Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
Entrevista psicanalítica:
Esta entrevista tem como  objetivo deixar falar o  sujeito. Ela não tem 
roteiro prévio nem contato prévio entre o paciente e o psicanalista ou da equipe 
clínica   com   o   psicanalista,   a   não   ser   por   uma   rápida   conversa   do   médico 
responsável   pelo   paciente   com   o   psicanalista   com   o   objetivo   de   informá-lo 
sobre os motivos que levaram a equipe a pedir a entrevista; esta conversa se 
dá minutos antes do psicanalista ser apresentado ao paciente. 
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 A equipe clínica é uma equipe multidisciplinar composta por psiquiatras, residentes em psiquiatria
assistente social, terapeuta de família, terapeuta ocupacional, enfermeiros e psicólogos.
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A entrevista foi feita numa pequena sala onde estavam presentes além 
do   psicanalista,   os   alunos   da   pós-graduação   do   IPUB   matriculados   nesta 
atividade e os profissionais que cuidam do caso. 
A entrevista é transcrita e na aula seguinte o caso é construído, a partir 
desta   construção   o   diagnóstico   e   a   direção   a   ser   dada   ao   tratamento   são 
discutidos.  
A   entrevista   com   Amanda   se   deu   um   mês   após   sua   alta   hospitalar, 
quando ela estava em atendimento ambulatorial psiquiátrico e psicoterápico.
Antes   da   entrevista   seu   marido   abordou   o   médico   e   avisou   que   a 
entrevista não ia dar certo porque “ela não fala”. Não foi isso o que ocorreu, 
Amanda   falou   todo   o   tempo,   sem   necessidade   de   muita   estimulação. 
Respondeu às perguntas, quando estas surgiam e assim pode nos contar a 
sua história. Faremos alguns recortes da entrevista, aqueles que se mostrarem 
significativos na nossa argumentação. 
Disse, logo no início, que estava doente há 18 anos: “não como, não 
bebo, não tomo banho, só fico em cima da cama, não falo com ninguém... Há 
18 anos venho assim.” Disse também que a doença vem de repente e que esta 
é “de família”. Teve “dois sobrinhos que morreram dessa doença” e dois irmãos 
também   doentes.   Explica   que   os   sobrinhos   ficavam   agitados,   “já   a   minha 
doença é calma, eu não falo com ninguém.” Acrescenta que a bisavó “morreu 
louca”  e que um  de seus irmãos também “morreu dessa doença”. O nome 
desse irmão é muito parecido com o nome dela ambos começam pelas letras: 
AMA. 
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Sobre este irmão Amanda nos conta uma cena que queremos recortar: . 
“Ele ficava nervoso, ficava sem falar, a minha mãe ficava falando com ele, ele 
não respondia, ficava assim nervoso, aí eu também ficava nervosa.” Com o 
passar da entrevista o entrevistador percebe que o nome de todos os filhos 
formam anagramas com a palavra AMAR e aponta esta “coincidência”.
Ela nós fala do seu pai dizendo que ele era carrancudo e que “parecia 
que não gostava da gente”;  achava que sua irmã mais velha é que era a filha 
preferida pelo pai. De sua mãe diz que ela batia muito nos filhos e que “ela não 
gostava da gente brincar, né? Gostava que a gente ficasse dentro de casa, se 
a gente não ficasse, aí ela vinha e aí batia.”
Em determinado ponto, na   seqüência de sua fala sobre o irmão e os 
sobrinhos que eram doentes o entrevistador lhe pergunta: E a sua doença, 
começou   quando?   Ao   que   ela   responde:   “A   minha   doença   começou   aos 
dezoito anos”. O entrevistador estranha: “Dezoito anos?” E ela não acusa o 
golpe: “É. Eu tava com 46 anos”, conserta. Este é outro recorte que queremos 
fazer na sua fala. Reconhecemos este acontecimento como um ato falho, algo 
aparentemente sem nexo, que emerge no discurso, sem intenção consciente e 
que aponta para o recalcado. 
A este ato falho segue-se justamente o relato de seu casamento quando 
ela tinha 18 anos, com o seu primeiro namorado, com quem está casada até 
hoje e que considera um bom casamento. 
Fala da morte da mãe e do pai. A mãe morreu de câncer quando ela 
estava com 50 anos e o pai morreu numa cirurgia de próstata há “vinte e um 
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anos” atrás. Feitas as contas chega-se à época em que ela adoeceu. 
Assim   que   fala   da   morte   do   pai   conta   uma   outra   cena   que   também 
queremos recortar. Ao conversar com a mãe sobre o pai diz: “Eu pensava, eu 
falava sempre com minha mãe assim, que ele ficava carrancudo, né? Aí eu 
falava com a minha mãe : eu acho que o papai não gosta de mim não. Aí a 
mamãe falou assim: ah, gostava sim, porque ele pediu prá mim perdoar você. 
Porque para me casar, eu fugi de casa, né? A minha mãe não quis me perdoar, 
aí ele ajoelhou nos pés dela e pediu prá ela me perdoar. Aí ela me perdoou. Aí 
ela disse assim: você tá vendo, ele gosta de você, você pensa que ele não 
gosta de você mas ele gosta, ele pediu prá mim perdoar você.” Esta cena tem 
especial interesse porque no  a posteriori  vai dar sentido ao ato falho dela ao 
dizer que tinha adoecido aos 18 anos. 
Segue dizendo que o pai “não dava muita opinião” e que a mãe “é que 
gostava mais de mandar.”
Volta   a   afirmar   que   “se   não   fosse   a   doença   eu   seria   muito   feliz.   A 
doença é que me faz ainda ficar triste.” 
Sobre o eletrochoque diz que pediu “ao Dr. S. para não lhe dar choque e 
ele não deu”, diz ter “pavor” do choque.
Volta a falar que a sua doença é de família e diz que sua mãe, quando a 
via doente dizia: “é, eu acho que essa doença é de família, porque você e seus 
irmãos são todos doentes, sua avó já morreu louca, e vocês são todos doentes, 
eu acho que isso é de família.” Neste momento o entrevistador pergunta se ela 
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acha  que  o  que  tem  é  loucura,  ao  que  ela  responde:   “Olha,   o  meu  não  é 
loucura porque eu fico... eu sou normal, né? Eu sei o que tá se passando, eu 
não..., a minha cabeça tá boa. Eu só fico mesmo sem comer, sem beber, sem 
falar, mas eu sei de tudo. Só não falo. Eu não reajo. A doença não deixa eu 
reagir.” Diz que quando fica doente e vê o marido e os filhos tristes “aí me dá 
vontade de reagir mas eu não reajo, fico em cima da cama, não como, não 
bebo, não tomo banho...”
Já chegando ao final da entrevista ela nos dá uma prova insofismável da 
estrutura pela forma da denegação. Ao ser perguntada se tinha alguma coisa 
que gostaria de contar, alguma coisa que achasse que “tenha sido realmente 
importante na sua vida”, responde: “Não tem nada marcante na minha vida, 
não.”

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