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2013


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Era Eclipse — http://www.eraeclipse.com/
Copyright (C) 2013 Vanessa Bosso
Todos os direitos reservados. É proibida a distribuição ou cópia de qualquer parte desta obra sem o consentimento escrito do autor.
Criado no Brasil
Um: Ação e Reação
Via Láctea.
Sistema Solar.
Planeta Terra.
América do Sul.
Brasil.
São Paulo.
Zona Sul.
Colégio Prisma.
Segundo andar.
Estão me acompanhando? Pois então, é
bem provável que o barulho do tapa
desferido por Nina em Lex tenha feito o
caminho inverso, reverberando nas bordas da galáxia, alcançando inclusive nossa vizinha, Andrômeda. O rosto do garoto queima como a superfície do sol e não é apenas pela dor.
Ele está enfurecido.
Seus olhos cor de mel encontram-se com os esverdeados de Nina. Estão estreitos,
cortantes, flamejantes. Lex leva a mão ao local estapeado, alisando a barba por fazer.
Ele não pode ver, mas Nina pode: quatro

dos dedos dela estão marcados na pele de


Lex como um carimbo para que ele se
lembre, pelo menos pelas próximas horas, de com quem está lidando.
Um uuuhhhhhh abafado surge de todos os cantos do corredor em azul e branco, recém-pintado com uma tinta lavável e de fácil manutenção. O lance sobre a escolha da tinta não vem ao caso agora, concentremo-nos no tal tapa.
E que tapão!
Lex foi pego desprevenido e quando seu
cérebro finalmente para de zunir, avança um passo em direção a Nina, desconcertado. Ele não esperava por isso, ninguém imaginava esse desfecho. Acredito que até Nina esteja surpresa com sua atitude. Mas como toda
ação leva a uma reação contrária na mesma intensidade, podemos supor o que acontecerá a seguir.
— Você é louca? Qual o seu problema? –
Lex dispara, ainda alisando o rosto em
chamas.
— Meu problema é você, Alexandre
Heinrich! – Nina cospe, exaltada. – Você, seus amigos e essas malditas apostas!
— Ah, saquei tudo. – Lex lança no ar um
sorriso debochado. – Quer saber, Nina? Nem
se o valor da aposta triplicasse, eu toparia beijar você.
— Uuuuhhhhhhh. – outra comoção deixa a
atmosfera mais tensa.
— Seu… seu… seu cretino! Está invertendo
as coisas a seu favor! E você me beijaria sim ou então, não teria aceito essa aposta
ridícula.
— Ri-dí-cu-la. Você tem toda a razão.
Beijar você é absurdo e eu seria patético se levasse isso adiante. – o garoto não tem a menor noção do perigo.
Nina se aproxima e impulsionada por uma
fúria crescente, acerta uma joelhada nas
bolas de Lex. O cara empalidece e urra de dor, caindo ao chão. Antes que algum engraçadinho se ajoelhe e conte até dez,
como nos ringues de luta livre, uma voz mal-humorada surge dos confins do corredor:
— Chega dessa palhaçada! Voltando para a
sala de aula agora mesmo! – o professor de
Literatura aproxima-se a passos largos, enxotando a todos como se fossem mosquitos irritantes. – Menos vocês dois. – aponta para Lex e Nina. – Venham comigo. O diretor vai adorar ouvir a empolgante narrativa que culminou nesse momento tão ímpar.
Dois: Quem é Nina Albuquerque?
Nina é a garota nova do Colégio Prisma. Foi transferida no mês de agosto, para concluir o último ano do ensino médio. Mas essa não foi uma transferência corriqueira e tranquila.
Isso porque Nina foi expulsa do colégio onde estudava após um surto de agressividade mal controlada.
Com notas que variavam do nove e meio ao
dez, Nina ficou possessa ao receber a prova de História que gritava, em vermelho vivo, um sonoro cinco. Cinco? Como esse professor teve a coragem?
Mas a garota sabia o porquê da nota tão
baixa. Estava óbvio que tinha tudo a ver com
a festa de duas semanas atrás. Nina, dotada de um cinismo peculiar, deu o fora mais
fenomenal de todos os tempos no filho do tal professor, tanto que o garoto chorou a noite toda, como um bebezinho.
É provável que a atitude dela, sem
qualquer tato ou delicadeza, tenha gerado um trauma profundo no rapaz, a ponto do
mesmo precisar de terapia por toda uma
vida. Nunca saberemos.
Quando Nina confrontou o professor de

História, o mesmo foi irredutível com relação à nota. A garota poderia ter se conformado, virado as costas e continuado com sua vida, afinal, essa avaliação em nada alteraria sua performance no quadro geral. Mas não, ela não é do tipo que leva desaforos para casa.


Munida de uma chave tetra, dessas com os
quatro cantos serrilhados, Nina nem piscou ao riscar toda a lateral do Peugeot preto reluzente, estacionado na vaga reservada aos professores. A paixão por esse carro era tanta, que o catedrático vivia com uma
flanela em mãos, sempre pronto para cuspir e deixar a lataria mais brilhante ainda. Um nojo.
Após detonar com a pintura do automóvel,
a adolescente não teve tempo para
comemorar o feito. No susto, o molho de
chaves caiu no chão quando seus olhos se

encontraram com os do diretor do colégio.


Ela havia sido pega em flagrante.
A expulsão foi consumada no mês de junho, uma semana antes das férias escolares. Os pais de Nina não ficaram nada satisfeitos com a notícia e ela acabou sem mesada, sem
férias e sem sair de casa por um mês.
Após camelar em busca de um novo colégio
para a filha, Laura, a mãe da garota, decidiu-se pelo Colégio Prisma. Bem, decidiu-se não é o termo, afinal, foi a única escola que aceitou matricular Nina após Laura contar
sobre os motivos da expulsão.
Quando as aulas iniciaram no mês de
agosto, a jovem pensou que enlouqueceria
nas primeiras semanas. Como toda garota nova, ela era a atração do colégio e isso gerou ciúmes e inveja por parte das três mais populares do pedaço. Estamos falando de Bárbara, Suzana e Ana Paula, hoje mais conhecidas como Kibis. Mas o assunto “Kibis”
fica para depois.
Vamos tentar entender o porquê dessas
três meninas desejarem tanto o sangue de
Nina, logo nos primeiros dias de aula:
No alto dos seus um metro e setenta e dois, Nina Albuquerque é o tipo de garota que não passa despercebida. Com um rosto de uma beleza precisa, seus grandes olhos
esverdeados captam todos os detalhes de um ambiente em segundos.
Os cílios negros e curvilíneos não precisam de máscara ou qualquer artifício para chamar
atenção. As sobrancelhas escuras, bem desenhadas por pinça, sofrem retoques a cada quinze dias.
A boca volumosa já foi motivo de chacota
quando era criança. Hoje, após madame
Jolie, são os lábios mais desejados nas
clínicas de estética. As bochechas, sempre rosadas pelo efeito do sol, são resultado das corridas matinais e dos jogos de tênis ao ar livre, durante as tardes enfadonhas.
O cabelo de Nina sempre foi curto, no
máximo chegando à altura do queixo. Mas
depois que seu último e terrível namorado disse que achava sexy o tal corte, ela deixou as madeixas crescerem, só para contrariar.

São de um castanho médio liso e bem


estruturado, que ultrapassam a linha do
sutiã.
Falemos agora das curvas, adquiridas com
muito suor e sorvete. Sim, a moça é capaz de matar um pote de Häagen-Dazs numa
sentada. Mas como é raro ter paciência para ficar quieta, o corpo de Nina não retém as calorias extras dos momentos de gulodice.
Enfim, essa é Nina Albuquerque, a pessoa
com uma tremenda direita que fez o cérebro de Lex quase sair pelo ouvido.
E foi essa garota que ao saber da Grande
Aposta, fincou as unhas em sua própria carne e gritou no banheiro feminino do

colégio:
“Quem esse tal de Lex Heinrich pensa que


é?”
Três: Quem esse tal de Lex Heinrich
pensa que é?
Ah, esse tal de Alexandre Heinrich é o tipo de cara com a aura resplandecente. É

o típico garoto que consegue o que quer na hora que desejar. Convenhamos, Lex é inteligente,


perspicaz, inebriante, sedutor, misterioso, debochado e lindo, lindo de viver!

Com uma descrição dessas, nem preciso dizer que o cara é o galinha do Colégio Prisma, preciso?


Certo, vocês querem maiores detalhes para constatar o que acabo de dizer, então lá vai: Lex completou dezoito anos em outubro. Já ultrapassou um metro e oitenta e cinco de altura. É daqueles que malham com afinco, para que o punho da manga da camiseta
deixe os músculos saltados, como uma bexiga sendo apertada.

