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parte no acordo.
Nathália puxa Gancho de lado. A chuva
pinica a pele e todos estão ensopados. Um raio abre o céu em duas partes, iluminando-o de maneira fantasmagórica. Logo o barulho do trovão se faz ouvir, retumbando fundo e sacudindo as estruturas.
— Dê espaço a eles. Mantenha essa galera
fora da quadra. – Nathi sussurra no ouvido
do pirata.
— Concordo. – Gancho então providencia o
que Nathália pediu.
Nina e Lex se encaram, demoradamente.
Ela sente como se seus ossos tivessem se
transmutado em gelatina. O rosto pega fogo e as mãos estão geladas, ainda trêmulas. O
coração batuca acelerado e os joelhos
bambeiam quando ela pensa no que
acontecerá nos próximos minutos.
— Se não quiser pagar a aposta, não
precisa. – Lex reitera.
— Se eu tivesse ganhado o jogo, você
pagaria a aposta, certo? E olhe que eu pensei em fazer barbaridades com você. –

Nina
força um sorriso.


— Sério mesmo? Bom – Lex faz uma pausa
–, eu aguentaria a pressão.
— Também aguentarei. Não quebro fácil,
Lex, acho que já provei isso.
Após enxotar a turma para fora da quadra,
Gancho mira o relógio de pulso. Meninos e meninas permanecem de pé na arquibancada, num entusiasmo que não foi
visto durante o jogo. Esse pessoal adora um babado forte.
— Vai mesmo levar isso adiante? – Nathi pergunta para uma abatida Nina.
— Não sou de fugir, você me conhece. – a
amiga responde, tristemente.
— Um minuto, correto? – Gancho aperta
uma tecla no relógio de pulso, acendendo o cronômetro.
— Um minuto. – Nina confirma, sentindo-se fraquejar.
— Ok. Em suas marcas. – Gancho aguarda.
Nina se aproxima de Lex o suficiente. –
Preparar. – Lex abaixa a cabeça e sente um frio esquisito na barriga. Os lábios estão tão próximos que Nina inspira a expiração dele. –
Já!
As bocas se tocam. No início, de maneira
tímida, comportada. Os lábios de Lex a envolvem com doçura e Nina sente choques
elétricos percorrerem toda a extensão da
pele.
A barba por fazer massageia o rosto de
Nina, sem arranhar. Passados alguns
segundos, a garota é tomada por uma força do além e ela deseja mais, anseia por tudo.
Lex sente o mesmo frenesi. As mãos que
estavam ao lado do corpo, rasgam a chuva e se enlaçam à cintura dela, trazendo-a para mais perto. Nina envolve o pescoço dele,

seus dedos se agarrando fortemente aos


cabelos ensopados do garoto.
É para ser um beijo de língua, confere?
Sim! As línguas invadem a cena num duelo
intenso e Nina vasculha cada centímetro da boca de Lex, sentindo-se preenchida, completa.
O cara está maluco, a ponto de entrar em
combustão espontânea. Arqueia o corpo para
frente e tomba a cabeça de lado, buscando aplacar a sede intermitente. Ávido, selvagem, inflamado.
E os segundos vão passando.
Nina se esquece por completo da plateia.
Neste momento só os dois existem. A chuva continua a cair, tão fininha que não chega a atrapalhar. Lex investe mais fundo e Nina sente o corpo em chamas. O

coração
enlouquece dentro do peito e ela se dá conta de que está frágil, entregue, completamente perdida.


Lex a segura como se não fosse soltar
nunca mais. Ele não quer que acabe, não
quer que o minuto passe. Mas passará e tudo voltará a ser como era antes. Ou não?
— Ok. Aposta cumprida! – Gancho grita e a galera vaia, querendo mais, muito mais!
É difícil pararem de se beijar. Nina precisa se afastar um pouquinho e Lex, ainda de
olhos fechados, arfa em busca de ar. Ela ouve um gemido? Sim, ele deixa um gemido escapar da garganta.
Quando seus olhos finalmente se abrem,
encara Nina, desconcertado. O melhor beijo da vida dele acaba de acontecer. E

se
fizermos uma continha básica, Nina está com tudo hein! O cara já beijou trinta e duas bocas até hoje.


Finalmente a ficha cai e a garota retorna para a Terra. Seus olhos se umedecem e ela cambaleia, abalada. Ainda com os braços
entrelaçados ao pescoço de Lex, Nina
esconde o rosto no ombro dele. Ele a abraça mais forte quando a escuta soluçar.
— Gancho, tire essa galera daqui. – Lex
cola os lábios à testa de Nina, cerrando as pálpebras.

— Considere feito, man. – Gancho parte para o alambrado, aos gritos. – Acabou o


show, moçada, todos voltando para os quartos! Tomem banho direitinho que já é hora do jantar, beleza? Bora, galera, mexendo esses traseiros aí. E, Bárbara, pare de fotografar, o show acabou, não ouviu?
— Vá se ferrar, Cabeçudo!
Nathália e Lais se entreolham, petrificadas.
Não sabem o que fazer para ajudar a amiga.
Talvez não haja nada a ser feito.
Nina e Lex continuam abraçados, ela
soluçando e ele apertando-a com mais força contra o peito, sentindo um nó na garganta.
— Me desculpe. – ele sussurra.
— Eu fui humilhada. – ela diz para si
mesma, o som de sua voz abafado pela
camiseta dele.
— Não foi humilhada. – ele discorda.
— Não acredito que deixei isso acontecer. –
Nina se afasta e soca o peito de Lex.
— Pare com isso. – ele segura as mãos
dela, delicadamente.
— Você foi cruel, Lex. – Nina se
desvencilha daqueles braços fortes,

enxugando as lágrimas com raiva. – Eu odeio você.


Nina assume uma postura endurecida, mas
a verdade é que está se sentindo vulnerável.
Lex a prende com os olhos e ela precisa fazer uma tremenda força para se soltar.
Nathália se aproxima, enganchando-se no
braço da amiga, puxando-a para longe de
Lex:
— Venha, vamos sair daqui.
— Foi uma aposta, Nina, mas você tinha
escolha. – desolado, ele afirma acima do
barulho da chuva.
— É, eu sei, sou uma idiota. – Nina fala por sobre os ombros, dirigindo-se para a saída da quadra.
O garoto pega a raquete do chão e encara o equipamento fixamente. O olhar matador do cara já diz tudo e Gancho recua alguns passos, não quer correr o risco de tomar uma raquetada nas ideias.
— Lex?
— Ela vai me odiar para o resto da vida. –
ele divaga num balbucio.
— É claro que não. Foi uma aposta, cara. E
você deu alternativas, ela beijou porque quis.
— Não é bem assim, eu peguei pesado. –
Lex passa a raquete de uma mão para a outra.
— Na boa, essa aposta não foi nada do
outro mundo. Amanhã isso já estará
esquecido, confie em mim. – Gancho tenta
confortar.
— Tudo isso é culpa dessa maldita Kibi dos infernos. – trincando os dentes e reunindo a pouca força que lhe resta, Lex lança a raquete longe. O objeto gira no ar e a
ponteira finca como uma estaca no
alambrado verde.
— Puta merda! Que tiro certeiro, meu irmão!
— Não serei mais chantageado, Cabeção.
Essa história termina hoje mesmo!
Vinte e oito: O contra-ataque
Nina está de banho tomado, com o corpo
todo moído. Nathália traz um Dorflex e um copo d’água. Nina joga o comprimido no
fundo da garganta e sorve todo o conteúdo do copo.
Seus olhos estão inchados de tanto chorar, a humilhação foi demais para ela.

Resolveu não descer para o jantar e não há Cristo que a faça mudar de ideia. A única coisa que quer é se enfiar debaixo dos lençóis e hibernar, para só acordar no dia de ir embora.


Com exceção das Kibis, todas as garotas do Prisma estão atulhadas no quarto de

Nina, consolando-a, dizendo palavras de incentivo.


Nada parece adiantar, a garota está
irredutível: ela desistirá da Grande Aposta.
— Ah, Nina, não faça isso. – Camila ajeita uma mecha loira atrás da orelha.
— Concordo, você não pode desistir agora.
– Nathália toma uma posição. – Eu disse que você não deveria ter feito essa aposta, mas agora que fez, não pode simplesmente sair fora. Não pode deixar o Lex vencer.
— Você ainda não contou como foi o beijo.
– Lais para de lixar as unhas e encara Nina.
— Lais! – Camila bufa.
— Quê? – Lais dá de ombros e interpela
Nina: – O beijo tirou você do eixo, não foi?
A garota morde o lábio, pensativa. Só de se lembrar da boca dele contra a sua, das mãos em seus cabelos, da conexão que surgiu entre os dois… Nina perde o chão, o eixo
como Lais disse.
— Nina? – Lais aguarda.
— Foi incrível. – Nina revela para espanto das meninas.
— Eu sabia! – Nathália bate a mão
espalmada na própria perna, furiosa. – Ai, meu Deus, você está se apaixonando pelo
Lex. Isso se já não estiver apaixonada.
— Eu não estou! – Nina dá um salto na cama. – Quer dizer, eu não sei, não faço
ideia do que está acontecendo comigo.
— O que isso quer dizer? Que o Lex venceu a aposta? – Camila pergunta, tensa.

– Ele não pode vencer. Esses caras já passaram dos limites e essas apostas me dão nos


nervos.
— Sei de algo que poderia reverter o jogo a seu favor. – Lais toma a palavra, livrando-se da lixa de unha.
— Você não está entendendo, Lais, eu não
quero mais jogar. Vou desistir dessa aposta, preciso acabar com isso antes que…

antes
que eu…


— Antes que você se apaixone? – Lais
termina a frase. – Ok, Nina, me parece tarde demais.

Tarde demais. Lais terá razão? Será que o beijo de Lex despertou o congelado coração de Nina? Não, não pode ser. Ela saberia, não é? Bem, a única coisa que sabe é que Lex mexe com ela de uma maneira que nem


Bruno conseguiu.
— Qual é o seu plano, Lais? – Nathália
pergunta e o quarto mergulha num silêncio cheio de expectativa.
— A Nina vai reverter o jogo dando em
cima do Lex. Ela precisa deixar o cara tão doido, que é ele quem vai se apaixonar. –
Lais expõe seu plano, com uma expressão
diabólica no rosto.
— Como é? – Nina engasga. – Você ficou louca?
— Ei, não é má ideia. – um sorriso se
desenha no rosto de Nathália. – Na verdade, essa é uma ideia genial! Lais, mandou muito bem!
— Isso não pode ser sério. Vocês estão
mesmo cogitando essa possibilidade? – Nina entreabre os lábios, incerta.
— Ao invés de ficar trancada no quarto o
restante da viagem, você vai virar esse jogo e nós vamos ajudar. – Lais é a segurança em pessoa.
— Nina, o plano é perfeito! Por favor,
considere a possibilidade. Faça isso por todas as garotas que já foram apostas no Prisma. –

Camila une as mãos, suplicante.


— Você não pode deixar o Lex levar a
melhor. – Nathi ruge.
— Até você, Nathi? – Nina choraminga,
sentindo-se acuada.
— Não pode desistir da aposta, não a essa altura do campeonato. Essa é a minha opinião. – Lais se senta na beirada da cama, mirando Nina.
— É a opinião de todas nós. – Camila dá
voz ao que todas estão pensando.
— E se as coisas só piorarem? Eu fui
humilhada naquela quadra hoje. – Nina rebate, um tanto cansada de discutir.
— Por isso mesmo você precisa virar esse
jogo. – Lais assume a voz de comando e continua: – Lex Heinrich ficará de quatro por você, escute o que estou dizendo.
— Pense sobre o assunto, Nina. – Camila se levanta, seguida pelas outras meninas. –
Amanhã você nos dá uma resposta.
Vinte e nove: A Kibi mor
Lex, assim como Nina, acaba de tomar um
Dorflex. O cara sente como se tivesse sido preso em uma cama sadomasô e esticado de
forma impossível. Não descerá para o jantar, não está em condições.

Gancho chega com Hulk, trazendo um


sanduba de dois andares e refris. Lex geme de dor ao se levantar para comer.
Mata o sanduba em tempo recorde,
sorvendo uma Coca gelada para arrematar.
Ele precisava mesmo é de uma cerva, mas o pessoal do hotel é incorruptível, segundo Gancho.
— Tentarei de novo. Aquela loirinha da
cozinha ficou me encarando… quem sabe eu não descolo umas três latinhas? –

Hulk se levanta, pega a carteira e sai do quarto.


— E a Nina? – Lex pergunta, um tanto
deprimido.
— Nem sinal dela, da Nathi ou da Lais.

Tentei subir escondido até a ala das meninas, mas a Margareth barrou a minha passagem.


– Gancho elucida.
— O que eu devo fazer, Cabeça? Me
ilumine aqui!
— Se você encarar a Kibi, ela vai liberar o vídeo para o seu velho. E aí, meu camaradinha, vai feder para o seu lado.
— Meu pai só está esperando algo assim
para barrar a minha faculdade. Ele já avisou, cara, não vai pagar as mensalidades se eu aprontar. E o acidente com a moto pode ser chamado de aprontar, não pode?
— Se fosse meu filho naquela moto, eu
arrebentava a cara dele. – Gancho faz piada, mas o assunto é sério. Lex poderia ter morrido naquela brincadeira insana. –
Mantenha a aposta. Agora só faltam cinco
dias.
— Não posso continuar com isso sem saber
qual o plano da Bárbara. – Lex geme ao se ajeitar na cama. O pescoço e os braços estão queimando.
— Vamos descobrir. Amanhã cedo pegamos
ela de jeito.

***
A manhã nasce nublada, com previsão de
chuva no final da tarde. Depois de tomar um café-da-manhã cheio de carboidratos,
Bárbara segue para o quarto e descarrega as fotos e vídeos. Ana Paula está no banho, para variar. Bem, vocês sabem o que isso quer dizer.
— Não temos material suficiente. Isso aqui não dá para nada! – Bárbara soca o travesseiro.
— Foi só o que conseguimos. – Suzana tenta colocar panos quentes na situação.

Mas como a coisa está fervendo, ela deveria


colocar panos congelantes.
— Que droga! – Bárbara explode.
— Eu não queria tocar no assunto, mas… –
Suzana teme terminar a frase.

— O que é?


— Aquele beijo de ontem, não foi um mero
pagamento de aposta. Sei que não fui a única a notar isso. – Suzana engole em seco, mas continua. – Eu realmente acho que você não vai conseguir seu namorado de volta, nem
com chantagem. O que está rolando entre o Lex e a Nina já ultrapassou a linha de
segurança e você é a culpada disso. – mesmo com a possibilidade de um tapa na cara ou uma vingança desmedida, Suzana fala tudo o que pensa. Aguarda uma reação exacerbada
pela parte da Kibi Mor, mas essa reação não vem. Bárbara encara a parede branca por um
longo tempo antes de responder.
— Você tem razão, as coisas saíram do meu controle. Eu sabia que isso poderia acontecer. Enfim, terei que mudar de

estratégia. Não que isso seja ruim, só não é o ideal.


— O que pretende? – Suzana se apruma
sobre os lençóis.
— Minha vingança contra a vagaba vai
continuar. E quanto ao Lex, bem, vou fazer o cara sofrer como ele me fez sofrer.

Se ele realmente se apaixonar pela Nina, não


deixarei que fiquem juntos.
A história de Bárbara e Lex não é nada de tão anormal. O problema foi que o cara
mexeu com a Kibi errada. Depois de ficarem juntos numa festa, a Kibi Mor cercou o garoto de todas as maneiras, seguindo-o em todas as baladas da cidade.

Eles ficaram juntos por mais duas vezes depois disso.


Os amigos – entenda Gancho no topo da
lista – desafiaram Lex a namorar a mesma garota por mais de quinze dias. E o cara, que não suporta ser desafiado, topou a aposta.
O alvo já estava marcado: Bárbara, a Kibi.
Bem, nessa época o termo Kibi ainda nem
existia. Uma pena, facilitaria muito o meu trabalho narrativo. Mas vamos em frente.
Bárbara sempre foi louca pelo Lex. Se não me engano, desde o quinto ano do fundamental. O tempo passou e ela
finalmente ficou com o cara, na tal festa citada. Babi realmente acreditava ter fisgado Lex, para todo o sempre.
Como se fazia antigamente, ele pediu
Bárbara em namoro. Foi uma situação tão
esdrúxula que prefiro não entrar em

detalhes. A garota aceitou, aos pulinhos. O


que ela não sabia é que esse namoro estava com os dias contados. Ou sabia?
Enfim, nos quinze dias de namoro rolou:
lanchonete, cinema, shopping, cinema,
shopping, lanchonete, cinema, sorveteria…
bem, vocês já entenderam. No décimo sexto dia, Bárbara chegou na casa de Lex sem ser convidada. O dia estava chuvoso, escuro e com trovões que faziam as janelas tremerem.
Naquela tarde, Lex estava sozinho jogando vídeo-game.
A funcionária deixou Bárbara entrar e
apontou a escada para o andar de cima. Os pais de Lex estavam no trabalho e a garota poderia colocar seu plano em prática.
O rapaz nem imaginava o que estava para acontecer.
Atirando em aliens malvados na tela, Lex
se mantinha alheio ao que rolava do lado de fora do quarto. Pensava em uma maneira de terminar o namoro com Bárbara, sem causar qualquer trauma à menina. Ele já não
aguentava mais o grude e os papos fúteis
que ela gostava de dividir.
Lex ansiava por sua liberdade e a aposta
havia sido cumprida.
Os beijos e amassos não eram de todos
ruins. O que Lex odiava era a garota no seu pé, dia e noite, ligando de meia em meia

hora para saber onde ele estava. E não só isso. Ela começou a dar palpites em suas


roupas, corrigir sua postura e a pentelhar para que ele a levasse a um restaurante de verdade, sem ser o McDonald’s ou o Burguer King.
Lex estava a ponto de explodir. Precisava terminar logo com esse namoro.
A porta do quarto foi aberta e o garoto
quase teve um surto quando Bárbara,
vestindo apenas um robe de seda
transparente, cruzou o umbral e se segurou no batente, desenvolvendo uma performance a lá Pole Dance. Ela sustentava um olhar esmagador, daqueles só vistos em filmes
proibidos para menores de dezoito anos.
Vocês imaginam a cara embasbacada do
Lex?
Juro, o garoto não sabia onde se enfiar.
Arrancou o lençol da cama e correu para
cobrir Bárbara. Mas ela não aceitou ser
coberta e muito menos deixou Lex falar.
Pegou o cara pelo colarinho, jogando-o sobre a cama.
Bárbara caiu sobre ele que, mesmo
desnorteado, tentou escapar. Bem, qualquer homem numa situação dessas sucumbiria
facilmente. Mas não Lex. Ele não conseguiria enganar Bárbara e conviver com isso depois.
Lex apostava sim, até ludibriava, mas nada desse porte.
Bárbara não parava de beijá-lo, de apertá-
lo, de sei lá mais eu o quê. Lex rolou para o lado e segurou os braços da garota acima da cabeça. Ela precisava ouvi-lo, por Deus! O
problema é que ela não queria ouvir!
Ele até pensou em dar uns tapas na cara
dela, quem sabe assim chamasse a atenção.
Felizmente, não foi preciso dar umas bofetadas e ele conseguiu falar o que precisava ser dito, inclusive sobre a aposta.
Bárbara implorava para que Lex não
terminasse com ela. Suplicava por outras
coisas também. A cena foi deprimente. A
garota, nua, vestindo apenas um hobby transparente, aos prantos. É claro que Lex ficou comovido, mas foi irredutível. O

namoro estava acabado e ponto final.


Não pensem vocês que Bárbara ficou
chorando por Lex. Oh não. O chororô durou dois dias, no máximo. Depois disso, a garota voltou a sua habitual rotina: beijar todos os caras e infernizar a vida das meninas do
Prisma.
Analisando o fato friamente, acredito que Bárbara esteja se enganando quanto ao amor que sente por Lex. Ela pode até ser doente pelo cara, mas amor? Está bem longe disso.

***
As Kibis descem para a piscina. Apesar do dia estar nublado, um forte mormaço toma
conta da ilha. Ana Paula e Suzana estão
dentro da água com um bando de garotos e quando Lex e Gancho se aproximam, a Kibi
Mor está sozinha lendo uma revista, estirada na espreguiçadeira. Ela levanta a cabeça, olha para os garotos com desdém e retoma a leitura. Gancho arranca a revista das mãos dela, nada simpático.
— O que querem? – Bárbara interpela,
deslizando os óculos de sol sobre a cabeça. –
Aliás, excelente performance a sua ontem, Lex. Uau, fiquei sem fôlego. – ela se abana com as mãos.
— Precisamos conversar. – o tom de Lex é
indecifrável.
— Se é sobre o vídeo ou a aposta, esqueça, não voltarei atrás. – a Kibi recoloca os óculos sobre os olhos. – Aliás, você está se saindo muito bem, nem precisei passar as
instruções.
— O que está pretendendo? Qual o seu
plano diabólico? Se quer se vingar de mim, tudo bem, mas deixe a Nina fora dessa. – Lex se senta na espreguiçadeira ao lado.
— Veio defender a vagaba? Sério mesmo,
Lex? – Bárbara se ajeita, numa frieza glacial.
– Eu quero o sangue da Nina. Quero
humilhar a garota, vê-la chorar como
aconteceu ontem.
— Pronto. Já conseguiu a sua vingança. O
que mais pretende? – Gancho joga a revista no colo de Bárbara.
— Cumpra a sua parte no acordo que eu cumprirei a minha, Lex. Aliás, a internet aqui do hotel funciona bem que é uma beleza. Dê
um passo em falso e mando o vídeo para o
seu pai.
— Não tem conversa com você, não é? –
Lex retesa os lábios, irritado.
— Nope. E vão andando, estão estragando
o meu dia.
Trinta: Virando o jogo
Nina olha para o próprio reflexo no
espelho. Precisou tomar outro Dorflex para a dor. Finalmente o remédio começa a fazer
efeito.
Lais entra no quarto, trazendo o café-da-
manhã numa bandeja: uvas, pãezinhos e um
copo de suco de laranja. Nina se senta para comer e já tem uma resposta para dar.
— O que decidiu? – Lais pergunta, abrindo sua mala de chinelos.
— Vou virar o jogo, você tem razão.
Desistir da aposta seria mais humilhante
ainda. E como quero vencer, preciso mudar a minha estratégia.
— Grande garota! Agora sim é a Nina que
eu conheço. – Lais comemora. – Sugiro começar a virar esse jogo já. Provoque e ao mesmo tempo despreze o Lex.

Pareça estar


feliz, sorria o tempo todo. Você vai pegar o
cara no contrapé, como fez ontem na quadra de tênis.
— E o que mais?
— Bem, precisamos dar um tapa no seu
visual. Tire essa roupa de ginástica. Darei um up em você agora mesmo.

***
Gancho dá um cutucão tão forte em Lex
que o cara se desequilibra. Nina e Lais
passam pela piscina, arrancando assobios dos garotos e olhares fuzilantes das Kibis.
Nathália acena para as duas, que vão ao seu encontro.
— Uau, vocês duas estão um must. – Nathi elogia, ajeitando os óculos de sol.

Nota
Gancho e Lex com os olhos vidrados nelas. –


As meninas estão na praia, nos esperando. E
só para constar, o Lex está olhando para cá.
— Ah, é? – Lais dá um sorrisinho divertido.
– Ok, Nina, hora da ação.
— O que eu faço? – Nina congela, sem
reação.
— Tire a canga. Deixe a boca do Lex no chão. E então, vamos para a praia, como se esse fosse o dia mais feliz da sua vida.
Nathália e Lais se entreolham e desatam a rir. Nina nunca fez algo assim antes, nunca provocou um cara. Talvez seja até
engraçado.
Ela age conforme as instruções de Lais.
Nathália é a única que consegue ver os
garotos e quando meneia a cabeça
positivamente, Nina e Lais sabem que o alvo foi atingido, num tiro certeiro, à queima roupa.
— Vamos? – Nina, com a canga pendurada
no ombro, estende os dois braços para as

amigas.
— Demorou! – Lais e Nathi se atrelam à


Nina e as três vão seguindo saltitantes, para o caminho que leva à praia.

***
Gancho precisa fechar a boca de Lex, que ainda está entreaberta. Como sempre acontece quando se trata de Nina, o garoto acompanhou cada detalhe em câmera lenta:
ela desamarrando a canga da cintura de
forma sensual, deixando o tecido escorregar por sua pele vagarosamente, numa provocação explícita. A cena foi como um
soco no estômago, deixando Lex sem ar.

— Aquilo foi golpe baixo. Ela está


provocando na cara dura! – Gancho se
pendura no ombro de Lex. – E eu que pensei que não veríamos a Nina tão cedo.
— Mudança de planos, Cabeça. Vamos para
a praia.
— Vai levar a aposta adiante? Não
tínhamos combinado fingir para a Kibi? – o tom de Gancho é incerto.
— Não é mais uma aposta, agora é questão
de honra. – Lex tira a camiseta, enche o
peito de ar e se arma do seu melhor sorriso
sedutor.

***
O mar, pós-chuva, está mais revolto do que de costume. Nina e as garotas jogam vôlei, logo depois da zona de arrebentação. As ondas iniciam a formação onde elas estão, chegando a um metro de altura. Lex e Gancho mergulham quando uma onda se
quebra.
— Não olhe para trás, mas o Lex e o
Gancho estão se aproximando. Você vai
flertar com o cara e quando ele chegar junto, vai desprezá-lo, entendeu? – Lais dá as
instruções à Nina.
— E isso funciona? – Nathi pergunta, em dúvida.
— Funciona que é uma loucura. Vá por
mim. – Lais confirma, já usou a técnica
zilhões de vezes.
— É sério, preciso ter umas aulinhas com
você. – Nathália vê a bola se aproximar e dá
um toque para cima.

***
Gancho e Lex vão vencendo as ondas,
mergulhando. Finalmente alcançam as

garotas e entram no jogo. Lex se posiciona entre Nina e Lais.


— Pensei que estaria dolorida hoje. – ele começa.
— E estou. – Nina confirma. – E você?
— Estou quebrado. – Lex devolve a bola.
— Vou querer uma revanche qualquer dia
desses. – Nina não olha para o lado, foca toda sua atenção na bola vôlei.
— Não me odeia mais? – ele pergunta, num
tom divertido.
— Não.
— Nesse caso, será um prazer. – Lex
arremata.
O jogo vai rolando, sem incidentes. Os
monitores entram no mar e se juntam ao
bando, trazendo pranchas de surf e
acessórios para mergulho. O jogo de vôlei chega ao fim e a turma cai matando sobre os apetrechos trazidos para a água.
— Onde você disse que é um bom lugar
para mergulhar? – Nina fita Lex,
descompromissadamente.
— Quer mergulhar?
— Está se oferecendo para me
acompanhar? – Nina entra no jogo proposto por Lais. E não é que a garota começa a
gostar?
— Fique aqui. Vou pegar as máscaras.
Lais, que estava próxima dos dois, levanta o dedo polegar em sinal de aprovação. Nina bate continência para a amiga: A operação
“Virando o Jogo” tem início imediato.
Trinta e um: O mergulho e a caça ao
tesouro
Nina e Lex nadam, lado a lado, até o local indicado pelo monitor. Eles até poderiam ter apostado uma corrida, mas o corpo não corresponderia. As dores do jogo de ontem são latentes.
Chegando ao local, Lex desliza a máscara
de mergulho para o rosto. Nina faz o mesmo.
Não estão em zona de perigo nem nada, mas o local não dá pé para nenhum dos dois.
As ondas começam a se formar mais a
frente, ainda assim, a correnteza os empurra em direção à praia. Para se manterem no
lugar, é preciso bater as pernas e pés com vigor.
Os dois mergulham.

No silêncio das águas do mar, Nina sente a paz transbordar por todas as suas células. É


um silêncio que a aproxima do todo, que a conecta à Terra, que a lembra, por um milionésimo de segundo, de que todos somos um só.
O recife de corais é surpreendente. A
biodiversidade naquele pedacinho de mar,
deixa Nina boquiaberta. Ela precisa subir e
respirar. Quando retorna, Lex estende a mão, puxando-a mais para baixo.
Mesmo após a chuva, a visibilidade é boa.
Apesar da água estar um tanto turva, é
possível ver os mínimos detalhes, numa

miscelânea de cores que se fundem de forma surreal.


Um cardume passa em frente aos olhos de
Nina. São peixinhos pequenos, rajados e
multicoloridos. Lex aponta para uma rocha e ela sorri quando reconhece uma estrela do mar.
Nina precisa de ar novamente. Lex a
acompanha para cima. Um monitor, que está na praia, aponta para o relógio de pulso e o garoto entende o recado. O horário do almoço se aproxima.
— Temos que voltar. – Lex desliza a
máscara para o alto da cabeça.
— Mas já? – Nina soa decepcionada.

— Podemos voltar amanhã. Topa?


— Fechado.

***
Os estudantes do Prisma estão espalhados
pelo restaurante do hotel, separados por
níveis de afinidade.
Nina, Lais e Nathália dividem uma mesa e
já estão na sobremesa. Lais deixa o talher sobre o prato e arqueia o corpo para a frente, em direção à Nina. Num sussurro, ela diz:
— Não sei o que você fez, mas conseguiu.
O Lex não tira os olhos daqui.

— Mentira! – Nathi engasga, precisando de um gole de suco para desentalar.


— Eu não fiz nada, nós só mergulhamos no
recife. – Nina leva uma colherada de mousse de maracujá à boca.
— Bom, o que posso dizer? Você está
virando esse jogo bonito! – Lais ergue o
guardanapo do colo e limpa os cantos da
boca. – E quanto a caça ao tesouro…
— O que é? – Nina arregala os olhos
quando nota que as duas amigas estão abafando risinhos com as mãos. – O que vocês fizeram?
— Nós descobrimos que a caça será realizada em duplas, previamente sorteadas.
Nesse caso, eu e a Nathi aqui, convencemos o monitor a colocar você e o Lex juntos.
Agora é a vez de Nina engasgar. Ela cospe a sobremesa de volta no prato e pega o copo de suco, virando de uma só vez.
— Vocês fizeram o quê? – Nina arfa,
lutando para recuperar o ar.
— Qual é, vai ser divertido. E lembre-se: mantenha a estratégia. Dê em cima do Lex e na hora H, salte fora. Combinado?
— Lais, não acredito que isso vá dar certo.
– Nina joga o guardanapo na mesa,
descrente.

— Dará certo, confie em mim.



***
Conforme instruções dos monitores, todos
vestem roupas confortáveis e tênis nos pés.
As três amigas estão sentadas na areia da praia, aguardando.
O monitor explica como será a Caça ao
Tesouro. Passa das duas da tarde e um sol tímido dá as caras por trás de nuvens escuras.
— A Caça ao Tesouro será realizada em
duplas, sorteadas pela manhã. Na primeira etapa, os competidores estarão atrelados

pelos pulsos, a essas algemas aqui. – o


monitor levanta as algemas, o que já causa um murmurinho entre os estudantes.
“Um mapa será fornecido à dupla que
deverá adentrar à mata e procurar por uma caixa como essa aqui. – uma monitora
levanta uma pequena caixa de bambu. –
Dentro da caixa, vocês encontrarão as chaves das algemas e outro mapa.
“O segundo mapa os levará para outra
parada, ainda dentro da mata. Vocês
encontrarão uma garrafa e um novo mapa que os levará ao tesouro. – a professora de educação física levanta a garrafa. –
Lembrem-se de que o xis marca o lugar.

“Caso alguém se perca ou algo aconteça na mata, vocês estarão munidos de apitos e


localizadores. Só usem em caso de
emergência, estamos entendidos?
“Monitores e professores estarão
aguardando por vocês no local onde está o tesouro. A chegada dos vencedores é prevista para as quatro e meia da tarde. E nem preciso dizer que a dupla que chegar
primeiro, levará o prêmio, certo? Boa sorte a todos, tenham cuidado na mata e vamos
descobrir quem são as duplas!”
O monitor chama as equipes sorteadas pela manhã. Nathi e Lais fazem um sanduíche de Nina, chocando seus ombros contra os dela, esperando que a amiga dê uma risada ou

esboce qualquer reação. Mas Nina está tensa


demais para isso. Ela e Lex sozinhos no meio da mata? Por duas horas inteiras?
— Nina e Alexandre. – o monitor lê em voz alta. Nina já sabia, mas finge espanto. Lex, ao contrário, está realmente surpreso.
Ambos seguem até a mesa de apoio. Nina
oferece a mão direita e Lex a esquerda e
então, os dois são algemados e recebem um mapa das mãos de Margareth.
— Certo, crianças, cuidem-se na mata. – a professora entrega um apito, um localizador e um cinturão para cada um. – Posicionem-se no ponto de partida. –

ela aponta uma linha no chão, onde outros estudantes já se acotovelam.


— Alguém armou para nós? – Lex sussurra
a pergunta. Com a cara mais cínica do mundo, Nina responde:
— Não faço a menor ideia.
Trinta e dois: A primeira etapa da caça Algemados. Sim, esses dois se embrenham
no meio da mata atrelados pelos pulsos, as peles se tocando. Um perigo!
Lex está com os localizadores no bolso de trás da bermuda e Nina segura o mapa aberto em mãos. Os apitos balançam
pendurados ao pescoço, sustentados por um fio de nylon.
Ambos receberam um cinturão com alguns
apetrechos e um cantil de água. Lex dá uma olhada rápida no bolso da pochete e
descobre: uma mini lanterna, duas barras energéticas e um canivete suíço. Dá para o gasto.
Nina vai guiando Lex pela trilha aberta na mata. Percebem que os mapas não são iguais quando Nathi e Nando tomam outro caminho.
Eles se mantém na mesma trilha que Gancho e Lais, Bárbara e Bola, Camila e Edgard e outras duplas que vem logo atrás.
— Temos que virar aqui. – Nina para e
aponta algo no mapa.
— Certo.
Os dois saem da pista principal, avançando por um terreno um tanto inclinado, ladeado de árvores e plantas rasteiras. Estão por conta própria a partir de agora.
Estudando o mapa, Nina acredita que logo
alcançarão a rocha demarcada com um xis

vermelho. Quando chegarem a esse ponto,


deverão pegar um caminho adjacente e
seguir em frente, até cruzarem com o riacho.
É lá que encontrarão a caixa com a chave e o segundo mapa.
Nina estaca de repente. Lex, desavisado,
leva um tremendo puxão para trás. Vira-se para encarar a garota, irritado.
— Custa avisar que vai parar de andar?
— Desculpe. – Nina pede silêncio, levando o indicador aos lábios. – Acho que ouvi
alguma coisa.
— Fala sério. – Lex bufa. – Estamos no

meio da mata. É óbvio que você vai ouvir


coisas.
— Não é isso. Tenho a estranha sensação
de que estamos sendo seguidos. – Nina está séria, compenetrada. Aguarda mais um pouco antes de retomar o caminho. – Devo estar enganada.
— Não somos os únicos nessa mata. – Lex
revira os olhos, doido para chegarem logo ao riacho.
Eles voltam a caminhar. É Lex quem vê a
rocha com um xis marcado. Ao alcançarem o local, viram à esquerda, numa trilha estreita e com o mato mais fechado.
— Tem cobras aqui? – Nina não tinha

pensado sobre o assunto até então.


— Com certeza. Mas fique tranquila, elas
não vão se aproximar.
— Nem vou perguntar se o que acabou de
dizer é uma ironia. – Nina acelera e Lex
toma um tranco violento no pulso.
O mapa é preciso. Pouco tempo depois,
escutam o barulho de água. Devem estar próximos ao riacho. Nina segue em frente, segurando-se nos troncos das árvores. Nesse ponto, o terreno está lamacento, resultado da chuva de ontem.
— Estou ouvindo o barulho de água. – Lex
fala o óbvio.

— Não estou surda.


— Deus, que garota difícil! – ele chacoalha as mãos e por consequência, uma das mãos
de Nina balança junto.
— Se não quiser tomar uma joelhada, pare
de balançar a minha mão.
— Se me der uma joelhada, vou cair e você vai precisar me arrastar. – Lex retruca,
parando de andar. Nina sente o solavanco e fuzila o garoto com o olhar.
— Não precisarei arrastá-lo. Quebro o seu dedão e tiro a algema.
— Que coisa macabra. Você me dá medo às
vezes. – Lex a encara, recostando num

tronco grosso e cheio de falhas. Pega o cantil do cinturão e dá uma golada. –

Quer?
— Não. Só quero chegar logo nesse riacho
e me livrar de você. – Nina ergue o braço atrelado a Lex, com a cara amarrada.
— Por que quer se livrar de mim? – ele
guarda o cantil e dá um puxão em Nina. A
garota bate contra o peito dele e usa a mão livre para se afastar.
— Faça isso de novo e eu juro que quebro a sua cara. – Nina resmunga, impaciente.
— Já disse que você fica extremamente
sexy quando está brava? – o cara curte brincar com fogo.
Nesse caso, a velha Nina daria um bom

chute no meio das pernas dele, correto? Mas a pedido de Lais, usará outra estratégia com Lex.


— Ah, é? Você acha isso mesmo? – Nina
entreabre os lábios e com o dedo indicador, traça um caminho perigoso que desliza pelo
peito de Lex até o rosto. Ela se aproxima mais, prendendo os olhos dele aos seus.

O
rapaz é pego no contrapé, a respiração falha e o coração bombeia o sangue num ritmo


alucinante.
— O que está fazendo? – ele balbucia, a
voz entrecortada.
A mão livre de Nina está na nuca de Lex.
Os olhos não se desgrudam nem um instante.
As bocas se aproximam, mas ela desvia na
hora H, alisando a barba dele com os lábios, chegando até o lóbulo da orelha. Ela mordiscou? Sim, ela mordicou a orelha dele!
Lex solta um gemido abafado, fecha os olhos e sente um arrepio cortante subir pelos
braços.
E então, para arrematar com chave de ouro esse momento, a garota murmura, com a voz mais provocante que consegue fazer:
— Se me irritar novamente, vou mostrar o
quanto sua morte por afogamento pode ser
sexy. – dito isso, ela se afasta para o mais longe que as algemas permitem.
Lex abre os olhos. No lugar daqueles pontos luminosos que brilham como raios
solares, duas bolas de fogo faíscam na
direção de Nina. Um tanto violento, Lex a joga contra outra árvore, prendendo-a pelos braços.
— Se me provocar desse jeito de novo, não respondo por mim. – ele arfa.
— E o que vai fazer? – Nina mantém o tom
insinuante.
— Está avisada!
E arrancando o mapa das mãos da garota,
ele retoma a trilha, arrastando uma
triunfante Nina que vem logo atrás.
Trinta e três: A segunda etapa da caça Lex localiza a caixinha de bambu. Está posicionada sobre uma rocha branca,
próxima às margens do riacho. A corredeira é feroz e se os dois entrarem na água, poderão ser levados. A melhor opção é um deles se agarrar a uma árvore e o outro resgatar a caixa.
— Eu vou. – o tom alterado de Lex não
deixa opção.
— Tudo bem, vá lá. – ela dá de ombros,
analisando as árvores ao redor. Um galho
grosso e forte o bastante poderá ajudar na estratégia.
— Acha que consegue nos segurar? – ele pergunta.
— Acho que sim.
— Se for soltar, me avise. – Lex entra na água.
— Tá legal.
A operação é executada com maestria. Lex
pega a caixa de bambu e volta para a
margem, encharcado da cintura para baixo.
Só então percebe que Nina morde o lábio,
olhando para algum lugar próximo.
— O que foi? – ele olha para trás. – Que

merda! Corremos risco à toa.


