
entrevista a família. Ela começa pelo porão e segue até chegar
aos andares superiores, parando em cada cômodo da casa. Uma
vez que a clarividência é uma habilidade sensorial como os
outros cinco sentidos, Lorraine não consegue evitar o
recebimento de impressões psíquicas, assim como não poderia


recusar-se a ver ou ouvir. Portanto, se existe uma presença
espiritual em 1 uma casa, são muito grandes as chances de que
ela a perceba.
Quando ela saiu da sala, Ed deu início a uma extensa entrevista.
O sr. e a sra. Foster deixaram claro que não haviam vivenciado
nenhum dos fenômenos a que os seus filhos se referiam. “Mas
imagino”, disse a sra. Foster, “que isso seja provavelmente culpa
minha, pelo menos a partir do pouco que sei sobre o assunto.
Meg sempre se interessou pelo oculto — bruxaria, feitiços, esse
tipo de coisa. Ela tem uma pequena biblioteca, mas nenhum dos
livros era sobre conjurações. Então, no último Natal, comprei um
livro de conjuração de demônios e o dei de presente para ela. Eu
sinceramente não imaginei que nada parecido com isso fosse
acontecer.”
“Tudo bem”, disse Ed, voltando-se para Meg. “Onde está o livro?”
“Lá em cima”, respondeu a garota.
“É um livro de capa brochura. Ele explica como conjurar algo
como 75 demônios diferentes. Descreve o ritual correto e explica
o débito que você tem que pagar se o ritual der certo.” “E você
realizou algum dos rituais?”
“Sim.”
“Quais demônios você tentou conjurar?”
“Quais?”, repetiu ela. “Não sei. Só fiz alguns dos rituais fáceis,
aqueles que consegui entender e para os quais eu tinha o
material necessário. Mas quando realizei os rituais, nada
aconteceu. Então, parei.”
“Às vezes, a resposta vem dias, semanas, meses ou até anos
mais tarde”, informou-lhe Ed. “Conte-me o que aconteceu a você
essa semana. Você teve problemas, creio eu.”


“Duas vezes”, disse Meg.
“Quem estava aqui quando aconteceu?”
“Joel, Erin e eu”, respondeu ela. “A primeira vez foi na última
quinta-feira. Papai e mamãe tinham saído para ir à casa de um
amigo. Ficarmos em casa porque tínhamos aula no dia seguinte.
Erin e Joel já estavam na cama. Eu tinha acabado de tomar
banho. Desci para verificar se as portas estavam trancadas.
Também desliguei o rádio e as luzes daqui de baixo antes de
voltar lá para cima.
“Quando cheguei ao meu quarto, ouvi barulho de água correndo
no banheiro. Não dei atenção àquilo, a princípio, mas, alguns
minutos depois, segui pelo corredor até o banheiro e vi que todas
as torneiras estavam abertas. Eu as fechei. Então, ouvi o rádio
ligado outra vez aqui embaixo. As luzes também estavam
acesas! Eu gritei: ‘Quem está aí?’, mas ninguém respondeu.
Antes de descer de novo, olhei dentro do quarto de Erin. Ela
estava dormindo na cama. Olhei no quarto de Joel também, mas
ele ainda estava acordado. Perguntei se ele tinha ligado o rádio
aqui embaixo. Ele respondeu que não. Então, desci, apaguei as
luzes e desliguei o rádio pela segunda vez.
“Quando voltei lá para cima, ouvi água correndo no banheiro de
novo! Fiquei louca de raiva, porque eu tinha certeza de que era
Joel que estava fazendo aquilo. Só que, quando saí do banheiro,
o rádio estava ligado no volume mais alto e todas as luzes daqui
de baixo estavam acesas! Entrei no quarto de Joel e disse: Tem
alguém na casa’.”
“Joel, você ouviu o rádio?”, perguntou Ed.
“Sim, ouvi, mas não dei importância”, respondeu ele.
"Você abriu as torneiras?”, indagou Ed depressa, na esperança
de pegar o garoto de surpresa.


