E dizem que o curupira não existe



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E DIZEM QUE O CURUPIRA NÃO EXISTE...

Os protetores são muito mais poderosos que nós, mas como sua bondade é imensa, damos muito trabalho a eles. Há protetores em todo o reino vegetal, animal e até no mineral.

No reino vegetal, temos os gnomos, os curupiras e os duendes. São muitos travessos e gostam de assustar as pessoas que fazem mal à natureza. Dentre eles, um muito comum na nossa cultura é o Curupira.

Certa vez o Curupira estava a passear numa floresta, quando ouviu um barulho de pés. Era um caçador que, com cuidado, estava a espera de alguma caça para praticar seu esporte favorito: caçar.

O Curupira pressentido que o maldoso homem só caçava por prazer resolveu dar-lhe um susto. Era seu prazer favorito assustar os caçadores que assim agem. Disse:

- Zás-trás! E logo virou um bruxo vestido de preto com um tridente na mão, um gorro verde na cabeça e grandes dentes da cor do gorro, num sorriso maroto.

O pobre homem, ao ver tão espalhafatosa criatura, deu um grito de horror e caiu semi-desmaiado, deixando cair sua espingarda.

O Curupira aproveitou o momento e escondeu a espingarda, enquanto se escondia atrás de uma árvore a morrer de rir.

Daí um tempo, o homem voltou do desmaio, meio atordoado, e olhando a sua volta, tentou lembrar-se do que havia ocorrido, porque ele estava ali no meio da mata caído. Sentou-se e, olhando de um lado para o outro, foi se lembrando que estava ali para atirar em uma jaguatirica. Mas, disse:

- Onde está minha espingarda? Meu Deus! Agora me lembro bem! Uma criatura horrível apareceu justamente no momento!

Tremendo, olhou para todos os lados e nada viu de assustador; nada ouviu de estranho, entretanto, não encontrou sua espingarda em lugar nenhum. Quando pensou nela, tornou a se lembrar da criatura e, como um raio saiu correndo em disparada, pensando:

- Vou sumir! Aquela criatura roubou minha espingarda. Se eu ficar aqui por perto, logo serei morto, perna para quem tem!

Quando conseguir sair da mata, olhou para si e verificou que suas roupas estava toda esfarrapadas por se enroscar em cipós e em galhos secos. Seu corpo todo estava com machucados sangrando.

- Meu Deus! Será que enlouqueci? Como fazer para chegar em casa e ninguém desconfiar de nada? Pois tenho certeza! Se eu contar essa história, todos vão me chamar de louco.

Assim, pensando em tudo o que havia acontecido consigo naquela mata, no estado em que se encontrava, tanto físico como moralmente, ele foi andando e Tibum! Caiu num riacho que por ali passava!

O coitado do homem, sem muito poder se mover, devido as dores que sentia nos arranhões do corpo, consegui se sentar no meio do riacho, que não era muito fundo.

Agora complicou mais! Pensou. Além de machucado, em farrapos, todo molhado e enlameado! Tristemente olhou para o alto. Outro susto o esperava! À sua frente, em figura alegre, estava o Curupira!

- Oh! Gritou ele. Então tudo o que me aconteceu é por sua culpa! Eu sempre ouvi falar de você, mas nunca acreditei!

- Sei que você protege os animais e as plantas na mata, mas eu só estava passando o tempo. Conte-me se você me viu em algum lugar antes?

O Curupira, que estava com sua postura normal de homenzinho de pés tortos, quase nu e com uma cabeleira sobre os ombros, sorriu e disse:

- Sim! E com um sorriso maroto, mostrou-lhe a espingarda.

O homem quase teve outro desmaio, mas agora, ao ouvir a voz do novo “amigo”, não sentiu muito medo; mas mesmo assim, abaixou-se mais procurando um lugar para onde correr.

Enquanto pensava, disse com delicadeza:

- Senhor Curupira! Essa espingarda é uma relíquia. Ganhei de meu querido avô! Por favor, promete que não vai me fazer mal, pois ouvi dizer que você tem bom coração. Então, coloque minha espingarda no chão e vamos fazer um acordo?

O Curupira que o olhava desconfiado, cedeu, após olhá-lo de cima em baixo. Colocou a espingarda no chão e sentou-se à beira do riacho.

O homem, que estava lívido de medo, quando viu essa cena, tentou descontrair-se e perguntou a ele:

- Senhor Curupira, é verdade que você vive aqui na mata? Passa todos os dias vigiando-a? O que você come? Como consegue correr tanto, como dizem?

O Curupira, olhando torto para ele, sem tirar os olhos da espingarda, respondeu:

- Eu tenho minha vida! Não gosto de falar dela. Quando a gente se dispões a ser protetor, é melhor falar pouco e agir mais!

Quando o homem ouviu isso, arregalou os olhos, e, sem saber o que fazer, tentou novamente:

- Bem... está bem! Eu estou com frio, preciso ir embora, você pode me ajudar? Já que você é protetor dos animais e da mata, eu me considero um animal também, pode me proteger?