Sobre um tonel cinza, uma corda foi deixada pelos monitores, propositalmente.
Realmente Lex estava achando aquela operação de resgate muito arriscada.
— Agora já foi. – ela diz, indiferente. – Por favor, nos solte logo.
Lex abre a caixa e pega a chave. Sem
qualquer dificuldade, consegue livrá-los das algemas. A garota sacode o braço, avaliando se o pulso está ferido. Não está. Lex desenrola o mapa envolto em um saquinho
transparente.
— Para onde agora? – Nina enche o cantil
de água.
— Tem uma trilha mais à frente. – Lex
aponta para algum lugar além das árvores.
— Ok, vamos lá.

***
Eles caminham – na verdade se arrastam –
pela nova trilha. Nina está cansada e não consegue absorver a beleza da mata.

Desvia
de folhas, arbustos, galhos e nem sequer nota os micos que pulam acima de suas cabeças.


Lex segue logo atrás, tomando o último
gole de água do cantil. Abre uma barra
energética e manda para dentro em três
dentadas. Já passa das três e meia da tarde.
— Esse tesouro tem que valer a pena. –
Lex comenta para si mesmo.
— Se não valer a pena, vou socar alguém.
– Nina rosna, enxugando o suor da testa.
O caminho ziguezagueia entre outras trilhas. Mas o mapa é perfeito, cheio de
marcações, impossível de se perderem. Nina ainda está com aquela forte sensação de
estar sendo seguida e não é por Lex. Olha para trás uma vez. Mais outra. E mais outra.
— O que foi? – ele finalmente pergunta,
olhando também para trás.
— Juro, acho que estamos sendo seguidos.
— Nina, você está paranoica.
— Não estou não. Tenho quase certeza disso.
— Tudo bem, vou ficar atento. Agora anda, ainda temos chão pela frente. – Lex mira o mapa e confere se estão no caminho certo. –

De acordo com as instruções, vamos


encontrar a garrafa logo ali.
Ele aponta para um conjunto de árvores
que formam um semicírculo. Vasculham a
área a procura do objeto. No mapa, uma
árvore está marcada com um xis vermelho.
Nina olha em volta, mas é Lex quem
encontra o tronco pintado.
A garrafa está presa nos galhos mais altos, balançando com o vento. Nina olha para Lex.
Lex olha para Nina. Alguém precisará subir.

— Certo, eu vou. – ele decide.


— Nada disso. – ela interpõe. – Você
resgatou a caixa, nada mais justo que eu
pegue a garrafa.
— Está alto demais!
— Está duvidando da minha capacidade?
Quer apostar? – Nina leva as mãos à cintura.
— Pensei que nunca mais apostaria algo na vida. Não depois de… bom, deixe para lá. –
Lex está em dúvida se deve permitir ou não que Nina escale a árvore.
— Eu subo. Fique aqui – ela o posiciona –

para o caso de eu despencar lá de cima.


— Por favor, não despenque, é sério.
Nina analisa a árvore detalhadamente.
Possui ranhuras no tronco, o que facilitará a escalada. Lex une as duas mãos, entrelaçando os dedos. Ela se posiciona e toma impulso.
Tranquilamente, Nina encontra pontos de
apoio para os pés. Cautelosa, chega aos
primeiros galhos e tudo fica mais fácil ainda.
Seus dedos já podem tocar a garrafa. O
objeto está preso a um galho grosso e
pesado. Nina se segura e corta a corda, com a ajuda do canivete suíço. Olha para baixo e
vê quando Lex a pega ainda no ar.
— Agora desça daí, com cuidado.
Uma brilhante ideia pisca no cérebro de
Nina como um painel de neon. Quando inicia a descida, lembra-se das palavras de Lais e resolve colocar o plano em prática. Se algo der errado, ela poderá se machucar. Será
que os fins justificam os meios? Bem, só
testando para descobrir.
Engolindo em seco, Nina finge colocar o pé em falso e despenca da árvore. Lex a
alcança, mas não consegue se equilibrar. Os dois desabam no chão.
A antiga Nina teria levantado num pulo,

afastando-se de Lex. A nova Nina, criada por Lais, não faz nada disso.

Permanece onde
está, por cima do garoto. Os olhos estão
cravados um no outro. Lex está arfando? Oh sim, ele está. Não consegue controlar a mão que rasga o ar, tocando os cabelos dela.
A sensação é de que o tempo parou. Com
os polegares, ele traça o desenho dos lábios de Nina, suavemente. Ela não se afasta
quando a mão dele desliza para sua nuca,
puxando-a para mais perto.
Ela sente o hálito quente de Lex. As bocas já estão entreabertas e as pálpebras semicerradas. Se a garota precisa agir, o momento é agora.
Tomada por uma urgência, Nina se desvencilha das mãos de Lex. Levanta-se
sobressaltada, sustentando uma expressão
que denota surpresa e algo mais. Lex nem
imagina que a cena foi premeditada.
— É melhor irmos andando. – Nina bate as
mãos na bermuda, livrando-se das folhas
secas e da terra.
— Nina. – Lex se senta, tentando domar a
respiração.
— Vamos, Lex. – ela pega a garrafa do

chão, puxa o novo mapa para fora e retoma a trilha, sem olhar para trás.


Trinta e quatro: A terceira e última etapa da caça
— Não vai rolar. – Nina recua, balançando a cabeça. – Minhas pernas não aguentarão
nem a metade dessa subida.
— A escalada é bem punk mesmo. – Lex analisa o mapa, buscando uma rota alternativa.
O morro é um tanto íngreme, cheio de
rochas, pedras soltas e vegetação rasteira.
Nina observa quatro cordas que vem do cume até o sopé.
— Estou podre, o efeito do Dorflex já

passou faz tempo. Acho melhor desistirmos.


— De jeito nenhum. Qual é, não sou cara
de desistir fácil. – Lex analisa as cordas e o terreno. – Mas você tem razão, também
estou quebrado.
— Vamos voltar então. – Nina recosta em
uma rocha, esvaziando o cantil de água na nuca.
— Podemos dar a volta e contornar o morro. Veja o mapa. Se caminharmos rente a montanha, não iremos nos perder.
— Má ideia. Não sabemos onde a trilha vai nos levar. – Nina discorda.
— Já disse, não vou desistir. Se quiser
voltar, volte.

— O quê? E deixar você contar vantagem


depois? Nada disso! Começamos juntos e
vamos até o fim. – Nina se põe de pé, pronta para encarar o desafio. – O que estamos
esperando?
Lex deixa um sorriso debochado emoldurar
sua face, iluminando-o de maneira
transcendental. Dá uma olhadela no relógio de pulso e se sobressalta:
— Vamos andando, já são quatro da tarde.

***
Quando Lex e Nina desaparecem na trilha

secundária, Bárbara e Bola finalmente saem de trás das árvores. Ainda estão algemados e


a Kibi o puxa com brutalidade.
— Você é muito mole! – Bárbara estressa.
— Chega disso. Você já conseguiu várias
fotos por hoje. Eu quero voltar.
— Cale a boca e ande logo. – Bárbara dá
um tranco em Bola, colérica.
— Pare! Não vou mais seguir você. Seu
plano é idiota, sabia? Você está tão cega de ódio que nem se deu conta disso. – o garoto estaca.
Notando que Bola não ajudará, Bárbara

resolve mudar de estratégia. Com lábios de mel, aproxima-se do cara, docilmente.


— Não quer ganhar um beijo meu? Não foi
esse o nosso acordo? Se você for até o fim nisso comigo, é o que vai ganhar como
prêmio.
Bola, que nunca beijou uma garota na vida, começa a repensar. Mesmo sabendo que pode apanhar a qualquer instante, solta a bomba:
— Me dê um beijo agora ou nada feito.
Trincando de raiva e com os punhos cerrados, Bárbara se vê num beco sem saída.
Na verdade, ela possui várias alternativas, mas opta por se manter no plano original.
— Você quer um beijo meu, Bolinha? E

então fará tudo o que eu mandar? – a Kibi vai se aproximando, gingando, levando as


mãos aos braços de um Bola todo arrepiado.
— Me dê um beijo de verdade que eu sigo
você até o inferno.
Reunindo coragem e imaginando que Bola
se trata de Lex, Bárbara sussurra no ouvido do cara antes de lhe tascar um beijo:
— Que assim seja.

***
A mata é fechada e a trilha sumiu das
vistas. Lex e Nina estão caminhando há

quase uma hora e nada de chegarem a lugar algum.


— Já passamos por aqui, Lex. Estamos
andando em círculos. – nesse momento, um
raio risca o céu. – E está para cair uma chuva daquelas! – Nina faz uma pausa dramática, levando as mãos à cintura. – Que horas são?
— Cinco da tarde. – Lex responde num fio
de voz. Odeia a cara arrogante que Nina faz quando tem razão.
— Me dê os sinalizadores. – ela estende a mão, batendo um dos pés no chão.
— Espere. – Lex fecha os olhos, buscando
escutar os sons da mata. – Está ouvindo?
— O quê? Só escuto a chuva se aproximar.
— É barulho de água. – Lex abre o mapa. –
Se for o mesmo riacho, podemos seguir a
trilha até chegarmos ao local onde
encontramos a caixa. Aí ficará fácil voltar para a praia.
— Lex, estamos perdidos e já são cinco da tarde. Os monitores e os professores devem estar preocupados.
— Confie em mim. – Lex passa por Nina,
seguindo o som da água.
— Mas que droga! – irritada, ela soca o ar e não vê alternativa a não ser seguir Lex.

***
O garoto tinha razão, parece ser o mesmo córrego. Existe uma trilha larga ladeando as margens. Nina completa o cantil com água
fresca e Lex faz o mesmo. A chuva começa a cair, um tanto tímida ainda.
Relampeja e a escuridão se aproxima. Nina segue Lex de cabeça baixa e não nota
quando ele para abruptamente. A trombada
desconcentra-a.
— Ai, o que foi agora? – pergunta, olhando por cima do ombro dele.
— A trilha acaba aqui. – Lex rosna.
Uma imensa rocha interrompe a trilha e
não parece haver outro caminho. Nina
esbraveja e ataca Lex:
— Eu falei que deveríamos ter voltado, seu cabeça dura! Agora está escuro, estamos
perdidos e demorarão séculos para nos acharem! – ela bate a mão espalmada na rocha, estressada. – Que droga, por que eu fui ouvir você?
— Quieta! Estou tentando pensar. – Lex se altera.
— Quieta? Quieta? Está mandando eu ficar
quieta? – Nina urra, mais alto que o barulho da chuva.
— Eu mandei calar a boca!
— Ah, é? Vem calar se você for homem,
seu babaca!
Ai, ai, ai. Aí a garota mexeu com o brio do cara. Num ímpeto, Lex parte para cima de
Nina, segurando firme os ombros dela contra a rocha lodosa. Gotas de chuva escorrem
pela face, levando o suor e a sujeira embora.
Lex não retruca. Seu peito – descamisado
obviamente – movimenta-se num ritmo
inconstante, acompanhando as batidas do
coração. Esses dois estão próximos demais.
Lex se esquece de onde está e para onde deveria ir. Não se importa com a chuva, a trilha interrompida ou mesmo por estarem
perdidos. A única coisa que ele quer é calar aquela boca.
E ele a cala, sentindo um choque térmico

ao tocar os lábios de Nina. Tão sedosos,


saborosos, sedutores. Ao invés de se afastar, ela corresponde, agarrando-se a ele, cravando as unhas em suas costas e
descendo.
Lex fica louco quando ela apalpa sua bunda redonda e bem definida, demora a entender o que ela pretende com isso. Quando Lex se dá conta, não há mais tempo para impedi-la.
Nina acaba de iluminar o céu com um dos
sinalizadores.
Ele se afasta, limpando a boca como se
tivesse pedido sorvete de chocolate e na
verdade, a sobremesa fosse feita de jiló.

— Por que fez isso? – interpela, lançando


um olhar abrasador na direção de Nina. – Por um milionésimo de segundo, pensei que
estávamos nos entendendo.
— Pensou errado. – Nina rebate. – Estou
com fome, com frio, debaixo dessa chuva e ainda por cima perdida com você. O

que eu deveria fazer?


Um farfalhar no meio da mata atrai a
atenção dos dois. Entreolham-se, sem saber o que pensar. O barulho torna-se mais
intenso, algo aproxima-se rapidamente.
Lex segura Nina contra a rocha, selando
seus lábios com o indicador. Tira o canivete do bolso e com um aperto de botão, libera a faca.
O farfalhar continua. O que mais pode dar errado no dia de hoje? Nina está apreensiva, aguardando. Um instinto protetor desperta o homem das cavernas que existe em Lex.
Assume uma posição de ataque, protegendo-
a com o próprio corpo e a lâmina em punho.
— Ah, são vocês. – uma cínica Bárbara finge surpresa. – Não somos os únicos perdidos, viu Bolinha?
— Ei, Lex, vai nos matar? – Bola aponta
para o canivete. Lex fecha a faca e guarda o acessório no bolso, relaxando.
— O que estão fazendo aqui? – Nina
pergunta, por sobre o ombro de Lex.

— Estamos perdidos, como vocês. Vimos o


sinalizador e viemos para cá. – Bola,
acostumado a mentiras, nem precisa se
esforçar.
— Vocês ainda estão algemados. – Lex
observa, intrigado.
— Longa história. – Bárbara leva as mãos
aos cabelos molhados, sacudindo-os a seguir.
– Não deveríamos usar outro sinalizador?
— Eu solto, eu solto! – Bola empolga e
aponta o cano vermelho para cima, liberando a luz a seguir. A noite se ilumina de
imediato.
— Agora temos que esperar. – Lex se vira para Nina que, como ele, também sente a
mentira no ar.
Bárbara e Bola iniciam uma discussão
irritante sobre onde sentarão. Apesar de
ensopada, a Kibi não quer sujar o minúsculo short. Enquanto eles brigam, Nina aproxima-se de Lex e sopra em seu ouvido:
— Não é mega estranho estarem
algemados ainda? Acha que estavam nos
seguindo?

Lex suspira alto. Nina tinha razão, estavam sendo seguidos. A Kibi quer vingança e pelo visto, mantém algum plano diabólico em mente que envolve espionagem e sabe-se lá mais o quê. Mas Lex descobrirá, afinal, Bola está metido nisso de alguma maneira.


— Nina, eu não faço ideia. – ele puxa o
sinalizador do bolso traseiro da bermuda, encarando o tubo por algum tempo. –

Bola, vocês tem mais um aí, certo?


— Sinalizador? É, temos mais um.
— Vamos disparar um a cada cinco minutos, beleza?
— Beleza, Lex. – Bola concorda,
desequilibrando-se e caindo quando a Kibi o puxa para baixo.
Lex vai até o riacho e pega algumas
pedrinhas no chão. Começa a jogá-las, uma a uma, no meio da corredeira, na intenção de fazer com que o tempo corra mais depressa.
Bola e Bárbara não param de discutir um
segundo. Lex olha para Nina de esguelha. Ela está se abraçando, trêmula. A chuva é
pesada, fria e a sensação térmica cai alguns graus.
Tomado por uma força maior, ele caminha
até a rocha, arrancando a camiseta presa à bermuda, torcendo-a para tirar o excesso de água. Aproxima-se de Nina, colocando a camiseta sobre os ombros dela. Os dois se encaram.
— Logo estaremos no hotel. – Lex ajeita
uma mecha úmida do cabelo de Nina atrás da orelha.
— Preciso de um banho fervendo. – ela

fricciona as mãos contra os braços, tentando em vão se aquecer.


— E depois, um cheeseburger duplo com maionese. – o estômago de Lex dá as caras quando pensa em comida.
— Com batatas fritas. – ela sorri,
penetrando mais fundo nos olhos de Lex.
— E milk shake de chocolate.
— Com caramelo.
Uma nuvem elétrica cerca esses dois,
prendendo-os de maneira sobrenatural. Lex sente uma vontade irresistível de tocá-la, mas é Nina quem diminui a distância,
afundando o rosto em seu peito. Ela arfa
quando se sente abraçada, seu corpo se

arrepia quando a temperatura começa a


subir.
— Já devem estar chegando. – Lex
pressupõe, tocando a testa de Nina com os lábios.
— Hum, hum. – ela já não sabe se quer ser resgatada. Por um breve momento, a segurança que sente nos braços de Lex
parece bastar.
— Não está na hora de soltarmos outro
sinalizador? – Bola pergunta, acima das
reclamações de Bárbara.
— Manda lá, Bolota. – Lex responde, sem olhar para trás.
Trinta e cinco: Passeio de escuna
Depois do resgate e de ouvirem um baita
sermão dos professores, os quatro estudantes ensopados seguiram para seus respectivos
quartos. Nina toma um banho fervendo, com Nathi e Lais sentadas no chão, ouvindo toda a narrativa.
— Ainda não entendi o que a Bárbara e o
Bola estavam fazendo ali. Isso está muito estranho. E você disse que teve a impressão
de estarem sendo seguidos. – Nathi conjectura.
— Também achei muito estranho. E como

eu disse, eles estavam algemados. – Nina


abre a tampa do condicionador, espalhando o conteúdo nos cabelos. – Que eles estavam
nos seguindo, disso eu tenho quase certeza.
A pergunta é: por quê?
— A Kibi é louca pelo Lex, acho que ela
faria qualquer coisa para tê-lo de volta. Ou então, abriria as portas do inferno para que ninguém pudesse ficar com ele. – Lais recosta no azulejo frio do banheiro.
— Ela estava seguindo o Lex e a Nina para ver o que iria acontecer entre eles, é isso? –
Nathi lança a pergunta em meio à névoa
esbranquiçada.
— É a única explicação. – resume Lais.
— Eu sei lá e pouco me importa. A única
coisa que quero é comer, estou morta de
fome.

***
O dia nasce com um sol brilhante, em meio à nuvens esparsas. Camila e Edgard foram os vencedores da Caça ao Tesouro e
acompanhados por dois instrutores,
executam manobras radicais a bordo de jet skis, fazendo inveja para todos os estudantes do Prisma.
Nina, Lais e Nathália já estão com suas
bolsas de praia a tiracolo, aguardando a escuna chegar ao píer. O almoço da galera acontecerá em uma ilha próxima, a meia
hora da Ilha Inamorata.
Lex e Gancho estão posicionados,
aguardando Bola chegar à praia. Quando
finalmente dá as caras, os garotos se jogam em cima dele, arrastando-o para um local
longe das vistas curiosas.
— O que está aprontando, Bolota? – Lex
interpela, impaciente.
— O quê? Do que você está falando?
— Não se faça de besta. Ande logo, conte o que está aprontando com as Kibis. – Gancho aperta o pescoço do garoto com força. – Está dando uma de agente duas caras, é isso?
Leva e traz? Moleque de recados?
— Qual é, Gancho, eu nunca faria isso com vocês. – Bola está ficando vermelho e sem ar.
— Você e a Bárbara estavam nos seguindo
na trilha ontem, não estavam? – Lex
pergunta, com cara de quem vai matar
alguém. – Anda, responde!
— Estou sem ar. – a voz do garoto é
apenas um sopro.
— Solte ele, Gancho. – Lex toca o braço do amigo, fazendo-o soltar o pescoço de Bola.
— Galera, juro, eu não fiz nada. – Bola
choraminga.
— Meu irmãozinho, desde que chegamos na
ilha você aprontou muito pouco. E isso só quer dizer uma coisa: você está ocupado com algo mais importante. – Gancho faz pausa para respirar. – Das duas uma: ou você virou um maricas ou está de conluio com as Kibis.
— Gancho, Lex, caras… eu não fiz nada
errado, juro para vocês!
— Resposta errada. Você sempre está
aprontando alguma. – Lex chega mais perto e Bola recua dois passos. – Se eu souber que você está metido com as Kibis, juro por Deus, encho você de

porrada!


— Caramba, Lex, pega leve. Tô falando,
podem confiar em mim, juro por Deus. – Bola cruza os dedos às costas. Nem Lex, nem
Gancho percebem a manobra.
— Ei, vocês, a escuna chegou! – Hulk grita na direção dos três.
— Se tem algo para nos contar, que seja
agora. – Gancho ruge, enfurecido. – Estou dando uma chance a você, Bola.
— Já disse, sou inocente.
Lex e Gancho se entreolham. Nenhum dos
dois acredita em Bola, mas a partir de agora,
ficarão espertos com o garoto.
— Vai, vaza. – Gancho dá um tapa na nuca
de Bola e o garoto sai correndo.
— Não acreditei em uma palavra. – Lex
lança um olhar matador para o nada.
— Nem eu, man. De agora em diante, ficaremos de olho nele.

***
A bordo da escuna, as meninas fritam no
sol e os garotos jogam truco. Nina está
afastada da turma, sentindo o vento nos
cabelos e uma liberdade gostosa, dessas que poucas vezes sentimos.

Lex se aproxima, sem ser notado.


— Um milhão pelos seus pensamentos.
— Um milhão de quê? Me disseram que seu
pai cortou a sua mesada. – Nina ironiza, sem olhar para trás.
— Que tal um milhão de beijos? É a única
moeda de troca que tenho no momento.
Lex arranca uma gargalhada de Nina. Ela
gira nos calcanhares para encará-lo, já sabendo o que irá encontrar: um sorriso debochado naqueles lábios altamente
sugestivos.
Mesmo com os óculos de sol, Nina precisa colocar o braço à frente do rosto para fitar um Lex sem camisa. O mal tempo foi embora e a previsão afirma que é em definitivo, até o final da viagem.
— E então? Em que está pensando? – ele
insiste.
— Nos lugares que ainda não conheço, nas
viagens que quero fazer. – Nina faz uma
pausa, olhando para os chinelos coloridos que Lais emprestou. – Por que isso importa?
— Tudo o que diz respeito a você é
importante para mim.
— Rá! Você realmente quer perder os
dentes, não é? Pare de me zoar, tá legal?
— Não estou brincando. – Lex chega mais
perto e Nina dá um passo atrás, batendo com
as costas no parapeito da embarcação. – Me diga, que lugar quer muito conhecer e ainda não conhece?
— Paris. – ela responde, com ar distraído.
— Paris? La ville lumière?
— Ah, não. Você fala francês. – Nina revira os olhos, com desdém.
— É a linguagem do amor, sabe como é.
— Como você é óbvio, Lex. – ela rebate,
estalando a língua no alto da boca.
— Je ne suis pas pardi. D’ailleurs, tu sais que tu es très belle, aujourd’hui?
— Acha que estou linda hoje? Sério
mesmo? – Nina manda muito bem no
francês.
— Putz grila! – o cara é pego no contrapé.
– Fala francês? Por que não me disse?
— Tu ne m’as pas demandé, con.
— Hahahahaha. Nina, você é uma caixinha
de surpresas.
— E como eu disse, você é o cara mais
óbvio que conheço. – ela gira sobre os chinelos e suspira profundamente. Lex

entende a deixa, mas não desiste de


aporrinhar.
— Que lugar mais a atrai em Paris? – ele
pergunta, entre os cabelos esvoaçantes de Nina.
— Podemos até conversar civilizadamente
se você largar de ser um otário.
— Tudo bem. O otário sai e o legal entra
em cena. Pronto, podemos conversar. – ele faz uma pausa. – E então? O que quer conhecer em Paris?
Nina bufa alto antes de responder, num
rugido:
— O Louvre.
— Tantas coisas para conhecer em Paris e é o Louvre que chama a sua atenção?

– Lex se posiciona ao lado de Nina. Alisa os cachos para trás e aguarda uma resposta à


provocação.
— Quero ver a pirâmide de vidro de perto.
Pode até ser que eu chore de emoção. – Nina entra em devaneios, afastando os cabelos
que teimam em voar para o rosto. – Algo me diz que o Louvre é um lugar mágico. – então, se dá conta de com quem está dialogando e completa: – Vai me zoar?
— É claro que não. Aliás, poderíamos ir
juntos a esse lugar mágico. Prometo enxugar suas lágrimas. – Lex sorri, acompanhando a reação de Nina de rabo de olho.
— Poxa, não dá mesmo para manter uma conversa normal com você. – ela se inflama de raiva.
— Estamos tendo uma conversa normal. –
ele retruca, indignado.
— Não estamos não. E quer saber? Dê o
fora daqui antes que meu joelho de ferro
entre em ação!
— Ei, Lex, venha tocar algo para nós! –
Gancho grita, com o violão em mãos.
— Bem, fui salvo pelo gongo. – curvando-se perante Nina, finaliza de maneira teatral:
- Ma chérie, enchantée de te parler. Au revoir.

***
A Ilha da Sereia é um lugar mágico,
cercado por uma atmosfera aconchegante e
rústica. As principais atividades da pequena ilha são a pesca, o artesanato e o turismo.
Um dos únicos restaurantes do lugarejo
localiza-se à beira-mar. Esse é um local alto astral, bucólico e supercolorido. É o típico lugar em que você se sente abraçado ao
entrar.
Após o almoço, Nina dá de cara com o
violão de Lex sobre uma mesa e tomada por uma urgência do além, toca as cordas com a ponta dos dedos, sentindo-se arrepiar. A

energia de Lex emana do instrumento. Lais e Nathi se entreolham, aos pulinhos.


— Toque para nós, Nina. – Nathália pede,
com olhos brilhando em excitação.
— Não na frente dessa galera. – Nina
recua.
— Podemos ir ali, naquele cantinho. – Lais aponta para um lugar mais distante, uma
espécie de bangalô sobre um tablado de
madeira.
— Ah, Nina, por favor! – Nathi implora.
— Ei, Gancho! – Nina chama. – Posso pegar o violão do Lex emprestado?

— Vai quebrar na cabeça dele? – o pirata


arregala os olhos.
— Não, Cabeçudo! Ela vai tocar para nós. –
Nathi intervém. – Acha que o Lex ficará
bravo?
— Bom, se a cabeça do cara ficar inteira, acho que não tem problema algum. –

Gancho libera o violão e as amigas se encaram, sorrindo.



***
Quando Lex sai do mar, leva as mãos aos
cabelos, livrando-se do excesso de água. Com os olhos cerrados, sente uma vibração chegar aos ouvidos: uma voz melodiosa acima de

duas outras. São vozes femininas, ao som de um violão.


As pálpebras de Lex se abrem, procurando.
Petrifica no lugar quando vê a cena, para variar, em câmera lenta: Nathi e Lais estão sentadas sobre futons, elevadas por um tablado. Seus corpos vem e vão, acompanhando o ritmo ditado pelo
violão. Nina, sentada ao meio, toca com uma palheta em punho, os acordes tomando vida a cada batida.
E a voz, o que dizer da voz? Seria Nina
uma sereia disfarçada? Lex está sentindo um chamado quase insuportável, um clamor que grita para que ele se aproxime. Antes que comece a caminhar, quase flutuar em direção à voz, Gancho dá um tapa no ombro do cara, trazendo-o de volta à realidade.
— Tudo bem eu ter emprestado o violão para as meninas? – é a segunda vez que Gancho faz a pergunta.

— Oi?
— Se liga, Lex! Está com a cabeça onde,


meu camarada?
— Desculpe, Cabeçudo. O que foi?
— Tudo bem eu ter emprestado o seu
violão? Quer que eu faça mímica?
— Ah, isso. Sem problemas. – Lex
responde, de forma casual. Seus olhos
retomam o caminho até o tablado e ali se
fixam, vidrados.
— Lex? Você está de boa? – Gancho corta a visão do amigo com a palma da mão. – Ai,
meu bom God! O que é isso que eu vejo?
— Hum? – Lex ouve a voz de Gancho lá
longe.
— Meu irmão, você está gamadão! Cara,
não acredito nisso! Como eu não percebi
antes?
— O quê? – Lex se sobressalta. – Cale a boca, Cabeça, não é nada disso.
— Alexandre Heinrich, você está
perdidamente apaixonado, meu camaradinha.
Juro que não imaginei que viveria para ver essa cena.
— Gancho, enlouqueceu? – Lex sussurra,
olhando para os lados.
— Qual é, Lex, eu sou seu brother! Se não contar para mim, vai contar para quem?
— Não estou apaixonado, tá legal? – Lex
sustenta uma expressão nervosa, quase
desesperada.
— Lex, sabe que pode me contar qualquer
coisa, não sabe?
— Gancho, no dia em que eu me apaixonar,
você será o primeiro a saber.
Trinta e seis: Véu de Noiva
Lá pelas duas da tarde, os monitores
reuniram a turma num local chamado Canto
da Sereia. De lá partirá a comitiva a caminho
da Cachoeira Véu de Noiva. Antes da saída, o monitor-chefe dá as instruções:
— A trilha é de quinze minutos,
supertranquila e plana. Aqueles que
quiserem, poderão descer a cachoeira de
rapel ou tirolesa. Os que não forem adeptos dos esportes radicais, poderão seguir por outra trilha. Permaneçam juntos e vamos em busca de aventuras!
O caminho é ladeado por árvores frondosas de copas largas, carregadas de um colorido suntuoso. Apesar do forte calor, a sombra das árvores refresca os estudantes e o aroma de natureza intocada é revigorante.
Nina, Lais e Nathi puxam a fila,
caminhando logo atrás dos monitores. Um
deles vai nomeando as espécies nativas ao redor. Um passeio para lá de cultural, já que Nina não conhece a metade da flora que lhe é apresentada.
Numa bifurcação, os estudantes se dividem
em dois grupos: os Pés no Chão e os Amantes de Adrenalina. Óbvio que Nathi segue entre os Pés no Chão e Nina e Lais
optam pelos Amantes de Adrenalina. Ambas
escolheram a tirolesa e já se preparam para saltar, numa queda de trinta e seis metros de adrenalina na veia.
Lais é a primeira da fila e dá um grito

quando salta. O monitor checa o


equipamento de Nina, posicionando-a. Ela
será a próxima. O coração quer sair pela
boca, mas a garota é corajosa. Lex se
aproxima, com um sorriso de deboche.
— Vai mesmo encarar?
— Não conheço o medo, Lex.
— Encontro com você lá embaixo. – o tom
dele muda, denotando apreensão. Lex está
com medo por ela? Pouco provável. Ou estou enganada?
— Está pronta? – o monitor termina a checagem do equipamento, atrelando-o à
corda.
— Prontíssima. – Nina fita Lex por um
segundo. Cadê o sorriso debochado? O que
ela vê é uma expressão receosa e um olhar sério. – Ei, eu não quebro, lembra?
— Chegue inteira lá embaixo, está bem? –
Lex testa o equipamento de Nina, dando
pequenos trancos para verificar se ela estará em segurança.
— Quer apostar?
Lex morde o lábio e não responde a

provocação.


— Ok, Lex, fique tranquilo. Vejo você lá
embaixo. – dito isso, ela se joga em direção ao nada, sentindo tudo ao mesmo tempo. –
Uhuuuuuuuuuuuuuuuu.

***
Caramba, o que dizer sobre a cachoeira? O
lugar é um pedaço do paraíso na Terra, com um lago esverdeado e límpido, cercado por formações rochosas e muito verde. A água cai aos montes lá de cima, abrindo-se num véu que bate com força no deck natural de pedra calcária.
Nina e Lais nadam até a margem, onde
Nathália está sentada com um livro em mãos.
O mesmo livro que Gancho cedeu quando o
seu ficou ensopado.
— Nathi, venha nadar! – Lais chama.
— Ah, gente, vocês sabem que eu não
curto esse tipo de coisa. O fundo é lamacento e tem bichos estranhos aí dentro. –

Nathi marca a página do livro e o fecha. – Eu


prefiro ficar aqui, sendo comida pelos
borrachudos.
— Você deve ter o sangue doce. Os
borrachudos não ousam se aproximar de
mim. – Nina brinca, saindo da água.
— Certo, pessoal, para aqueles que se
aguentam nas próprias pernas, atrás da
queda d’água existe uma gruta incrível. São quatro câmaras desenhadas pela natureza.
Quem estiver a fim, que me siga! – o monitor mergulha e poucos o seguem.

Nenhuma das


meninas encara passar por debaixo da queda d’água.
— Lais? – Nina aponta com a cabeça para a cachoeira.
— Ai, será? Não sei não. – Lais não está
muito disposta a encarar a fúria da natureza.
— Sozinha eu não vou. – Nina está muito a fim de conhecer a tal gruta.
— Vou com você. – a voz de Lex se faz ouvir quando ele sai da água.
— Não, obrigada. – Nina rebate, com
descaso.
— Qual é, vamos lá, será divertido. –
Gancho se aproxima, colocando pilha nas
garotas.
Lais topa ir com Gancho, mas só depois de Nathália dar um ok com a cabeça.

Lex espera por uma resposta de Nina.


— Vá lá, Nina. – Nathi incentiva.
— Talvez não seja boa ideia. A força dessa água vai arrancar o meu biquíni e eu deixei a camiseta na praia.
— Sinceramente, adoraria que a água arrancasse o seu biquíni. Quanto à camiseta, pode usar a minha. – Lex tira a camiseta
ensopada da cintura, estendendo-a para
Nina.
— Como você é engraçadinho. – ela
estreita os olhos, metralhando-o.
— Vá logo, Nina. – Nathi empurra a amiga
para cima de Lex.
— Dê logo essa camiseta aqui. – ela puxa a vestimenta, analisando os prós e contras.
— Não pense, apenas vá. Ou depois, vai se arrepender de não ter ido. – Nathi então

retoma a leitura.


Vestindo a camiseta de Lex, ela o segue a nado até a cachoeira. A força da água é
surpreendente e Nina tem dificuldades para respirar. Lex sobe no deck com uma facilidade extrema e lhe estende a mão.
A água pesa toneladas e massageia
ferozmente os ombros e a cabeça. Nina sente os joelhos arquearem e Lex a puxa de uma
só vez para dentro da gruta.
O chão está escorregadio e ela se apoia no ombro dele. Lex a enlaça pela cintura e os dois avançam com muito cuidado. Lais e
Gancho seguem mais a frente, um
amparando o outro para não caírem.
— Está escorregando muito. – Nina
caminha com cautela.
— Enquanto estiver nos meus braços,
estará segura. – ele solta a pérola.
— Rá, rá! Como você é presunçoso.
— Olha quem fala.
Avançando vagarosamente, finalmente
chegam a uma segunda câmara. O monitor
explica como aquela gruta foi formada e Nina não consegue prestar atenção, sua mente
não processa as mais simples palavras.
Lex está próximo demais.
O toque dele em sua cintura, o calor que
ele emana, as gotículas de água que
escorrem pelo seu tórax, a forma como ele tomba a cabeça de lado, os olhos da cor do sol, a barba dourada por fazer, os dentes brancos que agora mordem o lábio.
Nina se pega relembrando o gosto que ele
tem, a forma como ele a segura ao beijá-la, aquele sorriso debochado nos lábios… ele
nem imagina, mas ela se derrete por dentro quando ele sorri.
O monitor leva a turma para outra câmara
e ao invés de seguir o pessoal, Nina estaca, sentindo que precisa sair correndo dali agora mesmo. Há uma ânsia que abre caminho por

suas veias, uma vontade absurda e


incontrolável de sentir os lábios de Lex
contra os seus.
— O que foi? – ele pergunta quando
percebe que há algo errado.
— Nada. – Nina acaba de corar, abaixando a cabeça para que Lex não perceba.
— Está tudo bem?
— Tudocerto. – ela responde tão rápido que o “tudo certo” pareceu uma palavra só. –
Eu… eu vou voltar.
— Por quê? – Lex suspende o queixo de

Nina com o polegar. – Não fiz nada errado, fiz?


— Não. – ela se apressa em responder. –
Por incrível que pareça, você não fez nada errado.
— Então?
— Não é nada, só quero voltar. – ela
desliza os pés pelo chão rochoso e vai se arrastando, sem conseguir se firmar.
— Tudo bem, eu ajudo você. – ele a segura pela cintura e os dois seguem rumo à saída da gruta.
Avançando sem prudência, Nina dá um
passo maior do que deveria. O pé de apoio
não a sustenta e Lex a ampara, usando a parede rochosa para escorá-la. Tão próximos, tão perigosamente próximos!

Eles se encaram por alguns segundos. Nina sente o coração pulsar mais rápido e teme cometer uma loucura a qualquer momento. E


não é que ela comete?
Indo contra sua natureza congelante, Nina agarra o rosto de Lex num ímpeto desenfreado, trazendo-o para si, para sua boca. A garota perde o controle, o chão, a noção. Lex não se afasta, pelo contrário. Ele a gruda no paredão, num desespero
causticante.
A conexão entre os dois é imediata. Tudo
ao redor perde a importância, o significado.
Nina sabe que deveria se afastar, mas não consegue, os sentimentos gritam e tomam
espaço com uma força avassaladora.
As mãos de Lex ganham terreno, subindo pelas curvas de Nina, levantando a camiseta
molhada até o meio das costas. Ele tomba a cabeça de lado e se agarra aos cabelos dela, completamente ensandecido.
Esses dois estão pegando fogo e Nina não
consegue apagar o incêndio. Uma de suas
pernas se enlaça aos quadris de Lex e o
garoto está a ponto de entrar em ebulição.
Infelizmente eles não veem, mas eu vejo:
Bola, escondido nas sombras, lança mão da câmara a prova d’água de Bárbara e clica
esse momento tão íntimo. Com um sorrisinho lateral, o cara se afasta, doido para ganhar mais um beijinho.

Trinta e sete: Voltando para a Ilha


Inamorata
Nina afasta Lex brutalmente. Ela arfa. Ele também. Os dois se fitam por um período
indeterminado e Nina está envergonhada.
Em que diabos ela estava pensando ao
agarrar o cara dessa maneira?
Bola já se mandou faz tempo, esgueirando-
se para dentro da gruta, juntando-se aos outros. Lex e Nina estão sozinhos, ao lado da queda d’água. O sol incide de maneira a formar um lindo arco-íris, mas nenhum deles aprecia o espetáculo.
— Desculpe, não sei o que me deu. – ela
mira os pés, sentindo-se ruborizar.

— Quando um não quer, dois não beijam. –


Lex se aproxima novamente, mas Nina o
bloqueia com a mão espalmada, mantendo-o
à distância. – Precisamos conversar sobre isso.
— Não, Lex. Não há nada o que conversar.
– segurando-se na parede rochosa, a garota vai se equilibrando, deslizando os pés para chegar a saída da gruta.
— Nina, por favor.
— Não quero conversar. – ela balança a
cabeça, sentindo-se ruir por dentro.
— Espere, eu ajudo você.

— Não. Eu me viro sozinha.


Lex estaca. Observa Nina se afastar, passar pela parede de água e sumir das vistas. Alisa a franja para trás e mira o teto cavernoso, com lábios trêmulos e a mente confusa.
Tomado por uma fúria crescente, desfere um soco no paredão rochoso. Lex está pego e
sabe disso, apesar de não querer acreditar em seus próprios sentimentos.

***
Já passa das seis e o céu sustenta os
últimos raios do sol, numa aquarela belíssima de degradês. Nina, Nathália e Lais debatem, sentadas em um banco acolchoado na proa da embarcação. Nina acaba de contar o que aconteceu na gruta e as amigas estão boquiabertas, sem saber o que dizer.
— Eu acho que perdi a aposta. – Nina prende o cabelo num rabo de cavalo
improvisado. Os olhos estão marejados e os sentimentos são confusos e intensos.

– Você estava certa, Nathi. É impossível resistir ao Lex.