“É claro que não!”, respondeu o menino. “Eu nem sequer sai da
cama.” “Tudo bem. Meg", disse Ed,
“por favor, continue.”
“De lá de cima, ouvi que o rádio estava trocando de estações,
então desci depressa outra vez, achando que os meus pais
talvez estivessem em casa. Quando cheguei aqui em baixo
dessa vez, o botão de sintonização do rádio estava se movendo
sozinho de lá para cá. Fiquei ali observando, e foi então que
comecei a ficar apavorada. Desliguei o rádio e apaguei as luzes
de novo, mas quando eu estava subindo as escadas, na metade
do caminho, senti uma mão muito gelada tocar o meu ombro,
apenas por um segundo, no escuro. Eu quase gritei, mas me
contive. Fui direto para o meu quarto, fechei a porta e apaguei a
luz. Mas, antes de me deitar na cama, ouvi o som de passos,
como se alguém estivesse saindo do meu quarto, passando para
o corredor. Acontece que a porta não se abriu!”
"Você não achou que essas coisas eram estranhas?”, perguntou
Ed.
“Claro que achei”, disse Meg. “Eu estava morrendo de medo!”
“Erin, você ouviu o rádio?", perguntou-lhe Ed.
“Não, eu estava dormindo”, respondeu a garotinha.
“Diga, Meg, mais alguma coisa aconteceu depois que você ouviu
os passos saindo do seu quarto?”
“Sim, muitas! Quando alcancei a cama, eu me deitei e fechei os
olhos. De repente, ouvi uma porta aqui no térreo bater muito
forte. Depois, ouvi móveis sendo empurrados de um lado para o
outro e se quebrando, como se estivessem sendo arremessados
por alguém muito furioso. Eu realmente achava que tinha uma
pessoa na casa, mas estava apavorada demais para fazer
alguma coisa, então só fiquei ali, de olhos fechados. Mas, apesar


de estar com os olhos fechados, eu conseguia ver o meu quarto
inteiro através das minhas pálpebras! Abri os olhos, mas nada
estava diferente. Então, fechei os olhos outra vez.
Daí — através das minhas pálpebras — vi uma luz prateada sair
do bosque e flutuar para dentro do meu quarto. E ela também
estava lá quando abri os olhos. Depois disso, só sei que alguma
coisa — a mão de alguém — deu três puxões no meu cabelo.
Cada vez ela puxava mais forte, até que, na terceira, meus olhos
se encheram de lágrimas. Então, gritei e corri para o quarto de
Joel.”
“Joel”, indagou Ed, “você ouviu todo esse barulho aqui embaixo?”
“Ouvi”, respondeu ele.
“Por que não fez nada?”
“Eu estava com muito medo”, admitiu o garoto.
“Boa resposta”, disse Ed. “Erin, você ouviu alguma coisa?”
“Ouvi os móveis sendo jogados, e quando Meg gritou, eu
também fui para o quarto de Joel.”
“Mais ou menos que horas aconteceu tudo isso?”, questionou Ed.
“Isso é o mais esquisito”, contou Meg. “Eram mais ou menos
22h30 quando saí do chuveiro, mas o relógio no meu quarto
estava três horas adiantado. E quando fui para o quarto de Joel,
o relógio dele estava três horas atrasado.”
“Certo. Depois que você foi para o quarto de Joel, os barulhos
pararam?” “Tudo ficou ainda mais alto”, disse Meg.
“Vocês ouviram qualquer outro som na casa naquele momento?
Pancadas nas paredes? Vozes?
Batidas?”


“Não, apenas portas batendo, passos e móveis sendo
arremessados”, disse Joel.
“O que você ouviu, Erin?”
“O mesmo que Joel ouviu.”
“Também ouvi o que, para mim, pareciam sussurros altos”,
declarou Meg.
“Você conseguiu distinguir o que eles diziam?”, perguntou-lhe Ed.
“Não.”
“E os passos?”, prosseguiu Ed. “Eles seguiam para algum lugar?”
“Eles andavam em círculos”, disse Joel. Meg concordou com um
gesto de cabeça.
“Depois que foram para o quarto de Joel e continuaram ouvindo
esses barulhos aqui embaixo”, repetiu Ed, “o que vocês fizeram?”
“Nós discutimos”, respondeu Joel. “Meg queria chamar a polícia,
mas eu não queria deixar, porque sabia que não tinha ninguém
aqui embaixo! Se a polícia viesse, achei que eles poderiam
pensar que estávamos pregando uma peça neles.”
“Por fim, ligamos para a mãe e o pai na casa do amigo deles”,
falou Meg. “Mas, quando eles chegaram, tudo já tinha parado.
Tudo o que eles fizeram foi nos dizer que tínhamos ‘ouvido
coisas’
porque estávamos cansados. Eles não acreditaram na gente!”
“Sra. Foster”, perguntou Ed, “a senhora já viu ou ouviu alguma
coisa estranha nesta casa?”
“Não; como eu disse antes, nunca vi nada. A única coisa
estranha que já ouvi aqui é o pássaro canoro.”


