Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
preliminar   a   todo   tratamento   possível   da   psicose  (1966).   São   eles   os 
fenômenos de código e os fenômenos de mensagem. 
Segundo   Lacan,   primeiro   teríamos   os   fenômenos   de   código   que 
consistem nos neologismos, nas significações neológicas, na reduplicação dos 
significantes sem que para eles contribua nenhum sentido e nos significantes 
desprovidos de significação mas que justamente por isso tomam para o sujeito 
um valor de certeza.
Nos fenômenos de mensagem estariam as mensagens interrompidas no 
exato momento em que a significação iria se dar, isto é, são frases que “ se 
interrompem   no   ponto   em   que   os   termos   no   código   indicam   a   posição   do 
sujeito a partir da mensagem e que são designados por shifters” (Quinet, 1997, 
p.16-17)  
Lacan, então, retira a alucinação do âmbito da percepção e a coloca fora 
do ouvido, no lugar do Outro: a alucinação é a voz do Outro. É a voz que tenta 
significar   o   sujeito   psicótico.   É   uma   voz   direta   que   vem   do   Outro   como 
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imperativa, sem equívocos ou possíveis negociações.
Segundo Miller (1997), a voz, como um objeto pulsional, é tudo o que do 
significante não converge para o efeito de significação diferente da função da 
palavra que comporta além do dizer a intenção de significação. A voz para 
Lacan é uma função da cadeia significante, portanto, não está ligada a nenhum 
orgão dos sentidos. Essa voz que vem do Outro é a que o sujeito psicótico 
ouve e para a qual o neurótico ensurdece como efeito da operação da metáfora 
paterna (p. 12).
A alucinação nas formas psicóticas delirantes funciona como suplente 
deste vazio de significação, porém, existem alucinações onde não se tem este 
efeito de assentamento na cadeia significante do delírio. São vozes que se 
infinitizam porque seu estatuto não dá conta de dizer nada do sujeito. O sujeito 
fica, assim como as vozes, à deriva. Um eterno deslizamento metonímico que 
não ancora o sujeito a nenhum porto. Elas se infinitizam justamente porque não 
conseguem   amarrar   o   sujeito   numa   significação.   Mesmo   não   dando   conta 
imaginariamente do sujeito, há nelas um ponto de certeza inabalável próprio da 
alucinação psicótica. 
Freud  nos diz que o psicótico  crê na  realidade da  alucinação (Freud 
1915b). Vamos partir desta afirmativa para articular a crença do neurótico e a 
certeza   do   psicótico   tentando   provar   que   a   alucinação   psicótica   tem   um 
estatuto diferenciado da alucinação na neurose.
A   crença   do   neurótico   se   baseia   na   possibilidade   da   descrença.   O 
neurótico está sempre dividido por uma afirmação primordial (Bejahung) e uma 
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denegação (Verneinung) desta afirmação, tendo em vista que a denegação, 
como nos explica Jean Hyppolite (1954, p.895), é um processo dialético que 
nega para afirmar, que suprime para conservar. Diferentemente do neurótico, o 
psicótico   está   imerso   numa   certeza   sem   vacilações   porque   esta   afirmação 
primordial (Bejahung) não foi negada – e assim afirmada – ou, como diz Freud, 
"o   que   se   passa   é   que   a   pessoa   se   recusa   a   crer   na   autocensura” 
(Freud,1892), sendo a autocensura o primeiro tempo desta negação.  
A partir destas considerações podemos tentar entender que a certeza 
que o psicótico tem das suas alucinações seja fruto justamente disto que lhe 
falta, ou seja, o recalque, e que a certeza que o assola vem em lugar daquilo 
que ficou foracluído: o Nome-do-Pai.
Em   síntese   podemos   dizer   que,   nesta   primeira   formalização,   as 
alucinações   relatadas   pelos   sujeitos   histéricos   são   fruto   de   um   mecanismo 
totalmente diferente daquelas relatadas pelos psicóticos. Senão, vejamos:
As alucinações nos casos psicóticos vêm de um Outro que goza dele, 
um Outro que para o sujeito existe, é consistente a ponto de falar com ele, 
demonstrando assim a falta de um significante que venha metaforizar o desejo 
do Outro e que inscreva o sujeito na ordem fálica. 
Agora, vamos retomar um ponto que ficou suspenso até então. Trata-se 
da   concepção   do   simbólico   que   Lacan   formula   a   partir   dos   anos   70.   Este 
estudo   não   será   tão   exaustivo   quando   gostaríamos   porque   ele   está   em 
andamento  neste  momento  da  nossa  pesquisa.  Pretendemos,  contudo,   nos 
dedicarmos a ele em estudos posteriores, visando uma tese de doutorado.
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A   efetiva   entrada   da   topologia   no   ensino   de   Lacan   possibilitou-lhe   a 
utilização do nó borromeano para articular os três registros: real, simbólico e 
imaginário.   Isto   acarretou   uma   modificação   com   relação   à   primazia   do 
simbólico em relação aos demais registros. 
A partir de 1966, algumas formalizações de Lacan já apontam para um 
novo   estatuto   para   o   simbólico.   Soler   (1996)   cita   os   textos  A   lógica   do 

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