Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
O método fenomenológico:
Historicamente   temos   que   a   palavra   fenomenologia   foi   usada,   pela 
primeira vez por um filósofo e matemático alemão, em meados do século XVIII, 
chamado Johann Lambert para designar “a ciência das aparências”, o estudo 
ou  a  descrição  da   aparência   (Marcondes,   1998,   p.257).   Foi   Husserl   (1859-
1938),   discípulo   de   Brentano,   quem   usou   o   termo   fenomenologia   para 
conceber um novo modo de abordar os problemas filosóficos e científicos. Este 
método   visava   explicar   a   experiência   humana   do   real   revelando   o   sentido 
dessa experiência através de uma análise da consciência na sua relação com 
este   real.     Tentava   superar   a   oposição   entre   realismo   e   idealismo   pela 
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descrição dos elementos básicos da experiência humana numa “volta as coisas 
mesmas”.   Buscava   um   tipo   de   conhecimento,   não   objetivo,   fruto   da 
especulação   filosófica,   que   naquela   época   se   instaurava   no   meio   filosófico 
como um psicologismo. 
Entendendo que a consciência é sempre consciência de alguma coisa, 
esta se  caracterizaria  pela  intencionalidade com  que  conheceria  um  objeto. 
Esta postulação tem a intenção de aproximar sujeito e objeto, considerando 
que   a   experiência   reflexiva   possibilita   à   consciência   um   conhecimento 
verdadeiro   do   objeto.   Husserl   voltou-se   para   a   análise   das   essências, 
entendendo-as como “unidades ideais de significação, elementos constitutivos 
do sentido de nossa experiência” (Marcondes, op. cit., p. 258) 
Husserl tentou fundamentar em bases psicológicas, a Lógica Elementar. 
Seu objetivo era criar um método de conhecimento que unificasse estas duas 
formas:   o   conhecimento   objetivo   e   o   conhecimento   subjetivo.   O   método 
fenomenológico vai alicerçar a Fenomenologia Pura ou Transcendental na qual 
se encerram as bases da Psicologia Fenomenológica. Esta última é descrita 
como uma psicologia que pretende analisar “ o fenômeno vivido enquanto tal, 
excluindo qualquer pressuposto relativamente a uma natureza psíquica, a uma 
consciência interna” (Kelkel, Schérer, 1982, p.28-29). O que Husserl propõe é 
abordar   a   consciência   viva   através   de   como   ela   se   exprime,   como   ela   dá 
sentido   à   sua   experiência,   o   que   coloca   a   fenomenologia   para   além   do 
empirismo   já   que   este   se   encerra   na   própria   experiência,   tomando   a 
experiência como afirmação primeira e como prova última da verdade científica 
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(Lyotard, 1986, p. 16). 
Seu método consiste em captar os fenômenos, através de uma atitude 
natural, depois proceder a uma depuração (redução) daquilo que é particular e 
variável até alcançar o que é geral e permanente – a essência. A essência, 
portanto, “é constituída pelo invariante, que permanece idêntico através das 
variações” (Lyotard, 1986, p. 18). Isto implica na suspensão de todo juízo sobre 
aquilo   que   a   experiência   sensível   nos   apresenta.   Através   desse   método, 
Husserl tentava chegar ao essencial do eterno devir humano. A proposta da 
Psicologia   Fenomenológica   visava   investigar   os   modos   de   organização   da 
realidade psíquica pela compreensão e descrição dos fenômenos psíquicos, 
isenta   de   pressupostos   e   ateorética,   tentando   captar   e   analisar   estes 
fenômenos em seu essencial-imanente. Para tal é necessário que o mundo 
natural seja colocado entre parênteses, atitude fenomenológica por excelência, 
que possibilitará que a redução se dê e o geral ou típico apareçam destacados 
daquilo que é contingente. Segundo Husserl só assim seria possível se chegar 
à autêntica apreensão dos conteúdos fenomênicos em sua pureza original. 