No currículo esportivo, além da musculação com uma personal trainer gostosa, ainda temos: futebol, tênis, trilhas de bike, Krav Magá, natação e tudo o mais que aparecer


pela frente.
Dizer que o cara possui uma barriga
tanquinho é meio redundante, não? Mas o
fato é que ele possui e adora exibila por aí.
Se Lex estiver vestindo uma camiseta, pode apostar: ou é proibido tirar a vestimenta ou ele foi obrigado a recolocá-la.
Deixemos a barriga de lado, subindo um
pouco mais, até atingir o peitoral
desenvolvido e depilado do rapaz. Acho estranho homens depilados, mas enfim, Lex faz o tipo metrossexual.
A barba demorou a dar as caras, mas agora, Lex não a tira nem por decreto. É uma barba dourada, ao estilo Indiana Jones
limpinho, bem charmosa e altamente
sedutora.
Os olhos cor de mel são hiper claros,
daqueles hipnóticos e cheios de rajadas
douradas. Os cabelos, também na cor do mel, são volumosos e caem em cachos até a altura da nuca. E que nuca cheirosa… desculpem, não pude deixar de citar o fato.
E respondendo a pergunta de Nina “Quem
esse Lex Heinrich pensa que é?”, deixarei que o próprio a responda:
— Eu sou o cara e não há como negar.
Quatro: Um fruto cabeçudo
Para entendermos o que está acontecendo
nessa história, precisaremos voltar uma
semana no tempo. Prontos?
Em três, dois, um…
Estamos agora no quarto de Alexandre
Heinrich e sempre que entro por aqui, tenho vontade de passar um aspirador de pó e dar uma ajeitada nas roupas espalhadas. Mas sou só uma narradora, então, nada feito.
O quarto está uma zona, com CDs e DVDs
espalhados por todos os lados, roupas usadas jogadas em qualquer lugar e um forte cheiro de incenso. O que posso dizer? O garoto

curte um incenso, de todos os tipos,


tamanhos e aromas.
Um pacote de bolachas recheadas está
aberto e esquecido em um canto, bem ao
lado do iPad com a bateria zerada, plugado na tomada.
Nesse momento, Lex está com os olhos
vidrados no Xbox, muito puto por ter tomado quatro tiros de Gancho, seu melhor amigo e muito melhor jogador no que diz respeito a games.
— Azar no jogo, sorte no amor. É o que eu sempre digo. – Lex joga o controle sobre a cama desarrumada, na maior indiferença.
— É o que você sempre diz quando perde,
ou seja, sempre! – Gancho lança uma

gargalhada no ar, batendo firme no ombro do amigo.


— Vamos fazer outra coisa da vida, beleza?
– Lex se levanta do puff, disperso, deixando-se cair na cadeira estofada em frente ao
computador. A tela acende e a página do
Facebook é carregada.
— Já mandou a moto para o conserto? –
Gancho desliga o vídeo-game e se atira na cama, como se o colchão fosse uma piscina.
— Meu pai disse que não dará nem um puto
de um centavo para arrumar o estrago da
moto. – realmente o velho disse isso, aos gritos.

— Poxa, cara, você tá mesmo ferrado. Sua


mãe proibiu a Zulmira de arrumar o seu
quarto, passar a sua roupa e o que mais mesmo?
— Proibida de me acobertar. – Lex gira a
cadeira para encarar Gancho. – Cara, tô
cheio disso.
— Calma, um problema de cada vez.
Primeiro, precisamos conseguir uma grana
para você arrumar a moto. Sem a sua
motoca, somos dois otários de bicicleta.
— E como descolaremos uma grana? Seu pai não o proibiu de vender bagulhos piratas?
Não disse que mandaria prender você ou algo pior?
— É, estou sem grana também. Minha
mesada não dá para nada. – Gancho suspira alto, entrelaçando as mãos atrás da cabeça.
— O que sugere, Cabeçudo?
Nesse exato segundo, uma semente é
regada, começa a crescer e a frutificar na gigantesca cabeça de Gancho. Quando um
fruto maduro cai do pé e chacoalha o cérebro
do cara, a ideia surge como uma trilha sonora perfeita, reproduzida no momento
crucial da trama.
— Já sei como conseguiremos a grana, Lex.
Mas só me dê um soco depois que eu
terminar de contar.
Cinco: A grande aposta
Ainda naquele mesmo quarto bagunçado,
Lex está boquiaberto e não tem certeza se Gancho está de brincadeira ou não. A perplexidade é tamanha, que o garoto altera o tom de voz:
— A Nina? Você bebeu e bateu com a
cabeça?
— Qual é cara!? A mina é uma gata. –

Gancho incita, divertindo-se.


— A garota mais parece um cavalo
selvagem! Ela é intocável, Gancho.
Não que Lex não esteja louco para beijar
aquela boca de lábios volumosos, não é isso.
O problema é que Nina é uma garota arredia,
difícil e não deixa nenhum garoto se aproximar. Os que tentaram se arrependeram amargamente.
— Qual é, Lex, nada é impossível para
você. – Gancho inicia a persuasão.
— Não tenho tanta certeza disso. Viu o que ela fez com o Edgard? Com o Hulk no
Halloween? E as Kibis então? Cara, eu tô
fora!
— O lance das Kibis foi bem maneiro. –
Gancho balança o cabeção. – Lex, a questão é que se não for uma aposta impossível,
nunca conseguiremos a grana para arrumar a sua moto. De quanto precisa?

Quatro paus?


— Seis mil. E quer saber? Logo o meu
velho voltará atrás e aí terei a grana para arrumar a moto. – Lex mira o chão enquanto a incerteza reverbera pelas quatro paredes.
— E até lá?
— Dois otários de bicicleta, fazer o quê? –

Lex suspira alto e acende outro incenso.


Mas Gancho não se dá por vencido.
Aliás, deixe-me contar um pouco sobre o
melhor amigo de Lex. O apelido não é de
hoje, surgiu lá pelo oitavo ano do Ensino Fundamental. Desde aquele tempo, Arthur –
o capitão Gancho – é um pirata da melhor
categoria.
O garoto pirateia tudo o que vê pela frente: de jogos a filmes que ainda estão nos cinemas. Para ele, a informação é livre e deveria ser distribuída de graça. Como não o é, Gancho trata de faturar algum em cima de pessoas que não estão a fim de pagar uma
fortuna por um jogo de Xbox, por exemplo.
Além disso, o cara também é um
falsificador dos bons. Quase levou a
lanchonete do colégio a falência quando
vendeu a um real, tickets de salgadinhos e refrigerantes falsificados por ele. Esse é um
garoto que vai longe.
Gancho, fisicamente, não é um cara
bonitão. Mas é charmoso ao extremo. Seus cabelos negros escorrem lisos até a altura do pescoço e a franja, sempre na lateral, costuma cair sobre os olhos escuros e
indecifráveis.
A cabeça grande, motivo de zoação dos amigos, não incomoda Gancho. Para ele,
quanto maior a cabeça, maior o cérebro. E o cara tem toda a razão.
Mas, voltando à história da tal aposta,
Gancho não se deixa abalar pela resolução de Lex. Soprando a franja para o alto, prepara-se para deixar o amigo sem alternativas.
Envia e-mails, mensagens instantâneas e DMs no Twitter para todos os machos apostadores do Colégio Prisma. E isso é
muita coisa, só para constar. A mensagem é sucinta e marketeira ao extremo, como é o estilo de Gancho. Na íntegra, o texto diz:
“A Grande Aposta será lançada.
Lex x Nina.
Amanhã, no pátio do colégio.
Venham com a carteira recheada de notas
altas.
Gancho.”
Nem preciso dizer que a galera comparece
em massa, preciso? Enfim, todos aparecem, até mesmo os que não foram chamados.
Como grana é grana, nesses momentos não
faz a menor diferença. Quanto mais
apostadores, melhor.
Gancho se posiciona no meio da roda de
garotos, expondo a Grande Aposta maquinada por ele. Quando termina de falar, encara um por um daqueles caras.

Se
Gancho não vê, eu vejo: alguns garotos


suam, outros se entreolham e uns poucos
riem, abrindo as carteiras.
— Só tem um problema nessa história.
Temos que convencer o Lex a entrar na
jogada. – Gancho solta a bomba no centro do círculo e sai andando.
— Como é? O Lex vai amarelar? – Nando, o garoto dos cabelos espetados, pergunta,
incrédulo.
— Pois é, meus caros. Só uma grana alta o seduzirá. – Gancho tomba a cabeça para
trás, fitando as nuvens escuras através do seu Ray-Ban.
— Essa vai ser a Grande Aposta de todas as apostas! – um gorducho empolgado, com
pasta de dente na lateral da boca, gesticula como se fosse um líder de torcida. –

Vamos galera, abrindo as carteiras aí!


