Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
Fundamentação metodológica:
A opção por utilizar o estudo de casos tem por objetivo tentar apreender 
um certo saber clínico naquilo que  ‘os casos’ possibilitam. Dois problemas se 
abrem: 
1º) Como trabalhar um caso sem dele perder o imediato da clínica, ou 
seja, como utilizar o saber produzido sob transferência, portanto, em intensão, 
num saber transmissível, portanto, em extensão?
2º) Como utilizar o caso clínico como exemplo tendo em vista que o 
exemplo é a coisa e não uma ilustração?
Algumas considerações se fazem necessárias para que a intensão não 
se torne inapreensível e a extensão seja possível.
Primeiro devemos esclarecer que o material pesquisado, em particular o 
caso Amanda, vem da entrevista psicanalítica. Se todo trabalho em psicanálise 
se dá sob transferência, inclusive o diagnóstico, como justificar a utilização de 
um   material   colhido   ‘fora’   da   transferência   para   falar   de   diagnóstico   em 
psicanálise? 
Esta é uma questão que percorre e sempre retorna às discussões da 
nossa equipe de pesquisa. Se o sujeito está em análise o diagnóstico é um ato 
de  nomeação   por   parte  do   analista   que  vai   definir,   de   uma  certa   forma,   a 
direção do tratamento, mas como está inserido num processo ele vai poder 
sofrer modificações a partir dos efeitos dessa direção. Em última instância só 
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teríamos um diagnóstico no final da análise. No caso da entrevista psicanalítica 
o diagnóstico é feito a partir de um corte diacrônico. Seria este um diagnóstico 
‘verdadeiramente’ psicanalítico?
Para   resolver   esta   questão   vamos   tomar   uma   proposta,   surgida   nas 
discussões   da   pesquisa,   de   que   poderíamos   pensar   num   diagnóstico   em 
intensão   e   num   diagnóstico  em   extensão.   O   diagnóstico  em   intensão   seria 
aquele feito dentro do processo analítico e o diagnóstico em extensão seria 
feito fora dele, através de uma entrevista, de um escrito, de uma biografia
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Este último não seria menos psicanalítico que o outro, já que estaria referido 
aos conceitos e ao método psicanalítico, ou seja, trabalharia com os elementos 
discursivos apresentados pelo paciente. É este diagnóstico em extensão que 
nos possibilitaria falar em diagnóstico psicanalítico dentro de um hospital, em 
congressos   multidisciplinares,   enfim,   nos   permitiria   conversar   com   a 
comunidade científica. 
Tendo   esboçado   uma   resposta   para   a   primeira   questão   vamos   à 
segunda, que por sua vez também se articula com a primeira. Como trabalhar 
com o caso clínico sem que ele seja um mero exemplo ou ilustração?
A prática clínica é tomada por Assoun (1996) num sentido amplo, como 
produtora de um saber que ao mesmo tempo é problemático e singular, já que 
este saber se dá justamente pelo “encontro ao vivo” com seu objeto (p.43). 
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 Temos em Freud a análise do caso Schreber feita a partir de um livro autobiográfico, o caso Dostoievski 
feito a partir da sua literatura e de biografias, Leonardo Da Vinci e suas obras de arte. Em Lacan Gide e 
Joyce, temos a análise de personagens de romances com a Lou de Deslumbramento de Marguerite Duras
os adolescentes do Despertar da Primavera de Wedekind e os próprios casos de Freud ‘reanalisados’ por 
Lacan. 
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Assim sendo, mesmo dentro dos rigores que esta prática exige, uma lei 
se impõe: é a lei do próprio objeto. A psicanálise, enquanto prática clínica, tem 
sua  forma  de  procedimento ligada a uma  racionalidade de “gênero próprio” 
(p.44). Passo então a definir a especificidade da pesquisa em psicanálise para 
defender, através disso, o método de trabalho que me proponho a utilizar: o 
estudo de casos clínicos.
Vamos partir de Freud e tentar encontrar nele este método contando 
com a ajuda de Lacan.
Freud nos mostra através da clínica um modo de fazer pesquisa que 
rompe   com   um   certo   tipo   de   objetividade   e   inaugura   um   modelo   de 
racionalidade: a racionalidade clínica. Esta racionalidade não se confunde com 
o   racionalismo   -     mas   também   não   se   trata   de   um   conhecimento   advindo 
puramente do objeto. Entre os dois, racionalismo e empirismo, “Freud não se 
situará nem de um lado nem de outro deste debate.” (Vieira, 1998a, p.208).
“A psicanálise está firmemente alicerçada na observação dos fatos da 
vida mental e por essa mesma razão sua superestrutura teórica ainda está 
incompleta e sujeita a constante alteração.” (Freud, 1925)
Esta frase nos mostra que apesar de ter como referência a experiência 
esta   depende   de   formalizações   conceituais   as   quais   ele   denominou   de 
metapsicologia. 
“(...) o saber analítico é constituído pela tensão entre essa referência ao 
imediato   do   real   clínico   e   o   recurso   ao   trabalho   do   conceito 
metapsicológico” (Assoun, 1996, p. 47).
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Tendo isto posto, vamos pensar a pesquisa clínica em psicanálise. Ora, 
se entre a clínica e a teoria existe uma tensão que é produtora de um saber, 
que saber se produz no estudo de casos clínicos? 
Assoun (1996, p.48) nos leva a pensar que não se trata de utilizar o caso 
clínico como uma exemplificação para ilustrar a generalidade conceitual, já que 
a ilustração pode confundir o exemplo com o fato. O paradoxo do qual Freud 
tenta dar conta é que não há fato clínico mas há o exemplo tomado como 
coisa. Esta referência está em Freud na análise do Homem dos Ratos (1909) 
quando este, ao tentar produzir uma generalidade através do uso defensivo do 
exemplo, faz com que Freud perceba que aí onde ele exemplifica ele nomeia a 
própria coisa. Freud, ao dizer que “o exemplo é a própria coisa” (1909), cria um 
método próprio de investigação para a clínica psicanalítica. É neste ponto que 
podemos pensar no método da chave de Lacan. 
Vieira (1998b) nos apresenta o método da chave dizendo ser ele “um 
mais-além do sentido” (p.86) pois não se trata de dar sentido aquilo que é dito 
pelo paciente mas sim tomá-lo como uma chave que abre a possibilidade de 
significação. “A chave é o que abre, e que, para abrir, faz funcionar todos os 
significantes aos quais esta subjetividade associa-se” nos diz Lacan em 1962 
(cf. Vieira, p.86). Portanto, parafraseando Freud, podemos dizer que o exemplo 
é a chave tendo em vista que a chave é o objeto ‘a’ conforme nos explica 
Vieira: 
“(...) podemos conceber o objeto  a  como aquilo que faz funcionar os 
significantes, posto que é a extração deste que causa o desejo e leva o 
sujeito, dividido pelo objeto, a percorrer indefinidamente a cadeia do 
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significante na tentativa de completar sua falta-a-ser”. (id.)
Entendendo que o exemplo é a coisa e que a coisa só se mostra como 
exemplo podemos aproximar a coisa e o objeto ‘a’, indicando que ambos só 
podem   ser   meio  ditos.   Nesta  perspectiva  a   pesquisa  através   do   estudo   de 
casos clínicos se insere, logicamente, como um método caracteristicamente 
psicanalítico, pois ao tomar ‘o caso’ como exemplo estaremos tocando o real 
da coisa.
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