Desenvolvimento e a contemporaneidade



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O ADOLESCENTE EM

DESENVOLVIMENTO E A

CONTEMPORANEIDADE

 

 



Eixo Políticas e Fundamentos

aberta.senad.gov.br




APRESENTAÇÃO

Neste  módulo,  o  foco  de  nossa  discussão  é  o  desenvolvimento  humano  a  partir  de  um  olhar

biopsicossocial - relativo a fatores biológicos, psicológicos e sociais - entendendo esse desenvolvimento

como um processo contínuo de transformação. O enfoque incide também sobre as características desse

processo no contexto familiar, levando em conta as influências das condições socioculturais presentes

no meio onde o adolescente está inserido.

Todo  o  conteúdo  deste  trabalho,  exceto  quando  houver  ressalva,  é  publicado  sob  a  Licença  Creative

Commons  -  Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual  4.0  Internacional.  Podem  estar  disponíveis

autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://aberta.senad.gov.br/.

AUTORIA


Maria Cláudia Santos Lopes de Oliveira

http://lattes.cnpq.br/6281151757179145

Possui  graduação  e  mestrado  em  Psicologia  e  doutorado  em  Educação.  É

professora associada da Universidade de Brasília, onde desenvolve projetos

de pesquisa na área de Psicologia do Desenvolvimento da Adolescência, com

ênfase  no  desenvolvimento  social  no  contexto  urbano  das  escolas  e

instituições do sistema de medidas socioeducativas. 



 

 

O ADOLESCENTE EM DESENVOLVIMENTO E A



CONTEMPORANEIDADE

SITUAÇÃO PROBLEMATIZADORA

Na  adolescência,  mudanças  no  comportamento,  nas  relações  interpessoais  e  nos  valores  são  muito

comuns.  Tais  mudanças  têm  como  base  o  contexto  social  e  econômico  no  qual  o  adolescente  está

inserido, o que influencia muito seus comportamentos e o desenvolvimento de sua identidade.

Feitas essas considerações, e antes de aprofundar a leitura do módulo, procure assistir ao trecho do

filme Confissões de Adolescente (2013) e refletir sobre algumas questões.

 https://youtu.be/3Ttql-Ewoi4

Podemos  observar,  nesse  trecho  do  filme,  uma  família  composta  por  um  pai  que  precisa  criar  e

sustentar quatro filhas sozinho. Assim como esse exemplo de estrutura familiar, existem outros modelos

de família que têm em comum a desafiadora tarefa de educar seus filhos adolescentes.



 

A partir do que é retratado na cena, pense: quais as possíveis consequências que essa ruptura na rotina

familiar – a mudança de endereço – pode provocar no desenvolvimento das adolescentes em questão?

Como a notícia de Paulo, o pai, pode influenciar na vida de suas filhas na escola, nas redes sociais e em

casa?

A  seguir,  veremos  mais  informações  que  podem  ajudar  você  a  aprofundar  um  pouco  mais  seus



conhecimentos  sobre  essas  e  outras  questões  relacionadas  ao  adolescente  em  desenvolvimento  nos

dias de hoje.

O ADOLESCENTE EM DESENVOLVIMENTO E A

CONTEMPORANEIDADE

CONHECENDO O ADOLESCENTE

O desenvolvimento humano é um processo global e contínuo de transformações da pessoa e de seu

grupo. Esse processo se inicia antes mesmo do nascimento, naquele momento em que a pessoa passa a

existir para seus pais como um projeto de futuro.

Tudo  aquilo  que  está  no  entorno  de  um  ser  em  desenvolvimento  afeta  a  dinâmica  de  suas

transformações  ao  longo  do  tempo:  as  pessoas,  os  significados  culturais,  o  momento  histórico,  as

experiências  pessoais  e  sociais,  as  oportunidades  positivas  e  também  os  riscos.  Esses  fatores

influenciam,  em  maior  ou  menor  grau,  o  desenvolvimento  físico,  intelectual,  emocional  e  social  de

crianças e adolescentes.

 

Da  mesma  forma,  as  conquistas  derivadas  do  processo  de  desenvolvimento  pessoal  potencializam  a



capacidade de cada um também atuar criativamente, influenciando, por meio do pensamento inovador,

na transformação positiva de seu meio.

