Desumano, demasiado desumano



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DESUMANO, DEMASIADO DESUMANO

Crônicas de Nelson Marzullo Tangerini

Revisão de João Paulo de Albuquerque

Agradecimentos à Verônica Marzullo de Brito,

esposa, companheira, poeta,

pela força diária que me dá

&

Robson Achiamé Fernandes,



meu primeiro editor.

[in memoriam]

“No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”.

Nelson Rodrigues

“Um escritor jamais poderia estar à mercê daqueles que fazem a história, e sim a serviço daqueles que são afetados por ela”.

Albert Camus

“Escrever é um mistério que não quero desvendar”.

P. D. James [Phyllis Dorothy]

“A loucura é condição inventada pelos homens para segregar as pessoas que incomodam a sociedade”.

Antonio Tabucchi in Os três últimos dias de Fernando Pessoa.

“Liberdade – essa palavra / Que o sonho humano alimenta: /Que não há ninguém que explique, / e ninguém que não entenda!”

Cecília Meireles in Romanceiro da Inconfidência.

“Todos os que não furtam muito pobres”.

Gregório de Matos.

SOBRE O FASCÍNIO DE ESCREVER

Algo dentro de mim me inquieta. Não consigo suportar a lei biológica: nascer, crescer, reproduzir e morrer. Passar pela Terra sem escrever alguma coisa faria de mim um homem vazio, frustrado, uma folha de papel em branco. Nasci, cresci, não reproduzi e, certamente, irei morrer. Como diria Sócrates, “todo homem está condenado à morte”.

O que está inquieto dentro de mim é a minha alma nômade; a vontade de me expressar; a vontade de ver o mundo a minha maneira. Escrevo quando amo; escrevo quando o mundo me mostra a sua beleza; escrevo diante da perplexidade da vida; escrevo quando um amigo não mais pertence ao mundo dos vivos; escrevo quando me revolto. É como diz Albert Camus: “o homem revoltado é aquele que diz não; é aquele que diz que as coisas já foram longe demais”.

Quando escrevo, toda a minha alma se agita como o mar revolto. Entro em transe. E, como num processo mediúnico, entrego-me ao desconhecido, ao inexplicável. A inspiração pode vir num instante. Ou pode aparecer em estado sólido a minha frente, esperando que eu a decifre, a decodifique. E, neste momento, sinto-me um escultor, o suor corre pelo rosto, e sinto-me como aquele que talha o mármore até encontrar a forma ideal, que é a arte. É uma comparação clássica, parnasiana, mas é como vejo todo este processo árduo de catar palavras, escolhê-las, dispensar outras.

Mas não sou aquele escritor alienado que desconhece o sofrimento do mundo, este mundo onde as pessoas sofrem horrores, vítimas de ditaduras sanguinárias: religiosas, de direita e de esquerda - palavras que não conseguimos dinamitar e excluir de nossos dicionários. Banir do Planeta as palavras ditadura e o autoritarismo é uma tarefa diária para todos nós.

Penso como o filósofo e escritor argelino Albert Camus: “Um escritor jamais poderia estar à mercê daqueles que fazem a história, e sim a serviço daqueles que são afetados por ela”.

Não acredito na imprensa estatal ou oficial de um país. A minha matéria está no grito das ruas, no suor que escorre do rosto, na imprensa operária livre, nos sindicatos livres, na imprensa de corredor das fábricas. Interessa-me saber quem trabalhou duro para levantar, por exemplo, as muralhas da China, ou as pirâmides do Egito e não teve o nome registrado na História e seu rosto fotografado.

Uma nova História vem se escrevendo. Toda aquela História que me foi enfiada em minha cabeça é falsa.

Sou um escritor que procura se renovar diante das descobertas dos novos historiadores, que deixarão novas versões para fatos até então confusos ou propositalmente enterrados para futuras gerações.

Caminho pela superfície da Terra, enquanto a História se faz a cada milésimo de segundo. Estou aprendendo com as novas descobertas, com esse novo horizonte que se abre diante de mim, com o comportamento humano, enquanto me agarro aos clássicos que se recusam a ser chamados de ensinamentos antigos.

A sabedoria me fascina, embora saiba que nada sei. Porque o conhecimento é infinito.

´

LER O MUNDO E LER O SER HUMANO



Sei que irão dizer que o escritor deveria ser um professor de esperança. E que nós, escritores, deveríamos pôr flores coloridas onde não há sentimento algum, onde o cenário cinzento e nebuloso predominam. Deixo esta tarefa para o autores de autoajuda, que moram em suas torres de marfim, onde contam os níqueis das vendas de seus livros. Não sou ufanista. Nem romântico. Ao longo de toda a minha vida venho lendo Machado, Zola, Camus, Nelson, Drummond, entre outros. E a esperança em mim há muito já se esgotou. Mais pareço aquele Raul Seixas de Ouro de Tolo: “Mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado...”

Vivemos entre atiradores malucos, terroristas psicopatas do Estado Islâmico, guerra entre policiais e traficantes, guerra entre traficantes rivais, assaltos, roubo de carga, o discurso belicista de Kim e Trump e políticos vigaristas que, ao longo do tempo, guardam sua fortuna roubada dentro de malas e caixas de papelão.

Camus escreveu que “Cada geração é, sem dúvida, chamada a reformar o mundo. A minha sabe que não vai reformá-lo, mas sua tarefa talvez seja ainda maior. Consiste em evitar que o mundo se destrua”.

Da janela da escola onde trabalho, na Boca do Mato, avisto uma comunidade. E há outras espalhadas por toda a cidade do Rio de Janeiro. Há casas boas. E há barracos amparando outros, na esperança de um segurar o outro, caso uma forte chuva resolva tirá-los daquele local. Muitos estão construídos em área de risco. De lá, avistam o Rio de Janeiro dos ricos. Volta e meia convivem com tiroteios intensos. Homens, mulheres e crianças expostas às balas perdidas ou a balas encomendadas. Muitos barracos aparentam por fora a pobreza, enquanto, por dentro, o luxo predomina. Mal plagiando Clarice, seria uma felicidade clandestina. Humanizar a comunidade, trazer a comunidade para o asfalto, acabar com os guetos e com a exclusão é acabar com a carreira daqueles políticos que oferecem tijolos e sacos de cimento, enquanto faturam votos em cima de pessoas carentes e humildes.

O cancioneiro popular expõe em inúmeras canções a beleza e as desvantagens do morro: pertinho do céu, onde a passarada fazia uma sinfonia de pardais para o poeta em mais um samba; onde florescia o sonho de Conceição em ganhar o mundo.

2017, século 21, e os sucessivos governos não resolvem o problema da moradia. Não resolvem tantos outros problemas, como Saúde e Educação. Toda aquela gente, na maioria descendentes daqueles africanos que foram sequestrados da África e trazidos para a América como escravos, já deveria estar residindo em moradias humanas e decentes. Afinal, seus antepassados tomaram porrada, sofreram humilhações e trabalharam de graça.

O leitor irá dizer que sou mais um burguesinho escrevendo sobre o morro, onde muitas vezes estive para visitar amigos ou participar de festas de aniversário de alunos: estive em suas casas onde o mestre foi recebido, pelos pais desses alunos, como um rei, como aquele que abre as portas para um futuro iluminado para seus filhos. Talvez concorde com os detratores. Hoje, seria muito difícil visitar amigos em comunidades onde traficantes exibem impunemente seus fuzis AK47, de fabricação russa, e impõem uma ditadura militar autoritária e desumana.

As pessoas humildes e trabalhadoras que ali vivem [e muitos são alunos ou ex-alunos meus], por não terem condições de morar entre os ricos e frequentar os mesmos espaços, sofrem com toda sorte [ou má sorte] de problemas. Sofrem com a discriminação, que vem desde quando seus antepassados desembarcaram na Região Portuária do Rio, trazendo a África no pensamento, na alma e nas veias.

Parece que o morro não tem vez, mas se derem vez o morro, certamente, toda a cidade irá cantar. A desigualdade e o preconceito continuam cada vez mais fortes e desumanos; a violência, consequentemente, se faz presente, como forma de reagir com revolta a toda esta violência, que é a fome, a indiferença e a exclusão.

Infelizmente, a falta de leitura, a falta de memória e a falta de conhecimento de História, levam a burguesia a acreditar em métodos duros e repressivos para a correção de um problema que começa quando os brancos europeus caçaram seres humanos pensando serem animais de carga. Costumo dizer que a farda seria um fardo – mais uma vez.

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

[E a lição de Euclydes da Cunha]

No dia 16 de setembro [de 2017], o CV, Comando Vermelho, invade o Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho, subúrbio do Rio, toma comunidade do ADA, Amigos dos Amigos, e derruba [gíria do “movimento” para matar] oito integrantes da facção rival. O tiroteio foi tão intenso, que uma bala acertou o vidro da janela de uma composição do Metrô. Como se tudo isto não bastasse, fuzilaram também os cães que viam pelo caminho, numa demonstração de força, ódio, barbárie, intolerância e arrogância,.

