Diagnóstico na psicanálise: da clínica dos fenômenos à clínica da estrutura



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Diagnóstico em psiquiatria e em psicanálise (1)
1.1.2. A era de Pinel:
De   meados   do   século   XVII   a   meados   do   século   XVIII,   a   loucura   se 
manteve   reclusa   em   hospitais.   Estes   estabelecimentos   foram   construídos, 
apesar   do   nome   que   lhes   foi   dado,   sem   nenhuma   pretensão   de   oferecer 
qualquer tipo de tratamento aos chamados insanos. Tampouco eram somente 
os   loucos   que   neles   eram   recolhidos.   O   critério   vigente   na   época   para   a 
reclusão tinha o cunho de afastar do convívio social pessoas que de alguma 
forma não se encaixavam no regime de produção da sociedade burguesa. “O 
internamento foi então ligado nas suas origens e no seu sentido primordial a 
esta reestruturação do espaço social.” (Foucault, 1968) 
Após   o   período   em   que   a   loucura   ficou   ”silenciosa”
3
,   sobreveio   um 
segundo momento, em meados do século XVIII, quando o mundo passou por 
um período de reflexão crítica a respeito dos critérios de exclusão. A partir 
desta   preocupação   o   diagnóstico   das   doenças   mentais   ganha   um  status 
aparentemente mais científico e, em conseqüência, gera uma série de sistemas 
classificatórios para justificar a exclusão de uns e não de outros. Com isto os 
3
 Expressão de Foucault que faz contrastar com a loucura falante do século XV e XVI. Seus argumentos 
vem da vasta literatura produzida no final do século XV onde a loucura, assim como a morte, eram temas 
recorrentes. Cf. Foucault 1968, p. 76-78.
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locais de internamento passam a ser dirigidos por médicos e a exclusão toma 
ares de medida de caráter médico. Foucault (op.cit., p. 81) nos mostra que esta 
mudança foi relativa pois só fez “estreitar em torno do louco” (id.) as antigas 
práticas de internamento. Esta foi a era de Pinel.
Pinel,   considerado   ‘o   libertador   dos   insanos’,   se   ligou   à   corrente   do 
ideólogos,   se   contrapondo   à   tendência   especulativa   das   escolas   alemã   e 
inglesa (Serpa Jr., 1992, p.79), fez uso da observação empírica dos fenômenos 
e criou uma classificação pelo agrupamento destes. Este método foi tributário 
tanto   da   análise   combinatória   de   Condillac   quanto   da   metodologia 
classificatória da História Natural. Partindo da observação clínica sistemática 
de   pacientes   internados,   Pinel   formulou   uma   classificação   das   doenças 
mentais   usando   os   mesmos   critérios   que   eram   usados   para   as   doenças 
orgânicas já que para ele os problemas mentais eram fruto de um distúrbio das 
funções do sistema nervoso central.
A   nosografia   de   Pinel   classificava   as   doenças   mentais   em   grandes 
categorias através dos sintomas mais “salientes” (Bercherie, 1989, p. 37). Este 
fato associado a seu “horror aos sistemas” (id.) culminou numa nosografia um 
pouco confusa e mutante, pois um determinado estado poderia se transformar 
em outro em função do agravamento ou da regressão do sintoma ‘saliente’, 
acarretando, assim, uma mudança de classe.
Seus critérios em nada se assemelham aos atuais:
 “Pinel naturalmente viu tudo, mas não com nosso olhar; sua nosologia 
visou a criar grandes classes fenomenais e comportamentais, convencido 
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que ele estava de que grandes divisões abarcavam algo da essência do 
real." (id.) 
Assim,   temos   por   exemplo,   que   a   agitação   era   um   fenômeno 
privilegiado, não importando se estava relacionado à mania, esquizofrenia ou 
epilepsia. Todos os fenômenos de agitação estavam classificados dentro da 
categoria   de   mania.   Tendo   em   vista   esta   explicação,   podemos   passar   a 
descrever a nosografia pineliana das doenças mentais.
Numa   classificação   geral   das   doenças,   as   neuroses   faziam   parte   da 
classe   das   “afecções   do   sistema   nervoso   “sem   inflamação   nem   lesão 
estrutural”” (Ibid., p. 35) e sem febre
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.   Dentre elas poderiam haver afecções 
comatosas   e   perturbações   de   função,   também   chamadas   de   vesânias.   As 
vesânias poderiam se apresentar através de formas alienantes ou não. Nas 
formas   alienantes   temos   a   mania   (ou   alienação   mental   ou   loucura
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),   a 
melancolia,   a   demência   e   o   idiotismo.   Nas   formas   não   alienantes   temos   a 
hipocondria, o sonambulismo e a hidrofobia.