Ela hesitou. “Por anos, tivemos um grande pinheiro do lado de
fora da janela do nosso quarto. Alguns meses atrás, cortamos a
árvore. Mas, agora, toda noite, nas últimas três semanas, Al e eu
ouvimos um pássaro canoro cantando do lado de fora da nossa
janela, onde a árvore ficava.”
“Al, você também escutou o pássaro?”, indagou Ed.
“Sim, toda noite”, respondeu ele. “Nunca dei muita importância,
mas pássaros não cantam à noite, não é?”
“Não”, disse Ed. “Normalmente, não. Bem, parece que todos
vocês já vivenciaram coisas estranhas aqui”, resumiu Ed. “Acham
que esta casa é mal-assombrada?”
“Eu acho que é”, disse Meg.
“Eu também acho”, tornou Joel. Erin e a mãe também estavam
inclinadas a concordar.
“Sr. Foster?”, perguntou Ed.
“Bem, eu não sei. Nunca estive presente quando qualquer coisa
desse tipo aconteceu.”
Nesse momento, Lorraine voltou ao térreo. Ela assentiu
discretamente para Ed, com a cabeça, revelando que havia uma
presença espiritual na casa e, em seguida, sentou-se à mesa da
sala de jantar.
Em vez de alterar o clima da conversa, Ed resolveu esperar até
que tivesse todas as declarações da família gravadas para
perguntar a Lorraine as impressões que ela teve.
“Vocês disseram que esses fenômenos aconteceram a vocês
duas vezes”, Ed lembrou as crianças. “O
que aconteceu da segunda vez?”


“A segunda vez foi ontem à noite”, respondeu Joel. “Apenas Meg
e eu estávamos aqui. Aconteceu quase que exatamente a
mesma coisa de quinta-feira. Dessa vez, Meg estava no quarto
dela e eu tinha tomado banho. Quando saí do banheiro, ouvi o
rádio ligado aqui embaixo. As estações estavam sendo mudadas
devagar, e eu gritei: ‘Deixe nesta’. Mas, quando desci as
escadas, não tinha ninguém ali, só o cachorro. Ele estava
rosnando, muito bravo, para alguma coisa na sala. Aquilo foi
muito estranho, porque ele não podia ter ouvido alguma coisa.
Nosso cachorro é surdo! Então, eu me lembrei da outra noite e
corri de volta lá para cima e fui para a cama. Uns cinco minutos
depois, começaram os passos aqui embaixo, fazendo a casa
inteira tremer. E os móveis começaram a ser arremessados outra
vez. Tive medo da primeira vez, mas ontem eu fiquei realmente
apavorado.”
“Você também ouviu isso, Meg?”, perguntou Ed.
“Sim, o mesmo que ele ouviu. Cheguei a gritar, do meu quarto,
para Joel: ‘Você está ouvindo isso?’
Mas ele gritou comigo, reclamando: ‘Cale a boca!’"
“Acho que eu não queria admitir que aquilo estava acontecendo
de novo", reconheceu Joel.
“Quando estava no seu quarto, você viu ou sentiu alguma coisa
estranha?”, indagou Ed.
“Não, nada."
“E você, Meg?"
“Bem, quanto mais medo eu sentia, mais alta ficava a barulheira
aqui embaixo. Da segunda vez, também vi uma nuvem escura,
arroxeada, no meu quarto. Eu não conseguia olhar para ela
diretamente —


