Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
O Delírio de Fabiana:
Fabiana   está   em   franca   produção   delirante   sem   que   tenha   sido 
observada a constituição de um Outro persecutório que sustente seu delírio. 
Podemos perceber isto pela não subjetivação das vozes e pelos vários pontos 
de fixação (basicamente neologismos e resignificações) em que este delírio se 
constitui; são temáticas paralelas sem um fio que as interligue e que não se 
mostram suficientes para historicizar a produção delirante.
 
Tentamos esquematizar seu delírio para facilitar a compreensão, mas 
alertamos   que   este   delírio   ainda   não   está   estruturado   e   que   esta   é   uma 
construção nossa a partir da entrevista. 
Ela diz que tem um “Kalismã” que define como o castigo que Deus lhe 
deu. Este castigo lhe impõe como sacrifício ter que passar por esta doença 
(crise). A doença ela chama de “Sindrominus grau” - “uma doença da cabeça 
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cumulada” no cérebro”. Esta doença “provoca calor, tontura, ferve a cabeça” e 
ela desmaia. “É uma doença de quem tem problema de  ortopedia - traumo-
ortopedia” e explica: “É trauma. Eu tenho trauma”.
Vejamos agora o esquema
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 do delírio de Fabiana:
Dos 11 aos 17 anos ouvia vozes. Não sabe dizer o que as vozes diziam, 
só sabe que “eram vozes em alto relevo”, isto é, “vozes que vinham de longe”. 
As vozes não lhe diziam nada, eram barulhos, vozes indistintas (de pessoas da 
família   e/ou   de   amigos).   São   vozes   não   subjetivadas,   portanto,   que   não 
personificam um Outro perseguidor, mas que mesmo assim mostram que o 
Outro goza dela.
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 Este esquema e o quadro anterior foram feitos em conjunto com Oswaldo França Neto, pesquisador da 
nossa equipe, a quem agradeço a colaboração. 
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Como Fabiana explica a sua doença? Ela diz que “industrializaram” nela 
esta doença, “me educaram para essa doença”. Importante notar que estas 
expressões a colocam, de alguma forma, na posição de objeto do gozo de um 
Outro que não tem nome. 
E quem fez isso com ela? “Foi um médico frio negro”. Aqui voltamos a 
encontrar uma aproximação do Outro com a medicina, além disso vamos poder 
entender que o médico ser negro se insere numa das temáticas principais de 
seu delírio: a filiação pela cor da pele. 
Então, partindo da sua doença, o Sindrominus grau, ela explica que em 
sua família tinha uma criança doente “um caso de  Biotônico Fontoura”. Em 
alguns   momentos   ela   parece   ser   esta   criança,   já   que   usa   os   mesmos 
significantes para falar dela e da criança. Em outros diz que a criança não é 
ela, “é individual, é um esqueleto com um monte de costela”, mas se inclui na 
série das crianças doentes de “Biotônico Fontoura”; ela esclarece que “não é 
só uma criança não, são cinco crianças doentes” e complementa: “Eu sou a 
sexta.”
Seu pai é  definido como ignorante  e agressivo  e aparentemente  tem 
uma participação na “industrialização” de sua doença. Quando cessa a sua 
menstruação   (aos   18   anos,   provavelmente   em   virtude   da   medicação)   ela 
desconfia que seu pai e sua mãe “não eram pais de sangue”, isto porque o “pai 
era do lado do diabo” e a mãe era de “armação com Ni. “Armação com Ni mexe 
com sangue, feito por mulheres ciganas, sangue que vem por baixo.” Alusão 
clara à menstruação.
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Conta que não queria ficar menstruada, que sentiu-se humilhada quando 
isto   aconteceu.   Explica   que   menstruação   é   coisa   de   mulher   negra   “porque 
mulher negra é suja” e que mulher branca não tem menstruação.
É filha única de um casal negro, diz que seu pai tem feições de “índio” e 
sua mãe tem “cabelo duro”.   Em sua família têm pessoas pretas e brancas. 
Apesar de ser negra ela se diz branca. Por conta desta questão ela localiza em 
uma fotografia de seu batizado uma mulher branca e passa a dizer que esta 
mulher é a sua “mãe de sangue, a Consuelo” e esclarece que é “individual com 
a Consuelo porque ela é branca como eu”. 
Ainda na temática do diabo/demônio, ela diz que tem “queda de pressão, 
queda   de   cabeça”   que   isto   é   “Sindrominus   grau”,   “é  Predominância”,   “o 
demônio   toma   conta   do   corpo...uma   forma   de   caloria...caloria   demoníaca”. 
Predominado é calor demais, incomodado”. 
Outra temática é a doença do globo ocular. Ela diz que “está passando 
mal de globo ocular”, que isto é “um problema de endocrinologia” e explica que 
endocrinologia é “o que a gente tem dentro da cabeça - célula, cérebro, que é 
uma doença grave”. Ao dizer isto ela faz um deslizamento metonímico com 
Marco Polo, Marco Lítico, Marco Viti, dizendo que este “é um médico que tem 
visão” e completa dizendo que tem problema de “vista curva, alucinado” e que 
quando cai “vê luzes”.  

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