Como se sabe, o “dono” do morro, como qualquer sheik árabe, tem o seu harém, com sua coleção de mulheres. Ele é o todo poderoso chefão da cidadela; ele vende produtos roubados – mais baratos para a comunidade. Menores trabalham para ele: vendem drogas, enquanto outros soltam pipa para alertar seus comparsas da chegada da polícia. Ele também comanda o Tribunal do Tráfico, que decide como o seu desafeto, jornalista, policial, traidor ou rival deverá morrer. Desta maneira morreu Tim Lopes, jornalista da Rede Globo de Televisão, brutalmente assassinado na Favela da Grota, no Complexo do Alemão, quando tentava fazer a 2ª reportagem sobre o feirão da droga e a prostituição nos bailes funk.

Enquanto lutamos contra a pena de morte e criticamos a violência policial, uma ditadura militar do tráfico fortemente armada decide quem vai morrer e impõe sua lei [leia-se autoridade], naquela cidade-estado medieval dentro de outro estado – falido.

Assim regride a humanidade, refém de facínoras, que expõem a maldade através de armas importadas e moderníssimas. Quem os armou?

Que atitude devemos tomar? Devemos reconhecer que o capitalismo também é um crime organizado? Que estes monstros carregados de armas até os dentes são excluídos nesta sociedade desigual e injusta?

O uso da força nada resolverá. Em Os Sertões, Euclydes da Cunha demonstrou a sua indignação contra o aniquilamento de Canudos, perguntando por que soldados haviam sido enviados para lá; se não teria sido melhor o governo republicano enviar professores para o referido arraial. Faço minhas as palavras de Euclydes. O caminho ainda é a inclusão, a justiça social e o investimento na Educação.

SOBRE A INCAPACIDADE DE EVOLUIRMOS

Em sua coluna de hoje [14.8.2017], no Segundo Caderno do jornal carioca O Globo, o escritor angolano José Eduardo Agualusa diz não estar afinado com o exibicionismo de Trump nem Kim [ótimo!], mas diz preferir a ditadura chinesa, aquela mesma que negou tratamento médico a Liu Xiaobo, escritor e dissidente chinês, Prêmio Nobel da Paz de 2010. Enquanto Xiaobo morria e agonizava lentamente de câncer, a Academia de Estocolmo e toda a comunidade internacional mantinham viva a esperança de entregar-lhe o merecido prêmio. As autoridades chinesas, como de costume, não tiveram a sensibilidade de preservar-lhe a vida. Talvez Agualusa tenha se esquecido deste episódio. Talvez eu tenha entendido mal, e espero que Agualusa se explique melhor em sua próxima coluna, afinal Agualusa é colega de profissão do escritor chinês.

Ser escritor é abraçar uma carreira de responsabilidade; não é uma tarefa muito fácil, em tempos de guerra fria e guerra quente, pois ainda somos, em 2017, constantemente cobrados e “policiados” por nossas atitudes e comentários. Escrevemos e, a todo tempo, somos rotulados de direita ou de esquerda.

Por exemplo: sou contra a política de Trump. Grito Fora, Temer! E não vou votar em Bolsonaro. Também não estou pedindo a volta dos militares ao poder. E então sou chamado de esquerda. Espera: sou contra os autoritários Maduro e Kim. E então sou chamado de direita. Tento ser um ser humano evoluído, equilibrado, defendendo uma causa nobre: os tão discutidos Direitos Humanos - aqui e ali. O assunto sempre me preocupou, enquanto jornalista, e acabei sendo um simples membro da Anistia Internacional, onde sempre me pautei pela imparcialidade. Mas o cérebro humano é ainda limitado e está preocupado em definir quem é de direita ou de esquerda. Seria incoerente, creio eu, reclamar que militares torturaram e mataram na América do Sul e defender a tortura e a pena de morte na antiga União Soviética, em Cuba e na Coréia do Norte. Ou defender a prisão de opositores na Venezuela. A resposta dos detratores é a mais ridícula possível, o velho discurso das múmias: "- Se Kim é contra os EUA, estou com Kim". E os fuzilamentos de seres humanos na Coréia do Norte?

Um outro defende a repressão na Venezuela e a prisão de opositores: “- O governo tem de ser duro com a oposição financiada pelos EUA”. Enfim, o velho discurso paranoico. Sou apenas um observador metido a cronista e noto que a vida humana não tem valor algum para quem é de direita ou de esquerda. Há, por exemplo, pessoas que lutam por Direitos Humanos e fecham os olhos para as prisões de opositores na Venezuela ou o fuzilamento de seres humanos na Coréia do Norte ou na China.

Não faz muito tempo, um grupo de intelectuais brasileiros fez um abaixo assinado contra a pena de morte decretada ao afro-americano Mumia Abu Jamal. Sendo contra a pena de morte e evidente racismo, assinei também o manifesto. Mas quando três balseiros cubanos, em 1973, foram fuzilados por tentarem fugir de Cuba - foram presos em alto mar -, esses mesmos intelectuais de esquerda silenciaram, se omitiram. José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, pediu a Castro que os rapazes fossem soltos e perdoados. Não houve piedade, porém, por parte do governo cubano. Os balseiros foram fuzilados. E Saramago rompeu com Cuba, naquele momento. Outros voltaram à Ilha, e continuaram bajulando o ditador. “- Abandonei o barco”, disse o escritor português. Indignado com o ocorrido, escrevi uma carta à revista Veja, e ela foi publicada.

A defesa do autoritarismo fica à vista, nas redes sociais, como no Facebook. Ali estão reacionários religiosos, de direita e de esquerda: nazistas, racistas, stalinistas etc e tal. Eles defendem as coisas mais absurdas que possamos imaginar. Sou um escritor pequeno, mas comprometido com a humanidade, e não posso entender essas pessoas autoritárias, doentes, sádicas, com seus cérebros atrofiados. E, muitas vezes, tenho vontade de abandonar o Face. Porque o ser humano não evolui intelectualmente; porque a imbecilidade me incomoda.

UM GATO QUE PODERIA CHAMAR-SE BARTOLOMEU

Roberto, um amigo do antigo Científico [agora Ensino Médio] contou-me a triste história de seu gato voador.

O felino, ainda pequeno, foi amarrado a um barbante e este barbante foi amarrado a um balão junino. O barbante deveria romper-se com a explosão de uma bomba e não rompeu. E o pobre do gato fez uma enorme viagem pelos céus do Rio de Janeiro e foi descer no Méier, até então um pacato bairro do subúrbio do Rio, onde todos queriam tascar o balão.

Roberto avistou de longe um animal pendurado e fez com que todos se acalmassem e não atirassem pedras no balão, uma vez que o pequeno felino estava assustadíssimo.

Roberto, também amigo dos animais, acabou por adotar o Bartolomeu de Gusmão dos gatos, que viveu uma vida tranquila em sua casa, embora arredio e de pouca conversa, até o fim de sua existência. Teve uma vida feliz e pacata e, na velhice, foi paparicado pelo seu dono.

No dia 15 de agosto, levei Spinoza, meu cão, ao veterinário da Prefeitura, no Engenho de Dentro, subúrbio do Rio, para tratar de uma sarna que o incomodava há muito, que nenhum outro veterinário não curava. Esperei pacientemente a vez de Spinoza, enquanto ele latia para outros cães e para os gatos.

Quando chegou a vez de meu cão, uma atendente pediu ao veterinário para tentar salvar uma cadelinha que estava muito mal. Perguntou-me se concordava e eu disse que sim. A cadelinha, que foi jogada dentro de um rio do Encantado, foi trazida por um rapaz dentro de um carrinho de mão. Ela não tinha mais forças para andar e apenas nos olhava, com seus olhinhos tristes. Todos que estavam no local choraram emocionados, porque ela passou três dias dentro do rio, até aparecer aquele rapaz de alma nobre. Todos torcíamos por ela, mas ela, infelizmente, não resistiu a todo aquele sofrimento.

Muitos gostam de animais enquanto eles são jovens. Quando eles começam a dar trabalho ou ficam doentes, tratam de deixá-los em qualquer lugar, sem se importar com o sentimento que eles têm por nós.

Certa vez, no centro de Niterói, vi um cidadão, de carro, deixar uma pobre cadela na rua. Ela correu atrás do carro, mas não pôde mais alcança-lo.

E quantos cães tenho visto vagando tristes pelas estradas, pensando ainda reencontrar seus donos?

O jeito é fotografar esses animais que se dizem racionais e denunciá-los nas redes sociais.

ACUSARAM-ME DE PLAGIADOR

Há muito gostaria de escrever sobre um incidente que aconteceu comigo, nos anos 1980, quando estudava Jornalismo na Faculdade de Comunicação Hélio Alonso, em Botafogo, na Zona Sul do Rio.

Outros projetos, porém, muito mais interessantes, entravam no caminho e eu adiava o que sempre gostaria de escrever: sobre um aluno da referida faculdade que me acusou de ter roubado uma música dele.

Continuemos, pois...

A tal música, escrita por uma cantora-compositora famosa e gravada por um grande intérprete da MPB tocou no rádio, um dia desses, e eu me vi embaraçado em minhas emoções e diante de lembranças tão amargas.

Ricardo, natural de uma cidade do interior fluminense, me foi apresentado por um amigo da Hélio Alonso com recomendações. O amigo me pediu para que eu tentasse ajudá-lo, uma vez que era do interior do estado e, segundo este, um grande compositor.

Ele era autor de uma música muito interessante, chamada Piu-Piu, que falava de uma revolução dos pássaros contra as serras elétricas. E acabei escrevendo duas canções com ele: Velha piada e Serpentes do Mal.