Gancho liberta um sorriso satisfeito quando notas de cinquenta e cem reais começam a
pular para suas mãos. Lex não terá como
recusar.
— Temos que triplicar esse valor, rapazes.
Precisamos deixar o Lex sem saída. – Gancho conta o dinheiro, os olhos negros brilhando em excitação.
— Temos que conseguir mais apostadores.
Temos que espalhar a notícia! – o gordinho empolgado grita.
E não é que a notícia se espalhou?
Seis: Na sala do diretor
Lex e Nina estão sentados, lado a lado, nas elegantes poltronas vitorianas da diretoria.
Esse é um escritório rebuscado, repleto de objetos de arte, livros, enciclopédias e um imenso globo que gira sem parar, plugado
numa tomada. A sala possui claridade
natural, provinda de duas imensas janelas que ficam localizadas atrás da altiva mesa do todo poderoso diretor.
Mas não é isso o que a maioria dos
estudantes vê quando entra aqui. Oh, não. E

como a versão deles é muito mais divertida, narrarei o que aquele garoto gorducho, com pasta de dente na lateral da boca, viu certa vez: No quinto ano, Fabiano – o gorducho


apelidado de Bola – sem nada melhor para
fazer da vida, resolveu roubar uma caixa de giz da sala dos professores. E, ainda sem ter o que fazer, resolveu triturá-los,
transformando o giz em pó.
Para que isso serviria?, eu lhes pergunto.
Bem, quando não se tem nada melhor para
fazer da vida, ideias estranhas invadem a mente. E um bizarro plano surgiu na cabeça de Bola.
Horário do intervalo, ninguém na sala de
aula. Uma escada de quatro degraus esquecida em um canto do corredor. Ah, Bola não teve dúvidas.
Com uma risada malévola estampada no
rosto e uma aura nada santa, o garoto pegou a escada, subiu os degraus e depositou,
calmamente, todo o giz triturado sobre as pás do ventilador de teto. O dia estava quente e Bola suava em bicas.
Terminado o serviço, guardou a caixa de
giz dentro da mochila antes de devolver a
escada. O resultado da brincadeira não poderia ter sido outro: quando a professora de matemática ligou o ventilador, foi merda…
ops, quero dizer, foi giz para todo o lado.
Estava literalmente nevando na sala trinta.
Não foi tão difícil descobrir o autor da
traquinagem e a diretoria já aguardava por Bola, ansiosamente.
Com passos incertos e as pernas bambas,
Bola tocou a maçaneta da porta, sentindo
choques elétricos percorrendo o corpo todo.
Podia ouvir risadas macabras vindas de todo o lugar e de lugar algum.
Quando a porta se abriu com um ruído
engasgado, Bola agitou-se, assombrado. O
lugar era cavernoso e exalava um forte
cheiro de enxofre. Nas prateleiras, vários livros de poções e bruxaria se

remexiam,


inquietos. Um imenso globo terrestre girava, pegando fogo. O diretor possuía tentáculos e dois cães do inferno mostravam os dentes e babavam.
Uma semana de suspensão e Bola jurou de
pés juntos, que nunca mais pisaria na sala do diretor.
Mas Lex e Nina não estão vendo nada
disso.
Reprimindo sua ira, Nina observa tudo em
vermelho sangue, como se estivesse em um
filme de terror, daqueles com seríssimas
restrições orçamentárias. Já Lex vê o cenário em preto e branco, talvez o tapa tenha
afetado os seus sentidos.
— Então é isso? Uma aposta? – o diretor
endireita o polvo de cerâmica sobre a mesa.
Com uma irritante mania de arrumação,
também ajeita os dois cachorros de cerâmica, de modo que fiquem bem alinhados.
— É, é isso. – Nina cruza os braços em
frente ao corpo, trincando o maxilar de tanta raiva.
— Alexandre? – o diretor tira os óculos do
rosto, jogando-os sobre uma pilha de papéis muito bem arrumados.
— Eu não concordei com essa aposta. – Lex está seguro de si e isso deixa Nina mais
furiosa ainda.
A garota apruma-se, desconfortável. Finca os dentes no lábio, segurando-se para não voar no pescoço de Lex. Tenta parecer
indiferente ao assunto, mas sabe que sua
expressão enfezada lhe escapa ao controle.
— Não é a primeira vez que você e seus
amigos lançam uma aposta dessas. – o
diretor recosta na cadeira estofada, girando de um lado para outro, pensativo.
— Dessa vez sou inocente. – Lex entrelaça os dedos, numa estabilidade que deixa Nina perturbada.
— Se eu souber que vocês continuam a

fazer apostas, a coisa vai ficar bem feia, Alexandre. Não me importam as notas, reprovarei todos vocês, ficou claro?


— Claríssimo. – Lex faz menção em levantar-se, mas o diretor lança um olhar reprovador em sua direção.
— Eu não terminei, garoto. – e então, seu olhar recai sobre Nina. – O que quer fazer a respeito?
— Quero que ele mantenha distância de
mim. – ela responde, na lata.
O diretor pesa o pedido enquanto ajeita,
pela milésima vez, os dois cachorros de
cerâmica. Com o mau humor que Nina está é bem capaz que pegue os enfeites e os jogue pela janela. Mas ela se contém, contando até dez mentalmente.
— Feito. – o diretor recoloca os óculos. –
Alexandre Heinrich, a partir de hoje, não se aproxime de Nina Albuquerque.

Não lhe dirija a palavra, não peça um lápis emprestado, não olhe para ela, estamos entendidos?


— Perfeitamente. – Lex concorda, doido
para se mandar dali.
— Voltem para a sala de aula. E parem de criar problemas ou serei obrigado a cancelar a viagem de formatura. – o diretor lança, num tom tedioso.
— O quê? – Lex arregala os olhos,
surpreso.
— Você ouviu.
Sim, ele ouviu. Apesar do tapa de Nina ter tirado o garoto de órbita, Lex ainda não ficou surdo.

Sete: A viagem de formatura


Dentro de uma semana, a tão sonhada
viagem de formatura para a Ilha Inamorata mexerá com os ânimos de trinta e quatro
estudantes e dois professores.
Segundo o folheto publicitário que Nina
carrega na mochila, o lugar é simplesmente paradisíaco. Mar e céu que se fundem num
azul profundo. Cachoeiras e grutas de tirar o fôlego. Areia branquinha, daquelas que
afundam até o calcanhar. Um hotel cinco
estrelas repleto de atividades ao ar livre.
Quadras de tênis, vôlei de praia, campo de futebol gramado e muita, muita natureza ao redor.
Para as meninas do Prisma essa é uma
oportunidade única, talvez a última chance de engatarem um romance com algum dos
garotos do colégio. Para os meninos, esse também é um momento ímpar, desesperadamente aguardado. Garotas de
biquíni dando o maior mole? Juro para vocês que apesar da Ilha Inamorata ser um local onde a natureza é preservada, a mente poluída desses caras, fatalmente, poderá
gerar um desastre ambiental. E dos grandes.
Nina não cogita a possibilidade de desistir da viagem, mesmo sabendo sobre a aposta
que está rolando. E se por acaso ela pensasse em desistir, suas melhores amigas,

Nathália e Lais, não permitiriam.


— Jura mesmo que não vai desistir? –
Nathália anda em círculos em volta de Nina.
Seus longos cabelos castanhos estão presos por um rabo de cavalo que chacoalha para lá e para cá.
— Está me deixando tonta, Nathi. – Nina
está dispersa.
— Sério mesmo, Nina, você não pode
desistir. – Lais muda a mochila de ombro, o troço está pesando toneladas. –

Promete? Por favor?


— Prometo, já falei! – Nina estressa e
dispara, um tanto ríspida.
As três estão no estacionamento do Colégio Prisma. Nina, agora com dezoito anos, já
possui a tão sonhada habilitação e uma moto novinha em folha. Ela optou por uma
Kawasaki Concours 14, preta e prata, com
1.352 cilindradas, 4 tempos, 4 cilindros em linha com refrigeração líquida, 16

válvulas VVT, 155 cavalos de potência, com sistema de ignição digital, injeção eletrônica e partida


elétrica. Não que eu saiba o que isso quer dizer, mas Nina sabe.
Antes que Nathi e Lais retomem o assunto
“viagem de formatura”, eis que surgem Lex e Gancho, caminhando
descompromissadamente rumo ao
bicicletário.
A garota lança um olhar fulminante na
direção de Lex. Ela estremece de raiva só de se lembrar da tal aposta e dos sorrisinhos abafados nos corredores do colégio. Se o garoto se aproximar, é morte certa.
— Bela motoca. – Gancho assobia e Lex lhe dá uma cotovelada nas costelas.
— Obrigada, Gancho. – Nina sorri,
presunçosamente. – E suas bicicletas
também são bem bonitinhas… tiraram até as rodinhas laterais, que gracinha.
— Rá, rá. – Lex negligencia a própria vida.
— Ei, não pode falar comigo, lembra-se? –
Nina brada, agressivamente.
— Estamos fora do colégio, aqui é local neutro. – Lex retruca, numa frieza congelante.
— Não abuse, Alexandre. – Nina monta
sobre a moto e dá a partida. – Meninas, até mais tarde. – baixando o visor do capacete e acelerando ao máximo, ela deixa apenas poeira para trás.
Oito: Uma aposta perigosa
Lex observa Nina desaparecer do seu
campo de visão. Que garota intragável! Essa aposta está fora de cogitação, sem chance.
Gancho interrompe os devaneios do amigo quando pergunta para Nathália e Lais:
— Como aguentam o mau humor dessa
garota?
— A Nina? Qual é, Gancho, ela é legal. –
Nathália parte em defesa da amiga.
— Sei. – Lex revira os olhos.
— É verdade, a Nina é muito gente boa. –
Lais confirma. – Deveriam tentar conhecê-la
melhor.
— Qual o problema dela com pessoas do

sexo masculino? – Gancho indaga,


interessado.
— Longa história e, sinceramente, não
contarei a nenhum de vocês dois. – Lais não vacila. – Vamos, Nathi.
— Vamos. – Nathália concorda em ir, mas
não se move. Essa paixão platônica por
Gancho já está tirando Lais do sério. Ela precisa praticamente arrastar a amiga dali.
— Até mais. – Gancho se despede,
indiferente ao fascínio que exerce sobre
Nathália. A maioria dos homens é cego.

