Deportação ou integração. Os dilemas negros de Lincoln



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Deportação ou integração. Os dilemas negros de Lincoln

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Vitor Izecksohn

Este artigo discutirá a transformação na posição de Abraham Lincoln (1809-1865) em relação à 

emancipação escrava nos EUA. Meu foco é a transição de uma perspectiva colonizadora, favorável à de-

portação dos negros emancipados, para uma posição próxima à integração, isto é, à permanência dos 

ex-escravos e dos negros livres no território norte-americano na sequência à abolição. Esta última pers-

pectiva afirmaria a adesão dos libertos ao conjunto de direitos estabelecidos pela Declaração de Inde-

pendência (1776) e consagrados pela Constituição (1787), especificamente sua inclusão aos preceitos 

igualitários contidos naqueles documentos fundadores.

Na análise da variação do pensamento de Lincoln destacarei três elementos importantes para a com-

preensão dos paradoxos apresentados na reflexão sobre a convivência entre as raças, a saber: as origens 

intelectuais na política Whig, o debate sobre a questão do “solo livre” (nos anos 1840 e 1850) e a políti-

ca presidencial, especialmente no que alude ao equilíbrio no interior da coalizão de guerra liderada pelo 

Partido Republicano.

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 Destacarei, a partir de cada um desses elementos, os dilemas enfrentados, subli-



nhando as alternativas possíveis e o papel do indivíduo no devir dos acontecimentos. No caso em rele-

vo, pode-se dizer que raramente uma personalidade abraçou seu destino com tanta relutância quanto o 

presidente que comandou o processo de unificação da União norte-americana. Que fatores impulsio-

naram essa transformação? Qual a consistência desse comprometimento no que se refere à assimilação 

dos negros e dos libertos ao conjunto de direitos desfrutados pelos homens brancos? Qual a natureza 

do impacto de situações de emergência constitucional sobre concepções firmemente arraigadas no sen-

so comum estadunidense?

O papel de Lincoln na condução dos acontecimentos que possibilitaram a emancipação é tema con-

troverso, com pelo menos duas posições historiográficas mais fortes:

A primeira é hagiográfica, apresentando o presidente americano como o “grande emancipador” – 

um herói da causa da abolição cuja ação política pautou-se pela moderação na condução da guerra, 

submetendo o clamor da emancipação à primazia da unidade nacional. Esta perspectiva foi reforçada a 

partir do final da Guerra Civil pelo culto do mártir, assassinado numa sexta-feira santa, poucas semanas 

após iniciar seu segundo mandato.

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 Nesse caso, o culto à figura histórica beneficiou-se da ambiguida-



de essencial que a marcou após a morte trágica, permitindo que Lincoln fosse citado na defesa de pers-

pectivas contrastantes. 

A segunda posição é cética face ao equilíbrio entre o idealismo e o pragmatismo do personagem. Ela 

foi estabelecida durante a era dos direitos civis, ressaltando, simultaneamente, a lentidão do processo 

decisório que levou à emancipação e a hesitação do líder republicano quanto à concessão da igualdade 

racial nos planos civil e político. Para essa última corrente Lincoln teria sido negligente em relação ao 

caráter da abolição, cedendo demais em nome de compromissos políticos com grupos mais conservado-

res. Sua morte repentina poupou-o de enfrentar os desafios do período da Reconstrução (1865-1877), 

quando a questão dos direitos dos ex-escravos assumiu um papel central no debate político norte-ame-

ricano. Os céticos associam Lincoln e boa parte dos republicanos de centro ao campo da supremacia 

branca, destacando os limites ideológicos do Partido Republicano no que tange às barreiras impostas à 

extensão dos direitos consagrados pela Constituição tanto aos ex-escravos como a parcela negra que já 

era livre antes de iniciarem-se as hostilidades entre os estados.

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Poucos historiadores contemporâneos estariam dispostos a endossar, sem reservas, qualquer uma 

das perspectivas apresentadas acima. O estudo da trajetória individual que aqui proponho entende que 

a relação entre ideias e interesses tal como refletida pela personalidade de Lincoln foi bem mais com-

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plexa e sutil do que pretendem as correntes assinaladas. Ao longo do texto indicarei a posição de alguns 

autores que participam ou participaram do debate, citando, simultaneamente, as posições de Lincoln 

tal como registradas por seus compiladores.

A homogeneidade racial no contexto do excepcionalismo norte-americano

Como outros políticos do seu tempo Lincoln era herdeiro dos impasses do período constitucional, 

quando questões fundamentais para o exercício do voto e para a operação do sistema de governo foram 

acomodadas visando à ratificação daquele documento. Após a vitória na Guerra de Independência, a 

corrente Federalista lutou pela articulação de treze estados semi-independentes “numa União mais per-

feita”. O compromisso que abriu caminho à ratificação da Constituição federal postergou a solução de 

questões polêmicas, tais como: a nacionalização da cidadania, a abolição da escravidão e a colonização 

de novos territórios. A igualdade pretendida na Declaração da Independência (1776) foi atribuída pelos 

pais fundadores apenas aos homens brancos. Aos seus olhos, esses habitantes dos EUA compunham uma 

sociedade excepcional. A singularidade de sua condição derivava tanto do grau de liberdade individual 

de que dispunham quanto da ampla tolerância religiosa vigente, reforçando entre os patriarcas a certeza 

de disporem de prerrogativas extraordinárias, ausentes da vida das demais nações. O excepcionalismo, 

desde então, constituiu a doutrina justificadora da posição particular dos EUA no mundo, estabelecida 

a partir da conjunção das convicções religiosas não conformistas às experiências pessoais num ambiente 

hostil. Essa doutrina era encorpada pelo orgulho cívico dos habitantes das antigas colônias, cujo patrio-

tismo ainda não estava associado às noções de pátria ou território, escorando-se antes sob princípios que 

eram simplesmente proclamados como democráticos. Esses colonos, que se percebiam como o povo elei-

to do Antigo Testamento, representavam sua sociedade como “uma cidade na colina”, isto é, como um 

modelo exemplar de organização social e política com uma missão a cumprir no concerto das nações.

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Nem todos os grupos sociais, entretanto, podiam desfrutar dos privilégios associados a essa condi-



ção. Havia dificuldades para enquadrar os católicos, subordinados ao Papa e, por essa razão, discrimi-

nados como súditos de um monarca absolutista. Esses indivíduos ainda conseguiam ser nivelados aos 

demais pela cor da pele, a despeito de professarem uma religião cuja liturgia era desvalorizada pelo re-

publicanismo estadunidense. As palavras de um dos pais fundadores, ao discorrer sobre os perigos as-

sociados à recepção de súditos de quaisquer regimes absolutistas, não deixam dúvidas sobre as possibi-

lidades de assimilação dos católicos à cultura cívica local:

Eles trarão consigo os princípios dos governos sob os quais vivem, embebidos durante sua juventude; ou, se 

forem hábeis a descartá-los, isso se dará em troca de uma licenciosidade ilimitada, passando, como é usual, 

de um extremo ao outro. Seria um milagre se conseguissem parar no ponto exato da liberdade moderada.

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Índios e negros encontravam-se excluídos de uma forma mais profunda e duradoura. Os primeiros 



considerados membros de nações estrangeiras, sujeitos a tratados que os afastavam progressivamente 

das suas terras. Já a presença dos negros (fossem eles livres ou escravos) era vista como temporária, uma 

aberração passível de extinção progressiva frente ao avanço conjugado das forças da democracia e do ca-

pitalismo. O otimismo quanto à extinção progressiva da escravidão não era acompanhado de uma po-

sição mais clara sobre o destino dos ex-escravos a longo prazo. Mesmo que a escravidão já fosse então 

condenada por algumas correntes religiosas, a aceitação do negro como “um igual” constituía uma po-

sição rara também entre aqueles que denunciavam a “instituição peculiar” como um pecado.