Prevendo que sua música Piu-piu poderia ser um grande sucesso, levei-o a casa de uma cantora no Leblon. Ela era, na época, integrante de um sexteto de meninas que fazia muito sucesso na mídia. A cantora e sua amiga, também integrante do grupo, gostaram da música. Mas deveria passar pelo crivo das outras meninas, dos produtores e da gravadora.

Ricardo tocou Piu-piu e todos gostaram. Até dois amigos meus, que estavam conosco, também gostaram. Uma fita com as três músicas citadas aqui já estava pronta. E a deixamos com as duas cantoras. Não havia uma quarta música na fita, lembro-me muito bem.

As três músicas da fita não foram gravadas. E a fita, também não foi devolvida.

Afora isto, levei-o a eventos musicais e teatrais e apresentei-o a diversas pessoas do meio artístico. Inclusive, ao produtor Ezequiel Neves, meu amigo. E fui claro com ele: falei-lhe para registrar tudo o que fazia. Mas não adiantava. Vi-o muitas vezes tocando suas músicas para estranhos na faculdade, onde chegamos a fazer parte de uma Cooperativa de Artistas Independentes, a COOPARTI.

O tempo passou...

Caminhava descuidadamente, certa vez, por um corredor da faculdade, quando fui agredido verbalmente por este rapaz que eu pensava ser meu amigo.

Ele me acusou de ser ladrão e disse que eu havia vendido uma música sua para a tal cantora-compositora, com quem estive apenas algumas vezes, em shows no Teatro Tereza Rachel.

Acusar-me de ladrão, de ter-lhe roubado algo parecido com a música que estava tocando nas rádios foi uma coisa absurda. E eu fiquei muito chocado, abalado emocionalmente.

Algumas pessoas da faculdade me cercaram e me consolaram . Liguei para minha mãe e ela me consolou também. A acusação era injusta. Quem me conheceu naquela época, quem me conhece agora, vai acreditar em mim e na minha versão desta história que ora lhes conto. Jamais roubei alguém; jamais vendi música de amigos ou conhecidos.

Daí para diante, afastei-me desta pessoa nefasta, que, como por encanto, sumiu do mapa e jamais registrou - até que me digam o contrário - o seu nome da MPB.

Nunca mais o vi. Mas gostaria de voltar a vê-lo. Se eu, um dia, por acaso, tornar a vê-lo, voltarei a lhe dizer que não sou ladrão e jamais vendi sua música para quem quer que seja.

LEVA MEU SAMBA

Eu era pequeno quando Ataulpho Alves frequentava minha casa.

Meu pai, o compositor Nestor Tangerini, membro da UBC, União Brasileira de Compositores, chamava-o de Mestre Ataulpho. Tangerini era fã do mineiro de Miraí.

Minha casa era frequentada por gente do teatro, da música, da pintura e da literatura. Da música, passaram por lá: Ataulpho Alves, Aldo Cabral, Monsueto, entre outros. Do teatro: Antônia Marzullo, minha avó; Dinorah Marzullo e Manoel Pêra, meus tios; Marília e Sandra Pêra, minhas primas; Humberto Catalano; Evilásio Marçal, que pegou um monólogo de meu pai [O buraco] e desapareceu com ele, entre outros. Da poesia: Maurício Marzullo, meu tio. Da pintura, Neusa d´Arcanchy, minha prima.

O Mestre Ataulpho costumava levar Ataulphinho com ele. Como Jr. beirava a idade de meus irmãos mais velhos, vi-os jogando bola no quintal de nossa casa, em Piedade. O resultado final era um monte de plantas de minha mãe quebradas.

Por fim, acabei ficando amigo de Jr., uma vez que meus irmãos, Nirton e Nirson, se formaram, respectivamente, em Biologia e Física. Como segui os passos de meu pai, acabei fazendo amizade com compositores, cantores e escritores. Abracei, de forma saudável, a boêmia.

Sobre o Mestre, lembro-me do dia em que seu carro ficou atolado e preso na lama de nossa travessa. A referida via não era calçada e seu carro ficou com as rodas girando na lama sem nenhum progresso. Dentro do carro estava o compositor de Amélia todo de branco – da cabeça aos pés. Chovia torrencialmente e os moradores daquela via de Piedade não deixaram que Ataulpho saísse do carro. Vários deles saíram de suas casas para empurrar o carro do ilustre vizinho.

Quando o Mestre faleceu, um balão subiu aos céus com seu nome em forma de copinhos para homenageá-lo.

Estava em casa, certa vez, escrevendo, como de costume, quando minha mãe me chamou para ver, na TVE, a gravação de um show do Jr. no Teatro Municipal de Niterói cantando as músicas do pai.

Após o programa, liguei para Jr. para elogiá-lo pelo grande e belo show. Falei com ele que tinha assistido à gravação do show ao lado de minha mãe. Jr. me pediu para falar com ela.

“- Olá, D. Dinah, é o Ataulpho. Como vai a senhora?”

“ - Vou bem – respondeu Dinah”.

E prosseguiu Ataulpho:

“ - A senhora se lembra de mim?”

E ela:

“- Claro que sim, seu danado. Você jogava bola no quintal de minha casa com meus filhos e quebrava as minhas plantas”.

E terminaram a conversa com risos de minha mãe e elogios dela a pai e filho.

“- Meu marido era fã de seu pai” – disse ela.

Nossa amizade, enfim, foi reatada. Fui convidado por ele para assistir a um show seu e de Heitorzinho, filho de Heitor dos Prazeres, na parte lateral do MIS, Museu da Imagem e do Som, na Praça XV. Fui a este show com Regina Cabral, filha do compositor Aldo Cabral, autor de Mensagem, Despedida de Mangueira, Boneca, entre outros títulos que fazem parte da História da Música Popular Brasileira. Sorrateiramente, fui ao encontro de Jr. sem falar nada, mas ele me reconheceu:

“- Você é filho do Tangerini!”

E eu lhe perguntei:

- Como você me reconheceu?

E ele:

“- Pela careca - igual a do velho Tangerini”.



Num evento realizado pela CONINTER, no Edifício do Instituto Histórico e Geográfico, no dia 8.7.2014, Jr., sempre alinhado como o pai, e eu voltamos a nos encontrar. Jr. estava lá para receber a Medalha Castro Alves junto comigo e outras personalidades da música, da pintura e da literatura.

O tempo passou e nos encontramos outra vez: na roda de samba da Glória, onde recebia a velha guarda do samba e novos talentos de nossa música. Ali voltei a me encontrar com Osmar do Breque, um sambista muito interessante que conheci na faculdade de jornalismo e que já devia ser destaque no mundo da música. Estava acompanhado de minha namorada, a poeta Verônica Marzullo de Brito, e Ataulpho de sua esposa. Conversamos sobre música, Piedade e tiramos algumas fotos juntos.

No início da madrugada de 16.10.2017, depois de acordar de um pesadelo estranho e indecifrável, sou surpreendido com a notícia de sua morte. Após entrar na internet, Verônica dá de cara com a triste notícia e vem transmitir o ocorrido:

- Nelson, tenho uma triste notícia para te dar: teu amigo Ataulpho Alves Jr. faleceu.

Fiquei realmente muito abalado. E, na tarde daquela segunda-feira, fui despedir-me de Ataulpho.

Sua esposa nos contou que os dois assistiam ao Fantástico, da Rede Globo, quando a emissora resolveu pôr no ar um pedacinho de sua música Os meninos da Mangueira. Ataulpho, comovido, pediu que ela pusesse sua música no toca-cd para que ele a ouvisse inteira. Os dois se sentaram para ouvir a música e ele fechou os olhos, tombou a cabeça e se foi.

Legítimo herdeiro do Ataulpho, seu pai, Ataulfinho, como também o chamávamos, não deixava o repertório do mestre cair em esquecimento. Em seus shows, cantava as músicas do “velho”, mesclando com músicas suas.

Foi emocionante a sua despedida, com um grupo de familiares e seletos amigos cantando Leva meu samba [de seu pai] e Meninos da Mangueira [de sua autoria].

Siga em paz, amigo. Seu pai o espera de braços abertos com novos sambas para cantarem juntos no palco da eternidade.

“OS SONHOS NÃO ENVELHECEM”

Fui, um dia desses, com a direção, alguns professores e alguns alunos do Colégio Estadual Antônio Houaiss assistir à peça “Os dez dias que abalaram o mundo”, no Armazém Utopia, na Praça Mauá. Durante aquela semana, filmes foram passados no colégio; palestras foram feitas. Não houve doutrinação de quem quer que seja. Todo este trabalho, que não foi doutrinação – repito -, fez com que eu tivesse outra visão da Revolução de 1917.

Creio que muitos, hoje, tenham, também, uma outra visão desta revolução necessária liderada por Lênin.

Nasci em 1955, quando a Revolução ainda amedrontava os capitalistas empedernidos e quando a Guerra Fria deixava o mundo em clima de tensão. Quem primeiro apertaria o botão?

Só fui tomar consciência de alguma coisa em 1964, quando os militares deram um golpe e depuseram João Goulart. Diziam que os comunistas estavam prontos para tomar o Brasil; diziam que os comunistas separavam as crianças dos seus pais.

Uma verdadeira lavagem cerebral tomava conta do país. E a lavagem cerebral era feita, também, dentro do seio da família.

