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Escritoras/es africanas/os e afrodescendentes: um projeto descolonial ao Sul?

DISCIPLINA: PGL510123 - Crítica feminista e as geografias do poder

MINISTRANTE: Simone Pereira Schmidt (simonepschmidt@gmail.com)

HORÁRIO: segundas-feiras, 14 às 17h

SEMESTRE: 2016.2

  1. PROPOSTA:

Dentro de um amplo espectro de interesses de investigação ligados à produção literária de autoria feminina, destaca-se o trabalho desenvolvido no campo que, de modo muito sumário, tem recebido a denominação de “resgate de escritoras”. O termo, na verdade, diz pouco sobre a densidade do trabalho desenvolvido pelas pesquisadoras que atuam nesta área. Dirigindo sua atenção crítica à releitura do cânone literário, tais pesquisas se dedicam a “escavar” o silêncio e as lacunas produzidas pelo processo de canonização (que, como sabemos, institui legitimidades e consagra nomes e obras na mesma medida em que produz apagamentos e instaura silêncios sobre outros nomes e outras obras), trazendo à luz do dia os trabalhos de escritoras que ficaram à margem da instituição literária. Mais ainda, empreendem um trabalho teórico de grande importância, que é o de indagar e, em certa medida, desconstruir, o próprio cânone. Não por acaso, pode-se dizer que, graças a tais empreendimentos críticos e teóricos, as pesquisadoras que se debruçam sobre a historiografia literária foram responsáveis por um alargamento significativo do campo da crítica feminista, pela divulgação de autoras e textos desconhecidos do público, e pela visibilidade concedida aos mesmos no meio acadêmico e no ambiente cultural. Especialmente em nações jovens e/ou periféricas, como é o caso dos países africanos que há menos de um século se libertaram do jugo colonial, é de se imaginar o peso e a definitiva contribuição de um trabalho que busca resgatar a existência e a produção de escritoras que, conforme a lição de Walter Benjamin, foram de antemão deixadas à margem, como “vencidas da História”. O sopro vivificador lançado em sua direção por este trabalho de “resgate” se assemelha àquela tarefa de “salvação” que, segundo o pensador alemão, seria a missão do historiador (BENJAMIN, 1986, p.222-232).

Se dirigirmos nosso foco para o contexto brasileiro, ou para outros contextos fortemente marcados pelas heranças da história colonial, encontraremos um debate atual sobre a necessidade de se rever o apagamento, até então predominante, de representação das mulheres negras nos discursos culturais em geral. Com escasso acesso ao ambiente acadêmico, mas fortemente vinculadas aos movimentos sociais, as feministas negras tiveram que percorrer um caminho muito particular, de afirmação de sua presença em espaços onde não eram percebidas, além de se contrapor a algumas construções discursivas de grande poder, como é o caso, no ambiente cultural brasileiro, do mito da mestiçagem como fator de democracia racial e o elogio da mulata como elemento simbólico da “cordialidade”, sexual e racial, sobre a qual se assentam tais discursos.

Assim, o trabalho de conferir visibilidade a autoras pouco conhecidas na tradição literária opera no sentido contrário ao que Boaventura de Sousa Santos considera “um epistemicídio maciço” que “tem vindo a decorrer nos últimos cinco séculos” (SANTOS, 2010, p. 61), fruto de uma experiência histórica que, tendo iniciado com o colonialismo europeu, irradia ainda no presente os seus modos de operar e violentar seus ‘outros’, sob renovadas formas e a partir de novos e antigos lugares. Através desse divisão abissal do poder político e epistemológico, entre aqueles que detêm esse poder e aqueles que não se constituem como sujeitos de poder e de saber, segundo Sousa Santos, “uma riqueza imensa de experiências cognitivas tem vindo a ser desperdiçada” (SANTOS, 2010, p. 61).

No caso das escritoras africanas e afrodescendentes às quais este curso pretende se dedicar, a questão da alteridade se torna ainda mais complexa, pelo fato de terem sido historicamente posicionadas, em várias dimensões, no lugar do “outro”. Em primeiro lugar, por sua condição de mulheres. Tornou-se muito conhecida, desde Simone de Beauvoir, a compreensão de que, num universo predominantemente masculino, tal como se constituiu o mundo público das ideias, das ações e das palavras, a ‘mulher’ não se posicionou lado a lado com o ‘homem’, este sim, sujeito das ações, ideias e palavras. Posicionada como não-sujeito, à mulher não coube o papel de uma segunda voz, uma ação secundária, mas sim o de um vazio, já que o paradigma exclusivo foi constituído como masculino.

É no sentido da denúncia e da desconstrução de um sistema de poder assim construído e perpetuado na história, que as feministas têm vindo a atuar desde seus primeiros estudos mais conhecidos. De fato, a inclusão dos ‘menores ou ‘marginais’ no cânone ocidental (incluídas nesta condição não apenas as mulheres, mas diversas perspectivas de sujeitos que não se enquadram no perfil modelar da cultura ocidental hegemônica até, aproximadamente, a metade do século XX, tais como sujeitos não-brancos, não-europeus, não-heterossexuais, não enquadrados, enfim, num padrão identitário e comportamental pré-determinado e bastante exclusivo) ameaça as linhas mestras da cultura ocidental moderna, erigida através de séculos em monumentos tais como o cânone literário. Ao fundo de um tal empreendimento de revisão das exclusões perpetradas, e da reivindicação de inclusão e visibilidade, encontra-se um gesto ainda mais radical de crítica da autoridade e da legitimidade do pensamento moderno.