— Odeio sempre estar certa. – Nathália
tomba a cabeça para trás, fitando as
primeiras estrelas que surgem no firmamento.
— Não é só atração? – Lais especula. – De repente você está confundindo sensações
com sentimentos. Acontece com mais
frequência do que se imagina.
— Eu não sei. Nunca estive tão perdida na minha vida. – Nina confessa, desanimada.
Nathália suspira alto, tinha certeza de que isso aconteceria. Lex é um cara sedutor, dos mais gabaritados. Ninguém, em sã
consciência, resistiria aos seus encantos.
— O que eu posso dizer? – Lais segura as
mãos de Nina entre as suas. – Antes de

decretar a vitória do Lex, tenha certeza dos seus sentimentos. Coloque-os à prova.


Enquanto isso, mantenha a nossa estratégia.
— Não tenho mais forças para continuar
com isso. Estou cansada. – Nina revela, aos choramingos.
— Faltam só três dias para voltarmos.
Espere até lá antes de dar fim à aposta. –
Nathi finaliza e deita sobre o banco
acolchoado, admirando os brilhos piscantes no céu.

***
Bola ganhou um beijo daqueles desferido

pela Kibi Mor. Mais um. A foto de Lex e Nina, aos amassos, atrelados como dois selvagens, ficou fantástica. A luminosidade, o cenário, o clima “homem das cavernas”… tudo ficou


perfeito.
Mas Bárbara quer mais, algo realmente
quente. Uma imagem que grite “Nina é uma
biscate”. Essa foto, a Kibi ainda não obteve.
Mas ela conseguirá, independente do que
precise fazer para isso.

***
O clube do bolinha está reunido após o
jantar, conspirando na sala de jogos do hotel e não parece haver ninguém a

espreita.


As únicas apostas cumpridas até o
momento foram o jogo de tênis, em que Lex venceu, e Nando versus Camila. A garota,
sem saber de nada, caiu na rede de Fernando lá na cachoeira. Deram uns amassos e Nando venceu a aposta. Coitadinha da Camila, é a quarta vez que cai numa aposta. Mas, ao
contrário das outras vezes, o garoto está interessado e resolve investir pesado.

Ponto para Camila.


A aposta Gancho versus Nathália não anda
muito bem das pernas. O cara ficou puto e não quer levar isso adiante. Não que não
esteja interessado em Nathi, longe disso. O
que ele não quer é que ela seja uma aposta e, por isso, decide-se manter distante,
preservando-a.
As apostas Edgard versus Suzana e Hulk
versus Ana Paula não vingaram. As Kibis
parecem saber que são apostas, como se alguém houvesse delatado. Sempre que os
garotos se aproximam, elas rugem, ferozes.
Coisa estranha.
Bem, para nós não é nada estranho, afinal, Bola deu com a língua nos dentes, contando para Bárbara sobre as apostas. Garoto mau, muito mau.
A única aposta sem um final definido é Lex versus Nina. Os garotos querem saber
detalhes e ele se limita a dizer que já perdeu essa. Não conta sobre os beijos nem sobre seus sentimentos com relação à garota.
Gancho abaixa a cabeça e dá uma

risadinha. O Cabeçudo é o único que sabe


sobre os beijos roubados e tudo o que está rolando entre esses dois. Apesar do amigo jurar que não, Gancho tem certeza de que ele está apaixonado.
Trinta e oito: O início do quinto dia na ilha
Lex e Nina não conversaram depois do que rolou na gruta. Ela esquiva-se, não quer
confrontá-lo de maneira alguma. Sente como se estivesse no olho de um furacão, sem
saber para onde correr.
Nina teme enfrentar seus sentimentos, não
considera a possibilidade de descortinar o que está por trás das sensações que invadem seu corpo quando Lex está por perto. Não
quer descobrir que Nathália estava certa, não suporta a ideia de estar apaixonada.
Justamente ele?
Depois do café-da-manhã, os monitores
reúnem os estudantes na praia, com uma
disputa para lá de divertida. Será uma
espécie de Iron Man, onde as mesmas duplas da Caça ao Tesouro deverão cumprir várias
tarefas, a fim de cruzarem no menor tempo a linha de chegada. O desafio inclui: caiaque, mergulho, corrida, escalada, arborismo e outras coisinhas mais.
Nina olha para o céu, pedindo socorro.
Agora não terá como escapar de Lex. Até
pensa em não participar do desafio, mas por sorte, ela tem Nathi e Lais como amigas.
Ambas não permitem que ela desista e Lais é mais contundente ainda:
— Como saberá se está apaixonada se não encarar a situação de frente?
— Talvez seja melhor eu não saber. – Nina reflete.
— Ah, fala sério! Você é uma mulher ou
uma barata? – Nathi incita. – Você não tem medo de nada, lembra? Cadê a sua coragem?
Ou tudo não passa de encenação?
— Estou com a Nathi. Você vai participar do desafio sim. Se fugir, juro que lhe dou um soco. – Lais sacode Nina pelos ombros. –
Esconder-se não ajudará em nada. Enfrente a situação, coloque seus sentimentos à
prova, descubra o que está havendo entre

vocês.
— Eu amo vocês duas, já disse isso alguma vez? – Nina as puxa para um abraço grupal.


— Não, você nunca disse isso. – Nathi
responde, um tanto emocionada. – E, por
favor, pare de ter medo de ser feliz.

***
A primeira parte do desafio é a seguinte: a dupla pegará um caiaque e remará até o
local indicado com uma imensa boia
vermelha. Nesse ponto, um dos competidores mergulhará para resgatar uma bandeira com o logotipo do hotel. Feito isso, as duplas voltam para as areias e a segunda parte do desafio será liberada.
— Para deixá-los com água na boca, o prêmio será um almoço inesquecível
preparado pelo Chef Louis, com direito à
camarões gigantes, lagosta, risoto de salmão e tudo o mais que puderem imaginar.
“Um bangalô será montado na praia e os
perdedores terão que comer a gororoba do
restaurante do hotel – ok, a parte da
gororoba é uma mentira já que a comida do lugar é fantástica.
“Os vencedores também ganharão um
passeio em volta da ilha, a bordo da nossa lancha super ultra mega veloz. – o monitor
encara aqueles olhinhos brilhantes antes de arrematar. – Quem quer vencer?
Uma debandada de pássaros arranha os
ouvidos quando a galera se manifesta aos
gritos de forma desordenada. Nina está
apática, não esboça qualquer reação. Ainda não teve coragem de olhar para Lex que está a alguns passos de distância.
Vou dizer: Se esses dois trabalharem
juntos, podem vencer a disputa com
facilidade. São atletas bem preparados,
possuem um fôlego invejável e ambos são
competitivos ao extremo. Eu aposto nessa
dupla, e vocês?
— Ok, crianças, procurem o seu par e
estejam a postos em cinco minutos. O desafio já vai começar! – quem grita é Margareth, a professora de educação física.
Lais e Nathi se despedem de Nina, que fica sozinha no meio da multidão. Lex se aproxima, um tanto temeroso, nunca sabe o
que esperar. É possível que ela o enforque.
Porventura o morda. Ou talvez ele leve outro chute no meio das pernas.
Nada disso acontece.
— Está pronta? – ele pergunta.
— Hum, hum.
— O que acha de vencermos? Adoro camarão. – Lex tenta quebrar o gelo.
— E eu adoro lanchas. – Nina desvia o
olhar dos chinelos trançados para fitar os olhos dourados de Lex. – Acho que deveríamos vencer.
— Está comigo? – Lex estende a mão.
— Estou com você. – ela bate na palma da
mão dele e o trato está feito.

***
Já sabendo do desafio de antemão, Nina
optou por um maiô preto, mais comportado e fechado. Está usando uma saia de

Tac Tel
branca, daquelas que secam bem rápido.


Passou uma generosa camada de protetor
solar na pele e da dúzia de óculos de sol que trouxe, escolheu um esportivo da Mormaii, perfeito para o dia de hoje.
Lex está sem camisa – oh, que novidade! –, vestindo apenas uma bermuda preta Billabong e um boné cinza. Ele e Nina estão ao lado do caiaque vermelho com lugar para duas pessoas, aguardando o apito de largada.
Lex joga o boné na areia e no lugar,
posiciona a máscara de mergulho. Os dois
combinaram que é ele quem vai para a água quando chegarem ao local marcado.
O apito soa e a bagunça começa. Lex pega
o caiaque pela frente e Nina empurra por trás. Quando a pequena embarcação flutua
no mar, os dois se acomodam e remam
juntos.
As remadas são sincronizadas e a canoa
desliza suave sobre as águas cristalinas. O
dia está quente, ensolarado e não há uma
nuvem sequer no céu. A boia vermelha se
aproxima e Lex mergulha quando atingem o ponto mais próximo.
Enquanto o garoto está debaixo d’água,
Nina gira a embarcação em direção à praia.

Por sorte, já navegou antes e sabe como


manejar os remos. Outros competidores se
enrolam e uns poucos ainda nem saíram das areias da praia.
Lex vem à tona com uma bandeira
vermelha em mãos. Nina equilibra a
embarcação para que ele suba sem derrubá-
los. E então, são os primeiros a chegarem na praia, ao som de vociferações de quem ainda não conseguiu resgatar a bandeira.
Tiram o caiaque do mar e correm em
direção ao monitor-chefe. Ele lhes dá duas garrafas d’água e um papel pardo, que
contém a explicação da próxima parte do

desafio. Nina lê em voz alta, enquanto Lex sorve metade da água:


“Corram até as rochas e escalem até o cume
da montanha. Lá encontrarão um monitor e novas instruções. Apressem-se.”
— Certo, vamos! – Lex se coloca a correr e Nina emparelha com ele, tentando seguir o forte ritmo que ele impõe.
Correr na praia não é tão simples assim.
Estão descalços e a areia é fofa, o que a torna um obstáculo natural, impedindo que aumentem a velocidade. Lex olha para trás algumas vezes, certificando-se de que estão abrindo vantagem sobre os outros
competidores.
Lex alcança as rochas e inicia a subida. Ele progride fácil e Nina tem maiores dificuldades, mas não pede ajuda, ela é
orgulhosa demais para isso.
Nas pedras, o cuidado precisa ser
redobrado. As rochas estão revestidas de
limo e escorregam um bocado. Um passo em
falso e a brincadeira poderá chegar ao fim.
Lex esbarra num ponto crítico e interrompe
a subida, estudando melhor o terreno. As ondas batem com força nas pedras, lançando água para todos os lados. Nina faz cara de nojo ao detectar algumas baratas do mar.
Eca!
Lex opta por fazer um desvio e se pendura em um rocha pontiaguda, erguendo o corpo
com facilidade. Nina nota quando os

músculos do cara se contraem, devido a força que ele emprega. As costas dele são


perfeitas, para dizer o mínimo.
Lex estende a mão e Nina a aceita,
relutante. Ele a puxa para cima como se ela não pesasse nada. De onde estão, ambos
enxergam uma praia vizinha, praticamente
deserta. Um barco veleiro está ancorado e pescadores trabalham em uma rede, à beira-mar.
A subida recomeça e Nina segue Lex de
perto, pisando onde ele já pisou, só por
garantia. Uma gaivota passa voando por suas
cabeças e a garota se distrai, desequilibrando-se quando já estão quase no alto da montanha.
Ela bate as mãos para trás, como se tivesse asas, tentando se reequilibrar. Lex, num
raciocínio rápido, consegue segurá-la pelo cós da saia, trazendo-a para junto de si.
— Ei, onde pensa que vai? – ele debocha,
atrelando-a pela cintura.
— Foi a gaivota! Ela tinha que gaivotar
justamente agora?
— Hahahahaha. Gaivotar foi ótimo. – Lex
umedece os lábios. – Você está bem?
— Estou. – Nina revira os olhos, tirando as mãos de Lex de sua cintura.

— Estamos chegando, hein, seus manés! –


é Hulk quem grita, aproximando-se
rapidamente.
— Vamos em frente. – Lex deixa Nina
passar e segue atrás, vencendo os últimos metros.
No topo da montanha, a garota engole um suspiro. A paisagem é asfixiante de tão
incrível. Mas Lex não permite que Nina perca o foco e a puxa pela mão, correndo em
direção ao monitor.
— Vocês são os primeiros, por enquanto. –
o monitor aponta para o alto do farol. –

Subam juntos até o topo e acenem para mim.


Só então peguem a bandeira. Quando
descerem, eu lhes direi qual a próxima etapa.
– o monitor dá uma risadinha e Lex e Nina se apressam.
O farol, pintado em vermelho e branco,
possui uma única entrada. A porta está
aberta e eles entram, olhando para cima e bufando. Os degraus são estreitos e a escada vai até o alto, em forma de espiral. Nina fecha os olhos, maldizendo a própria sorte.
— Por que não colocam um elevador nesse
lugar? É sério, terei um troço na metade do caminho. – ela diz, arqueando o corpo para a
frente.
— Pense na lancha. Estou pensando nos
camarões.
Lex sobe os degraus de dois em dois. Nina vai logo atrás, sentindo que a qualquer
momento os pulmões serão expelidos pela
boca ressequida. Na metade do caminho ela começa a arfar e precisa de água, urgentemente. Lex, que está com as duas
garrafas nos bolsos laterais, passa uma para Nina.
Se precisam de motivação, o estímulo
chega. Quatro vozes sobem a escada e Lex
agarra o pulso dela, vencendo os degraus tão rápido quanto possível.
Acenam para o monitor e Lex pega a
bandeira. Nina precisa de um tempo para se recuperar. As pernas queimam, latejando.
Enxuga o suor da testa com o antebraço e
bebe mais um gole d’água.
— Como faremos para descer? Só passa um
por vez nessa escada. – Nina recosta na grade, recuperando o fôlego.
— Podemos usar o corrimão. Só tenha
cuidado, tá legal?
— Certo.
Iniciam a descida e vou dizer: é muito mais fácil do que subir. Hulk tenta atrasá-

los, mas Nina ameaça jogá-lo lá de cima. O cara, que já foi atirado num balde de gelo, recua,


deixando que eles passem. E dá-lhe Nina!
Na saída do farol, esbarram com várias
duplas, mas ainda estão na frente quando
Lex entrega a bandeira ao monitor. As novas instruções revelam:
“Pedalem pela trilha até alcançarem o Centro de Arborismo. Lá encontrarão um monitor e uma nova instrução. Boa viagem.”
Lex enxerga várias bicicletas ao longe. Os dois correm em disparada, buscando manter a dianteira. As bikes estão equipadas com pedaleiras de borracha, ou seja, nada de pé
doendo.
A trilha é cheia de altos e baixos. Por sorte, a maior parte é descida e não precisam
efetivamente pedalar. Nina aproveita para relaxar, curtir a paisagem e tomar mais uns goles d’água.
— Precisamos conversar. – Lex grita.
— Estou focada na lancha. – Nina retruca.
— Vamos vencer e teremos um almoço
inteiro para conversarmos.
Nina congela sobre a bicicleta, não tinha pensado sobre isso. Se vencerem, almoçarão juntos e depois, farão um passeio de lancha, também juntos. Ela não terá mais como fugir de Lex.
— Estamos chegando. – Lex aponta para o
Centro de Arborismo. – Preparada?
— Talvez. – Nina está em dúvida se deve
ou não vencer o desafio.

— Nina?
— Ok, vamos vencer essa bagaça!


Trinta e nove: Linha de chegada Já passa do meio-dia. O Centro de Arborismo, como o próprio nome diz, é um
local repleto de árvores estrondosas, de
troncos grossos e muito verde ao redor.
Pouca luminosidade solar atravessa as copas das árvores, o que torna o clima do lugar mais úmido e ameno.
Lex acaba de ler as instruções. Pela
primeira vez no desafio, os dois irão para lados opostos.
Um monitor iça Nina até o topo de uma

árvore. É bem alto. Ela se agarra as laterais da primeira ponte, caminhando sobre uma


corda grossa e inconstante. Conforme
avança, a estrutura de cordas balança para lá e para cá, para cima e para baixo.
Nina chega a primeira parada. Agora
precisará passar por uma ponte de madeira, dessas assustadoras que rangem a cada
passada. Pode ouvir a voz de Lex motivando-
a. Também escuta várias vozes vindas lá debaixo. Outras duplas já chegaram ao Centro de Arborismo.
Nina alcança o outro lado da ponte.
Seguindo as instruções, pega uma bandeira vermelha e se dirige para o Grito do

Tarzan.
Lex está na outra árvore, gesticulando para que ela ande rápido. Nina morde a haste da bandeira, atrelando-se aos nós da corda.


Olha para baixo e vê uma imensa tela de
proteção. Se cair, terá que engatinhar até o outro lado, o que demorará o dobro do
tempo.
Um, dois, três e já!
Nina se joga no Grito do Tarzan,
segurando-se como pode. Lex está com uma
das mãos estendidas e a outra segura firme num pilar de madeira. Ele a puxa pela cintura e, como as leis da física são sempre válidas, os dois são atirados para trás. A bandeira cai no chão.

Ela engole em seco. Ele deixa um suspiro escapar. Novamente tão próximos! Os olhos de Lex percorrem o rosto de Nina, numa


ânsia abrasadora. Os olhos dela acompanham os movimentos dele, sem perder um só
detalhe.
Lex entreabre os lábios, fixando-se na boca dela. Antes que algo possa acontecer, Hulk aparece para aguardar seu companheiro de desafio.
Nina pisca de forma incessante, como se
assim pudesse cair na real. Lex arqueia o corpo e pega a bandeira do chão. Os dois
seguem para a escada de cordas e começam
a descida.
Um monitor já os aguarda, com a última parte da disputa em mãos. Entrega dois
broches para Nina e Lex com os dizeres:
“Sobrevivi ao desafio Inamorata”.
Nina alfineta o seu broche à saia e Lex à bermuda. O monitor indica a trilha que devem seguir de volta à praia. A linha de chegada deve ser cruzada e só então, serão os vencedores.
Ambos retomam a corrida. Nina sorve a
água como se fosse ar. O restante, joga no rosto e na nuca, sem parar de correr.
Já é possível vislumbrarem a praia e o
hotel. Lex olha por sobre o ombro e vê duas duplas se aproximarem rapidamente.
— Certo, teremos que dar um sprint. Você aguenta? – Lex pergunta, num tom de esgotamento.
— Sprint é o meu nome do meio. – ela se vangloria.
— No três: um, dois, três.
Quarenta: Almoço no bangalô
Apenas cinco duplas completaram o desafio.
O restante da turma desistiu em vários
pontos do circuito.
Nina está sentada sobre a areia quente.
Suas pernas queimam, os joelhos gritam e o
pulmão está dando uma de coitadinho, chiando quando o ar entra e sai.

Lex alonga o pescoço, os braços, os ombros.


A cada movimento que faz, os músculos
saltam às vistas de maneira ultrajante.
— Onde ele malha? No Olimpo? – uma das
meninas comenta.
— Estou sem palavras. – outra reitera.
Nina não deveria sentir-se assim, mas o
ciúmes chega sorrateiro, instalando-se na boca do estômago. Várias das garotas do
último ano estão babando em Lex e isso a
deixa incrivelmente alterada.

Antes que fale alguma bobagem, o monitor


anuncia os vencedores. Lex e Nina venceram por muito pouco.
Nathália e Lais dão pulinhos e batem
palmas. Suas duplas desistiram logo no
começo da disputa. É Lais quem aponta para o bangalô montado na areia da praia.
A estrutura consiste num tablado de
madeira, com duas paredes laterais feitas em bambu e cobertura de tecido tensionável.
Nina observa uma mesa baixa em estilo
japonês e futons cor de terra espalhados pelo chão.
A mesa está posta, lindamente adornada

com flores e um candelabro no centro. Pela forte brisa que vem do mar, Nina pensa que será impossível acender as velas.


— Vencemos. – Lex se aproxima.
— Tudo por um camarão, hein? – Nina
prende os cabelos no alto.
— Talvez eu tenha feito isso pela lancha. –
o comentário de Lex pega a garota no
contrapé. Ela finge não ter ouvido e combina de se encontrarem no bangalô, em meia
hora.

***
Nina está nervosa com esse almoço. Não

consegue escolher uma roupa para vestir e Lais resolve ajudar, escolhendo pela amiga.


O vestido de tecido fluido e floral é bem
curtinho, com mangas esvoaçantes e um decote arrematado por um laço. Lais separa também um biquíni para Nina usar por baixo.
Nos pés, um dos chinelos da mega coleção.
Nathália está jogada na cama quando Nina
gira nos calcanhares, fazendo o vestido
flutuar ao seu redor. As amigas batem
palmas.
— Eu não sei nem o que conversar com ele.
Sobre o que vou falar? Era muito mais fácil quando eu só precisava ser ácida e

cruel. –
Nina se senta numa cadeira para que Lais


possa arrematar uma presilha na lateral dos cabelos dela.
— Seja você mesma, fale o que der na
telha. – Nathi aconselha.
— E se eu falar besteira?
— Pare de sofrer por antecipação. – Lais
finaliza os cabelos de Nina. – Você vive me dizendo isso.
— Não é tão fácil na prática. – ela se
levanta, fitando o reflexo no espelho. Se não se conhecesse o suficiente, diria se tratar de uma outra pessoa, alguém que nunca foi
enganada e que acredita em contos de fada.

***
Lex está com o peitoral escondido, é isso mesmo produção? O cara veste uma camiseta azul, bermuda branca e um chinelo desses de couro, bem moderninho.
Lais tem um ataque de riso quando vê o
garoto recostado no bangalô, girando uma
flor nas mãos. Será para Nina?
Ele e Gancho conversam… na verdade,
parece que Gancho dá as instruções e Lex
concorda, meneando a cabeça.
— Agora é com você. – Lais ajeita uma
mecha do cabelo de Nina para trás da orelha.
– Nada de ficar tensa, tá legal? Aja
naturalmente e tudo dará certo.
— Não acredito no que está acontecendo.
Se me dissessem, uma semana atrás, eu
teria feito xixi nas calças de tanto rir. – Nina está desconfortável em sua própria pele.
— Na verdade, acho mais provável que
você tivesse socado quem lhe contasse algo assim. – Nathi olha para Gancho e suspira alto.
— É, tem razão. Eu teria socado o infeliz. –
Nina concorda.
Os amigos param de conversar no instante em que as garotas chegam. Lex engole Nina com os olhos e ela se sente ruborizar. A brisa sopra o vestido de maneira sensual e o garoto não consegue disfarçar o fascínio que ela exerce sobre ele.
— Seus sortudos do caramba! Bom almoço
para vocês. – Gancho se encaixa no meio de Nathi e Lais, abraçando-as pela cintura. –
Venham, meninas, vamos comer o grude do
restaurante. – e os três seguram risinhos, dando meia volta à caminho do hotel.
Lex gira a flor com uma expressão nervosa.
Nina olha para os pés, sentindo algo crescente se formar em seu estômago, não sabe como agir em situações como essa. Ou, se sabe, desaprendeu em algum lugar do

passado.


— Você está linda. Perfeita, eu acrescento.
– o tom de Lex é formal.
— E você está vestido… uau. – o
comentário de Nina era para ter soado ácido, mas não foi assim que saiu.
— Bem-vindos ao nosso humilde bangalô,
vencedores. Tomem seus assentos, porque a viagem gastronômica já vai começar. – o
Chef Louis de francês não tem nada. O
sotaque é baiano, daqueles bem arretados.
Nina morde o lábio, segurando o riso. Lex olha para o céu, respirando fundo para não gargalhar. O Chef deposita duas casquinhas de siri na mesa e volta para

a cozinha,


seguido por um garçom.
— Primeiro as damas. – Lex curva o corpo
para a frente, permitindo que Nina passe. Ela faz uma reverência e tira os chinelos na
entrada do bangalô, sentando-se sobre um
futon.
Lex se ajoelha perante a garota antes de
tomar o seu lugar. Ela congela, não esperava por isso. O garoto pede permissão com o
olhar.
— Está brincando, não é? – Nina recua,
desconfiada.
— É só uma flor. – ele a gira entre os
dedos, pelo caule. – É a minha bandeira da paz, uma trégua.
— Uma trégua? – ela pensa por um
segundo. – Tudo bem, acho que posso aceitar isso.
Numa situação para lá de romântica, Lex
coloca a flor nos cabelos de Nina, usando a presilha de Lais para prendê-la. Nina abaixa a cabeça, sentindo um calor sufocante de repente.
— Sem jogos, concorda? – eles se encaram e Nina abafa os sentimentos que afloram,
descontrolados. Engole em seco e concorda com os termos de Lex:
— Sem jogos. Entendido.
Os dois brindam com os talheres e
começam a comer. Nina revira os olhos, em êxtase. Essa, definitivamente, é a melhor casquinha de siri que já comeu na vida.
O Chef Louis volta da cozinha, trazendo
uma imensa porção de camarões graúdos
empanados e fritos, com um molho tártaro
para acompanhar.
O garçom recolhe os primeiros pratos e
serve mais água e coquetel de frutas – sem álcool, infelizmente. Não sou a favor de
bebidas alcoólicas, mas nesse caso até que poderia ser bem útil.
Nina não está à vontade. Teme que Lex entre na conversa aposta e beijos roubados.
É exatamente no que ele pensa, só está
tentando encontrar uma brecha para falarem sobre o assunto.
Esse poderá ser um diálogo perigoso,
envergando por terrenos desconhecidos. O
garoto, após devorar quase um prato de
camarões, resolve que o momento é agora.
— Temos que conversar sobre o que está
havendo.
— Você disse sem jogos. Então, será que não poderíamos falar sobre outra

coisa? –
Nina se esquiva.


— Em algum momento, teremos que falar
sobre isso.
— Não sendo agora, para mim está ótimo.
– Nina tenta parecer descontraída, mas os músculos de sua face a entregam.

Estão
tensos e sua expressão denota apreensão.


O garçom retira o prato de camarões e o
Chef Louis coloca uma imensa lagosta na
frente dos garotos, explicando, em detalhes, a forma como foi feita. Quando a explanação
termina, Chef e garçom se retiram e Lex retoma o assunto, tomando um outro caminho:
— Eu tenho uma curiosidade imensa sobre
você. – ele a encara, perscrutando suas
reações: – O que aconteceu para transformá-
la em uma muralha? Por que parece ter tanto medo de se envolver? – Lex entrelaça os
dedos sobre a mesa, aguardando.
— Quer mesmo falar sobre isso? – Nina
limpa as mãos em uma toalha úmida, trazida juntamente com a lagosta. – Quer mesmo
saber o que aconteceu no meu passado? –
faz uma pausa dramática e arremata: –
Talvez não goste do que ouvirá.
— Quero muito entendê-la, conhecê-la
melhor.
— Só quer isso porque faz parte da aposta.
– Nina cruza as mãos à frente do corpo, na defensiva.
— Não é isso. Não estou jogando. – a
sinceridade exala daqueles lábios sedutores.
Nina inspira profundamente. Poucas
pessoas sabem o que aconteceu no passado, sua história com Bruno. Lais e Nathália são duas delas. Mas um impulso em abrir o jogo a assola de repente, como se esse fosse o certo a fazer.
— Se é isso o que você quer, tudo bem.
Vou contar.
Quarenta e um: Abrindo o jogo
A alguns metros dali, escondida entre
arbustos de folhagens esverdeadas, Bárbara aproxima o zoom da câmera e tira mais uma foto. A Kibi Mor está fritando de raiva por ainda não ter conseguido a fotografia que imaginou. Vingança é a única palavra que essa garota parece conhecer.
De todas as fotos, apenas duas são
realmente boas: a de Lex e Nina na trilha da Caça ao Tesouro e a da gruta. A imagem do beijo na quadra de tênis também é
fenomenal, mas não terá o efeito desejado.
Afinal, a sala inteira assistiu ao espetáculo de camarote. Não. Ela precisa de um material inédito e caliente. Quer provar que Nina é uma biscate.

— Não acredito que esteja aí observando os pombinhos. – Bola chega por trás, sem aviso.


— Cale a boca e se abaixe! – Bárbara puxa Bola para detrás dos arbustos. – Quer entregar a minha localização, seu idiota?
— Quem você está chamando de idiota?
— Bolinha, é sério, eu preciso muito de
uma foto quente. Então, se me der licença…
— Eu tenho o que você precisa. – Bola a
encara com uma expressão de superioridade.
– Mas o preço vai dobrar.
— Como é? Está querendo me chantagear?

Eu deveria rir, mas a situação é tensa.


Todo chantagista já passou ou passará por um momento como esse, afinal, colhemos o
que plantamos.
Bola tem um trunfo ilícito na manga, algo
que poderá mudar o rumo dos acontecimentos. Eu já disse que esse garoto é mau?
— O que você tem para me ajudar? Uma
foto quente? A Nina nua? O que é? – Bárbara é a ansiedade em pessoa ao chacoalhar os
ombros de Bola.
— Primeiro vamos determinar o preço, só
então eu lhe mostro o produto. – Bola negocia, preguiçosamente. O cara está por cima e sabe disso.
— Droga! – Bárbara se inflama. – Tudo
bem, qual o seu preço?
— No luau de hoje a noite, quero que fique comigo na frente de todos. – a expressão de Bola não se altera.
— Como é? – a Kibi sibila e levanta num
pulo.
— É isso ou nada feito. Você é quem sabe.
– Bola dá de ombros, indiferente.
— Qual é a jogada? O que você tem em
mãos?
— Aceitará o meu preço?
A garota se ajoelha na grama recém-
aparada, pensativa. Seus olhos se estreitam, ávidos por descobrir o plano de Bola.
Sentindo certa repulsa por si mesma, ela
resolve pagar para ver.
— Tudo bem, eu aceito. – Bárbara ruge. –
Agora me diga, o que você tem para a minha vingança?
— Isso aqui. – Bola tira do bolso da
bermuda um frasco sem rótulo.
— Em que isso vai me ajudar? – Bárbara faz cara de quem conversa com um otário.
Bem, ela realmente conversa com um otário.
— Eu roubei isso aqui do estoque do meu
irmão, sabia que seria útil em algum
momento. – ele rola o frasco entre os dedos.
– Ele e os amigos da faculdade criaram essa droga. A batizaram de Droga da Coragem.
Quem a ingere, fica totalmente desinibido e
faz coisas que nunca faria, nem à base de álcool.
— Isso é uma droga? – Bárbara se senta
com os olhos brilhando em excitação. – Tipo, uma droga, droga?
— É, quer que eu desenhe? Que parte você
não entendeu?
— Bola, você é um gênio!
— Eu sei, só que ninguém parece perceber
isso. – o garoto olha para o céu, distraindo-se. Bárbara pigarreia e então ele continua: –
Enfim, apenas seis gotas disso aqui e a Nina vai fazer o que tem vontade. Sem medos,
receios ou pudores. Você finalmente
conseguirá sua vingança.
Bárbara tenta pegar o frasco das mãos de
Bola, mas num impulso, ele fecha os dedos, meneando a cabeça em negativa.
— Nada disso. Primeiro pague, depois
receba.
— Mas amanhã é o último dia na ilha.
Temos que usar isso hoje mesmo! – a Kibi é tomada por uma sensação de urgência, seus lábios tremem com as possibilidades.
— Pague o que me deve hoje e amanhã eu
garanto que terá a sua foto quente.
— Esse troço é perigoso, tipo, a Nina pode morrer e tal? – não que Bárbara esteja
preocupada com isso, a pergunta foi feita por desencargo de consciência.
— Não é perigoso. Relaxe, vai sair tudo
como você quer. – Bola se levanta do esconderijo. – Estamos acertados?
Com um sorriso maquiavélico e olhos
flamejantes, Bárbara chacoalha a cabeça em concordância.
— Estamos acertados.

***
Lex quer desvendar todos os segredos
dessa linda garota de olhos esverdeados e a estimula a continuar. Nina não acredita que esteja a ponto de contar algo tão íntimo a ele.
Ela se convence de que falar pode lhe fazer bem, expurgando todo o veneno que ainda
corre em suas veias. Quem sabe o passado de Nina mostre a Lex que o terreno no qual pisa é perigoso e arriscado, cheio de minas enterradas e armadilhas mortais.
Nina suspira alto, sentindo algo se remexer dentro de si. Talvez seja a lagosta, ou seu espírito, quem sabe?
— Quando eu tinha quinze anos, comecei a
namorar um cara dois anos mais velho. Nos conhecemos no colégio e ele estava prestes a se formar. Nós ficávamos naquele flerte à distância e eu nunca tinha tido a coragem de me aproximar.
“Alguns amigos me avisaram que ele era um tremendo galinha, mas eu achava que estava apaixonada e nem liguei para os
comentários. Quando a oportunidade surgiu, eu me agarrei a ela.
“Namoramos por seis meses. Meus pais eram contra e passaram a vigiar todos os meus
passos. Eu não podia usar a internet e os telefonemas eram gravados. Meu pai é
advogado criminalista e minha mãe trabalha com segurança da informação, ou seja, eles desconfiam até da própria sombra. Hoje eu os entendo perfeitamente.”
Nina faz uma pausa. Rememorar o passado
nunca fez bem a ela. Mas de alguma forma, sente que quando terminar a narrativa, será uma outra pessoa.
— O que aconteceu? – Lex reclina para
trás, escorando o corpo com as mãos.
— Durante seis meses, nós namoramos na
minha casa e às escondidas, quando eu
conseguia enganar os meus velhos. O filho da mãe tinha uma lábia incrível e fez com que eu acreditasse que era especial. Ele dizia que me amava e que eu era única e perfeita.
Hoje eu sei que ele só estava preparando o
terreno para o ataque.

Os lábios de Lex se retesam. As pálpebras tremem e ele se inclina sobre a mesa com os punhos cerrados. Uma sombra atravessa


aquele olhar dourado e Nina continua:
— Todas as vezes que nos encontrávamos,
era a mesma história. Ele me amava, eu o
amava e nós tínhamos que elevar nosso
relacionamento a um outro patamar. Eu era muito nova, Lex, totalmente inexperiente e, de certa forma, inocente. Ele usou isso contra mim, da forma mais repugnante que
se possa imaginar.
“Numa tarde, o cara apareceu na minha casa sem aviso. Eu estava sozinha e as coisas
começaram a evoluir rápido demais… eu não tive escapatória.”
Nina faz outra pausa e, por incrível que
pareça, não está se debulhando em lágrimas.
A expressão de Lex é matadora e o cara
trinca os dentes, mas não diz nada. Não
ainda.
— Eu não queria, juro para você. Eu só tinha dezesseis anos e não estava pronta.

Mas ele forçou a barra, disse coisas que eu queria ouvir. Parecia que ele podia ler meus


pensamentos, minhas vontades.
“Eu sempre fui uma tola romântica. Que
idiota. Nunca pensei que me entregaria
daquela forma, no sofá da sala, sem qualquer preparação, sem… sem romance.
“Quando terminou e ele foi embora, eu não me senti plena ou flutuando como dizem. Eu me senti suja e com vontade de gritar. Não que ele tenha sido bruto, mas não foi feito com amor.
“Ele parou de me ligar depois disso. Eu
deixava recados no celular e nada de um
retorno. Quando eu finalmente tive coragem e liguei na casa dele, descobri que a mãe do cara nem sabia quem eu era. Ela disse algo mais ou menos assim: ‘Ah, não, outra
pseudo-namorada? Esse garoto não tem jeito. Quantos anos você tem, mocinha?’
“Foi então que eu descobri tudo. Minhas
amigas ajudaram, vasculhando a internet, perguntando aos amigos dos amigos dos
amigos. Tudo o que eu vivi durante seis
meses, não passou de uma mentira, uma farsa com o único intuito de me levar para a cama. Bem, para o sofá da sala.
“Eu quis muito me vingar, eu queria o
sangue dele nas minhas mãos. Mas não foi
nada disso o que eu fiz. Eu me resignei, me fechei para o mundo, parei de confiar nas pessoas e me transformei no que sou hoje.
Alguém que não consegue se relacionar, que tem medo de ser enganada e que está
permanentemente fechada para balanço.”
Quarenta e dois: A carapaça se quebra
Chef Louis traz dois pratos fundos,
recheados com risoto de salmão e cebolinhas picadas por cima. Nina já perdeu a fome e

Lex encara o prato, ainda com o maxilar trincado.


Quando se veem novamente sozinhos, Lex
a fita com um olhar febril e uma expressão que Nina nunca viu antes.
— Eu vou matar esse cara.
— Não precisa. – Nina deixa um sorriso
escapar. – O Doc, meu irmão, acabou com o Mustang novinho dele com um taco de
beisebol e a ajuda de uns amigos. E há duas semanas eu soube que ele finalmente foi
preso, por aliciamento de menores. Na época, meu pai até pensou em processar o cara,
mas minha mãe o fez desistir da ideia. Eu era muito nova e o escândalo poderia ter sido muito pior para mim. Eu aprendi uma lição, da pior maneira, tenho que admitir. Mas hoje ninguém me faz de idiota. Eu nunca mais vou deixar que alguém me use dessa forma. – se Nina estava tranquila, isso muda quando ela

profere as duas últimas frases. Um brilho cortante surge em seus grandes olhos esverdeados. – Consegue me entender melhor agora?


— Não me importa se ele foi preso, ainda
quero matar esse desgraçado. – Lex sustenta uma expressão a lá Chuck Norris. –

Eu não faria isso com você, nunca a enganaria dessa maneira.


— Ah, Lex, qual é! – Nina zomba. – Você é o galinha do Prisma, um apostador, um
mentiroso… conta outra, vai.
— Acha que eu chegaria a esse ponto? –
Lex faz uma pausa com o cenho franzido.
Quer provar que Nina não precisa temê-lo de maneira alguma e ele sabe como a
convencerá: – Quer ouvir uma história?
— É sobre uma aposta? – Nina empurra o
risoto para o lado, apoiando os cotovelos na mesa.
— É sobre uma aposta sim. E isso vai
provar a você que eu tenho caráter.
— Por que quer me provar isso? Não estou cobrando nada.
— Ainda assim, quero contar. Vai ouvir?
Nesse ponto, Chef Louis faz cara de quem
vai chorar. Quando entra no bangalô e vê os dois pratos intocados, o francês sai e o
baiano arretado entra em cena.
— Oxente! Vocês nem tocaram no risoto!
— Desculpe, Chef, estamos realmente
satisfeitos. E aliás, estava tudo perfeito. –
Lex não tira os olhos de Nina e vice-versa.
— Bom, nesse caso, vou trazer as
sobremesas. Vocês vão comer, certo?
— Pode trazer. – é Nina quem responde e o Chef volta para a cozinha, choramingando
com o garçom.
Lex observa Nina com outros olhos. Apesar do ódio que está sentindo pela história que ouviu, sente-se orgulhoso por ela não ter se deixado abater, como era de se pressupor.
Ela é forte e soube canalizar muito bem a

amarga experiência que vivenciou.


— Não me olhe assim, não quero que sinta
pena. – Nina se remexe, um tanto
desconfortável.
— Pena? O que sinto está bem longe disso.
— Tenho que confessar que foi muito bom
colocar isso para fora. Talvez você tenha conseguido o que ninguém mais conseguiu.
— Derrubar o muro que você construiu
para se proteger? – Lex arrisca um palpite.
— É, algo assim. – ela faz uma pausa

lacônica antes de passar a palavra para Lex:


– Bem, sua vez de falar.
Lex se ajeita melhor, como se isso tornasse a tarefa a seguir mais fácil. Esse é um
segredo bem guardado, que ele se sente
impelido a dividir com Nina. Assim como
agora ele a entende melhor, talvez ela o
compreenda também.
— Eu fiquei com a Bárbara no ano passado.
Nunca tinha namorado ninguém antes e não
estava interessado. Não por medo de me envolver, entenda. Eu acho que não estava pronto, não tinha encontrado a pessoa certa.