Na década de 1960, quando minha mãe e eu visitávamos uma amiga dela que morava em Morro Agudo, hoje Comendador Soares, em Nova Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, os trens eram parados em algumas estações e eram invadidos por soldados fortemente armados para ver se, ali, havia guerrilheiros comunistas. Ficava muito assustado. E minha mãe pacientemente me dizia que estavam procurando por comunistas, que eu me tranquilizasse. Na minha imaginação de criança, comunistas eram bandidos, desordeiros, assassinos, gente sem coração.

Hoje, aos 62 anos, vejo a revolução de 1917 de uma outra forma, embora pense que esta Revolução, no meio do caminho, tenha se perdido – como tantas outras revoluções, porque a burocracia estatal, a hierarquia e os privilégios acabam com qualquer sonho de mudança.

O povo russo vivia em estado de miséria extrema, enquanto as famílias do czar e dos latifundiários viviam no fausto, desfrutando de todas as mordomias possíveis – comiam do bom e do melhor, enquanto o proletário passava fome; vestiam-se com as mais belas roupas, enquanto os miseráveis vestiam trapos. Os desvalidos trabalhavam 16 horas semanais e seus salários eram baixíssimos. Sem falar que o czarismo prendia, torturava e fuzilava quem se revoltasse contra o feudalismo.

Não era justo, portanto, que o povo se revoltasse violentamente contra aquele regime opressor, que durante séculos, fez os desvalidos passarem por todas as privações?

Escrevo estas pobres e mal traçadas linhas num momento em que todos aqueles que lutam por um mundo melhor, por condições melhores de vida, por moradias humanas para os pobres, contra a discriminação e contra a fome são taxados de comunistas. A vida humana não tem preço. “Um ser humano vale um ser humano”, me disse, certa vez, o anarquista Edgar Rodrigues. Todos os seres humanos de nosso Planeta, portanto, têm direito a viver uma vida digna. E a luta por uma vida melhor é direito de todo e qualquer cidadão.

Martin Luther King, líder afro-americano, que não era comunista, nos deixou claro que um povo oprimido não pode viver oprimido para sempre. E Oscar Wilde nos disse que “onde há sofrimento há terra sagrada”.

A revolução é uma luta legítima do ser humano. Camus, filósofo e escritor franco-argelino, escreveu, certa vez: “O que é um homem revoltado? É um homem que diz não, é um homem que diz que as coisas já foram longe demais”. A revolução nos mostra que algo deve ser mudado, que uma vida melhor é possível. Foi possível em 1917; foi possível em Cuba, em 1959, ainda que essas revoluções, a meu ver, tenham mudado de rumo, no meio do caminho. Porque penso que a revolução é do povo, não de lideranças políticas e intelectuais.

A revolução é a possibilidade de atingirmos a tão sonhada felicidade e sonharmos com a solidariedade, a generosidade e o amor verdadeiro e universal.

“Igualdade, fraternidade e liberdade!” deveria ser nossa oração todos os dias.

O LEGADO CULTURAL DA FAMÍLIA SCHOCAIR

Estive com o professor e escritor Nelson Maia Schocair no dia 10 de novembro [de 2017], quando conversamos sobre a ALB [Academia de Letras do Brasil], da qual fazemos parte e lembramos de quando escrevíamos canções juntos [com Osvaldo Martins e Roberto Costa] para a nossa banda Lua Nova [que passou a se chamar Carta Geográfica – homenagem ao poeta modernista mineiro Murilo Mendes] e de nossa viagem pelo Sertão Veredas das Minas Gerais.

É claro que nos lembramos dos grandes amigos que se foram [Gilson, Joni, Osvaldo, Roberto, Wilson...] e dos que ainda estão por aqui [João, Solange, Adalberto, Valdecir, Valquíria, Consola...]. E isto nos remete àquela canção do 14 Bis: “E os meus amigos, dispersos pelo mundo, a gente não se encontra mais pra cantar aquelas canções que disparavam nossos corações...”

Almoçamos juntos no self-service mais próximo, na Tijuca, na parte da tarde, discutimos a publicação de um livro nosso, Espelho Retrovisor, contendo as letras que escrevemos juntos e assistimos a dois filmes produzidos pelo Sr. Domingos William da Fonseca Schocair, avô de Nelson. Como a família não tem fotos do cineasta e ator William Schocair [seu nome artístico], sugeri que Schocair pausasse certas cenas para que eu o fotografasse ao lado do nome Schocair ou de seu avô.

Quando escrevemos Canta rio, cantam grilos, em Petrópolis, região serrana do Estado do Rio de Janeiro, o Sr. Nelson da Fonseca Schocair, pai de Nelson Maia Schocair e filho de William, foi o primeiro a ouvir a nossa bela canção. Nelson foi com seu violão para a varanda. Estava na sala quando o vi passar. Ficou ali dedilhando as cordas de seu instrumento. Quando me levantei, a caminho da varanda, ouvi o Sr. Nelson dizer para todos: “- Vão fazer mais uma música”. Um rio corria próximo; as estrelas no céu pareciam vidrilhos. E a música nasceu.

Eis a nossa canção, Canta rio, cantam grilos...

Cantam rios, cantam grilos / na escuridão da noite. / As estrelas são vidrilhos, / um convite ao delírio. / E a gente passa a amar / o que o mundo não consegue / enxergar em noites claras. / Noites raras como esta, / violões, então seresta, / a cantar enluarada. / O orvalho cai na estrada, / rega pastos e florestas, / como o quarto, madrugada / - silencia a nobre festa...”

Mas estou aqui para falar do Sr. William Schocair, avô de meu amigo Nelson, que tinha 9 anos quando o artista morreu.

William Schocair nasceu no Rio de Janeiro em 1902. Em 1916, seu pai, Olívio Schocair, na iminência de perder o filho para a I Guerra Mundial, registrou-o novamente alterando o ano de seu nascimento para 1904.

Apaixonado por cinema, William emigrou, em 1921, para os EUA e lá trabalhou em pontas de filmes mudos. Inclusive, de Rodolfo Valentino, adquirindo experiência na cinematografia então emergente.

Voltou para o Brasil e filmou “Coió sem sorte” [1924], “Lei do Inquilinato [1927] e “Maluco e mágica” [1932], primeiro filme futurista brasileiro. Nesses filmes, trabalhou também como ator.

O Sr. Schocair foi cofundador da Companhia Vera Cruz, a Hollywood brasileira, e veio a falir anos depois, como tantos outros abnegados de seu tempo. Todo o seu investimento foi gasto com cinema e, em 1969, morreu a míngua de recursos, no Rio de Janeiro, deixando viúva D. Gioconda Provenzano Schocair, com quem teve quatro filhos. A primeira filha morreu ainda bebê. Depois nasceram, pela ordem, Adamo, Nelson e Nilza, a única viva.

DIREITOS HUMANOS SEMPRE!

Estou diante da Declaraçstou Tangerini ão Universal dos Direitos Humanos. E ela nos diz, entre tantos artigos, que todo ser humano tem direito à moradia humana e alimentação.

Terminada em 10.12.1948, com a ajuda do Acadêmico e Imortal Austregésilo de Athayde, a Declaração ainda não é conhecida por muitos. Principalmente, por aqueles que, em pleno século 21, ainda nos rotulam de comunistas; porque desejamos o bem estar do próximo ou demonstramos amor universal.

A Declaração diz, ainda, que ninguém deve ser perseguido, preso, torturado e condenado à morte por pensar diferente. E aí vai uma crítica severa a todas as ditaduras – religiosas, capitalistas, socialistas e comunistas – de nosso Planeta.

Defender Direitos Humanos e o bem estar social, portanto, passou a ser defender o comunismo.

Fui membro – voluntário - da Anistia Internacional e tive a oportunidade de saber o que acontecia em Cuba, no Chile, na Albânia, no Irã, na China, na Turquia, na África do Sul, no Zimbábwe, no Paraguai, no Brasil, na Coreia do Norte, onde seres humanos são sumariamente condenados à morte, seja pelo estado, seja por grupos de extermínio.

O mundo girou de lá para cá, desde os anos 1980, quando fui membro da AI, até aqui. Participei das campanhas Human Rights Now e Free Nelson Mandela. Enviávamos cartas, em tom cortês, a embaixadas, a consulados, aos presidentes ou aos ministros da justiça dos países acusados por desrespeitar os Direitos Humanos. Pedíamos que este ou aquele cidadão fosse libertado. E muitas vezes nos emocionamos quando um cidadão era libertado e nos escrevia agradecendo. Foi dessa experiência que nasceu meu livro de poesias, “Cidadão do Mundo”, publicado, em 1995, pela Editora Achiamé, de meu amigo Robson Achiamé. A ideia de Sócrates, de ser um cidadão do mundo, deu título ao meu livro - plenamente humanista.

O mundo continua girando – não se sabe até quando -, e continuamos a ser tratados como comunistas, como se concordássemos com o que acontece na Coreia do Norte, onde uma monarquia comunista executa cristãos e qualquer oposição ao regime.

Os cristãos são perseguidos, presos, torturados e condenados à morte em muitos países muçulmanos. Se a chama da islamofobia continua acesa, a chama da cristofobia continua acesa, também.