Uma narrativa exemplar desse fenômeno é a seguinte: conta-se que uma criança, ao ouvir da professora

que os pais eram mais sábios e experientes que os filhos, pergunta-lhe:

“Professora, quem inventou a lâmpada elétrica?”.

A professora responde: “Thomas Edison”.

A criança contra-argumenta: “E por que não foi o pai dele?”.

Ou seja, ninguém se desenvolve sozinho. Todo desenvolvimento pessoal é um elo na cadeia

de desenvolvimento da sociedade.



 

Os processos de natureza biopsicossocial que ocorrem no curso de vida de um ser humano configuram

um processo de via dupla: os seres afetam e são afetados pelo contexto histórico (caracterizado pela

dimensão do tempo) e social (caracterizado pela presença e a influência de outros sociais, relacionados

aos diversos ambientes onde cada um vive). 

A  princípio,  as  experiências  vividas  pela  criança  se  tornam  significativas  para  ela  à  medida  que  são

significativas para seu grupo social. O valor dado à experiência infantil colabora para construir o solo

sobre o qual cada um configura, de modo único, o senso de si. 

Cada mudança é condicionada pelas características anteriores da pessoa e acarretará efeitos, de forma

mais ou menos previsível, sobre seu futuro. Entretanto, há  eventos que são considerados pontos de

ruptura,  porque  interrompem  uma  trajetória  de  desenvolvimento  saudável,  por  causarem  traumas

profundos,  crises  e  por  gerarem  mudanças  no  curso  de  desenvolvimento.  São  exemplos  disso  as

experiências de abuso, negligência ou grave violação de direitos na infância.

Não  devemos  ignorar,  entretanto,  que  a  subjetividade  é  uma  estrutura  muito  dinâmica,  com

capacidade  de  se  reconstruir  mesmo  diante  de  severas  adversidades.  Por  isso,  não  podemos  nos

esquecer  das  possibilidades  de  o  ser  humano  mudar  e  desenvolver-se  e  do  nosso  papel,  enquanto

sociedade, de acreditar, mediar e favorecer essas mudanças.

Saiba Mais

Aprenda  mais  sobre  os  conceitos  de  subjetividade  e  sujeito  no  módulo  O  SUJEITO,  OS

CONTEXTOS 



ABORDAGEM 



PSICOSSOCIAL 

NO 


USO 

DE 


DROGAS

(http://www.aberta.senad.gov.br/modulos/capa/o-sujeito-os-contextos-e-a-abordagem-

psicossocial).

 



 

A  adolescência  começa  a  ser  construída  na  tenra  infância.  Uma  criança  feliz  tende  a  se

transformar em um adolescente saudável. Em outras palavras, quando a criança encontra um

espaço  familiar  e  comunitário  afetivamente  seguro  e  comprometido  com  a  garantia  de  seus

direitos, independentemente das dificuldades econômicas e das possíveis vulnerabilidades que

possam  permear  o  meio  social  imediato,  temos  grande  probabilidade  de  promover

adolescências  saudáveis.  Infelizmente,  notamos  que  o  ambiente  mais  próximo  da  criança  é

aquele  no  qual,  por  várias  razões,  suas  necessidades  específicas  de  ser  em  desenvolvimento

são,  muitas  vezes,  ignoradas.  Em  outros  casos,  mesmo  com  uma  estrutura  afetiva  sólida,  a

família não encontra suporte de uma rede social segura, nem conta com a assistência adequada

para  cumprir  sua  função  de  promoção  de  desenvolvimento  dos  filhos.  A  partir  disso,  podem

ocorrer problemas que se tornam críticos na adolescência.

Decorre daí o consenso de que a passagem da infância para a adolescência, nas sociedades urbanas

contemporâneas,  conduz  o  adolescente  a  grandes  mudanças  comportamentais,  relacionais  e  de

valores.  As  transformações  dessa  fase  da  vida  fazem  com  que  os  adolescentes,  muitas  vezes,  sejam

vistos como um grupo estranho ou incompreensível, quando observados sob a perspectiva dos adultos.

Isso contribui para os conflitos entre as gerações, e para a prevalência de estereótipos e preconceitos.

O ADOLESCENTE EM DESENVOLVIMENTO E A

CONTEMPORANEIDADE

 

CONHECENDO O ADOLESCENTE



Uma pergunta frequente entre educadores, pais e profissionais que lidam com adolescentes é: quem é

o adolescente? 