Lex faz uma pausa e busca os olhos de


Nina. Se ela entendeu o recado eu não sei, mas nós entendemos!
— A galera vivia me zoando, dizendo que
eu não era bom com essa coisa de
relacionamentos. Até aí, tudo certo. O
problema aconteceu no dia em que me
desafiaram a namorar uma mesma garota,
por quinze dias.
— Você não se conteve e quis provar que
era capaz. – Nina adivinha, sabiamente. –
Vocês garotos são tão estranhos.
— Gancho lançou a aposta e…
— Sempre o Gancho. Ele é aquele diabinho
de chifres que fica sobre o ombro esquerdo, não é? – Nina interrompe a narrativa.
— Para dizer a verdade, na maior parte do tempo ele é o anjinho de auréola sobre meu
ombro direito. – Lex morde o lábio e o Chef volta da cozinha.
— Esse é o trio Inamorata. Mousse de
chocolate branco, mousse de coco e mousse de morango com calda de frutas vermelhas. –
o Chef explica e o garçom coloca os pratos ricamente enfeitados sobre a mesa. –

Se
vocês não comerem, juro que me afogo no

mar.
Nina e Lex não se aguentam e desatam a
rir. Para que o Chef não cometa suicídio, Nina pega uma colherada e leva aos lábios. O
mousse de morango derrete na boca e ela
solta um suspiro de prazer. O Chef sorri, orgulhoso.
— Querem um café? Um chá? Um
cappuccino? – ele oferece.
— Não, obrigada. – Nina recusa.
— Estamos bem, valeu mesmo. – Lex
também recusa e quando ficam sozinhos,

tenta retomar a linha de raciocínio: – Onde


eu estava?
— Na aposta de quinze dias lançada pelo
lado demo do Gancho. – Nina elucida e solta outro suspiro ao levar o mousse de coco à boca. – Cara, isso está muito bom!
— O lance foi que eu aceitei a aposta. A
Bárbara estava a fim e eu jurei levar o
namoro à sério, como namorados costumam
fazer.
— Você enganou a garota. – Nina alfineta.
— Ela queria namorar e eu dei isso a ela, por um breve período. – Lex dá de ombros, indiferente.

— Em que você é tão diferente do cara que me enganou? – Nina assume uma postura de


ataque.
— Chegarei lá. – Lex faz outra pausa. –
Nós namoramos por quinze dias e eu tenho
consciência de que fui um ótimo namorado.
Eu a levava ao shopping, ao cinema, ao Mc Donald’s, ao Burguer King, à sorveteria e
ainda escutava aquela ladainha chata de sempre, com a maior boa vontade.
— Hum, sei.
— É sério, não foi fácil como você imagina.
No décimo sexto dia, eu já estava pronto

para terminar o namoro. Tinha vencido o


desafio e poderia ganhar minha liberdade de volta. E como eu ansiava por ela, você não faz ideia. A garota vivia no meu pé, me ligando de cinco em cinco minutos, me
proibindo disso e daquilo, palpitando em
tudo, reclamando de todos os meus amigos…
enfim, foi o inferno na Terra.
“Numa tarde, ela chegou na minha casa
sem avisar. Quando dei por mim, ela estava praticamente nua, se oferecendo desesperadamente.”
Nina solta a colher no prato e engasga.

Precisa de água para se recuperar do choque.


Antes que possa fazer qualquer comentário, Lex continua.
— A Bárbara armou uma emboscada e tive que terminar o namoro com ela deitada na
minha cama, seminua, numa das situações
mais embaraçosas pelas quais já passei na vida.
— Vocês… quero dizer… você e ela…?
— Não! Eu jamais faria algo assim! Nina,
eu não conseguiria conviver com isso.
— Lex, não me diga que é virgem?
— Claro que não! Mas eu não poderia fazer isso com a Bárbara, você entende?

Tudo não passava de uma aposta.

Só um detalhe: quando Lex praticamente
gritou “claro que não”, Nina sentiu uma
pontada de ciúmes brotando em algum lugar do seu ser.
— E o que ela fez? – até o tom da garota
mudou depois disso.
— Foi a cena mais deprimente que eu já
assisti. Juro que me senti um crápula, da pior espécie. Ela se ajoelhou e implorou para que
eu voltasse atrás. Contei sobre a aposta, deixei tudo às claras, mas nada parecia adiantar.
— Ela implorou para você não terminar o

namoro? – Nina é pega de surpresa, não


consegue imaginar Bárbara suplicando por
nada.
— Não! Implorou para que eu transasse
com ela!
— Ai. Meu. Deus.
— Está entendendo agora? Depois desse
lance com a Bárbara, eu jurei que nunca
mais entraria em uma aposta.
— Nunca mais?
— Envolvendo mulheres, depois da Bárbara, você foi a única. – ele a encara, com profundidade. – Eu não queria aceitar essa aposta, Nina.
— Por que aceitou?
Hum, terreno perigoso! Será que Lex terá a coragem de abrir o jogo e contar que está
sendo chantageado pela Kibi Mor?
— Ei, vencedores! Como foi o almoço? – o
monitor-chefe entra no bangalô, todo
sorridente.
— Foi excelente. – Lex responde aliviado, mais uma vez salvo pelo gongo.
— Nina?
— Foi ótimo, valeu o desafio. – ela responde, num tom de decepção. O monitor
tinha que aparecer justo agora?
— Bem, se já tiverem terminado, a lancha
os aguarda. Vamos?
— Esse papo não termina aqui. – Nina
sussurra para Lex enquanto seguem o
monitor em direção ao píer.

***
A lancha não é grande como Nina
imaginou. É toda branca, com frisos laterais azuis e poucos lugares à bordo. O

monitor-chefe liga o motor e pede que os garotos se segurem, porque a embarcação vai voar.


Lex e Nina se sentam no único banco de dois lugares. Ela quer voltar no assunto da aposta, mas quando a lancha arranca, fica difícil falar com o barulho do vento. Nesse caso, ela grita:
— Vai me contar, não vai? Sobre o porquê
de ter aceitado a aposta?
— Não agora!
— Lex, não me enrole.
— Nina, eu não sou o filho da puta que
você imaginava. Isso já não basta?
— Não!
A lancha percorre todo o contorno da ilha, numa velocidade surpreendente. Em alguns

pontos, é como se a embarcação realmente


planasse sobre a água, criando ondas laterais e assustando os pássaros.
Lex e Nina estão divagando em suas
próprias mentes. As belezas naturais passam voando e eles nem se dão conta.
Lex está ruminando sobre tudo o que Nina
contou no almoço. Imagina-se quebrando a cara do sujeito que a enganou, arrancando-lhe todos os dentes da boca.
Nina está pensando em Bárbara e na cena
que se desenrolou no quarto de Lex. Nem em mil anos ela se submeteria a implorar por um cara dessa maneira. Realmente Lex não é o filho da puta que ela imaginava. Ao pensar nisso, dá uma olhada de esguelha para ele.
Um sorriso tímido lhe escapa dos lábios, um gesto que finalmente, quebra a carapaça ao meio.
Quarenta e três: Luau
Nina não consegue conversar com Lex
quando voltam do passeio de lancha. Gancho os aguarda no píer, parecendo um tanto
quanto desesperado. Antes que os dois
amigos sumam de vista, Nina puxa Lex pelo braço.
— Nossa conversa não terminou.
— Eu sei que não. Nós vamos retomar, eu
prometo. – Lex está sendo disputado como num cabo de guerra, com Nina puxando de
um lado e Gancho do outro.
— Depois vocês conversam. O que eu tenho
para tratar com o Lex é da mais alta prioridade. – Gancho puxa o amigo com mais força e Nina o solta.
— No luau conversamos, está bem? – Lex
grita por sobre os ombros, sendo arrastado por Gancho.
— Você não vai escapar. – ela balbucia
para si própria.

***
No quarto, longe de ouvidos indiscretos,
Gancho anda de um lado para o outro,
deixando Lex zonzo. O cara está tentando
montar o quebra-cabeças sozinho, mas está difícil pacas.

— Se não me disser o que está havendo,


como poderei ajudar, Cabeça?
— Man, tem treta nessa parada.
— Fala logo, brow! – Lex se irrita.
— Está rolando uma nova aposta no ar. E
juro, meu camarada, nesse angu tem um
caroção.
— Deus do céu, desembucha!
— O Bola lançou uma nova aposta hoje. É
um desafio impossível, mas o cara jogou uma grana alta na roda, certo de que vai rolar. –

Gancho leva o indicador ao queixo. – Como ele pode ter tanta certeza?


— Que aposta é essa?
— Bola versus Bárbara.

***
As meninas já estão prontas para o luau.
Desde que voltou do passeio de lancha, Nina não viu Lex em lugar algum. Aliás, nem
Gancho.
Será que o sumiço deles tem algo a ver
com a aposta? Estará Nina sendo manipulada e tudo não passa de uma farsa? Ela não
divide esses temores com as amigas, prefere

se abster em seu próprio mundo cheio de dúvidas.


Nathália está usando um vestido
comportado, desses com florzinhas e detalhes fofos nas mangas bufantes. O

cabelo está


preso, para variar, em um rabo de cavalo.
Nos pés, chinelinhos da coleção particular de Lais.
A viciada em chinelos está usando uma saia longa, com estampa indiana e franjas
laterais. Por cima do biquíni, uma blusinha canelada branca e sem mangas arremata o
visual.
Nina optou por um vestido acima dos
joelhos, com uma estampa indefinida em tons de verde e marrom, mangas fluidas que descem até os cotovelos e um decote V de
arrasar. Por baixo, o biquíni verde fica
visível, já que a vestimenta é um tanto
quanto transparente. Se cuide, Lex!
Vestidas para matar, as garotas seguem
rumo à praia.
São dez da noite. A lua cheia está
particularmente mágica, cercada por um halo brilhante e azulado. O céu se completa de forma majestosa, com milhares de diamantes no firmamento. O mar está calmo e uma
brisa leve acaricia a pele de quem está por ali. O clima é perfeito para um luau.

Na praia, um imenso tablado de madeira foi transformado em pista de dança e uma banda já está a postos, no aquecimento.


Uma fogueira foi construída no caminho
para o mar. As primeiras chamas já crepitam, um tanto disformes por culpa da brisa. Uma mesa de apoio foi disposta, com palitinhos de marshmallow e queijo coalho. Nham.
Holofotes apontados para o mar estão em
funcionamento e candelabros foram dispostos por todos os lados, fechando o cenário com maestria.
Garçons circulam entre os estudantes com
bebidas coloridas arrematadas com canudos psicodélicos, daqueles que brilham no escuro.
Lex e Gancho conversam, um pouco
afastados da multidão que se forma sobre o tablado. A banda toca um reggae e a galera dança, no ritmo do Bob Marley.

— Que bom que eu não tive que arrancar


essa informação da Nathi. – Gancho se
balança em uma rede de dois lugares, presa nos coqueiros. – Cara, não acredito que a Nina tenha passado por isso. Esse cara
merecia umas porradas.
Lex abriu o jogo com o melhor amigo,
contando tudo sobre Nina e o seu passado
amoroso. Ela não pediu segredo e o garoto não consegue esconder nada de Gancho.
— E você e a Nathi? – Lex se joga na rede e Gancho sente o solavanco, quase caindo
para trás.
— A aposta ainda está rolando, não vou chegar junto. Cara, se ela descobrir…
— Quem contará? – Lex se altera. –
Ninguém vai contar, Cabeça, eu garanto.
Aproveite o luau, as estrelas, a música… esse é o momento.
— Acha isso?
— Um momento perfeito como esse, nunca
mais. – Lex dá uma geral ao redor, sentindo o clima. – Quando voltarmos para São Paulo, teremos apenas mais duas semanas de aula e game over.
— Eu tô afinzão dela, saca? Nós
combinamos em tudo, já percebeu? – Gancho sussurra para que ninguém os ouça.
— Já percebi sim. – Lex enforca Gancho, na brincadeira.
— E a Nina? Investirá nela quando
voltarmos para Sampa? – Gancho ajeita o
boné e mira o amigo.
— As possibilidades são altas.
— Eu sabia! – Gancho grita e logo abaixa a voz. – Eu sabia, eu sabia!
— Shhhhhhh. Ninguém deve saber sobre isso, está me entendendo? Se a Bárbara desconfiar, já era. – Lex, um tanto temeroso, olha para os lados, certificando-se de que ninguém os ouve.
— E a aposta Bola versus Bárbara? –
Gancho impulsiona a rede com um dos pés. –
Eu tô preocupadão.
— Veremos no que vai dar. Conforme for,
afogaremos o Bola para arrancar dele a
história que originou isso tudo.

***
O romance está no ar. Talvez seja a praia.
Porventura a lua. Acaso as estrelas. Os
estudantes estão sentindo a vibração cor-derosa e um aroma apaixonado se espalha
entre eles, abraçando-os, incitando-os a ir em frente.
É nesse clima que Nando e Camila estão.
Os dois dançam juntinhos, sobre o tablado de madeira. Camila não sabe sobre a aposta e
Nando jurou de morte quem resolvesse abrir o bico.
Os monitores, que não são bestas nem
nada, dispuseram um vaso sobre o tablado, repleto de lenços de seda. A garota que
quiser tirar um cara para dançar, deverá
pegar um dos lenços e colocar no pescoço do dito cujo.
É o que Nathi fará nesse exato momento.
— O que está esperando? – Lais está a
ponto de ela mesma tirar Gancho para
dançar com Nathália. – Está com medo de
quê?
— Não estou com medo! – Nathália treme
nas bases nesse exato segundo. – É só que…
e se ele disser não? Será que eu suportaria ser rejeitada?
— Ah, fala sério! – Nina revira os olhos. –
Por que ele a rejeitaria? Você é linda,
inteligente, divertida e ainda por cima ri de todas as piadas dele. O que mais o Gancho
poderia querer?
— Mas, e se…
— Cale a boca. Pegue esse lenço e vá lá
agora! – Lais pesca um lenço lilás de dentro do vaso e entrega para Nathi. –

Agora, Dona Nathália.


— Mas, mas…
— Nunca saberá se não for até lá. E outra, se o Gancho tiver a coragem de rejeitar você, eu quebro a cara dele. – Nina rosna.
— Quebraria a cara dele? Por mim? – o
semblante de Nathália é de pura admiração.
– Jura mesmo?
— Ah, ela quebrará sim. E eu ajudarei. –
Lais aperta os olhos e mostra os dentes.
— Respire fundo e vá até lá. Não deixe que nada a desvie do caminho. Não olhe para trás e nem para os lados. Apenas trace uma linha reta e vá. – Nina dá as coordenadas,
empurrando Nathi na direção de Gancho.

Nathália vai.


O coração aos pulos.
O estômago retesado.
Os olhos arregalados.
O sangue congelado.
As bochechas queimando.
A respiração entrecortada.
A garganta fechada.
A boca seca.
Os lábios trêmulos.
As mãos frias.
As pernas bambas.
Com o lenço lilás em mãos, Nathi atravessa o tablado um tanto cambaleante, mas não se desvia do caminho. Seus olhos estão cravados em Gancho que, no momento,
conversa com Lex e Hulk.
O cara, recostado num coqueiro, está
usando bermuda preta, camiseta branca e
um boné surrado da Nike, com a aba para
trás. Nathália deixa um suspiro apaixonado escapar da garganta.
Lex é o primeiro a notar a aproximação de Nathi. Dá uma cutucada em Gancho para o
amigo se ligar.
— Que foi, man?
— Sabe dançar, Cabeçudo? – Lex lança um
sorriso debochado no ar.
— Sei. Por quê?
— Oi, gente. – Nathi finalmente alcança os garotos. Engole algo que não lhe parece
saliva. Está mais para um pedregulho
daqueles cortantes. Engasga ao falar, as
palavras não saem de sua boca. Percebendo que Nathália está em apuros, Lex resolve
ajudar.
— O Gancho aqui estava doido para dançar com você, não é, Cabeça? – Lex o empurra, com o cotovelo.
— Verdade? – Nathi pergunta, um tanto
tímida, fazendo um círculo na areia com a ponta do chinelo.
Ao notar que Gancho está mais perdido do
que cego em tiroteio, mais perdido do que cachorro em dia de mudança e outros ditados populares, Lex dá um empurrão no cara:
— Não é, Gancho, meu amigão? – Lex
morde o lábio e faz um sinal com a cabeça.
Finalmente o cara entende. Caraca, já não era sem tempo.
— É, Nathi, eu só não sabia se você… –
Gancho se esquece do que iria dizer ao fitar os olhos de Nathália. Tomando coragem e
algo mais, o garoto declara solenemente: –
Nathi, o negócio é o seguinte, eu adoraria dançar com você. Me daria essa honra? – e o cara, com todo o seu charme, ajoelha-se aos pés de Nathália lhe estendendo a mão.
— Eu adoraria. – Nathi, delicadamente,
coloca sua mão sobre a dele. Quando o pirata se levanta, com um sorriso que Lex nunca
havia visto antes, Nathália passa o lenço lilás em volta do pescoço do garoto, puxando-o
como um cachorrinho para a pista de dança.
Ah, o amor!

***
Nina e Lais acompanham à distância, enquanto Nathália puxa Gancho para o meio do tablado. Ela está tão feliz que a alegria reverbera ao seu redor. Uma aura cor-derosa envolve aqueles dois de maneira
sublime.
As amigas veem quando Gancho se
aproxima de Nathi, passando uma mão em
volta de sua cintura. A outra mão está no ar, apenas aguardando que Nathália a pegue.
Ela pega. E então, ele a puxa para si e os corpos finalmente se tocam.
Nina olha para Lais. Lais olha para Nina. As garotas não se contém e começam a rir, sem conseguir parar. Conhecem esses ataques de riso? Daqueles que nos arrancam lágrimas?
Pois é exatamente isso o que acontece.
Quando o ataque passa, após várias tentativas para ficarem sérias, Lais tomba a
cabeça de lado e fixa seu olhar em Nina. Vem bomba por aí.
— E você? O que ainda está fazendo aqui?
— Não farei isso. – Nina sabe do que a
amiga está falando. – Não vou tirar o Lex para dançar.
— Por que não?
— A aposta! – Nina estreita os olhos, com uma expressão do tipo “alô?”. – Acha que
vou dar esse gostinho para esses moleques?
— Ah, Nina, esqueça isso. Vá lá, tire o cara para dançar. Entre uma dança e outra, ele pode finalmente revelar o porquê de ter
aceitado a aposta. – Lais puxa um lenço azul de dentro do vaso e estende para Nina. – Eu desafio você.
A ficha de Nina cai, como um soco no
estômago. Assim como Lex, ela também
odeia ser desafiada. Não consegue se
esquivar, é mais forte do que ela. Como
podem ser tão iguais?
— Está jogando sujo. – Nina olha para os chinelos verdes.
— Claro que estou. Sei que não suporta ser desafiada. Eu conheço você, Nina Albuquerque, ainda que há pouco tempo. –
Lais bate um dos pés no chão, num ritmo
constante. – Sei que quer isso, eu vejo nos seus olhos.
— Está tão na cara assim?
— Desculpe, mas está. Você não consegue
mais esconder.
— E se tudo for mentira? E se o Lex estiver jogando? Como vou saber? –

finalmente Nina dá voz as suas dúvidas.


— Os olhos não mentem, Nina. – Lais passa o lenço em volta do pescoço da amiga. – O
Lex está olhando para cá nesse exato
momento. Aliás, ele está sempre olhando
para você, desde que chegamos à ilha. Você mexe com ele, é visível. Só não vê quem não quer.
— Estou com medo. – Nina jamais afirmou isso em voz alta. Medo é uma palavra que

não faz parte do seu vocabulário. Bem, não fazia parte até agora.


— Eu sei que está. Esse jogo de sedução
bagunçou tudo, não foi? Essa confusão
sentimental na qual está é resultado disso.
Encare de frente o Lex, enfrente seu medo. –
Lais sonda os olhos de Nina, segurando-a
pelos ombros. – Proteger-se para sempre não é a solução. O sofrimento existe, mas o amor também existe. Você precisa arriscar.
— Uau, você foi profunda agora.
— Vá lá e deixe acontecer. O que tiver que ser, será.
Quarenta e quatro: Laçando Lex com um

lenço de seda


Pensativa.
Na beira do mar, Nina segura o lenço azul entre as mãos. Ele se agita suavemente,
dançando com a brisa que vem do oceano.
Seus pés estão cravados na areia enquanto observa, atenta, as pequenas ondas se formarem. A água chega, tocando seus pés e recua, para voltar logo a seguir.
Está pesando sobre o que Lais disse, essa coisa que envolve sofrimento e amor.

Se for enganada novamente, será que suportará?


Nina não tem certeza de que sim ou de que não. Mas assim é a vida, não é?

Recheada de incertezas.


Lais tirou Hulk para dançar. Não, ela não se esqueceu de Doc. Está triste, um tanto
saudosa e também não tem certeza sobre nada. Ela e Hulk não têm nada em comum,
são apenas amigos. Podemos dançar com
amigos, não podemos? É o que ela está
fazendo nesse exato momento.
O ar fresco preenche os pulmões de Nina,
relaxando-a. Não sente o vazio, não se sente sozinha no momento. E realmente ela não
está.
Lex está parado a uma curta distância, apenas coexistindo. Observa os cabelos de Nina esvoaçando para trás, juntamente com seu vestido semi-transparente. O

perfume
que ela exala chega às suas narinas e ele infla o peito, tomando coragem.

— Pensei que esse lenço me tiraria para
dançar. – a voz grave e um tanto rouca
atravessa o ar da noite.
Nina não se vira, mas sorri. É um sorriso de lábios fechados, um tanto contido.

Solta uma das mãos do lenço e, sentindo-se livre, o tecido se agita para trás, alcançando Lex que o pega com a mão direita.


Nesse momento, ambos estão unidos por
um lenço azul de seda, comprido demais,
distante demais.
Lex vai enrolando o lenço na mão,
diminuindo o espaço que os separa, chegando cada vez mais próximo. Nina sente a
aproximação às suas costas.
— Me diga que não é apenas uma aposta. –
as palavras dela são levadas pela brisa,
carregadas de insegurança.
— Não é apenas uma aposta. – o hálito
quente de Lex alcança seu pescoço. Estão tão próximos que, talvez, nem o fino lenço de seda consiga ficar entre eles.
Nina gira sobre a areia e seus cabelos voam para o rosto, alcançando Lex. Com as duas mãos, ele os alisa para trás. Ela estremece ao simples toque, tombando a cabeça de lado e cerrando as pálpebras. Lex sente uma urgência em beijá-la e dá voz a essa
vontade:
— Não sabe o quanto eu quero beijar você, aqui, agora. – Lex acaricia o rosto de Nina com a ponta dos dedos. – Mas não posso

permitir que todos vejam, não quero que


perca a aposta.
— Eu não ligo em perder. Porque na
verdade, acho que ganharei.
— Você já ganhou.
Os olhos de Nina se abrem e se veem
orbitando os raios solares de Lex. Não, ele não está mentindo. Será que Nina deve
confiar em sua intuição?
Uma comoção vem do tablado. Os olhares
de ambos são imediatamente atraídos para

lá. E o que presenciam, eu descrevo agora, em detalhes: Gancho está com as costas arqueadas para


a frente, tombando Nathi em seus braços,
como sempre acontece no final de uma
dança. Os olhos estão cravados um no outro e as respirações se fundem numa só.
Gancho sustenta uma expressão de
admiração e Nathi está com um ar sonhador.
Os lábios se entreabrem, as pálpebras de
fecham. Num movimento sutil onde os
sentimentos assumem o comando, a boca de
Gancho envolve a de Nathi, em um momento para lá de perfeito.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
É o que todos os observadores deixam
escapar, mesmo que o grito seja silencioso.
Uma expressão incontida de felicidade
desagua no rosto de Nina. Quando Lex gira para encará-la, o semblante dele é o mesmo.
— Finalmente a Nathi tomou coragem. –
Nina vai recolhendo o lenço enrolado na mão de Lex.
— Posso dizer a mesma coisa do Gancho. –
Lex solta a ponta quando Nina o puxa delicadamente. – E então, esse lenço não vai mesmo me tirar para dançar?
— Quem disse isso? – Nina murmura e na
ponta dos pés, passa o lenço em volta do
pescoço de Lex. – Essa noite, você é meu.
Quarenta e cinco: O jogo pega fogo
Há um lenço azul no pescoço de Lex
Heinrich. De costas, Nina caminha
intuitivamente em direção ao tablado. Os
olhos de ambos não se desgrudam um
segundo sequer.

Murmurinhos começam a se formar na pista


de dança e conjecturas são atiradas para
todos os lados. Será que Nina perdeu a
aposta? Se apaixonou por Lex? Que diabos
está acontecendo?
Nina engole a saliva que se forma em sua
boca, está nervosa com essa demonstração
pública. Não que ligue para o que as pessoas pensam, não é isso. Mas os olhares cravados nela incomodam um bocado.
Nina dá um puxão no lenço, trazendo Lex
para mais perto. A trilha sonora não é lenta, mas dá para dançar juntinho. As mãos de Lex rasgam o ar, agarrando a cintura de Nina

com delicadeza. Ela solta as pontas do lenço e entrelaça os braços ao redor do pescoço dele.


O magnetismo entre esses dois gera uma
aura grandiosa, capaz de protegê-los contra qualquer mal. Juntos, possuem uma força
avassaladora, dessas que evocam o poder divino. Mas eles não sabem sobre isso.

Ainda.
Nina se deixa envolver pelos sentimentos


que afloram, não se importando mais com o que acontece ao redor. O tempo e o espaço se fundem, deixando de existir. Arrepia-se quando Lex acaricia seu pescoço com os
lábios úmidos.
— Está usando aquele perfume, não está? –
ele pergunta, inalando-a, inebriando-se com o aroma.

— Hipnose? – ela faz uma pausa. – Estou


sim.
Ela sente as batidas do coração dele contra seu próprio peito. Cerra as pálpebras quando seu hálito quente deixa marcas por onde passa. Nina não está mais no controle e ele a abraça com força, fazendo-a arfar.
Um novo murmurinho toma conta do
tablado. É Lex quem percebe primeiro o que está havendo. Troca olhares assustados com
Gancho. Bárbara acaba de tirar Bola para dançar, utilizando-se de um lenço vermelho sangue.
Lex para de dançar, afrouxando o abraço
em Nina. Ela percebe algo estranho e o fita, sem entender o que está havendo.

Nota que os olhos do cara estão fixos em algum ponto além e girando a cabeça, solta uma

exclamação.
Bárbara acaba de desferir um beijo de
língua em Fabiano, o Bola.

***
Lex está boquiaberto e uma de suas
pálpebras treme de raiva. Esse tempo todo o Bola estava jogando contra eles, as coisas finalmente começam a fazer algum sentido.
O cara é um agente duplo, está tão óbvio
agora. O que ele contou para as Kibis? Será que dedurou as apostas? Ah, claro que sim, Suzana e Ana Paula estavam agindo como se soubessem do jogo.
E o que Bola terá contra a Kibi Mor? Por que ela está se humilhando a esse ponto?
Terá algo a ver com Nina? Será que Bola conseguiu algo para que Bárbara possa
finalmente se vingar?
— Bola, seu lixo humano. – Lex murmura,
entredentes.
— O que foi? – Nina escuta o lamento de
Lex. – Está com ciúmes?
— Como é? Enlouqueceu?
— É o que está parecendo! – Nina empurra
Lex com as duas mãos.
— Não é nada disso.

Gancho e Nathália, de mãos dadas, se


juntam a Lex e Nina. Os amigos se entendem só com o olhar e Gancho está com o cenho
franzido e os olhos negros brilhando em
fúria.
Nesse ponto, Bárbara e Bola estão dando
um show – de horrores – na pista de dança.
Entre beijos e afagos, começam a dançar ao
ritmo da salsa. Agem como se não percebessem os olhares embasbacados e as bocas entreabertas ao redor.
— Lex, precisamos conversar. – Gancho

dispara, um tanto afoito.


— Só se for agora. – Lex concorda,
pegando Nina de surpresa.
— Como é? – ela encara Lex e Gancho. – O
que está acontecendo aqui?
— Nina, mais tarde. – Lex tira o lenço do pescoço e entrega a ela. – Prometo que depois conto tudo a você, mas não agora.
E antes que Nina ou Nathália possam dizer qualquer coisa, os dois seguem em direção às redes, distanciando-se ao máximo da muvuca na qual se transformou a pista de dança.
Nina e Nathália se entreolham, confusas.
Logo Lais se junta a elas, tão absorta quanto todo o mundo.

— Gente, o que está rolando aqui? O


mundo acabou e eu não estou sabendo? –
Lais sacode a cabeça, sem conseguir desviar os olhos de Bola e Bárbara.
Confusa e com o humor oscilando
drasticamente, Nina finca as unhas nas
palmas das mãos antes de concluir:
— Eu não faço ideia do que está rolando,
mas vou descobrir.

***
Os nervos de Lex pulsam em fúria. O
sangue borulha dentro das veias enquanto caminha em círculos na areia, tentando
entender o que está havendo.
Já está claro que Bola trabalha para as
Kibis. E o que mais? O que faria com que
Bárbara beijasse o cara na frente de todos?
Ele a está chantageando? Terá algo que a
Kibi precisa para a vingança? Ou não é nada disso e Lex está delirando?
— Conte tudo para a Nina, man. Abra o jogo antes que seja tarde. – Gancho aconselha.
— Não posso fazer isso, não antes de me entender com ela. – Lex leva as mãos à

cabeça, incerto.


— Cara, você precisa contar. Estou
sentindo uma vibe estranha, acho que vai dar merda, meu camarada.
— Precisamos descobrir o que está rolando, Cabeçudo. Talvez não tenha nada a ver com a aposta e a vingança da Kibi.
— Duvido!
— Ok, estou perdido. – Lex joga as mãos
para o céu. – Não sei o que fazer.
— Vamos arrebentar a cara do Bola até ele abrir o bico. Vamos torturar o cara! –

Gancho esmaga os dedos e soca o ar. – Que traíra filho da mãe!


— Ei, galera. – Hulk chega seguido por
todos os garotos do Prisma. – O que está

pegando naquela pista? Como o Bola


conseguiu vencer a aposta?
— Eu não faço a menor ideia, mas
precisamos descobrir. Estão comigo? –
Gancho estende o braço com a palma da mão virada para baixo.
— Estamos com você. – Lex repete o gesto
de Gancho, colocando a mão sobre a do
amigo.
Logo todos repetem o gesto, uma mão
sobre a outra. O que quer que Bola esteja escondendo, esses garotos irão descobrir.


***
Nina corre atrás de Lex, que segue
apressado para a sala de jogos. Quando ouve seu nome, estaca no lugar, sem se virar.
— Lex, o que está acontecendo?
— Nina, não posso falar sobre isso agora. –
ele não quer se virar, não pode deixar que seus olhos temerosos o entreguem.
— É isso então? Vai me deixar assim, no
vácuo? E será que dá para olhar para mim? –
Nina avança agarrando o braço dele,
puxando-o com violência.

Olhos nos olhos. Nina percebe que algo


está muito errado. Lex não consegue disfarçar e sabe bem disso.
— Confia em mim? – Nina não responde e
Lex refaz a pergunta. – Confia em mim,
Nina?
— Eu ainda não sei. – ela hesita.
Lex toma o rosto dela entre as mãos. Antes que ela o afaste, os lábios se colam com
força, com vontade, com fúria. Mas não é um beijo longo. Quando Lex abre os olhos,
segura Nina pelos ombros.
— É só o que peço, que confie em mim. –

ele então segue para a sala de jogos,


deixando uma desnorteada Nina para trás.
Quarenta e seis: Bola na mira
Na sala de jogos, os garotos começam a
lançar especulações sobre a aposta Bola
versus Bárbara. Gancho e Lex estão em um
canto, se entreolhando a todo momento.
Ninguém além deles sabe sobre a
chantagem da Kibi e a vingança para cima de
Nina. Gancho é a favor de abrirem o jogo, mas Lex prefere deixar o restante da turma de fora. Envolvê-los pode piorar ainda mais a situação que já é tensa o bastante.

— Vamos pegar o Bola sozinho e prensá-lo


contra a parede. – Gancho sussurra.
— Ele não vai falar. – Lex soca o tampo de uma mesa, enfurecido.
— Conte para a Nina, Lex, ela precisa
saber.
— Eu não faço ideia do que a Kibi esteja
armando. Antes de pegar o Bola de jeito, não vou contar nada, não me aproximarei dela.
Protegê-la é minha única prioridade no
momento.

***

O luau chega ao fim. Os garotos não


voltaram para a praia e as garotas estão
chupando o dedo, sozinhas em volta da
fogueira. Na verdade não chupam o dedo,
estão é devorando os espetos de
marshmallow e queijo coalho, derretidos no calor do fogo.
Nina está puta da vida. Não sabe o que
pensar e muito menos o que dizer para
Nathália e Lais.
Nathi também não está entendendo nada.
Gancho a deixou naquela pista de dança, sem ao menos se explicar. E Hulk fez o mesmo
com Lais. O que esses garotos estão
armando? E por que parece ter tudo a ver
com Bola e Bárbara?
Aliás, esses dois já sumiram das vistas.
Bárbara voltou para o quarto e Bola idem. No momento, os professores fazem a contagem
dos alunos, para se certificarem de que todos estão no hotel.
As garotas vão se levantando, se
despedindo, tristes pela viagem estar
chegando ao fim. Nina não sabe se
conseguirá pregar o olho. Uma voz interna afirma, categoricamente, que algo de muito ruim está para acontecer. Essa voz é vidente, só para constar.
As três amigas se levantam, sacodindo a
areia. Caminham, pesadamente, até a ala
das garotas. Nem sinal de Lex, Gancho ou os outros garotos. Nina sente o peito se
fechando, o coração ficando pequenino.
Novamente o vazio, a sensação de perda.
Mas que droga! Pelo jeito, não obterá
qualquer resposta hoje. Mas, amanhã, o Lex não lhe escapa.

***
Lex e Gancho convenceram os garotos a ficarem do lado de fora do quarto, caso os professores apareçam. Entram, sorrateiramente, caminhando pela escuridão.
Se Bola não está dormindo, finge muito bem.
E não é que esse é o caso?
Com uma chave de pescoço, Lex paralisa
Bola. O garoto tenta gritar, mas não
consegue. Gancho acende o abajur e o
interrogatório começa, à meia luz.
— Certo. Começaremos com essa aposta Bola versus Bárbara. – Lex inicia, de forma casual, como se estivesse numa roda de
amigos. – Como você conseguiu?
— Sem ar, sem ar. – a voz de Bola é
apenas um sopro.
— Vou afrouxar a pegada. Se você gritar ou tentar qualquer gracinha, eu arrebento essa sua cara, estamos entendidos? – Lex faz cara de mal. E a cara de mal dele é tão linda!
Bola meneia a cabeça, em concordância.
Lex afrouxa a chave de pescoço, o suficiente para que o cara possa responder as perguntas.
— Lex, não tem nada a ver com vocês,
caras. Eu chantageei a Bárbara, só isso. –
Bola choraminga.
— Você está trabalhando para as Kibis, não está? – Gancho inclina o corpo, sondando os olhos de Bola.
— Eu só segui o Lex e a Nina no dia da
Caça ao Tesouro. A Babi me pediu e eu ganhei um beijo em troca. Que mal há nisso?
— Com o que você chantageou a Bárbara?
– Lex se altera. – Fala!
— Eu disse a ela que contaria sobre aquele dia na mata. Disse que falaria para você e para a Nina também. Foi isso, caras, vocês precisam acreditar em mim.
— A Bárbara não beijaria você na frente de todos só por isso. Tem algo grande aqui e você está me escondendo os fatos, Bolota. –
Lex aperta novamente a chave e Bola dá um pulo na cama, asfixiando.
— Meu camarada, se eu fosse você, abriria o bico. Eu não tenho forças para segurar o Lex aqui, sacou? – Gancho dá dois tapas no ombro de Lex e em seguida, levanta a manga da camisa do amigo. O bíceps e o tríceps
dele são um espetáculo másculo. – Imagine tomar um soco desse cara? Você demoraria
um ano para reencontrar o caminho de casa,
acredite-me.
— Caras, eu juro que foi isso. Pelo amor de Deus, Lex, eu tô falando sério!
Toc, toc, toc.
Ops, professores a caminho. Um toque:
tudo ok. Dois toques: monitores. Três
toques: professores.
— Lex, temos que ir. – Gancho tenta mover o braço do cara, mas não consegue.

– Porra, man, quer se ferrar? Vamos sair daqui.


— Caras, eu tô falando a verdade, podem
confiar. – Bola está com as bochechas vermelhas, respirando com dificuldades.
— Vamos, Lex! – Gancho se levanta,
encaminhando-se para a porta.
— Meu irmão, vou descobrir o que está
havendo. E quando isso acontecer, é melhor você correr. – Lex dá o ultimato e segue
Gancho para fora do quarto.
Quando a porta se fecha atrás de Lex, Bola se senta na cama, ajeitando o colarinho do
pijama. Respira fundo, colérico. Num sussurro, ele diz para si mesmo:
— Você vai cair, Lex. E quando acontecer, sou eu quem darei o golpe de misericórdia.

Quarenta e sete: No quarto das Kibis


Antes de invadirmos o quarto das Kibis,
contarei uma historinha para vocês. É sobre um tal de Fabiano Bola e o ódio secreto que ele nutre por Alexandre Heinrich.
Bola, desde que se entende por gente,
possui um sentimento profundo em seu
íntimo. Um amor sufocado e bem guardado
por sua musa inspiradora, aquela que invade seus sonhos todas as noites. Essa garota se chama Bárbara, a Kibi.
Quando Bola descobriu que Babi e Lex
haviam ficado, sofreu como um cão sem
dono. Apesar de saber que nunca teria a Kibi em seus braços, Bola gostava de

fantasiar com o dia em que ela finalmente olharia para ele com outros olhos.


É claro que isso nunca aconteceu.
Quando o garoto soube que o namoro não
passava de uma aposta, ficou completamente doido. Na saída do colégio, puxou a Kibi para um lugar mais tranquilo e lhe contou tudo o que sabia a respeito.

Esse era o terceiro dia do namoro Lex versus Bárbara.


Transcrevo agora o diálogo entre os dois, depois que o Bola contou tudinho para a Kibi Mor:
— E daí? – Bárbara pergunta, impaciente.
— Estou dizendo que você está sendo
enganada! – Bola é mais enfático.
— Eu já sabia sobre a aposta, seu idiota. A Suze ouviu os meninos conversando.


Bárbara mira as unhas cor de ameixa.

— E você vai aceitar isso? – Bola está
inconformado.
— É a minha única chance com o Lex. E eu
vou agarrá-la, com as unhas se for preciso.
— Babi, você não precisa disso. Não
acredito que vá se humilhar desse jeito. –
Bola tenta tocá-la, mas a Kibi recua, em
repulsa.
— O que eu faço ou deixo de fazer, não lhe interessa. – Bárbara diz, ríspida. –

Me deixe em paz, tá legal?


— Mas, Babi…

— Tchau, Bola.


Já sabemos o que aconteceu depois: pole dance, Kibi seminua, Lex em perigo, fim da aposta.
Bola assistiu a Kibi chorar na manhã
seguinte do término do namoro. Viu Lex ser condecorado. E ouviu um papo que não
deveria ter escutado.
Lex não contou a ninguém sobre o que
realmente aconteceu naquele quarto. Mas,
como não consegue esconder nada de
Gancho, acabou abrindo a verdade para o
melhor amigo quando se viram sozinhos no

laboratório de química.