E nossa insanidade mental caminha a passos largos: homossexuais são condenados à morte em países muçulmanos, onde a homofobia atinge o mais alto grau de ódio e de intolerância.

Este é o nosso mundo. “Mundo louco, mundo estranho”, escreveu o poeta Nelson Maia Schocair, outro sonhador. Vivemos num grande hospício, mas não desistimos do sonho. “Você dirá que sou um sonhador, mas não sou o único; espero que um dia você se junte a nós e o mundo será como um só”. Estas palavras são um fragmento de um outro sonhador, assassinado pela insanidade: John Wiston Lennon.

AQUELA VIAGEM A MINAS

[O CASO DO STRADIVARIUS]

Era um feriado longo. A memória não ajuda e não me lembro qual.

Nelson Maia Schocair, Roberto Carlos Costa de Oliveira [já falecido] e eu resolvemos pôr o pé na estrada e ir para Minas. Chamamos Osvaldo Luiz Cabral Martins, nosso amigo [também já falecido], para viajar conosco, mas ele preferiu ficar. Estávamos pensando em formar uma banda e queríamos viajar para Minas para compor. Mas ele foi irredutível. Talvez para não deixar sua mãe idosa, Dr. Esther, sozinha em casa. Ou talvez pressentisse o que aconteceria durante a viagem.

Antes de nossa ida, porém, Osvaldo, Nelson e eu escrevemos a canção meio mineira ESPELHO RETROVISOR: “Cheiro de mato na estrada, / caminho aberto à frente. / Eu corto a triste madrugada, / bandido pensando na fada. / A garoa quase geada / e você parada na mente. / Vejo no retrovisor, / a cidade que deixei. / Uma estrela rasgando o céu, / imagens que sonhei. / Refleti uma flor que caía, / cujo nome nem sei”.

Seguimos então para Belo Horizonte. De lá iríamos para Curvelo, onde Nelson e eu já tínhamos estado com Nirton Tangerini, meu irmão mais velho.

Fomos, então, ao bar Maleta, onde almoçamos e passamos a tarde conversando.

No dia seguinte, Nelson, Roberto e eu resolvemos almoçar no restaurante italiano Brunella, que fica no Alto da Afonso Pena. De lá, seguiríamos para Curvelo, cidade natal do escritor Lúcio Cardoso.

Do Brunella, avistávamos toda a Capital mineira de cima. E foi nesse clima, inspirado pela paisagem, que Nelson escreveu uma canção intitulada Belo Horizonte, que termina com um refrão de Beto Guedes, um dos rapazes do Clube da Esquina: “Belo Horizonte, teus amores, / teus recantos, teus cantores, / encerras entre serras, / belezas naturais. / Tuas meninas desfilando / à luz sol ou luz de vela, / contagiando os homens no Brunella. /Belo Horror, BH, BH, Belo horror!”

Comemos e Bebemos. Torramos nosso dinheiro ali. E ficamos um pouco altos.

Falávamos a respeito de música, sobre a possibilidade de colocarmos arranjos sofisticados em nossas músicas. Andávamos ouvindo 14 Bis. Inclusive, Nelson e eu estivemos com a banda, quando tocaram no teatro Ipanema. E eu comentei que minha tia Dinorah tinha um Stradivarius, um famoso violino.

Distraído como sempre, Roberto comentou que Stradivarius era um excelente e delicioso vinho.

O garçom passou perto de nós e nos perguntou se desejávamos algo.

Imediatamente Roberto pediu um Stradivarius.

Nelson e eu nos olhamos e achamos graça de tudo aquilo.

O garçom sumiu. Demorou. E, depois de muito tempo, voltou com a notícia:

- Amigos, infelizmente a casa não tem este vinho.

Pagamos a nossa conta no Brunella, descemos a Av. Afonso Pena e fomos para a rodoviária, onde embarcaríamos para Curvelo.

Como não havia três lugares no ônibus, Nelson foi no ônibus da frente e eu e Roberto fomos no outro ônibus.

Lá, nossa amiga Marta esperaria por nós.

AQUELA VIAGEM A MINAS II

[COMUNICADO 2322]

Um vento gelado me leva à canção que escrevi, certa vez, em Curvelo, pequena cidade de Minas Gerais, no meio do caminha para Diamantina, de parceria com Nelson Maia Schocair e Roberto Carlos Costa de Oliveira: “Amigos, fotografias, trem fantasma, ferrovias, gente me recriminando, 2322. Quase digo adeus ao mundo; por um triz, por um segundo, não te vejo mais meu Rio, 2322. Nesse doce mistério, vândalo vampiro da noite me aparece de repente, com a certeza indecente de estar jurado, de estar marcado, como um cavalo bravo, como um cavalo bravo”.

Fotografias perdidas, que não pudemos revelar e o tempo não traz de volta; fotografias que ficaram registradas em nossa memória. Porque Roberto, distraidamente, abriu a câmera fotográfica, depois de ter tomado um aperitivo.

Aquele amigo se foi. Carregou consigo a tristeza que nunca soube transmitir. E eu queria lhe dizer que a sua vida poderia ser mais longa e bela. Ficam na memória aqueles momentos em que a felicidade, fruto de nossa grande amizade, brilhava em nossos corações e olhos imaturos. Música e viagens, meninas e Minas eram nosso universo.

Trens fantasmas, ferrovias, e um carro assassino [2322] veloz, audacioso, tentando tirar a vida de meu xará, Nelson Maia Schocair.

Naquela noite, dormimos na casa de nossa amiga Marta. Ela tinha um quarto com três camas. Schocair, de cara, ficou com a cama de lençol azul. E Roberto e eu ficamos com as camas de lençol rosa e roxo. Houve um cara e coroa entre nós dois e eu fiquei com o roxo, o que ninguém queria, depois do episódio do carro 2322.

A árvore dos enforcados, robusta, cheia de vida, contava histórias de mortes, enquanto vozes tristes tentavam nos pedir socorro e prece. Mas por que pensar nisto, agora? Por que pensar naquele amigo que não está mais presente entre nós? É que a idade avança e costumamos nos lembrar dos amigos que se foram. E eu queria homenagear Roberto, aquele amigo que assistiu comigo ao show de Mercedes Sosa, no Ginásio Caio Martins, em Niterói. Depois do show, fomos ao Hotel NovoRio, onde a cantora argentina nos recebeu. Já escrevi sobre isto, numa crônica dedicada à Argentina.

Um vento gelado, um vento mineiro, leva minha triste canção ao amigo ausente para sempre.

AQUELA VIAGEM A MINAS III

[O retorno]

Saímos de Curvelo, Nelson, Roberto e eu, com destino ao Rio de Janeiro, via Belo Horizonte, encantados com os ares de Minas Gerais. Viemos cantando dentro ônibus. Schocair, com seu violão, animava a festa. O repertório eram músicas belas e os passageiros gostaram. Aplaudiram. Eram músicas nossas [como Marte, o hino de nossa turma [de Osvaldo Luiz Cabral Martins, Nelson Maia Schocair e Nelson Marzullo Tangerini], de Raul Seixas, Milton e 14 Bis.

Tínhamos, então, mais duas músicas novas: Maçãzinha [de Nelson Maia Schocair] e 14 Bis [de Schocair e Tangerini].

Chegamos a Belo Horizonte naquela manhã esfomeados e percebemos que nosso dinheiro havia acabado. O que nos restava era o dinheiro para voltar para o Rio. Era domingo, e tínhamos de estar cedo no trabalho no dia seguinte. Também não havia mais passagens para o Rio - no horário da manhã e da tarde. O jeito foi comprar passagem no horário da noite para Barra Mansa. Havia três lugares no ônibus, mas estariam vazios até Barra Mansa, Estado do Rio de Janeiro. Compramos as três passagens.

Passamos o dia inteiro com fome. Roberto reclamava. E eu lhe dizia: “- Ou você come ou você viaja. Ou pede dinheiro na rua para voltar”.

Passamos a tarde perambulando pelas ruas de Belo Horizonte. Deixamos nossas bagagens com Padre Isidro, numa igreja da capital mineira. Fomos para a Praça da Liberdade para oxigenar o cérebro. Encontramos amigos, mas não pedimos comida ou dinheiro emprestado. Voltamos, pegamos nossa bagagem com o padre e partimos para a rodoviária, onde nos sentamos até a chegada do ônibus.

A fome era desesperadora. Nosso estômago comprimido e nós ali, na ânsia de voltar para casa e ver o pesadelo passar.

Enfim, chegamos a Barra Mansa. O bilheteiro nos devolveu o dinheiro da passagem Barra Mansa – Rio e, com ele, compramos nossas passagens para o Rio. Estávamos felizes por estar em nosso Estado e perto de nossa capital.

Para nossa surpresa, ainda sobrou uma graninha. Com ela comemos um ovo frito, um ovo frito que foi dividido por três, e ainda tomamos uma cachaça.

Enfim, chagamos à Rodoviária Novo Rio, na capital fluminense. Eram mais de duas horas da madrugada. Para casa, tomamos um táxi, que foi pago pelo Sr. Roberto, pai de Roberto, pois combinamos assim. Nelson Maia Schocair desceu no Encantado, eu, Nelson Marzullo Tangerini, desci em Piedade e Roberto Carlos Costa de Oliveira, o último, desceu em Cascadura.