só pelo canto dos olhos. Enquanto aquela bola roxa estava no
meu quarto fiquei com os olhos fechados para não poder vê-la.
Pelo tempo que per maneei deitada ali, fechei bem as minhas
mãos. De repente, senti outra mão tentando forçar a minha a se
abrir! Era uma mão bem forte, conto a de um homem adulto.
Ela não conseguiu abrir o meu punho, então puxou o meu braço
e tentou me arrancar da cama. Ela puxou quase metade do meu
corpo para fora da cama antes de eu gritar por socorro Daí, ela
me soltou, e corri para o quarto de Joel.
Ed olhou para Joel. “O que aconteceu em seguida?"
“Meg e eu queríamos ligar para a polícia, ou para os meus pais
ou alguém”, respondeu o garoto, “mas não queríamos sair do
quarto. Meg me contou sobre a mão, e nós dois sentimos que
mais alguma coisa iria acontecer.”
“Como o quê?”
“A gente não sabia”, respondeu o garoto. “Mas sentimos um ar
muito forte de maldade em volta da gente. Não sei como
descrever. De qualquer forma, queríamos sair da casa, mas não
queríamos ter que passar pelo andar de baixo. Meg disse que
era melhor pularmos pela Janela, mas achei aquilo loucura.
Eu disse a ela que iríamos correr para fora. Meg vestiu roupas do
meu armário porque ela não queria voltar para o quarto dela.
Então, abri a porta do quarto. Dava para ver as luzes acesas aqui
embaixo e ouvimos os passos pesados pela casa. Mas não
demos a mínima, apenas queríamos sair: então, decidimos sair
correndo para fugir daqui.”
“Saímos para o corredor, mas nada aconteceu”, disse Meg, “só
que o andar inteiro estava muito quente, de fazer suar. Então,
descemos as escadas, correndo o mais depressa que
conseguimos, e saímos pela porta da frente.”


“Vocês viram os móveis revirados na sala aqui embaixo?”
“Não, acho que não. Eles estavam fora do lugar, mas não lembro
de ter visto nenhum móvel virado.”
“Você viu, Meg?”
“Eu nem sequer olhei”, admitiu ela.
“A única coisa de que me lembro da parte de dentro da casa”,
prosseguiu Joel, “é que o rádio não estava tocando — estava
chiando, como se estivesse captando estática. De qualquer
forma, saímos da casa e decidimos correr até o campus da
universidade para ligar para alguém. Nunca vou me esquecer
disso. Tinha cachorros lá fora e, quando nos viram correndo,
começaram a correr junto com a gente. Mas, quando chegaram
perto, eles correram para trás! E os pássaros — enquanto
estávamos correndo, o bosque inteiro estava cheio de pássaros
piando feito loucos!” “Isso aconteceu a que horas mais ou
menos?”
“Entre 23h e 23h30, ontem à noite.”
“Além do fato de que pássaros não cantam à noite, houve
alguma coisa esquisita em relação ao incidente? Você notou se
os pios vinham apenas de um lado, talvez da esquerda?”
“É, só do lado esquerdo”, disse o garoto, enfático. “Como o
senhor sabe?” “Não importa agora”, respondeu-lhe Ed. “Apenas
continue contando o que aconteceu lá fora, na rua.”
“Estávamos correndo pela rua, mas tinha alguma coisa
perseguindo a gente, atrás de nós”, prosseguiu o adolescente.
“Aquilo que estava na casa, seja lá o que fosse, tinha nos
seguido. Estávamos correndo na direção do poste, porque
sentimos que estaríamos seguros se conseguíssemos chegar lá.
Mas parecia que não iríamos conseguir chegar à luz. Não


conseguíamos avançar. Era como correr no mesmo lugar. Tinha
algum tipo de campo de força segurando a gente.”
“Se aquela força tivesse alcançado vocês, Meg, o que acha que
teria acontecido?”, perguntou Ed.
“Ela nos alcançou!”, disse a garota. “Era pesada e tentou forçar a
gente de volta pela rua. Se não tivéssemos alcançado a luz, ela
teria matado a gente.”
“Por que diz isso?”
“Porque não tinha ar para respirar”, respondeu ela.
“De alguma forma", recordou Joel, “conseguimos chegar ao
poste de iuz. Dali, dava para ver a casa.
Não estávamos tão longe assim. O barulho dos pássaros tinha
diminuído bastante. Debaixo da luz, nós nos sentimos mais
seguros; pelo menos já não sentíamos a pressão nos
empurrando. Mas parecia que a lâmpada estava enfraquecendo,
então decidimos correr sem. parar até chegarmos ao campus.
Assim que saímos da luz, porém, os guinchos da passarinhada
ficaram ainda mais altos que antes. Aquilo nos deixou
apavorados. Mas corremos, e continuamos correndo o máximo
que podíamos até que chegamos ao cruzamento onde estavam
os carros. Foi a primeira vez que nos sentimos a salvo. Então,
caminhamos pela estrada até que encontramos uma loja ainda
aberta. Eu tinha uma nota de um dólar e a trocamos ali.
Depois, fomos até o campus e encontramos um telefone. Os pés
de Meg estavam cobertos de bolhas, por estar usando meus
sapatos. Ela se sentou no vão de uma porta enquanto eu ligava
para os nossos pais.”
“Vocês tiveram algum problema para fazer a ligação?”,
interrompeu Lorraine.