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Se a escravidão foi precocemente condenada por algumas denominações protestantes, também foi 



alvo de censura por parte de lideranças políticas de expressão. Desde o início da República os críticos 

laicos da escravidão revelaram-se igualmente céticos quanto ao destino dos escravos no pós-abolição. 

Para Thomas Jefferson, redator da Declaração de Independência, a colonização constituía a principal 

solução para resolver os problemas originados pela convivência entre as raças. Jefferson, um dos prin-




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cipais defensores da expansão do voto entre os homens brancos, também era um senhor de escravos no 

seu estado, a Virginia. Sua posição sobre o assunto associava a aceitação da escravidão (como um mal 

necessário) à previsão de sua substituição progressiva, seguida pela expansão de uma população branca 

pelo continente. Através dessa “marcha” os valores da democracia em formação transformariam a jovem 

nação num império para a liberdade. Virtude cívica e expansionismo territorial aliavam-se no ideário je-

ffersoniano à homogeneidade racial. Por essa razão, a convivência de raças diferentes (a não ser na rela-

ção de dominação) seria impossível. Segundo Jefferson, a permanência dos negros na América levaria à 

cisão da sociedade entre os dois grupos raciais, além de gerar um forte preconceito que comprometeria 

a harmonia social. Numa das passagens mais famosas sobre o assunto, Jefferson especulou sobre a im-

possibilidade de convivência entre duas raças livres, afirmando que:

Não é menos certo que duas raças, igualmente livres, não podem viver sob o mesmo governo. A Natureza, 

os hábitos e as opiniões desenharam linhas de distinção indeléveis entre as duas raças. Ainda nos é possível 

dirigir o processo de emancipação e deportação pacificamente e sob um grau tão vagaroso que o mal se dis-

sipará insensivelmente, e seu lugar será pari passu ocupado por trabalhadores brancos livres.

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Aos negros restaria o retorno à África, possibilidade fortalecida pela criação da Sociedade Coloni-



zadora Americana, em 1816. Esta organização surgiu dos esforços do pastor Robert Finley e de políti-

cos de expressão a ele relacionados, incluindo o futuro secretário de Estado Henry Clay, que chegaria a 

presidência da organização, anos mais tarde. Ela levou à invenção da República da Libéria, um enclave 

criado no noroeste africano durante o governo do presidente James Monroe, com o objetivo de receber 

ex-escravos e negros livres. A Libéria tornar-se-ia um país independente em 1842, mas nunca conseguiu 

se constituir como uma opção efetiva para o projeto de colonização de alguns abolicionistas. Sua cria-

ção foi constantemente criticada pelas lideranças negras e por setores abolicionistas não comprometidos 

com a deportação dos libertos. Uma década depois da independência liberiana, um negro livre de Illi-

nois, expressou o repúdio em relação à viabilidade da volta à África, declarando a seu interlocutor que 

“Prefer[ia] ser oprimido que me tornar o opressor”.

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A despeito do fracasso da aventura liberiana, o pensamento emigracionista persistiu, com pequenas 



mudanças de destino, tornando-se a opção mais comum da maioria das forças políticas que resistiram à 

expansão da escravidão para o Oeste americano. O Haiti, o Panamá, a Nicarágua e o próprio Texas fo-

ram aventados como possíveis destinos para os negros livres. Os indivíduos que se opunham à escravi-

dão por princípio tendiam, como o próprio Jefferson, a guardar sérias dúvidas de que o preconceito ra-

cial prevalecente em todos os estados da federação pudesse um dia ser superado. Lincoln compartilhou 

durante boa parte de sua vida dessa mesma suspeição.

A escravidão viabilizada 

Ao longo da primeira metade do século XIX pouco mudou na visão que as lideranças brancas ti-

nham sobre o negro. O nacionalismo esposado por grande parcela da sociedade pautava-se por uma vi-

são homogênea e restrita da formação social, na qual individualismo, mobilidade e expansão vincula-

vam-se aos brancos protestantes. Nem mesmo o surgimento de um movimento abolicionista radical na 

década de 1830, alicerçado na proposição de uma emancipação imediata e sem indenização, foi capaz 

de contaminar de maneira efetiva a população americana. O chamado “abolicionismo imediatista” man-

teve-se restrito a uma minoria de ativistas religiosos, com pouca repercussão entre os demais cidadãos, 

comportamento seguido pelas lideranças políticas, que procuraram ignorar suas demandas quando não 

as criticaram abertamente, tal como deixou claro um importante político do Norte quando observou 

que tudo o que essa gente [abolicionistas] agitadora tem feito tem contribuído, não para aumentar, se-

não para restringir, não para libertar, senão para prender mais ainda a população escrava do Sul”.

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O desenvolvimento de uma perspectiva expansionista, pautada pela ideia do Destino Manifesto, pou-

co modificou a visão estereotipada do negro: o Oeste seria aberto, mas sua ocupação era uma prerrogati-

va caucasiana, em qualquer das vertentes principais: fosse a escravista, que propunha a constante expan-

são de grupos senhorias e seus plantéis; fosse a do solo livre, pouco propensa a aceitação de outras raças 

ou grupos no processo de ocupação familiar das novas terras. A expansão territorial era uma demanda 

popular tanto no Norte quanto no Sul, por associar-se à ideia de que a nação se perpetuaria através da 

multiplicação de agricultores independentes. A criação do Partido Democrata na década de 1830 e a ex-

pansão do voto popular ao longo das décadas que se seguiram associaram-se ao mito da fronteira em ex-

pansão, mantendo a população negra à margem da ampliação dos direitos associados à cidadania.

A interrupção do tráfico transatlântico em 1808 tornou o crescimento da população escrava majo-

ritariamente dependente da reprodução endógena, circunstância que, em outras regiões do continente 

contribuiu para o rápido decréscimo da população cativa. Para surpresa dos setores filantrópicos, a abo-

lição do tráfico foi acompanhada de um crescimento significativo do contingente escravo no Sul dos 

EUA, constituindo fenômeno único nas Américas. O crescimento constante da população cativa, alia-

do à expansão do cultivo algodoeiro, reforçou a posição dos setores escravistas que paulatinamente as-

sumiram uma atitude agressiva na política norte-americana, demandando territórios, financiamento e 

proteção por parte do Estado. A perspectiva de extinção progressiva dissipou-se quando se tornou evi-

dente que o progresso econômico não era incompatível com a manutenção do trabalho escravo. Foi sob 

o pano de fundo da crescente tensão expansionista entre as forças da escravidão e os partidários do tra-

balho livre que Lincoln socializou-se e iniciou suas atividades públicas.

Tabela I – Crescimento da população escrava no Sul dos EUA, 1790-1860

1790


% Regional

1860


% Regional

657.527


94.2%

3.953.696

100.0%

Fonte: Peter Kolchin, American Slavery, 1619-1877, p. 242.