- O Curupira respondeu simplesmente:

- O que eu ganho com isso? Vi mesmo que você queria atirar na Jaguatirica, minha amiga em extinção!

O homem pensou, pensou... e, em desespero disse ao Curupira:

- Eu prometo trazer, todas as vezes que eu for a uma festa, algo de bom e deixar debaixo de uma árvore para você! E nunca mais venho na floresta. (Uma deixa)

O Curupira, com seu olhar torto, sorriu do jeito do homem e, dando três pulos para cima, girando no ar, pisou com seus pés torto no chão e soltou 3 espirros:

- AChã! AChã! AChã!

Quando parou, foi que o homem viu um “embornal” ao seu pescoço, em tiracolo. Não sabia dizer se já estava ali, mas ficou olhando e ainda tremendo.

O Curupira, sem tirar os olhos do homem, foi tirando umas roupas de dentro. Eram roupas à moda caipira, com listas e remendos. Pisou em cima da espingarda e entregou as roupas ao homem. Quando esse as segurou em suas mãos, viu que eram como feitas para ele. Não pensou duas vezes, saiu rápido do riacho e tilintando de frio, arrancou seus trapos de roupa molhados e vestiu as sequinhas que o Curupira lhe deu.

Ficou tão feliz com as roupas quentinhas que se esqueceu de tudo, até de que estava a falar com o Curupira! E, surpresa: Sua espingarda estava ali bem pertinho de si e nada de Curupira!

Agora foi a vez de ficar tão surpreso, que pegou a espingarda e saiu correndo dali! Só um pensamento o atormentava:

- Será que estivera sonhando? Será que estava louco? Mas tinha certeza de todos os detalhes! Bem, não pensou mais nisso e logo chegou na estrada que o levava ao vilarejo. Foi bem devagar... e quanto mais caminhava, mais pensava que tudo não tinha passado de um pesadelo... mas lá no fundo, a dúvida ainda reinava.

Chegou em casa bem tarde, já noite, e foi direto para o banheiro tomar banho, e tirar a roupa, que, pelo jeito, ninguém tinha prestado atenção, pois era um pouco parecida com a dele.

O homem de nossa história, ficou muito tempo sem sair para fazer seu esporte favorito. Até seus familiares e amigos perceberam. Um dia, um de seus amigos, chamou mais uns três e foram a sua casa para juntos cantarem e tomar um bom café sertanejo. Foi uma festa, tinha de tudo: desde pão caseiro até pirão e cuscuz.

O amigo que o visitava, trouxera consigo uma caixa de cerveja, coisa que nosso homem há muito tempo não tomava. Após “os comes e bebes”, o homem estava tão alegre que começou a contar estórias e histórias... sem querer, contou a que acabamos de narrar. Seus amigos riram muito e o proibiu de tomar mais cerveja, pois já estava mais que bêbado.

Naquele mesmo dia, combinaram de ir passear no sítio de um dos amigos, há muitos quilômetros de sua cidade. Iriam para passar todo o feriado de quatro dias, dali a três meses. O nosso amigo aceitou com alegria. Um dos amigos vinha buscá-lo com uma caminhonete.

Chegou o dia da viagem e o homem todo empolgado, arrumou suas coisas com muito carinho, sem esquecer da espingarda. Quem sabe teria oportunidade de usá-la, pois nunca mais a tinha usado após aquele dia fatídico.

Durante a viagem, enquanto ladeavam a mata, o homem da nossa história lembrava de como tão bem conhecia aquela mata, e que saudades de ali caçar, sentir o cheiro do mato, aspirar o ar puro... ficou assim, por um bom tempo calado. Um dos amigos, vendo que seus olhos estavam na mata, disse-se:

- Oh! Amigo! Não fique triste assim, só ficaremos fora 4 dias, e aliás, lá aonde vamos, tem uma bela mata, muito mais fechada que essa!

Quando ele ouviu isso, seu vigou voltou, sentiu, de repente, muita alegria e entrou a conversar com os outros.

Dali a 5 horas, lá estavam todos, em um local maravilhoso, onde a natureza era pura! O sítio de seu amigo ficava num lugar maravilhoso, próximo a uma mata imensa. O nosso amigo ficou extasiado, olhando para aquela mata e já fazendo planos de ir adentrar a ela.

O mesmo amigo, quando o viu olhando alegremente para a mata, disse:

- Você nem imagina o quanto é gostoso andar por essa mata! Tem muitos animais selvagens, muitas, cobras, muitos saguis... nem sei os nomes de tantos animais ótimo para fazer um “bom prato”!

O homem, sem pestanejar, disse ao amigo:

- Vamos hoje mesmo! Ainda tem sol!

O outro concordou.

Chegando, após os cumprimentos, os arranjos dos quartos para dormirem, vestiram-se e foram para a mata, ele e mais um amigo com a espingarda, outros dois com cartucheiras e estilingue. Um deles não gostava disso e foi se arrumar para um baile à noite.

