Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
Discussão do caso: 
Através da construção do caso vamos tentar chegar à estrutura. Temos 
então que extrair dos ditos a posição do sujeito na estrutura. Os ditos são os 
‘fenômenos’ da estrutura, neles é que vamos perceber como se articulam os 3 
registros: real, simbólico e imaginário.
Amanda nos dá mostras da sua divisão subjetiva ao dizer que não fala 
querendo falar, não reage quando quer reagir. Isto nos aponta para um conflito, 
que como Freud nos indicou está na base do sintoma. 
Seu sintoma é ‘não falar’. Ele está referido a uma cena em que vê a mãe 
pedir ao irmão para falar e este não o faz. Esta cena se repete toda vez que 
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Amanda adoece: os outros pedem que ela fale e ela não fala. Isto nos mostra 
que ela se coloca numa posição especular em relação ao irmão, tomando este 
traço ‘não falar’ como um traço identificatório. Ela não se identifica com o irmão 
e sim  com aquilo  que  falta a  ele  e  que,  porque  falta,   instaura na  mãe  um 
desejo. Amanda supõe, pela demanda insistente da mãe ao filho, que é este 
traço que causa desejo na mãe, confundindo, assim, demanda com desejo. 
O   sintoma   é   uma   resposta   do   inconsciente,   na   forma   do   retorno   do 
recalcado, àquilo que causa enigma no sujeito: o que o outro quer de mim? O 
sintoma de Amanda é o que retorna como uma tentativa de resposta a este 
enigma articulado ao desejo da mãe. Através de um ato falho ela nos diz que o 
que se constituiu como uma cena traumática para ela foi a sua fuga de casa 
para se casar: “minha doença começou aos 18 anos”, data, não do início de 
sua doença, mas sim, de quando foge para se casar.
Este ato falho, tomado como uma formação do inconsciente nós dá a 
direção   do   que   não   foi   significado   e   retorna.   O   que   tomou   o   caráter   de 
traumático para esta paciente foi o fato de, aos 18 anos, ter que abandonar o 
amor do pai para fugir com o marido e, através dele, tentar obter o amor que 
supunha não ter do pai. Esta decisão se configurou como uma escolha forçada, 
isto é, por não ocupar o lugar da filha preferida, objeto do amor do pai, Amanda 
se vê impelida a fugir de casa para buscar ocupar este lugar em relação a um 
outro   homem,   o   marido,   aquele   que   por   um   deslizamento   metonímico   dá 
seqüência a série ‘pai’. 
Importante salientar que o pai sucede a mãe no Édipo feminino. Como já 
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vimos no capítulo anterior, o primeiro objeto de amor é a mãe, é ela que ocupa 
o   lugar   do   grande   Outro   para   a   criança;   com   a   entrada   do   pai   há   uma 
ressignificação da mãe através da metáfora paterna, por isso, o pai sucede a 
mãe. Este lugar do pai, como grande Outro para a menina, vai deslizar para os 
outros homens a quem ela possa dirigir suas demandas de amor, quando do 
declínio do Édipo.
O que podemos verificar neste caso é que a fuga de casa configurou-se 
como um apelo ao pai na forma de uma demanda de amor e é este apelo ao 
pai que vai ser atualizado quando, logo após a morte deste, ela adoece.
Articulando a primeira cena, da mãe com o filho, com a segunda, a fuga 
de casa, podemos construir uma série onde o filho está para a mãe assim 
como Amanda gostaria de estar para o pai, como objeto de amor.
Filho ----------------------------- Mãe
                               Amanda -------------------------- Pai
Já no sintoma o que se articula é uma atualização da cena traumática 
onde   o   apelo   ao   pai   como   objeto   de   amor   se   dirige   ao   marido   numa 
equivalência simbólica da relação do filho com a mãe.
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Filho ----------------------------- Mãe
                               Amanda -------------------------- Marido
Na articulação das duas cenas (da mãe com o filho e do sintoma) as 
séries que se formam tomam esta configuração: o filho está para a mãe assim 
como Amanda está para o marido.
No   sintoma   se   condensam   as   duas   cenas   e   Amanda   se   coloca   em 
relação ao marido na posição de objeto tal qual o filho estava para a mãe. Esta 
configuração nos mostra que a posição subjetiva de Amanda é a de objeto 
tanto com relação ao pai quanto ao marido, através do traço pelo qual ela se 
identifica ao irmão. 
Interessante notar que não era o pai que estava como objeto do desejo 
da mãe e sim o filho, era ao filho que a mãe dirigia sua demanda, e não ao pai. 
Talvez esta substituição – o filho no lugar do pai em relação ao desejo da mãe 
– é que tenha levado Amanda a se identificar com o traço ‘não falar’ do irmão 
tomado como causa de desejo.