Para  muitas  pessoas,  o  primeiro  pensamento  que  aparece  sobre  o  adolescente  quase  sempre  é

pejorativo.  




 

Figura 1: Representação de estereótipos sobre os adolescentes. Fonte: NUTE-UFSC (2016).  

Onde surgiram as ideias estereotipadas sobre o adolescente?

As ideias representadas na Figura 1 expressam mitos que se tornaram comuns e generalizados devido à

irresponsabilidade,  à  intolerância,  à  instabilidade  emocional  e  à  imprevisibilidade  observadas  em

alguns  adolescentes  em  determinados  ambientes  socioeconômicos  e  culturais.  Em  outros  contextos,

porém, a adolescência é marcada pelo trabalho, pela disciplina e pela responsabilidade do sustento da

família.


Percebemos  que  hoje  há  diversidade  de  experiências  na  fase  da  adolescência,  de  acordo  com  as

condições sociais e culturais existentes.

O  contexto  socioeconômico  influencia  comportamentos,  expectativas  de  futuro,  exigências  sociais  e

formas  de  participação  cultural,  seja  na  área  urbana,  seja  na  rural.  Também  influencia  experiências

familiares, segundo diferentes configurações sociais e econômicas, em zonas de violência, no seio de

minorias religiosas e étnicas (como entre indígenas e migrantes estrangeiros) etc.

Em  cada  um  desses  contextos,  a  adolescência  está  associada  a  diferentes  condições  de  inserção  ou

exclusão  social  e  guarda  diferentes  formas  de  ser  e  estar  no  mundo,  que  devem  ser  identificadas  e

compreendidas por todos.

Pensando  nisso,  desenvolvemos  quatro  temas  sobre  a  evolução  do  conceito  de  adolescência  e  suas

implicações nos espaços social, familiar e escolar:  

(pagina-03-extra-01.html)




 

 

o conceito de adolescência: aspectos históricos; (pagina-03-extra-01.html)



adolescência e cultura; (pagina-03-extra-02.html)

o desenvolvimento psicológico na adolescência; (pagina-03-extra-03.html)

a adolescência no contexto da contemporaneidade (pagina-03-extra-04.html).

 

O CONCEITO DE ADOLESCÊNCIA: ASPECTOS



HISTÓRICOS

Em nossa língua, o termo adolescência tem duas características distintas:




Figura 2: Duas definições distintas para o termo adolescência. Fonte: NUTE-UFSC (2016).

A puberdade, característica do amadurecimento do adolescente, pode ser compreendida como um fato

natural; porém, ao longo da história da humanidade, a adolescência se apresenta como um processo

proveniente de transformações socioculturais.  

Até  o  século  XII,  falava-se  sobre  adultos  jovens,  mas  não  sobre  adolescentes.  Na  Idade  Média,  a



atividade  de  trabalho  estava  associada  à  produção  artesanal  e  ao  comércio;  não  havia,  de  fato,

separação  entre  vida  e  trabalho,  entre  socialização  familiar  e  profissional.  Assim  que  as  crianças

conquistavam autonomia motora, os espaços de brincadeira passavam a se misturar aos das oficinas de

trabalho, o que contribuía para que a transmissão do ofício se desse de modo quase natural. Já na era

industrial, crianças e adolescentes foram utilizados como força de trabalho nas fábricas, servindo como

mão de obra barata para a exploração capitalista. 

Momento Cultural

O fotógrafo e sociólogo Lewis Wickes Hine (1874-1940) foi um importante ativista contra o

trabalho infantil durante as primeiras décadas do século XX. Participou do Comitê Nacional

do  Trabalho  Infantil  estadunidense  e,  com  sua  máquina  fotográfica,  registrou  diferentes

cenas  de  crianças  e  adolescentes  nas  fábricas,  o  que  mobilizou  a  sociedade  norte-

americana  a  discutir  o  tema  e  proibir  a  exploração  do  trabalho  infantil.  Na  foto,  Hine

registrou  crianças  trabalhadoras  nas  minas  de  carvão,  revelando  a  situação  de

vulnerabilidade em que se encontravam. 

