Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura


Partindo desta perspectiva a ‘classificação’ freudiana passa a ter como



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)

Partindo desta perspectiva a ‘classificação’ freudiana passa a ter como 
referência   esta   maneira   peculiar   de   cada   um   lidar   com   a   castração   e, 
consequentemente,   com   o   complexo   de   Édipo.   Não   se   trata   mais   de 
diagnosticar a doença mas sim de perceber a posição em que o sujeito se 
coloca frente à castração - o ponto traumático do sexual.
Em suma, Freud sai do modelo médico que se preocupa em agrupar 
sintomas em síndromes  e classificá-las.  Ao invés disso,  ele  vai, através  da 
etiologia das doenças, em busca da estrutura de cada sujeito. Assim fazendo, 
Freud percebe que a neurose não tem uma causa concreta e objetiva como ele 
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pensava na primeira teoria do trauma, mas que ela é constituída de fantasias. 
Estas fantasias, por sua vez, também não têm uma causa determinada, elas 
são   sobredeterminadas.   O   trauma   deixa   de   ser   uma   contingência   para   se 
constituir como um universal pelo qual se tenta dar conta do sexual.
“(...)   a   partir   de   Freud   não   se   pode   mais   pensar   em   um   diagnóstico 
naturalista, onde se procederia à reunião de determinados fenômenos que, 
estabeleceriam   desde   sempre   um   nexo   causal   entre   si.   A   psicanálise 
coloca em questão a própria naturalidade do fenômeno”. (Vieira 1998a, 
p.207)
É   a   partir   desta   perspectiva   que   Lacan   vai   começar   a   pensar   as 
estruturas clínicas. Ele parte das categorias da psiquiatria clássica mas aplica a 
elas o conceito de estrutura. Com os desdobramentos de seu ensino Lacan vai 
recortar cada vez mais aquilo que é a estrutura do sujeito, possibilitando que o 
diagnóstico seja  entendido como um ato de nomeação da singularidade de 
cada sujeito. 
“Ao   promover   a   noção   de   estrutura   Lacan   desloca   o   diagnóstico   do 
horizonte imaginário onde proliferam os catálogos e as classificações e 
nos transporta para seus pontos de sustentação simbólicos, o que permite 
uma certa aproximação do real”. (Vieira, 1998a, p.207) 
Assim, o diagnóstico estrutural, que tem por base Freud, vai tomar, com 
Lacan, a forma de um compromisso ético do analista diante do inconsciente e 
da sua lógica significante, vai inaugurar uma nova concepção de causalidade e 
de temporalidade. 
O caminho que nos propomos a trilhar nesta dissertação segue, de certa 
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forma, o caminho da linha de pesquisa “Diagnóstico, prognóstico e cura em 
Psicanálise” desenvolvida no Instituto de Psiquiatria da UFRJ desde março de 
1997. A pesquisa começou com a implantação da entrevista psicanalítica como 
uma disciplina do curso de pós-graduação, ministrada pelo Dr. Antonio Quinet, 
professor   convidado,   onde   pacientes   atendidos   no   Instituto   são   trazidos   à 
entrevista a partir da indicação da equipe clínica, em função ou não de uma 
dúvida diagnóstica e/ou terapêutica. A partir de janeiro de 1998 foi constituída, 
oficialmente,   a   linha   de  pesquisa,   sob  a  coordenação   da   Dra.   Ana  Cristina 
Figueiredo e do Dr. Marcus André Vieira. Desde então a pesquisa passou a se 
constituir da entrevista, de um banco de dados com a transcrição das mesmas, 
e de todos os trabalhos dos membros da equipe, da discussão do diagnóstico e 
do   tratamento   dos   pacientes   entrevistados   e   da   pesquisa   teórica   sobre 
fenômeno e estrutura.
Esta dissertação é o resultado de um trabalho individual desenvolvido 
dentro desta linha de pesquisa. 
No primeiro capítulo vamos às origens da medicina para entender as 
bases   do   diagnóstico   médico.   Neste   contexto   apresentamos   o   método 
hipocrático   como   o   paradigma   do   modelo   médico   seguido   do   modelo 
classificatório proposto por Pinel. Este modo de apresentação se justifica pelo 
fato de considerarmos que ambos estão inseridos dentro da tradição médica. 
Pinel   formulou   uma   classificação   das   doenças   mentais   usando   o   mesmo 
método de observação utilizado por Hipócrates e seus critérios eram advindos 
da   patologia   orgânica.   Para   ele   os   problemas   mentais   eram   fruto   de   um 
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distúrbio das funções do sistema nervoso central.  Já com Jaspers temos uma 
outra perspectiva, mais psicológica, que dominou a psiquiatria por longos anos 
e até hoje tem influência sobre os psiquiatras que não se alinham aos DSMs. 
Ela se baseia na fenomenologia de Husserl e rendeu à psiquiatria um método 
consistente   e   sofisticado   de   compreensão   dos   fenômenos   psíquicos.   Em 
seguida apresentamos o método preconizado pela psiquiatria biológica atual, 
onde o critério estatístico prevalece na classificação dos sintomas. Ao final do 
capítulo fazemos uma breve comparação destes três métodos apontando suas 
semelhanças e diferenças.
No   segundo   capítulo   apresentamos   o   diagnóstico   estrutural. 
Esclarecemos o que é o estruturalismo e como a idéia de estrutura foi tomada 
por Lacan para ser aplicada à clínica psicanalítica e à especificidade de seu 
diagnóstico.
No terceiro capítulo tentamos demonstrar o diagnóstico estrutural a partir 
de dois casos clínicos trabalhados em nossa linha de pesquisa. A partir deles 
estabelecemos uma discussão entre os métodos de modo a podermos concluir 
nosso   trabalho  apontando  as   relações  entre  os  principais  conceitos  que  os 
norteiam e caracterizando a especificidade do diagnóstico na psicanálise.
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