Ninguém deixou, portanto, de trabalhar naquela segunda-feira. Estávamos exaustos. O sono nos dominava, no horário de trabalho. A todo instante lembrávamos de nossa louca aventura.

À noite, naquela segunda-feira, estávamos, como de costume, todos reunidos na casa de nosso amigo João, à Rua Cruz e Sousa, Encantado, onde João, Osvaldo, Jussiara, Leila e outros amigos nos esperavam ansiosos por notícias de nossa viagem. A casa do João era o ponto de encontro de nossa turma.

Contamos nossa história para amigos e amigas e João e Osvaldo se limitaram a dizer: “- E vocês ainda queriam que fôssemos com vocês”.

Roberto, receba, em sua nova morada, o meu abraço amigo. Nelson.

POR PIEDADE

Nasci em Cascadura, na Maternidade Ângelo Philpo, que já nem existe mais. De lá, vim para Piedade, onde vivi mais de 60 anos de minha vida. Na casa onde moro, com jardim e quintal, como toda casa suburbana, morei com meus pais, Nestor e Dinah, e meus irmãos, Nirton e Nirson.

A casa é grande. E aqui recebíamos nossos parentes e amigos [muitos deles artistas], ainda que se localizasse numa travessa sem calçamento, com vala, borboletas e cobras. Nas ruas próximas, o calçamento era de paralelepípedo. Na via principal, Rua Clarimundo de Melo, antiga Estrada Rio - São Paulo, passavam os ônibus para Cascadura, Madureira, Coelho Neto [para cima] ou para o Méier e Centro da cidade [para baixo]. O famoso bonde Piedade passava pela referida via e tornava mais poético o nosso bairro, cortado pela linha do trem.

Meu pai tinha amigos ilustres: os compositores Aldo Cabral, Ronaldo Lupo, Ataúlfo Alves, entre outros. Sentavam-se à mesa da sala e ali falavam sobre teatro ou música popular brasileira. Muitos eram membros da UBC [União Brasileira de Compositores] ou SBAT [Sociedade Brasileira de Autores Teatrais].

Meu pai, Nestor Tangerini, era professor de língua portuguesa. Meus irmãos fugiam de suas aulas: um se tornou biólogo, enquanto outro se tornou físico. Eu, curioso, gostava das aulas de português do mestre, um filólogo seguro.

Estudei na Escola Municipal Félix Pacheco, que ainda continua de pé, desafiando o tempo. Da sala de aula ouvia o bonde Piedade passando. Mas a minha paixão era mesmo o trem, que levava passageiros da Central do Brasil à Baixada Fluminense ou Zona Oeste ou da Zona Oeste ou Baixada Fluminense à Central do Brasil.

A Wikipédia diz que Piedade “nasceu no ponto onde hoje fica a Igreja de Nossa Senhora da Piedade. Do alto, é possível ter uma boa visão de como a região cresceu. Entre Madureira e Méier, Piedade começou a ser ocupada em meados do século XVIII. O bairro faz divisa com os bairros de Quintino Bocaiúva, Cavalcante, Pilares, Tomás Coelho, Abolição, Encantado e Água Santa.

Com a chegada do trem, vieram o progresso, mais moradores e um problema: o lugar ficou conhecido pelo nome da estação, Gambá. O nome foi dado por dom Pedro II, durante uma viagem. ‘No momento de expansão ferroviária do Império em direção à Zona Norte da cidade do Rio, o imperador resolveu fazer uma parada em uma região onde havia vários gambás. Por conta disso, o lugar ficou conhecido como Parada Gambá ou Estação Gambá’, explica o historiador André Nunes.

Como o nome Parada Gambá não agradava muita gente, uma moradora do bairro decidiu escrever uma carta para o diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, no fim do século XIX. O texto era o seguinte: "Por piedade, doutor, troque o nome da nossa estaçãozinha". O apelo acabou dando certo. "O diretor respondeu: ‘Minha senhora, será feito. E o nome do bairro será Piedade’. Ela gostou, e o bairro ficou assim", diz o historiador”.

“Já com novo nome, o bairro ganhou ao longo dos anos quatro elementos marcantes”:

O River Futebol Clube, fundado em 1914 e que foi dirigido pelo Ministro Gama Filho, a igreja gótica do Divino Salvador, de 1910 e que tem no altar uma pintura em estilo modernista (Rua Divino Salvador); uma importante refinaria de açúcar, o Açúcar União, de 1927 e que hoje não funciona mais no local (Rua Assis Carneiro); a primeira Universidade do subúrbio carioca, a Universidade Gama Filho, fundada em 1939 pelo Ministro Gama filho. Fechada em 2014, a UGF, na época de fundação, chamava-se Colégio Piedade.

O escritor que vos escreve estudou no referido colégio.

Por Piedade passaram o compositor Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, que nasceu na Rua Gomes Serpa, a 23 de abril de 1897, o compositor Ataúlfo Alves, que morou na Rua Joaquim Martins, o teatrólogo e poeta Nestor Tangerini, a atriz Antônia Marzullo, o compositor Renato Barros, do conjunto Renato e Seus Blue Caps, e o compositor Adalberto Barboza, autor de Energia Azul, mais conhecido pela alcunha de Blau Blau.

Dizem até que a Jovem Guarda começou em Piedade, e que Roberto, Erasmo, Wanderleia, Wanderlei Cardoso, entre outros, frequentavam a casa de Renato.

No dia 15 de agosto de 1909, o escritor Euclydes da Cunha, sentindo-se traído, foi até a Estrada Real de Santa Cruz, hoje Avenida Dom Helder Câmara, em Piedade, com intenções de matar o militar Dilermando de Assis, amante de sua esposa, Ana, ou morrer. Morreu assassinado por Dilermando. E o episódio ficou conhecido como a Tragédia da Piedade.

O bairro, que [dizem – e isto não é confirmado] foi o primeiro do subúrbio carioca a ter energia elétrica, já não tem mais correio nem teatro [Dina Sfat], também.

Piedade tornou-se um bairro esquecido e abandonado, em ruínas. As ruínas da Gama Filho, que um dia recebeu o Dr. Christian Barnard, são hoje o retrato de um passado glorioso.

Por Piedade, salvem o nosso bairro!

TRISTE IRONIA

De um livro de gramática do Prof. Maia, recorto este significativo exemplo de Ironia [figura de linguagem]: “Com um governo desses não há por que se preocupar com o futuro”. Simplesmente, porque não vemos ou visualizamos o futuro.

Se continuarmos com esta política retrógrada, voto obrigatório, serviço militar obrigatório, entre tantas obrigações herdadas da ditadura, jamais seremos um país de 1º Mundo.

Tenho Facebook e fui obrigado a excluir inúmeras pessoas que defendiam a volta da ditadura militar, que prendeu, arrebentou, torturou, matou inúmeras pessoas – algumas continuam desaparecidas-, o stalinismo, que fez a mesma coisa, ou o neonazismo, com suas serpentes perigosas, que defendem a eugenia e deixam seus ovos em terrenos férteis para a procriação.

Quando era garoto, ouvia dizer que o Brasil era “o país do futuro”. Numa revista inglesa, encontrei o seguinte complemento: “Onde o futuro nunca chega”. Acho que este pensamento, transformado em música – sem graça - foi elaborado pela ditadura, que dizia que este país iria para a frente. Assim como outra ditadura inventou o slogan de que “A Seleção era a pátria de chuteiras”.

Dinah, minha mãe, tinha uma amiga que morava em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Quase sempre íamos para lá. Muitas vezes o trem parava para que militares o invadissem à procura de alguém que eu não sabia quem era. Ficava apavorado com aqueles homens de pouco riso e armados até aos dentes. Minha mãe me transmitia calma e me dizia que eles procuravam comunistas. “Eu era uma criança e não entendia nada”.

No ginásio, fiquei sabendo que um valente militante de esquerda havia sequestrado um embaixador americano. Para que o referido embaixador fosse solto, a ditadura deveria soltar um grupo de presos políticos. Mais tarde, conheci, pessoalmente, em passeatas ecológicas, algumas dessas pessoas que se tornaram parte desta história: Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis e Carlos Minc.

Mas o que era o comunismo? Aquilo me intrigava. E eu, menino atrevido, ouvia em minha casa, através de uma radio-vitrola, com dois botões e algumas teclas cor de marfim, as Rádios Havana [com os longos discursos do jovem barbudo Fidel Castro] e Tirana [com os longos discursos de Enver Roxha].

Ouvia também as rádios BBC de Londres, que volta e meia lia minhas cartas, ou a Rádio Voice of America, também preocupada em fazer propaganda ideológica.

Enquanto isto, no ginásio, nos empurravam goela abaixo uma tal de OSPB, Organização Social e Política Brasileira, que era mais uma propaganda da ditadura, como a chata e monótona Voz do Brasil, onde os jornalistas mais pareciam antenas repetidoras de relatórios mentirosos.

Na faculdade de Comunicação-Jornalismo Hélio Alonso, tive algumas calorosas discussões com fundamentalistas de esquerda, porque defendia a tese de que a União Soviética era tão imperialista quanto os Estados Unidos.

Enquanto a União Soviética desmoronava, a Albânia se mantinha firme. Um professor baiano [esqueci seu nome] dizia, no jornal anarquista O Inimigo do Rei, que a Albânia era o último santuário ecológico do stalinismo. Mas o silêncio albanês não teve mais como se sustentar em pé – e ruiu também.