“Não, senhora”, respondeu Joel. “Consegui falar com eles e
contei o que tinha acontecido, mas eles disseram que estávamos
sonhando e que era melhor voltarmos para a cama”, respondeu o
garoto, um pouco irritado. “Eu disse a eles que não estávamos
em casa — que estávamos no campus e que não voltaríamos
para casa! Enquanto eu estava falando, vi um policial do campus
encostar a viatura e começar a conversar com Meg. Mamãe me
disse para pedir que ele nos levasse para casa, que eles nos
encontrariam lá. Depois disso, não aconteceu mais nada — pelo
menos não até agora.”
O restante da família permanecia sentado, em silêncio, cada um
absorvendo aquela história estranha e inacreditável que as
crianças haviam relatado.
Ed, então, perguntou sobre as impressões de Lorraine. “No
térreo”, informou ela, “senti apenas uma camada de vibrações
negativas. No entanto, parece realmente haver alguma coisa lá
em cima, no quarto de uma das crianças. Não tenho certeza de
qual. Quando estive no quarto de Joel, senti uma atmosfera de
confusão intensa se abater sobre mim, como se eu estivesse
bêbada.”
“Sentimos isso também!”, disse Meg, perplexa.
“Essa sensação me fez perder toda a noção de onde eu estava”,
continuou Lorraine. “Quando consegui sair daquele quarto, fui até
a porta do que deduzi ser o quarto de Meg. Ao me colocar junto
daquela porta, senti uma pressão na cabeça e nos ombros, uma
pressão que começou a me forçar a recuar, a descer as escadas.
Decidi não entrar ali. Era uma presença inumana e, ao que me
consta, acredito estar
instalada no quarto de Meg. Você por acaso tem velas pretas de
conjuração no seu quarto?", perguntou Lorraine.
"Sim", tomou Meg, pasma com a pergunta.


Ed olhou para aqueles que estavam sentados à mesa. A família
parecia assustada e impotente. O sr.
Foster provavelmente sentia-se diminuído aos olhos da família
por não conseguir lidar com um problema
— ainda que invisível — que estava acontecendo na própria
casa.
“Se as coisas não tiverem ido longe demais”, disse-lhes Ed, “vou
tentar resolver o problema. Por que vocês não saem e fazem um
passeio de carro hoje? Fiquem fora por mais ou menos uma
hora”, recomendou ele. “E, enquanto estiverem fora, por favor,
não discutam os acontecimentos dos últimos dias, nem sequer
pensem neles. Quando voltarem, então poderemos conversar.”
Eles ficaram contentes em saber que algo podia ser feito. O sr.
Foster conduziu depressa a família pela porta da frente e, em
menos de um minuto, todos já estavam dentro do carro, saindo
dali.
Ed e Lorraine permaneceram dentro da casa. Eles sabiam que as
crianças não poderiam ter inventado a história: ela continha
muitos detalhes específicos, mais que suficientes, os quais
apenas pela experiência era possível conhecer. Na realidade,
nada do que as crianças disseram era novidade para Ed e
Lorraine.
Todos os detalhes que elas haviam relatado correspondiam a
atividades demoníacas com que o casal havia se deparado no
passado. No entanto, a tarefa deles agora era identificar a
verdadeira natureza da presença espiritual — a fim de expulsá-la.
Não é sempre que os Warren conseguem determinar a natureza
precisa de um espírito tão somente ao entrevistar as pessoas
envolvidas. “O espírito demoníaco tenta permanecer anônimo”,
explica Ed, “mas, no fim das contas, ele não consegue. O espírito
deixa sinais indicativos de poder preternatural. Por exemplo, tais