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As muitas vidas de Abraham Lincoln

Abraham Lincoln nasceu no estado sulista do Kentucky, numa família de pequenos agricultores. O 

estado constituía uma região fronteiriça, ocupada tanto por fazendeiros escravistas como por trabalha-

dores livres. A posse de escravos no estado restringia-se à região sul, sendo pouco disseminada entre as 

famílias mais pobres. Portanto, agricultura familiar e propriedades escravistas conviviam no estado des-

de os primeiros anos de sua ocupação, no final do século XVIII. Posteriormente Lincoln transferiu-se 

com o resto da família para o Meio-Oeste, mais especificamente para Indiana, onde o futuro presiden-

te residiu até os 21 anos de idade. A saída da casa paterna foi acompanhada de outra migração, num 

padrão bastante representativo da mobilidade geográfica daquela geração. No estado de Illinois, onde 

Lincoln se estabeleceu, o futuro presidente fez carreira como balconista e advogado antes de ingressar 

na política. A visão corrente no estado era profundamente racista, apesar da existência de uma minoria 

crítica à escravidão. Como outros estados do Meio-Oeste, Illinois foi colonizado por uma população 

migrante bastante heterogênea, cujas posições políticas guardavam relação com a diversidade de origens 

geográficas e religiosas dos novos moradores. A porção sul do estado foi povoada majoritariamente por 

colonos provenientes do estado do Kentucky. Muitos desses imigrantes possuíam vínculos com o Sul, 

sendo esse o caso da futura esposa de Lincoln, Mary Todd. Durante anos, migrantes vindos da Virgi-

nia em direção ao vizinho Missouri podiam eventualmente passar com seus escravos, atravessando ter-

ritórios do sul e do centro do estado. O caráter transitório dessa migração impedia que o status dos ca-

tivos fosse contestado por veleidades libertárias. A porção norte do estado foi colonizada por migrantes 




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provenientes principalmente da Nova Inglaterra e do estado de Nova Iorque, contando com uma po-

pulação a qual era majoritariamente antiescravista, sem, necessariamente, deixar de ser preconceituosa. 

Finalmente, no centro, região na qual Lincoln se fixou e a partir da qual foi eleito para todos os cargos 

públicos subsequentes, as posições mais radicais do norte e do sul eram moderadas, distantes, dessa for-

ma, da negação ou do apoio explícito ao expansionismo escravista.

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Portanto, apesar de constituir território livre, a escravidão não era alheia aos habitantes do estado, 

que guardariam ao longo do período anterior à Guerra Civil uma relação ambígua com a própria insti-

tuição e com aqueles que pretendiam reformá-la. Importante notar que medidas que poderiam propor-

cionar uma maior integração, tais como a permissão para que negros e brancos viajassem nos mesmos 

vagões ferroviários, só seriam efetivamente tomadas ao final da guerra, quando o novo panorama tor-

nou inaceitável o funcionamento dos famigerados “códigos negros”, que limitavam a convivência física 

de negros e brancos nos mesmos espaços. Esses códigos eram amparados pela lei em vários estados do 

Meio-Oeste nos quais a escravidão fora banida.

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 Desde sua admissão como estado, em 1818, as consultas feitas à população através das eleições pe-



riódicas registraram uma dupla preferência, minutada pelos debates das diferentes legislaturas estadu-

ais: Illinois deveria constituir território livre, isto é, sem escravidão, respeitando as cláusulas estipula-

das pelas ordenanças do noroeste (1787) e pela compromisso do Missouri (1820), que traçavam uma 

linha de exclusão para os territórios escravistas. Simultaneamente, a população expressava o desejo de 

banir a escravidão e limitar os direitos dos poucos negros livres residentes. Medidas nessa direção inclu-

íam a proibição à entrada de novos imigrantes, a aplicação de multas aos brancos que os ajudassem, a 

exclusão dos negros ao direito de voto e o impedimento a sua participação como membros tanto do jú-

ri quanto das milícias, que foram consagradas na reforma da constituição estadual em 1848. Tais polí-

ticas não constituíam uma aberração nos estados do norte. Com a exceção da Nova Inglaterra, grande 

parte dos estados nortistas associou a abolição progressiva à segregação política e social da minoria ne-

gra. O temor não se dirigia apenas à possível desvalorização do trabalho dos brancos pobres face à pos-

sível competição oferecida pelos libertos, relacionando-se, também, a uma questão nitidamente racial, 

a saber: o receio de que uma população liberta ou fugitiva transformasse em poucos anos a região nu-

ma sociedade multirracial, na qual casamentos mistos tornar-se-iam comuns. A fuga constante de es-

cravos do Sul, que elegiam o estado como rota de fuga, potencializava esses receios, transformando-os 

numa espécie de paranoia regional.

14

No contexto acima descrito, a militância abolicionista, presente no estado desde o início da déca-



da de 1830, teve apelo reduzido. O mais famoso dos abolicionistas de Illinois, Elijah Lovejoy, editor de 

um jornal na cidade de Alton, foi linchado por uma multidão em 1836, tornando-se um mártir nacio-

nal do movimento. O martírio de Lovejoy não tornaria o abolicionismo popular no estado, situação 

comprovada por um relatório da Câmara Estadual publicado pouco depois, cujo conteúdo ressaltava a 

oposição daquela assembleia à formação de novas sociedades abolicionistas. Dessa forma, a opção pe-

lo trabalho livre e a questão da convivência entre as raças permaneceram assuntos distintos. Quando o 

povo de Illinois decidiu que o estado seria livre, é provável que muitos eleitores tenham entendido que 

o mesmo estaria livre de ambos: da escravidão e dos negros.

15

Nesse  momento  de  sua  vida  Lincoln  associava-se  ao  Partido Whig. Tratava-se  de  uma  agremia-



ção criada entre os anos de 1833-1834 por opositores do presidente Andrew Jackson (1829-1832). Os 

Whigs opunham-se à obstinação do presidente em remover depósitos federais do segundo banco dos 

Estados Unidos. Também divergiam de uma série de políticas implementadas pelos democratas para o 

preenchimento de cargos no governo federal. Seu programa de governo pautava-se pela proposição de 

um maior número de obras públicas e pela diversificação das atividades econômicas. Esse último pon-

to tinha apelo especial para os Whigs do Sul, onde crises periódicas afetavam o funcionamento da mo-

nocultura. Para facilitar o desenvolvimento econômico e o aumento da riqueza essas políticas deveriam 



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ser acompanhadas pela introdução de tarifas protecionistas. Ao conjunto de medidas propostas foi as-

sociado o termo “sistema americano” em alusão à proposta de Henry Clay, um dos seus mais destaca-

dos líderes e principal referência do jovem Lincoln. Clay acreditava que através da imposição de tarifas 

protecionistas e de um amplo programa de obras públicas seria possível aumentar a interdependência 

entre as regiões, fortalecendo a União. Muitos Whigs respeitavam essas proposições ainda que poucos 

deles tenham levado avante o cumprimento dessas metas, quando no governo.