Parece que este país não tem mesmo futuro. Reacionários de direita e de esquerda acham que ditaduras resolverão o problema do país. Agridem-se, trocam insultos, lavam a roupa suja. Porém, creio eu, só uma educação libertária fortalecerá a liberdade, que é inimiga de ditaduras religiosas, de direita e de esquerda. Aliás, em pleno século XXI já devíamos ter posto fim a estas duas palavras: direita e esquerda. Porque o que queremos é um mundo justo, sem pobres e sem fome; um mundo em que o ser humano valha um ser humano, seja presidente de si mesmo e não dependa das benesses de políticos que ainda distribuem sacos de cimento, tijolos ou dentaduras para o povo inculto, humilde e humilhado, em troca de votos.

Caminhando e cantando e seguindo por essa estrada sinistra, paramos diante do abismo. Seguir para onde? Talvez uma ponte seja construída e possamos atravessar para uma nova era, quando o ser humano terá uma vida mais justa, terá pão farto e moradia humana, independente da cor de sua pele.

UM ESCRITOR AFEGÃO

Atiq Rahimi, escritor afegão, esteve no Brasil em 2003, quando autografou seus livros e fez palestra no CCBB, Centro Cultural Banco do Brasil, sobre a poesia feminina do Afeganistão.

A poesia feminina afegã sobrevive no plano oral, uma vez que o maior número de analfabetos naquele país é de mulheres e, se elas escrevem, têm de esconder suas produções, uma vez que elas devem ser submissas.

O Afeganistão é um país asiático espremido entre Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, China e Paquistão e não tem saída para o mar. Talvez não tenha, também, uma saída para resolver a crise humanitária e a construção de uma sociedade mais justa.

Ficamos sabendo tudo a respeito deste pequeno e múltiplo país a partir do 11 de setembro de 2001, quando os EUA foram atacados e o World Trade Center foi inteiramente explodido com milhares de pessoas dentro. Múltiplo porque o Afeganistão é composto por umas 5 etnias, que falam, ao menos, cinco idiomas diferentes.

George Bush, até então chefe supremo do brutal capitalismo americano, nomeou Osama bin Laden e sua trupe, aquela legião de barbudos fanáticos e desequilibrados, como responsáveis pelo atentado. E, com o aparato da mídia, se iniciou uma perseguição sistemática aos membros da Al Qaeda.

Atiq, de etnia persa, é um escritor, cineasta e desenhista afegão. Nasceu em Cabul, capital do Afeganistão, no ano de 1962. Há 25 anos atrás, quando o país foi invadido pela finada União Soviética, o escritor saiu de sua casa e, com um grupo de rapazes, seguiu a pé, até a fronteira com o vizinho Paquistão, de onde viajou para a França.

A neve era intensa, entre Afeganistão e Paquistão, e Atiq viu nela uma página em branco e um texto a ser escrito.

Ao cruzar a fronteira, a pé, um guarda lhe diz para olhar fixamente pela última vez o seu Afeganistão e, depois, olhar para o Paquistão, país que o acolheria temporariamente, pois, dali, seguiria para a Europa.

No dia 13.6.2018, Atiq, retornando ao Brasil, contou-nos, no mesmo CCBB, que sua mãe, uma mulher com mente bem avançada, era simpática ao budismo, enquanto seu pai era monarquista. O irmão, comunista e guerrilheiro, acabou sendo assassinado pelos talibãs.

Atiq se diz ateu e anarquista, mas prefere não fazer uma crítica contundente a respeito daqueles fanáticos barbudos, limitando-se a dizer que o Afeganistão está mergulhado no caos. É o que percebemos quando ele fala de seu país, ao qual, talvez, nunca mais volte. E também não é bem vindo no vizinho Irã.

Autor de A balada do cálamo, entre outros livros, Atiq é também autor do livro Syngué sabour, Pedrá-de-paciência, onde relata a triste história de Nadia Anjuman e “a dor que lhe causou o assassinato” da poeta, “espancada até a morte pelo marido com a conivência da mãe [dela], que a acusava de ser liberal demais”, pois era uma mulher culta e escrevia poesias. O marido, que mais amava sua metralhadora Kalashnikov, silenciou, portanto, um sensível ser humano e a poesia que havia dentro dela, fazendo-nos lembrar do fuzilamento do poeta espanhol Federico García Lorca.

Os poetas, um dia, estarão mudos, mais nada, mas tem sangue eterno a alma ritmada, como escreveu a nossa Cecília Meireles. E a poesia sobreviverá eternamente na alma de outros poetas que virão, e lutarão, com sua escrita e escritura, contra todos os regimes autoritários.

BASTOS TIGRE O RHUN CREOSOTADO

Manuel Bastos Tigre, poeta, jornalista e homem de propaganda, nasceu em Recife a 12 de março de 1882.

Sua obra poética parece estar esquecida, embora Tigre seja muito conhecido por uma poesia-propaganda, sobre o Rhum Creosodato, que não é de sua autoria e que foi lida nas antigas rádios e afixada no interior dos bondes da velha cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro:

“Veja, ilustre passageiro,

o belo tipo faceiro

que o senhor tem ao seu lado.

No entanto, acredite,

Quase morreu de bronquite:

Salvou-o o Rhum Creosotado”.

O tal Rhum Creosdato, remédio criado pelo farmacêutico Ernesto de Souza [1864-1928], há muito desapareceu das farmácias, como desapareceram os poéticos bondes da cidade do Rio de Janeiro, exceto os de Santa Teresa, agora atração para turistas endinheirados.

Para homenagear o amigo pernambucano, o humorista Nestor Tangerini publica, em fevereiro de 1948, na p. 8 de sua revista O Espeto, na coluna Espetos Rimados, um dos sonetos satíricos de Tigre. Dizia-se, na época, e o assunto desembocou em marchinha no Carnaval de 1950 [Vaga-lume, de Vítor Simon e Fernando Martins], que, no Rio de Janeiro, Capital Federal, de dia faltava água e à noite faltava luz.

O requintado humor de Bastos Tigre, portanto, estava afinado com a revista de Tangerini, também poeta satírico, e ganhou espaço na referida publicação de humor e sátira:

“NO DESERTO

Eis que Deus ao povo se declara

Em revolta: pragueja, em fúria, à plebe:

Água, Moisés! O sol requeima a seara!

Da nossa sede o céu não se apercebe!

Vendo Moisés a coisa feia, a vara

Vibra, contra o monte Horeb;

E eis que corre, copiosa, a fonte clara!

Água a fartar; e toda a gente bebe.

Bons tempos esses! Desmoralizou-se,

Hoje em dia, o prestígio milagreiro

Que fez a vida deleitosa e doce!

Quando pela manhã busco o banheiro,

Penso em Moisés... Oh! Se ele fosse

Manda-chuva... no Rio de Janeiro...”

Manuel Bastos Tigre faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1 de agosto de 1957, deixando uma vasta obra literária, lida apenas por um reduzido grupo de abnegados estudiosos de poesia satírica em língua portuguesa.

ENTRE DITADURAS

Escolhi o título Entre ditaduras para homenagear o escritor e historiador anarquista português Edgar Rodrigues [António Francisco Correia], um sério inimigo de todas as ditaduras – religiosas, de direita e de esquerda.

O momento é propício: viúvas de Marx, Lênin, Stálin, Mussolini, Franco, Salazar, Hitler, Médici, Videla, Strossner, Somoza, Enver Hoxha, entre outros criminosos, rezam para que seus ídolos se levantem das sepulturas, para oprimir a Humanidade.

Todos esses sádicos idólatras sabem muito bem o que aconteceu nesses regimes fascistas, autoritários e criminosos. Ninguém era um ingênuo propagandista. Traziam dentro de si a má índole, a dureza, a frieza, o autoritarismo. O discurso deles é o mesmo para qualquer situação – para a esquerda, para a direita, para a religião: “Este país só se conserta com uma ditadura”. E ninguém se preocupa em saber que o caminho para o respeito mútuo é a educação libertária, livre de todos os dogmas.

Convivi com Edgar Rodrigues. Admirei-o. E, em algumas momentos, discordei do anarquista, que, em sua vida de militante, publicou mais de 50 livros sobre o movimento operário.

Queria falar sobre o policiamento, neste momento em que termino de ler o livro Vozes de Tchernóbil, a história oral do desastre nuclear, da Prêmio Nobel, Svetlana Aleksiévitch, Editora Companhia das Letras. Porque tudo o que eu falei, aos meus amigos e aos meus inimigos, na Faculdade de Comunicação-Jornalismo Hélio Alonso e no Sindicato dos Escritores do RJ, estava correto: a União Soviética era uma mentira. E a imprensa estatal, o Pravda [atrelada ao regime comunista], ocultou do povo a explosão da usina e a exposição de seres humanos, animais e plantas à irradiação atômica.

Escrevo isto enquanto a esquerda da América do Sul chama a nossa imprensa de golpista e burguesa. Sim, ela é golpista e burguesa, mas o caminho para o futuro é uma imprensa livre, coletiva e libertária – que não seja atrelada ao estado – e que não pertença a famílias burguesas e poderosas.