Com esta classificação, Pinel tentou ordenar os fenômenos provenientes 
de   sua   observação   empírica.   Influenciado   pelo   pensamento   de   Locke   e 
Condillac,   Pinel  foi   agrupando   e  classificando  os   fenômenos   em   função  de 
semelhanças  e diferenças, com isso criou classes, gêneros e  espécies nos 
moldes das ciências naturais: “as categorias extraídas da experiência recebiam 
enfim o nome que lhes dava vida na ciência.” (Bercherie, op.cit., p. 31-35) 

Pinel manteve a definição de neurose de Cullen, definindo-a como uma doença que não é acompanhada 
de febre ou patologia localizada, mas que é sempre fruto de uma espécie de colapso fisiológico. (cf. 
Alexander, 1966, p. 156-158)
5
 Mania nesta época era sinônimo de loucura e é dela que vem o nome manicômio. (cf. Bercherie, 1985, 
p.45, nota 13)
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Pinel   tinha   preocupações   etiológicas,   tanto   assim   que   em   alguns 
momentos de sua obra, como nos aponta Bercherie (op.cit., p.35), cita lesões 
cerebrais   como   causa   de   doenças   mentais   mas   também   mostrava   que 
alterações   idênticas   podiam   ser   notadas   em   quadros   onde   nenhuma   lesão 
estava presente. As causas por ele identificadas podiam ser de ordem física, 
hereditária   ou   moral,   porém,   não   as   relacionava   às   manifestações   das 
doenças, estas eram explicadas pelo tipo físico do doente. 
Nas   causas   físicas   estavam   as   perturbações   mentais   produzidas   por 
traumatismo   ou   por   disfunções   simpáticas   e   nas   morais  estavam   aquelas 
produzidas por   paixões, por   hábitos desregrados de vida e por educação 
perniciosa. Estas últimas é que justificavam o tratamento moral, preconizado 
por   Pinel,   que   consistia   em   disciplina   severa,   ameaças,   punições   e 
recompensas, assim como duchas e cadeiras giratórias, visando reeducar o 
espírito. 
O   tratamento   moral   foi   sendo   considerado   pouco   ‘médico’,   e   Pinel 
passou a ser encarado mais como um educador na medida em que acreditava 
que o espírito poderia ser aperfeiçoado já que a mente, para ele, era produto 
de percepções e sensações. A doença mental era entendida como desrazão e 
a   tentativa   de   Pinel   era   de   reconduzir   o   enfermo   à   razão   afastando-o   das 
percepções que causaram a doença e proporcionando-lhe novas percepções 
através da vivência de medidas corretivas de cunho educativo. 
Diante desta perspectiva da doença e do tratamento, Pinel se manteve 
afastado da corrente anátomo-patológica, dominante na medicina da época, 
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por isso foi execrado por colegas e abandonado por alunos mas é também com 
esta perspectiva que inaugura a clínica psiquiátrica. 
Segundo Bercherie (1989, p. 45), Pinel inaugura a clínica psiquiátrica ao 
introduzir uma distância entre a observação pura dos fenômenos e a teoria que 
os explicava, não se tratando mais de um sincretismo entre a forma mórbida e 
a sua explicação conceitual.
Pinel   não   se   alinhou   nem   aos   anátomo-patologistas   nem   aos 
fisiologistas da época, considerava que a única possibilidade de se conhecer 
alguma   coisa   das   doenças   mentais   só   poderia   ser   obtida   através   da 
observação   metódica   dos   fenômenos   exteriores   da   doença.   Apesar   do 
descrédito dos partidários destas correntes, Pinel conseguiu manter sua idéias 
em voga por quase 50 anos, através de seu discípulo Esquirol, mas não de 
forma hegemônica. 
Neste mesmo período surge a frenologia de Gall que fez as primeiras 
localizações   cerebrais   e   sustentou   a   idéia   de   que   “a   diferentes   áreas   da 
superfície   cortical   correspondiam   diferentes   funções   psíquicas”   (Serpa   Jr., 
1992, p. 88) e que com a localização destas poderia, pela palpação “detectar 
talentos e patologias.” (id.). Esta vai se mostrar uma tendência importante na 
psiquiatria até os dias atuais, onde já não são mais as palpações que atuam 
mas sim as substâncias. 
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