Ao nível nacional a plataforma Whig possuía menor apelo popular. Mas muitas das suas demandas 

eram bem recebidas nos estados, especialmente no que se refere ao fortalecimento do Poder Legislati-

vo em face da arrogância demonstrada pelo presidente Jackson, manifesta em seguidos desrespeitos aos 

outros poderes. Ainda que muitos Whigs moderados, como o próprio Lincoln, se opusessem à retórica 

empregada pelos abolicionistas, esses mesmos indivíduos associavam-se às lideranças religiosas que cri-

ticavam a escravidão por questões de princípio. As críticas à escravidão por parte das lideranças Whigs 

eram feitas de maneira moderada, para evitar conflitos com a facção sulista do partido. Daniel Webs-

ter, do estado nortista de Massachusetts, formulou uma apreciação branda sobre os limites da questão, 

durante debates no Congresso, em 1830, enfatizando que “[A] escravidão, tal como existe nos estados, 

encontra-se além da competência do Congresso...[Como] se trata de uma questão particular dos esta-

dos... [e] o Congresso não tem poder sobre isso”. Webster concluía que ele não “cooperaria em qual-

quer ato, medida, ameaça, ou indicação de proposta, que pudesse interferir com a autoridade exclusiva 

dos diversos estados sobre o objeto da escravidão tal como ela existe nos seus respectivos limites”. Co-

mo outros problemas do período, esse era um assunto interno, cuja competência caberia somente aos 

governos estaduais resolver. Os dois grandes partidos políticos manteriam o assunto, tanto quanto pos-

sível, fora do debate nacional. O intervencionismo proposto pelos Whigs restringia-se à esfera econô-

mica, não a questões referentes à organização social dos estados.

16

Aos poucos, os críticos da escravidão e os partidários de reformas nas áreas da temperança e do na-



tivismo se aglutinariam numa facção interna, os Whigs de consciência. Essa facção, das menos popula-

res do partido na década de 1840, fazia a ponte entre aqueles que se pautavam pelo conjunto de refor-

mas morais e as facções ligadas aos desdobramentos das transformações religiosas conhecidas como “o 

Segundo Grande Despertar”, ou seja, das correntes religiosas que rompiam com a ideia da predestina-

ção divina, tal como esposada pelos calvinistas, reservando à ação individual um papel de destaque no 

combate aos pecados e vícios de homens e mulheres.

Em março de 1837 Lincoln coassinou um manifesto no qual antecipava algumas de suas futuras 

posições, definindo a escravidão como uma instituição “fundada em ambos: injustiça e má política”. 

No mesmo documento, o futuro presidente e seu parceiro, Dan Stone, concordavam que o Congres-

so Nacional não tinha o direito de intervir no funcionamento da instituição nos estados nos quais ela 

já existia, exceto no que se referia à situação no Distrito de Columbia, sítio da capital federal, no qual 

tanto a posse como o tráfico de escravos ainda eram atividades legais. Tratava-se de um manifesto bran-

do centrado na defesa da supremacia dos estados frente ao governo federal, cujo intervencionismo era 

considerado anátema por ambos os partidos. O manifesto também criticava o movimento abolicionis-

ta, principalmente pelo prisma do estímulo ao facciosismo, e pelo apelo às paixões, assuntos tão caros 

aos federalistas quanto aos seus discípulos Whigs.

Frequentemente Lincoln parece ter sancionado as posições que prevaleciam na região central de 

Illinois, que alinhavam crítica à escravidão e indiferença para soluções institucionais mais profundas 

quanto à situação racial. Mas sua crença na inferioridade do negro parece ter sido relativizada por forte 

aversão moral à escravidão e seus efeitos. O que se sabe desse período sobre suas relações pessoais com 

negros em Illinois parece confirmar a visão que Frederick Douglas, o mais famoso abolicionista negro 

norte-americano, teria anos depois, quando o líder negro mostrou-se “impressionado com a total liber-

dade [de Lincoln] face ao preconceito popular em relação à raça”. Ausência de etiqueta racista e conta-



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tos frequentes com alguns negros mais proeminentes, como seu próprio barbeiro, denotariam, em prin-

cípio, ausência de aversão. Mas tais preferências e comportamentos não o impeliram a tomar atitudes 

mais claras de denúncia. Pelo contrário, a opção pela deportação aparece no discurso fúnebre proferido 

por Lincoln em homenagem a Henry Clay em 1852, no qual se declarava um simpatizante da coloni-

zação, enfatizando que:

Se, como esperam os amigos da colonização, as gerações presentes e futuras sucederem em livrar nossa terra 

da presença perigosa da escravidão; e, ao mesmo tempo, restaurar o povo cativo a sua terra natal, com pros-

pectos brilhantes para o futuro; e isso também, de forma tão gradual, que nenhuma das raças ou indivídu-

os sofrerá com a mudança, essa terá sido um realização gloriosa.

17

As preocupações sobre a escravidão e os direitos dos negros livres aparecem muito pouco nos discur-



sos das décadas de 1830 e 1840, ou, pelo menos, foram pouco registradas por seus biógrafos e comen-

tadores. Foi principalmente na década de 1850, quando várias questões ligadas à expansão da escravi-

dão para os territórios tomados ao México impeliram o realinhamento partidário, tornando a discussão 

sobre a dimensão política da escravidão um ponto central do debate nacional, que o futuro presidente 

assumiu uma posição afirmativa no combate ao escravismo e suas consequências.

Expansão territorial, escravidão e realinhamento partidário

A guerra contra o México (1846-1848) foi criticada por um grande número de Whigs e por alguns 

democratas do Norte. Eles temiam que a anexação de novos territórios proporcionasse espaço político 

para a expansão da escravidão. Muitos também receavam que a expansão territorial alterasse a balan-

ça de poder entre as regiões em favor do Sul. Outros, ainda, opuseram-se ao caráter agressivo da políti-

ca externa efetuada pelos Democratas. Em 1846, quando a guerra ainda estava em andamento, David 

Wilmot, um deputado democrata da Pensilvânia, apresentou uma resolução propondo a exclusão da 

escravidão dos novos territórios a serem adquiridos. Wilmot argumentava que sendo a escravidão proi-

bida no México desde 1821, não faria sentido instituí-la novamente por decreto. Apesar da filiação de-

mocrata do proponente, a proposta recebeu o apoio generalizado dos Whigs do Norte, que também se 

mostraram menos propensos a rejeitá-la ou emendá-la que seus colegas sulistas. A emenda Wilmot, co-

mo a resolução ficaria conhecida, deu origem a debates amargos entre partidários e opositores da escra-

vidão. A intensidade das discussões ameaçou seriamente a manutenção da unidade nacional. De acor-

do com David M. Potter, o debate a respeito da emenda Wilmot constituiu o clímax de uma série de 

rivalidades intrapartidárias que tinham caráter seccional, levando à quebra da disciplina das duas maio-

res agremiações e proporcionando o surgimento de alguns novos pequenos partidos, cujas plataformas 

eram bastante pontuais, englobando entre outros assuntos a defesa de legislação que garantisse o livre 

acesso à terra e o nativismo anticatólico.

18

Os Whigs do Norte que eram críticos da escravidão o fizeram geralmente por ressentimento em re-



lação ao poder político do Sul, concomitantemente ao desprezo que sentiam pelo desempenho da eco-

nomia sulista. Essa atitude também refletia alguma simpatia pela população negra. Essa simpatia, entre-

tanto, não deve ser tomada como ausência de preconceito, tal como explicado nas páginas precedentes. 

De qualquer forma, a posição desses críticos constituía uma disposição mais solidária ao negro, espe-

cialmente quando comparada à indiferença dos Democratas, que apoiaram com entusiasmo a proposta 

de um compromisso político que contentasse os representantes do Sul, mesmo que ao preço de conces-

sões sobre acordos prévios que limitavam a expansão da escravidão para territórios originalmente des-

tinados ao trabalho livre.