espíritos costumam desconsiderar o ambiente físico. Há poucos
anos, estivemos em uma casa onde um operador de câmera de
televisão estava sendo atingido por bolinhas de gude que eram
jogadas nele — saídas diretamente de uma parede! Outras
vezes, o espírito demoníaco cria objetos a partir do nada. Se
sólidas, tais materializações são mornas ao toque, o que indica
algum processo de manipulação de energia. Às vezes, as
materializações se desmaterializam com a mesma rapidez com
que foram criadas; outras vezes, elas permanecem. Tenho uma
coleção desses aportes, como são chamados.”
Tais “aportes" ou substâncias teletransportadas já foram
analisados pela ciência?
“Com certeza”, responde Ed. “Essas provas físicas são
necessárias para documentar a necessidade de um exorcismo.
Sempre que essas substâncias se manifestam em um caso,
recolho uma amostra e a envio a um laboratório para a
identificação dos seus componentes. Os aportes produzidos com
maior frequência são urina, bile, vômito, sangue ou excremento.
Tais substâncias aparecem porque foram teletransportadas para
a residência ou foram sinteticamente compostas pelos espíritos
no comando da atividade. Em geral, esses aportes contêm todos
os minerais, oligoelementos e aminoácidos encontrados na
natureza. Não costuma haver nada de especialmente novo ou
misterioso com relação a eles, exceto o modo como apareceram
ali. Espíritos demoníacos podem ser capazes de fazer coisas
estranhas, mas estão limitados à manipulação do ambiente
físico. Ao contrário do que possam pensar nossos amigos
satanistas, um diabo não é um deus”, diz Ed, com ironia. “Ele não
tem verdadeiros poderes de criação — consegue apenas
rearranjar o que já existe.”
Por que é necessário pedir que a família saia da casa?
“Se as informações que consigo durante a entrevista são
ambíguas, como se não existe nenhum fenômeno visível em
curso”, responde Ed, “então, para determinar se a presença


espiritual é humana ou inumana, preciso recorrer à provocação
religiosa: é uma tática perigosa, mas também reveladora.
Praticamente qualquer coisa pode acontecer nesse tipo de
situação; por isso, se tenho que provocar o espírito, peço para
que todos saiam para almoçar e fico sozinho na casa. Em alguns
casos, Lorraine fica comigo, mas o papel dela não vai além do
discernimento da natureza do espírito. Não há nada que um
clarividente possa fazer contra um espírito demoníaco perverso,
embora existam inúmeras formas pelas
quais uma entidade negativa pode ferir seriamente um indivíduo
‘sensível’. Quando estou sozinho, uso a provocação porque não
sou médium — preciso provocar atividade que eu possa perceber
com meus cinco sentidos, como outra pessoa qualquer. Sempre
levo comigo uma relíquia do padre Pio, para proteção: quanto
mais poder religioso eu agrego, maior é a probabilidade de que
ele seja provocado a responder. Sabendo o que serei obrigado a
enfrentar, muitas vezes eu me sentiria mais confortável
carregando uma chave de roda e um revólver. Porém, não se
pode matar uma coisa que existe desde o início dos tempos.
“Entretanto, quando estou sozinho ali, tudo na casa fica imóvel e
silencioso. Nada parece estar errado.
Se a perturbação está localizada em um local, então, primeiro
vou até essa área. Se a família me disse que não há um local
específico, então apenas vou de cômodo em cômodo, até que
alguma coisa aconteça.
Caso o responsável pelo problema seja um fantasma, ele
normalmente se mostrará a mim enquanto eu estiver percorrendo
a residência. Ele sabe que a brincadeira acabou, e um fantasma
definitivamente não quer se desentender com Deus. Mas, se for
um espírito demoníaco, que jurou odiar a Deus e é repelido pelos
objetos religiosos, então, mais cedo ou mais tarde, as coisas vão
começar a acontecer. A temperatura dentro da casa cairá até que
o lugar fique gelado, ou aumentará a níveis intoleráveis de calor.