Quando as meninas se afastam o bastante,


Lex fuzila o amigo com o olhar. Gancho dá de ombros, sem saber o porquê do olhar
cortante.
— Certo, o que foi?
— Você levou a aposta adiante sem o meu
consentimento. Cara, eu disse que estava
fora.
— Man, consegui três mil reais. – Gancho gira o boné na cabeça, deixando a aba para trás. – Três paus, cara! Qual é, vai amarelar?
— Não vai rolar, Cabeçudo. E outra, três
mil é só a metade do que preciso. Mesmo se eu decidisse prosseguir com isso,

ainda
teríamos que pagar aos apostadores.


— Lex, meu camarada, se você vencer essa
aposta, os três mil são seus, limpinhos.
— O que está dizendo? – Lex confronta,
franzindo o cenho.
— O que quero dizer é que todos
apostaram na Nina, ou seja, se você ganhar, a grana é toda sua, sem divisões.
— Mas que merda! Ninguém apostou em
mim? – Lex replica, pasmo. – Nem você,
cara?

— Só estou tentando ajudar. – Gancho dá


um tapa no ombro de Lex.
— Gancho, é sério, devolva o dinheiro para
os apostadores e esqueça essa merda de Grande Aposta. O diretor está de olho em
mim, cara!
— Era com vocês mesmos que eu queria
falar. – o tom arrogante não deixa dúvidas de quem se trata: Bárbara.
Ela se aproxima embalada numa calça
jeans skinny, dessas que se agarram ao corpo de maneira impossível. Rebola sobre as sapatilhas com padronagem de oncinha e requebra o quadril ao fitar Lex e Gancho.

A camiseta do colégio sofreu


transformações significativas após uma
sessão de customização. Está tão curta que deixa parte da barriga a mostra, desrespeitando a regra básica de etiqueta da escola.
— O que quer, Kibi? – Gancho suspira
antes de remedar: – Desculpe. O que quer, Babi?
Bárbara é a ex-namorada de Lex. Bem, ex-
namorada é subjetivo, já que a coisa toda não passou de uma aposta. E como toda
garota orgulhosa e vingativa, Bárbara ainda não se esqueceu do que aconteceu no ano
passado, mas contarei os detalhes sórdidos mais tarde.

A loirona oxigenada gira a cabeça


teatralmente, lançando os cabelos
desbotados para o ar. Apesar de nutrir uma paixão avassaladora por Lex, jamais admitirá o fato. Amor e ódio, uma combinação
explosiva. E a garota é pura TNT.
— Gancho, vou relevar a piadinha, mas só
porque tenho uma proposta para o Lex. –
Bárbara recosta na mureta azul, dirigindo-se ao ex-namorado. – Soube que não vai levar a aposta adiante, é verdade?
— Soube corretamente. – Lex admite, certo de que algo bombástico sairá dos lábios
vermelhos de Bárbara.
— Que tipo de proposta é essa? – Gancho estimula a garota a continuar.
— Soube que precisa de seis mil reais para arrumar a sua moto. Bem, eu tenho o dinheiro, Lex. – Bárbara verifica as unhas cor de fogo, preguiçosamente.
— É como eu disse, não vou levar isso
adiante. – Lex se mantém impassível.
— O que quer do Lex, Babi? – Gancho a
encara, desconfiado.
— Vocês dois sabem o que aquela vadia da
Nina aprontou comigo. Só estou querendo
dar o troco, nada de mais.

— E quer a minha ajuda? – Lex adivinha,


acertadamente. – Esqueça de mim nesse seu lance. Estou fora, qualquer que seja a
proposta.
— É o seguinte, Alexandre: ou você me
ajuda nessa ou então, mostro para o seu
velho o vídeo que está no meu celular. – ela estressa e tira o aparelho do bolso traseiro da calça, balançando-o na altura dos olhos de Lex. – E nem preciso dizer que fiz milhões de cópias, certo?
— Você disse que não iria mostrar a
ninguém. – Lex se abala, sentindo o sangue ferver.
— E não vou! – Bárbara se faz de rogada. –

Mas veja bem, se não me ajudar, como posso ajudá-lo, Lex?


— Você é uma Kibi filha da mãe. – Gancho
vocifera, entredentes.
— Cale a boca, Gancho. – Lex nunca tinha
sido chantageado antes. A boca seca e ele umedece os lábios, nervosamente.
— O que me diz? – Bárbara finge não ouvir o que Gancho acaba de dizer. Mira Lex e seus olhos castanhos se estreitam perigosamente.
— O que quer que eu faça? – Lex foi
ameaçado abertamente e não acredita que
esteja cogitando a possibilidade de ajudar Bárbara. Mas no momento, não encontra
alternativa. Não pode permitir que seu pai

saiba a verdade sobre o “acidente” com a moto.


— Deixe a Nina pensar que você desistiu da aposta, mas a verdade é que você não
desistirá, entendeu?
— Não, não entendi. O que pretende com
isso? – Lex tenta se manter calmo, apesar da situação.
— Não interessa o que pretendo. É só fazer a Nina acreditar que a aposta acabou.
Aguarde novas instruções quando chegarmos na ilha. Assim que eu conseguir o que quero, você terá a sua grana. – Bárbara acaricia o rosto de Lex com o celular. – Bom, é isso.
Até mais, lindão. E tchau para você,
Cabeçudo. – armada do melhor rebolado,
Bárbara deixa dois amigos embasbacados para trás.
Nove: A breve vida amorosa de Nina
Vamos tentar entender o porquê de Nina
ser tão avessa a garotos. Tudo está no
psicológico, Freud elucidaria. Talvez a garota enlouquecesse o neurologista antes do
mesmo se explicar.
O fato é que ela, até hoje, teve apenas dois namorados. O primeiro foi aos doze anos de idade…
Nina estava brincando com as amigas na
calçada de sua casa, num condomínio
fechado de alto padrão na cidade de São Paulo. A Barbie Noiva estava a bordo do
possante cor-de-rosa, a caminho do salão de beleza. Após os cuidados com o visual, as Barbies fariam uma festa de arromba na mansão de três andares e os Kens já
estavam convidados.
A garota não sabia, mas estava sendo
observada por Maurício, que morava a uma
distância de oito casas da sua. Supertímido, deixou a bicicleta incrementada de lado e invadiu o jardim florido de Dona Estela, colhendo flores coloridas para que Nina
pudesse enfeitar a festa das Barbies.
Timidez é uma droga.
Maurício estava agitado, tenso e tremia da cabeça aos pés. Não conseguia se aproximar daquela linda menina com um corte Channel, de olhos grandes e esverdeados. O que ele fez? Tocou a campainha do amigo Danilo e implorou para que o garoto levasse as flores para Nina.
— Quer que eu leve as flores? – Danilo
perguntou, maldizendo o momento que
atendeu a campainha.
— Por favor? Leve as flores e peça a Nina em namoro para mim? – Maurício suplicou,
com olhos marejados.
— Não acredito nisso. – o amigo bufou e
revirou os olhos. – Dê aqui, eu levo.

Danilo, um ano mais velho que Maurício,


pegou as flores e respirou fundo, caminhando a passos largos até a festa das Barbies. E que festão! Tinha até jatinho cor-de-rosa estacionado na entrada da mansão.
O lance foi que, um nervoso Danilo,
entregou as flores para Nina e a pediu em namoro. A garota, com um risinho contido, olhou para as amigas buscando uma
resposta. As três balançaram a cabeça,
afirmativamente.
A confusão estava armada. Nina acreditava estar namorando Danilo. Danilo jurava ter pedido Nina em namoro para seu amigo. Por sua vez, Maurício estava certo de que Nina agora era sua namorada. Aff.
A menina de doze anos estava muito feliz.
Contou para todos na escola que estava namorando, apesar de nunca ter trocado
mais de duas palavras com Danilo. Para
detonar de vez com a situação, o garoto
mudou-se de bairro três semanas depois,
deixando Nina completamente arrasada.
Poxa, nem um tchau?
Ali começava o problema de Nina com
garotos. Como poderia confiar neles?
Como toda pré-adolescente, Nina sofreu
por Danilo, chorou por ele, arrancou os

cabelos e disse para as amigas que nunca


mais amaria ninguém como o amava. Adoro
dramas juvenis, são tão intensos!
Querem saber o que aconteceu com
Maurício? Bem, hoje o garoto faz terapia e nunca beijou uma garota. Depois que viu sua namorada Nina dando o maior amasso em
outro cara, o mundo ruiu para ele.
Esse outro cara chamava-se Bruno.
Bruno foi o segundo namorado de Nina.
Eles se conheceram no colégio e o garoto era dois anos mais velho do que ela.

Nina tinha quinze anos naquela época.


Como toda filha superprotegida por pais

malucos, Nina era a inocência em pessoa.