O compromisso de 1850 manteve a União ao preço de concessões feitas ao Sul. A principal delas foi 

a aprovação de uma nova lei dos escravos fugitivos, que permitia que delegados federais, atuando em ci-

dades dos estados do Norte, capturassem pessoas suspeitas de terem fugido dos estados escravistas. Esta 



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antiga demanda sulista fazia parte da Constituição federal, mas o Compromisso ratificou uma atitude 

draconiana em relação aos fugitivos, atuando como uma garantia daquela forma de propriedade e, pre-

tensamente (pelo menos), demonstrando a que ponto os sentimentos antisseparatistas podiam ser for-

tes nos estados livres. O compromisso foi ratificado pelas lideranças de ambos os partidos, mas causou 

forte ressentimento entre parcela expressiva dos Whigs do Norte. Especialmente entre os representantes 

mais jovens o compromisso ressoou como uma concessão excessiva a um poder que, perante seus olhos, 

fortalecia-se através da chantagem separatista. Curiosamente esses mesmos segmentos foram acompa-

nhados no seu ceticismo por muitos delegados democratas do Sul. Estes últimos entediam que o com-

promisso não lhes havia assegurado garantias suficientes de que seus direitos escravistas permaneceriam 

protegidos nas décadas seguintes, entendendo, antes, o compromisso como uma manobra sem maior 

consistência que seria eventualmente revista contra seus próprios interesses permanentes.

19

A passagem do Ato do Kansas e do Nebraska, em maio de 1854, proporcionou o golpe que levou à 



desintegração do Partido Whig e à formação de uma agremiação puramente seccional, o Partido Repu-

blicano. Pelo ato, proposto pelo senador democrata por Illinois Stephen A. Douglas, a organização dos 

territórios, especialmente no que concernia ao processo de admissão dos mesmos como estados, deixa-

va de ser regulamentada pelo governo federal, consagrando o princípio da soberania popular. Através 

da operação desse postulado os habitantes dos dois territórios determinariam se a escravidão deveria ou 

não ser autorizada. O problema com essa legislação encontrava-se no fato de ela romper com o limite da 

latitude 36º 30’ consagrada quando Thomas Jefferson comprou o território da Louisiana aos franceses 

em 1803. O território do Nebraska encontrava-se situado acima da referida latitude constituindo, até 

então, área reservada apenas ao trabalho livre. Dessa forma, a ação do senador Douglas rompia com os 

limites estipulados pelo compromisso do Missouri. A medida foi associada por alguns nortistas a uma 

conspiração para estender a escravidão além dos limites tolerados e uma prova de que os sulistas não se 

contentariam com os benefícios que lhes tinham sido outorgados pelo compromisso de 1850, do qual 

Douglas havia sido um dos artífices.

No território do Kansas, migrantes vindos do Norte, a maioria dos quais era favorável ao trabalho 

livre, bateram-se contra colonos vindos do Sul e com invasores ocasionais (migrando do Missouri), que 

se mostraram igualmente convictos de que o território deveria admitir o trabalho escravo. As escaramu-

ças entre os dois lados foram acompanhadas pela formação de dois governos locais rivais que proclama-

vam representar o território, demonstrando os efeitos perversos da aplicação do conceito de soberania 

popular às áreas de fronteira. A controvérsia a respeito da escravidão entrava numa nova etapa que se 

mostraria profundamente nociva para o funcionamento do sistema partidário. Os dois principais parti-

dos não mais conseguiriam excluir as divergências seccionais do debate parlamentar, dividindo-se em li-

nhas geográficas claramente associadas às formas de trabalho livre ou escrava. As repercussões dessa con-

trovérsia levaram os Whigs e outros grupos descontentes do Norte a alinharem-se num partido político 

seccional. A criação do Partido Republicano criou uma maioria antidemocrata no Norte e no Oeste do 

país, unindo grupos nativistas, reformistas e Whigs moderados num partido cuja principal plataforma 

era impedir a expansão da escravidão nos territórios.

No estado de Illinois como em outras partes do Meio-Oeste americano as repercussões da Guerra 

Civil no Kansas acirraram a competição política. Os defensores do trabalho livre, que começavam a se 

aglutinar no Partido Republicano, tiveram que enfrentar a questão do status do negro, até porque essa 

questão era essencial à defesa do trabalho livre e da vindicação dos territórios do Oeste. Por essa época, 

mesmo desdenhando a instituição, Lincoln não conseguia condenar o povo do Sul por este não libertar 

seus escravos. Ele admitiu não possuir soluções para os problemas que se seguiriam à emancipação, es-

pecialmente para a questão da igualdade política e social. A esse respeito, deixou claro que:

Meus sentimentos pessoais não admitiriam isso [a igualdade completa]; e mesmo que admitissem, sabemos 

bem que a massa dos homens brancos não admitiria... Um sentimento universal, seja ele bem ou mal-in-

tencionado, não pode ser descartado. Não podemos, portanto, fazer deles nossos iguais.

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Lincoln baseava sua ojeriza à escravidão na incompatibilidade daquela instituição com as doutri-

nas republicanas, tal como afirmadas pela Declaração de Independência. Sob esses parâmetros, negar a 

aplicação universal das tradições democráticas colocá-las-ia em risco. Mas as proclamações públicas não 

necessariamente reafirmavam as convicções privadas do futuro presidente. Numa carta dirigida a um 

correligionário de Springfield Lincoln deixava evidentes seus temores em relação à crescente onda de 

intolerância, temores esses que incluíam não apenas o progresso dos setores escravistas como também o 

fortalecimento das ideias nativistas em geral:

Nosso progresso na degeneração parece ir de vento em popa. Iniciamo-nos como nação declarando que 

“todos os homens são criados iguais”. Atualmente, praticamente lemos que “todos os homens são criados 

iguais exceto os negros”. [Em breve] leremos que “todos os homens são criados iguais, exceto os negros, os 

estrangeiros e os católicos”.

21

A corrente crítica à situação do Kansas não constituía uma força majoritária nos estados do Meio-



Oeste. Ao longo da década de 1850 o debate entre defensores e opositores das disposições do Kansas 

colocou muitas vezes os setores antiescravistas na defensiva. Esse foi o caso de Illinois, cuja grande lide-

rança era o democrata Douglas, autor da lei cuja aplicação ajudara a destruir o Partido Whig. O “pe-

queno gigante” (como Douglas era conhecido devido à sua baixa estatura) era um dos políticos mais 

populares do país e um liderança incontestável do Partido Democrata, com claras ambições presiden-

ciais. Suas políticas para o estado possuíam uma perspectiva bastante modernizante, incluindo a trans-

formação da cidade de Chicago num grande entroncamento ferroviário da futura linha transcontinen-

tal que conectaria a Costa Leste à Califórnia. Em 1858, Lincoln candidatou-se ao senado, desafiando 

Douglas numa série de debates que tiveram grande audiência e foram transcritos pela imprensa local. 

Nesses debates, Douglas atacou a posição republicana, associando o antiescravismo à defesa da igual-

dade racial, ponto altamente sensível para os eleitores do estado, cujo direito de voto, lembremos mais 

uma vez, era vedado para a minoria negra.

Ao longo da campanha senatorial de 1858 Lincoln constantemente precisou refutar a tese de que 

era um abolicionista e um propositor da união entre as raças. Num debate travado com Douglas na 

cidade de Charleston ele fez o pronunciamento que normalmente é associado à sua designação como 

adepto da supremacia racial:

Não sou nem nunca fui favorável à igualdade social e política entre brancos e negros. Não sou e nunca fui a 

favor de fazer deles eleitores ou membros do júri, nem de qualificá-los para exercer empregos públicos, nem 

sou favorável aos casamentos inter-raciais com brancos; e direi, em aditamento a isso, que existe uma dife-

rença física entre as raças branca e negra que acredito impedirá para sempre que as duas raças vivam juntas 

em termos de igualdade social e política...

