Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
Entrevista psicanalítica:
Durante a entrevista psicanalítica Fabiana falava rápido e usava muitos 
neologismos. O que passamos a relatar é já uma construção a partir do que ela 
disse na entrevista. 
Fabiana relacionou a primeira crise com o fato de ter ficado menstruada 
pela primeira vez e de ter “ouvido” os pais tendo relação sexual. Diz que a 
primeira queda foi no dia seguinte à menarca e que isto foi uma “regulação, 
separação incrível”, uma “mudança de regulamento”. Descreve este desmaio 
com as expressões “me derrubaram dentro da noite” e “eu vi a madrugada”. Diz 
que sua doença é um Kalismã que começou aos 11 anos e que vai acabar no 
dia em que ela fizer 20 anos. Quando isso acontecer ela voltará para a escola.
 Sobre a relação sexual dos pais diz que este é “o trauma de sua vida”, 
“o sexo me traumatizou”, “eu ouvi coisas que não posso repetir porque são 
pornográficas   e   eu   não   tenho   idade   para   isso”.   Descreve   manifestações 
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corporais   como   “rajadas   pelo   corpo”   e   o   início   de   alucinações   auditivas, 
geralmente sob a forma de barulhos. 
Vejamos a seguir um quadro que tenta mostrar como Fabiana explica o 
desencadeamento e a evolução de seu caso. 
A primeira menstruação e o “ouvir os pais tendo relações sexuais”
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 são 
acontecimentos que levam Fabiana à perplexidade. Diante deles ela precisaria 
de  um  significante   que   a  representasse,   que  a   situasse  diante   do  universo 
simbólico,   para   com   ele   tentar   dar   conta   do   real   do   sexo.   Tomamos   o 
significante derrubar da frase “me derrubaram dentro da noite” como aquele 
que liga a menstruação às quedas e que fala desse encontro traumático com o 
sexo,   mas   este   significante   não   a   representa.   O   que   se   constitui   como 
traumático para ela é, justamente, isto: não poder lançar mão do Nome-do-Pai, 
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 Pelo relato da paciente não podemos precisar se isto se tratou de um fenômeno elementar ou não, 
mesmo porque Fabiana dormiu no quarto dos pais até a adolescência e sua mãe não soube precisar até que 
idade.
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de um nome de Um pai, neste encontro com Um Pai. Na medida em que isto 
não acontece,  este Um Pai, com quem ela  se  encontra, se mostra  na sua 
vertente monstruosa, emergindo no real pela falta da função paterna. Assim o 
que se constitui para Fabiana é um Outro que goza do seu corpo pelas quedas.
Importante   notar   que   não   há   separação   entre   o   corpo   que   cai   e   o 
significante ‘cair’. Quando cai, cai no real. 
Se   até   então,   como   criança,   Fabiana   pode   transitar   imagináriamente 
entre   os   dois   sexos,   a   chegada   da   primeira   menstruação   exigiu   dela   um 
significante que a significasse nesta partilha dos sexos. A esta exigência ela 
responde  com   a  perplexidade:   “vi   a   madrugada”.   Houve   uma   “mudança   de 
regulamento” que promoveu uma “separação incrível” entre os sexos. Diante 
da diferenciação sexual no real de seu corpo sangrando, Fabiana sofre um 
curto-circuito   –   a   crise.   O   sangue   que   cai   leva   junto   a   ilusão   da   não 
diferenciação sexual – a infância.
A diferenciação sexual não se inscreve mas ela se desloca, graças à 
estrutura da linguagem, para as mulheres brancas que menstruam e mulheres 
pretas que não menstruam como veremos mais adiante.
O   fim   de   sua   doença   se   dará   aos   20   anos   quando   não   mais   terá 
“problemas de regulação, problemas de mocinha”. Ela soube disso através de 
uma mensagem que recebeu “psiquiatricamente”, uso neológico que além de 
mostrar como se dá a sua ‘comunicação’ com o Outro, mostra também um tipo 
de relação muito especial com a ordem médica. 
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Não   podemos   deixar   de   assinalar   que   regulamento,   regulação, 
incomodado, têm a forma da holófrase, isto é, um significante que condensa 
maciçamente   toda   uma   frase.   Na   holófrase   não   há   separação   entre   os 
elementos da cadeia; no S1 estão solidificados todos os demais significantes 
em que este S1 poderia se desdobrar.
O  Kalismã  é entendido como um período de sua vida ao final do qual 
nada vai mudar, nenhuma mudança vai se produzir, ela vai retomar o ponto no 
qual estava antes da crise. A crise, se comparada com o sintoma neurótico não 
se constitui num enigma já que é um período que vai passar.

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