Departamento de Sociologia


Práticas terapêuticas e Igrejas Africas



Baixar 242.53 Kb.
Página11/23
Encontro30.06.2021
Tamanho242.53 Kb.
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   23
2.4 Práticas terapêuticas e Igrejas Africas
No contexto moçambicano a religião e as religiões assumem particular relevância, não só pela vivência da religiosidade, mas da sua interligação com a Medicina Tradicional. É muito comum ver ao longo da Avenida da Marginal na cidade de Maputo, pela costa diversas pessoas com trajes identificativos de diferentes práticas e crenças. Durante o fim-de-semana a existência de rituais, banhos e baptismos no oceano é vulgar, um transeunte mais atento poderia, por vezes, encontrar inclusive, vestígios de penas, velas, cinzas e outros objectos e/ou materiais utilizados nos rituais.

Um dos aspectos mais importantes para explicar a adesão da população moçambicana à igreja Zione relaciona-se com o facto das práticas exercidas serem muito semelhantes à dos PMT. Os processos terapêuticos consistem na exposição dos doentes aos sons dos tambores e de cânticos, muitas vezes durante dias até que as entidades causadoras do mal se revelam encarnadas no doente, que começa a dançar e a falar “outras línguas”. O exorcista pode então nesta fase questionar os espíritos e obrigá-los a revelarem os seus nomes. De seguida lava-se e submerge-se o corpo do doente num líquido especial e, após esta purificação, outros rituais se seguem de forma a completar o tratamento, tais como o sacrifício de animais e novas purificações (Costa, 2007).

A utilização de tambores e cânticos nos rituais da igreja Zione não tem inspiração nos antepassados, tal como acontece no caso da Medicina Tradicional, mas sim no Espírito Santo, que “transmite” ao profeta a capacidade de identificar as causas da doença, o tipo de tratamento requerido e o local onde a cerimónia deverá recorrer. A purificação do doente implica a lavagem do seu corpo numa série de “baptismos” que em Maputo são realizados nas águas do mar.

Os pastores ziones constituem uma ameaça à influência e ao poder dos PTM. A semelhança entre os processos terapêuticos utilizados permite aos potenciais “clientes” optar entre um “tratamento tradicional” ou uma “cura na igreja” e a escolha desta última é certamente influenciada pelo facto dos pastores ziones não cobrarem nada pelos seus serviços (embora o paciente deva “agradecer” com algum “presente”). Apesar desta diferença, a cura divina enquadra-se na concepção tradicional de doença. Assim, a doença não é um mal físico ou psíquico causado por razões cientificamente definidas por micróbios ou traumas, mas algo de muito mais abrangente que reflecte a desordem e os desequilíbrios sociais, ainda que se manifeste numa pessoa singular. A doença é muitas vezes considerada como sanção social interpretada como uma punição sobrenatural (Costa, 2007), tal como o que se verifica na Medicina Tradicional.

A extraordinária expansão das AICs influenciada pelo Pentecostalismo na última década em Moçambique central marcou uma mudança dramática na confiança nos curandeiros “tradicionais”, conhecidos como nyanga ou n’anga no dialecto Shona, para tratar aflições persistentes que acreditavam estar relacionadas com causas espirituais. As AIC’s, que incluíam os movimentos Sionistas e Apostólicos com raízes na África do Sul e no Zimbabué e também movimentos Pentecostais que incluíam várias manifestações da Assembleia de Deus e da Missão Apostólica da Fé, que encontraram chão fértil para crescer entre a população mais pobre de Moçambique, os quais são recrutados inicialmente através de curas. Tal como relatado em outros locais de África, estes movimentos provocam um conflito significativo com os curandeiros locais. Enquanto a “demonização” dos curandeiros tradicionais realizada pelas AICs e Pentecostais é amplamente relatada em África, existe muito pouca literatura que explique porque é que esta “demonização” ecoa de forma tão forte e atrai tanta gente, ou porque é que os curandeiros tradicionais devem perder a sua legitimidade sendo a eficácia do tratamento baseada na mesma explicação, onde ambos referem aflição espiritual e ameaças ocultas (Pfeiffer, 2005).

Face a uma situação de doença os actores sociais desenvolvem diversas estratégias onde se articulam práticas ancestrais com processos terapêuticos da medicina ocidental. Os doentes recorrem simultaneamente ao hospital, ao PMT, ao pastor, à farmácia, ao ervanário, aos comprimidos avulsos presentes nos mercados e às ervas e mezinhas que são indicadas por pessoas conhecidas. Esta prática tem de ser entendida no quadro das representações sociais que os actores têm daquilo que é a doença (simultaneamente físico e psíquico, corporal e espiritual, individual e colectivo do mundo visível e do mundo invisível, do mundo dos vivos e dos antepassados) bem como a articulação que realizam com os múltiplos referentes (Costa, 2007).

Neste contexto falar de modernidade poderia parecer antagónico, no entanto, como se descreve a seguir também a modernidade tem lugar na Medicina Tradicional em Moçambique.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   23


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal