Dr. George Barros Leal: uma história de lampejos e doces acordes



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Dr.  George Barros Leal: 

uma história de lampejos e doces acordes 

Noemi Elisa Aderaldo 

Quando ainda adentrava a adolescência,  tive a graça de conhecer 

George Barros Leal. 

Continuamente  leve,  suave,  alegre,  parecia-me  levar  no  rosto  o 

sol, refletido de uma alma branca, generosa, boa, para acender amiza­

des,  aclarar caminhos,  abraçar e compartilhar manhãs da  vida,  como 

se houvesse vivenciado sucessivos renascimentos que as sustinham. 

Na sua permanente disponibilidade, na visualização de céus e es­

paços para todos, na sua simplicidade,  no sorriso largo e fácil, refulgia 

a  Criança que  conservava  em si e que o impedia de envelhecer,  lume 

indicador da ligação que mantinha com a integrante origem divina em 

que afinal imergira. 

São extremos que se encontram, como anunciam as interpretações fi­

losóficas de todas as cosmogonias e a cosmovisão religiosa de todos os san­

tos, sobre a qual Santa Teresinha pronuncia: "não morro ... entro na vida!" 

Jamais esqueço esse real enlace,  por isso ressalto o aforismo sele-

cionado por Leonardo Boff: 

"Todo menino quer ser homem. 

Todo homem quer ser rei. 

Todo rei quer ser Deus. 

Só Deus quis ser menino." 

Como por índole jamais se deixou reduzir às dimensões do barro 

humano,  Dr. George mereceu a dádiva de intuir do menino o sonho, o 

desejo de Deus. 

Era cordial,  dócil com a família,  com os amigos,  com os que oca­

sionalmente encontrava, com os seus pacientes em especial. 

Colhia a temática que lhes interessava e discorria pacientemente 

sobre elas, sem mensurar o tempo, pois este era excepcionalmente ou­

tro: o tempo de duração psicológica, necessário a cada um deles. 

Bo 



Dr.  George  nasceu  com  a  missão  de  afastar  a dor,  de  minorar  o 

medo, o peso do mundo. 

Como concebia a inteireza humana,  a interação de alma e corpo, 

era avesso a teorizações artificiais ou frívolas, usadas em tantas terapias. 

Voltava-se para a sanidade sistêmica do paciente,  a qual,  segundo ele, 

só seria alcançada com  o seu  dar-se por inteiro ao que  fazia,  aliado ao 

conhecimento colhido em inumeráveis fontes,  no curso da  vida,  que o 

tornaram mestre dos mestres da ortodontia do Ceará, quiçá do País. 

Guiado pela esperança que do menino  herdara,  descobria o  bri­

lho latente de todas as Noites,  não só das que intensamente vivia nas 

solenidades,  na  academia,  nas  festas,  nos  salões  dos  clubes  (do  seu 

Náutico, sobretudo),  como até das  de aflição,  em que  não se deixava 

abater, nem abaterem-se os seus, porque, por certo, intuía que, apesar 

de escura, é a Noite a matriz do dia. 

Tanto assim era,  que  nos  falava  em seus planos e projetas pouco 

antes de ir-se, o que impediu de nos apercebermos de que estava indo. 

Assustou-nos o telefonema de George Jr. sobre a ocorrência. 

Estarreceu-nos tanto sua partida,  que o 

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de  janeiro tornou-se, 



para nossa família, sinal de possibilidade dum sorrateiro e imenso va­

zio da existência que nos acomete às vezes. 

Comoveu-nos a fisionomia da desesperança contida em sua  Ma­

ria Amélia,  em seus filhos  George Jr.,  Eveline,  Paulo, Antenor  Neto,  a 

feição da despedida de meu amigo César. 

Todavia, dessa noite que o surpreendera e a que não pudera resis­

tir, renasceu,  no dia azul da Paz de Deus. 

A sua inexcedível mansidão ficará na nossa lembrança. 

Eternamente ficará  na afeição de  sua  Maria Amélia  - pois  eram 

essencialmente  um  - de  seus  filhos,  de  seu  sósia  anímico,  como  Dr. 

Vinícius,  dos parentes e milhares de  amigos que preencheram  todos 

os espaços de nossa grandiosa Igreja do Cristo-Rei, na missa de Sétimo 

Dia, que podemos chamar a da Ressurreição. 

Sr.  ficará,  afinal,  na magia onírica dos  seus  netos  e dos que 



o sucederão. 

81 



Dessa sublime presença fala-nos,  através da força do núcleo ver­

bal e do procedimento antiético, o imenso poeta Mia Couto: 

"Morto amado nunca para de morrer". 

Até um dia,  Dr.  George. 



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