Eles não estavam realmente a sós.
Bola, escondido debaixo do balcão, fugia dos garotos do ano anterior. Ele havia aprontado, de novo, e estava sendo
perseguido por todo o colégio.
Encolhido e agachado no chão, Bola
acompanhou o relato detalhado de Lex sobre a tarde anterior em seu quarto.

Escutou o cara reclamar e dizer o quanto havia sido constrangedor. Ouviu –

quase chorando –
quando Lex contou como ela havia implorado para que transassem. A risada incrédula de Gancho lhe arranhou os ouvidos,
principalmente quando o pirata a chamou de vagabunda.
Naquele dia surgia a lista negra de Bola. E
Lex e Gancho encabeçavam essa lista.

***
Bárbara finge estar dormindo quando
Suzana e Ana Paula voltam para o quarto.
Ela é tão boa atriz que eu juraria estar vendo a garota em sono R.E.M.
Suzana e Ana Paula não se conformam com o que aconteceu pouco antes, na pista de
dança. Não entendem como Bárbara pôde
beijar Bola daquela maneira. O que a Kibi Mor estará tramando?
— Ela deve ter seus motivos. – Ana
sussurra, vestindo a camisola.
— Que motivos? Isso é loucura, essa
vingança a cegou completamente. – Suzana
tira a colcha da cama e se enfia debaixo dos lençóis.
— Do jeito que você fala, até parece que
não quer essa vingança. A Nina nos
humilhou, Suze. Temos que nos vingar!
— Nós aprontamos muito com ela também.
Lembra quando estouramos três tubos de
cola dentro da mochila dela? E quando
roubamos suas roupas depois da aula de

educação física?


— É, eu lembro. – Ana se recorda sim.
Chegou a ficar com dó da garota naquele dia.
— Então! – Suzana ajeita o travesseiro. –
Acho que estamos quites. Nós a humilhamos, ela nos humilhou. Acabou. Temos que
continuar com nossas vidas.
— A Babi não pensa assim. E você sabe que se não ficarmos do lado dela…
— Sim, eu sei. Ela continuará nos
chantageando. – Suze revira os olhos,
cansada de ser usada.

— É isso. – Ana puxa o lençol até o


pescoço. – Vamos dormir, amanhã
perguntaremos o que está acontecendo, tá
bom? Boa noite.
— Boa noite, Ana.

***
Os primeiros raios de sol atravessam as
persianas, iluminando o quarto das Kibis.
Esse é o último dia na Ilha Inamorata e
Bárbara está excitada demais para continuar na cama.
Quando finalmente abre os olhos, Bárbara vê Suzana e Ana Paula ajeitando as coisas, vestindo biquínis mínimos. Ela ainda se
lembra do diálogo da noite anterior e precisa saber se pode ou não contar com suas
amigas.
— Estão comigo ou contra mim? – Bárbara
pergunta, num tom rouco.
As duas levam um tremendo susto. Suzana
e Ana Paula se entreolham nervosamente.
Será que Bárbara ouviu a conversa
sussurrada?
— Estamos com você, mas antes terá que nos contar o que está acontecendo. Por que beijou o Bola daquela maneira? –

Ana
penteia as madeixas oxigenadas para trás.


— O Bola tem algo para esquentar essa
vingança. – Bárbara respira fundo. – E eu vou precisar da ajuda de vocês.
— O que teremos que fazer? – Suzana
amarra a canga em volta da cintura.
— O que fizeram até agora. Ficar à
espreita, aguardando o momento chegar.
Quero fotos e vídeos de tudo o que rolar
hoje. – Bárbara se levanta num pulo, espreguiçando-se demoradamente.
— O que o Bola tem a ver com tudo isso? –
Suzana interpela.
— Ele tem algo que pode mudar o rumo
dessa vingança. – Bárbara abre a mala rosa chiclete e tira de lá um fio dental branco e não é de limpar os dentes.
— Explique para nós. – Suzana se senta
aos pés da cama, passando uma leve camada de protetor solar nos braços.
— O Bola vai colocar algo na bebida da
Nina e se as coisas correrem como imagino, ela vai fazer tudo o que tiver vontade. Nós iremos fotografar e filmar cada passo da
vagaba.
— O que o Bola vai colocar na bebida dela?
Ele vai drogá-la? – Ana sobressalta-se. –
Babi, isso é absurdo!
— Absurdo, Ana? Absurdo foi o que a vagaba fez com a gente! Já se esqueceram?
– Bárbara vinca a testa, as pálpebras
pulsando enraivecidas.
— Drogar a Nina é demais, Babi. É demais
até para você! Isso já ultrapassou todos os limites aceitáveis. – Suzana pega sua toalha de piscina e finaliza: – Eu tô fora.
— Não pode cair fora! Ou então vou contar para os seus pais que…
— Pode contar! Já cansei de ser chantageada por você. Cansei de ser
manipulada, usada, humilhada! – Suzana faz uma pausa para respirar. – Isso não é
amizade.
Pisando duro, Suzana vai para a piscina,
batendo a porta do quarto com força ao sair.
— E você, Ana? Vai me trair também? – as
pupilas de Bárbara se dilatam de tanto ódio.
— Não, Babi. Estou com você até o fim.
Quarenta e oito: O início do último dia na
ilha
Lex e os garotos acordaram cedo para o
jogo de futebol masculino no campo
gramado. Estão todos por lá, menos Bola.
O jogo já dura vinte minutos e Lex
arrumou duas brigas nesse meio tempo. Está nervoso, aéreo, um tremendo pé no saco. A galera percebe e se junta ao redor do cara quando o garoto perde um gol feito.
— Certo, o que está rolando aqui? Abra o
jogo, Lex. – Hulk é o primeiro a falar.
— Anda, Lex, fala. – Nando se pendura no
ombro de Hulk.

Gancho e Lex se entreolham. Será que


podem confiar nesses caras? Bola já se
mostrou um tremendo 171.
— Acho que deveríamos contar. – Gancho
guarda o apito no bolso, incitando o amigo.
— Tudo bem. Contarei o que está rolando.
Lex conta tudo sobre a aposta, a
chantagem e a vingança da Kibi Mor. A
galera escuta atenta a todos os detalhes e suposições de Lex e Gancho.
— Que o Bola está do lado das Kibis, isso está na cara. Ele é apaixonadão pela
Bárbara. – é Hulk quem elucida. – Agora, quanto a essa vingança, não sei o que
pensar. A Babi pega pesado e ela pode estar armando qualquer coisa.
— Entenderam o drama? – Gancho encara
cada um dos amigos. – O Lex tá ferrado.
— Não tem jeito de conseguirmos esse
vídeo? – Edgard especula. – Talvez invadindo o computador dela, sei lá.
— Ela fez milhões de cópias, não é esse o caminho. – Gancho gira o boné na cabeça,
displicente.
— Vocês viram o vídeo? Dá para saber que
é o Lex naquela moto? – Hulk pergunta, um tanto tenso. – É que, bem… é que eu filmei aquela noite. E as imagens não são boas. –
Hulk engole em seco e finaliza: – A Bárbara
ficou comigo em troca do vídeo.
— Como é? – Lex fala em uníssono com
Gancho. – Deu o vídeo à ela?
— Todos demos. – é Nando quem revela. –
Ela ficou com todo mundo em troca dos
vídeos. Lex, eu não imaginei que ela iria chantageá-lo.
— Puta merda! Ela tem vários vídeos, de
vários ângulos do acidente? – Gancho joga o boné longe. – Caras, eu não acredito!
— Eu tô ferrado, Cabeça. – Lex arqueia o corpo para a frente, sentindo um tremendo peso nas costas. – Eu pensei que a Kibi só tivesse um vídeo, o que ela mesma filmou naquela maldita noite.
— Lex, o que podemos fazer? – Hulk toca o ombro do amigo, sentindo-se o pior entre os piores. – Cara, é só pedir.
— Fiquem de olho no Bola e nas Kibis.
Relatem qualquer coisa anormal. Se algum
deles se aproximar da Nina, nos avisem. – é
Gancho quem dá as instruções.
— Ei, Gancho. – Edgard chama. – O Bola
tem algo contra você?
— Não sei. Acho que não.
— Foi ele quem lançou a aposta Gancho
versus Nathi. Acho bom você ficar esperto.
— Puta que pariu.

***
Hoje o dia será repleto de atividades na
Ilha Inamorata. Jogos de futebol, volei de praia, aulas de surf… e à noite, as portas da boate do hotel serão abertas aos estudantes.
As garotas estão na praia, curtindo o último dia na ilha. Muitas já estão chorando e se abraçando, pois quando voltarem para casa, tudo irá mudar.
— Não acredito que isso vá acabar. Cada
uma de nós vai tomar um rumo e vamos
perder contato. – Camila chora no ombro de Lais.
— Não deixaremos isso acontecer. – Lais
acaricia os cabelos dourados de Camila.
— Ah gente, vou chorar também. – Nathi
tira os óculos de leitura, enxugando os olhos úmidos.
Nina pressente a aproximação de Lex. Gira o corpo e o encontra sozinho, caminhando de cabeça baixa em direção ao mar.
— Volto já. – ela diz, levantando-se
apressada e sem dar maiores explicações.
Seus passos são rápidos e afundam na
areia fofa. Desliza os óculos de sol para o rosto e ajeita as bordas do biquíni cor de uva.
Lex ainda não a viu. O garoto entra no mar e mergulha quando uma onda se quebra sobre
ele.
Nina mergulha logo atrás. Hoje as ondas
estão altas e fortes, perfeitas para aulas de surf. Ela grita o nome dele quando sobe à superfície. Lex mergulha novamente quando uma nova onda se quebra.

Nina respira fundo e mergulha também.


— Lex!
Ele se vira. Seus olhos estão baixos como se a luz do sol tivesse sido extinta.

Nina sente um arrepio rasgando suas costas.


Uma nova onda se quebra e os dois
mergulham. Lex estende a mão e Nina a
pega, deixando-se conduzir para a frente, ultrapassando a zona de arrebentação.
— Vai me dizer o que aconteceu ontem? –

Nina pergunta, sem rodeios.


— Não agora.
— Por que não?
— Porque eu ainda não sei o que está
havendo. – Lex alisa os cachos para trás, com a cabeça fritando.
— Do que está falando?
— Muitas coisas estão acontecendo nessa
ilha. Tem pessoas que adorariam ferrar com a gente. – Lex sustenta o olhar de Nina. –
Você precisa manter distância de mim até
irmos embora.

— Não farei isso, a não ser que me diga o que está rolando aqui. – Nina fecha a cara.


— Nem eu sei o que está rolando. É por
isso que estou pedindo: mantenha distância.
Nina se vê num mar de dúvidas. Deve virar as costas e deixar Lex sozinho? Ou tenta
arrancar dele qualquer informação? Será que o jogo ainda está rolando e ela, burra, teima em não acreditar? Lex lê todas essas incertezas nos olhos dela.
— Quando voltarmos para São Paulo,
contarei tudo desde o início. Mas tem algo que você precisa saber e que eu não posso mais esconder.
— E o que é?
Lex toma o rosto dela entre as mãos. Algo devastador a inunda nesse instante. É

uma sensação grandiosa demais para ser


desprezada. Finalmente a névoa se dissipa e ela tem plena clareza de seus sentimentos por ele. Por mais incrível que possa parecer, não está com medo, não se afasta.
— Eu estou apaixonado por você e nunca
senti isso antes, por ninguém.
As palavras que Nina tenta proferir se
perdem dentro da boca. Todo o seu corpo
reage a declaração. A garota não consegue segurar um sorriso, é mais forte do que ela.
Seus poros se abrem, explodindo em êxtase de dentro para fora.
— E é por isso que estou pedindo que

mantenha distância até voltarmos. Ninguém pode saber. – Lex está louco para beijá-la, abraçá-la. Mas não fará isso, não agora.


— Lex, eu não entendo… – Nina tenta se
aproximar e ele recua.
— Entenderá quando eu contar.
— Conte agora.
— Não posso. Não enquanto eu não souber
de tudo. – ele olha para o horizonte, um
tanto deprimido.
— Está jogando? É isso, não é? – os olhos
de Nina se umedecem e não é água do mar.

— Não estou jogando!


— Prove! – ela não queria, mas está
gritando.
— O que quer que eu faça? – ele também
grita, perdendo o controle.
— Me diga o que está havendo. Prove que
isso tudo não é só uma aposta!
— Que droga! – ele soca a água, em fúria.
— Prove, Lex.
Ele joga a cabeça para trás, fitando o céu azul. Está pesando os prós e contras,
cogitando a possibilidade de contar tudo à Nina sobre a vingança e a chantagem.

Teme que ela, de cabeça quente, acabe


enfrentando Bárbara num duelo nada
amistoso. Não pode permitir que isso
aconteça.
— Precisa prometer que não fará
absolutamente nada quando eu contar o que está havendo.
— E o que está havendo? – Nina estimula, ansiosa.
— Prometa. – Lex insiste.
— Está certo, eu prometo.
— Me encontre daqui meia hora no Centro
de Arborismo. E se notar que está sendo seguida, volte para a praia, está bem?
— Quem iria me seguir? – Nina une as
sobrancelhas, confusa.
— Apenas faça isso. – Lex se põe a
caminhar, lutando contra a correnteza.
Nina congela no lugar, perdida. Só começa a se mexer quando Lex finalmente alcança a praia, encaminhando-se para o Centro de Arborismo.
A hora da verdade chegou.
Quarenta e nove: A vingança é plena
Nas nuvens.
Flutuando.
Em êxtase.
Perdidamente apaixonada.
Esse é o retrato de Nina, no momento exato em que volta para as espreguiçadeiras distribuídas na praia. As garotas estão animadas, conversando sobre vários assuntos e apenas Nathália nota quando a amiga se
senta, em completo torpor.
— Seu suco chegou. – Nathi avisa. – O que você e o Lex conversaram?
— Nada ainda. Mas ele vai contar o que
está havendo daqui a pouco, lá no Centro de Arborismo. – a garota, ainda com um ar

anestesiado, completa: – Ele disse que está apaixonado por mim.


— Como é? – Nathi se inflama e as outras
garotas param de falar, curiosas.
— Shhhhhh. – Nina pede com um sorriso
sem graça. – Não diga a ninguém. Irei até lá e depois conto como foi. – Nina pega o copo de suco de maracujá ainda gelado e vira o conteúdo de uma só vez.
— Ai, meu Deus! Será que finalmente
vocês dois vão se entender? – Nathi sussurra.
— É o que eu espero.

***
A vingança da Kibi não poderia ser mais

perfeita. Nina acaba de tomar todo o


conteúdo do copo de suco e Bola avisou que os efeitos começariam a ser notados em
menos de quinze minutos.
Nina se levanta, veste uma saída de banho e flutua para o Centro de Arborismo.

Aos
seus olhos, tudo está mais colorido e


vibrante. Algo mudou em seu ser quando Lex se declarou. A garota se pega rindo, numa felicidade que nunca havia experimentado.
Antes de tomar a trilha, olha para trás
como Lex instruiu. Ninguém parece estar à espreita. Aliás, quem a seguiria e por que faria isso? Não importa, nada mais tem
importância.
A droga se infiltra no sistema de Nina conforme ela caminha. Alguns circuitos cerebrais são desligados sem que ela perceba o que está havendo.
Durante a caminhada, ela tem algumas
sensações e pensamentos que não haviam
lhe passado pela cabeça. Imagina-se sozinha com Lex, no Centro de Arborismo, tendo todo o tempo do mundo. Um sorriso diferente imprime-se em seus lábios, um sorriso de
quem não está mais no controle da situação.
Um calor infernal toma conta do seu corpo e não é pela exposição ao sol. Não.

Nina se sente em chamas e o incêndio precisa ser apagado agora mesmo. E só uma pessoa


pode controlar esse fogo: Lex Heinrich.

Boca seca.


Olhos ardendo.
Arrepios cortantes.
Calor extremo.
Mãos trêmulas.
Nem assim Nina se toca de que algo está
errado. Na última subida da trilha, tira a saída de banho, jogando-a ao chão. Os chinelos também já foram deixados pelo
caminho, assim como o elástico que prendia seus cabelos e o relógio de pulso.

***
Bárbara, que segue por uma trilha adjacente, dá as últimas instruções para Ana Paula e Bola. A garota sustenta um sorriso macabro no rosto, um semblante vitorioso.
Se tudo sair como planejado, a vingança
finalmente chegará ao fim.

***
Lex está recostado no tronco de uma
árvore frondosa, repleta de frutos verdes.
Sem camisa, veste apenas uma bermuda
cinza chumbo da QuikSilver. Ensaia,
silenciosamente, a conversa difícil que terá com Nina. Poderá ela perdoá-lo por ser um covarde?
Lex deixa um suspiro apaixonado escapar quando finalmente a vê. Absolutamente linda. Os cabelos soltos ao vento, o biquíni cor de uva realçando a pele levemente
bronzeada, as curvas asfixiantes… espere, há algo errado.
Os lábios de Nina estão entreabertos e as pálpebras semicerradas, numa expressão que não pertence a ela. A garota sustenta um olhar desses esmagadores e Lex entra em
estado de alerta.
— Nina? – desconfiado, ele recua.
A garota se aproxima, penetrando fundo
nos olhos de Lex, jogando-o contra o tronco.
O garoto está acuado e confuso, sem saber o que pensar ou como agir.
— O que está acontecendo? – ele pergunta, sabendo que Nina não está em seu juízo
perfeito. Tenta, mas não consegue identificar o que está causando essa brusca mudança de atitude.
— Cale a boca. – ela balbucia, com um
sorriso de satisfação.
As mãos dela rasgam o ar, trilhando um
caminho sem volta. Toma o rosto de Lex de assalto, deslizando a ponta dos dedos pelo pescoço do cara, detendo-se demoradamente em seu tórax salpicado por gotículas de suor e tensão.
— Resolvi que contarei tudo desde o início.
– as mãos de Lex se atiram para dentro dos bolsos da bermuda, aprisionando-se ali.
— Não quero conversar. – Nina agora traça desenhos provocantes na barriga malhada de Lex. Ele segura um gemido involuntário.
— Por que está agindo assim? – os olhos dele se fecham em êxtase quando ela cola os lábios em seu pescoço. Um arrepio subsequente liberta as mãos dos bolsos,
agarrando-se à cintura de Nina. – Você está jogando? O que está pretendendo?
Os lábios de Nina umedecem de beijos a
pele pulsante e Lex joga a cabeça para trás,
arfando. Suas mãos agora iniciam uma subida íngreme, através das curvas perfeitas de Nina, levantando os cabelos dela no alto, emaranhando-se nos sedosos fios.
— Por que está me provocando dessa
maneira? – Lex pergunta entre sussurros e gemidos.
— Eu quero você. – Nina lança, num tom
insinuante.
Lex não responde, as palavras não saem de sua boca. Não faz ideia do que Nina pretende e está sem forças para afastá-la. Tanto que, tomado por uma sede enlouquecedora, atira-se àqueles lábios quentes como uma fornalha.
Nina se descontrola quando as mãos de Lex alisam suas costas, detendo-se em seus
glúteos firmes e curvilíneos. Passa uma
rasteira precisa no cara, caindo por cima dele.
A garota exala sedução por todos os poros.
Lex está perdido naquele pescoço, na pele que queima ao toque, nos sons abafados que ela emite em espasmos.
Esses dois estão ardendo e Lex não
desconfia que Bárbara já canta vitória, a alguns metros dali. E nem imagina que

ela acaba de engolir um grito de prazer quando Nina desenlaça a parte de cima do biquíni.


Ah, Deus, agora a coisa vai esquentar.

***
Enquanto isso, na praia…
Garotos e garotas se espalham pelas
espreguiçadeiras na areia, batendo papo,
beliscando batatas fritas e frutos do mar, despedindo-se do último dia na ilha.
Gancho está deitado com Nathi em uma
espreguiçadeira, acariciando seu rabo de
cavalo volumoso. Contará à ela sobre a
aposta quando estiverem sozinhos, não correrá o risco de Bola dar com a língua nos dentes. Seus grandes olhos negros são
atraídos para o outro lado, acompanhando Suzana se aproximar correndo, em pânico.
— Gente, eu preciso contar! Alguém precisa impedir!
— O que foi, Suze? – é Edgard quem
pergunta.
— A Bárbara e o Bola drogaram a Nina. Ela está doidona!
— Como é? – Lais dá um pulo da
espreguiçadeira, agarrando Suzana pelo
braço. – O que você está dizendo?
— Não temos tempo agora, precisamos impedir!
— Onde ela está? Onde está a Nina? –
Camila está aos gritos.
— No Centro de Arborismo. – é Nathi quem
revela, se levantando num salto e disparando a toda velocidade, de mãos dadas com
Gancho.

***
O ponto de observação é fantástico. O
zoom óptico da câmera de Bárbara capta todos os detalhes. Bola e Ana Paula filmam tudo o que está rolando entre folhas e beijos escandalosos.
Bárbara já possui fotos e vídeos suficientes para uma excelente vingança. Mas ela quer mais, quer que Nina protagonize cenas pornográficas com Lex. Se ela sente ciúmes?
Pode até ser. Mas o sentimento de vingança é mais forte e sobrepuja qualquer outra
coisa. Vingança. Doce e perfeita vingança.

***
Louco. Alucinado. Lex não consegue mais
raciocinar, está entregue as vontades de seu corpo.
E Nina? Bem, a garota está ensandecida. A droga atinge o ápice e ela desfere uma
mordida prazerosa no lábio inferior de Lex. É
o que basta para ele ser tomado por uma

força do além, rolando-os sobre o tapete de terra e folhas secas que estalam sob os


corpos em chamas.
Os cabelos dela se espalham revoltos pelo chão e mesmo sem qualquer controle da
situação, Lex consegue se afastar, arqueando as costas para trás:
— Nina, algo não está certo aqui. Não
quero você assim, nesse lugar. Está me
testando, é isso?
Com uma expressão provocante, o olhar de
Nina é vidrado e as pupilas estão dilatadas.
— Não me quer, Lex? – a voz dela o

envolve em nuvens escaldantes.


— Não faz ideia do quanto eu quero você. –
ele responde, prendendo as mãos dela acima da cabeça. – Mas estou sentindo que há algo errado.
— A única coisa errada aqui é você ainda
estar vestido. – Nina semicerra as pálpebras, lançando um sorriso desafiador no ar.
Entrelaça as pernas em torno da cintura de Lex, desarmando-o.
A mente do garoto luta para assumir o controle do corpo e vice-versa. Ele é um bravo guerreiro, mas está vencido. Ondas
elétricas atravessam esses dois e qualquer outra coisa perde a razão de ser.
— Eu preciso de você e será agora. – as

palavras de Nina, ditas num sussurro quente em seus ouvidos, libertam as amarras


invisíveis que ainda prendiam Lex a
sanidade. Ele está possuído e agora tudo
poderá acontecer.
Nina inicia uma luta ferrenha com a
bermuda dele, usando os pés para livrar-se do tecido. Lex está entregue e dará qualquer coisa que ela pedir. E ela pede mais, arfando.
Ele a beija com mais intensidade, suas
mãos vigorosas se agarram àquela pele
fervendo, deixando rastros avermelhados por onde passam. O fogo consome esses dois e
Lex está por um fio, na verdade, por um cordão. Cordão esse que Nina acaba de
desatar, afrouxando o calção de banho do cara, levando-o a loucura.
Oremos para que a ajuda chegue logo.
— Nina! Lex! – Nathália leva as mãos à
boca ao notar que Nina está sem a parte de cima do biquíni.
— Cubra a Nina com a sua canga. – Gancho
arranca o tecido da cintura de Nathi. – Eu cuido do Lex.
Os dois correm na direção dos amigos e Lex escuta a voz de Gancho e Nathi se aproximarem. Gancho e Nathi? Num
sobressalto, ele se dá conta de que Nina está praticamente nua.

— Deixe comigo, Lex. – Nathi passa a


canga nas costas da amiga. – Venha, Nina, nós vamos resolver isso.
— Resolver o quê? Saiam daqui agora! –
ela grita, tentando se desvencilhar de
Nathália e da canga colorida.
— O que está acontecendo? – Lex
pergunta, atordoado.
— A Nina foi drogada. – Gancho se ajoelha e pega a bermuda do garoto entre as folhas.
– Vista-se.
Cinquenta: Completamente chapada

Bárbara e Bola se encaram: ele em pânico, ela tranquila e radiante. A Kibi desliga a câmara e sorri, sentindo o êxtase da vitória correr por suas veias. A vingança está quase completa.


— Droga, como eles descobriram? – Bola
soca a própria perna com o punho fechado.
— Foi a Suzana, não é óbvio? – Bárbara
não estressa, Suze pagará caro pela
intromissão. A ex-amiga se arrependerá até o último fio de cabelo descolorido.
— Acha mesmo que a Suze teria coragem?
– Ana arregala os olhos, temendo pelo futuro de Suzana.
— Bola, livre-se do conteúdo do frasco.
Ana, vá para o quarto e descarregue as

imagens e os vídeos. Mande para o meu email e depois apague tudo, entendeu? –

a Kibi Mor dá as coordenadas, como um
general.
Ana Paula se apressa. Levanta do
esconderijo e corre para o hotel o mais
rápido consegue. Bola já se livrou do frasco e da droga. No momento, encara a Kibi
abertamente, sem saber o que esperar.
— E agora? O que faremos? – Bola teme
serem descobertos.
— Você eu não sei. Mas eu estou pensando
em uma maneira de detonar de vez com o

Lex.


***
Nina trava uma luta ferrenha com Nathália.
Não quer a canga, não quer ajuda, só quer o Lex. E ela grita isso, em alto e bom som.
Lais e Hulk se aproximam, cautelosos. Nina está descontrolada e Nathália a segura como pode. Hulk tira a camiseta e estende para Lais.
— Vista isso nela.
Nathália e Lais dominam Nina, vestindo a
camiseta praticamente a tapas. Nathi tenta conversar amigavelmente, mas Nina cantarola alto só para irritar, tirando Lais do sério:

— Olhe para mim. – Lais segura firme nos


ombros da amiga. – Você escutou o que eu
disse? Está chapada, drogaram você!
— Não estou drogada! – Nina rebate,
visivelmente alterada.
Não distante dali, Lex irrompe em lágrimas nervosas nos ombros de Gancho.

Seus lábios se retesam quando escuta Nina gritar com as meninas.


Monitores e professores finalmente alcançam o Centro de Arborismo. Margareth se aproxima das garotas, fitando Nina com preocupação.
— O que está acontecendo aqui, afinal? – a
professora toma o pulso de Nina e nota que o coração está acelerado. Um monitor checa os olhos da garota com uma pequena lanterna, confirmando a suposição. Nina está drogada, com direito a pupilas dilatadas e opacas.
Pelo rádio, outro monitor pede à recepção do hotel que encontre o único médico disponível na ilha. Margareth toma o rosto de Nina entre as mãos, encarando-a com
seriedade.
— Acha que pode caminhar até o hotel?
— Eu já disse que estou bem. Aliás, nunca me senti tão bem na vida. – Nina desata a rir, sem conseguir parar.
— O médico foi encontrado e já está a caminho do hotel. – o monitor avisa, com o olhar recaído sobre Nina. –

Margareth, isso nunca aconteceu aqui antes e olhe que trabalho nesse ramo há anos.


— Ainda não acredito que isso esteja
acontecendo. – a professora concorda,
pesarosa. – Venha, Nina, vamos para o hotel.
— Não vou a lugar algum sem o Lex. – ela
cambaleia e segue ao encontro do garoto.
Lex a toma nos braços quando Nina deixa o corpo cair sobre ele. A garota não consegue parar de rir, mesmo quando escuta a voz embargada de Lex aos ouvidos:
— Nina, você ficará bem. Precisamos voltar ao hotel.
Ela não responde. Agarra-se aos cachos de Lex e lhe desfere um beijo arrebatador,
daqueles que arrancam suspiros inclusive de coisas inanimadas. Ele se afasta com
dificuldades, abraçando-a bem forte.
— Pare com isso, está bem?
— Por quê? – Nina o encara com um olhar
torturante, umedecendo os lábios de forma provocante. – Poderíamos ir para a praia, tenho altas fantasias que envolvem areia e mar.
— Escute o que está dizendo, essa não é
você. – ele murmura, demolido por dentro.
— Nina, precisamos voltar ao hotel. –

Margareth dá o ultimato, tomando um dos


braços da garota.
— Já disse, sem o Lex não vou a lugar
algum! – Nina estressa e se agarra ao
pescoço de Lex, sufocando-o.
— Precisamos voltar, o médico saberá o
que fazer. – Lex conversa com calma, como se Nina fosse uma criança. Ela se afasta, trançando as pernas.
— Não quero voltar ao hotel, só quero
retomar do ponto em que paramos. – Nina
morde o lábio, fitando Lex como se o garoto fosse uma sobremesa irresistível.

Mas então, um sopro invisível a faz tremer da cabeça aos pés. Nina sente as pernas


fraquejarem e os olhos saem de foco, como se a pressão sanguínea tivesse caído aos pés.
O corpo perde as forças e Lex e Gancho a
seguram no ar, antes que desabe no chão.
— Ai, meu Deus. – Nathi entrelaça os dedos acima da cabeça, enquanto todos correm
para ajudar.
— Nina, fale comigo. – Lex se desespera.
— Hum. – ela balbucia, abrindo os olhos.
— Olhe para mim. O que está sentindo? –
Margareth checa o pulso de Nina novamente.
— Estou zonza. Acho que quero dormir.
— Não durma, por favor. – Lex a pega nos
braços, juntando todas as forças que possui e não possui. O corpo dela está amolecido,
entregue.
— Se não aguentar carregá-la, trocamos no caminho. – Gancho oferece, desferindo um
tapa no ombro de Lex.
Na trilha de volta para o hotel, Lex
conversa com Nina para que ela não durma.
Os garotos se oferecem para carregá-la, mas Lex não permite. Sente-se em dívida com

Nina por não ter percebido o que estava


acontecendo. Bem, ele sabia que havia algo
errado, mas não fez absolutamente nada para contê-la.
— Já disse que você é lindo? – Nina
sussurra preguiçosamente, como se estivesse bêbada. – Não, é sério, você é um dos caras mais bonitos que já conheci.
— Não diga isso, pode se arrepender
depois. – Lex ensaia um sorriso, sem desviar os olhos da trilha.
— Não me arrependerei. – ela rebate,
alisando a barba dourada do cara com a
ponta dos dedos. – Aliás, já disse que você mexeu comigo desde a primeira vez em que

nos vimos?


— Não, você nunca disse. Também acho
que se arrependerá disso mais tarde. – Lex a encara, com o ego transbordando. –

Tenho
que confessar que você também mexeu


comigo.
— Verdade?
— Você nem imagina o quanto. – Lex
finalmente avista a entrada do hotel.

***
Com as costas arqueadas e os joelhos

gritando, Lex alcança o dormitório das


meninas. Auxiliado por Lais, deita Nina sobre a cama, sentindo-se culpado pela situação em que ela se encontra. Deveria ter previsto algo assim, ainda mais em se tratando da
Kibi Mor.
Uma galera se amontoa no quarto, todos
querendo fazer algo para ajudar. Nada pode ser feito no momento e Nina começa a se
irritar com a algazarra.
— Mande todos embora e feche a porta. –
ela puxa Lex pela nuca e balbucia,
insinuante.
— Sabe que não posso fazer isso. – ele acaricia o rosto transfigurado de Nina.
— Não pode ou não quer? – ela incita,
traçando formas geométricas no peito dele.
— Não posso. – ele responde, sentindo
arrepios por todo o corpo. – Pare com isso.
— Nina, você tem consciência do que
aconteceu? Sabe que está drogada? – Lais se senta aos pés da cama.
— Não estou drogada! Por que fica
repetindo isso? – Nina se apruma. – Gente, que calor infernal é esse? Ligue esse ar-condicionado, por favor.
— A Bárbara e o Bola armaram para você, colocaram algo no seu suco, entendeu? –
Nathi liga o ar-condicionado, regulando a temperatura.
— Ok, crianças, o médico chegou. Todos
saindo, circulando, vamos. – Margareth
enxota os estudantes, afirmando que Nina
ficará bem.
O médico alto, grisalho e um tanto bicho
grilo, entra no quarto com uma maleta preta à tiracolo. Margareth pede que Lex se retire, mas Nina inicia um escândalo, agarrando-se a ele como se o mundo fosse acabar.
— Tudo bem, deixe que ele fique. – o médico abre a maleta sobre a cama,
retirando alguns instrumentos de lá. –
Sabem qual substância foi ingerida?
— Não sabemos, a-i-n-d-a. – Margareth
frisa.
— Precisarei colher uma amostra de sangue para análise. – o médico abre uma caixa
metálica, retirando de lá uma seringa.
— Eu estou ótima. – Nina bufa e cruza os
braços, fechando a cara.
— Deixe ele tirar o seu sangue, está bem?
– o tom de Lex é manso, cuidadoso. – Estarei com você, não irei a lugar algum.
— Nesse caso. – Nina dá de ombros e estende o braço, finalmente disposta a
colaborar.

***
Médico, exames, testes, um banho bem
quente… as horas passam e o corpo de Nina sofre os efeitos ruins da droga que ingeriu.
Um frio cortante a assola e Lex a abraça como um cobertor quente e seguro.
A garota passou a tarde toda dormindo e
acordando, num sono agitado e repleto de
sonhos estranhos. Lex foi o único que não arredou o pé do quarto, nem para almoçar.
Nathi e Lais estão atônitas, olhando para o nada. Margareth está sentada sobre a cama de Lais, balançando a cabeça em negativa. O
relógio de pulso marca cinco da tarde.
Ainda não encontraram Bárbara ou Bola.
Ana Paula, que estava no quarto das Kibis, disse não saber nada sobre eles e desmentiu quando a acusaram de fazer parte do plano.
O professor de literatura e os monitores
estão reunindo a turma toda na sala de
jogos. A verdade precisa vir à tona e o
diretor do Prisma já foi informado sobre o acontecido na ilha, por telefone.

Cabeças vão rolar.


Cinquenta e um: A vingança nunca é
plena
O dia correu como se estivesse em uma
maratona. O sol já se esconde no horizonte e os últimos raios solares pintam o céu em
vários tons alaranjados.
Duas batidas na porta e alguém enfia a
cabeça dentro do quarto. É o monitor-chefe:
— Margareth, a turma já está reunida na
sala de jogos. Mas nem sinal do Fabiano e da Bárbara.
— Onde esses dois se enfiaram? – a
professora rosna a pergunta. – Em algum
momento eles terão que aparecer.
— Estamos esperando por vocês para a
reunião começar. – o monitor avisa.
— Quero ir também. – Nina abre os olhos e se remexe, num despertar preguiçoso.
— Não. Você não está bem. – Lex não
permite que ela se levante. – E outra, você não precisa passar por isso.
— Eu quero ir. – Nina esfrega os olhos e se
senta, tomando o cuidado de não encarar Lex nos olhos. Apesar das imagens serem um
borrão, se lembra do suficiente para ficar com vergonha pelo resto da vida.
— Ela precisa estar presente. – Nathália vai em favor de Nina.
— Concordo. – Lais está com os punhos cerrados desde que viu a amiga naquela
situação constrangedora.
— Que seja. – Margareth concorda.

***
Um murmurinho incessante toma conta dos
ouvidos de Nina. São acusações, conjecturas, especulações das mais diversas.

Quando ela e Lex entram na sala de jogos, o silêncio recai como um meteoro.


— Não me olhem assim. – Nina pede,
encarecidamente. – Não é uma droga que vai me derrubar. – os olhares são dos mais
diversos e Nina tenta não se fixar ninguém em especial, não está a fim de decifrar as

expressões de pena nos rostos da turma.


Gancho se levanta do sofá de dois lugares, dando lugar para Nina e Lex. Ela se senta com dificuldades e ele toma lugar ao seu lado, abraçando-a quando o corpo dela se
agita, tremendo de frio.
Nathi estende a mão para Gancho e eles se recostam na parede, aguardando que a
reunião comece.
— Se não se sentir bem, promete falar? –
Lex sussurra, entrelaçando seus dedos aos de Nina.
— Prometo. – ela deita a cabeça no ombro
dele.

— Ok, pessoal, o negócio é o seguinte:


Ninguém sairá dessa sala hoje até que a
verdade apareça. – o professor de Literatura toma a palavra. – A amiga de vocês foi
drogada. O sangue já seguiu para análise e os culpados terão que aparecer.
— Nós queremos a verdade e queremos
agora! – Margareth ruge com voz altiva.
— Querem a verdade? Pois eu direi a
verdade. – teatralmente, Bárbara faz sua
aparição, emoldurada pelo batente das portas duplas da sala de jogos. O show está prestes a começar.

***

O quebra pau tem início. Acusações voam


como flechas pela sala de jogos. Os
professores e monitores tem dificuldades para colocar a casa em ordem. E o circo pega fogo quando Bola entra na sala. Aí a coisa fica feia. Todos os garotos querem socar o cara e ele precisa ser protegido pelos
professores.
— Calem a boca todos vocês! – Margareth
grita, a plenos pulmões. – Ouviremos a
Bárbara primeiro.
— Vai ouvir essa vaca? – Nathi se joga na direção da Kibi, querendo muito socar aquela cara de vadia. Mas Gancho a segura,
abraçando-a por trás.
— Ora, ora, ora… a Nathália se revela, não?
– Bárbara requebra o quadril, levando as

mãos à cintura. – Sua idiota, você não faz ideia, não é?


— Não faço ideia do que, sua biscate? – ela luta para se desvencilhar de Gancho, mas o cara é mais forte.
— Você é uma aposta, meu benzinho. Uma.
Aposta. – Bárbara degusta cada palavra,
vingando-se de Gancho. – Gancho versus
Nathi, uma das apostas do ano! – Bárbara
gargalha alto, deliciando-se com o momento.
Nathi não consegue engolir. A garganta se fecha, arranhando. Está atordoada, não
acredita que isso esteja acontecendo. Ela é uma aposta?
— Eu não concordei com isso, Nathi, você

precisa acreditar em mim. – Gancho sussurra em seu ouvido.


— Eu sou uma aposta? – ela se vira para
encará-lo.
— Sim, você é uma aposta! – Bárbara desdenha. – Aliás, a Camila ali também é uma aposta, não é, Nando?
— O quê? – Camila se levanta num
sobressalto. – De novo? – os olhos da garota se enchem de lágrimas. – Seu desgraçado!
Camila precisa ser contida pelas amigas.
Nando tenta se explicar, mas as palavras se dissolvem no calor da discussão.

Todos
voltam a falar ao mesmo tempo e Margareth dá um berro para conseguir

silêncio.
— Parem já com isso!
O professor de Literatura retoma a palavra, com sua voz ensebada e um tanto presunçosa:
— A Suzana nos contou que você e o
Fabiano drogaram a Nina. Isso procede? – o professor se dirige à Kibi Mor.
— Suzana… ah, Suzana. Eu avisei que se
não estava comigo, estava contra mim. –
Bárbara mira as unhas violeta. – A Suzana é
tão boazinha, não é?
— Babi, por favor. – Suze sabe o que

Bárbara pretende revelar. – Isso é um


assunto meu.
— É seu, é? Pensei que era um assunto do
Edgard também. – Bárbara aponta aquelas
unhas compridas na direção do garoto.
— Vamos focar no assunto central dessa
reunião. – o professor tenta retomar as
rédeas, sem sucesso.
— Espere, professor. Eu quero ouvir o que ela tem a dizer. – Edgard se levanta do chão, já aguardando a bomba.
— A Suze aqui engravidou de você no ano

passado. E eu, como uma boa amiga –


Bárbara olha para Suzana e volta a encarar Edgard –, a levei para fazer o aborto.
Posso falar um palavrão? Essa Kibi é uma
biscate da pior categoria!
Pronto. É o que basta para a sala de jogos
explodir em mil pedaços. Mais gritos, mais acusações, muita choradeira…
Nathália desaba em lágrimas nos braços de Lais. Hulk consola Gancho que acaba de
socar a parede com toda a força. Camila bate em Nando toda a vez que ele tenta se
aproximar. Suzana cai prostrada no chão,
levando as mãos à cabeça. Edgard olha para o nada enquanto os amigos tentam

confortá-


lo.
Nina está com o rosto escondido no peito
de Lex. O que virá agora? Qual a próxima
bomba que Bárbara jogará na turma? Como
ela pode ser cruel a esse ponto?
Lex afaga os cabelos de Nina, beijando sua testa. O corpo dela ondula de frio e o garoto a enlaça de forma vigorosa, buscando mantê-
la aquecida. Apesar do lugar estar ruindo, é como se esses dois estivessem em uma outra dimensão, em segurança.
— Parem! – Margareth sobe em uma
cadeira para se fazer ver e ouvir. – Não chegaremos a lugar algum assim!
— Bárbara, conte logo por que você e o Fabiano drogaram a Nina e que tipo de
substância utilizaram. – o professor pega a garota pelo braço, irritado. – Agora!
— Certo, eu já iria chegar lá. – a Kibi Mor sustenta um sorriso perigoso nos lábios. O
momento máximo da vingança acaba de
chegar.
— Quietos! – Margareth desfere o grito,
como um golpe. Finalmente o silêncio é
retomado, em meio aos soluços de três
garotas: Nathi, Camila e Suzana.
— Eu chantageei o Lex para que ele aceitasse a aposta da Nina. – Bárbara faz uma pausa, aguardando a reação da principal interessada. E a reação vem. Nina levanta o rosto do peito de Lex e seus olhos trêmulos encaram os triunfantes da Kibi. – Eu o chantageei com um vídeo detalhado, em
vários ângulos, mostrando a verdade sobre o acidente com a moto. Vocês se lembram do
acidente, não é? Pois bem, o Lex mentiu para o pai dele, dizendo que um caminhão havia passado por cima da motinho novinha. Não devemos mentir, não é Lex? Acho que
aprendeu a lição.
— Continue, Bárbara! – Margareth cruza os braços à frente do corpanzil. – E se atenha apenas ao que lhe for perguntado.
— Bom, o fato foi que o Lex aceitou a
aposta de Nina mediante a minha chantagem.
— O que você pretendia com isso? – o
professor pergunta, intrigado.
— Vingança! – ela ruge, entredentes. –
Todos vocês se lembram do que essa vagaba aprontou comigo, não se lembram?

Eu só
queria me vingar.


— O lance dos cartazes. – o professor se
lembra. – E nessa vingança você fez uso de
substâncias ilícitas? Você drogou a Nina?
— Não fui eu. Foi o Bola ali. – Bárbara sorri ao apontar o culpado.
— Como é? – Bola dá um pulo da cadeira. –
Ei, eu não fiz isso sozinho!
Ai, meu Deus. O caos retoma a sala de
jogos. Enquanto as acusações inflamam ainda mais o ambiente, Nina e Lex se entreolham.
— Por que não me disse? – ela o encara
tristemente.
— Eu iria contar, lá no Centro de
Arborismo. Mas então, deu tudo errado. – ele se defende.
— Se o seu pai assistir a esse vídeo, o que acontecerá? – Nina pergunta e os dois
conversam baixinho, como se o mundo não estivesse acabando ao redor.
— Ele não vai pagar a minha faculdade de
música. Serei obrigado a trabalhar com ele e desistir da carreira. – Lex morde o lábio, fazendo força para não chorar.
— Então foi encenação. Tudo o que aconteceu aqui foi porque você estava sendo chantageado. – Nina afirma em voz alta,
para si mesma.
— Eu realmente estou apaixonado por
você, Nina.
— Desde quando? – ela engole o choro.
— Eu não sei dizer. Talvez tenha
acontecido no jogo de tênis ou depois disso.
Eu realmente não sei.
O silêncio recai após a tempestade de
acusações. Bárbara então retoma a palavra:
— O Bola, achando que iria me ajudar com
a vingança, dopou a Nina com uma
substância chamada Droga da Coragem. Ele
só me contou que fez isso depois que ela
havia ingerido o negócio, diluído no suco de maracujá.
— Mentira! – Bola e Suzana gritam em
uníssono.

— Isso é mentira. A Bárbara ficou com o


Bola ontem no luau para que ele dopasse a Nina hoje! – Suzana abre a verdade.
— Suzana, o que a Bárbara queria com
tudo isso? – o professor pergunta, quando a turma finalmente faz silêncio.
— Ela passou a viagem inteira fotografando e filmando a Nina e o Lex. Eu ainda não sei onde ela usará as imagens, mas ela tem fotos realmente boas para destruir a reputação da Nina. – Suzana faz uma pequena pausa para respirar. – E

não é só isso: Ela quer acabar com o Lex também.


— Isso é caso de polícia. – o professor
sussurra no ouvido de Margareth que meneia a cabeça em confirmação. – O

diretor vai


enlouquecer.
— Nem me lembre disso. – Margareth
sacode a cabeça e quando dá por si, uma nova confusão está armada.
Gancho parte para cima de Bola. Suzana se agarra aos cabelos da Kibi Mor.

Camila morde


Nando, arrancando-lhe sangue. Nathi está chorando, compulsivamente.
Nina olha para o nada. Lex olha para ela.
A garota está imóvel, inconsolável. A
tristeza deságua sobre ela como um tsunami.
Nina sente o brilho próprio se apagando,
como uma estrela prestes a desaparecer.
Fazendo um tremendo esforço para se
erguer, ela se desvencilha dos braços de Lex.
— Onde vai? – os lábios do garoto tremem.
— Me deixe em paz. – ela lança um olhar
áspero em sua direção.
— Nina…
— Já disse, me deixe em paz.
Nina busca o apoio de Lais que precisa se dividir em duas, amparando as melhores
amigas. Bárbara percebe que Nina está
prestes a sair de cena e não perde tempo:
— Vai fugir, sua vagaba? Quem é a biscate agora, hein? Aquela droga só mostra quem
você realmente é! – Bárbara brada, empurrando Suzana sobre uma mesa. – Ah, e só para você saber, fui eu que mandei o Lex levar você para o Centro de Arborismo!
Euzinha aqui! E ele cumpriu as minhas
ordens! – a Kibi está vermelha de tanto
gritar.
— É mentira! – Lex se desespera. – Nina,
isso é mentira! – o garoto tenta conversar, mas Lais não permite.
— Vem, vamos sair logo daqui. – Lais
enlaça as amigas pelos braços e as três
deixam a sala de jogos para trás.
Cinquenta e dois: Antes da volta para
casa
Quando Lex faz menção em ir atrás de
Nina, Hulk bloqueia o caminho do cara. Nessa cena, objetos voam por cima das cabeças,
móveis são quebrados, rostos socados,
cabelos puxados… e tudo isso em meio à
histeria coletiva.
— Deixe a Nina pensar, Lex. Falar com ela
agora não vai ajudar. – Hulk desvia o rosto de um vaso que vem em sua direção.

O
objeto se quebra em mil pedaços ao dar de encontro com a parede.


— Hulk, ela me odeia. – Lex leva as mãos à cabeça, alheio ao fato do vaso. – E

se ela acreditou na Bárbara? Cara, a Kibi não me mandou levar a Nina até o

Centro de
Arborismo! Acredita em mim?
— É claro que eu acredito, Lex. – Hulk
respira fundo. – Deixe as coisas esfriarem e então você procura a Nina. Ela vai ouvi-lo quando estiver de cabeça fria.
Bola precisa ser carregado para fora da sala de jogos. O nariz sangra como uma torneira aberta e Lex se sente vingado pelas mãos de Gancho. Ele mesmo gostaria de ter dado
aquele soco, mas não está em condições de entrar numa briga agora. A tristeza o massacra como uma jamanta.
A gerência do hotel chamou a polícia. Com
medo de serem processados pelo lance da droga, acharam por bem fazer um boletim de ocorrência dos fatos. Uma precaução mais do que válida.
Margareth está ao telefone com o diretor.

Após contar tudo o que descobriram, escuta, com o aparelho a metros de distância do


ouvido, os gritos e vociferações cavernosas que vem de São Paulo. Como eu disse,
cabeças vão rolar.
Camila acaba de desferir mais um tapa no
rosto já vermelho de Nando. Não é que o
cara estava mesmo amarradão na garota?
Kibi filha da mãe!
Suzana e Edgard conversam em um canto.
Ele diz que não é um moleque e que ela
deveria tê-lo procurado quando soube da

gravidez. O papo está profundo, sombrio e incrivelmente adulto.


Gancho está sentado em um canto,
recostado de qualquer maneira ao lado de
um janelão de vidro estilhaçado. Lex se aproxima, arrastando os pés. Senta-se ao lado do amigo, pesadamente.
— Acabou, man. As férias perfeitas caíram num buraco negro. – Gancho desabafa.
— Você tinha razão, eu deveria ter contado para a Nina quando tive oportunidade. – Lex se lamenta, enxugando uma lágrima teimosa.
— A Nathi nunca mais vai olhar para a
minha cara. – Gancho afunda o rosto nas
mãos. – Cara, eu vou matar aquela Kibi dos infernos. Vou matar o Bola também.

E
depois, farei necromancia para trazê-los de volta à vida. E aí, meu camarada, matarei os dois novamente, com requintes de crueldade.


— Se isso fizer você se sentir melhor… –
Lex não tem forças nem para conversar.
O dia, que havia começado bem, já virou
madrugada. Poucos estudantes voltaram para os quartos e a polícia interroga os indicados pelos professores e monitores. Apenas Nina, Nathi e Lais foram poupadas. O relatório médico fala por si só e em breve, terão o resultado do exame de sangue de Nina.
Margareth sobe as escadas enquanto a
polícia ainda interroga os estudantes. O
estrago foi grande no hotel e alguém terá que arcar com os prejuízos. Isso Margareth não contou ao diretor. A cobra vai fumar, só para constar.

Nina finalmente pega no sono. Nathi e Lais estão com ela, observando se algo muda no quadro da amiga. Elas contam à professora que Nina vomitou logo depois de tomar a


sopa preparada especialmente para ela.
— Vomitar é bom nesses casos. –
Margareth faz uma pausa, certificando-se de que Nina está respirando. –

Meninas, como a situação chegou a esse ponto? Eu não consigo entender.


— A Bárbara é louca, só pode ser. – Lais é quem responde. Nathi está quietinha, encolhida na cama, olhando para algum lugar além de Lais.
— Olhe, eu nunca vi isso em toda a minha
vida. E eu lido com estudantes há mais de trinta anos. – Margareth checa a
temperatura de Nina, tocando sua testa.
— Foi uma sucessão de acontecimentos. O
que eu posso dizer? – Lais abraça os joelhos.
– O que acontecerá agora?
— O Bola e a Bárbara serão expulsos, isso já está decidido.
— De que isso vai adiantar? Só temos mais duas semanas de aula mesmo. – Lais rebate, incerta.
— Bem, isso manchará o currículo escolar
de ambos.
— E quanto ao estrago no hotel? – Lais
encara fixamente a professora.
— Teremos que arcar com as despesas, Lais. Ainda não sei como será feito. Será uma sorte se o hotel não nos processar.

Mas o
diretor dará um jeito nisso, como ele sempre faz. Agora, viagens de formatura?


Sinceramente, acho que nunca mais no
Prisma.
— E a droga? Encontraram? – Lais coça o
olho, sentindo o sono a abater.
— Nada ainda.
— E a Ana Paula? Ela também ajudou no
tal plano.
— A Ana é pau mandado da Bárbara. Ainda não sei qual será o fim dela. Estou
preocupada é com essas imagens da Nina e
do Lex. Você sabe de alguma coisa? –
Margareth faz uma pausa. – Nós
vasculhamos o quarto delas e não
encontramos nada. A câmera fotográfica
estava vazia e os celulares também.
— Só sei o que a Suzana contou. Talvez a
Ana tenha enviado as imagens por email e depois deletado as pistas. Acho que ainda teremos grandes surpresas quando voltarmos
para casa.
Cinquenta e três: A volta para casa
A manhã chega, com cara de ressaca. Nina
está sendo examinada e aparentemente o
quadro é bom. Como prescrição, o médico lhe pede que faça refeições leves com muitas
frutas e sucos naturais. O estômago de Nina revira quando ele faz menção à sucos.
O laudo do exame de sangue de Nina ficará pronto em dois dias. Somente com isso em
mãos o médico poderá traçar um plano de
desintoxicação, se for esse o caso. Ele se despede, deixando uma Margareth mais tranquila para trás.

As garotas tomam o café-da-manhã no


quarto, enquanto arrumam as malas. Nina
está se sentindo debilitada e não sabe dizer qual é o motivo da fraqueza.

Possivelmente seja um dos efeitos da droga, talvez a falta de uma alimentação mais substanciosa ou


quem sabe seja o estrago que Bárbara fez
em sua vida. Acredito que as três alternativas anteriores sejam válidas.
Nathi enxuga as lágrimas, jurando que não derrubará mais nenhuma por Gancho.

Lais a abraça forte, um abraço de urso, que faz com que a amiga se sinta amada e um pouco


melhor.
— Teremos uma viagem longa pela frente.
Nina, fique longe da Bárbara. Não entre na provocação ou você perderá a razão,
compreendido? – Margareth está à porta do quarto das meninas.
— Pode deixar. – a voz de Nina é só um
fiapo.
— Lais, você fica responsável por cuidar
dessas duas, está bem? – a professora delega e Lais aceita prontamente a incumbência. –
Darei uma passada nos outros quartos.
Qualquer mudança no quadro da Nina, me
avise.

***
A balsa está ancorada no píer. Da sacada do quarto, Nina acompanha os primeiros
alunos se dirigindo para lá. Olha em volta, recapitulando tudo o que aconteceu nesses últimos sete dias. E não foi pouca coisa.
Lais e Nathi se unem a Nina na sacada.
Nenhuma das três diz palavra, afinal, o que há para ser dito?
A brisa marítima acaricia o rosto das
garotas, jogando seus cabelos para trás. O
aroma e o som que vem do mar trazem uma
sensação de quietude e paz, tão necessárias nesse momento.
Uma lágrima solitária escorre pelo rosto de Nina. Não há um motivo específico.

Por mais que as férias tenham terminado da forma mais catastrófica possível, Nina sentirá


saudades dos momentos fantásticos que
viveu na ilha. Esses também foram muitos e serão memoráveis por toda a vida.
— Está na hora. – Lais avisa, já sentindo
saudades do mar e da boa vida.
— Seremos amigas para sempre, não
seremos? – é Nathi quem faz a pergunta.
— Depois de tudo o que vivemos? Seremos
amigas pela eternidade. – Lais deixa uma
gargalhada gostosa escapar e Nina se
contagia, sorrindo também.
— A única coisa boa do Prisma foi ter
conhecido vocês duas. – Nina revela,

puxando as amigas para um abraço grupal.



***
A balsa está silenciosa. Fora o barulho dos motores e hélices, nenhum piu é ouvido. As expressões são sérias, tristes, perdidas. Se o dia anterior pudesse ser apagado da linha temporal, essa balsa seria uma festa e não um velório.
Os professores circulam a todo o momento, evitando que os alunos com rixas a resolver se encontrem e o pau volte a comer solto.
Desde que Suzana dedurou a Kibi Mor, a
garota foi aceita no grupo das meninas e até dormiu no dormitório de Camila na noite
passada. Não havia clima para dividir o
quarto com Ana Paula e Bárbara. E querem
saber? Suzana está se sentindo muito melhor agora.
Lex e Gancho estão na popa da balsa, observando a ilha se afastar lentamente.
Sentem como se o dia anterior não tivesse passado de um sonho macabro e distante.
Infelizmente, os dois sabem que foi bem real.
Nina está na proa com as meninas. Não
quer olhar para trás, não quer ver a ilha se afastar. O negócio agora é olhar para a frente, para o futuro, para o desconhecido.
Bárbara, Bola e Ana Paula estão na parte
interna da balsa, sendo vigiados de perto por Margareth. Ela já avisou que se algum deles sair da linha, os abandona onde quer que seja e sem remorsos.
E assim, a balsa viaja tranquila até finalmente aportar no continente.

***
O ônibus está à espera quando a balsa
ancora. Os estudantes vão descendo um a
um e se dirigindo para a condução num
silêncio mórbido. O motorista do ônibus – o mesmo da vinda – não entende nada e dá de ombros, feliz por, aparentemente, ter uma viagem tranquila pela frente até o aeroporto.
Quando Lex entra no ônibus, seguido por
Gancho, vai passando pelas fileiras de
assentos e estaca quando vê Nina sentada
sozinha. Antes que ele possa pensar em dizer ou fazer qualquer coisa, Camila dá um
empurrão de leve no cara e se senta ao lado de Nina, não deixando qualquer outra opção a Lex a não ser seguir em frente. Nina sabia que ele estava olhando para ela, mas nem
assim tirou os olhos do asfalto.

***
O avião decola no horário, sem maiores
transtornos. Já estão voando há uma hora e Bárbara pede para ir ao banheiro.

Margareth, que está sentada ao seu lado na vigia, ruge para a Kibi Mor:


— Se abrir essa boca ou causar algum
tumulto, juro que jogo você desse avião,
compreendido?
— Já entendi. – a Kibi devolve, com

desdém. Tira o cinto e caminha para a parte traseira do avião.


Quando Bárbara cruza com Lex e Gancho,
não resiste a soltar um sorriso de deboche.
Uma lágrima escorre pelo rosto de Lex e ele não consegue enxugar a tempo.

Num
movimento rápido, a Kibi Mor a toma de


assalto, provando a lágrima com satisfação.
— Saborosa como a vitória. Ah, Lex, agora sim minha vingança está completa.
— Vaza! – Gancho rosna, entredentes.
Bárbara solta uma sonora gargalhada,
jogando os cabelos oxigenados para trás.

Retoma seu caminho e Gancho faz menção em se levantar, mas Lex não permite.

Os
amigos se entendem só com o olhar.
— Cara, o que eu posso dizer? – Gancho
quer muito confortar Lex.
— Não diga nada. Não vai adiantar.

***
O avião finalmente pousa no aeroporto de
Congonhas, em São Paulo. O clima é ameno
e a temperatura está em vinte e cinco graus, com céu parcialmente nublado.
Os estudantes desembarcam, seguindo por

um longo corredor até o acesso as escadas rolantes. As malas estarão disponíveis na esteira de número três.


Nina já está com suas bagagens sobre o
carrinho. Lais idem. Só falta chegar uma das malas de Nathi.
Lex a observa de longe, sentindo o coração apertar. Será que a garota frequentará as últimas semanas de aula? O que estará se
passando na cabeça dela nesse exato momento? Por que Lex está sentindo essa forte sensação de perda? Não, ele não pode acreditar que perdeu Nina para sempre, isso não pode ser verdade.
De posse de suas bagagens, os estudantes
seguem os professores em direção a saída do terminal de desembarque. Do lado de fora, ao invés de pais sorridentes, encontram pais desolados, cabisbaixos, envergonhados. O
diretor fez a lição de casa direitinho, pelo visto.

— Nina. – a mãe a puxa para um abraço. –


Minha filha, o que foi que aconteceu?
— Em casa eu conto, tá bom? O que o
diretor já adiantou? – Nina engole em seco, procurando pelo pai. – Onde está o papai?
— Está em casa com o Doc. Nós soubemos
do que aconteceu na ilha hoje de manhã.
Seu pai está preparando um processo contra a Bárbara e o Fabiano.
— Não, mãe. Eu não quero processar ninguém. Essa história já causou problemas demais e eu só quero esquecer. Eu preciso esquecer.
— Em casa conversaremos sobre isso.
Os pais de Nathália e Lais se juntam a mãe de Nina e um debate se inicia. Falam

sobre o telefonema que receberam do colégio e a reunião marcada para amanhã à noite.


As amigas aproveitam para se despedirem.
Nesse momento, as três ouvem uma briga
no saguão. Reconhecem a voz de Lex e
olham em volta, procurando. Ele e o pai
estão discutindo, gesticulando, se atacando.
Bárbara deve ter enviado o tal vídeo de Lex para o velho.
— O Lex está ferrado. – Lais comenta.
— É, ele está. – Nathi concorda.
— Vocês viram esse vídeo? O que contém?

– Nina pergunta.


— Lembra quando o Lex foi desafiado por
um garoto do segundo ano? – Lais começa a explicar.
— Um racha de motos. – Nina se recorda
do ocorrido.
— Isso. – Lais continua. – Todo o pessoal do colégio foi lá para assistir, tá lembrada?
Nós não fomos porque tínhamos aquela festa na casa do Pepino e também porque não
somos idiotas.
— É, eu tenho uma vaga lembrança disso.
– Nina puxa pela memória.

— Lembra do acidente?


Sim, Nina se lembra do acidente de Lex,
afinal, essa história foi contada e recontada milhões de vezes nos corredores do Prisma.
Lex, a mais de cento e cinquenta
quilômetros por hora, corria emparelhado
com um garoto do segundo ano do colégio.
Algo foi jogado no asfalto e o garoto fez uma manobra evasiva que resultou no acidente.
O veículo capotou várias vezes e o corpo de
Lex deslizou pela avenida, por mais de trezentos metros.
— Sim, eu me lembro. – Nina meneia a

cabeça.
— O Gancho achou que ele tinha morrido.


– Lais confirma. – Todos acharam isso. E eu vi um dos vídeos e foi realmente impressionante. Se Deus existe, ele estava ali naquele momento.
— A roupa especial o protegeu, não foi? –
Nina sente um arrepio cortante ao pensar
que Lex poderia ter morrido naquele racha.
— A roupa e Deus… não se esqueça de
Deus nessa história. – Nathi toma a palavra e respira fundo. – O problema foi que o Lex mentiu sobre isso para o pai. Disse que um caminhão havia passado por cima da moto,
que estava estacionada no meio fio. Os

policiais que fizeram o boletim de ocorrência, disseram ao pai de Lex que a história não batia com o estrago da moto. E foi por isso que ele perdeu a mesada e sei lá mais o quê.


— Como sabe disso? – Lais franze o cenho.
— O tal que não quero dizer o nome me contou. – Nathi revela, olhando para o chão.
— Meninas, vamos? – os pais chamam.
— Vejo vocês mais tarde? – Nina pergunta, um tanto deprimida.
— Com certeza.
Cinquenta e quatro: Nina encara Doc e
os pais
Quando Nina e a mãe estavam saindo do
aeroporto, o olhar da garota não se conteve.
Ela e Lex se entreolharam e, naquele
momento, Nina sentiu como se o mundo
estivesse em suspenso, suspirando alto e
profundamente.
O olhar dele se jogou dentro do dela como uma âncora. Para Nina, foi difícil pacas
conseguir se soltar e retomar o seu caminho, mas a garota conseguiu o impossível.
No caminho para casa, ouviu o sermão de

sempre: “As pessoas são más, devemos ter cuidado com o que bebemos e blá, blá, blá”.


Nina já nem estava mais ouvindo o que a
mãe dizia.
Agora, afundada no sofá da sala, sente
como se tivesse voltado no tempo, naquela madrugada insone em que ouviu um sermão
de mais de duas horas dos pais. Aquela
mesma noite em que Doc e os amigos foram
soltos da prisão.
Nina conta, parcialmente, o que aconteceu desde que chegaram à ilha, inclusive sobre a contra-aposta que lançou para Lex. Se Doc já estava puto, agora o irmão mais velho está irado, querendo o sangue de Lex. O pai de Nina quer justiça a qualquer custo, não

arreda o pé quanto a processar Bárbara e


Bola.
— Você deveria fazer uma viagem. Não
acho que esteja preparada para iniciar uma faculdade agora. – a mãe recosta no sofá,
cruzando as pernas. – Eu liguei para a minha prima em Paris e ela disse que será ótimo ter companhia por algum tempo.
— Paris? – os olhos de Nina brilham, mas
seu coração se apaga.
— Você queria tanto passar algum tempo
em Paris para treinar o seu francês. O
momento chegou. – o pai de Nina arqueia o corpo para a frente, apoiando os

cotovelos nos joelhos. – Essa é uma excelente oportunidade. E depois de tudo o que


aconteceu…
— Quando a faculdade começar, você ficará presa por quanto tempo? Seis anos?

Talvez mais? – Doc abre uma lata de Coca e se joga na poltrona. – Não terá outra oportunidade como essa por um bom tempo.


— Concorda com isso? – Nina fixa Doc com
o olhar.
— Acho uma ótima ideia, se quer saber.
Talvez em Paris você não arrume tantas
confusões. – Doc revira os olhos.
— Eu posso pensar ou já está decidido? –
Nina pergunta, esmagando uma almofada contra o peito.
— Não iremos impor nada a você, Nina. – a mãe esclarece. – Essa é uma oportunidade
única e nós a bancaremos por seis meses, um ano, quanto tempo desejar.
— Mê deem alguns dias para pensar nisso,
está bem? – No momento, Nina só consegue
pensar em Lex.
— Tudo bem, filha. O que decidir, nós
apoiaremos. – os pais de Nina entrelaçam os dedos e fitam a garota, com ares de preocupação.
***
Em seu quarto, Nina fita o teto branco.
Fragmentos de memória vão se encaixando e ela assiste as cenas que protagonizou com Alexandre Heinrich. As imagens tornam-se nítidas, o som da voz dele ecoa em seus
ouvidos, o aroma inebriante de seu pescoço invade o ambiente, impregnando suas
narinas.
— Posso entrar? – Doc enfia metade do
corpo pelo umbral da porta.
— Claro. – Nina não desvia o olhar do teto.
Doc se aproxima, sentando-se na cama. Ele a encara por algum tempo, pensando no que dizer. Finalmente encontra algo inteligente:

— Eu ainda tenho aquele taco de beisebol.


— Eu sei que tem. – Nina deixa um sorriso escapar.
— Se quiser…
— Não será preciso. – Nina se senta,
cabisbaixa. – Não se preocupe, vou superar.
— Está apaixonada pelo cara?
— Não consigo disfarçar, não é? – Nina
pega a mão de Doc e começa a estalar os
dedos dele, como fazia quando eram
crianças.
— Não.
— E você e a Lais? – ela muda de assunto.
— Acha que devo ligar para ela? Tipo, acha que tenho alguma chance? – Doc franze o
cenho, em dúvida.
— Ela não ficou com ninguém na ilha. Aliás, sempre que podia, tocava no seu nome. –
Nina revela.
— Isso quer dizer que tenho chances.
— Todas as chances do mundo.
— Vou ligar então. – Doc puxa o celular do bolso e Nina toca o rosto do irmão.
— Faça isso. Pelo menos uma de nós
precisa de um final feliz.
Cinquenta e cinco: Volta às aulas
Após a reunião com os pais dos alunos do
último ano, ficou acordado que Bárbara e
Bola estavam expulsos. Os pais dos garotos, extremamente envergonhados, pediram
desculpas aos presentes e resolveram assumir sozinhos os encargos da destruição do hotel.
O pai de Nina, nessa mesma reunião, decidiu acatar o pedido da filha e desistiu do processo judicial. Em que esse processo
poderia melhorar as coisas? Os pais de
Bárbara e Bola pareciam ser boas pessoas e, bem, que melhor escola do que a vida, não?
Esses dois garotos tomariam muitas bordoadas se não mudassem de atitude.
Nina ainda não deu sua resposta com
relação a morar no exterior. Após deliberar com Nathi e Lais, decidiu pensar um pouco mais. Essa é uma oportunidade de ouro e não se pode desprezar algo assim.
Nina também foi levada ao hospital para
fazer novos exames de sangue. O que quer
que havia em seu sistema foi expelido, de maneira natural. Não há qualquer traço da substância que ingeriu e isso foi um
tremendo alívio para os pais da garota. O
laudo do exame de sangue de Nina já saiu e está nas mãos da polícia.
Hoje é segunda-feira, o primeiro dia das duas últimas semanas no Prisma. O

diretor deu um salvo-conduto para Nina. Se ela não quiser frequentar as aulas, estará dispensada sem maiores problemas. Mas esse seria um atestado de fraqueza e Nina não quer


parecer fraca.
Nathália e Lais prometeram não falar sobre Paris com ninguém. Esse será um segredo
muito bem guardado.
Nina chega ao colégio, estacionando a moto na vaga de sempre. Tira o capacete e pega a mochila e a bolsa, dirigindo-se para a entrada. No meio do caminho encontra
Nathália e outras garotas com o olhar
abismado, mirando algo ao longe. Os olhos de Nina são imediatamente atraídos para lá.
Ela empalidece no mesmo instante.

Mas que merda!


O outdoor, em frente ao colégio, sustenta algo que faz com que Nina feche os olhos por
alguns segundos. Quando torna a abri-los, descobre que é real.
Nathi se aproxima, balançando a cabeça em negativa. Isso é ruim, muito ruim.

As duas se encaram por alguns segundos antes de Nina começar a dizer:


— Nós sabíamos que algo assim
aconteceria.
— É, nós sabíamos. – Nathi encara o
outdoor novamente, absorta.
— Até que a Bárbara tem talento, essa foto está ótima. – Nina brinca com a situação, tentando desanuviar.
— É, a imagem está ótima mesmo. –
Nathália concorda. – É uma pena que você
está seminua.
— É uma pena mesmo. – Nina está com
vontade de chorar, mas tenta dominar suas emoções.
— E o Lex está com as mãos nos seus…
— É, ele está. – Nina admite, pesarosa.
— Até que o layout do outdoor ficou legal.
– Nathi zomba, para que Nina não se sinta tão mal.
— É, ficou interessante.
O imenso outdoor na porta do colégio está tomado por uma imagem de Nina e

Lex,
naquele Centro de Arborismo, no último dia na ilha.


Sem a parte de cima do biquíni, Nina está montada sobre o cara. Ele, por sua vez, está com as duas mãos nos seios da garota, tapando-os de olhares indiscretos.
O título em negrito anuncia: “Lex, o
vencedor da Grande Aposta.”
O subtítulo, também em negrito, arremata:
“Nina Albuquerque, a biscate do ano.”
Camila chega correndo, esbaforida. Traz
algo em mãos e começa a gritar,
completamente surtada:
— Aquela galinha, Nina! Se eu cruzar com
ela na rua, juro que atropelo!
— O que foi agora? – Nathi revira os olhos.
— Ela pagou dois garotos para distribuírem isso! – Camila estende um DVD na direção
das meninas. É Nathália quem o pega das
mãos de Camila. Nina olha por cima dos
ombros da amiga e o que vê revira o seu
estômago.
Na capa do DVD, a mesma imagem do
outdoor está impressa, com os dizeres: Lex versus Nina, o pornô mais quente do ano.
Apreciem sem moderação.
— Certo, ela foi longe demais. – os olhos de Nina umedecem automaticamente.
— O diretor precisa recolher esse material.
Temos que falar com ele agora! – Nathi faz menção em quebrar a mídia ao meio, mas
Nina não permite.
— Não! Deixe eu guardar esse. – ela pega o DVD com fúria e o joga dentro da bolsa.
— Nina, volte para casa, aceite a dispensa que o diretor lhe deu. – Nathi aconselha.
— Não farei isso. Esse é o teste para saber se sou mesmo inquebrável como penso.
— Não será fácil encarar essa galera. – a amiga salienta.
— Não, não será. – Nina enxuga uma
lágrima com as costas da mão.
— Estaremos ao seu lado. – Camila ajeita
uma mecha do cabelo de Nina atrás da
orelha. – Se alguém fizer uma piadinha, eu juro que mato!
— Deixe que façam piadas, eu não ligo. Nós sabemos o que realmente aconteceu na ilha e é isso o que importa.
O celular de Nathália toca, insistentemente.
Ela o retira do bolso traseiro do jeans, desliza o indicador sobre a tela e há uma nova
mensagem.
— É da Lais. – Nathi abre a mensagem. –
SOS?
— SOS? – Nina olha para a mensagem,
intrigada.
— Por que a Lais pediria socorro? – Camila vinca a testa.
— Ai. Meu. Deus. – a ficha de Nathália cai, ruidosamente. – O Doc iria passar na casa da Lais hoje de manhã para trazê-la ao colégio!
Nina, ele deve ter visto o outdoor! – Nathi está aos gritos, com os olhos saltando das
órbitas.
Um nome escapa dos lábios trêmulos de
Nina:
— Lex.

***
Nina corre, mas não é rápida o bastante.
Quando chega à entrada do colégio, o
tumulto já está armado. Doc está sendo
contido por Hulk, Edgard, Nando e um cara do primeiro ano. Gancho está ajoelhado ao lado de Lex, que aliás, sangra como um porco recém-abatido.
Nina sente um nó se formar na garganta e
seus olhos se encontram com os de Lais. A
amiga está aos prantos, tentando acalmar Doc a todo o custo.
Deixando o orgulho ferido de lado, Nina
larga a bolsa e a mochila aos pés de Camila e Nathália, abrindo espaço entre as pessoas, distribuindo cotoveladas para todos os lados.
Quando finalmente alcança a clareira,
ajoelha-se ao lado de Lex, verificando
visualmente os ferimentos. O cara está
estendido no chão, com o nariz sangrando e Gancho segura a cabeça do amigo com uma
das mãos. Os olhos de Lex se encontram com os de Nina, prendendo-os como sempre
acontece.
— Nina, se afaste desse cara! – Doc grita, tentando se desvencilhar das mãos que o
seguram firme.
— Desculpe por isso, Lex. – Nina não

consegue desviar o olhar daqueles raios


solares hipnóticos. – Meu irmão é um pitbull.
— Eu mereci. – Lex geme baixinho.
— Nina, eu tô falando sério, porra! – Doc luta em vão enquanto é arrastado para fora do colégio.
Os professores chegam trotando em direção a muvuca. O diretor leva as mãos à cabeça, pedindo que Nina e Gancho conduzam Lex à enfermaria.
— Não precisa vir. – Lex passa o braço ao redor do pescoço de Gancho, levantando-se um tanto quanto cambaleante. Quando o garoto tomba para o lado oposto, Nina o
escora com o próprio ombro.
Ela não responde quando Lex repete “não precisa vir”. Apenas faz sinal para que
Gancho comece a andar em direção à
enfermaria. Curiosos vão seguindo com o
olhar, enquanto Nathi e Camila recolhem os pertences de Nina do chão.
Doc está gritando, mas Nina o ignora. Vão ganhando terreno, subindo os quatro degraus, até chegarem à entrada principal do
colégio.

***
Uma multidão se forma no corredor da
enfermaria. Lex, Nina e Gancho aguardam a chegada da enfermeira, que aliás,

está presa no congestionamento.


Nina abre um armário de vidro e pega um
pacote de gaze e um spray antisséptico.
Borrifa um pouco do conteúdo e começa a
limpar o rosto de Lex, fugindo dos olhos do cara.
— Não precisa fazer isso. – Lex segura a
mão de Nina. O simples toque de peles a faz arrepiar da cabeça aos pés.
— Meu irmão não deveria ter descontado
em você. – Nina analisa os ferimentos. O
nariz de Lex sangra e a boca está cortada por dentro. Dois socos, talvez três.

Nina não sabe dizer quantos foram e não quer perguntar.


— Você viu o DVD? – Gancho pergunta, contendo a multidão de curiosos que querem
invadir a enfermaria a todo custo.
— Estou com um na minha bolsa. – Nina
revela, umedecendo os lábios. – Se meu pai souber disso, a coisa vai ficar muito feia.
— A Kibi foi longe demais. – o tom de
Gancho denota fúria.
— O estrago já está feito. – Nina diz em
tom de desabafo.
— Ai. – Lex reclama quando a gaze desliza pelo canto da boca.
— Desculpe. – ela alivia a pressão.
— Temos que conversar. – Lex se perde
dentro dos olhos de Nina, mas a garota está evitando encará-lo.
— Não estou pronta. – ela admite.
— Me deixem passar. – a enfermeira
finalmente alcança a porta e Gancho
desbloqueia a entrada.
— Está em boas mãos agora. – Nina, sem
olhar para Lex, atira a gaze suja de sangue em direção ao lixo. – Mais uma vez, desculpe
pelo meu irmão.
— Nina. – Lex a segura pelo braço.
— Como eu disse, ainda não estou pronta
para essa conversa. – e então, Lex afrouxa a pegada e Nina passa voando por Gancho,
saindo porta afora.
Cinquenta e seis: A maldade é inerente ao ser humano?
Quando sai da enfermaria, Nina mantém
uma postura ereta, a cabeça erguida e um ar despreocupado. Conforme vai passando pelo corredor de risadinhas, piadinhas e olhares ameaçadores, os ombros de Nina vão
despencando, assim como sua cabeça, que
agora está tombada para baixo. Não pensou que seria tão difícil enfrentar aquele bando de fuxiqueiros.
Antes que seus joelhos fraquejem e ela caia mortinha frente àqueles olhares

maldosos, Nina é salva por Camila e Nathi, que a levam mais do que depressa para a diretoria.



***
O diretor gira o DVD em mãos. Tira os
óculos, jogando-os sobre uma pilha de pastas muito bem dispostas sobre a mesa de mogno.
Levanta-se da cadeira e trinca os dentes ao observar o outdoor em frente ao colégio.
— Já liguei para a empresa responsável.
Essa barbaridade será retirada ainda hoje. –
ele faz uma pausa. – E quanto aos DVDs,
revistaremos todos os alunos. Infelizmente de nada adiantará, o vídeo já caiu no Youtube. – outra pausa, dessa vez

preocupada. – Seu pai precisará entrar com uma ação para tirar o vídeo do ar, Nina.


— Não queria envolver meus pais nisso. – a voz de Nina é só um fio fraco, prestes a se partir. – Mas meu irmão contará o que está acontecendo, não conseguirei esconder o
fato.
— Você deveria ir para casa. – Nathi alisa o braço da amiga. – Ficar aqui só vai piorar a
sua situação.
— Não quero fugir.
— Não serão dias fáceis para você. Mas
compreendo o seu lado, entendo o que quer provar. – o diretor alinha quatro vasos de plantas no parapeito da janela, de modo que fiquem simétricos. – Falei com sua mãe hoje cedo. Fique tranquila, não contei nada sobre o outdoor. – ele se apressa em dizer. – Sua mãe me contou sobre a possibilidade de você
estudar fora do país. Seria muito bom, Nina.
Crescimento pessoal, cultural e emocional são sempre bem-vindos. Todas as pessoas
deveriam fazer isso algum dia. – o diretor se senta novamente, ajeitando agora o polvo e os cachorros de cerâmica sobre a mesa.
— Ainda não me decidi sobre isso, mas
estou pensando. – Não. Nina não está
pensando sobre a viagem. A única coisa que não lhe sai da cabeça tem nome e sobrenome: Alexandre Heinrich.
— Pense bem, uma oportunidade como essas pode não aparecer nunca mais. – o diretor recoloca os óculos e faz uma pausa com ar pensativo. – Nina, qualquer outro
problema que tiver aqui dentro dos muros do colégio, por favor, me comunique.

— Certo, obrigada.



***
Rumo à sala vinte e dois, Camila pergunta sobre a viagem. Nina pede discrição total e absoluta antes de contar. A amiga assente e escuta o relato de Nina sobre a possibilidade de estudar em Paris por alguns meses. Uau, até eu queria uma oportunidade dessas!
O sinal já soou e os corredores estão
vazios. Quando Nina e as garotas chegam ao segundo andar, uma nova surpresa se abate sobre as três.
Não, não são cartazes colados às paredes.
A surpresa vem das caixas de som
espalhadas pela escola. O sistema de áudio
do colégio é daqueles megamodernos, digitais e computadorizados. Alguém deve tê-lo

invadido para reproduzir o que apenas os


surdos não podem ouvir.
As vozes que saem dos auto falantes são as de Bárbara e Lex. Na íntegra, o diálogo – que nós sabemos não ter ocorrido – desenrola da seguinte forma: Lex:
— O que quer que eu faça? (a voz de Lex
foi gravada pelo celular da Kibi, no dia em que Bárbara chantageou o garoto pela
primeira vez).
Kibi Mor filha da mãe:
— Leve a Nina para o Centro de Arborismo.
Deixe a vagaba fazer o que quiser com você.

Filmarei tudinho e finalmente terei a minha vingança. Feito isso, prometo não mostrar o vídeo do acidente para o seu velho. (a Kibi gravou essa parte no mesmo lugar, com o


mesmo celular, no fim de semana pós-
viagem).
Lex:
— É só isso o que quer? (essa parte foi
gravada na balsa, também com o celular da Kibi. O material foi editado por Bola, os ruídos de fundo foram retirados e mixados).
Kibi Mor dos diabos:
— Sim, é só isso.

***
Os joelhos de Nina não conseguem mais sustentar a pressão. A garota cai, prostrada, vencida, arrasada, espezinhada, humilhada.
Então o que Bárbara disse na ilha era
verdade? Ela realmente havia mandado Lex
fazer o serviço sujo e o filho da mãe aceitou?
— Nina, eu não acredito que o Lex tenha
feito isso. Cara, isso está me cheirando a montagem! – Nathi despenca ao lado de
Nina, abraçando-a.
— Também não acho que o Lex faria algo
assim, Nina. Ele está apaixonado por você,
está tão na cara! – Camila, apesar de estar em dúvida sobre a veracidade do diálogo, não colocaria sua mão no fogo por Lex. Mas ela não pode deixar isso transparecer. Não pode deixar Nina pior do que já está.
— Como eu sou burra! – Nina deságua no
ombro de Nathi. O choro vem recheado de
soluços, arrebentando qualquer esperança
que Nina ainda mantivesse com relação a
Lex.
— Não, Nina. Isso é armação. – Nathi tenta apaziguar, sem sucesso.
— Nina? – Lex chama do final do corredor.
– Não pode acreditar nisso, é mentira! Eu não sabia de nada! – Lex vai se aproximando com Gancho logo atrás.
— Lex, não se aproxime. – Camila toma a

frente.
— É mentira, Nina. O Lex nunca aceitaria


algo assim, pelo amor de Deus! – Gancho
fala por cima do ombro de Camila.
— Eu quero ir para casa. – Nina murmura para Nathi. – Me leve daqui, por favor.
— Venha, eu ajudo você.
— Não pode acreditar nisso, por favor. –
Lex está com a camiseta do Prisma
encharcada de sangue. Um tremendo olho
roxo se destaca naquele rosto de traços

sensuais.


— Não se aproxime! – Nina ruge quando
Lex faz menção em tocá-la. – Nunca mais se aproxime de mim, está entendendo?
— Não faça isso comigo. – Lex leva as duas mãos aos cabelos cacheados.

Lágrimas
irrompem de seus olhos cor de mel. As


rajadas douradas ficam opacas e sem vida ao acompanharem Nina e Nathi tomando o rumo
da escada central. O que ele deve fazer?
Nem preciso dizer que, nesse momento, as
portas das salas se abrem e uma
aglomeração começa a se formar, não é?
Quando Lex respira fundo e toma coragem
para ir atrás de Nina, Gancho e Camila bloqueiam a passagem do cara.
— Deixe a Nina em paz, Lex. – Camila é
enfática.
— Não é a hora, man. – Gancho segura o braço do amigo.
— Aliás, acho que essa hora nunca vai
chegar. Não depois do que acabamos de
ouvir. – Camila cruza os braços frente ao corpo.
— É mentira. A Kibi montou esse diálogo,
eles nunca tiveram essa conversa. – Gancho defende Lex.

— Como sabe? Nasceu grudado no seu


amigo, Gancho? Como pode afirmar que essa conversa nunca existiu? – Camila ataca.
— Ele nunca faria algo assim. E outra: Se o Lex realmente tivesse feito um pacto com a Bárbara, ele estaria livre da chantagem, certo? – Gancho faz uma pausa. – Então
como você explica o pai do cara ter recebido
os vídeos do acidente?
— A Bárbara resolveu ferrar com ele de
qualquer maneira, oras! – Camila retruca. –
Isso não prova nada.
Com um olhar glacial, Lex encara uma das

caixas de som do Prisma. Respira fundo e as lágrimas cessam:


— Temos que conseguir essa gravação. Só
com isso em mãos conseguirei provar a
minha inocência.
Cinquenta e sete: Gancho versus Nathi
Lex e Gancho decidiram voltar para casa.
Não há clima para ficarem no Prisma nessa segunda-feira mais do que tumultuada. E Lex foi instruído pela enfermeira a fazer várias compressas no rosto para não inchar ainda mais. Os socos de Doc não doeram tanto quanto o olhar de desprezo de Nina.
Os amigos param em frente ao outdoor.
Lex não se contém e soca o ar, sentindo um aperto feroz dentro do peito.

Enfurecido,


rosna ao pensar na satisfação de Bárbara. Ela venceu.
Nina passa batido por eles, acelerando a
moto e derrapando na curva. A garota está irada e Lex teme que ela faça alguma besteira. O ronco do motor se distancia
rapidamente e logo desaparece no ar.
Nathi se aproxima, cabisbaixa. A intenção dela era passar pelos dois e continuar seu caminho até a sala de aula. Mas não é isso o que acontece.
— Nathi, por favor, espere. – Gancho a
puxa pelo braço.
— Eu vou indo, vocês dois precisam
conversar. – Lex nem se despede e continua a caminhar até o bicicletário.
— O que você quer? – Nathi cruza os
braços, a mochila pesando toneladas às
costas.
— Eu só soube da aposta lá na balsa. Quem lançou essa merda no ar foi o Bola, aquele
desgraçado filho da mãe, ele queria me ferrar. Deve ter descoberto que eu estava a fim de você, sei lá. Ou talvez ele tenha
notado que você estava a fim. Bom, isso
realmente não importa agora. – Gancho
toma um pouco de ar para continuar. – Eu
tentei me manter afastado de você na ilha, eu queria protegê-la. Mas então você me

tirou para dançar e eu não consegui me


conter. Nathi, eu queria muito ficar com
você.
— Como posso acreditar nisso? Coloque-se
no meu lugar. – Nathi leva as mãos aos
bolsos da calça jeans, jogando o corpo para a frente e para trás.
— Eu gosto de você e é para valer. Não
fiquei com você para vencer aposta alguma.
– Gancho encara Nathi e ela encara o All
Star preto do cara.
— Não sei se posso confiar em você. –
Nathi não vai chorar, ela não quer chorar.
— Me dê uma chance. – o tom de Gancho beira a súplica. – Por favor, me deixe provar o quanto gosto de você.
— Eu não sei. – o rabo de cavalo de Nathi balança em dúvida.
— Uma chance, é só o que estou pedindo. –
Gancho se aproxima, ultrapassando a
barreira invisível criada por Nathi. – Eu estou apaixonado por você. – ele toma o rosto dela entre as mãos.
— Não sei se posso voltar a confiar em
você. – Nathi fita aqueles olhos negros,
brilhantes e cheios de sinceridade. – A
confiança precisa ser reconstruída e pode demorar tempo demais.
— Por você, eu espero o tempo que
precisar.
A expressão de Nathi ameniza após a
última declaração. Um pequeno sorriso
começa a se formar naqueles lábios tensos. A respiração acelera e o coração batuca no
maior sambão.
— Eu prometo não decepcioná-la. – Gancho
levanta o queixo de Nathi e leva os dois
polegares aos lábios da garota. – Se me der essa chance, prometo fazer de você a gata mais feliz desse mundo.
Nathália dá um passo a frente, olhando para cima. Gancho é uns dez centímetros
mais alto do que ela. Ele sorri com os lábios selados. Ela sustenta aquele olhar sonhador que reluz em cor-de-rosa.
Gancho não a beija, apenas aguarda. Nathi alisa o rosto bem barbeado do cara, louca para sentir o gosto dele novamente. É ela quem toma a iniciativa.
Quando os lábios de Gancho e Nathi se
encontram, fogos de artifício de um shopping próximo são disparados no ar, simultaneamente. O Papai Noel chegou!
— Se me enganar, juro que furo seus dois
olhos. – Nathi abraça Gancho, na ponta dos
pés.
— Há, há, há, há… eu sei que sim.
Cinquenta e oito: Lex busca ajuda
Lex e Bola estudam juntos desde o jardim
de infância. E assim como se conhecem há
muito tempo, Lex também conhece toda a
família de Bola, inclusive seu irmão mais velho, Reinaldo: o Rei Trancinha.
Rei é um cara descolado, cheio de dreads nos cabelos. É um tipo a la Bob Marley, super paz e amor. Lex gosta muito do cara e vice-versa. Os contatos ficaram esporádicos quando Rei se formou no Prisma e entrou para a faculdade de Química.
— Lex? É você mesmo, brow? – Rei atende o celular, expansivo como sempre.
— Sou eu, Rei. Como está?
— Eu tô de boa. E você, cara? – Rei faz uma pausa curta e continua: – Putz, eu
soube o que o imbecil do meu irmão
aprontou com você na viagem, Lex. Aquele
mané me roubou, cara. Dei umas porradas
nele quando soube, mas não sei se adiantou alguma coisa.
— Rei, preciso da sua ajuda.
— Meu, pode pedir o que quiser!
— Alguém invadiu o sistema do colégio
hoje e uma gravação foi reproduzida. Acho que o Bola armou para mim, de novo. – Lex está no sofá de sua sala, com os pés sobre a mesa. – Rei, acha que consegue vasculhar o computador do seu irmão? Procurar por essa gravação?
— Lex, conheço você desde que usava fraldas, brow, eu não o deixaria na mão. Me diga o que contém essa gravação e considere
o trabalho feito.
— Rei, vou dever essa a você pelo resto da minha vida. – Lex desabafa.
— Não, Lex. Pelo que meu irmão fez com
você, estaremos quites. Cara, não sei o que deu na cabeça dele.
— Eu sei o que foi e acho que até entendo.
Mas se eu não provar a minha inocência, vou perder a mulher da minha vida.
— Ah, tem calcinha na jogada! Agora estou entendendo tudo, brow. – Rei solta uma gargalhada cômica. – Lex, fique tranquilo. Se o Bola estiver envolvido nisso, eu vou
descobrir.

Cinquenta e nove: Nina toma a decisão


Para conseguir entrar em casa, Nina
precisa desviar de um copo estilhaçado no hall. Descobre uma Lais aos gritos com Doc.
O irmão está vermelho de raiva e
completamente descontrolado. A garota sabe que está ferrada.
Lais tenta aplacar a fúria, dizendo que Nina não é mais criança e pode assumir a responsabilidade por seus atos. Nenhum dos dois percebe que ela está por ali.
— Parem de brigar por minha causa. – o
tom de Nina recai como um raio.
— Ah, você está aí. – Doc se inflama. – Em

que você estava pensando, porra? Por que ajudou o cara?


— Pare com isso, Doc! – Lais, ainda aos
gritos, agarra o braço dele.
— Você viu isso aqui? Assistiu esse vídeo?
– Doc chacoalha o DVD nas fuças de Nina.
— Não, eu ainda não assisti. – Nina abaixa a cabeça, envergonhada.
— Eu vou matar aquele cara! – Doc está
espumando.
— Eu já disse que o Lex não teve nada a
ver com isso, Doc. Que saco, me escute! –
Lais se enfeza.
— Não é bem assim. – Nina finca os dentes no lábio, arrasada. – Algo aconteceu no
colégio. – ela sente as forças se esvaindo e despenca, pesadamente, sobre o degrau que separa o hall de entrada da sala de estar. –
Nós ouvimos a gravação de uma conversa
entre a Bárbara e o Lex. O diálogo foi
transmitido para o colégio inteiro, pelo
sistema de som.
— Como é? – Lais ajoelha-se em frente à
Nina. – Que gravação é essa?
— A Bárbara chantageou o Lex para que
ele me levasse até o Centro de Arborismo. A Kibi pediu para que ele deixasse eu fazer o que quisesse, sem me impedir. Se cumprisse as ordens, Lex estaria livre da chantagem.
— O filho da mãe sabia? Porra, eu tô
falando! Vou matar esse desgraçado! – Doc pega as chaves do carro, mas Lais bloqueia o caminho, tirando as chaves da mão do cara.
— Você não vai matar ninguém! – Lais
ruge. – Nina, você tem certeza sobre isso?
— Eu escutei a gravação. Aliás, o colégio inteiro ouviu. – Nina afunda o rosto nas
mãos. – Eu estava enganada sobre o Lex, ele estava jogando o tempo todo.
— Pode ser uma montagem, Nina. – Lais
pondera.
— Para mim acabou. – Nina lamenta, aos

soluços. – Eu preciso sumir daqui, quero esquecer o que aconteceu naquela ilha.


— Vai aceitar fazer a viagem? – Lais se
sobressalta. – Vai fugir, Nina?
— Não é uma fuga. – Doc finalmente para
de gritar. – É uma decisão inteligente, um recuo estratégico.
— Eu nem sei o que dizer. – Lais toma
assento ao lado de Nina. – Eu concordo que a viagem será incrível para você, mas não acho que esteja tomando essa decisão pelos motivos certos.
— Eu preciso me distanciar disso tudo,
tenho que esquecer o Lex. – Nina tomba a

cabeça no ombro da amiga.


— Me deixe matar o cara? Só um
pouquinho? – Doc cerra os punhos.
— Cale a boca, Doc! – Lais bufa e abraça
Nina.
Depois de um tempo longo demais, as
coisas se acalmam na residência dos
Albuquerque. Doc está jogado no sofá, girando o DVD entre os dedos, pensativo.
Lais e Nina ainda estão sentadas sobre o
degrau de mármore, pensando em tudo e em

nada ao mesmo tempo.


— Vou para o meu quarto separar as
roupas da viagem. – Nina se levanta,
enxugando o rosto na camiseta. – Não há
mais o que esperar.
— Você deu alguma chance para o Lex se
explicar? – Lais pergunta, levantando-se
também.
— Não e nem darei. Não fará a menor
diferença.
***
Subindo as escadas, Nina viu Lais se jogar no sofá ao lado de Doc. Ele a abraçou,
acariciando seus cabelos cor de fogo. Nina sorriu quando se beijaram. Pelo visto, esses dois se entenderam. E apesar de destroçada por dentro, a garota se sente muito feliz por
eles.
Lais queria ajudar Nina com as roupas, mas ela prefere fazer isso sozinha.

Precisa muito de um tempo a sós consigo mesma, com seus próprios pensamentos e sentimentos. Quer


confrontá-los e senti-los em toda a sua
intensidade. O que não nos mata, nos torna mais fortes. E Nina está buscando forças para encarar o que a vida lhe reserva.
Tira o DVD da bolsa, jogando-o sobre a
bancada. Não assistirá agora, talvez mais tarde. Abre a porta do guarda-roupas e fica olhando lá para dentro, por tempo

indeterminado. Só então se toca de que não tem uma mala grande o suficiente para fazer uma viagem tão longa.


Puxa o celular do bolso da calça e, através do comando de voz, pede que o aparelho
ligue para sua mãe.
— Nina? Está tudo bem? – pelo barulho ao
fundo, Nina imagina que a mãe esteja no
trânsito.
— Oi, mãe. Pode falar?
— Posso sim. O que houve? – Laura
aguarda numa pausa tensa. – Não está no
colégio?

— Não. Aconteceram algumas coisas por lá


e eu resolvi voltar para casa. Mas não foi por isso que liguei. – Nina respira fundo,
convencendo-se de que está tomando a
decisão mais acertada.
— Estou ouvindo.
— Vou para Paris. Seis meses. E depois
volto para fazer o cursinho pré-vestibular.
— Tem certeza sobre isso?
— Tenho, mãe. – Nina fuça nos cabides
enquanto conversa.

— Está bem, pedirei para o seu pai agilizar as coisas.



***
As amigas acabam de assistir ao DVD.
Do lado de fora, a noite já caiu faz algum
tempo. Uma brisa suave entra pela janela entreaberta do quarto de Nina e as cortinas flutuam, numa dança esvoaçante.
O filme protagonizado por Lex e Nina
engloba diversas situações. O passeio na
praia quando Nina se deparou com o vazio
existencial pela primeira vez. O pagamento da aposta após o jogo de tênis.

Várias cenas da Caça ao Tesouro. E a mais humilhante das gravações: o Centro de Arborismo.


As imagens do que aconteceu por lá eram apenas flashes na memória fragmentada de Nina. Após assistir ao DVD, as lacunas
mentais foram preenchidas.
— Não acredito que protagonizei isso aí. –
Nina tira o DVD de dentro do aparelho, um tanto envergonhada.
— Você estava drogada. – Nathália
tranquiliza.
— Eu agi como uma vagabunda, me
equiparei a Kibi. – Nina atira o DVD dentro
de uma gaveta. – Meu pai vai acionar o Youtube e ver o que é possível fazer.
— A Kibi e o Bola mereciam se ferrar. – o tom de Nathália é agressivo.
— Vamos mudar de assunto? – Nina
assume outra expressão, jogando os
problemas para o fundo de sua mente. –
Contem-me tudo sobre o Gancho e o Doc.
— Tem certeza? – Lais não quer deixar a
amiga mais infeliz ainda.
— Ei, eu estou muito feliz por vocês duas, de verdade.
Sessenta: A mala da vingança – Parte I Nina optou por não ir mais ao colégio.

Não há sentido em se expor somente para


mostrar que é forte e inquebrável. Isso está longe da verdade, afinal, sente-se fraca e quebrada em todos os sentidos.
Nathi e Lais acabaram de chegar, trazendo novidades do Prisma. Suzana e Edgard se
tornaram amigos e a garota agora faz parte
da turma das meninas do último ano.
Ana Paula anda sozinha, de cabeça baixa,
sem qualquer amigo para conversar. Com a
expulsão de Bárbara e o afastamento de
Suzana, a garota vive pelos cantos, com um tremendo ar de tristeza.
Já Camila e Nando vivem quebrando o pau.
Todos os dias ele deixa uma rosa na carteira dela, na vã tentativa de ganhar o perdão da garota. Hoje, na maior TPM, Camila deu várias “rosadas” na cabeça de Nando. Nathi e Lais contam a cena rolando de rir.

Nina


imagina a situação e por um momento sente-se excluída por não ter estado ali num
momento tão hilário.
Gancho e Nathália estão perdidamente
apaixonados. Ela mostra toda orgulhosa, um livro que ganhou do cara hoje cedo.
— Podemos falar do Lex ou você não quer
ouvir? – Lais se senta na poltrona de fuxicos, colocando o violão sobre o colo.
— Não quero ouvir. – Nina termina de separar as roupas para a viagem.
— O Gancho continua a dizer que o Lex é
inocente e logo terão as provas disso. –
Nathália fala rápido para que Nina não tenha tempo de mandá-la calar a boca.

— Nathi, não quero ouvir. – a amiga a


encara, fechando a expressão.
— Desculpe.
— Bem, vamos ao shopping? – Nina força um sorriso. – Preciso de uma mala gigantesca para enfiar isso tudo. – ela aponta as várias pilhas de roupas e sapatos.
— Adoro ir às compras! – Lais bate
palminhas. – Eu vi um chinelinho tão lindo naquela loja de esquina, sabem?
— Outro chinelo? – Nathi se sobressalta. –
Cara, você tem altos problemas mesmo.
— Vamos antes que o Doc desista de me

emprestar o carro. – Nina pega a bolsa sobre a cama. – Aliás, desde que vocês começaram


a namorar, ele anda tão bonzinho. – a garota cutuca a barriga de Lais.
— É o amor. – Nathi suspira alto, levando as mãos ao coração.

***
O shopping está abarrotado devido as festividades de fim de ano. O natal se aproxima a passos largos e as pessoas são tomadas por um ímpeto desenfreado em
gastar, gastar, gastar.
Lais está toda feliz com seus quatro pares de chinelos dentro da sacola. Nina e Nathália reviram os olhos quando a amiga para em frente a outra vitrine, apontando
desesperadamente para um chinelo dourado com fitas de cetim.
— Eu preciso desse! – Lais cola o rosto no vidro da loja.
— Chega de chinelos! – Nina ruge.
— Só mais esse, eu juro! – Lais
choraminga.
— Ai, tá bom! – Nathália dá de ombros e elas entram na loja.
Com cinco pares de chinelos, agora Lais se dá por satisfeita. As três caminham pela
multidão de pessoas e sacolas, a caminho da loja de departamentos. Nina precisará de
uma mala tamanho extra mega super

grande.
As garotas procuram pela mala e


encontram duas bem bacanas. Nina não
consegue se decidir e entra numa discussão com Nathália, averiguando os prós e contras das duas malas. Por fim, Nina decide-se pela roxa.
— Se abaixem! – Lais sussurra, puxando as amigas para o chão.
— O que foi? – Nina sussurra de volta, com um tremendo frio na barriga, temendo que
Lais tenha visto Lex na loja. O que poderia ser pior do que o Lex?
— A Kibi Mor está aqui. – Lais fita as
amigas, em choque.
— Como é? – Nathália arqueia as

sobrancelhas, surpresa.


— Só pode ser brincadeira. – Nina bufa,
inconformada.
— Realmente era só o que faltava. – o rabo de cavalo de Nathi balança, irritado.

A garota sente uma pontada de fúria queimando o estômago.


Lais coloca a mente para funcionar. Seu
olhar se congela e as amigas reconhecem
essa expressão: a garota está maquinando
uma vingança, a todo vapor.
— Nem pense nisso. – Nina se apressa em

dizer. – Sei o que está pensando e não vou permitir.


— Não pode me impedir – Lais liberta um
sorriso desafiador, soltando as sacolas no chão. – Hoje a Kibi não me escapa.
— O que pensa em fazer? – Nathália
arregala os olhos, sentindo um medo
repentino. Quando Lais se propõe a algo, ninguém a segura.
— Me vingarei por vocês duas. – Lais estala o pescoço lateralmente, como se estivesse prestes a entrar em um ringue de luta livre.
– Fiquem aqui.
— Não! – Nina tenta impedir, puxando a
barra da saia de Lais. A amiga se desvencilha facilmente, resoluta.

Lais se detém em frente a uma gôndola de


esmaltes, vasculhando apressadamente os
produtos. Sorri quando verifica os preços e os alarmes anti furto dos esmaltes franceses.
— Que droga, temos que fazer alguma
coisa! – Nathália murmura, sacodindo Nina pelos ombros.
De onde estão, ambas acompanham quando
Lais se aproxima de Bárbara, sorrateira.
Sustenta duas caixinhas de esmaltes às
costas e Nina já entendeu o que ela pretende com isso.
Essa será uma manobra arriscada, mas Lais não é besta. Checa as câmaras de segurança e sorri quando nota que Bárbara está em um ponto aparentemente

cego.
A Kibi Mor está de cócoras, analisando um creme anti-envelhecimento para o rosto. A bolsa vermelha da garota, daquelas grandes e cheia de compartimentos, está aberta no chão. Lais se mete entre Bárbara e sua bolsa, chutando-a discretamente a fim de posicioná-


la melhor.
— E aí, Babi? Como anda a vida após a
expulsão? – Lais a encara, divertindo-se.
Bárbara, sobressaltada, faz cara de quem
foi pega roubando. Levanta-se num pulo e
encara Lais com sua famosa expressão
presunçosa.
Quando a Kibi recoloca o creme na

prateleira, Lais aproveita a brecha. Abre os dedos e as caixinhas de esmaltes caem direto no alvo. Torce para que Bárbara não perceba a artimanha e é exatamente assim que acontece. A Kibi nem imagina que carrega quase quatrocentos reais em esmaltes dentro da bolsa. Sim, duas caixinhas de esmaltes que custam em média duzentos reais cada.


Um absurdo, não?
— O que quer? – a Kibi empurra Lais, pega a bolsa vermelha do chão e fecha o zíper.
Lais respira aliviada, assim como Nina e
Nathi, que acompanham o desenrolar dos
acontecimentos ao longe.
— A expulsão foi muito pouco para você. –
Lais requebra o quadril, tombando a cabeça de lado.
— Não me venha com essa. – as pálpebras
de Bárbara tremem de raiva. – Você deveria me agradecer, Lais.
— Surtou?
— Você deu aquela foto para a Nina. – a
Kibi enfia o dedo no nariz de Lais. – Eu
deveria ter me vingado de você também!
— Ninguém mandou ser uma biscate, Bárbara. – Lais passa a mãos nos cabelos avermelhados, dando uma boa gargalhada.
— Sua ridícula! – trincandos os dentes, a Kibi Mor joga os cabelos oxigenados para o lado, tromba no ombro de Lais e se
encaminha para a saída da loja.
Sessenta e um: A mala da vingança –
Parte II
Tóim, tóim, tóim, tóim, tóim, tóim… e assim berra o alarme da loja de departamentos. A saída de Bárbara é bloqueada por dois seguranças engravatados, desses
grandalhões e com cara de malvados.
Lais sorri em êxtase quando alcança Nina e Nathália, ainda escondidas no departamento de malas. De onde estão, as três possuem uma visão perfeita de Bárbara e dos
seguranças.
— Precisamos fazer uma verificação,
senhorita. – um dos seguranças segue o
manual de conduta da empresa, falando baixo e na maior educação.

— O quê? Você sabe com quem está


falando, seu idiota? – ai, a garota não tem mesmo noção alguma.
— Do que me chamou, mocinha?
— I-d-i-o-t-a.
O outro segurança, já acostumado com
tipinhos como esse, arranca a bolsa do ombro de Bárbara, abrindo o zíper numa tacada e descobrindo não só os esmaltes, como
também dois cremes desses caríssimos.
— Idiota é quem rouba e se deixa pegar. –
o segurança desdenha, com os produtos
roubados em mãos.

— Eu não roubei isso aí! Não preciso


roubar! – Bárbara brada, selvagem. – Você não sabe com quem está falando!
O segurança desata a rir quando pega o
documento de identidade de Bárbara nas
mãos. A garota é tomada por uma fúria
crescente, mas reprime a vontade de voar no pescoço daqueles dois quando nota estar
sendo observada por vários olhos curiosos.
A Kibi assume uma postura altiva e
impassível, perguntando:
— Vocês não deveriam me levar para uma

salinha ou coisa assim?


— O quê? E perder a oportunidade de
humilhar uma patricinha filhinha de papai como você? De jeito algum!
— Viu só, Oswaldão? – o segurança balança o documento de Bárbara na altura dos olhos.
– A mocinha aqui fez dezoito anos ontem.
Responderá como gente grande por esse
roubo. – os dois caem na risada.
— Como é? – Bárbara murcha, como uma
planta há dias sem água. – Do que estão
falando?

— Ligue para a polícia, Oswaldão. A


ladrazinha aqui vai passar a noite no
xilindró.

***
Nina tapa a boca com as duas mãos. Nathi
engasga. Lais só falta cair no chão de tanto rir.
Bárbara vai sendo arrastada pelos dois
armários, para a tal “salinha”, a fim de
esperar pela polícia. Olhares reprovadores recaem sobre ela, mas a garota não cala a boca:
— Eu não roubei esses esmaltes!

— Ah, mas roubou os cremes, certo? – o


segurança afirma.
— Não, eu não roubei nada! Deve ter sido
aquela desgraçada! – Bárbara gira a cabeça, procurando por Lais. Mas as três se abaixam no momento exato. – Eu mato aquela vadia!
Eu vou me vingar!
Ai. As amigas se entreolham, apavoradas
com a possibilidade. Outra vingança não,
pelo amor de Deus!
— Vamos sair logo daqui. – Nina sussurra.
— Temos que pagar pela mala. – Nathi relembra.

— Que droga! – Nina tinha se esquecido de que precisa da mala. – Lais, a polícia vai verificar os vídeos de segurança da loja e a Bárbara vai acusar você, parou para pensar nisso, sua maluca?


— Não acontecerá nada disso. Aliás, ajudei a polícia a prender uma ladra. Vocês viram os cremes, ela estava roubando. – Lais não se abala. – Eu vinguei vocês duas e estou mega feliz. Vejam isso como a minha boa ação do dia.
— Eu sou sua fã. – Nathi ri, nervosamente.
– Vamos pagar logo essa mala e sumir daqui, por favor?
— Demorou.
Sessenta e dois: Nina é dura na queda
Duas amigas sentadas sobre uma mala
gigante. Dois irmãos puxando os zíperes com dificuldades. Essa é a cena que se desenrola
no quarto de Nina, quando a bagagem finalmente é fechada e lacrada com um

cadeado da Hello Kitty.


Nina suspira alto ao se dar conta de que
passará seis meses fora do Brasil, longe da família, do irmão estourado e de suas melhores amigas. Uma vontade de chorar
surge do lugar mais profundo do seu ser. Os olhos ficam marejados, a boca seca e os
lábios tremem. Doc a abraça e começa seu
discurso de irmão mais velho.
O celular de Nathália vibra no bolso da
calça. Ela pega o aparelho e lê uma
mensagem de Gancho que diz o seguinte:

Gancho: “Onde está?”


Nathi: “Na casa da Nina.”
Gancho: “O pitbull está em casa?”
Nathi: “Sim e sem coleira.”
Gancho: “Dá para tirar ele daí?”
Nathi: “Estou copiando a Lais.”
Lais: “O que pretende, Gancho?”
Gancho: “O Lex quer falar com a Nina.”
Nathi: “Onde vocês estão?”
Gancho: “Chegando aí.”
Lais: “Tudo bem, deixe comigo. Levarei o pitbull para passear.”
Lais e Nathália se entreolham. Precisam dar tempo suficiente para Lex e Nina conversarem.
— Doc, pode me levar em casa? – Lais
guarda o celular e pega a bolsa. – Eu esqueci que preciso resolver umas coisas para a
minha mãe.
— Posso pegar uma carona? Não estou a
fim de andar debaixo desse sol. – Nathália também pega a bolsa, jogando-a sobre o
ombro.
— Vocês já vão? – Nina estranha, enxugando as lágrimas.
— Ei, amanhã estaremos de volta. – Nathi
se sente péssima ao mentir, mas é por uma boa causa.

***
Nina acena da porta de casa. Estamos em
um condomínio fechado gigantesco, formado por vários residenciais interligados por praças e passarelas. Aqui não existem portões ou portas trancadas.
É nessa mini cidade onde mora a maioria
dos estudantes do Prisma. Doc dá dois toques na buzina e acelera, sumindo numa curva à direita. Antes de entrar, Nina vai até a calçada e verifica a caixa de correio. Pega as únicas duas cartas e um folder publicitário de uma loja de bolsas e acessórios.

Enquanto
folheia o material descompromissadamente, alguém bloqueia o caminho. De onde ele


saiu?
— O que está fazendo aqui? – Nina deveria gritar, chutar, socar, cuspir. Mas sua reação é resignada.
Os olhos de Nina não se enganam: sedutor
e extremamente lindo. Apesar do rosto ferido
e da expressão triste, Lex continua mais lindo do que nunca. A luz do sol incide em seus cachos cor de mel, transfigurando-os num halo dourado. Ela não consegue ver os olhos dele, devido à luminosidade, mas sabe que ali eles ardem como o próprio sol. Nina se sente queimar.
O cara está vestido, coisa rara de se ver. A polo branca destaca o bronzeado adquirido na ilha e a calça cáqui, cheia de bolsos, lhe confere um ar estiloso.
Lex se aproxima e quando atinge a sombra

de uma árvore, Nina pode analisar melhor os estragos causados por Doc. Um corte no


canto da boca; um olho roxo; uma bochecha amarelada. Com certeza, o irmão desferiu
três socos e muito bem dados.
— Não se aproxime. – Nina estende o braço em frente ao corpo. – Fique onde está.
— O que ouvimos no colégio foi uma
montagem e eu provarei a minha inocência.
– aquela voz rouca é de matar!
— Não se dê ao trabalho, não fará a menor diferença. – Nina sente o magnetismo de Lex puxando-a, empurrando-a para cima dele.
Resiste, mas não é nada fácil.
— Nina, está impossível viver sem você. –
cabisbaixo, Lex coloca as mãos nos bolsos. –
O que aconteceu entre nós é grande demais para terminar assim.
— O que quer me ouvir dizer? Que vou
perdoar tudo? Esquecer? – Nina meneia a
cabeça de um lado para outro. – Não direi isso.
Lex leva uma das mãos aos cabelos,
alisando a franja encaracolada para trás. O
vazio que sente dentro do peito o sufoca, tragando toda a sua energia, sua alegria, a vontade de viver.
Com um profundo suspiro, Lex a encara,
olho no olho e a verdade vem a tona. Não são meras palavras ditas a esmo:
— Nina, eu amo você.
Ai. Meu. Deus.
Nina é pega totalmente desprevenida.
Assimila, vagarosamente, as palavras que
ainda reverberam em seus ouvidos. O corpo dela reage como se um meteoro estivesse
vindo em sua direção. Precisa correr para salvar a própria pele, mas quem disse que as pernas se movem?
— Por que está fazendo isso comigo? –
tomada por um medo paralisante, Nina deixa as cartas e o folheto caírem ao chão, levando as mãos ao rosto. As lágrimas chegam numa torrente de emoções conflitantes e sua única vontade é a de sumir, de evaporar no ar.

— Eu amo você, Nina, e nada vai mudar


isso.
Próximos demais. O aroma de Lex se
mistura ao ar de maneira desumana. Nina se sente como na ilha, completamente dopada e sem qualquer controle de suas vontades.
Os braços dela caem rentes ao corpo. Nina morde o lábio para que ele pare de tremer.
Mil coisas para dizer começam a se formar em sua boca. Nenhuma palavra sai.
Vencida, Nina se deixa cair nos braços de Lex. Ele a toma num abraço quente, como se a vida de ambos dependesse disso. Ela o escuta arfar. Ouve as batidas de seu coração.
Estremece quando ele sussurra em seus
ouvidos: “Eu te amo”.
Chantagem.
Aposta.
Sedução.
Jogos.
Centro de Arborismo.
Humilhação.
O cérebro de Nina vive o próprio
apocalipse. Os sentimentos e emoções
contradizem a razão. A garota se sente
destruída, como um prédio recém demolido.

Ela deseja, mas não deve.


Ela precisa, mas não pode ter.
Ela ama, mas deve partir.
Num arroubo enlouquecido, Nina toma os
lábios de Lex de assalto. É um beijo que dói, machuca, estraçalha o pouco que ainda resta de sua sanidade. É um beijo úmido, regado a lágrimas de ambos os lados. Ele chora por acreditar em um final feliz. Ela chora porque sabe que finais felizes não existem.
Sessenta e três: Um beijo de despedida O beijo.
Esse é um daqueles beijos demorados, em
que nenhum dos lados se sente disposto a
parar. Nina quer morrer ali, naqueles lábios macios, naquele abraço necessário.

Lex quer recuperar o tempo perdido, quer se afogar no sabor de Nina e não soltá-

la nunca mais.

Mas como eu já disse nessa narrativa,


sempre tem um mala para atrapalhar
momentos perfeitos. E o mala chega,
estacionando o carro na garagem de
qualquer maneira.
— Largue já a minha irmã!
Nesse instante, Gancho salta de trás de
uma árvore. O cara estava ali escondido,
para uma situação de emergência como a
que se apresenta.
Lais sai do carro, com uma expressão que grita por desculpas. Depois que deixaram
Nathália em casa, Doc percebeu que havia
esquecido a carteira. Quando Lais se
sobressaltou com a possibilidade de voltarem para buscar a tal carteira, Doc, que não é besta, sacou que havia armação no ar.
— Doc, deixe eles conversarem! – Lais dá a volta no carro, pronta para segurar o cara se for preciso.
— Não acredito que armou para mim. – Doc
lança um olhar esmagador na direção de
Lais. – E eles não estão conversando porra nenhuma!
— Doc, o Lex é inocente, cara. Deixe ele
explicar o que aconteceu. – Gancho tenta apaziguar.
— Foi um beijo de despedida, Doc, nada
mais. – Nina revela, afastando-se de Lex.
— Como é? – golpeado pelas palavras de
Nina, o garoto é tomado pela surpresa. –
Despedida?
— Vou morar em Paris.
Se Nina queria ferir o cara mortalmente,
ela consegue. Lex sente o chão sumir sob
pés. O coração para de bater por um instante e o sangue entra em greve, não querendo
mais circular.
— Não pode estar falando sério. – ele a
encara, numa tristeza insuportável.
— Desculpe. – Nina arqueia o corpo para a frente e recolhe os papéis do chão. –
Qualquer coisa que tínhamos ou que
pudéssemos ter, acabou aqui.
Lex sente uma ânsia tomar forma, um
desespero crescente na boca do estômago.
Será que Nina não ouviu o que ele disse?
Não acreditou em suas palavras?
— Eu achei que… – a voz de Lex é um fio

solto no ar.


— Achou errado.
— Posso provar a minha inocência e eu vou provar! – Lex se altera e Doc parte para cima dele, mas é contido por Lais.
— Já disse, não perca o seu tempo. – Nina reúne os cacos e retoma o caminho para
casa.
— Não pode me deixar assim. – Lex a
segura pelo braço e ela se sente fraquejar.
— Deixe ela em paz, cara. – Doc rosna.
— Logo você vai embarcar numa nova
aposta e se esquecer disso tudo. – Nina puxa o braço e seus pés a carregam para

bem
longe de Lex.



***
Do quarto, Nina pode ouvir a discussão que se desenrola debaixo de sua janela.

Lex quer
entrar de qualquer maneira e é dominado por Gancho. Doc bloqueia a passagem e ameaça


bater nos dois se não forem embora agora.
Nina está sentada na cama, abraçando os
joelhos, com o olhar perdido no nada. Ela não quer chorar, mas as lágrimas saem furtivas, sem qualquer controle.
— Nina? – Lais entra no quarto.
— Você e a Nathi armaram para mim, hein?
– Nina ensaia um sorriso, entre lágrimas.
— Desculpe, foi necessário.
Mais gritos. Muitas acusações. Vários
rosnados de Doc. Panos quentes atirados por Gancho. A discussão pega fogo no andar de baixo.
— O que acha de jogarmos um balde d’água
na cabeça desses caras? – Lais se senta na cama, colocando as mãos sobre as de Nina.
— Não é má ideia.
— Acho que o Lex está falando a verdade.
A aposta terminou, o pai dele já está com os
vídeos… ele poderia estar tocando a vida, mas não está. – Lais faz uma pequena pausa, acariciando os joelhos de Nina. – Ele está completamente apaixonado por você. Eu não costumo me enganar com essas coisas.
— Diz isso porque não escutou o diálogo
entre ele e a Kibi.
— Nem preciso ouvir para afirmar que é
uma montagem. A Kibi armou isso tudo. –
Lais suspira alto. – Nina, dê uma chance ao Lex de provar sua inocência. Dê uma chance a vocês.
— Ele disse que me ama. – Nina revela.
— Ele disse isso? – Lais se espanta. – Uau, Nina, o que está esperando para se jogar nos braços desse cara?
— Eu não confio nele. Algo se quebrou
dentro de mim naquele corredor do Prisma, quando ouvi a voz do Lex pelos auto

falantes.


