Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
Fenomenologia e Psicopatologia:
 “A questão sobre o que há de fundamentalmente humano 
nas   doenças   mentais,   obriga   a   ver-se   nelas   não   um 
fenômeno   geral   da   natureza,   mas   um   fenômeno   natural 
especificamente humano.” (Jaspers, 1913, p. 19) 
Vamos circunscrever nossa discussão da fenomenologia psiquiátrica a 
Karl Jaspers por entender que se ele não foi o primeiro a se preocupar com a 
nosologia   psiquiátrica   foi   sem   dúvida   o   primeiro   a   ter   preocupações 
metodológicas em relação ao modo de se fazer um diagnóstico. 
Precisamos   situar,   porém,   que   a   esta   altura   a   psiquiatria   já   tinha 
conhecimento da psicanálise e os trabalhos de Freud foram incorporados a ela 
através   de   Bleuler   e   Jung,   constituindo   a   chamada   psiquiatria   dinâmica. 
Kraepelin,   expoente  da   psiquiatria   antes  de  1900,   formulou  uma   nosografia 
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fisicalista, mas diante das críticas foi absorvendo-as e incorporando   em sua 
obra várias tendências da psiquiatria da época, tanto assim que publicou oito 
edições   de   seu   compêndio.   Na   sétima   a   influência   da   psicanálise   se   faz 
presente na categoria das neuroses psicogênicas e a oitava tentou ser tão 
atual e incluir tantas abordagens diferentes que demorou cinco anos para ser 
publicada   na   sua   totalidade   de   2500   páginas.   Mas   é   Jaspers,   aluno   de 
Kraepelin, que vai promover o que Bercherie chamou de “uma nova ortodoxia” 
(op.cit., p.251). 
Jaspers   é   aquele   que,   reconhecidamente,   melhor   representa   o 
pensamento fenomenológico dentro da psiquiatria. Foi discípulo de Husserl e 
sua preocupação epistemológica e seu interesse filosófico, que ficou patente 
quando assumiu o ensino da Filosofia na Universidade de Heidelberg, fizeram 
com que seus trabalhos em psiquiatria fossem obras de referência não só para 
aqueles diretamente implicados no tema como também para os estudiosos de 
diversas áreas que queiram conhecer a aplicação do método fenomenológico. 
Sua obra  mais famosa,  na  qual  vamos  nos basear,  é um tratado de 
psiquiatria   intitulado  Psicopatologia   Geral   –   Psicologia   Compreensiva, 
Explicativa e Fenomenologia de 1913 onde ele se propõe a fazer uma análise 
crítica   e   reflexiva   sobre   os   métodos   da   psiquiatria,   suas   concepções   e 
caminhos de investigação. 
Circunscrevendo   espaços   e   delimitando   objetos   de   estudo,   na   mais 
autêntica preocupação metodológica, ele faz a diferenciação dos campos de 
abrangência   da   psicopatologia,   da   psiquiatria,   da   psicologia   e   da   medicina, 
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situando a primeira como uma ciência que se preocupa com o universal, a 
segunda como uma prática que se propõe a cuidar dos casos particulares e 
mostrando   que   não   há   paralelismo   entre   os   fenômenos   psíquicos   e   os 
somáticos,   tendência   dominante   na   época.   Com   isso   tenta   evitar   o   que 
considera um dos erros mais primários em ciência que é a utilização de uma 
grade conceitual para analisar fenômenos que pertencem a outro campo de 
estudo cujos métodos não são compatíveis. 
  “É   como   se   um   continente   desconhecido   fosse   investigado   por   dois 
lados, mas as expedições de investigação nunca se encontrassem, uma 
vez que haveria sempre entre elas uma larga faixa impenetrável. Das 
cadeias causais entre o psiquico e o somático sempre só conhecemos os 
elos finais.” (Jaspers, op.cit., p.15) 
Com esta preocupação ele não abole a teorização mas dá primazia ao 
método, dizendo que o dogmatismo aprisiona o investigador, não permitindo 
que   este   seja   surpreendido   pelo   novo,   enquanto   que   a   consciência 
metodológica possibilita que a realidade seja apreendida sempre como nova. 
