Das ervilheiras de mendel à dupla hélice de watson e crick



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#5322
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Abstract 

The  A.  writes  about  his  personal  vision  of  53  years  of  genetics  history 

(1900-1953),  which  finishes  with  the  Watson  and  Crick's  double  helix 

model. 


Starting with the re-discovery of Mendel's laws in 1900, he then describes 

the different contributions of Morgan, Avery, Pauling and Max Delbrück, 

leader of the "phage group", to modern genetics. 

The  relationships  between  quantum  physics  and  the  birth  of  molecular 

biology are particularly highlighted.  

Key words: genetics, double helix, DNA, Morgan, Avery, Watson, Crick, 

Pauling, “phage group”. 

 

 



 

O ano de 1900 foi muito festejado por ter sido o primeiro dum século que 

se previa  cheio de sucessos. Mas, na  euforia natural que  então  se viveu, 

poucas terão sido as pessoas que se aperceberam de dois acontecimentos 

científicos que iriam mudar o destino da humanidade.  

Ora foi precisamente nesse ano que Max Planck publicou, nos "Annalen 

der  Physik",  o  artigo  sobre  o  "problema  do  corpo  negro",  que  marcou  a 

fundação da física quântica. E foi nesse mesmo ano que, separadamente, 

três biologistas – Hugo de Vries, Erich von Tschermak e Karl Correns  – 

descobriram  os  trabalhos  de  Mendel  que  se  encontravam  esquecidos  há 

35 anos nas estantes de velhas bibliotecas. 

Estes dois factos iriam  marcar a ciência e a tecnologia do século XX. A 

física  quântica,  desenvolvida  por  uma  geração  de  físicos  brilhantes, 

atingiria  a  sua  maturidade  conceptual  em  1927,  com  o  "princípio  da 

complementaridade"  de  Niels  Bohr,  e  seria  o  motor  dos  prodígios 

tecnológicos  que  hoje  todos  conhecemos,  desde  os  computadores  aos 

telemóveis,  desde  a  energia  nuclear  à  microscopia  electrónica.  Por  sua 



 

vez, a re-descoberta das leis mendelianas forneceu a base conceptual para 



o desenvolvimento da genética que, ao culminar, 53 anos mais tarde, na  

dupla hélice de Watson e Crick, abriria caminho à engenharia genética, à 

clonagem e à decifração do genoma. 

Nas  páginas  que  se  seguem  é  de  genética  que  iremos  tratar.  Mas  cabe, 

desde  já, fazer  uma  referência  especial  às ligações  que se  estabeleceram 

entre  a  física  e  a  genética  ao  longo  da  primeira  metade  do  século  XX, 

quer  através  de  alguns  dos  protagonistas  –  físicos  que  se  dedicaram  à 

biologia –, quer pela partilha de modelos conceptuais. O ano de 1900, ao 

unir os destinos da física e da genética, pode pois considerar-se uma data 

simbólica e premonitória. 

Voltemos  então  à  re-descoberta  dos  trabalhos  de  Mendel,  realizada 

separadamente por três biologistas em 1900. Não se tratou, como é óbvio, 

de um acaso ou de uma coincidência. O que tinha acontecido  é que, nos 

10  anos  anteriores,  os  avanços  da  microscopia  tinham  tornado  possível 

observar  os  cromossomas  e  os  fenómenos  de  meiose.  Ora,  as  ideias 

desenvolvidas  por  Mendel  sobre  os  "factores  hereditários"  transmitidos 

pelas  células  reprodutoras  e  a  sua  combinação  aleatória  aquando  da  

fecundação,  estavam  de  acordo  com  os  dados  fornecidos  pela  fisiologia 

celular  que  a  microscopia  começara  a  revelar.  Foi  precisamente  esta 

semelhança  entre  as  teorias  de  Mendel  e  o  comportamento  dos 

cromossomas  que permitiu  a  Walter  Sutton, em  1902,  propôr  a  primeira 

teoria cromossómica da hereditariedade. Mas tudo isto aconteceu porque 

os  trabalhos  de  Mendel  tinham  sido  um  exemplo  genial  de  concepção  e 

de método. 

Nascido  em  1822,  Mendel  foi  orientado  para  uma  carreira  eclesiástica  a 

fim de poder continuar os seus estudos e, depois de frequentar em Viena 

o curso de biologia e de física durante dois anos, foi nomeado superior do 

mosteiro  agostiniano  de  Brno.  Aí,  num  pequeno  jardim  de  35  por  7 

metros,  que  ainda  hoje  pode  ser  visitado,  realizou  os  seus  trabalhos  de 

hibridição com ervilheiras. 

Grande  parte  dos  apontamentos  de  Mendel  foram  destruídos  depois  da 

sua morte pelos monges agostinianos, naquilo que foi interpretado como 

um autêntico auto de fé. Esta a razão por que não é fácil reconstituir parte 

do  seu  pensamento  e  dos  objectivos  que  tinha  em  mente.  Apesar  disso, 

algumas coisas podem ser afirmadas com segurança.  