Lex grita por Nina lá debaixo. Doc continua rosnando, ferozmente. Gancho por sua vez
tenta apaziguar os ânimos.
— Precisamos acabar com isso ou os
vizinhos chamarão a polícia. – Lais se levanta e olha pela janela. – Posso dizer ao Lex que você vai ouvi-lo se ele conseguir as provas?
— Eu não estarei aqui de qualquer
maneira. – Nina dá de ombros. – Faça o que achar melhor, só acabe com essa gritaria, por favor.
— Deixe comigo.
Sessenta e quatro: Jantar em família
Papelada: checada

Passaporte: checado


Bagagem: checada
Cartão de crédito e dinheiro: checados
Seguro viagem: checado
Endereço da prima Simone: checado
Telefones para contato: checado
Telefone da Embaixada Brasileira: checado Passagem aérea: checada Finalmente os pais de Nina se dão por
satisfeitos. Tudo foi checado duas vezes, só para garantir. A família Albuquerque está reunida na sala de jantar, comendo pizzas e conversando sobre amenidades.

Bem,
falavam sobre amenidades até esse exato

momento.
— Finalmente conseguimos uma liminar e
tiramos o vídeo do Youtube. Sua mãe ligou hoje para o diretor do Prisma que garantiu ter recolhido boa parte dos DVDs que foram distribuídos aos alunos.

Fui à empresa de outdoor e consegui uma nota fiscal e um cheque, que liga Bárbara a essa confusão


toda. Também já estou com o laudo do seu
exame de sangue, que comprova que você foi drogada na ilha. – o pai deixa os talheres sobre o prato e limpa a garganta antes de continuar. – A pergunta que faço é a
seguinte: não vai mesmo permitir que eu
processe todos os envolvidos? Vai deixar que saiam ilesos dessa história?
— Ninguém sairá ileso, pai. Todos estão perdendo, de uma forma ou de outra. –

Nina não está com fome, mas se força a enfiar


mais um pedaço de pizza de rúcula goela

abaixo.
— Você também está perdendo. – é Laura


quem fala o que a família está pensando. –
Está fugindo para Paris, não é verdade?
— E se estiver? – Nina não consegue mais
comer e afasta o prato.
— Se não quiser ficar em Paris por seis
meses, não há necessidade. Vá, fique alguns dias e então volte para iniciar o cursinho. – o pai completa.
— Ela precisa ficar longe daquele babaca. –
Doc cerra os punhos sobre a mesa. – Ou não dou um mês para a Nina cair na dele de

novo.
— Não cairei na dele. – ela se defende,


num tom agressivo.
— Deixe sua irmã em paz, Doc. – pede
Laura, fechando a cara.
— Será que dá para mudarmos de assunto?
– Nina se irrita e cruza os braços.
— Certo, vamos mudar de assunto. Que tal
me dizer por que fez um saque, no valor de seis mil reais da sua conta-poupança? – o pai de Nina acaba de pegá-la no pulo.
— É o pagamento da aposta. O Lex rasgou

o cheque e eu resolvi tirar em dinheiro. –


Nina revira os olhos, num mau-humor
crescente.
— Vai pagar o cara depois de tudo? – Doc
quer jogar o prato na parede. Ou talvez, na cabeça de Nina.
— Eu só quero passar a régua nessa
história. Será que não dá para entender, pô?
– e uma irada Nina deixa a mesa e a família para trás.
Sessenta e cinco: Entre amigos
Hoje é o último dia de aula no Prisma. Lex, Gancho, Lais e Nathália conversam no pátio,

debaixo de um Caquizeiro, um dos locais preferidos de Nina no colégio.


Lex conta como anda a investigação de Rei Trancinha e as notícias não são nada animadoras.
Bola não sai do quarto há dias. Segundo
Rei, ele já comeu todos os salgadinhos do mundo e bebeu quinhentos litros de refrigerante. O cara está na maior depressão desde que Bárbara foi presa na loja de
departamentos. Ela responderá em liberdade, mas essa liberdade não inclui Bola.
Parece que a garota disse por telefone, com todas as letras, que não o suporta. O

chamou de gordo, ridículo, nojento, asqueroso, imbecil e por aí vai. O garoto realmente


merece tudo o que está acontecendo. O

problema é que ele não sai do quarto e Rei não tem acesso ao computador do cara.


— Não dá para acessar remotamente? –
Nathi pergunta para Gancho.
— Daria se o filho da mãe ligasse a merda do computador. – Gancho dá um soco no ar.
— E se conversássemos com o Bola? – Lais
especula. – Quem sabe?
— O Hulk e o Edgard já tentaram, sem
sucesso. – Gancho elucida.
— Quando a Nina viaja? – Lex pergunta,
sem olhar para ninguém em específico.

— Hoje a tarde. – Lais engole em seco. –


Lex, ela está irredutível.
— Não sei o que fazer. – ele lamenta,
chutando um caqui ao se levantar. – Sem as provas, ela não vai me ouvir.
— Temos que conseguir essas provas o
mais rápido possível. – Nathi se levanta num salto, como se estivesse pronta para uma
briga.
— Mas como, bebê? – ok, ok, ok… parem
tudo agora mesmo. Bebê???? Bem, é assim
que Gancho trata Nathi desde que eles se

entenderam. Ai, fala sério, não?


— Não sei, Ganchinho, mas temos que conseguir.
Sessenta e seis: Embarcando para Paris Quatro da tarde.
Check-in feito.
Momento da despedida.
Nina segura as lágrimas do jeito que dá.
Uma ou outra teima em cair e ela as enxuga rapidamente. Já abraçou Nathi e Lais umas quinhentas vezes e parece não ser o
suficiente.
Doc, que não é de se emocionar facilmente, está com os olhos marejados e a garganta
seca. Ele se aproxima de Nina e começa a

dizer:
— Eu amo você. Sabe disso, não é?


— É claro que sei. – Nina dá um soquinho
de leve no estômago do irmão.
— Não arrume confusões por lá. Fique
longe de caras que usem cuecas, tá bom?
— Pode deixar, Doc.
Os olhos de Nina percorrem o saguão do aeroporto, desesperados por uma miragem,
uma aparição do além. Para sua completa
surpresa, Lex e Gancho estão bem próximos, recostados numa pilastra.

Lex está particularmente lindo hoje,


vestindo calça branca, camiseta cinza e uma camisa xadrez por cima. É

impressionante, mas toda a mulher que passa por ele, até mesmo garotinhas, giram o pescoço de forma sobrenatural para admirá-lo. Lex possui esse poder, essa aura expandida que atrai a atenção sem precisar de qualquer esforço.


— O que esse palhaço está fazendo aqui? –
Doc brada, irritadiço.
— Por que não vai até lá se despedir? – a mãe de Nina sugere.
— O quê? Pirou, mãe? – Doc mostra os
dentes, doido por uma confusão.
— Concordo com sua mãe. Vá até lá. – o

pai de Nina não é o máximo?


Debaixo das vociferações de Doc, Nina busca os olhares de Nathália e Lais.

Ambas meneiam a cabeça, em concordância.


Nina respira fundo e toma coragem. Não
conseguirá simplesmente ignorar a presença dele e partir. Coloca-se a caminho, mirando as próprias mãos que agora tremem sem
controle. Nina sente como se tivesse sido atirada de um avião, sem para-quedas.
Gancho os deixa a sós quando Nina alcança o seu destino.
— Ainda não consegui as provas. – Lex leva as mãos aos bolsos da calça, fitando o chão.
— As meninas disseram que você está se
esforçando muito para isso. – Nina suspira tristemente. – Lex, não foi só a gravação, é o todo, você entende?
— Começou tudo errado, eu concordo com você. Mas precisa terminar errado?
Nina não consegue se segurar. Suas mãos
rasgam o ar, tocando o rosto de Lex, alisando
a barba dourada por fazer. Ele fecha os olhos, sentindo a troca de energia entre eles.
Numa ânsia insuportável, as mãos de Lex
saem dos bolsos, envolvendo a cintura dela, puxando-a para si. Num sussurro embargado, ele declara:
— Eu amo você e esperarei para sempre se
for preciso.
— Não faça isso. – Nina fecha os olhos,
afundando o rosto no peito dele.
— Diga que tenho uma chance.
— Não posso dizer uma coisa dessas. – ela abre os olhos e o encara. – Não posso lhe dar falsas esperanças.
— Nina, o que eu preciso fazer? Me diga e eu farei. – Lex implora, os olhos úmidos.
— Não há nada a ser feito, desculpe.
Nos autofalantes do aeroporto, a chamada
para o embarque tem início. Nina sente um nó se formar na garganta, assim como Lex.
Ele quer beijá-la, prendê-la, sequestrá-la.
Uma urgência toma conta do cara e, mesmo com os pais e o irmão de Nina por perto, não consegue se segurar.
Os lábios se encontram em desespero. Lex

escuta quando Doc vocifera um palavrão,


mas não se retrai. Nina se agarra a ele, sem saber se conseguirá soltá-lo, deixá-lo para trás. Mas ela precisa muito se afastar. E por incrível que pareça, ela consegue.
Ambos arfam, sem ar. Olhos nos olhos. Eles se encaram por um curto período, até que a voz nos autofalantes retorna relembrando sobre o embarque.
— Eu tenho que ir. – Nina chacoalha a
cabeça e se põe a andar antes que desista de vez da viagem. Ao passar por Gancho, se
despede do cara. – Cuide bem dele, tá bom?
— Eu não tenho esse poder, Nina. –
Gancho a puxa para um abraço. – Boa
viagem.
Nina se despede de todos uma última vez,
antes de pegar sua coisas e finalmente entrar na área do embarque internacional.

Já estava preparada para ser repreendida pelos pais ou pelo irmão. Contrariando todas as


expectativas, nenhum deles se pronuncia
com relação ao beijo. Talvez tenham
entendido que as coisas são mais complicadas do que aparentam ser.
Nina não queria, mas olha para trás quando o funcionário do aeroporto lhe devolve a
passagem e o passaporte. A imagem é
terrível e a garota fraqueja.
Lex chora compulsivamente e está sendo

amparado por Gancho e Nathália. A cena faz o coração de Nina se estraçalhar dentro do peito. Não. Ela não desistirá da viagem.


Mudar de ares vai lhe fazer bem e ela precisa muito pensar.
Engolindo suas vontades, sufocando todos
os sentimento, abafando a voz interna que grita para que ela fique, Nina junta os cacos
e caminha mais do que apressada para bem longe dali.
Sessenta e sete: Acesso remoto – Parte I Lex está deitado na cama, de bruços, jogado às traças. Gancho e Nathi tentam
confortá-lo da melhor maneira que
conseguem, mas nada parece surtir efeito.
No chão do quarto, um envelope está

aberto e seis mil reais em dinheiro saltam para fora. Nina pediu que o pagamento da


aposta fosse entregue quando ela não
estivesse mais no Brasil.
O celular de Lex toca no bolso traseiro da calça de forma insistente. Gancho o puxa
para fora, já que o amigo parece estar em outro mundo no momento. A foto de Rei
Trancinha, fazendo o símbolo de paz e amor, aparece no visor.
— Cara, é o Rei! – Gancho dá um pulo e
Lex se remexe na cama, finalmente dando
sinal de vida.
— Atende logo! – Nathi arregala os olhos, incentivando.
— Rei? É o Gancho, man!
— E aí, Gancho, grande brother! Como
estão as coisas?
— Depende, meu camarada. Diga que tem
algo quente para o Lex. – Gancho se senta na cadeira, colocando o celular no viva voz.
— Estamos com uma janela de uma hora e
meia. Minha mãe levou a baleia do meu
irmão para o psicólogo. Só tem um problema, brow.
— O que é, Rei? – Gancho pergunta, atento à resposta.
— Essa merda desse computador pede uma senha. – Rei suspira. – O que eu devo fazer?
— Deixe comigo, meu camaradinha! –
Gancho joga o celular para Nathi, que o pega no ar. – Vou acessar remotamente e quebrar a senha.
— Consegue fazer isso? – Lex levanta-se da
cama e olha por cima do ombro de Gancho, para a tela do notebook.
— A pergunta correta é: Gancho, o que
você não consegue fazer? – o cara adora se gabar. – Rei, fique na linha, beleza?
— Estarei aqui, brow.
Sessenta e oito: A bordo do Air France A viagem já dura seis horas. Nina não
consegue se concentrar em nada e resolve tentar dormir um pouco. Não. Dormir não
resolverá nada.
Ela se remexe, recoloca os fones e zapeia a tela à sua frente. Já viu boa parte dos filmes disponíveis e não está a fim de nenhuma das comédias românticas apresentadas. Acaba
optando por um filme de terror, que não
passou nos cinemas do Brasil.
O gosto de Lex ainda grita em suas papilas.
Nina toca os lábios com o indicador, fechando as pálpebras por alguns segundos.

Não será nada fácil ficar longe dele.


E se ela não tivesse ouvido o tal diálogo?
Teria perdoado Lex? A garota começa a fazer essas e outras perguntas para si mesma. A resposta? Bem, ela tem a resposta na ponta da língua.

Sim, Nina teria perdoado Lex.


Mas aquela gravação bagunçou tudo em
sua cabeça. Seu ego, com sérios problemas de inferioridade, não consegue lidar com o fato de Lex estar envolvido no caso Centro de Arborismo. Nina não sabe se acredita ou não na inocência dele. Talvez ela acredite, querendo desacreditar. E vice-versa.
Nina se pega sorrindo ao relembrar o jogo de tênis. O primeiro beijo foi tão avassalador que compensou quase tudo. E o beijo roubado no dia da Caça ao Tesouro? Ao se
lembrar da cara de Lex quando ela acionou o sinalizador, Nina sufoca uma gargalhada. Na gruta, a garota já tinha quase certeza de seus sentimentos. Mas a ficha realmente caiu
pouco antes de Lex se declarar. Infelizmente a viagem terminou daquela forma, com Nina sendo humilhada para toda uma vida.
As pálpebras dela finalmente começam a

pesar. Vai fechando os olhos vagarosamente e o sono a carrega, para um sonho mais do que perfeito.


Sessenta e nove: Acesso remoto – Parte II
Gancho digita com os dez dedos de forma
frenética. O corpo do cara parece ter sido invadido por uma força demoníaca. Os olhos negros do pirata estão cravados na tela e Nathi e Lex tentam acompanhar o raciocínio dele.
Lex não manja bulhufas de computador. Já
Nathália entende praticamente tudo o que
Gancho está fazendo.
— É um programa para quebrar senhas. –
ela explica para Lex. – O problema é que
demora um pouquinho.
— E então conseguiremos acessar os arquivos do Bola? – Lex conjectura, num tom derrotista.
— Torça para que ele não tenha uma
segunda senha.
Vinte e oito minutos e dois segundos
depois, Gancho dá o grito da vitória. Ele está dentro do computador de Bola.
— O computador está liberado por aqui. –
Rei anuncia.
— Certo, estamos procurando arquivos de
áudio. – Gancho narra enquanto digita. –
Vamos lá, se mostrem para o papai aqui.
— Devo fazer alguma coisa? – Rei
pergunta.
— Não, man. Apenas vigie. – Gancho vai abrindo pastas e mais pastas de arquivos.
— E se não encontrarmos nada? – Lex
despenca na cama, abatido. – E se não tiver sido o Bola?
— Quem poderia ter sido? Não conheço
mais ninguém além do Gancho que conseguiria entrar no sistema do colégio. –
Nathi se senta ao lado de Lex. – Foi ele, tenho certeza.
— Galera, isso está demorando demais. –
Rei começa a ficar tenso. – Por acaso o Bola vai saber que invadimos o sistema dele?
— Está falando com o maior pirata de todos os tempos, meu camarada. Acha mesmo que
eu deixaria pistas? – Gancho solta uma
risada incrédula. – Estou apagando minhas pegadas conforme passo, man.
— E se nem assim a Nina quiser me ouvir?
— Nem pense nisso! – Nathália tem
vontade de dar uns tapas em Lex.
— Aqui! Achei! – Gancho comemora,
lançando uma risada maquiavélica a seguir.
— Abra logo! – Nathi chacoalha os ombros
dele.
— Deixe eu copiar primeiro. – na pasta com o nome “vingançababi”, Gancho descobre
vários arquivos de áudio.
— Droga, galera, eles chegaram! – Rei
entra em pânico. – O que eu faço, brow?
— Calma, Rei. Estou terminando de copiar.
– Gancho dá um tapa no monitor. – Anda
logo com isso!
Nathi rói as unhas. Lex arranha o violão.
Gancho se ajoelha na cadeira. Rei, do outro lado da linha, morde o fio do mouse.
— Pronto! – Gancho volta a digitar, apagando o seu acesso do sistema de Bola. –
Desligue o computador, Rei.
— Ok, feito. – quando Rei diz isso, Bola
entra no quarto. Nathi, Gancho e Lex
mergulham num silêncio sepulcral.
— O que está fazendo no meu quarto? – o
tom de Bola é amargurado.
— Meu computador pifou e vim tentar usar
o seu. Mas essa merda tem senha, não é? –
Rei se levanta, pegando o celular. – Como foi no psicólogo?

— Por que isso interessa? Você não me suporta.


— Não pode deixar aquela Kibi arrasar com você desse jeito. – Rei tenta motivar o irmão.
— Não fale assim dela! – Bola brada.
— Tudo bem. Não está mais aqui quem
falou.

***
Lex e Rei conversam pelo celular, agora de maneira privada. Gancho está abrindo os
arquivos, um a um, com Nathi no seu
cangote.
— Você é o melhor, Ganchinho. – a garota

lhe dá um beijo no canto da boca.


— Obrigado, bebê. Eu sou foda!
— E então? – Lex finalmente desliga com
Rei. – Tudo aí, Cabeça?
— Tudo aqui. São vários arquivos de áudio, provavelmente de conversas que a Kibi
gravou. Prontos para ouvir? – Gancho
sustenta o indicador sobre a tecla,
aguardando.
— Pode reproduzir. – Lex autoriza.
Setenta: La ville lumière

Paris. A cidade luz. A capital em formato de caracol.


É isso o que Nina vê a bordo do avião,
antes de pousar. Ela deveria estar extasiada, ansiosa e feliz por realizar um de seus
sonhos, mas não é assim que ela se sente.
De maneira automática, segue o fluxo de
pessoas. Passa pela imigração, pega as
bagagens e se encaminha para a área de
desembarque, sentindo-se apenas mais uma
na multidão.
O aeroporto Charles de Gaulle é uma veia

pulsante. Em um outro momento de sua vida, talvez tivesse olhado em volta, reparado nas pessoas. Não hoje. Não agora.


Simone acena e vai se aproximando, feliz
por ter companhia após quatro anos morando em Paris, longe da família e dos amigos. Nina
tenta sorrir, mas é um sorriso forçado e ela não precisa se explicar. Simone já conhece parte da história contada por Laura, a mãe de Nina.
Simone é museóloga e trabalha no
futurístico Centre Georges Pompidou, no
famoso Museu de Arte Moderna. Mudou-se
para Paris há quatro anos, após concluir os estudos na Inglaterra. Ela e Nina se veem apenas em datas comemorativas e também
conversam muito pelo Skype.
Apesar da diferença de idade – quase quinze anos – Simone é como se fosse uma
irmã mais velha, sempre pronta a dar um
conselho que realmente vale a pena ouvir.
Elas bem que poderiam ser irmãs. Simone
é alta, esbelta e possui olhos tão verdes quanto os de Nina. Mas o estilo é completamente diferente. Enquanto Nina
prefere o conforto, Simone adora uma
vestimenta clássica, ao estilo Audrey
Hepburn.
— Que saudades, Nina! Como foi de

viagem? – o abraço é caloroso e Nina se


sente bem por alguns segundos.
— A viagem foi tranquila. E como você
está, Mone? – Simone não curte o próprio
nome. Em um determinado momento da
vida, optou pelo apelido Mone. Mais francês do que isso, impossível.
— Estou bem e muito feliz por você estar
aqui. – Simone faz uma pausa, ajudando
Nina com as bagagens. – Mas algo me diz
que você não ficará por muito tempo.
— Conversou com a minha mãe, não é? –
os lábios de Nina desenham um sorriso
lacônico.
— Temos muito o que conversar, mocinha.
Quero saber tudo sobre a viagem de
formatura e principalmente: quero saber
todos os detalhes sobre esse tal de Lex.

***
O táxi estaciona no bairro Saint-Germain-des-Prés, lugar conhecido por suas livrarias, sebos, cafés e luxuosas lojas de grife. Os intelectuais de Paris são figurinha fácil nesse ambiente acolhedor e extremamente charmoso.
Nina pensou que sentiria uma tremenda emoção ao ver o Rio Sena e a Torre Eiffel.
Infelizmente, ela não está no clima. Tanto o rio como a torre passaram batidos, como
mais um ponto turístico dentre tantos.
Nina segue Simone para a entrada do
prédio e tudo ao redor suspira glamour. A maioria das lojas já está aberta e o clima é bem frio. Nina passa o cachecol em torno do pescoço e seu corpo sente o choque da
mudança de temperatura.
Assim como o bairro, o prédio exala charme e sofisticação. Passam por um portal e
chegam a um pátio interno, todo forrado com flores de uma beleza magnífica. E

o aroma
então? Café fresco com flores do campo…


uma mistura que ficará para sempre marcada na memória olfativa de Nina.
Sobem um lance de escadas e seguem por
um corredor até o apartamento de número
vinte e oito. O lugar não é grande ou
pequeno. Eu diria que é perfeito para duas pessoas. Simone explica que morar em Paris é caro demais, mas ainda assim conseguiu alugar esse apartamento com dois quartos.
Como sempre recebe visitas vindas do Brasil, dois quartos eram mais do que necessários.
— Nina, sinta-se em casa. – Simone vai
abrindo as janelas. – Antes de desfazer a mala, vou passar um café e quero ouvir a sua história.

— Mone, eu não voltarei ao Brasil, isso está fora dos meus planos no momento.

– Nina
rebate, sabendo exatamente onde Simone
quer chegar.
— Ainda assim, deixe a mala como está.
Venha, quero que me conte tudo, tim, tim, por tim, tim.
Setenta e um: Confronto de gigantes
Os pais de Lex estão na cozinha,
preparando sanduíches e uma salada para o jantar. Bebericam um vinho tinto e riem de algo que parece ser bem engraçado.
Lex se aproxima, sem saber como iniciar a conversa. Senta-se em um banco alto e apoia os cotovelos no mármore da bancada. O pai corta rodelas de tomate bem fininhas e a
mãe está lavando alfaces.
— Velho, preciso conversar com você. –
Lex, cabisbaixo, entra na conversa.
— Não me chame de velho, moleque. –
desde que o pai de Lex viu os vídeos do
racha, os dois não se entendem.
— Desculpe. – Lex pigarreia. – Pai, preciso mesmo conversar com você.
— Se for para pedir dinheiro… – nesse
momento, a mãe de Lex fecha a torneira e
toca o braço do marido.
— Deixe ele falar, Raul. – a mãe fita Lex, amorosamente. – O que é, filho?

— Eu fiz besteira e quero me desculpar. –


Lex sabe que essa conversa pode não levar a lugar algum, mas precisa tentar.
— Se está se desculpando é porque quer
algo. Vá direto ao ponto. – Raul solta a faca sobre a bancada e enxuga as mãos no pano
de prato, encarando o filho.
— Não sei em que eu estava pensando. Não
dá para conversar com vocês. – Lex faz
menção em se levantar, mas a mãe não
permite.
— Diga o que está havendo, Lex.

Orgulho é um sentimento que atrapalha a


vida, só digo isso a vocês. E Lex, orgulhoso como ele só, precisa fazer uma tremenda
força para se sentar novamente e contar
tudo o que o aflige. E ele começa falando sobre o acidente.

***
Raul e Alice, pais de Lex, estão atônitos. O
filho acaba de despejar sobre a bancada da cozinha, coisas que eles nem poderiam
imaginar.
— Não acredito que esteja arrependido,
Lex. – Raul puxa um banco e se senta.

— Eu mudei, velho… er, pai. Não sou mais


aquele babaca.
— Acredito em você, filho. – Alice conhece Lex como ninguém.
— Deixe eu ver se entendi: você quer a
nossa autorização e dinheiro para ir à Paris, é isso? – o pai estala a língua no alto da boca. – O que me garante que você não se
cansará da garota? Você é o tipo de moleque que só quer o que não pode ter. E

quando
consegue, acaba enjoando.


— Eu não sou assim! – Lex rebate, irritado.
– Você não me conhece mesmo, não é? –
opa, agora estamos aos gritos. – Eu acabei

de dizer que desisto da faculdade de música, desisto da banda, desisto do que você quiser!


Me ouviu quando eu disse que vou trabalhar com você? O que mais você quer?
— Tudo isso por causa de um rabo de saia?
– Raul repuxa o lábio lateralmente. – É típico de você, Alexandre!
— Eu amo a Nina, tá legal? E eu farei
qualquer coisa por ela! – Lex irrompe em
lágrimas. E elas são tão reais quanto a dor que ele sente nesse momento.
Os pais de Lex finalmente encaram a face
da verdade. Não é mais um capricho do filho adolescente. Isso está além de um mero
desejo de se ter o que não pode. Está além do mundano. Está além até mesmo do

próprio Lex.


— Filho, tem certeza do que está dizendo?
– o tom de Alice, sempre delicado e gentil, é um bálsamo para os ouvidos de Lex.
— Tenho, mãe. – o garoto deita a cabeça
no mármore, deixando a dor vir com tudo.
Ele se sente definhar, como se o sangue
tivesse se transformado em ácido, corroendo tudo por onde passa. Sem a Nina nada fará o menor sentido. Lex será um zumbi, uma múmia, um largado.
Os pais deliberam por um longo tempo,
mas ele não escuta. Lex está distante, bem longe dali. Está na ilha, revivendo os

melhores momentos de sua vida.


— Lex. – o pai chama e o garoto levanta a cabeça. – Daremos uma última chance a
você. Prove que é um homem de verdade,
um homem de valor e então, não precisará
desistir da faculdade ou da banda.
— O que quer que eu faça? – Lex funga
alto.
— Vá até Paris e prove a sua inocência. E
se ainda assim a Nina não quiser ficar com você, volte para casa de cabeça erguida. Seja homem, você me entendeu?
— Vai me deixar viajar? – Lex não se contém e sorri. – É sério?

— Mas não pense que estou fraquejando.


Quando voltar de Paris, você vai trabalhar comigo, entendeu? Não quero um vagabundo
dentro de casa. E quanto a sua moto, vamos vendê-la ao ferro velho. Só quando me
provar que cresceu, poderá ter outra moto.
— Obrigado. – Lex se levanta e num
rompante nunca antes visto nessa casa, o
garoto se atira nos braços do pai. – Não vou decepcioná-lo, cara, eu juro.
Setenta e dois: Convencendo Doc a dar o endereço Nina está em Paris há cinco dias. Cinco
longos dias para Lex. A documentação para a viagem já está pronta e a

passagem
comprada. Agora é convencer Doc a dar o


endereço de Nina e torcer para não levar um outro soco.
Gancho tentou convencer Lex a mandar um
e-mail para Nina com as provas de sua inocência. Não. Lex quer ter essa conversa cara a cara, olho no olho.
Nathi e Lais poderiam ter conseguido o
endereço de Nina através de outras fontes.
Não. Lex também não quer isso. Precisa do consentimento de Doc, quer se entender com o cara.
Não é nada fácil convencer Doc a receber
Lex. Mas Lais, com jeitinho e uns beijinhos, consegue o impossível.
— Me convença a não acertá-lo com esse taco de beisebol e eu prometo pensar sobre o que está me pedindo. – afundado no sofá da sala, Doc passa o taco de uma mão a outra.
Lex engole o orgulho juntamente com um
sapo de duas cabeças. Por Nina. Qualquer
coisa por ela.
Não posso dizer que essa foi uma conversa calma e corriqueira, isso seria uma inverdade. Lex precisa de jogo de cintura
com Doc e da ajuda de Lais em vários momentos. Nathália e Gancho também estão
ali, para o caso de uma guerra nuclear
estourar.
— Sabe que se fizer minha irmã sofrer, arrancarei sua cabeça, não sabe? – Doc
dispara, apontando o taco na direção de Lex.
— Sei bem disso. – Lex se mantém firme.
— Não vou com a sua cara, mas a Nina
gosta de você. Acho que posso suportar a sua presença se vocês se entenderem. –

Doc é
uma muralha intransponível.


— Anda com isso, Doc. Dê logo o endereço
para o Lex! – Lais dá um tapa no ombro do cara.
— Se eu não desse esse endereço, meus
pais dariam. – Doc revela, pegando um papel no bolso da calça e entregando para Lex. – A Nina não está feliz em Paris.
— Quero me entender com ela, provar a
minha inocência. – Lex arqueia o corpo para
a frente e pega o papel, mesmo temendo o taco de beisebol que Doc segura com firmeza.
— Se vocês se entenderem, traga ela de
volta, beleza? – Doc finalmente larga o taco e estende a mão para Lex, num gesto de paz.
— Farei isso, pode confiar.
Setenta e três: Final feliz?
Dez dias se passaram.
Nina sente o vazio tomando forma, como

um imenso buraco negro prestes a tragá-la.


Ainda não enlouqueceu porque existe uma
contrapartida, um sentimento poderoso que a faz abrir os olhos todas as manhãs.
Amor.
É por esse amor que ela ainda não desistiu de recomeçar sua vida. É por esse amor que ela respira. É por esse sentimento que ela ainda está ancorada, sem se deixar levar
pela melancolia e pela dor.
Nina acaba de sair de uma escola de
francês, nos arredores de Madeleine. Está
com a inscrição para o curso debaixo do braço, doida para rasgá-la em mil pedacinhos. Mas se contém, dobrando os

papéis com cuidado, guardando-os dentro da bolsa.


Com um mapa de Paris aberto no celular,
Nina verifica as anotações de Simone numa caderneta. Precisa aprender a andar pela
cidade sozinha e hoje é o segundo dia que faz isso.
O metrô está lotado e Nina volta para casa com um saquinho de croissants e uma linda rosa que ganhou próximo da Igreja de La
Madeleine. Simone está de folga e tirou o dia para dar um jeito no apartamento.
Ontem Nina esteve no Louvre. Quando viu
a pirâmide de vidro, não se conteve. As
lágrimas caíram como flocos de neve, já que o frio estava de lascar. Não, ela não se
emocionou por conhecer o museu. Nina chorou por estar sozinha e por Lex não ter
cumprido a promessa. Ele havia prometido estarem juntos, havia dito que enxugaria
suas lágrimas. Ele não estava lá.
Nina abre a porta de casa e dá de cara com uma Simone completamente histérica. Ela
não fala coisa com coisa e Nina precisa de um tempo para entender o que está havendo.
— Escutou alguma palavra do que eu disse?
– Simone continua estendendo um envelope
vermelho e um pen drive na direção de Nina.
— Como assim ele entregou isso a você

pessoalmente? O Lex… o Lex… o Lex…?


— Está em Paris! Nina, ele está aqui! –
Simone não se contém e começa a gargalhar.
– E você não fez juz ao cara não. Menina, ele é lindo demais!
— Mone, onde ele está? – Nina perde o
chão e se senta.
— Disse que iria procurar um hotel. Eu o
convidei para ficar aqui, mas ele não aceitou.
Nina abre o envelope e descobre os seis mil
reais. Dinheiro da aposta. Pega o pen drive em mãos e seu olhar se perde naquele
minúsculo aparelho.
— Não vai ouvir os arquivos? – Simone se
ajoelha em frente à Nina.
— Não preciso. – a voz de Nina é um fio
fraquinho, prestes a partir.
— Como assim não precisa? – Simone se
sobressalta. – Nina, o cara veio lá do Brasil atrás de você!
— Ele falou mais alguma coisa?
— Disse que vai esperar por você às duas
da tarde, no lugar marcado. – Simone revela, um tanto tensa com a situação. –

Nina, vai perdoar o cara, não vai?


— Que horas são?
— Uma e quinze.
— Eu preciso ir. – Nina pula da cadeira e enfia o pen drive no bolso da calça.

Pega o casaco e o cachecol e sai às pressas, sem se despedir de Simone.


— Nina, não faça besteira! – Simone grita, incerta de que Nina tenha ouvido o recado.

***
O metrô não é rápido o bastante.
Nina chega com cinco minutos de atraso no local marcado. A praça do Louvre está
abarrotada de turistas, apesar do frio e do tempo fechado. Semana que vem é natal e
Paris recebe pessoas do mundo todo nessa

época.
Nina procura por Lex, desesperadamente.


Vai caminhando, abraçando-se para
esquentar, até finalmente chegar a um dos lados da pirâmide de vidro. De onde está, Nina consegue enxergar o hall de entrada do museu lá embaixo, lotado de pessoas
agasalhadas.
— Esqueci de trazer o lenço para enxugar
suas lágrimas. – a voz de Lex rasga o ar
gélido.
Nina não se vira para encará-lo.
— Chegou atrasado. Eu estive aqui ontem.

– seu tom não revela nada além disso.


— Desculpe por isso, não pude vir antes. –
Lex leva as mãos aos bolsos e seu olhar está cravado nas costas de Nina. Estão bem
próximos e ela pode sentir o aroma de
Mentos de frutas no ar. – Como posso me
redimir?
— Ainda não sei.
— Abriu o pen drive? – ele pergunta, um tanto temeroso com a resposta.
— Não, não abri. – Nina se mantém na
mesma posição e Lex não consegue

acompanhar suas expressões.


— E o que isso quer dizer? – Lex sente o
coração apertar.
— Quer dizer que eu não preciso abrir um
arquivo para tomar qualquer decisão. – ela engole em seco e ele percebe.
— Eu achei que…
— Achou errado, de novo. – Nina
finalmente se vira para encará-lo. – Não é esse pen drive que vai mudar o que eu sinto por você. – ela sustenta o gadget na mão.
— E o que sente por mim?
Nina suspira alto e profundamente. Sua

expressão relaxa quando ela tomba a cabeça e diz:


— Eu te amo e não consigo viver longe de
você.
Ai. Meu. Deus.
O sol chega a Paris através daqueles olhos cor de mel com rajadas douradas. A temperatura entre aqueles dois parece ter subido uns mil graus Célsius. Lex está sorrindo e não é de deboche. É um sorriso com o qual Nina precisará se acostumar. É
um sorriso feito para ela e só para ela.
— Vai me perdoar por eu ter sido um
covarde, um idiota? Vai me perdoar mesmo

sem saber se sou inocente? – Lex não


consegue parar de sorrir.
— Você está aqui, não está? O que mais eu poderia querer? – Nina guarda o pen drive no bolso. – Promete não mentir, não me
enganar? Promete que sempre seremos
honestos um com o outro?
— Eu prometo. – Lex se aproxima mais,
tocando os cabelos soltos de Nina. – Eu
prometo fazer de você a mulher mais amada desse mundo.
Eles se fitam por um tempo, estudando-se.
Nina tira o cachecol do pescoço e, como fez na ilha, passa-o pelo pescoço de Lex,

puxando o garoto para si, para sua boca.


O cara se entrega, cerrando as pálpebras.
Os lábios se tocam e o frio dá lugar a uma sensação de completude, de calor, de êxtase.
Um momento perfeito, no lugar perfeito.
E com esse beijo para lá de arrebatador,
Lex e Nina selam um compromisso e
recomeçam a sua história, tendo a verdade e o amor como únicos guias por toda a vida.
Se eles ficarão juntos por toda a eternidade? Oh, sim, definitivamente. Almas gêmeas possuem esse poder. Mas não posso
dizer que esse será um romance calmo e sem brigas. Oh, não. Mas essa é outra história.
E assim, vamos deixando esses dois curtirem o momento, saindo bem de fininho, tomando o caminho inverso do início dessa história.
Louvre.
Paris.
França.
Europa.
Planeta Terra.
Sistema Solar.
Via Láctea.
FIM.
Outras obras da autora:

2012


Elemental
O Imortal
Senhor do Amanhã
Possuída
O Homem de Todas as Minhas Vidas
Conheça as obras da autora no Skoob:
http://www.skoob.com.br/autor/1337-
vanessa-bosso
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Um: Ação e Reação
Dois: Quem é Nina Albuquerque?
Três: Quem esse tal de Lex Heinrich pensa que é?
Quatro: Um fruto cabeçudo
Cinco: A grande aposta
Seis: Na sala do diretor
Sete: A viagem de formatura
Oito: Uma aposta perigosa
Nove: A breve vida amorosa de Nina
Dez: A contra-aposta
Onze: Façam suas apostas
Doze: As Kibis
Treze: O quartel general de Nina
Quatorze: O quartel general de Lex
Quinze: O quartel general de Bárbara
Dezesseis: Um dia para a viagem de formatura
Dezessete: O jogo começa no Aquarium
Dezoito: No avião
Dezenove: No ônibus
Vinte: Na balsa

Vinte e um: A Ilha Inamorata


Vinte e dois: O mergulho de inauguração
Vinte e três: O jantar de boas-vindas
Vinte e quatro: Um passeio à beira mar
Vinte e cinco: Antes do desafio
Vinte e seis: O jogo de tênis
Vinte e sete: Pagando a aposta
Vinte e oito: O contra-ataque
Vinte e nove: A Kibi mor
Trinta: Virando o jogo
Trinta e um: O mergulho e a caça ao tesouro Trinta e dois: A primeira etapa da caça
Trinta e três: A segunda etapa da caça
Trinta e quatro: A terceira e última etapa da caça Trinta e cinco: Passeio de escuna
Trinta e seis: Véu de Noiva
Trinta e sete: Voltando para a Ilha Inamorata
Trinta e oito: O início do quinto dia na ilha
Trinta e nove: Linha de chegada
Quarenta: Almoço no bangalô
Quarenta e um: Abrindo o jogo

Quarenta e dois: A carapaça se quebra


Quarenta e três: Luau
Quarenta e quatro: Laçando Lex com um lenço de seda Quarenta e cinco: O jogo pega fogo
Quarenta e seis: Bola na mira
Quarenta e sete: No quarto das Kibis
Quarenta e oito: O início do último dia na ilha Quarenta e nove: A vingança é plena
Cinquenta: Completamente chapada
Cinquenta e um: A vingança nunca é plena
Cinquenta e dois: Antes da volta para casa Cinquenta e três: A volta para casa
Cinquenta e quatro: Nina encara Doc e os pais
Cinquenta e cinco: Volta às aulas
Cinquenta e seis: A maldade é inerente ao ser humano?
Cinquenta e sete: Gancho versus Nathi
Cinquenta e oito: Lex busca ajuda
Cinquenta e nove: Nina toma a decisão
Sessenta: A mala da vingança – Parte I
Sessenta e um: A mala da vingança – Parte II
Sessenta e dois: Nina é dura na queda

Sessenta e três: Um beijo de despedida


Sessenta e quatro: Jantar em família
Sessenta e cinco: Entre amigos
Sessenta e seis: Embarcando para Paris
Sessenta e sete: Acesso remoto – Parte I
Sessenta e oito: A bordo do Air France
Sessenta e nove: Acesso remoto – Parte II
Setenta: La ville lumière
Setenta e um: Confronto de gigantes
Setenta e dois: Convencendo Doc a dar o endereço
Setenta e três: Final feliz?
Outras obras da autora:
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