22

Na sequência a esse discurso Lincoln tentou ridicularizar Douglas, propondo a manutenção da lei 



que proibia casamentos inter-raciais, uma vez que Douglas e seus amigos pareciam temerosos de que 

viessem a casar-se com negros, caso não existissem leis prevenindo essa possibilidade. Na mesma linha, 

e sendo o status do negro uma questão estadual, Lincoln sugeriu que Douglas concorresse à legislatura 

do estado, ao invés de candidatar-se ao Senado, pois ali ele poderia empregar todos os seus esforços pa-

ra a implementação de códigos negros mais severos. Apesar do bom humor, Lincoln perderia a eleição. 

Mas a campanha contra um dos mais populares políticos democratas e especialmente o bom desempe-

nho nos debates públicos tornaram Lincoln um nome nacional e uma opção moderada para os republi-

canos nas eleições presidenciais de 1860.




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Eleição e guerra

A vitória de Lincoln na convenção republicana, derrotando o ex-governador de Nova Iorque William 

Seward (conhecido por suas posições abolicionistas), demonstrou o pragmatismo dos delegados, no 

sentido de apontar uma candidatura de centro, que evitasse a rejeição dos setores mais conservadores. 

Lincoln não era muito conhecido fora do seu estado e sua crítica à escravidão era menos pronunciada 

que a de Seward. O partido apelava para o enorme eleitorado dos estados do Norte e do Oeste, com pou-

cas ilusões quanto ao desempenho eleitoral nos estados do Sul. A divisão dos democratas, consequência 

da crise do Kansas, facilitou a eleição de Lincoln em novembro de 1860, levando os republicanos pela 

primeira vez à Casa Branca e, de quebra, derrotando seu antigo rival local, Stephen Douglas.

A plataforma do candidato era relativamente moderada pelos padrões do debate político da época. 

Lincoln não se opunha à manutenção da escravidão nos estados onde ela existia, mas era claramente con-

trário à sua expansão para o Oeste, seguindo o programa básico dos republicanos. Essa plataforma desa-

gradava muitas lideranças nortistas, que a consideravam por demais conservadora. Descontentava tam-

bém muitos sulistas, que temiam que o poder do governo federal viesse a ser utilizado para coagi-los e, no 

médio prazo, obter uma reforma constitucional que abolisse a escravidão em todos os estados da União.

Mas, nem mesmo a moderação demonstrada por Lincoln logo após serem conhecidos os resultados 

da eleição foi capaz de convencer os sulistas a permanecerem na União. A eleição foi seguida pelo pro-

cesso de secessão. Num clima que mistura pânico, histeria e a extraordinária habilidade dos separatistas, 

convenção após convenção aprovaria a secessão dos diversos estados, num movimento que, iniciado na 

Carolina do Sul, abrangeria os estados do Sul profundo para, em alguns meses, expandir-se para quase 

todos os estados da região. Entre novembro de 1860 e abril de 1861 a maioria dos estados do Sul deixou 

a União para formar um novo país: os Estados Confederados da América. Nem todos os estados escra-

vistas, entretanto, se separaram. Quatro estados fronteiriços: Kentucky, Maryland, Delaware e Missou-

ri permaneceram. Em todas essas unidades a escravidão era legalmente sancionada, mas suas lideranças 

aceitaram a proposta presidencial de não interferência, levando em conta, provavelmente, os riscos de 

tornarem-se campos de batalha. A permanência dos chamados “border states” (estados tampões) foi es-

sencial à condução da guerra, pelo menos durante os primeiros dois anos, quando esses mesmos estados 

serviram como “cabeças de ponte” para a invasão do Sul. Mas a permanência dos Border States também 

imobilizou a política presidencial em relação à abolição. Esse poder restritivo foi exposto pelo ministro 

da Guerra, Simon Cameron, numa carta escrita a um general da União em 8 de agosto de 1861, quan-

do enfatizou que: “É o desejo do presidente [...] que todos os direitos atualmente existentes em todos 

os estados sejam totalmente respeitados e mantidos”.

23

A estratégia inicial das forças da União não incluía a abolição da escravatura, ou o alistamento de 



negros, seu corolário lógico. Muitos republicanos e seus aliados no Partido Democrata do Norte viam 

a guerra como uma contenda pela União, rejeitando as visões libertárias. Esses setores temiam o efeito 

que propostas abolicionistas poderiam ter sobre a opinião pública, especialmente no que se refere ao re-

crutamento. Muitos soldados se dispunham a lutar pela restauração da União, mas não necessariamen-

te pela abolição. O comandante militar da região de Norfolk, estado da Vírginia, enfatizou essa restri-

ção mesmo entre seus subordinados diretos ao relatar ao presidente que “a decidida maioria de nossos 

oficiais, de todas as patentes, não têm simpatia pela política [abolicionista]. Eles [os oficiais] odeiam o 

negro com mais intensidade do que o amor que sentem pela [preservação da] União”.

24

 Tal como apon-



tado no trabalho de George Fredrickson, esse tipo de atitude “sugere a limitação trágica da imaginação 

social branca durante o século XIX, especialmente sua inabilidade característica para visualizar uma so-

ciedade birracial igualitária”.

25

O próprio Lincoln, durante os primeiros dois anos, parece ter acreditado na possibilidade do re-



torno dos estados do Sul, a partir da iniciativa dos grupos unionistas ali existentes.

26

 Esses grupos eram 




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compostos majoritariamente por antigos correligionários Whigs, cujas relações pessoais parece terem 

sido subestimadas pelo presidente. A não interferência com a escravidão constituía um dos pilares da 

política oficial da administração, tal como foi sublinhado na mensagem ao Congresso enviada por Lin-

coln em dezembro de 1861:

Ao considerar a política adotada para suprimir a insurreição, eu tomei cuidado para que o conflito inevitá-

vel não degenerasse numa luta revolucionária. Pareceu-me apropriado, portanto, manter a integridade da 

União como o objetivo primário dessa contenda, deixando todas as [outras] questões, que não têm impor-

tância vital, para a ação deliberativa da legislatura [Congresso].

27

Um dos principais problemas para o recrutamento dos negros livres era justamente o preconceito 



existente quanto ao serviço militar. Durante a maior parte da história anterior à eclosão da Guerra Civil 

o recrutamento de negros, seja para o exército, seja para as milícias estaduais, foi bastante limitado. A 

participação nas milícias estaduais, reduto de onde era recrutada grande parte dos soldados do exército, 

implicava o direito à cidadania. Dessa forma, a discriminação nas forças armadas constituía uma barrei-

ra contra a concessão da igualdade de direitos àqueles indivíduos racialmente segregados. Uma atitude 

típica dessa forma de segregação foi a tomada pelo general Nathaniel P. Banks. Em 1859, na condição 

de governador do estado de Massachusetts, Banks vetou uma lei que admitia a participação de negros 

na milícia estadual sob o argumento de que essa lei violava a exclusividade do Ato da Milícia de 1792, 

que vedava a participação na mesma a não brancos.