Para ele “a ciência requer um pensamento conceitual que seja sistemático e 
possa ser comunicado” (Jaspers,  op.cit., p.12), estando livre de absolutismos 
tanto do ponto de vista das idéias como do ponto de vista dos métodos; que 
estes devem ser aplicados “dentro de suas fronteiras” (p.49) evitando que a 
infinidade   tome   conta   do   pensamento,   já   que,   “toda   realidade,   em   sua 
existência  concreta,   todo  pensamento  em   suas   possibilidades   não   tem   fim” 
(p.47),   devendo-se   “saber   suspeitar   e   poder   terminar”   (id.)   e   podendo 
reconhecer as obscuridades. 
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Jaspers   pretende   com   esta   atitude   apreender   as   experiências 
verdadeiras   tal   como   elas   se   apresentam   à   consciência,   compreendendo, 
assimilando e atribuindo a elas um lugar “na estrutura dos métodos.” (p. 50) É 
pela sistematização metodológica que ele vê a possibilidade de se conhecer 
positivamente   os   fenômenos   psíquicos   com   amplitude   e   clareza.   Esta 
sistematização só é possível através da consciência metodológica que apesar 
de não criar – “os métodos são criadores apenas no uso e não na reflexão 
sobre os mesmos” (p.58) – é esclarecedora.
Para Jaspers a Psiquiatria Fenomenológica é a doutrina dos fenômenos 
subjetivos da vida mental mórbida. Ele a define como “o estudo dos estados-
de-alma,   tais   como   os   enfermos   os   experimentam”.   A   tarefa   do   psiquiatra 
fenomenólogo   é “apresentar de maneira viva, analisar em suas relações de 
parentesco, delimitar, distinguir da forma mais precisa possível e designar com 
termos   fixos   os   estados   psíquicos   que   os   pacientes   realmente   vivenciam.” 
(p.71)   É   tentar   aplicar   uma   certa   racionalidade   ao   caos   fenomênico   das 
vivências dos pacientes, idealmente, sem nenhuma orientação teórica.
Para   que   isso   aconteça   é   fundamental   que   o   psiquiatra   participe 
conscientemente   do   jogo   relacional   médico-paciente   de   modo   a   confrontar, 
através da ressonância empática, as experiências relatadas pelo paciente com 
as   suas   próprias   experiências   e   intuições.   A   empatia   permitirá   que   o 
psicopatólogo   aprenda   sobre   as   variações   de   quantidade   e   qualidade   dos 
fenômenos psíquicos mórbidos, sua conexões e derivações motivacionais, mas 
não causais, além de poder apreender os limiares de impenetrabilidade e de 
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incompreensibilidade dos mesmos. 
Neste processo, as explicações causais que porventura se venha a fazer 
esbarrarão   justamente   nestes   limites   (impenetrabilidade   e 
incompreensibilidade) e não contarão com nenhum critério de certeza absoluta, 
apenas com possibilidades compreensivas destes fenômenos. 
Tese principal da sua obra, descrever os fenômenos patológicos a partir 
daquilo que o paciente relata, toma forma de guia para se entender o princípio 
fenomenológico básico: 
“(...) só o que realmente existe na consciência deve ser representado. 
Tudo o que não se encontrar realmente na consciência, não existe. Temos 
de deixar de lado todas as teorias, as construções psicológicas, tudo que é 
simples interpretação e julgamento. Devemo-nos voltar puramente para o 
que podemos compreender, distinguir e descrever em sua existência real” 
(p.72) 
Jaspers   acredita   numa   realidade   psíquica   limitada   pela   consciência. 
Porém, ele não pára por aí, vai além do princípio fenomenológico ao distinguir 
dois   métodos   para   a   investigação   do   psiquismo:   a   compreensão,   método 
próprio da fenomenologia e a explicação, para a qual ele dá novo sentido. Pela 
compreensão ele aceita a proposta fenomenológica de que esta se dá pela 
descrição clara da vivência a partir da intuição e da empatia. Pela explicação 
ele entende a busca metódica de leis que estão fora da consciência e que 
venham estabelecer conexões de tipo causal para os fenônemos psíquicos. 
