Departamento de Sociologia


Medicina Tradicional vs Modernidade



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2.5 Medicina Tradicional vs Modernidade
No Sul do país, as economias capitalistas implantaram-se, criaram-se mecanismos económicos de forte cariz individual, surgiram as migrações para as minas da África do Sul, a escola, a urbanização, os salários, os cargos políticos e governamentais. Tratam-se de figuras da modernidade que são impostas num jogo de compromisso com as ordens anteriores, mas estando elas próprias atravessadas de tensões, contradições, de infelicidades, devido às desigualdades criadas, ao desemprego, à ausência de democracia, etc. Longe de incarnar o imobilismo de um passado restrito no presente, as medicinas, como já referido anteriormente, “alimentam-se” desta modernidade eminentemente problemática, apropriam-se das suas múltiplas características e metamorfoses para lhes atribuir o valor dos signos: signos onde o eixo principal de interpretação consiste em fazer compreender que a modernidade não aconteceu e terminou, que ela não cessa de empurrar e ampliar os registos tradicionais. Se o tratamento das doenças no sentido mais restrito do termo passa em geral por este eixo, submetendo a eficácia terapêutica a procedimentos simbólicos e de interpretação, outras formas de intervenção e de actividade conhecem também amplitude (Meneses, 2000).

O número de pacientes e de problemas das camadas sociais mais diversas estão presentes nestas consultas nos meios urbanos, onde os pacientes procuram tratamento, protecção e resolução do que não vai bem, do desequilíbrio entre o antes e o depois. Exalta-se aqui a vitalidade dos médicos tradicionais no meio urbano, onde se multiplicam as vocações terapêuticas, resultantes destas estratégias de reconhecimento já referidas. Esta “Medicina Tradicional” demonstra possuir um carácter extremamente plástico, diversificando e diferenciado, pois o que a apropriação da modernidade evocada, exige toda uma série de metamorfoses agora adaptadas a novas tarefas (Meneses, 2000).

A modernidade no contexto africano pressupõe um substrato tradicional (não existe modernidade sem tradição) que pode ser actualizado e transparecer nessa modernidade legitimando comportamentos, práticas, estratégias, poderes e instituições ditas modernas. Existe uma articulação entre tradição e modernidade, sem que se confundam, pelo que é possível, quer aos actores sociais, quer aos observadores distinguir entre manifestações que no presente social se legitimam no passado, são evocações ou recriações desse passado e manifestações que se reportam a aspectos inovadores e modernos (Costa, 2007).

Honwana (2003) refere que como principal argumento é que em contraste com as afirmações modernistas, a possessão espiritual não pode ser relegada para uma dimensão obscura da experiência humana ou para um passado remoto, deverá ser reconhecida como parte integrante do quotidiano. A possessão espiritual é uma realidade contemporânea, pública e visível, que permite a indivíduos e grupos reconstituir a sua identidade através do tratamento da doença e promoção do bem-estar social. Embora a possessão espiritual constitua um factor estabilizante nas relações sociais, não é certamente um regulador estático da actividade humana e sua identidade. Contrariamente, é precisamente a capacidade de possibilitar a mudança individual e colectiva de identidade que explica muito das fortes dinâmicas e adaptações de sucesso à modernidade (Honwana, 2003).

A modernidade cruza-se e progride com a Medicina Tradicional, coexistindo num mesmo tempo e espaço. Os actores sociais conferem-lhes sentido e sintetizam-nas, assegurando desta forma a sua continuidade.




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