Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
fantasma  e  A  posição  do Inconsciente,  ambos de 1966,  para localizar  esta 
virada em relação ao simbólico.  A estes dois textos nós somamos um terceiro: 
Do Trieb de Freud e do desejo do psicanalista de 1964. Neles o que está em 
jogo é a idéia de que o desejo não pode ser capturado todo pela linguagem, 
portanto, que no simbólico falta um significante e que “o desejo é desejo de 
desejo, desejo do Outro (...) submetido à Lei.” (Lacan, 1964, p.866)
A lei à qual o significante está submetido, é a lei da castração – “é antes 
a assunção da castração que cria a falta pela qual se institui o desejo “ (id.), 
porque “ a lei está a serviço do desejo que ela institui pela proibição do incesto” 
(id.).
Mas esta lei não é propriamente a da ameaça de castração. Lacan teria 
tentado diferenciar o mito edípico da estrutura da linguagem fazendo com que 
de um lado estivesse a castração na linguagem que nos remeteria à “falta real 
de um significante capaz de nomear o desejo feminino” e de outro a ameaça de 
castração como “uma falta imaginária, fantasia edípica, que antes encobre a 
falta real do que a revela” (Coelho dos Santos, 1998).
Tendo a linguagem como estrutura (Miller, 1994) o que se esboça é que 
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esta falta é um dado da estrutura, falta fundamental em torno da qual o sujeito 
se organiza. Se à estrutura falta algo, como poderíamos conceber o simbólico 
como sem buracos? Assim, não só o simbólico “cria buracos no real, como 
também   ele   mesmo   tem   seu   buraco   irredutível”   (Soler,   1996,   p.   27).   Este 
buraco,   diz   Soler,   é   tamponado   pelo   fantasma,   “   há   algo,   de   uma   só   vez 
imaginário e real no fantasma que pode cumprir a função de tampão” (p.28). 
Tomando o simbólico como não-todo, e sendo esta uma condição da 
estrutura, temos que admitir que isto ocorre tanto para a neurose quanto para a 
psicose.
Neste ponto uma questão se impõe: como entender, a partir deste novo 
estatuto do simbólico, as estruturas clínicas organizadas em torno da operação 
da metáfora paterna, tendo o Nome-do-Pai como o significante da lei?
A princípio constata-se que se a castração opera na linguagem e esta é 
a lei da estrutura, não há porque se entender que na neurose opera o Nome-
do-Pai enquanto que na psicose ele está foracluído. Pois se a castração está 
para todos, a foraclusão de um significante que venha no lugar da falta na 
estrutura também existe para todos. 
Esta dedução vai fazer com que Lacan entenda que não há um Nome do 
Pai e sim Nomes-do-Pai. Isto quer dizer que tanto o mito edípico da neurose, 
quanto o delírio na psicose, quanto o fetiche na perversão são Nomes do Pai; 
são formas de na linguagem dar conta do insuportável da castração, de tentar 
dar conta deste significante que falta no Outro, entendendo o Outro na vertente 
do lugar dos significantes. 
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O Nome-do-Pai tem então a função de ser um significante que amarre 
os 3 registros – Real, Simbólico e Imaginário. Como significante o Nome-do-Pai 
é uma exceção pois ele não é um significante que significa o sujeito para outro 
significante, sua função é outra, é a de possibilitar que o sujeito venha a ser 
representado pelo significante (Soler, 1991). Ele, portanto, não tampona a falta 
mas possibilita que tampões se constituam. 
Na medida em que o Nome-do-Pai não tampona a falta no Outro, esta 
falta sempre estará em jogo para o sujeito que tentará significá-la a seu modo. 
Como esta tentativa será sempre uma tentativa, ela deixará restos e é deles 
que o neurótico tentará extrair o gozo, atribuindo ao Outro um desejo que para 
ele, neurótico, será enigmático. Na psicose o gozo não é enigmático é tirânico, 
nela o  que temos é o gozo do Outro que xinga o sujeito e o humilha através do 
que as vozes lhe dizem. Mas em ambos os casos temos um efeito de sentido: 
o Outro quer que eu seja brilhante ou o Outro faz com que eu goze como uma 
mulher (no caso Schreber). Este efeito é dado pelo ponto de basta.
Ponto de basta é aquilo que retroativamente produz sentido, qualquer 
que seja ele, e havendo produção de sentido há sujeito, mesmo que o sentido 
se produza na forma de um delírio.
Assim, teríamos que pensar que, o que está em jogo na psicose, não é a 
foraclusão do Nome do Pai mas um modo de Nome-do-Pai, ou seja, um modo 
do ponto de basta produzir sentido: pelo sintoma ou pelo delírio. A referência 
às 3 categorias – neurose, psicose e perversão fica, então, relativizada.
É   a   partir   da   teoria   dos   nós   que   Lacan   vai   passar   a   fazer   os   seus 
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diagnósticos,   afastando-se   das   categorias   psiquiátricas.   Isto   implica   que   as 
estruturas clínicas não seriam ordenadas pelo ‘ter’ ou ‘não ter’ o Nome-do-Pai e 
sim por uma gradação entre diferentes maneiras de operar com o Nome-do-Pai 
fazendo-o eqüivaler ao sintoma. Vamos tentar ir um pouco mais adiante nesta 
discussão.
No   seminário   inédito   sobre  O   Sinthoma  (1975-76)   Lacan   vai   fazer   o 
Nome-do-Pai se eqüivaler ao sintoma. Para tal faz uso da homofonia entre 
perversão e père-version para dizer que o pai tem versões e que uma delas é o 
sintoma. Diz mais, que “toda realidade psíquica, quer dizer o sintoma, depende, 
em   ultima   análise,   duma   estrutura   em   que   o   Nome-do-Pai   é   um   elemento 
incondicionado.” (Ibid.,  p. 28) Ora, assim, o Nome-do-Pai, como o sintoma e 
‘toda a realidade psíquica’, é  justamente “este quarto elemento sem o qual 
nada é possível no nó do simbólico, do imaginário e do real” (id.). É por esta via 
que Miller vai poder entender que o Nome-do-Pai e o sintoma são duas formas 
de se fazer o ponto de basta (Miller, Henry, Jolibois, 1997) e que clínicamente 
podemos constatar uma gradação com relação a esta amarração, muito mais 
que uma diferença. A clínica borromeana teria mais um caráter continuísta que 
descontinuísta, fruto de uma  gradação em relação ao ponto de  basta,  uma 
gradação em relação ao compromisso estrutural do sujeito com a linguagem. 
Nela não caberia a idéia de que na psicose haveria um déficit no simbólico, o 
que   redunda   em   conseqüências   na   clínica   da   psicose,   bem   como   no   seu 
diagnóstico.
Pelo   percurso   feito   em   nossa   exposição   temos   duas   concepções   do 
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diagnóstico, que mesmo não se opondo, e até mesmo se complementando, 
marcam  dois  momentos  das  formulações  lacanianas  sobre  o  diagnóstico:  a 
primeira referida às categorias psiquiátricas e a segunda referida à estrutura da 
linguagem.  Podemos  considerar   que   está  segunda   clínica,   se   superposta  à 
primeira,   nos   dá  indicações   de   critérios   moebianos   de  diagnóstico   onde  os 
lados   da   fita   estariam   indicados   por   uma   maior   ou   menor   consistência   do 
Outro. 
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