Derrida revoluciona a história? Eduardo Gusmão de Quadros



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Derrida revoluciona a história?

Eduardo Gusmão de Quadros1


Apliquemos o bom método: compliquemos

o que parece ser demasiado simples

Lucien Febvre

Resumo: A dicotomia entre pensadores modernos e pós-modernos criou no Brasil uma série de leituras equivocadas, marcadas pelo preconceito. Aqueles que foram classificados como pós-modernos acabaram interpretados, muitas vezes, mais politicamente do que epistemologicamente. Isso aconteceu com a compreensão do pensamento de Jacques Derrida, que é estudado apenas em alguns guetos acadêmicos, em particular, ligados aos Estudos Literários. Mas um pensador que constituiu sua obra num intenso combate com a metafísica não teria algo a ensinar aos historiadores? Este texto pretende, então, abordar alguns dos conceitos propostos pelo eminente filósofo africano. A nosso ver, eles podem contribuir decisivamente para a renovação do conhecimento histórico atual.

Palavras-chave: Derrida, Hermenêutica, Teoria Histórica


Abstract: The dichotomy between moderns and pos-modern’s thinkers bears in Brazil many trouble readings. They were characterized trough of prejudice views. It was happen with the understanding of Jacques Derrida’s thought, that it had been studied only in academic ghettos, in particular, in the literary studies area. Would not have a thinker who constituted its work in intense combat with metaphysic world something to teach for historians? This text approach some concepts created by famous African philosopher. We defend that they can contribute decisively to renewal of current historical knowledge.

Word-keys: Derrida, Hermeneutic, History’s theory

Revolução é um tema clássico em história. Nossos programas de ensino estão eivados delas: Francesa, Gloriosa, Cubana, Industrial, Científica, de 30... Uma palavra recorrente recobrindo fenômenos de diferentes tipos e com formas de denominação diversas. Ao retomarmos o termo no título, queremos explorar essa variação semântica e histórica. A “revolução” que Jacques Derrida pode motivar também possui vários sentidos. Colocamos quatro em destaque2.

No século XV, o termo era utilizado basicamente no campo da Física. Com esse sentido astronômico ou astrológico, como se queira denominar a ciência da época, a palavra indicava o movimento lento e cíclico dos corpos celestiais. Foi, por exemplo, estudando essas revoluções planetárias, que Copernico chegou ao modelo heliocêntrico, tão importante no processo de derrocada da cosmovisão medieval e início do pensamento moderno.

De forma semelhante, sugerimos que é necessário olhar para fora da História, para o “celestial” mundo das idéias filosóficas, se quisermos perceber melhor a situação de nossa área. Não é fácil, confessamos, perceber com nitidez os conceitos ali propostos. A exegese filosófica, o modo de comentário, tão comum, nos causa estranheza. Outrossim, o costume de generalizar, de atingir compreensões num nível considerado demasiado abstrato pelos historiadores de ofício. Mas até quando ficaremos presos ao suposto empirismo, aos pre-conceitos herdados da Escola Metódico-positivista? E qual o grau de comprovatividade deste nível empírico? As invenções e renovações metodológicas bastam ou não seria mais profícuo aprofundar as categorias que condicionalizam o fazer historiográfico?

Derrida é considerado um dos mais influentes pensadores da atualidade. As traduções e a divulgação planetária de suas obras o comprovam. Assome-se a circulação ininterrupta de lugares em que se comprometia a estar para debater suas idéias. Verdade que nem sempre estas são expressas de maneira fácil. Sua escrita é cheia de circunvoluções. O caráter elíptico dos raciocínios derridadianos com frequência afastam os leitores, estorvados na percepção de seu movimento.

Tais idas e vindas remetem ao segundo significado do termo revolução, que remetia, em meados do século XVII, à busca de uma restauração social, o retorno a uma ordem anterior. Jacques Derrida reinsere na filosofia certa dialética socrática, ou seja, um conjunto de problemas circunscritos pelo o ser, o dizer e o conviver. Algo semelhante poderia ser (pro)posto em relação ao conhecimento histórico, pois os delineamentos feitos por Heródoto - sem excluir obviamente Tucídides - entre verdade, narrativa e mito continuam instáveis. Foi explorando limites como esses que o pensador argelino retraçou os quadros epistemológicos das Ciências Humanas.

Os conceitos-chave elaborados por Derrida, então, são constantemente retomados em sua obra, como num ritornelo musical. A palavra volta com pequenas mudanças, restrições, nuances e aplicações. Um texto acaba remetendo a outro (são comuns as citações de si mesmo) e uma entrada pode seguir por diversas vias.

Essa insistência faz parte da estratégia que estabeleceu no difícil combate contra a Metafísica. Desde ao menos a Revolução Francesa que sabe-se não haver revolução política sem violência. Os conflitos tornaram-se inevitáveis, até com aqueles a quem admirava: Levi-strauss, Althusser, Foucault, Lacan... Pensadores importantes que justamente por amar, foram submetidos ao crivo da desconstrução (cf DERRIDA, 2004:6). Com isso, Derrida indicava as grandes contribuições dadas, a riqueza de suas obras, tentando simultaneamente retirar os elementos falogocêntricos que tais pensadores ainda apresentavam.

As revoluções contemporâneas apontam para o futuro. É por acreditar na “possibilidade do impossível”, na ruptura geradora da novidade, numa história por-vir, que Derrida se engajou em tantas causas político-sociais. Defendeu aqueles que sofreram injustiças3. Esse traço messiânico de seu pensamento revela uma noção de temporalidade no ato de conhecer, nem sempre considerada nas operações científicas. Inscreve ainda uma agenda ético-política (a)diante de todos aqueles que tratam da Humanidade.





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