Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura


Partindo de Freud, Lacan vai considerar a castração como o ponto a



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)

Partindo de Freud, Lacan vai considerar a castração como o ponto a 
partir   do   qual   a   estrutura   se   organiza.   A   castração   vista   por   Freud   como 
complexo é alçada, por Lacan, à condição de lei.
Seguindo Freud e Lacan, temos que o falo está colocado para os dois 
sexos   como   o   elemento   central   do   Édipo,   assim,   Freud   no   texto   sobre  
Organização Genital Infantil  (1923) diz que a diferença sexual anatômica dos 
dois   sexos   faz   com   que   apenas   o   órgão  sexual   masculino  seja   levado   em 
consideração nesta organização. Isto se dá não porque se trate propriamente 
do órgão como pênis, mas sim do órgão elevado a sua condição simbólica de 
operador   de   diferença.   Estamos   então,   sob   a   primazia   do   falo,   elemento 
simbólico organizador da estrutura edípica, operador da diferença sexual.
Para Freud o saber sobre a diferença sexual impõe ao menino a ameaça 
de castração corroborada pelos desejos incestuosos deste para com a mãe. 
Esta conjunção se constitui no complexo de Édipo freudiano que pela ameaça 
de castração faz com que o menino abandone a mãe como objeto de seus 
desejos e busque no pai uma identificação que lhe possibilite desejar outras 
mulheres; esta operação de deslizamento do desejo da mãe para as outras 
mulheres marca o que Freud denominou o declínio do complexo de Édipo (cf. 
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Freud, 1924).
Na   menina,   porém,   a   ameaça  de   castração   não  funciona   do  mesmo 
modo, já que sob o ponto de vista anatômico ela não tem o pênis, portanto, não 
pode sofrer, a partir daí, nenhuma ameaça. Se a livra da ameaça não a livra da 
condição   de   querer   tê-lo.   Assim,   se   instala   a   inveja   do   pênis,   assunto   tão 
controvertido e debatido pelas feministas e pelos pós-freudianos de primeira 
hora. Pois é isto que Freud denominou inveja do pênis que vai possibilitar à 
menina a sua entrada no Édipo pela mesma via pela qual o menino sai, ou 
seja, vai desviar seus desejos em relação à mãe e transferi-los para o pai, 
criando assim a possibilidade de se identificar com a mãe, buscando nela os 
atributos femininos, constituindo a feminilidade como um enigma.
Tomando   o   complexo   de   Édipo   freudiano   como   um   operador   da 
estrutura, Lacan, vai entender a castração como uma lei e o falo como um 
significante. Ele propõe três tempos lógicos para o Édipo:
No primeiro tempo a criança (de ambos os sexos) se identifica com o 
falo por tomá-lo como o objeto do desejo da Mãe. A princípio o que a criança 
deseja é ser o objeto do desejo da mãe, algo no discurso bruto da mãe aponta-
lhe um lugar, é de lá que a criança surgirá identificada ao falo (Lacan, 1957-58, 
p.207).     Ser ou não ser o falo dependerá da designação da Mãe, enquanto 
colocada no lugar do grande Outro, detentora do poder de vida e morte. Neste 
primeiro tempo temos  três termos: a mãe, a criança e o falo
No   segundo   tempo   a   lei   que   antes   estava   encarnada   na   Mãe   como 
Outro absoluto, toma uma nova ordenação a partir da entrada do pai. O pai 
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promove uma separação entre mãe e filho através da privação imaginária que 
impõe à mãe. Ele aponta para a criança que o desejo da mãe está em outro 
lugar, para além dela, a criança. Esta operação, que apesar de não se dar sem 
um suporte real de um pai, é eminentemente simbólica, a lei da castração. 
O pai real é o agente da castração, aquele que promove a falta simbólica 
do  falo como objeto  imaginário.  Ele  não se confunde  com  o  pai imaginário 
personagem do romance familiar, o pai da fantasia, nem com o pai simbólico, 
pura conjectura, o Pai morto, para Lacan. O pai real é aquele para quem o 
desejo por uma mulher marca a sua própria castração, ele não é o falo, mas é 
aquele que a criança supõe ter o que falta à mãe.  Lacan, no Seminário sobre 
as Formações do Inconsciente (1957-58) fala de um pai que “pode dar à mãe o 
que ela deseja, e pode dar porque possui. Aqui intervém, portanto, a existência 
da   potência   no   sentido   genital   da   palavra   –   digamos   que   o   pai   é   um   pai 
potente.” (p.200) 
  Esta nova ordem, da castração como lei, implica que um significante 
metaforize o Desejo da Mãe, impondo-lhe uma proibição que fará com que a 
criança tenha que lançar mão de outros recursos para se situar como sujeito na 
trama edípica. A este significante do pai que barra a mãe Lacan chamou o 
Nome-do-Pai e a operação em que este faz valer a lei do pai, inclusive para a 
mãe, ele chamou de Metáfora Paterna. 
“(...)  é  na   medida   em   que   o  objeto  do   desejo   da   mãe   é   tocado  pela 
proibição paterna que o círculo não se fecha completamente em torno da 
criança e ela não se torna, pura e simplesmente, o objeto do desejo da 
mãe.” ( Lacan, Ibid., p. 210)
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Estes são os elementos em jogo no segundo tempo do Édipo: o pai, a 
mãe, a criança e o falo. Assim o que temos é que o pai vem no lugar da mãe, 
como   um   significante   que   substitui   o   significante   materno.   Esta   operação 
implica que ao significante materno esteja associado um significado – o falo. 
É justamente esta operação, metáfora paterna, e o modo como cada um 
vai poder articular estes elementos que irão definir o modo de estruturação do 
sujeito como neurótico ou psicótico.
No   terceiro   tempo   o   sujeito   neurótico,   através   da   metáfora   paterna, 
ascenderá à função fálica que implica em não mais ser o falo mas sim se 
posicionar em relação a ele na partilha dos sexos através das identificações: o 
menino através da identificação ao pai se colocaria no lado do ter, enquanto a 
menina, ao “reconhecer o homem como aquele que o possui” (Lacan,  Ibid., 
p.203)   vai   em   sua   direção   buscando   ter   com   ele   um   filho   –   equivalente 
simbólico do falo imaginário. Temos então a metáfora paterna constituída.

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