Serpa Jr. (1992) se estende no estudo do que é consciência, extraconsciência 
e inconsciente na obra de Jaspers e é dele o trecho a seguir que clarifica estes 
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conceitos:
“(...) a explicação causal lança mão de mecanismos extraconscientes para 
explicar   como   se   produzem   fenômenos   psíquicos,   ao   passo   que   a 
compreensão, tanto estática quanto genética, detêm-se na consciência, 
penetrando no inconsciente apenas no sentido daquilo que foi vivido mas 
está   despercebido,   enquanto   a   explicação   invade   as   fronteiras   do 
inconsciente   no   sentido   do   que   é   extraconsciente.”   (Serpa   Jr.,   1992, 
p.125) 
Os fenômenos psíquicos são tanto passíveis de compreensão quanto de 
explicação,   porém,   há   algo   de   incompreensível   no   adoecer   psíquico   que 
remete Jaspers aos conceitos de reação, desenvolvimento e processo. 
Por reação patológica ele entende a reação a vivências que podem ser 
de dois tipos: psicoses puramente desencadeadas e reações autênticas. As 
psicoses   puramente   desencadeadas   aparecem   de   forma   espontânea   sem 
nenhum elo causal seja com a biografia do indivíduo ou com suas vivências, 
sendo  totalmente  incompreensíveis.  As   reações  autênticas   guardam   um   elo 
causal   indelével  com   alguma  vivência   e  por   isso   são  compreensíveis.   Elas 
causariam estados reativos que podem ser de três tipos conforme as causas 
da reação: causas externas que transformam a vida do indivíduo; conforme o 
tipo da estrutura psíquica: reações desmedidas, dramatizadas, exaltação com 
estreitamento da consciência, perplexidade ou aparente infantilidade; conforme 
o   tipo   de   constituição   psíquica:   precondições   que   podem   ser   congênitas, 
devido a uma fase ou em função de exaustão. 
Por   desenvolvimento   Jaspers   entende  as   psicoses   que   aparecem   de 
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forma insidiosa sem que nenhum momento causal específico seja identificado 
como desencadeante, nem que nenhum dado biográfico mostre-se decisivo. 
Sua evolução se dá numa sucessão contínua e constante. 
Por processo Jaspers entende o fenômeno patológico que rompe num 
espaço de tempo curto e localizável, com a incidência de sintomas variados, 
sem   causas   desencadeadoras   ou   vivências   justificadas   e   que   altera 
consideravelmente o curso de vida do indivíduo.  
Para Jaspers “o aprofundamento penetrante num caso particular ensina 
fenomenologicamente o que é geral para inúmeros casos” (p.72); o que importa 
para   ele   é   que   se   adquira   uma   visão   interna   do   caso   particular   sem 
necessidade   do   acúmulo   de   casos   para   dar   credibilidade   ao   achado.   As 
correlações que podem ser estabelecidas pelas constatações estatísticas “não 
significam   um   conhecimento   causal.   São   indicações   de   possibilidades   que 
requerem   interpretação.”   (p.38).   A   consciência   metodológica   possibilita 
“reconhecer o que há de idêntico dentro da multiplicidade” (p.73)
Assim Jaspers constitui unidades nosológicas através da apreensão de 
constelações   mais   ou   menos   fixas   definidas   em   função   de   complexos 
sintomáticos,   da   ocorrência   ou   não   de   lesões,   do   curso   da   doença   e   de 
explicações teóricas causais.
“Os quadros mórbidos que têm causas iguais, forma psicológica básica 
igual,   desenvolvimento   e   curso   iguais,   êxito   igual   e   achado   cerebral 
igual;   que,   portanto,   coincidem   no   quadro   global,   são   unidades 
nosológicas naturais que se podem dizer verdadeiras.” (p. 687) 
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Assim ele apresenta a sua nosologia: 
Grupo I: As doenças somáticas conhecidas com distúrbios psíquicos que 
se   subdivide   em   :   doenças   cerebrais,   doenças   somáticas   com   psicoses 
sintomáticas e intoxicações.
Grupo II: Os três círculos das grandes psicoses: epilepsia verdadeira, 
esquizofrenia e doenças maníaco depressivas.
Grupo   III:   As   psicopatias:   reações   anormais   autônomas,   que   não   se 
baseiam em doenças dos Grupos I e II, as neuroses e sindromes neuróticas, e 
as personalidades anormais e seus desenvolvimentos. 