Levando   em   conta   que   o   psíquico   seria   um   todo   unitário   e 
dinamicamente estruturado e integrado, o que se teria de geral, de fato típico, 
seriam as vivências. Estas conceituadas como sendo os próprios conteúdos 
reais, imediatos da consciência de cada indivíduo, fruto de suas percepções, 
idéias e sentimentos, são o alvo da investigação fenomenológica através dos 
processos de captação e compreensão. Sem nos estendermos muito neste 
aspecto   podemos,   contudo,   situar   que   uma   das   principais   formas   de 
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compreensão tem como instrumento privilegiado a intuição, privilegiado a tal 
ponto que a ela está ligada a própria noção de fenômeno: “fenômeno é todo 
objeto aparente, intuído num dado momento”, ele não é tomado como aparição 
de algo mas ele “ é o próprio ser do  aparecer”  (Schérer, op.cit., p.177). Para 
Husserl a intuição  não se confunde com percepção sensorial, pois aquilo que 
intuímos não são só objetos sensíveis mas também intuímos juízos, idéias e 
vivências.   A   intuição   é   um   instrumento   que   vai   propiciar   a   apreensão 
fenomenológica e esta, por sua vez, vai conduzir à compreensão estática das 
vivências.   Este   processo  se   dá  sem   a   concorrência   de   nenhuma   forma   de 
explicação, correlação ou interpretação, visando, acima de tudo, a descrição 
clara e unívoca da vivência. 
Para   alcançar   o   conhecimento   verdadeiro,   essencial-imanente,   foi 
necessário distingüir o que é ‘fato’ do que é ‘essência’.
Husserl   postula   que   ‘fato’   é   aquilo   que   nos   é   dado   pela   experiência 
sensível através de uma atitude natural, ele é empírico, temporal, individual e 
contingente,   variando   conforme   as   circunstâncias.   Dele   não   podemos   tirar 
nenhuma   forma   de   conhecimento   verdadeiro   já   que   ele   é   passível   de   ser 
confundido com outros fatos que lhe sejam análogos, similares ou próximos. Já 
a   ‘essência’   é   intemporal,   universal,   única,   sempre   idêntica   a   si   mesma   e 
imutável. Todo fato possui uma essência que está nele próprio e a operação 
que extrai de um fato a sua essência consiste em buscar, em reconhecer, o 
geral naquilo que se apresenta como particular e separar o que é essencial 
daquilo   que   é   acidental.   Isto   se   dá   pelo   processo   da   redução,   conforme 
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descrito   anteriormente,   o   que   vai   nos   levar   a   entender   que   para   a 
fenomenologia   podem   existir   fatos   empiricamente   semelhantes   mas 
fenomenologicamente diferentes e outros que sejam aparentemente diferentes 
mas   que   guardem   entre   si   algo   comum   que   lhes   é   essencial.   Podemos 
considerar que a fenomenologia, mesmo advinda da raiz empirista da filosofia 
do conhecimento, dá um passo a mais, e se distancia do empirismo estrito ao 
incluir o sujeito na observação através do advento da intencionalidade. 
“(...) o objeto intencional da representação é O MESMO que o seu objeto 
verdadeiro   eventualmente   exterior   e   é   ABSURDO   estabelecer   uma 
distinção   entre   os   dois.   O   objeto   transcendente   não   seria,   de   modo 
nenhum,   o   objeto   desta   representação   se   não   fosse   o   seu   objeto 
intencional. (...) o que existe é a intenção, o  visar  de um objeto de tal 
espécie, mas não o objeto. Se, pelo contrário, o objeto intencional existe, 
não é somente a intenção, o ato de visar que existe, mas também o que é 
visado.” (grifos do autor) (Husserl apud Kelkel, Schérer, 1982, p.80-81)
Deste   breve   e   sucinto   resumo   das   principais   bases   do   pensamento 
fenomenológico, podemos extrair algumas considerações que orientarão nossa 
discussão posterior. 
Primeiro: em sua busca pelo universal, pressupõe que este universal 
esteja na essência dos fenômenos e que esta essência está dada de antemão. 
A   essência   já   estaria   lá   e   o   conhecimento   se   daria   mais   como   um 
reconhecimento.
Segundo: temos também a idéia de que o particular não possibilitaria o 
conhecimento a não ser que se extraísse dele o universal. Os fenômenos que 
não   possibilitassem   a   apreensão   do   universal   seriam   ignorados   porque 
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entendidos como puramente acidentais.
Terceiro:   que   o   método   fenomenológico   se   abstém   de   juízos, 
pressupostos de toda ordem, inclusive teóricos, que possam induzir a se tomar 
as   partes   pelo   todo   falseando   a   apreensão   da   essência   na   sua   pureza 
originária. Isto implica em uma prática sem orientação teórica onde a teoria é 
vista como um pré-conceito que influenciaria o conhecimento chegando mesmo 
a falseá-lo. 
Quarto: teríamos a primazia do todo sobre as partes, entendendo que 
este todo seria muito mais que a simples soma das partes, ele constituiria algo 
como uma entidade acima das partes. 

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