28

 No final da década de 1850 a Suprema Corte dos 



Estados Unidos expediu outra declaração com respeito à inferioridade dos Negros. Quando emitiu seu 

parecer no caso Dred Scott (que envolvia o pleito de liberdade de um escravo), o Presidente da Supre-

ma Corte, Roger B. Taney, reafirmou a importância da exclusão racial no exército, utilizando termos 

que soaram familiares para muitos habitantes brancos do Norte: 

Nada poderia marcar mais fortemente a forte marca do inteiro repudio da raça negra …[que o fato de] não 

lhe ser permitido compartilhar uma das mais sagradas obrigações dos cidadãos…Ela não faz parte da sobe-

rania do estado, e, consequentemente, não é chamada para defendê-lo…

29

 



Ao longo da guerra essa perspectiva reacionária foi perdendo sentido. Por um lado, os exércitos da 

União não conseguiam impor uma derrota “definitiva” às forças confederadas. Uma sucessão de bata-

lhas sangrentas aumentava o número de mortos e feridos e também a animosidade dos nortistas em re-

lação ao Sul. Por outro lado, a organização social confederada mostrou-se mais consistente do que havia 

sido previsto no início da guerra. Os grupos de brancos não proprietários de escravos e os antigos Whi-

gs não conseguiram trazer os estados da Confederação de volta, demonstrando a força do nacionalismo 

confederado. No Norte, a política da guerra andava mal e a administração era constantemente fustiga-

da por críticos quanto ao excesso de moderação empregado para lidar com os sulistas. Ainda em 1861, 

o general John C. Frémont declarou livres todos os escravos do Kentucky. Temendo a reação dos alia-

dos escravistas nos estados tampões e mesmo da opinião pública do Norte, Lincoln revogou a ordem, 

causando constrangimentos com os grupos reformistas. As relações entre as forças de ocupação e os ne-

gros do sul continuaram gerando problemas para a administração, pois a iniciativa dos próprios negros 

de fugirem para as linhas da União dificilmente poderia ser controlada pelas sanções legais da presidên-

cia, constituindo um dos principais desafios à administração central.

À medida que os soldados da União entravam pelo Sul, seus comandantes tinham que lidar com 

a multidão de escravos fugitivos que chegava aos acampamentos. Muitos escravos, sentindo próxima 

a presença do exército escapavam das plantações ou das obras militares nas quais estavam envolvidos. 

Inicialmente a política oficial foi devolver esses indivíduos a seus donos. Mas, a reação dos comandan-

tes militares não era uniforme e as respostas acabavam dependendo mais das crenças individuais e das 

relações com os fugitivos do que da determinação de uma política específica para a situação. O gene-

ral Benjamin Butler, à época exercendo o comando das forças da União na Virgínia, recusou-se a de-



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volver os fugitivos, justificando que aqueles indivíduos constituíam “contrabando de guerra.” Daquele 

momento em diante os fugitivos passaram a ser denominados “contrabandos”. Tratava-se de uma cate-

goria híbrida, pois a condição dos ex-cativos ficava sob a tutela dos comandantes militares. A justifica-

tiva de Butler associou o asilo aos escravos ao esforço de guerra. Os desempregados recebiam rações do 

exército que os mantinham em imensos acampamentos, nos quais alguns desses indivíduos passaram a 

receber instrução militar. A partir de então, um número crescente de fugitivos passou a ser empregado 

nos acampamentos, em apoio às tarefas combatentes. Na prática, o direito de propriedade escrava esta-

va sendo destruído, faltava apenas a sansão legal.

30

A proclamação da emancipação 



Em meados de julho de 1862 a opinião pública nos estados do Norte inclinou-se por medidas mais 

drásticas contra o Sul, especialmente no que se refere ao tratamento dos escravos e das propriedades 

abandonadas nas áreas confederadas. A afluência de centenas de milhares de escravos aos acampamen-

tos dos soldados da União descortinou para muitos observadores as injustiças da escravidão. Os debates 

travados no Congresso durante a 37

a

. legislatura registraram a intensidade dessa mudança.



31

 Por outro 

lado, o grande número de baixas aumentou o ressentimento contra os sulistas. Refletindo essas trans-

formações, a administração federal tomou novas iniciativas que obedeciam à mudança nos rumos da 

campanha. Em 16 de abril Lincoln assinou um decreto finalmente abolindo a escravidão no Distri-

to de Columbia. Por volta de julho de 1862, a liderança republicana claramente favorecia a emancipa-

ção, mesmo que fosse justificada como uma medida de guerra. A enxurrada de leis reformistas daqueles 

poucos meses foi associada à capacidade da liderança republicana de aprender com a experiência, possi-

velmente uma das grandes qualidades dessa geração. Os contínuos reveses nos campos de batalha con-

venceram Lincoln de que a emancipação seria uma arma adequada para derrotar os confederados. Essa 

visão foi expressa pelo comandante em chefe do exército, general Henry H. Halleck, quando descreveu 

o novo estado de espírito da administração a um colega:

O caráter da Guerra mudou muito desde o ano passado. Agora não mais existe a possibilidade de reconciliação 

com os rebeldes. O partido da União no Sul encontra-se virtualmente destruído. Não pode haver qualquer 

paz que não seja aquela reforçada pela espada. Precisamos conquistar os rebeldes ou seremos conquistados por 

eles. O Norte deve destruir a oligarquia escravista [do contrário] nos tornaremos nós mesmos os escravos.

32

A legislação progressista fez parte de uma transformação profunda na justificativa da guerra, que 



passou a ser orientada pelo objetivo da destruição das bases do poder oligárquico sulista. A emancipação 

e o eventual recrutamento de soldados negros não constituíram eventos pré-ordenados; antes evoluindo 

das próprias necessidades criadas pela guerra. A demanda insaciável de soldados por parte do Exército 

da União, a mudança de atitude dos nortistas em relação ao recrutamento de negros, e o reconhecimen-

to da escravidão como a questão central do conflito forçaram a administração republicana a posicionar-

se em favor da abolição. Lincoln calibrou sua conduta das operações militares de acordo com a interse-

ção entre preocupação militares e posicionamentos políticos, movendo-se além dos objetivos aos quais 

se encontrou inicialmente restrito para assumir a emancipação como um ponto essencial à vitória mili-

tar. Paralelamente, essa transformação desempenhou um papel crucial para o crescimento da autorida-

de do governo central, especialmente no que se referia à manutenção de um enorme exército. As tarefas 

do recrutamento foram pouco a pouco sendo retiradas do controle dos governadores e passando para o 

próprio secretário da Defesa, operando com uma rede de delegados federais. O cidadão comum nunca, 

até então, havia sentido tão próxima a presença do governo central.

 Na reunião do gabinete realizada em julho de 1862 Lincoln apresentou a seus ministros a minuta 

da proclamação que emanciparia os escravos. Teria sido convencido por seu ex-rival, William Seward, 

então atuando como seu secretário de Estado, a apresentar a referida proposta somente quando a União 




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obtivesse uma vitória militar significativa. Do contrário, afirmava Seward, a medida poderia dar a im-

pressão de desespero. Mesmo tendo já tomado a decisão e, apesar das enormes transformações proces-

sadas no estado da opinião pública, Lincoln continuaria insistindo que os negros livres deveriam deixar 

os Estados Unidos. Agora o destino não mais seria a Libéria, mas o Haiti, ou alguma outra região da 

América Latina, cujas terras seriam adquiridas para essa finalidade. Numa reunião com lideranças ne-

gras realizada na Casa Branca, em agosto de 1862, ele insistiu no tema, enfatizando que “nesse grande 

continente, nem um simples homem da sua raça poderá ser igualado a um simples homem da nossa... 

É melhor para todos nós, dessa forma, estar separados”. 