 

Fonte: Lewis W. Hine -  “A group of the youngest breaker boys in a Pennsylvania coal breaker” (1911). South



Pittston, Pa. USA. 


 

Com a chegada da Modernidade, houve uma crescente necessidade de conhecimentos especializados

na  área  técnico-científica  para  a  produção  do  trabalho.  Com  isso,  aumentaram  as  exigências  de

preparação das pessoas para a entrada no mundo profissional. A escola passou a representar o espaço

responsável por essa preparação, assim como lugar de “tempo de espera” da oportunidade de acesso

ao trabalho formal. Tudo isso contribuiu para a necessidade de formalização da educação e resultou na

progressiva separação entre as formas de vida das crianças e dos adultos.

A  Modernidade  promoveu  o  desenvolvimento  econômico,  social,  científico  e  financeiro  em  todo  o

mundo  e  ocasionou  o  aumento  populacional.  Com  essas  mudanças,  ficou  cada  vez  mais  evidente  a

separação entre o fim da infância e o início da vida adulta, embora não houvesse uma definição social

precisa para o intervalo entre esses dois momentos. 

 

ADOLESCÊNCIA E CULTURA



Estudos  antropológicos  desenvolvidos  no  início  do  século  XX  sobre  a  adolescência  e  a  juventude

confirmaram  que  a  puberdade  é  um  fenômeno  natural  da  espécie  humana.  No  entanto,  o  seu

significado difere culturalmente por causa das práticas observadas em cada povo. 

Figura 3: Exemplo comparativo entre a cultura ocidental e a cultura Manu. Fonte: NUTE-UFSC (2016). 




 

 

 



Nesse caso, a puberdade também é vista como fato cultural. 

 

OUTRAS EVIDÊNCIAS DAS DIFERENÇAS CULTURAIS



Grande  parte  dos  grupos  sociais  de  culturas  distintas  registra  a  passagem  da  infância  para  a  idade

adulta por meio de cerimônias. Nesses ritos de passagem, o amadurecimento físico é associado à ideia

de morte simbólica da criança para o nascimento de um novo adulto. 

 

Para  cada  pessoa,  os  ritos  de  passagem  assumem  uma  forma  de  preparação  (quarentenas  e



isolamento  social,  por  exemplo)  e  de  desfecho  (rituais  de  suplício,  dramatização  de

morte/renascimento, festas, celebrações etc.). ƒ Para o grupo, a pessoa que inicia o ritual está

na condição de criança e, ao terminar, adquire novo status social, a condição de adulto. Assim,

o rito de passagem demarca a maioridade social do adolescente.

Nas  sociedades  ocidentais  modernas,  por  outro  lado,  os  ritos  de  passagem  foram  suprimidos  e

substituídos por uma longa fase intermediária entre a infância e a vida adulta. Eventos como festa de

debutante ,  maioridade  civil   e  primeiro  emprego  assumem  parte  do  significado  e  da  função

representada pelos rituais em outras sociedades.

A adolescência, além de fazer parte de uma construção histórica e de uma produção cultural, também

expressa as formas singulares de como cada pessoa é, vive e sente a transição da infância para a vida

adulta. Essa transição pode ser compreendida pelo estudo do desenvolvimento psicológico.



 

Glossário

O baile de debutantes é um rito de passagem das jovens da elite social. No aniversário de 15

anos, faz-se uma  festa de comemoração onde elas são apresentadas oficialmente à sociedade,

começando assim uma nova fase de suas vidas. 

Fonte: Wikipédia.

Glossário

Maioridade civil é a idade mínima legal que o indivíduo pode começar a usufruir de todos os

seus direitos civis. No Brasil, com a aprovação do novo Código Civil em 11 de janeiro de 2003

(através da Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002), a maioridade civil passa a ser a partir dos 18

anos.

 

DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO NA



ADOLESCÊNCIA

Como o desenvolvimento psicológico na adolescência é um tema amplo e profundo, vamos abordá-lo

em três contextos: (a) reconstrução da autoimagem e senso de identidade, (b) mudança de significação

da  relação  com  os  pais  e  (c)  novo  significado  da  relação  com  o  grupo  de  pares  (aspectos  sociais  e

afetivos).

a) Reconstrução da autoimagem e senso de identidade

Muitas  vezes,  o  mal-estar  sentido  pelo  adolescente  é  acentuado  por  causa  da  inadequação  entre  as

características físicas do seu corpo e os padrões de beleza reconhecidos na cultura ou impostos pela

mídia  e  pela  sociedade  em  geral.  Especialmente  as  adolescentes  sofrem  com  a  impossibilidade  de



 

 

atender ao modelo exigido de corpo alto e magro, em razão de estarem passando por uma fase da vida



em que o acúmulo de gordura, o arredondamento dos quadris e o aumento dos seios seguem um ritmo

ditado pelos hormônios.