Não conhecia Bruno o suficiente, mas ainda assim era apaixonada pelo cara desde que
Danilo a deixou, sem dizer um tchau.
O namoro durou exatos seis meses e, pela pouca idade de Nina, os pais resolveram
cercar esse relacionamento, permitindo que só acontecesse debaixo de seu teto.

Ou seja, o namoro se dava em casa e os telefonemas eram supervisionados.

Internet? Nem
pensar! Toda e qualquer comunicação com o mundo externo era grampeada pela analista de tecnologia da família: Laura, a mãe de Nina.
Bruno era o tipo de garoto experiente e
estava doido para colocar suas mãos
calejadas sobre a garota virgem. Ela era

tímida, estonteantemente linda e estava


completamente apaixonada… droga, Nina
estava perdida! Era chantageada
emocionalmente sempre que estavam juntos e a garota começou a cogitar a possibilidade de finalmente se entregar a Bruno.
Quando o garoto, já com dezoito anos,
pegou sua carteira de motorista, as coisas
saíram do controle. Bruno aparecia na casa de Nina sem avisar, sempre que os pais dela e o irmão mais velho não estavam. Como ele sabia? O vizinho da frente era seu amigo e comparsa.
Nina já tinha completado dezesseis anos
quando aconteceu o inevitável. O Mustang
amarelo estacionou na porta de sua casa,
reluzindo como um diamante. Bruno
carregava um imenso buquê de rosas

vermelhas, pronto para dar o bote. Ela


estava sozinha naquela tarde.
Paixão e inocência. Essa é uma combinação perigosa.
Nina se entregou no sofá da sala, após seis meses de tentativas infrutíferas por parte de Bruno. Ele jurou amor eterno. Garantiu que ela era única. Disse que se casariam. Afirmou até que era virgem, por Deus!
Depois daquela tarde, Bruno não ligou
mais.
Nina, agora sem medo de vasculhar a internet, logou-se num tal de Facebook.
Através dessa ferramenta mais poderosa do que uma investigação policial, descobriu
todas as mentiras de Bruno, inclusive que não era a namorada oficial do cara.

Naquele momento nascia a nova Nina Albuquerque, a garota que seria temida por todos que

usassem cuecas.
— Doc, preciso falar com você. – Nina
entrou no quarto do irmão mais velho,
faiscando de tão puta da vida.
— Nina, cai fora. – Douglas, o irmão, nem se dignou a olhar para a garota.
— O Bruno me enganou e eu quero o
sangue dele. – Nina arrancou os fones dos ouvidos de Doc.
Aquelas palavras surtiram efeito imediato.
O irmão levantou-se da cama, pronto para a briga. Abriu o guarda-roupas e pegou o taco de beisebol que não usava desde a adolescência.

— Ele zoou você? O que ele fez, Nina?


— Ele me usou. – ela estava constrangida, mas queria a ajuda dele. Apesar de serem
como cão e gato, Nina sabia que Doc faria qualquer coisa por ela, a protegeria.
— Como? Como ele usou você? – o olhar do
irmão era colérico.
— Ele conseguiu o que queria e sumiu. –
Nina se segurava para não chorar.
— Filho da puta! Ele machucou você? Nina, me diz! – Doc gritava, sacudindo a irmã pelos ombros.
— Ele não me forçou, se é o que quer
saber. – agora sim Nina chorava,

copiosamente. Doc a abraçou, acariciando


suas costas. – Não acredito que deixei
acontecer, como pude ser tão burra?
Rangendo os dentes, Doc passou a mão no
celular e ligou para alguns amigos. Meia hora depois, quatro deles já estavam na porta da
casa de Nina, com seus tacos de beisebol a tiracolo.
— Você fique aqui, está entendendo? – Doc instruiu.
— O que vai fazer? – Nina nunca tinha
visto o irmão tão alterado.
— Deixe comigo.

Com todas as coordenadas passadas por


Nina, Doc sabia onde encontrar Bruno. Pelo horário, ele deveria estar na última aula do cursinho.
O Mustang amarelo, com uma faixa preta
no capô, nem precisava gritar por atenção em meio a carros comuns. Com um sorriso
lateral e a mão pulsando de raiva, Doc
fechou os dedos em volta do taco de beisebol e nem olhou para os lados.
Os quatro amigos fizeram o mesmo, sem
saber ao certo o porquê de estarem metidos naquilo. Doc explicou apenas que o dono
daquele carro havia aprontado com a Nina e
quem mexe com a irmã de um deles, mexe com todos.
O carro foi destruído em minutos. A polícia chegou pouco depois, antes que Bruno e Doc se atracassem. O barraco estava armado e Nina aguardava em casa, andando de um
lado para o outro, embolando o tapete da
sala sob os pés.
Ninguém, nunca mais, a faria de idiota.
Doc e seus amigos foram presos, mas não
por muito tempo. O pai de Nina, um
advogado figurão, ameaçou Bruno, acusando-o de aliciamento de menores, o que na
prática era a mais pura verdade. Bruno já tinha dezoito anos e Nina apenas dezesseis.

Nesses casos o veredito é um só: cadeia.


O pai de Bruno acabou por convencer o
filho a retirar a queixa contra Doc e sua turma, afinal, um empresário do nível dele não poderia ter um filho na prisão. E assim foi feito: os garotos foram soltos naquela
mesma madrugada, numa noite insone para todos da família Albuquerque.
Nina ouviu um sermão de mais de duas
horas, tanto do pai, quanto da mãe. Doc
assistiu a tudo, com os braços cruzados e um olhar matador. Ninguém zoa a sua irmã e sai ileso. Ele se imaginava com uma bazuca, estraçalhando o corpo de Bruno, o sangue se espalhando pela calçada, escoando para o
bueiro entupido mais próximo… desejo que
nunca foi realizado.
Quanto a Nina? Bem, ela aprendeu a lição
da pior maneira. E foi um ensinamento que a marcou fundo, redesenhou sua personalidade, mudou sua visão de mundo e aniquilou qualquer ilusão encantada. Homens não prestam, a voz interna gritava. Meu único foco serão os estudos, quero distância
de namorados, a cabeça latejava.
A única coisa bacana nessa história toda foi que Nina e Doc, finalmente, estreitaram o
laço familiar que os unia. Desde esse dia, nunca mais brigaram.
Dez: A contra-aposta
O pátio do Colégio Prisma é um espaço
como todos os outros. Quadras

poliesportivas, árvores frutíferas, bancos de cimento, uma lanchonete que só vende


trash-food… um lugar bem comum.
Nina, Lais e Nathália estão debaixo de uma árvore, debatendo sobre o livro que estão lendo. Desde que se tornaram amigas, elas fazem isso: leem o mesmo livro, um capítulo por dia, para depois discutirem sobre a leitura. É como um Clube do Livro diário, sempre no intervalo das aulas.
Nathália é uma leitora compulsiva. Desde
que se entende por gente, gasta toda sua
mesada em livros. É claro que, no vestibular que se aproxima, prestará para a faculdade de Letras, um sonho desde criança.
Ela é alta, bem magra, com cabelos
castanhos longos que estão sempre presos em um rabo de cavalo volumoso. Os óculos

com aro vermelho são só para leitura, algo que lhe confere um ar cult.


Nina disse, certa vez, que ela deveria
aposentar os óculos de leitura, afinal, eles escondem os belíssimos olhos amendoados da amiga. Nathi nem cogita a possibilidade, ela adora parecer mais velha, mais inteligente.
Já Lais é o oposto. Baixinha, com curvas
bem acentuadas, cabelos avermelhados
curtos e um par de olhos azuis que são uma afronta. A garota faz um estilo hippie chique, é vegetariana e adora brincos e colares gigantescos. E só para constar, está sempre de chinelos. Ela possui de inúmeras cores, de todos os jeitos e marcas.
Lais demorou a escolher a faculdade que
gostaria de cursar. Estava entre Moda e
Nutrição. Depois de pesar os prós e contras, Nutrição ganhou em disparada.
Nina, como já descrevi anteriormente, faz o tipo esportista. Hoje ela está com uma
bermuda preta de lycra, camiseta branca e azul do Prisma e um par de tênis para corrida. Pega na bolsa uma maçã, lustrando-a na camiseta antes de dar a primeira mordida. É quando avista Camila, correndo e saltando obstáculos, seus cabelos dourados esvoaçando como uma capa de super
heroína. Aproxima-se, esbaforida, vomitando as palavras:
— Nina, eu vi os caras na quadra de tênis.
Estão falando sobre a Grande Aposta.
— O que você ouviu? – Nina brada, jogando a maçã mordida de volta na bolsa.
— O Lex desistiu, está devolvendo o
dinheiro para a galera. Os caras estão tentando convencê-lo a manter a aposta.
Parece que o Lex precisa de seis mil reais para arrumar a moto dele. Bom, foi o que
entendi.
— O Lex desistiu da aposta? Não acredito. –
Nathi tira os óculos, erguendo as
sobrancelhas.
— O Lex não é cara de desistir. – Lais
encara Nina, como se tivesse escutado algo absurdo.
— Vou até lá. – Nina fecha a cara e o livro.
— Acho que não deveria, vai acabar rolando a maior confusão. – Nathi odeia
barracos, ainda mais quando suas amigas se envolvem neles.
— Por que não? Se fosse comigo, eu iria. –
Lais incentiva.
— Eu também iria. Sério, não aguento mais essas apostas. – Camila já caiu em três delas e ainda não sabe, mas cairá uma quarta vez.
— Vou acabar com isso agora mesmo. –
Nina se levanta num salto, estalando o
pescoço lateralmente. Seu olhar já diz tudo.
Lex Heinrich está com os minutos contados.
As amigas a seguem até a quadra tênis.
Lais jura ter visto faíscas saindo dos ouvidos de Nina. Ela está irada e com cara de quem vai socar alguém. Bem, não seria a primeira vez.
Nina avista os garotos numa imensa roda
no centro da quadra. Abre a portinhola
lateral com um estalido e caminha sobre o saibro, deixando pegadas pesadas ao passar, sustentando uma expressão de dar medo.
A notícia se espalha como vírus de filmes de ficção científica. Não demora muito e
parte do colégio se acotovela para assistir ao grande espetáculo. Ou grande barraco, como queiram chamar.
— Pensei que essa palhaçada já tinha
terminado. – Nina aponta o dedo na direção de Lex, em tom de acusação.
— Gancho, diga para essa garota que estou proibido de falar com ela dentro do

