Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
Conclusão:
O percurso feito neste trabalho iniciou-se por uma investigação  sobre o 
diagnóstico   na   medicina   para,   a   partir   dele,   poder   situar   o   diagnóstico   na 
psiquiatria.   Este,   por   sua   vez,   precisou   ser   tomado   em   duas   vertentes,   a 
fenomenológica e a dos DSMs, já que, como pudemos verificar, eles guardam 
alguma aproximação quanto à concepção de causalidade, mas são totalmente 
diferentes na maneira como entendem a doença. Depois foram apresentadas 
as   bases   teóricas   de   um   diagnóstico   estrutural   para,   a   seguir,   demonstrar, 
através de casos clínicos, como ele se dá e como se diferencia dos outros tipos 
de  diagnóstico.     Agora  o  que  nos  resta  é  articular  de  forma  mais  geral  os 
métodos   estudados,   para   tal,   vamos   recortar  de   cada  um  deles  aquilo  que 
consideramos   o   seu   conceito   principal,   articula-los   entre   si   e   ver   o   que   é 
fenômeno   para   cada   um.   Assim,   temos   que,   para   a   psiquiatria   de   base 
fenomenológica o privilégio é dado à essência enquanto na psiquiatria de base 
biológica o que importa é a substância que atua no organismo produzindo um 
determinado   efeito,   por   sua   vez,   na   psicanálise   de   orientação   lacaniana   a 
primazia é a estrutura do sujeito. 
Para a psiquiatria fenomenológica a essência é o invariante, o geral e 
permanente e o fenômeno aquilo que revela a essência. Por ele se chegaria à 
essência através  de uma operação  de redução  desses  fenômenos ao  mais 
típico e geral.  Estamos diante de uma doutrina essencialista que aponta como 
causa última dos fenômenos psíquicos a essência do ser.
Nos DSMs o que temos é um substancialismo, onde o fenômeno é a 
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substância em ação no organismo. Fenômeno e substância estão colados e o 
que é diagnosticado e tratado é justamente este fenômeno substancial.
No diagnóstico estrutural o fenômeno é o discurso. Os ditos dos sujeitos 
são   tomados   como   efeitos   da   estrutura   e,   a   partir   deles,   vai   ser   possível 
construir as leis que regem a lógica significante de cada sujeito apontando para 
a sua posição subjetiva .
Se traçarmos um contínuo entre a psiquiatria clássica e os DSMs vamos 
perceber que o que se deu foi um deslocamento da essência para a substância 
como   causa   última   dos   transtornos   psíquicos.   Da   idéia   de   doença   como 
essência passou-se para a idéia de síndrome como substância. Da idéia da 
doença como uma totalidade passou-se para a idéia de que são as substâncias 
que, por excesso ou por carência, transtornam o equilíbrio neuro-químico.   
A síndrome é substancializada nos neuro-transmissores, são eles que 
dão o substrato orgânico das síndromes. A medicação e o ECT são uma forma 
imediata de responder à ação da substância com uma outra substância, não se 
tratando,   portanto,   de   curar   e   sim   de   debelar   o   sintoma.   Uma   substância 
responde   a   outra   num   jogo   neuro-químico   sem   fim,   já   que   a   cada   crise 
corresponde um ‘tratamento” que é eficaz para aquela crise, e a cada crise o 
ciclo   se   repete,   justificando-se,   assim,   não   só   a   eficácia   como   também   a 
rapidez na remissão sintomática. 
Se para a psiquiatria fenomenológica a busca da essência da doença 
orientava   a   clínica   em   direção   ao   ser   do   doente,   o   que   se   observa   na 
psiquiatria biológica é que o ser é abandonado, donde ela pode se dizer não 
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metafísica, pois supõe ter o físico nas mãos.
Assim, temos a doença como uma entidade afetando o ser do homem se 
estendendo   até   a   materialidade   da   substância   afetando   o   órgão,   estando 
ambas referidas a uma causa essencial, o que só faz com que essência e 
substância tenham o mesmo estatuto causal.
O contínuo que se formou da essência à substância se rompe quando 
falamos   de  estrutura.   O   diagnóstico  estrutural   opera  um   corte   no   modo   de 
entender os fenômenos e na concepção de causalidade. 
  A estrutura nem é uma substância nem é uma essência. Por sua vez 
uma essência também não é uma substância, porém, entre elas há uma certa 
aproximação na medida em que em ambas existe a idéia de que algo já estava 
lá.  Este algo, que tem a forma de uma essência na psiquiatria fenomenológica, 
vai se deslocar para a substância na psiquiatria dos DSMs. Já a estrutura, por 
impor uma nova concepção de temporalidade, faz um corte radical na idéia de 
causa. A estrutura não está lá, ela se constitui lá. O tempo que se trata é um 
tempo passado que se constitui a partir de um tempo futuro; é o tempo do 

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