Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
Atendimento de Fabiana:
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Fabiana me recebia geralmente deitada e em algumas ocasiões assim 
permaneceu ao longo do atendimento. Sua fala, geralmente desconexa, foi aos 
poucos ficando mais inteligível para mim. Durante o primeiro atendimento ela 
falou   muito,   de   forma   rápida   e   desconexa,   sempre   em   torno   da   temática 
delirante: armação com Ni, magia negra, tia Fátima (a tia branca), FBI, lavagem 
fecal ... Ao final, quando fiz menção de me despedir, disse que queria me falar 
sobre um namorado. Neste momento a fala se organiza minimamente e ela 
começa a cantar uma música que diz ser da cantora Rosana que fala sobre o 
amor e o poder. Quando pára de cantar explica que a música é de uma novela 
chamada Mandala e conta que nesta novela “tinha o Édipo e a Jocasta. Eles 
eram do pecado porque ela era mãe dele e incesto é pecado”. Pergunto o que 
ela quer me dizer e ela me conta que na época da novela namorava um rapaz 
de nome Israel, que ele a beijava na boca mas que ela não gostava, “isto era 
uma   humilhação   para   uma   moça”.   Ao   beijar   o   rapaz   diz   ter   cometido   um 
pecado “porque esse é o nome do país de Jesus. Eu só beijei porque não sabia 
que   o   nome   dele   era   esse”.   Não   podemos   desconsiderar   a   assonância 
existente entre país e pais, pois só assim poderemos entender porque beijar 
alguém chamado Israel é pecado. 
Suponho que a abordagem feita sem estar pautada na investigação de 
seus sintomas (quedas, desmaios) possibilitou que Fabiana pudesse passar a 
me contar suas histórias, o que efetivamente aconteceu a partir daí. 
Numa   ocasião,   falando   sobre   sua   tese   de   que   as   mulheres   negras 
menstruam   porque   são   sujas   diz   que   mulher   branca   não   menstrua   e   me 
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pergunta   se   eu   menstruo,   ao   que   ela   mesma   responde   dizendo   que   não, 
porque sou branca como ela. Podemos perceber por este ‘diálogo’ que o outro 
não existe em alteridade ao um, que os efeitos de imaginarização marcam a 
sua relação com seus semelhantes. Os semelhantes não são outros; há uma 
captura   imaginária   do   outro   como   ele  mesmo   onde  eu  e  o  outro  são   pura 
especularidade. 
Quando pergunta ela mesma responde, abolindo assim a dúvida, porque 
a resposta já estava lá: brancas não menstuam. Esta resposta vem do delírio: 
sou branca e não menstruo.
Durante todo o tempo que a atendi ela sempre manifestou a vontade de 
voltar para casa, sua oposição à internação foi se intensificando na medida em 
que o tempo passava; foram ao todo 3 meses de internação justificados por 
uma pesquisa que a equipe clínica estava fazendo em torno da suspeita de que 
haveria a concomitância de um quadro epiléptico. Esta investigação se deu 
através   de   vários   EEGs,   inclusive   com   mapeamento   cerebral,   ressonância 
magnética   e   prova   terapêutica   com   uso   de   anticonvulsivantes.   Toda   esta 
movimentação  investigativa  era  trazida  por   ela  aos  nossos  encontros  como 
simples comunicados, sem que nenhum efeito subjetivo pudesse ser extraído 
daí.   Ela   se   submetia   aos   procedimentos   médicos   sem   nenhuma   crítica   ou 
reflexão. Em contrapartida sua atitude de revolta quanto à internação foi se 
agravando   ao   ponto   de   incluir   em   seu   delírio   um   estuprador   da   UFRJ   e, 
paralelamente, uma negativa em conversar comigo. Neste período Fabiana me 
avisa   que   meu   primo   David   Neves   Machado   (nome   composto   com   o   meu 
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sobrenome a quem ela havia denominado como Ondina Iolanda Machado) está 
atrás de mim para me matar, e diz: “Tô avisando...” e saí sem nada mais falar. 
Este foi o último contato que tive com Fabiana; na semana seguinte quando 
cheguei   para   atendê-la,   ela   havia   recebido   alta,   sem   que   nada   fosse 
esclarecido   quanto   à   epilepsia
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,   e   não   mais   voltou,   nem   mesmo   para   o 
atendimento ambulatorial que já havia ficado acordado com ela e sua família 
para depois da alta.

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