colégio. –


Lex olha para o chão, traçando um círculo com a ponta gasta do tênis.
— Pare de ser otário, Lex. – Nina se aproxima e o cara, temendo outro tapa ou chute, recua instintivamente.
— Escute, eu não aceitei essa aposta, tá
legal? E não vou levar isso adiante, ponto final. – Lex faz uma pausa e finalmente
encara Nina. – Ou você está bravinha porque quer que eu tope?
Ele tinha mesmo que soltar uma dessas? É
o que basta para o circo pegar fogo. A galera urra, pessoas gesticulam, um murmurinho
incessante toma conta do cenário.
Por um instante, Nina fica desconcertada.
Mas é uma sensação tão breve que passa
despercebida à plateia. O sorrisinho
debochado de Lex a deixa incrivelmente
irritada. Ah, ela não vai se deixar humilhar.
— Você curte apostar, não é, Lex? Gosta de se dar bem? – Nina leva as mãos à cintura, fuzilando o garoto.
— O cara é campeão de poker, apostar é a
vida dele. – Gancho passa o braço nos ombros de Lex, provocando-a.
Se Gancho quer incitar a garota, ele
consegue. Algo se inflama dentro dela e o sangue corre como ácido dentro das veias.
Sente um gosto amargo no fundo da garganta e o raciocínio se perde quando o ego explosivo assume o comando.
Mira Lex no fundo dos olhos, numa cólera
inconsequente.
— Ah, é assim? Então eu vou lançar uma
aposta de gente grande para você, seu ba-
ba-ca. Já me disseram que precisa de grana para arrumar aquela sua porcaria de moto.
Pois bem, se vencer essa aposta, eu dou o dinheiro.
A galera grita, em polvorosa. Lex recua
dois passos e Gancho o segura pelo braço, temendo que o amigo saia correndo dali na primeira oportunidade. Essa situação já saiu do controle: Lex está sendo chantageado por

Bárbara, a Kibi; seus amigos não querem voltar atrás na aposta, não aceitaram o dinheiro de volta; e agora isso?


— Dê o seu lance, Nina. – Gancho grita
acima da multidão. Imediatamente todos se calam, aguardando o desfecho, ansiosos.
— Nina, o que está fazendo? – Nathália
sussurra. – Não piore ainda mais a situação.
Nina e Lex se encaram como naqueles
duelos da antiguidade. Uma folha de papel amassado rola pelo chão, sendo levada pelo vento. O silêncio é sepulcral e os estudantes prendem a respiração.

Nina toma fôlego e se apruma, antes de soltar a bomba:


— Me conquiste, faça eu me apaixonar por
você, Lex. Se conseguir essa proeza, terá o dinheiro que precisa.
What? Vocês estão gritando aí? Porque eu estou surtando por aqui. Essa sim é a Grande Aposta do ano, folks!
Onze: Façam suas apostas
Paremos um instante para analisarmos o porquê de Nina ter lançado uma aposta dessas no ar.
Acredito que, inconscientemente, a garota esteja tentando quebrar a carapaça criada por ela própria após o episódio com Bruno.
Talvez Nina realmente queira se apaixonar. A vida já é um mar de incertezas e sem amor, pode se tornar insuportável.
Analisando agora a parte consciente, a
garota acredita que esteja humilhando Lex com a tal aposta. Afinal, se o cara aceitar, é certo que perderá. E se recusar, será tachado de medroso e sua reputação de galinha não sairá ilesa.
Lex recusaria essa aposta, sem ao menos pensar. Mas não é isso o que acontece. No meio da balbúrdia, ninguém além de Lex e
Gancho veem quando Bárbara – a Kibi –
levanta o polegar direito em sinal de
aprovação. Os garotos entendem a deixa
quando a garota, além do polegar, ergue também o celular na altura dos olhos, sacudindo-o como se fosse uma passista de escola de samba. Lex está ferrado.
Contrariando seu sexto sentido, o garoto
precisa aceitar a contra-aposta. A galera vai ao delírio e Lex resolve piorar um pouco mais a situação, cuspindo na palma da mão, estendendo-a para Nina.
— Como você é nojento! – ela recua em repulsa.
— Para selar esse acordo, nada melhor do
que nossas próprias salivas. – Lex solta uma gargalhada debochada e muito arriscada. Seu olhar busca o de Bárbara e a Kibi parece estar em êxtase. O que quer que esteja
planejando, a tal aposta de Nina só veio a somar em sua estratégia.
— Que seja. – Nina cospe em sua mão e o
acordo é selado.
Nathália e Gancho são designados para
redigirem um contrato, com todas as cláusulas da aposta. Nesse documento, deve constar tudo o que será permitido e proibido assim que Nina e Lex pisarem à Ilha

Inamorata, o palco selecionado para o início da Grande Aposta do ano.


Gancho também será “o banqueiro”. Ele é
quem receberá e gerenciará todas as apostas da turma. Nathi acompanhará de perto o
processo, já que Nina a nomeou como seu
braço direito.
Faltando apenas dois dias para a tão
esperada viagem de formatura, Lex, Nina e Bárbara estão recolhidos em seus quartéis generais, estudando o oponente, traçando as melhores estratégias de ataque.
Sim, meus caros, a brincadeira
transformou-se numa guerra. Façam então
as suas apostas, porque o jogo de sedução está prestes a começar.
Doze: As Kibis
Lex é o tipo de cara que saca as pessoas numa primeira olhada. E o que percebeu,
quando Nina Albuquerque foi apresentada à sala pelo diretor, gritava aos quatro ventos:
“Não se aproxime, eu mordo”.
Como todo garoto inteligente, Lex
entendeu a mensagem. Apesar de estar
babando na carteira, Nina não era para o seu bico. O fato se comprovou semanas depois, quando a garota, de saco cheio das Kibis, resolveu dar o troco.
Nesse ponto, Nina, Nathália e Lais já eram amigas inseparáveis. Lais possuía no celular uma foto comprometedora do acampamento passado. Na imagem, Bárbara, Suzana e Ana Paula se fingiam de bêbadas e as

três
levantaram a camiseta até o pescoço, o que revelou que não usavam nada por baixo.


Com os seios à mostra, as três posaram para a câmera de Lais.
Nina sorriu ao ver a tal foto.
Com o auxílio do Photoshop, a garota não precisou de muito tempo para criar o layout.
Gravou a imagem em CD e correu para a
gráfica expressa mais próxima de sua casa.
Cem cartazes ao todo e várias mãos
femininas dispostas a ajudar na empreitada.
Afinal, nenhuma garota do último ano vai
com a cara das Kibis. Elas roubam namorados, beijam todos os garotos e ainda destroem a autoestima das meninas sempre
que podem. Alguém precisava fazer alguma
coisa e essa pessoa finalmente havia
aparecido: Nina.
A mulherada do último ano chegou mais
cedo ao colégio naquela manhã nublada.
Nathália havia desligado as câmeras de
segurança e Nina distribuiu os cartazes
autoadesivos. Cem cartazes foram colados
nas paredes do segundo andar do colégio e vou dizer: era impossível arrancar aquilo sem detonar com a pintura. Quando as Kibis chegaram ao Prisma, o tempo fechou.
Os cartazes eram gigantescos e Nina não é tão má quanto vocês imaginam. Ela poderia ter usado a foto na íntegra, mas não o fez.
Estrelinhas mínimas cobriam as partes
íntimas das três garotas. A fotografia estava centralizada num fundo preto, destacando
bem a imagem. Acima, em letras garrafais, o título gritava: “KIBISCATES”. O

termo foi inventado por Lais e Nina, numa dessas tardes em que não há nada para se fazer.