Vai surgir um fedor de carne apodrecida ou qualquer outro odor
repugnante. Posso ouvir alguma coisa explodir. Uma voz
ameaçadora, diferente de qualquer voz humana que você já
ouviu, ordenará que eu saia. Pode ser que eu ouça passos —
projetados telepaticamente — correndo escada acima. Isso é
uma manobra para me fazer seguir o barulho, de modo a talvez
ficar encurralado em algum cômodo. Mãos invisíveis podem
rabiscar alguma obscenidade nas paredes, bem diante dos meus
olhos. Outras vezes, nada disso vai acontecer. E, então, quando
eu menos esperar, o espírito trairá a própria presença e
começará a se manifestar às claras. E por que esse processo de
provocação religiosa funciona? É por minha causa? Não.
Funciona porque o espírito demoníaco odeia, estou dizendo,
odeia qualquer menção ao nome de Deus ou o uso de objetos
religiosos. Tal entidade está tão mergulhada em culpa, ódio e
ciúme que a provocação religiosa chega a ser de fato dolorosa
para ela.”
Na residência dos Foster, os Warren trabalharam juntos. Para
fins de provocação, Ed usou um crucifixo e água benta — dois
itens que são anátemas à entidade demoníaca. Descendo ao
porão, Ed espargiu água benta nos quatro cantos daquela área.
Em seguida, ele disse, em voz alta: “Em nome de jesus Cristo,
ordeno que todos os espíritos — humanos ou diabólicos — saiam
desta habitação e nunca retornem”. Os Warren esperaram por
alguma resposta, mas não houve nenhuma.
Por que Ed tem permissão de usar água benta se ele não é um
sacerdote?
“Não é uma questão de ter permissão”, diz Ed. “As pessoas têm
permissão de usar água benta na própria casa. A diferença é que
a água que uso no meu trabalho foi abençoada por certos padres
específicos, que são exorcistas. Essa água é dotada de um
poder positivo muito real Não é a água em si que importa, mas a
piedade que ela representa. Eu apenas uso a água, não a
abençoo.”


No piso térreo, Ed repetiu o mesmo procedimento em cada um
dos cômodos. O processo, conhecido pelo exorcista como
esconjuro, exige que o espírito infestador se manifeste (se estiver
presente) embora.
Tendo “esconjurado” o porão e todos os cômodos do peso térreo,
sem incidentes, os Warren estavam prontos para começar a
trabalhar no andar de cima, onde sabiam que dificuldades
estavam à espreita.
Contudo, enquanto se preparavam para agir, um terror pavoroso
tomou-os de assalto. Para eles, essa emoção telepaticamente
projetada experimentada de forma simultânea por ambos, era
uma indicação da clara de uma presença demoníaca inumana.
“O espírito demoníaco” diz Ed, “projeta terror do mesmo modo
que uma cascavel usa seu chocalho — como um alerta.”
Um cheiro úmido de mofo ergueu-se na sala. De repente, eles
perceberam um lampejo de movimento no alto das escadas. Em
seguida uma porta fechou-se com uma batida — o som
praticamente os tirou do chão. Os Warren pensaram duas vezes
antes de ir adiante. Eles sabiam que qualquer erro de avaliação
da parte deles poderia resultar em um contragolpe de terror que
talvez durasse anos.
Como costuma ocorrer, porém, os Warren decidiram continuar.
Eles começaram a subir as escadas para o primeiro andar. No
entanto não importa o quanto tentassem, nem Ed, nem Lorraine
conseguiam avançar para além da metade das escadas. Uma
força impenetrável í e obstinada fazia pressão para que
voltassem. Segundo Lorraine, "parecia que estávamos andando
mergulhados até os ombros em um rio de correnteza rápida e
forte”. Apesar de muito resistirem, a força exercida contra eles
era impossível de vencer. Devagar, os Warren recuaram,
descendo as escadas para não serem derrubados de costas.
No pé da escada, por um breve instante, soou uma risada
diabólica. Irritado, Ed aspergiu mais água benta no local, o que