A proclamação só foi tornada pública em setembro de 1862. Ela determinava que a menos que os 

rebeldes depusessem suas armas até 1º de janeiro de 1863, seus escravos seriam considerados livres. Os 

Estados Tampões (Border States) e outras áreas que contavam com uma população “de senhores de es-

cravos leais” ficaram excluídos da proclamação. A declaração libertava principalmente os escravos resi-

dindo nos estados que se encontravam fora do controle da União, mas os fugitivos foram beneficiados. 

New York Times de novembro de 1862 expressou o espírito pragmático da decisão presidencial:

A escravidão constitui um elemento prodigioso da força da rebelião. Ela multiplica o poder militar [dos 

confederados] – porque liberta cada homem branco do seu trabalho e o envia para os campos de batalha. 

Trata-se de uma poderosa arma nas mãos dos rebeldes… Por que não deveriam nossos militares tolher a re-

volta dessa arma...?

33

O texto da proclamação final foi finalizado no dia 31 de dezembro de 1862. Ainda no mesmo dia, 



o presidente associou sua assinatura a outro documento, que segundo o historiador Michael Vorenberg 

muitos de seus aderentes e apologistas póstumos gostariam de esquecer: um contrato com Bernard Ko-

ck, para o uso de fundos federais na remoção de cinco mil negros livres (incluindo mulheres e crianças) 

para a ilha de Vache, na costa da república do Haiti. Tratava-se do último esforço de Lincoln na área da 

colonização (ou deportação), executado apenas um dia antes da assinatura do documento que marcaria 

seu primeiro grande esforço oficial para abolir a escravidão nos Estados Unidos.

34

Conclusão



Ao longo do período que vai da Independência ao fim da Guerra Civil, as transformações lavradas no 

entendimento dos problemas da escravidão e do negro sujeitaram-se a considerações morais, relacionadas 

à evolução das concepções ligadas ao direito de propriedade e às conjunturas regionais específicas. A tra-

jetória do 16º presidente dos Estados Unidos exprimiu os limites e as oportunidades proporcionadas pe-

la ação política nos contextos da democracia jacksoniana (segundo sistema partidário) e da Guerra Civil. 

Lincoln fez parte de uma geração de políticos que unificou, num mesmo esforço, a busca da modernização 

e da diversificação das atividades econômicas a demandas por reformas sociais de amplo espectro. Lembro, 

entretanto, que essas demandas não eram consensuais, confrontando-se com alternativas que procuraram 

acomodar democracia, progresso material e expansão territorial à manutenção da escravidão. 

A justaposição entre a colonização, uma política remanescente da posição da antiga geração, sobre 

escravos e negros livres, e a abolição total constitui um dos aspectos mais contraditórios da biografia 

de Abraham Lincoln. Nesse aspecto particular o líder republicano seguiu as ambivalências de dois im-

portantes estadistas norte-americanos: Henry Clay e Thomas Jefferson. Durante boa parte da sua vida 

pública Lincoln parece ter sustentado o princípio de que toda questão firmemente estabelecida entre a 

opinião pública deveria ser respeitada. Isso fica claro no discurso proferido em 1842, quando o então jo-

vem advogado sustentou que as posições da opinião pública eram derivadas da “providência” e somente 

mudariam no tempo estabelecido por ela. Claramente se a oposição à igualdade entre negros e brancos 

constituía uma forte convicção entre a opinião pública, Lincoln a respeitaria desde que isso não inter-

ferisse com seus princípios morais.



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Deportação ou integração. Os dilemas negros de Lincoln

Vitor Izecksohn

Topoi, v. 11, n. 20, jan.-jun. 2010, p. 55-74.

Sua posição política em Illinois e, posteriormente, como presidente da república procurou conciliar 

a crítica à escravidão e a separação das raças, dentro dos parâmetros estabelecidos pelo eleitorado nortis-

ta durante o período jacksoniano. Os antigos Whigs ocupavam uma posição mais crítica que proposi-

tiva naquele contexto político, levando em conta que plataformas reformistas, especialmente o apelo a 

princípios morais, como a temperança, o nativismo e a restrição espacial da escravidão, não foram parti-

cularmente populares até a metade da década de 1850. Essa posição, portanto, foi de sustentação difícil, 

especialmente quando comparada ao discurso mais populista, esposado pelos democratas e seus aliados 

nos estados. Isso se dava porque as contradições e limites dos Whigs (e posteriormente dos republicanos 

mais conservadores) abriam o flanco tanto ao pensamento pró-escravista – bem mais consistente (pelo 

menos nesse sentido) – quanto aos ataques dos abolicionistas imediatistas, cujos discursos não busca-

vam conquistar votos, mas doutrinar almas e consciências. Dessa forma, a postura de Lincoln até a guer-

ra equilibrou-se sobre três princípios: oposição moral à escravidão, aceitação da humanidade dos negros 

e uma posição conservadora no que se refere à perspectiva da igualdade racial nos Estados Unidos.

Possivelmente a sustentação de uma perspectiva emigracionista para os negros livres e ex-escravos 

atendeu à necessidade de balancear a abolição em relação aos temores da opinião pública nortista, espe-

cialmente nos redutos controlados pelos democratas. A deportação de uma população de aproximada-

mente 3,5 milhões de pessoas era tarefa inexequível tanto pelos custos envolvidos quanto pela impossi-

bilidade de desviar recursos bélicos para tal. Mas a realização simultânea da abolição e da elevação dos 

negros à condição de cidadãos era tarefa cuja complexidade possivelmente exigiu bastante dissimula-

ção da parte do presidente. Talvez a melhor ilustração dessa característica seja sua resposta às criticas do 

editor do New York Tribune, Horace Greeley, na qual Lincoln deixou claro que seu principal objetivo 

era salvar a União: “O que eu faço a respeito da escravidão, e da raça negra [...] Eu faço porque acredi-

to que isso salve a União; e naquilo em que eu me omito, me omito porque não acredito que isso aju-

de a salvar a União .

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Transformações na natureza da guerra e no pensamento de parcelas da opinião pública impeliram 



mudanças na direção da abolição, que foram consagradas com a ratificação da 13ª emenda à Constituição 

em fevereiro de 1865. Esta emenda completou o processo aberto pela Proclamação de 1863, libertando 

finalmente os escravos nos estados e regiões leais ao governo. No final do seu primeiro mandato Lincoln 

também demonstrou uma mudança no entendimento da capacidade do negro para o exercício dos direi-

tos políticos. Isso fica claro na mensagem enviada ao novo governador eleito do estado sulista da Louisia-

na, a quem recomendou que aproveitasse a realização de uma convenção constitucional para estender o 

direito de voto aos negros que haviam lutado no exército da União. Talvez o pronunciamento que forneça 

a melhor indicação das características que fundamentaram as transformações processadas no pensamento 

do presidente seja justamente um discurso proferido no último mês de sua vida, quando declarou:

Eu alego não ter controlado os eventos, mas confesso plenamente que os eventos é que me controlaram. 

Nesse momento, ao fim de três anos de luta a situação da nação não é aquela que qualquer partido, ou qual-

quer homem projetou ou esperou. Apenas Deus pode reivindicar isso.

36

 

Notas



1

 A pesquisa para este trabalho contou com suporte financeiro do CNPq e da CAPES. Possíveis problemas com a tradução 

de citações são responsabilidade do autor.

2

 Abstenho-me aqui de discutir a validade da utilização do conceito de raça. Sigo a discussão tal qual me parece ter sido ela 



processada pelos atores políticos sublinhados no decorrer deste texto.

3

 Entre outros, a coletânea organizada por Roy P. Basler, The Lincoln Legend: a study in Changing conceptions. David Donald, 






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