A entrada do filho no lugar do pai enquanto objeto do desejo da mãe, 
como   aquele   que   poderia   completar   a   falta   na   mãe,   denota   uma   certa 
impotência do pai diante do desejo da mãe. Nenhum pai dá conta do desejo da 
mãe mas isto não impede que ela continue a dirigir sua demanda a ele. O que 
se coloca, neste caso, é que a demanda materna se dirige ao filho e não ao 
pai. 
Esta situação de impotência  do pai diante  da mãe é dramatizada na 
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segunda cena que recortamos: o pai de joelhos pede que a mãe perdoe a filha. 
Esta cena é particularmente interessante, já que, é nela que Amanda tem a 
prova do amor do pai, justamente, quando este se humilha diante da mãe, 
mostrando que o pai imaginário está na base da fantasia neurótica.  
O que podemos construir é que o pai, na sua vertente imaginária, se 
colocava para Amanda como impotente diante do desejo da mãe, mas na sua 
vertente simbólica, como função paterna, foi eficaz o suficiente para produzir 
um significante que barrasse o desejo da mãe. Sua palavra, mesmo que de 
joelhos, tinha valor para a mãe, tanto é assim que ela perdoa a filha a pedido 
do marido. 
Vamos tomar o esquema L de Lacan para demonstrar como o sintoma 
surge no lugar do sujeito pela articulação dos eixos simbólico e imaginário. 
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           S                                            a’
  Amanda                                                irmão
    Muda
                      a                                                A   
               Amanda                                                 Pai


A   relação   especular   se   dá   com   o   irmão   em   função   da   identificação 
produzida   com   traço   ‘não   falar’.   O   pai   está   na   posição   do   Outro,   que   no 
primeiro tempo do Édipo era ocupado pela mãe, mas com a metáfora paterna, 
esta foi resignificada pelo pai. O apelo dirigido ao Outro toma a forma de um 
apelo de amor ao pai, ser a filha preferida, ser o alvo do perdão paterno e dos 
apelos deste à mãe. É a partir do pai no lugar do Outro que Amanda busca 
uma significação através do sintoma, no seu caso, ser o objeto de amor. 
O sujeito colocado na posição de objeto, aparentemente, faz com que 
ele não compareça na posição de desejante, porém, é dessa posição de objeto 
que Amanda pode desejar: desejar ser o objeto. 
Esta posição subjetiva pode ser verificada pela maneira como ela se 
oferece ao Outro através da forma enigmática de seu sintoma. Tanto é assim 
que é o marido quem quer que ela fale, ela mesma não dá a sua ‘libra de 
carne’,   pelo  contrário,  extrai  deste  sintoma  um   gozo.   Ela   se  oferece,   como 
objeto, à medicina para poder gozar: gozar do estupor.   O gozo obtido como 
objeto a fixa nesta posição, o que faz com que ela precise constantemente 
repetir a cena: chegar muda (traço do irmão) ao hospital para assim poder 
tomar   eletrochoque.   A   primeira   forma   de   gozo   é   pelo   estupor   que   é 
rapidamente trocada pelo eletrochoque quando ela chega ao hospital. 
Temos então o diagnóstico feito a partir da construção do caso. Vemos 
que o operador estrutural, aquele que amarra real, simbólico e imaginário, fez 
sua função na forma do sintoma. Este operador é o Nome-do-Pai e é em torno 
dele que se dá a estruturação psíquica. O Nome-do-Pai no caso de Amanda 
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aparece   articulado   ao   Complexo   de   Édipo   como   uma   suplência   que   nos 
referencia à categoria da neurose. É o Nome-do-Pai sob a forma de sintoma 
que possibilita que as series se liguem e se superponham, articulando desejo e 
gozo. 
A   estrutura   existe   pelos   seus   efeitos,   portanto,   vamos   buscar   estes 
efeitos. 
Amanda não apresenta nenhum dos fenômenos típicos da psicose: não 
tem   fenômenos   elementares,   não   alucina   nem   delira   e   não   produz 
neologismos. O que emerge é uma formação do inconsciente que retorna sob a 
forma   do   sintoma   que   está   lá   para   ser   decifrado.   Não   retorna   no   real   dos 
fenômenos psicóticos, retorna no campo do simbólico sob a forma metafórica 
do sintoma.
A esse propósito podemos dizer que o estado estuporoso apresentado 
pela paciente não é da ordem da catatonia pois não responde a uma forma de 
gozo absoluto do Outro. O Outro não goza dela, é ela que goza, quando entra 
no estado estuporoso, como objeto de cuidados e preocupação. Ela sai deste 
estado com o eletrochoque mas isso não se sustenta por muito tempo. Ela 
sempre volta para apontar o furo no Outro, a inconsistência do saber médico. 
