Descobrimos Que o Capitalismo Existe da pecuária ao extrativismo



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Descobrimos Que o Capitalismo Existe - da pecuária ao extrativismo


Descobrimos Que o Capitalismo Existe

Por Mário Jos é de Lima

Uma  matéria  do  jornal  Valor  Econômico  -  Reservas  extrativistas  sucumbem  à

força  da  pecuária  na  Amazônia  -  pipoca  em  grande  número  de  jornais,

notadamente,  em  blogs  e  outras  páginas  de  notícias, na Internet, voltados para

temas  regionais  e  ambientalistas.  Bettina  Mendes  que  assina  a  matéria  levanta

o  tema  das  reservas  extrativistas  na  Amazônia  a  partir  dos caminhos trilhados

pela  montagem  de  uma  base  produtiva  apoiada  na  pecuária,  o  que, para ela,

constitui  um  descaminho  das  lutas  regionais  que  levaram  a  formulação da

proposta das reservas.

Alexandre  Cordeiro,  a  quem  Mendes  dá  voz  como  um  representante  do governo

federal,  dado  que coordenador-geral de Reservas Extrativistas e Desenvolvimento

Sustentável  do  Instituto  Chico  Mendes,  fala  da  formação  de  um  rebanho  em

torno  de 40 mil cabeças o que já permite dizer: “... em uma cabeça por habitante

[nas  reservas]".  A  pecuarização  avança  para  assumir  uma  posição destacada,

quase  isolada,  na  formação  da  renda  das  populações  nas  reservas que ocupam

algo  próximo  a  cinco  milhões  de  hectares da Amazônia. À medida que aumenta

o rebanho, aumenta a desflorestação para a formação das pastagens.

Um ponto a merecer destaque é que a pecuarização a que se refere o artigo está

presente  nas  reservas,  incluindo,  espaços  emblemáticos para a luta ambiental e

para  o  movimento  da  criação  das  reservas,  como  é  o caso da Reserva Chico

Mendes,  localizada  em  Xapuri,  que,  segundo  Manoel  Cunha,  presidente do

Conselho  Nacional  dos  Seringueiros  (CNS),  citado  por  Mendes,  teria  1,5  mil

habitantes e algumas centenas de cabeças de bois.

Extraordinariamente,  as  pessoas  ouvidas  pela  autora da matéria chegam a fazer

referências  a  aspectos  que  podem  ser  considerados  essenciais  para  uma

compreensão  do  que estaria acontecendo. Paulo Amaral, do Instituto do Homem

e  Meio  Ambiente  da  Amazônia  (Imazon),  de  Belém, afirma que "O boi virou uma

alternativa  de  renda  porque  tem  bom  preço  e  liquidez.  É  a poupança para os

momentos  de  dificuldade  dessas  populações,  não  dá  para  competir com os

preços  em  queda  da  borracha  e  da  castanha".  Enquanto  que Cordeiro “... Que

vantagem  tem  o  seringueiro  se  ele  está  vendo  o  vizinho  se capitalizar

rapidamente?  A  pecuária  é  o  modelo  econômico  que  dá  resultado.  Os

pecuaristas  têm  apoio  financeiro  dos  bancos,  os  extrativistas não". Entretanto,

feitas  tais  afirmações,  nenhuma  referência  ao  que  dá sentido aos rumos atuais

das reservas.

Afinal,  qual  a  razão  para  qualquer perplexidade, para qualquer celeuma em torno

do  que  acontece  nas  e  com  as  reservas  extrativistas se o que se afirma apenas

destaca aspectos ou os resultados das condições que subsumem a organização

das condições materiais de sobrevivência, na atualidade?

Desde  de  um  ponto  de  vista  histórico,  as  reservas  extrativistas são introduzidas

no  universo  das  referências  das  lutas  sociais  regionais,  nos  anos oitenta. Os

movimentos  sociais  regionais,  naquele  momento,  tinham  como  referência

principal  o  enfrentamento  da  transferência  da  propriedade  da  terra  para

pecuaristas  deslocados  juntos  com  a  frente  agrícola  que  avançava  desde  o

Sudeste  e  alcançava  a  Amazônica  via  região  Centro-Oeste.  A  reação  regional é

formada  por  ‘seringueiros  autônomos’  e  por  trabalhadores  rurais.  Ou  seja,

parcela  da  população  que  avançava  na montagem de pólos de produção agrícola

em  faixas  de  terra  de  seringais  em  vias  de  desativação  ou  já  desativados.

Impedir  a  ação  dos  pecuaristas  significava,  fundamentalmente,  impedir  a

expulsão  dos  ‘seringueiros  autônomos’,  produtores  que combinavam a extração

gumífera sem a intermediação do ‘barracão’ com a produção agrícola. Não é sem

motivo  que  o  espaço  da  luta  social  acreana,  por  exemplo,  corresponda  ao

espaço  geográfico  do  Vale  do  Acre,  uma  faixa  do  território  acreano  onde  os

seringais,  em  quase  a  sua  totalidade,  apresentavam  estágios  avançados de

esgotamento das reservas gumíferas.

A  ação  de  ‘empatar’  o  desmatamento  tinha  o  objetivo  claro  de  preservação do

direto  de  posse  da  terra  que  a  montagem  das  pastagens  negava.  Com  as

possibilidades  de  ganhos  financeiros, abertas pela ativação do mercado de terra,

o  exercício  do  direito  de  propriedade  dos  seringalistas  voltou  à ordem do dia,

opondo-se  aos  produtores  rurais  –  em  verdade,  pequenos  produtores  –  que

vinham transformando a realidade econômica regional quebrando a hegemonia da

economia da borracha sobre o uso da terra.

A  introdução  da  demanda  de  formação  de  ‘reservas  extrativistas’  surge como

uma  defesa  dos  seringais  como  espaço  de  trabalho  para  os  seringueiros. Nas

palavras  de  Mary  Allegretti, ‘as reservas extrativistas são unidades criadas como

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