fez com que a pressão diminuísse o suficiente para deixá-los
chegar ao topo. O
primeiro andar era todo dividido em quartos. Um longo corredor
estendia-se ali, no sentido do comprimento da casa.
Ed aspergiu o quarto de Erin com água benta e, em seguida,
recitou o comando de expulsão, sem incidentes. Esconjurado
aquele quarto, o casal seguiu para o de Joel. A porta leve, que
estivera aberta antes, agora estava fechada. Ed girou a
maçaneta redonda e empurrou a porta com as pontas dos dedos,
abrindo-a. Para alívio do casal, o quarto estava vazio. Mais uma
vez, Ed realizou o procedimento de esconjuro sem problemas. O
quarto de Meg foi a última parada.
A porta do quarto da filha mais velha também estava fechada. Os
Warren não sabiam o que os aguardava do outro lado. Ed girou a
maçaneta da porta, entreabriu-a e, depois, escancarou-a. Os dois
recuaram de forma involuntária. Havia algo no quarto. Mesmo
invisível, o espírito projetava uma horrível sensação de
infelicidade; era uma emoção absolutamente comovente,
projetada por uma entidade que está condenada à danação
eterna. Não obstante, os Warren eram experientes demais para
reagir a essa manobra emotiva. Não passava de um subterfúgio,
um apelo por comiseração. Em vez disso, com serenidade férrea,
Ed entrou no quarto, empunhando a cruz.
Embora não se pudesse ver nenhuma presença física, o quarto
estava muito gelado. Uma última vez, Ed aspergiu água benta
nos quatro cantos do cômodo. Então, em tom de comando, falou:
“Em nome de Deus, mostre-se agora — ou vá embora”. Fez-se
um longo silêncio. “Dê-nos algum sinal da sua partida”, disse ele,
em voz alta, dentro do quarto vazio, “ou um exorcismo será
realizado aqui ainda hoje” Quase que no mesmo instante, a
mórbida sensação de infelicidade começou a abandoná-los.
Então, a temperatura do cômodo voltou aos poucos ao normal. O
feitiço fora quebrado.


Inspecionando o quarto, os Warren viram por que o espírito havia
adotado aquele cômodo como morada. O quarto de Meg tinha
velas pretas de conjuração, vestimentas para prática de
ocultismo e livros que continham todo tipo de rituais profanos. Ed
colocou os objetos no cesto de lixo da garota, levou tudo para o
corredor e, então, “selou” o quarto com a leitura de uma oração
de santificação recomendada para a situação.
Acabado o trabalho, os Warren desceram outra vez ao piso
térreo. Para eles, aquela longa e tensa tarde de domingo não
precisava ter sido tão desagradável. Olhando pela janela da sala
de estar, Lorraine viu a família Foster sentada no carro, na
entrada da garagem. Ela abriu a porta e acenou para que
entrassem.
“Tudo depende das suas ações futuras”, explicou Ed, depois que
eles entraram. “Quaisquer melhorias que vocês possam ter
pensado em fazer nas suas vidas devem ser feitas agora. Por
certo”, disse ele a Meg, “não deve haver mais nenhum ritual, de
qualquer tipo! Todos os livros de ocultismo e a parafernália de
conjuração que estavam lá em cima, no seu quarto, vão para o
lixo.
“Além disso, recomendo veementemente que vocês peçam a um
clérigo da região para abençoar a casa. Vejam, o que aconteceu
é que, quando a sua filha se meteu com rituais sobrenaturais, ela
de fato atraiu um espírito negativo para dentro da casa. A bênção
precisa ser feita como precaução contra o retorno do espírito. No
entanto, ela será eficaz apenas se vocês mantiverem uma
atmosfera emocional que não atraia esse tipo de entidade para
cá outra vez. Meu conselho é que vocês consigam que essa
bênção seja feita hoje, não amanhã.
“E, acima de tudo”, enfatizou Ed, “sua melhor proteção pelas
próximas semanas e pelos próximos
meses é cultivar interesses positivos como um escudo contra a
negatividade. Se forem religiosos, considerem ir à igreja em


família uma vez por semana, como mostra de sinceridade. Essa
atitude seria um bom começo para neutralizar a força espiritual
que foi atraída para este lugar. Em suma, sua filha fez algo
negativo que agora precisa ser contrabalançado com algo
positivo. Consequentemente, todos vocês estão susceptíveis a
uma repetição desses eventos — a menos que cultivem o desejo
de que isso não aconteça de novo. Lorraine e eu fizemos o que
estava ao nosso alcance. O resto é com vocês.”
Junto à porta da frente, Ed fez um último comentário: “A
propósito, o espírito nessa casa está dormente”, alertou ele, “mas
não foi embora”.
Nesse momento, os óculos de grau de Lorraine elevaram-se da
sua mão à vista de todos, giraram uma vez no ar e, então,
despencaram no chão, quebrando a lente esquerda. Os Foster
observaram atônitos, embora mal compreendessem o que havia
ocorrido naquela residência. Eles foram tão somente vítimas que
haviam tratado o sobrenatural como um brinquedo quando, na
realidade, eles que tinham servido de brinquedo ao sobrenatural.


DE ORIGEM SOBRENATURAL

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