E é justamente por sua radicalidade, pela mudança profunda que propõe à concepção de sujeito moderno, que o feminismo, juntamente com outros estudos que buscam operar transformações semelhantes (como os estudos culturais e, posteriormente, os estudos subalternos e os estudos pós-coloniais), é considerado por diversos teóricos recentes, tais como Andreas Huyssen (1994, p. 15-80) e Stuart Hall (2000), um movimento social e um conjunto de proposições epistemológicas fundamentais para a reflexão sobre o contemporâneo.

Definitivamente, não há como reivindicar um “mundo humano” – tal como propõe Homi Bhabha (1998), apoiando-se em Hannah Arendt - sem se problematizar a desigualdade de gênero. É nesse sentido que teóricas como Gayatri Spivak buscam interpelar o sujeito pós-colonial. Ao indagar, em seu célebre ensaio, se “pode o subalterno falar” (2010), Spivak dedica especial atenção à figura da “mulher subalterna”, que mesmo, no seio das teorias que escrutinam a cultura na perspectiva dos oprimidos, corre permanente risco de continuar “tão muda como sempre esteve” (SPIVAK, 2010, p. 86). Defendendo a articulação do sujeito do feminismo ao sujeito pós-colonial, a autora propõe o questionamento da “inquestionável mudez da mulher subalterna, mesmo no projeto anti-imperialista dos estudos subalternos” (SPIVAK, 2010, p. 88).

Contudo, se levarmos em conta a reflexão de inúmeras autoras que buscam falar da experiência das mulheres, e das desigualdades de gênero, a partir de lugares distanciados das matrizes do pensamento ocidental, podemos perceber que o “privilégio feminino” a que se refere Spivak (o qual posiciona mulheres em diferentes e desiguais lugares na perspectiva de classe, etnia, raça, nacionalidade, sexualidade, etc.), está longe ainda de ser desaprendido. Ao examinarmos os modos de representação das mulheres africanas pelos discursos do Ocidente, não é difícil percebermos um profundo abismo entre feministas do “norte” e do “sul”, reafirmado por discursos que ainda hoje reproduzem o modelo colonial, reduzindo e essencializando a figura da ‘mulher africana’ como figura exótica em sua diferença, passiva e inerte diante de sua condição de vítima de sua própria cultura.

No caso brasileiro, intelectuais negras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e muitas outras, dedicam-se a mostrar a importância de se articular gênero e raça na produção de um pensamento feminista contemporâneo. Denunciando aquilo que considera o viés eurocêntrico do feminismo brasileiro, Carneiro evoca “toda uma história de resistências e de lutas”, em que as mulheres negras têm sido protagonistas “graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral” (Carneiro, 2002, p. 191). Essa história, tornada invisível nos processos de canonização letrada da historiografia brasileira, omite, segundo a autora, a centralidade da questão racial nas hierarquias de gênero presentes em nossa sociedade, assim como universaliza valores de uma cultura particular (ocidental e burguesa) para o conjunto das mulheres – sem levar em conta os aspectos de dominação e violência que historicamente caracterizaram as reações entre brancos e não brancos. No mesmo sentido – e num momento de grande significado para a luta contra o preconceito e a discriminação racial, a realização da III Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban 2001 – a feminista afro-americana Kimberlé Crenshaw reivindica “formas de entender como as experiências únicas de mulheres étnica e racialmente identificadas são por vezes obscurecidas ou marginalizadas nos discursos sobre direitos” , e propõe, como resposta política, “novas metodologias que desvendem as formas como várias estruturas de subordinação convergem”(2002, p. 183).

Enfim, é a partir do desejo de uma aproximação ao discurso dessa alteridade radical em que se constitui a escritora africana e afrodescendente - alteridade como mulher dentro de culturas patriarcais, como sujeito (pós)-colonial diante de perspectivas epistemológicas que invisibizaram os ‘outros’, situados para além da linha abissal, como propõe Boaventura de Sousa Santos, como sujeito feminino subalterno sem voz nos discursos pós-coloniais, como sugere Gayatri Spivak, e por fim, como ‘mulher dos outros’ (como sugere Catarina Martins), sob o olhar exotizante e vitimizador do feminismo eurocêntrico – que se propõe esta discussão.

Nesse sentido, o objetivo de se investigar a formulação de um ‘projeto descolonial ao Sul’ se vale das proposições de Boaventura de Sousa Santos, compreendendo o conceito de Sul como uma potente metáfora “do sofrimento humano sistêmico e injusto provocado pelo capitalismo global e pelo colonialismo” (SANTOS, 2007, p. 85), e também como proposta epistemológica. O conjunto de esforços epistemológicos e políticos reivindicados por Sousa Santos tem por meta a construção de um cosmopolitismo subalterno, capaz de fazer frente - e colocar-se como alternativa - a todo um processo histórico de construção do pensamento e do poder ocidental hegemônico, que determinou, segundo uma lógica estrita e abissal, a quem pertencia o direito ao saber, ao poder, ao transitar, ao dominar, conquistar, vencer.







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