O  eletrochoque é consistente/inconsistente,  ele faz com que  Amanda 
volte às suas funções de dona de casa como quer o marido, mas esta, que 
poderia   ser   uma   forma  de   identificação   com   a   mãe,   vacila   e   ela   retorna  a 
posição de filha. O significante ‘dona de casa’, no seu caso, poderia ter duas 
vertentes identificatórias com a mãe: a de dona de casa e a da dona da casa, 
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lugar falicizado ocupado também pela mãe. Ela recusa a ambos, fixada que 
está no gozo pelo mutismo.   
O   seu   gozo   está   inserido   na   ordem   fálica,   é   um   gozo   na   forma   de 
sintoma, portanto, articulado à cadeia significante. Ele vem no lugar daquilo 
que aponta uma falta no Outro, seu mutismo se lança como enigma ao Outro 
mostrando nele uma inconsistência. 
Da mesma forma podemos dizer que seu estupor não é melancólico, 
pois não estão presentes os fenômenos típicos da melancolia, quais sejam, a 
autocomiseração, a auto-acusação e a autoflagelação. O que aparece é uma 
indiferença com relação ao seu estado, uma ‘bela indiferença’, onde ela não se 
implica no sintoma – “é de família”; onde são os outros que querem que ela 
fale, são os outros que sofrem por ela, são os outros que devem cuidar dela: o 
marido controla a medicação, as filhas lhe dão banho e a cura depende dos 
médicos e dos remédios. 
Quanto   a   este   fenômeno   ser   um   estupor   dissociativo,   na   linguagem 
psiquiátrica, seria até mais razoável, porém, precisamos diferenciar o que é da 
ordem dos transtornos dissociativos para a psiquiatria do que é da ordem da 
histeria  para  a  psicanálise.  O  estupor dissociativo  é  definido por  “causação 
psicogênica   na   forma   de   eventos   estressantes   recentes   ou   de   problemas 
interpessoais   ou   sociais   proeminentes.”   (CID-10,   p.153)     Os   transtornos 
dissociativos   de   modo   geral   são   entendidos   como   “estando   intimamente 
associados   no   tempo   a   eventos   traumáticos,   problemas   insolúveis   e 
intoleráveis ou relacionamentos perturbados”. (CID-10, p. 149). 
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Objetivamente   nada   disso   pode   ser   constatado   na   paciente,   mas   se 
tomarmos   seu   discurso   poderemos   ter   surpresas.   O   que   seriam 
‘relacionamentos perturbados’? O pai carrancudo que a paciente supõe não 
gostar dela e preferir a irmã mais velha? A mãe que não gostava que os filhos 
brincassem,   que   não   aceitou   seu   casamento?   A   família   que   pede   o 
eletrochoque   dizendo   ser   esta  a   única   maneira   dela   melhorar?   E   o   evento 
traumático   acontecido   há   46   anos   atras?   A   sua   atualidade   não   estaria   na 
reedição do traumático a partir do efeito de significação dado a posteriori?
A objetividade traz problemas, ela impede que se escute o sujeito. Ao 
tomar o tempo como algo linear se perde a dimensão do inconsciente como 
atemporal e o que limita a apreensão fenomênica ao aqui e agora. Sem trauma 
recente não há histeria? Mas não é a histeria que sofre de reminiscências, 
como nos ensina Freud? 
A   justificativa   dada   para   que   o   termo   histeria   tenha   sido   banido   das 
classificações atuais foi “em virtude de seus muitos e variados significados.” 
(CID-10, p. 149), fato aliás, já apontado por Freud em seus Estudos sobre a 
histeria (1895), o que não o fez deixar de usar o termo, mas sim, tentar precisá-
lo.
  “
Sempre que um sintoma histérico, como uma anestesia ou um ataque 
característico,   era   observado   num   caso   complicado   de   degeneração 
psíquica, todo esse estado era descrito como de “histeria”, de modo que 
não   surpreende   que   as   piores   e   mais   contraditórias   coisas   fossem 
reunidas sob esse rótulo.” (Freud, 1895, Cap. IV)
Se quisermos falar em termos de uma nosologia temos que situar este 
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sujeito como histérico, mas na verdade o que é fundamental é que dando valor 
ao seu próprio discurso podemos destacar os significantes que o representam 
e estes estão no seu próprio nome: AMA. Estas três letras marcam este sujeito 
no   seu   universo   simbólico,   não   só   na   sua   particularidade   mas   também   na 
universalidade   da   estrutura   da   linguagem.   AMA   está   presente   no   nome   de 
todos os filhos do casal, imprimindo neles uma heráldica desta união. Para 
ilustrar podemos dizer que, na crise subsequente a relatada, Amanda sai dela 
dizendo para a chefe da equipe: “É doutora, o meu mal é amar demais.”
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