— Sua vaca! Foi você, não foi? – Bárbara
gritava, apontando o dedo de unhas douradas na direção de Nina, enquanto Susana e Ana Paula choravam, descompensadas.
— Prove. – Nina mantinha um sorriso desafiador nos lábios.
— Eu sei que foi você! – Bárbara
aproximou-se, pronta para estrangular a
garota.
— Nem pense nisso. – Lais tomou a frente
de Nina. Foi o que bastou para as outras meninas fazerem o mesmo. – Para chegar
até ela, terá que passar por cima de todas nós.
Ops. A coisa ficou feia para as Kibis. Treze garotas contra três? Quem compraria uma
briga dessas?
Os garotos apenas riam, doidos para que o quebra-pau começasse. Mas não houve nada
além de insultos e xingamentos. E isso
também acabou quando o diretor,
acompanhado de vários professores, entrou no corredor do segundo andar.
— Se você não me deixar em paz, libero a
foto original para todos os celulares do
colégio, entendeu? – Nina sussurrava para Bárbara, entredentes.
Bárbara não respondeu. Suas bochechas
estavam vermelhas e não era pelo excesso
de blush.
A passos largos e irritados, o diretor acabou logo com a balbúrdia. Os professores interpelaram os estudantes, mas felizmente, não havia provas contra Nina e ninguém a dedurou. Nem os garotos tiveram coragem
para tanto.
Após um tempo longo demais, ficou
acordado que os cartazes seriam retirados –
com espátula – por todos os alunos do último ano e o corredor seria repintado, também por eles. E assim foi feito, num fim de semana para lá de divertido. Não para as Kibis,
obviamente.
Bárbara poderia ter chamado os pais, mas
recuou só de pensar na cara do seu velho

tendo que encarar aquela foto. Como ela iria se explicar? Não, isso seria humilhante


demais. Mas essa história não terminaria
naquele corredor cheio de cartazes autoadesivos. Oh não.
E Bárbara, com a ajuda de Lex, dará o
troco à altura.
Treze: O quartel general de Nina Estamos no quartel general de Nina, ou melhor, em seu quarto. Você pode até pensar que com a personalidade forte da garota, o quarto não seja um lugar feminino e
aconchegante. Engano seu.
Esse é o reduto de uma garota de dezoito
anos que, apesar de ter se convencido de que finais felizes não existem, lá no fundo do seu ser acredita sim em príncipes encantados. Só não contem que eu a dedurei, ok? Ou o meu rostinho sofrerá as consequências.
O quarto não é rosa ou lilás. É azul, com lambris brancos até a metade da parede.

Vários pôsteres de Romero Britto estão


finamente emoldurados, dispostos de
maneira linear na imensa parede que leva ao banheiro.
O guarda-roupas possui portas de correr
brancas, vazadas em acrílico transparente.
As roupas penduradas nos cabides dão um
colorido todo especial ao ambiente.
Do teto, pende um imenso lustre de ferro, daqueles rústicos com pintura em pátina.
Pranchas de snowboarding fazem as vezes de prateleiras, pregadas uma sobre as outras,
sustentando todos os livros já lidos por Nina.

No lugar da cabeceira da cama, um nicho


de acrílico foi confeccionado para exibir a imensa coleção de óculos de sol e relógios de pulso, duas paixões da garota. Sobre a cama box, uma colcha prateada está estendida, com várias almofadas em formato de instrumentos musicais para decorar.
Numa outra parede, a guitarra e o violão
estão pendurados em ganchos sobre a
poltrona de fuxicos multicoloridos. Na
bancada da janela, o notebook está aberto e a foto de Lex berra em cores.
Nina, sentada em uma cadeira laranja de
rodízios, analisa detalhadamente a tal foto.
Nathi e Lais estão jogadas sobre almofadas coloridas espalhadas pelo chão.

— Sério, qual foi o seu intuito ao lançar essa aposta? Ainda não me convenceu sobre o lance de humilhar o Lex. – Nathi ajeita os óculos de aro vermelho sobre o pequeno


nariz.
— Ah, qual é, Nathi. Não seja estraga
prazeres. A diversão só está começando. –
Lais brinca com as franjas da almofada.
— O cara precisa de uma lição. É um
babaca com o ego inflado. – Nina recosta na cadeira, imaginando o rosto na tela como
sendo um alvo. Ainda fantasiando, ela lança uma flecha invisível bem pontiaguda no meio da testa de Lex. – Certo, Nathi, releia o contrato. – pede Nina, com o olhar glacial fixo na tela do computador.
— Vamos lá. – Nathi pega o papel e limpa a garganta, iniciando a leitura:

“Pelo presente contrato, fica acordado que Nina Albuquerque e Alexandre Heinrich,


ambos maiores de idade, aceitaram participar
da Grande Aposta do Colégio Prisma.
“Cláusula Primeira: Nina e Lex firmam o
presente contrato, tendo como objeto a
aposta Jogo de Sedução, em que Lex fará de tudo para conquistar Nina em um período de sete dias, tendo como cenário a Ilha Inamorata.
“Cláusula Segunda: É expressamente
proibido seduzir através de substâncias
ilícitas ou mesmo sob efeito de álcool. Em qualquer um dos casos, a aposta será

encerrada e Nina será a vencedora.


“Cláusula Terceira: A aposta estará valendo a partir do momento em que Nina e Lex
pisarem as areias da Ilha Inamorata e seu término acontecerá quando a ilha for deixada para trás.
“Cláusula Quarta: Caso Lex vença a aposta, receberá o valor de R$ 6.000,00 de Nina
Albuquerque. O cheque preenchido já está
com o banqueiro Arthur Gancho e será
entregue ao vencedor apenas quando retornarem de viagem.
“Cláusula Quinta: Caso Nina seja a
vencedora, a humilhação pública de Lex será o seu pagamento.
“Sem mais, as assinaturas reconhecidas em cartório tornam o contrato válido.”
— Juro por Deus, ainda não acredito que
isso está acontecendo. – Nathi finaliza a leitura, tirando os óculos.
— Isso vai ser tão divertido! – Lais bate palminhas afetadas. – Entre no clima, sua chata! – ela bate no braço de Nathi, que
mantém a expressão fechada e preocupada.
— Vencerei essa aposta, Nathi. Então, qual é o problema? – Nina coloca o computador
para dormir e gira a cadeira para encarar as amigas.
— O Lex é um tipo irresistível, Nina. Acha mesmo que será fácil? Ele vai usar todas as armas de sedução que conhece, o que não são poucas. – Nathi balança a cabeça, certa de que a amiga está em apuros.
— Acha mesmo que eu posso me apaixonar

pelo Lex? Enlouqueceu? – Nina se altera.


— Acho sim. Esse é um jogo perigoso e
você está brincando com fogo. – Nathi
dispara.
— Pare com isso, Nathi. Eu aposto todas as minhas fichas na Nina. E, sinceramente, acho que essa será uma viagem hilária. – Lais solta uma sonora gargalhada.
— Depois não diga que não avisei, tá legal?
– Nathália se levanta, guardando o contrato dentro de uma pasta transparente.
— Não vai acontecer, Nathi, eu juro. Depois do que passei com aquele cachorro do Bruno, estou imune. – Nina entrelaça as mãos atrás da cabeça.
— Será mesmo? – a dúvida de Nathi

reverbera no ar.


Quatorze: O quartel general de Lex
Estamos no quartel general de Lex, aquele mesmo quarto zoado com cheiro de incenso e garotos. Hoje Lex acendeu um bastão de pimenta e Gancho não para de espirrar.
As duas janelas estão escancaradas e uma
brisa fria sopra as cortinas, derrubando o contrato no chão laminado.
Gancho está fuçando nas prateleiras feitas com shapes de skate. Notaram alguma semelhança com o quarto de Nina? Sinistro.
Eu poderia dizer que se trata de uma mera coincidência, mas não me parece correto, até porque não acredito em acaso. Algo me diz que esses dois combinam mais do que podem imaginar.
Lex se abaixa e recolhe o contrato,
colocando-o sobre a bancada. Um peso de papel, no formato de guitarra, não deixa o papel sair voando novamente.
— O que está procurando? – Lex pergunta,
jogando-se na cama e pegando o violão ao
lado. Começa a dedilhar um som do Deep Purple.
— Aquela sua caixa de alfinetes. – Gancho faz uma pausa. – Ah, aqui está.
— Para que você quer isso?
Gancho não responde. Caminha até o
quadro de cortiça de Lex, com vários post its colados. Arranca todos e deixa a cortiça nua.
Em seguida, saca algo do bolso e alfineta no quadro. Quando se afasta, Lex dá um pulo na cama.
— Onde conseguiu essa foto?
— O Bola me arrumou. – Gancho pega uma
cartela de adesivos sobre a bancada, descola um alvo e fixa-o sobre o peito de Nina, na altura do coração. – Precisamos descobrir tudo o que pudermos sobre ela. Esse é o
único caminho para o coração da gata.
Gancho se afasta alguns centímetros,
tombando a cabeça de lado. Deixa um sorriso escapar ao analisar a foto. Foi tirada pelo
celular do Bola, no Halloween. Na imagem, Nina empurra Hulk sobre um balde de
bebida. O cara, com quase dois metros de
altura, da largura de uma jamanta, está
congelado no ar, prestes a cair sobre pedras de gelo. A expressão da garota é o

retrato da irritação desmedida. Ao se lembrar da cena em detalhes, um arrepio sobe pelas costas de Gancho e ele se vira para encarar Lex, com cara de pânico.