Não se trata, em Jaspers, nem de simples apreensão fenomênica nem 
de   um   conhecimento   que   se   encerra   na   experiência.   Trata-se   de   uma 
classificação elaborada, fruto de uma psicopatologia refinada que, se por um 
lado   se   mostra   bastante   econômica,   por   outro   evidencia   uma   abrangência 
descritiva,   não   se   restringindo   unicamente   aos   sintomas   observados   e 
relatados mas também a uma rede de representações captadas do paciente. 
Sua nosologia em nada se parece a uma grade pré-formada a espera apenas 
de  que  os  dados   se  encaixem,   pelo  contrário,   ela  parece  sempre  aberta  a 
surpresas, bem de acordo com a sua idéia de que o psíquico só podia ser 
representado e que só se tinham evidências dele naquilo que ele se mostrava 
dissonante   do   esperado.   Esta   maneira   de   pensar   proporcionou   à 
psicopatologia uma das formas mais originais de se tratar o fenômeno psíquico 
e   principalmente   o   diagnóstico.   Enquanto   a   tradição   da   época   criava   elos 
estreitos com a quantificação e a cientificidade positivista, Jaspers esnobava 
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esta preocupação e no entanto apresentava uma psicopatologia consistente e 
conseqüente com os princípios fenomenológicos.
A   base   do   método   proposto   por   Jaspers   prevê   um   conhecimento 
imediato onde o que interessa à consciência está dado no aqui e agora, onde o 
passado só terá sentido se estiver se manifestando no presente. Sua crítica 
recaía não só na visão psicofisiológica dos fenômenos mentais como também 
na psicanálise. Se ele não limitava seus horizontes por aquilo que é passível de 
ser observado em seu estado natural, por outro lado também não aceitava as 
explicações   psicanalíticas   da   época,   que   segundo   ele,   ‘queriam   tudo 
compreender’ ficando “cegas” aos limites da inconclusividade. (p. 429-430) 
O compreensivismo jasperiano dizia respeito a uma realidade objetiva 
que seria passível de ser captada na sua essência através da atribuição de 
nexo entre um ato e suas motivações. As explicações estavam referidas às 
causas, não como  uma etiologia mas sim numa relação  de causa e  efeito, 
causa externa. Isto traz alguns problemas: se um fenômeno pode ser apontado 
como tendo uma motivação ele é compreensível, caso contrário ele é explicado 
como causado por fatores externos à consciência. Em ambos é a consciência 
que compreende e explica, seja esta do indivíduo que padece, colocado aqui 
como objeto da observação, ou do observador.  
Para   encerrar   este   tópico   dedicado   a   Jaspers   nada   melhor   do   que 
transcrever a sua opinião sobre a importância do diagnóstico: 
“O diagnóstico é a ultima coisa na compreensão psiquiátrica de um caso 
(...);   é   o   que   há   de   menos   essencial   no   trabalho   realmente 
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psicopatológico. Transformado no principal, torna-se uma antecipação de 
algo que se acha no fim ideal da investigação. O importante são a análise 
e o fato de não se eliminar, para o conhecimento, o caos dos fenômenos 
por meio de um nome dado no diagnóstico. Urge, ao contrário, torná-lo 
acessível a uma visão global e transparente no contexto de seus múltiplos 
nexos.   Muitas   vezes   em   psiquiatria,   diagnosticar   eqüivale   a   girar 
estérilmente em círculos onde só muitos poucos fenômenos entram no 
campo de visão de um saber consciente.” (p. 34) 
Esta   citação   vale   um   comentário   final.   Assim   colocado   o   diagnóstico 
compreensivista visaria um ideal de apreensão da realidade do fato psíquico 
tomando-o naquilo em que ele se deixa mostrar, portanto, nos fenômenos. Isto 
aponta para uma fé na realidade dos fenômenos que limita a possibilidade de 
compreensão dos mesmos, pois se eles se explicam por si só para que extrair 
deles uma essência? Mais ainda, não seriam realmente poucos os fenômenos 
que possibilitariam o conhecimento já que só poderíamos contar com eles em 
sua multiplicidade caótica?
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