Lendo este livro de Svetlana, lembrei-me de um episódio que aconteceu comigo na Cinelândia, quando fui convidado pelo Sindicato dos Escritores do RJ, para falar, num palanque, sobre não sei quantos anos do ataque americano às cidades japonesas Iroshima e Nagazaki. Ali, falei sobre o ataque terrorista ao Japão. Fui aplaudido. Mas fui vaiado, quando falei de Tchernóbil. Porque, em Tchernóbil, a irradiação era marxista. Muitos, depois, vinham me dizer que meu discurso era de direita. Ou que Tchernóbil nada tinha a ver com o ataque ao Japão.

Dali para diante, fui obrigado a me afastar de muita gente que me criticava pela frente ou por trás – gente que me rotulava de direita e não via a União Soviética como uma nação imperialista, tão imperialista quanto os EUA.

E, a partir daí, passei a admirar o velho anarquista Edgar Rodrigues, que tantas vezes, em seus escritos, combateu o imperialismo, o fanatismo religioso, a idolatria e as armas – comuns e de destruição em massa.

Termino estas “mal traçadas linhas” com as mesmas palavras com as quais finalizava suas crônicas: “Diga NÃO à violência!”

O VOO DO 14 BIS (*)

O multitecladista, violonista, vocalista e bandolinista Flávio Venturini já havia tocado n´O Terço, ao lado de Sérgio Magrão (baixo, vocal, backing vocal e violão ovation). Vermelho (teclado, piano, vocal e baixo) já havia tocado com Beto Guedes e participado, inclusive, de seus primeiros LPs lançados pela Odeon, ao lado de Hely Rodrigues (bateria, vocal e percussão) e do próprio Flávio. Kimura (gaita – e que gaita!) e Cláudio Venturini (vocal, baixo, violão e guitarra) são “ilustres” desconhecdos para o público brasileiro.

Para entender o grupo mineiro 14 Bis é preciso conhecer o segredo que existe em Minas Gerais e sua lindíssima capital Belo Horizonte, cidade de “mil e uma” ladeiras, muito queijo, muita música e (o principal) muita menina bonita: “Quem te conhece não esquece jamais, ó Minas Gerais!”

Vermelho, ex-Bendegó, uma banda baiana, se lembra dos bons tempos do rock: “-Naquele tempo, a gente se reunia para ouvir e tocar Beatles. Hoje, as pessoas só desenvolvem o som”. Todo sentimento foi colocado em Perdidos em Abbey Road. Primeira faixa do disco, e composta por Vermelho e Venturini. Vermelho estava na rua, em meio a buzinas, apitos, multidão e todo aquele rush característico de cidade grande, quando ouviu, no meio de tudo, uma canção dos Beatles, vinda de uma loja de discos. “Foi uma sensação de distância muito grande daquela época dos Beatles. Nossos amigos dispersos pelo mundo, a gente não tem mais tempo de se encontrar, para cantarmos juntos as canções de que a gente gostava”.

Sobre o estilo da banda, Flávio prefere não comentar: “- Para dar uma idéia, somos 3 mineiros, um carioca (Sérgio Magrão) e um baiano (Vermelho)”.

Nos shows que os mineiros apresentam em suas temporadas em Belo Horizonte, Rio e São Paulo, o público pôde ter uma noção (ou referência) sobre esse trabalho belíssimo, que já foi entregue pela EMI Recording – Odeon a todas as lojas do Brasil.

O Lp de estréia da banda é produzido por Milton Nascimento, que assina embaixo. Milton, inclusive, compôs Canção da América, em parceria com Fernando Brant, especialmente para a banda, e isto, desde já, dá um certo “status” ao trabalho e qualifica o disco.

Como podemos ver, Minas Gerais não é só a terra de Cruzeiro x Atlético, como muitos preferem dizer por aí, Affonso Arinos, Carlos Drummond de Andrade, Pelé e Santos Dumont e tantos outros que trouxeram glórias para os orgulhosos mineiros. Minas Gerais, hoje, pode, também, orgulhar-se de um dirigível chamado 14 Bis, um sonho que se tornou realidade, um som tão genuíno quanto o Rio São Francisco.

Algumas músicas como Espanhola (de Venturini e Gutemberg Guarabira), já gravada por Sá & Guarabira, Cabala (Venturini), já gravada pel´O Terço, e Nascente (Venturini e Murilo Antunes), gravada por Beto Guedes, em seu primeiro Lp, e regravada por Milton Nascimento no Lp Clube da Esquina No 2, com Venturini, não foram incluídas no disco, mas o grupo reapresentou-as ao público, presenteando-o com um “flash back” dos bons momentos dos músicos, cantores e poetas do Clube da Esquina.

É um trabalho bonito, que não caberia num Lp simples. Há uma grande probabilidade de os mineiros gravarem Nascente, Espanhola e Belo Horror (de Vermelho), no próximo disco, o que reafirmará a “beleza pura” da canção mineira.

A EMI – Odeon caprichou em todas as faixas. Graças à gravadora, o instrumental e o trabalho vocal foram melhor ampliados. Se O terço já era considerado como melhor grupo vocal, o 14 Bis nem se fala.

O disco está repleto de folclore, rock, música andina e valsa (Sonho de Valsa), e isso é muito bom, pois reflete melhor esse Brasil, que é filtro musical do mundo.

(*) Nelson Marzullo Tangerini e Nelson Maia Schocair assistiram aos primeiros shows do grupo 14 Bis. Estiveram com a banda e tocaram e cantaram uma canção da dupla (Schocair & Tangerini) para Hely, o baterista. Esta crônica foi publicada no jornal O Inimigo do Rei, p.6 - Ano 3 – no 9 – Edição bimestral – janeiro e fevereiro / 1980, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

A VALSA “DONA FELICIDADE”

Em 1937, Castro Barbosa gravava, pelo selo RCA Viktor, a valsa Dona Felicidade, de Benedicto Lacerda [música] e Nestor Tangerini [letra], editada pela Manggione. Seus versos foram publicados por Almirante, no jornal O Dia, Rio, na edição de 11.10.1974, em sua coluna Cantinho das Canções, a pedido do leitor Geraldo Brandt de Sá:

DONA FELICIDADE:

No País da Fantasia,

que habitei na mocidade,

eu também quis, certo dia,

ver Dona Felicidade.

Enveredei pela Estrada

da Esperança, e em meio, então,

mais linda do que a Alvorada,

encontrei Dona Ilusão.

Perguntei-lhe logo, a ela,

se onde morava sabia

- a criatura mais bela

do País da Fantasia.

E a ilusão, gesto risonho,

mostrou-me, numa colina

da Cordilheira do Sonho,

uma casa pequenina.

Prossegui na caminhada,

e, cansado mas ufano,

bato à casinha indicada,

onde um velho, o Desengano,

me atendeu com gravidade

na informação que pedi:

- A Dona Felicidade

já não mora mais aqui.

Os versos de Dona Felicidade também foram publicados no jornal AAC INFORMATIVO, Órgão Informativo Nacional dos Aposentados dos Correios, Ano V – No. 16, Brasília, DF, abril/maio/junho de 1999, pág. 4.

O compositor e teatrólogo Aldo Cabral, parceiro teatral de Tangerini e parceiro musical de Benedito Lacerda, assim definiu, no Boletim Social da UBC, no. 50, pág. 8, Ano XVI – Janeiro-Março de 1958, o grande compositor fluminense Benedicto Lacerda, após seu falecimento:

“Natural de Macaé, Estado do Rio de Janeiro, onde nasceu, a 14/3/1903, Benedito Lacerda desde cedo demonstrou sua vocação para a música, tendo, aos 17 anos, estudado flauta – instrumento de sua predileção – com o professor Belarmino de Souza.

Além de ser um dos nossos mais inspirados compositores, Benedito tornou-se famoso como solista de flauta, tendo participado de centenas, talvez milhares, de gravações, na maioria de nossas principais fábricas de discos.

A ele deve-se a organização do primeiro conjunto regional do país, o célebre Gente do morro, que mais tarde passaria a ser denominado Regional de Benedito Lacerda, lançador de um curioso estilo de acompanhamento que foi adotado, por longo tempo, pelos vários conjuntos regionais que se formaram posteriormente.

Foram integrantes de seu conjunto diversos executantes célebres, entre eles Canhoto e Russo do Pandeiro.

Como compositor, Benedito Lacerda deixou vasta bagagem - são cerca de cinqüenta músicas só Aldo Cabral -, pontilhadas de grandes sucessos populares, tais como Boneca, Pra fazer você chorar (sucesso na voz de Carmem Miranda), Amigo infiel, Amigo Leal, A voz do dever, Brasil, Despedida de Mangueira, Espelho do Destino, Carnaval de minha vida, Iracema, Não quero, Paciência, coração (de parceria com Aldo Cabral), Dinheiro não há, Querido Adão, Eva querida, Leila, Acho-te uma graça, Macaco olha o teu rabo, Ondina, Jardineira, Lero lero, e tantas outras (com outros parceiros) - editadas em disco e papel.

No dia 16 de fevereiro, de 1958, em pleno domingo de Carnaval, vitimado por insidiosa moléstia, faleceu, aos 55 anos de idade, na clínica D. João de Deus, nas Laranjeiras, onde se achava hospitalizado, o conhecido compositor popular Benedito Lacerda.

Seu sepultamento teve lugar, no dia 20, no cemitério de S. João Batista”. (*)





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