Os 3 amigos adentraram a mata e foram, no início, conversando e admirando a natureza. Estavam todos com botas, camisas de manga comprida. Por isso não se preocupavam por onde andavam. Logo começaram a ver animais de todos os tipos, pássaros diferentes, cotias, lagartos... e, logo avistaram uma Jaguatirica. O nosso amigo, saiu de perto dos outros 2 e foi de mansinho ficar perto de uma grande árvore, onde sabia que não seria visto.

Seus amigos, que não perceberam que ele se desligara do grupo, continuaram a caminhar, conversando e procurando algo diferente para caçar. Quando se deram que o amigo não estava por perto, começaram a gritá-lo pelo nome. E ele, como não queria se fazer ouvir, pois tinha certeza que a Jaguatirica por ali ia passar, ficou bem quietinho e não respondeu.

Seus amigos foram andando e o procurando, tentando voltar pelo mesmo caminho, mas foram para outro lado. E ele, com muita paciência, esperou por quase duas horas, quando viu que a Jaguatirica estava voltando... Apontou a sua espingarda e,

- Trecckkkk!

Alguém se apresenta a sua frente como da primeira vez: Em forma de bruxo! Ele se espantou e, como que estivesse no seu subconsciente, lembrou rapidinho daquele dia em que teve aquele susto. E dessa vez, só ficou um pouco zonzo e segurou bem a sua espingarda, enquanto com a outra mão se segurava na árvore. Tremendo ele gritou:

- Curupira, como você veio parar aqui?

O Curupira, com seu ar debochado, disse:

- Você mesmo não me disse saber que eu sou protetor dos animais, das plantas e das matas?

- Ele respondeu:

- Sim! mas sua mata está lá próximo da minha casa!

O Curupira, com um sorriso de desdém, disse-lhe:

- Seu mentiroso! Isso é o que você é! Cadê minhas guloseimas que você me prometeu? E por que vai, novamente, matar minha amiga Jaguatirica?

O homem, sem entender muito, meio sem jeito, disse:

- Mas esta Jaguatirica não é a mesma lá da mata perto de casa!

Ao que o Curupira respondeu:

- Para mim ela é a mesma; é um ser vivo igual àquela. Eu cuido de todos, principalmente da Jaguatirica que está em extinção.

- Meu Deus, Curupira! Por favor, tire essa roupa! Você fica melhor do seu jeito natural. Com essa roupa eu fico a relembrar aquele dia.

O homem ia dizendo isso e preparando a espingarda bem sutilmente. O Curupira, que não desconfiou de nada, deu 3 pulos para cima e, quando ia começar a espirrar, o homem atirou em seu peito e ele caiu pesadamente...

O caçador, feliz por ter sido tão rápido e certeiro, deu pulos de alegrias, dizendo:

- Consegui! Consegui! Consegui! E quem será que sempre disse que jamais alguém conseguiria matar o Curupira? Ahhhhhh!!!

Tão feliz ele ficou que foi próximo do Curupira e começou a mexer em suas roupas, verificar se tinha algo de valor... Quando ele tocou em seus pés tortos, para verificar bem de perto, como eram os seus pés, o Curupira começou a espirrar e acordou num pulo! E, pegando o caçador desprevenido, segurou-o pelo pescoço e tomou a espingarda de sua mão.

O homem, fora de si, pedia por socorro; e começou a escorrer lágrimas pelos seus olhos, quando, dizendo roucamente que iria cumprir a promessa... que o Curupira não o matasse! O Curupira ao vê-lo tão vulnerável, soltou-o, que caiu com as pernas trêmulas, de joelhos. Com as mãos postas, suplicou ao algoz que o perdoasse. Ao que o Curupira retrucou:

- Eu só dou 1 chance para as pessoas; porém, como você não mais caçou lá na sua mata, eu o darei mais uma chance. Porém, tem um preço:

- Qual? Perguntou o caçador já alegre.

- Você terá que deixar suas roupas comigo, pois você não me pagou as roupas que o dei daquela vez!

O caçador, aturdido, disse:

- Oh! Mas eu não posso andar por aí nu! O que vão pensar de mm? Você não sabe que posso até ser preso?

O Curupira, com um sorriso sarcástico, disse-lhe:

- Você nunca contou nossa história a ninguém! Ninguém acredita que eu exista de verdade! Então, hoje, se você quiser ser solto vai ter que prometer que vai dizer ao mundo, e provar aos seus amigos que eu existo. E, que se não tomarem cuidado, vou fazer-lhes uma grande surpresa!

Assim, o Curupira o fez se despir, olhando para ele com seus olhos enviesados e o apontando com a espingarda. Ele, ainda trêmulo, disse:

- Curupira, mas eu preciso de minha espingarda! Eu prometo tudo! Devolve-me, por favor!

O Curupira deu seus 3 pulinhos para frente, para trás e para frente e espirrou seus Tchã! Tchã! Tchã! Devolvendo um peso mãos do caçador. Quando o homem olhou com alegria, ao peso em suas mãos, que surpresa! Era um galho seco!

Tão surpreso e com raiva, levantou o galho para dar no Curupira; já era! Ela havia desaparecido!






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