Quando  começou  as  suas  experiências  de  hibridação,  Mendel  já  tinha 

formulado uma hipótese teórica que iria procurar  confirmar. Só assim se 

explica que, durante dois anos, tenha feito um prévio trabalho de selecção 

dos  caracteres  que  se  propunha  estudar.  Por  outro  lado,  a  escolha 

criteriosa  de  sete  caracteres  da  ervilheira,  fáceis  de  identificar  e  que  se 

transmitiam separadamente de acordo com a regra do "tudo ou nada", foi 

a primeira condição para o êxito das suas pesquisas. 




 

Mendel  percebeu  também  que  seria  importante  realizar  as  suas 



observações  numa  população  numerosa  de  plantas,  a  fim  de  fazer  um 

tratamento estatístico dos resultados. Desta maneira, estava a aplicar pela 

primeira vez à biologia o rigor da matemática. 

Além  disso,  teve  a  intuição  de  recorrer  à  utilização  de  símbolos  (A, 

dominante,  Aa,  híbrido  e  a,  recessivo)  com  os  quais  pôde  articular  a 

teoria com a experimentação. Ele tinha percebido que uma coisa é o que 

se vê – o carácter – outra as partículas ou unidades ocultas – os "factores" 

– que se exprimem por sinais exteriores. Desta forma estava a antecipar 

os conceitos de "fenótipo" e "genótipo" que a genética iria consagrar mais 

tarde.  


Pasteur  terá  dito  um  dia  que  "os  acasos  só  favorecem  os  espíritos 

preparados".  É  uma  afirmação  que  se  aplica  a  muitas  das  grandes 

descobertas  científicas,  nomeadamente  às  de  Mendel.  De  facto,  tem  de 

admitir-se que a escolha das ervilheiras foi um acaso feliz porque, mesmo 

no reino vegetal, a transmissão de caracteres não se faz habitualmente de 

uma forma tão simples. O próprio Mendel terá verificado isso mais tarde 

quando,  por  sugestão  de  Nägeli,  tentou  confirmar,  sem  êxito,  as  suas 

hipóteses, utilizando uma planta hermafrodita do género Hieracium. Mas 

a  verdade  é  que,  mesmo  quando    o  desenvolvimento  da  genética  veio 

mostrar  que  a  transmissão  de  caracteres  era  mais  complexa  do  que 

Mendel alguma vez terá pensado, as suas leis se revelaram rigorosamente 

exactas.  Bastou  para  isso  acrescentar  algumas  "extensões  ao 

mendelismo",  tais  como  a  "dominância  intermédia"  (flores  cor-de-rosa  

provenientes  de  progenitores  com  flores  vermelhas  e  flores  brancas),  a 

"co-dominância" (grupos sanguíneos), a "interacção génica", etc.     

Mendel  apresentou  os  resultados  da  suas  observações  em  Fevereiro  e 

Março  de  1865,  na  "Sociedade  de  História  Natural"  de  Brno.  A 

assistência acolheu com agrado as comunicações, mas não revelou sinais 

de  ter  compreendido  minimamente  o  alcance  do  que  estava  a  ouvir,  e  o 

seu trabalho caiu no esquecimento. 

Foi um dos seus divulgadores, o holandês De Vries, que, trabalhando com 

uma planta da família das Onagraceae, deu o passo seguinte, ao descobrir 

modificações  bruscas,  discontínuas  e  hereditárias,  capazes  de  alterar 

caracteres.  Chamou-lhes  "mutações",  mas  sabe-se  hoje  que  o  que  ele 

observou  foram,  sobretudo,  acidentes  cromossómicos  heterogénios  e 

pouco  frequentes  que  não  eram  reprodutíveis  noutras  variedades  de 

plantas. Tal como Mendel, De Vries generalizou aquilo que era excepção. 

Mas,  ao  fazê-lo,  introduziu  um  novo  conceito  que  se  revelaria 

fundamental no desenvolvimento posterior da genética.                                     

Para  além  disto,  os  primeiros  anos  do  século  XX  ficaram  marcados  por 

alguns  avanços  conceptuais:  Bateson  introduziu  a  palavra  "genética" 



 

(1906) e Johannsen estabeleceu de forma clara a distinção entre fenótipo 



e genótipo (1909). 

O  salto  seguinte,  esse  verdadeiramente  importante,  viria  com  Thomas 

Morgan  que,  em  1904,  foi  nomeado  professor  de  biologia  experimental 

da Universidade de Columbia. Inicialmente muito céptico em relação ao 

modelo  mendeliano,  decidiu  estudar  as  alterações  bruscas  de  caracteres 

observadas  por  De  Vries,  escolhendo  como  material  de  trabalho  a 





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