O  que  se  conclui,  então,  é  que  o  efeito  psicológico  provocado  pelas  transformações  corporais  é

fortemente  condicionado  pela  forma  como  os  adolescentes  reagem  às  próprias  mudanças  físicas

experimentadas. A maneira como os adolescentes se veem e são vistos interfere na sua autoimagem e

autoestima.

Figura 4: Sujeito olhando para o espelho, vendo sua versão criança e sua versão adolescente. Fonte: NUTE-UFSC (2016).

Assim,  é  parte  dos  processos  psicológicos  da  adolescência  a  aceitação  do  novo  corpo  e  sua

incorporação à autoimagem, de forma integrada e organizada. A reconstrução da autoimagem corporal

é uma dimensão importante da construção da identidade do adolescente socialmente, sexualmente,

culturalmente etc.

b) Mudança de significação da relação com os pais




Figura 5: Adolescente e pai com estilos diferentes. Fonte: NUTE-UFSC (2016). 

Além  das  mudanças  corporais,  a  mudança  psicológica  mais  importante  do  adolescente  em  nossa

sociedade é tornar-se independente dos pais. Se, durante os primeiros anos da vida, grande parte dos

significados,  valores  e  crenças  que  orientavam  a  atividade  da  criança  eram  dados  pelos  pais,  na

adolescência a pessoa assume valores próprios, numa perspectiva mais autônoma.

 



Momento Cultural

A  banda  Legião  Urbana  tratou  dos  dilemas  da  adolescência    em  diferentes  canções.  Na

música O Reggae,  do  primeiro  álbum  da  banda,  gravado  em  1985,  de  autoria  de  Renato

Russo e Marcelo Bonfá, são descritas as fases de transição entre a infância, a adolescência e

a  vida  adulta.  Conflitos  e  reflexões  internas  que  os  jovens  experimentam  na  busca  pela

independência  são  revelados  na  letra  da  música  através  de  uma  percepção  crítica  do

mundo,  que  demonstra  a  esperança  dos  jovens  em  fazer  o  melhor  possível  para  tentar

mudar  aquilo  que  não  concordam.  Podemos  nos  perguntar:  isso  está  relacionado  com  a

busca  pela  autonomia  e  a  construção  de  valores  próprios,  que  são  tensionados  pelas

relações sociais?  

 

  

O Reggae  



(Renato Russo e Marcelo Bonfá)

  

Ainda me lembro aos três anos de idade 



O meu primeiro contato com as grades 

O meu primeiro dia na escola 

Como eu senti vontade de ir embora 

 

Fazia tudo que eles quisessem 



Acreditava em tudo que eles me dissessem 

Me pediram para ter paciência 

Falhei 

Então gritaram: - Cresça e apareça! 

 

Cresci e apareci e não vi nada 



Aprendi o que era certo com a pessoa errada 

Assistia ao jornal da TV 

E aprendi a roubar pra vencer 

Nada era como eu imaginava 

Nem as pessoas que eu tanto amava 

Mas e daí, se é mesmo assim 

Vou ver se tiro o melhor pra mim. 

 

Me ajuda se eu quiser 



Me faz o que eu pedir 

Não faz o que eu fizer 

Mas não me deixe aqui 



 

 

Ninguém me perguntou se eu estava pronto 



E eu fiquei completamente tonto 

Procurando descobrir a verdade 

No meio das mentiras da cidade 

Tentava ver o que existia de errado 

Quantas crianças Deus já tinha matado. 

 

Beberam meu sangue e não me deixam viver 



Têm o meu destino pronto e não me deixam escolher  

Vêm falar de liberdade pra depois me prender 

Pedem identidade pra depois me bater 

Tiram todas minhas armas 

Como posso me defender? 

Vocês venceram esta batalha 

Quanto à guerra, 

Vamos ver.

 

Fonte (https://www.vagalume.com.br/legiao-urbana/o-reggae.html): Legião Urbana



(1985).

Separar-se dos pais não exige a separação física, apenas a separação simbólica. 

Separar-se,  nesse  nível,  é  poder  pensar  de  modo  diferente  da  família,  rever  suas  visões  de  mundo,

considerar outras opções de futuro. Tal separação simbólica é importante para dar ao adolescente os

meios necessários para assumir as próprias posições, seus desejos e projetos, ainda que ultrapassem o

que foi projetado originalmente pelos pais. 

Durante o período da adolescência, podem existir crises como resultado da rejeição da autoridade dos

pais, dos conflitos entre gerações e da crítica dos valores e modos de vida da família do adolescente. 

No entanto, sabemos que tal crise, se é que existe, não atinge apenas o adolescente. Na mesma fase do

ciclo de vida familiar em que os filhos chegam à adolescência, os pais atingem a meia-idade, acumulam

mais  responsabilidades  no  trabalho  e  passam  a  ter  várias  exigências  do  grupo  familiar.  Ao  mesmo

tempo,  é  a  fase  em  que,  quando  avaliam  suas  realizações,  ressentem-se  dos  projetos  adiados  e  das

próprias frustrações. Nesse sentido, os conflitos que eventualmente acontecem se originam de questões

pessoais próprias, e não apenas como efeito da crise adolescente.




c) Novo significado da relação com o grupo de pares: aspectos sociais e afetivos

O grupo formado pelos amigos e colegas de escola da mesma idade passa a assumir, na adolescência,

significado diferenciado do que tinha na infância.

Figura 6: Adolescente com seu grupo de amigos. Fonte: NUTE-UFSC (2016). 




Figura 6: Diferenças observadas entre uma criança e um adolescente no que diz respeito aos aspectos sociais e

afetivos. Fonte: NUTE-UFSC (2016).

O adolescente se aproxima e se vincula àqueles com os quais ele se identifica, a partir de critérios e

valores que não necessariamente são os mesmos da família. Esses valores contribuem para que o grupo

de pares de idade passe a ter grande importância em diferentes dimensões da vida do adolescente.

A  importância  dos  pares  se  traduz  no  sentimento  de  lealdade  ao  grupo,  na  intimidade  entre  seus

membros, no compartilhamento de segredos, na adesão de cada um à imagem visual do grupo e na

forma de expressar 

comportamentos,  como  rebeldia,  transgressão,  uso  de  drogas  etc.  Esses  comportamentos  são

assumidos pelo adolescente no contexto coletivo, em nome da unidade do grupo, ainda que não seja a

orientação individual que ele possua.



 

Além da importância do grupo nos processos de socialização do adolescente, identificamos nele um

papel fundamental na orientação dos vínculos afetivos e sexuais. 

Além  disso,  é  na  adolescência  que  as  relações  entre  os  gêneros  mudam  de  significado  em  relação  à

infância.  Isso  ocorre  por  causa  da  relação  sexual  e  erótica  dos  afetos,  que  vem  em  decorrência  da

maturação  sexual.  Se  o  adolescente  já  é,  em  geral,  inseguro,  no  campo  das  relações  afetivas,  essa

insegurança se intensifica por causa das mudanças nas relações de gênero na contemporaneidade.

É comum ocorrer a separação do grupo na transição para a vida adulta. Diante das demandas dos novos

papéis sociais assumidos por adultos, o grupo acaba perdendo seu significado. Nesse novo contexto,

apenas as amizades mais verdadeiras são preservadas.

 

Podemos ter clareza quanto ao início da adolescência, identificado pelos eventos da puberdade



fisiológica, mas não podemos dizer o mesmo sobre o seu fim. As marcas que definem se alguém

deixou  de  ser  adolescente  variam  muito  conforme  a  cultura.  Nas  sociedades  ocidentais

contemporâneas,  assumir  um  projeto  de  vida,  realizar  escolhas  amorosas  e  conquistar

autonomia financeira encontram-se entre os indicadores do fim da adolescência; entretanto, o

maior tempo necessário à realização dessas conquistas tem contribuído para o alongamento da

adolescência.

 

ADOLESCÊNCIA NO CONTEXTO DA



CONTEMPORANEIDADE


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