— Certo, essa é uma missão impossível.
— Agora que você sacou isso? – Lex joga as mãos para o ar. – É tudo culpa sua, só para constar. – ele mira o indicador na direção de Gancho.
— Man, eu não queria estar na sua pele. –
Gancho provoca.
— Vá se ferrar! Você me colocou nessa
enrascada e vai me tirar dela, Cabeçudo.
— Precisamos arrancar da Nathi e da Lais
qualquer coisa sobre a Nina. Eu já vasculhei
a internet e a garota não está em nenhuma rede social, nem no Facebook. Nunca vi uma garota que não está no Face.

— Estamos falando de Nina Albuquerque,


Gancho. Ela não é uma garota, é o diabo
encarnado.
— É, pode crer. – Gancho observa as
estrelas piscantes do lado de fora da janela.
Bem que uma ideia poderia cair do céu nesse exato momento. – A Nathi e a Lais nunca
contarão nada sobre a Nina para nós.
— Cara, você é tão esperto para umas
coisas e tão burro para outras.
— Do que está falando? – Gancho eleva o

tom de voz.


— A Nathi está caidinha por você, seu
otário. – Lex desliza para fora da cama e bate com a mão espalmada na testa de Gancho. – Só você ainda não percebeu isso.
— Como é? – Gancho engasga, soltando um
espirro quando Lex acende outro incenso. –
Porra, apaga isso!
— Esse é de camomila, para acalmar. – Lex joga o isqueiro sobre a bancada, displicentemente. – O fato é que a Nathi está apaixonada por você e acho que ela contará tudo o que queremos saber, se você largar de ser um trouxa, obviamente.
— Tem certeza disso? Man, como eu não percebi antes?

— É como eu disse: você é um otário.


Quinze: O quartel general de Bárbara
As Kibis estão reunidas no quarto de
Bárbara, a Kibi Mor.
Confesso, esse é um ambiente que eu não
imaginaria nem em mil anos. O quarto é cor-de-rosa, daqueles enjoativos e extremamente chatos. Barbies de
colecionador estão em pé sobre pedestais na prateleira mais alta que, por uma escolha infeliz na cartela de cores, é de um pink berrante.
Eu diria que esse é um reduto de princesas mimadas, daquelas que se acham as mais
belas entre as mortais. O dossel balança

quando Bárbara deita na cama, abraçando


uma almofada em formato de coração. A
mala rosa chiclete está aberta ao seu lado.
— Acho que está fazendo besteira, Babi. E
se o Lex acabar se apaixonando pela Nina? –
Suzana levanta a questão.
— Qual é. – Bárbara dá uma gargalhada
gutural. – Isso é impossível!
— Hum, não sei não. – Ana Paula abre o
saco de mini cenouras e puxa uma para fora, roendo-a.
— Fiquem tranquilas, sei o que estou fazendo. – Bárbara apanha algo na mala. É
uma câmera digital profissional, com o zoom óptico mais potente do mercado.

Alisa a
máquina com um olhar sombrio.


— Não vai nos contar qual é o plano? -
Suzana está curiosíssima.
Essas três amigas são daquelas que se vestem da mesma forma, usam o mesmo corte de cabelo e já planejam a lipoaspiração e o silicone assim que completarem dezoito anos.
Das três, Ana Paula é a única que não
nasceu com a genética boa e, com qualquer alface a mais, costuma engordar. Por isso, mantém uma dieta rígida, à base de frutas, verduras e legumes. De vez em quando,

escondida de todos, come uma caixa de


chocolates sozinha.
Sempre que sofre de ataques de
compulsão, Ana coloca tudo para fora
minutos depois. Ninguém sabe sobre isso e ela não contará, nem sob tortura.

Seus
cabelos ao natural são castanhos, mas nem mesmo ela se lembra da cor oficial.

Hoje
estão tão loiros quanto os de Bárbara e
Suzana. Para que o contraste não seja
gritante, costuma descolorir as sobrancelhas
também.

Suzana é a única loira natural dentre as


três. Ainda assim, costuma ir ao salão a cada quinze dias para retocar as mechas mais
claras. Não é alta, mas também não é baixa.
O corpo é esguio e apesar de não ter
facilidade para ganhar peso, prefere se
abster de comer. Coisa estranha.
Já Bárbara possui um corpo fenomenal. As
curvas são bem desenhadas e não sustentam um buraco de celulite sequer. Malha duas
horas por dia, sete dias na semana. Para ela, imagem é tudo.
Mas Bárbara não é o que chamaríamos de

mulher bonita. É um mulherão construído à base de suor, truques de maquiagem e


plásticas faciais. Sabe aquela figura que se destaca no meio da multidão? Aquela para
quem os pedreiros assobiam e os
motoqueiros quase se matam no trânsito?
Essa é Bárbara, a Kibi Mor.
— O plano é fotografar a vadia em cenas calientes protagonizadas com Lex Heinrich. –
Bárbara sorri altiva, certa da vitória. – Darei o troco a altura, tenham certeza disso.
— Como pensa em conseguir algo assim? –
Ana pega só mais uma cenoura. Qualquer
coisa, ela sempre pode vomitar.
— Teremos sete dias para isso na ilha e o Lex está disposto a ajudar. – Bárbara alisa a câmera como se fosse um bichinho de
estimação.
— Isso é demais até para o Lex. – Suzana
mira Bárbara, com um tom preocupado. –
Acha mesmo que ele levará isso adiante?
— Dará certo, vocês vão ver. – Bárbara se levanta e inicia a arrumação da imensa
necessaire.
— Algo me diz que você nunca vai parar de chantagear o Lex, estou enganada?

– Ana
fecha o pacote de mini cenouras e o joga

para Suzana. – Mantenha essas cenouras
longe de mim!
Com um sorriso maligno, Bárbara gira no
salto alto e encara as amigas. Seus olhos castanhos se estreitam de forma assustadora:
— Esse vídeo do Lex surgiu no momento
perfeito. Nos vingaremos da vagaba da Nina e de quebra, conseguirei meu namorado de
volta.
Dezesseis: Um dia para a viagem de
formatura
Nina está de malas prontas.
Ajeita a bainha de tule do vestido preto e calça as sapatilhas coloridas com strass.
Nathália e Lais aguardam no andar de baixo, na companhia de Doc e sua turma barulhenta.
A galera toda irá na inauguração do
Aquarium, uma boate na Vila Olímpia, em
que um dos sócios é amigo de Doc. Os
convites para a ala VIP foram disputados à
tapa e o irmão de Nina conseguiu dez deles, na faixa.
A garota borrifa o perfume nos pulsos e também atrás das orelhas. Dá uma última
olhada no espelho antes de descer para
encontrar as amigas.
Os pais de Nina foram ao cinema e a turma de Doc está espalhada nos sofás e sobre a bancada de mármore travertino da cozinha.
Várias latas de cerveja se empilham na pia e sacos de amendoim e batatas fritas estão
abertos sobre as mesinhas de apoio.
Lais e Doc conversam num canto, próximos
demais. Nina os encara com curiosidade. Já tinha percebido um clima, mas não faz ideia do que esteja rolando entre esses dois.
— Pronta? – Nathi dá um pulinho ao ver

Nina. – Uau, Nina, esse vestido é um arraso.


— O seu também. – Nathália está usando
um vestido azul de alça única, na altura dos joelhos, de um tecido bem estruturado. O
rabo de cavalo foi feito bem alto e algumas mechas castanhas escapam, emoldurando
seu rosto cheio de sardinhas fofas.
— Todo mundo por aqui? Podemos ir? – Doc
recolhe os sacos de salgadinhos espalhados.
Nina observa Lais que permanece recostada na parede, no outro canto da sala. A amiga está deslumbrante num vestido estilo
indiano, com a cintura marcada por um cinto de camurça. Um imenso colar prateado pende de seu pescoço e nos pés, chinelos com
miçangas pretas. O cabelo avermelhado, bem batido na nuca, sustenta duas presilhas
laterais que prendem a franja. Nina nota que Lais está usando o bracelete de níquel
envelhecido que compraram juntas, na feira de antiguidades da praça Benedito Calixto, na Vila Madalena.
— É impressão minha ou a Lais e o Doc
estão…? – Nina se vira para Nathi e não
termina a frase.
— É, eu também percebi um clima. –
Nathália balança a cabeça em concordância.
— Hum. Acha que devemos perguntar?
— Deixe ela nos contar. – Nathi tira um fio de cabelo do vestido de Nina. –Não ficaria chateada?

— Por que eu ficaria chateada? – Nina


franze o cenho, confusa.
— Sei lá, é seu irmão e sua amiga. – Nathi dá de ombros. – Não que isso seja grande
coisa, não é traição nem nada.
Eu acharia muito legal, de verdade.

***
O quarteirão do Aquarium está tomado por
carros de todas as marcas e modelos. Com
isso, é óbvio que o trânsito está um caos.
Uma imensa fila se forma do lado de fora da boate e a maioria das pessoas não faz nem ideia de que sem um convite, nada feito.

As três amigas caminham juntas, de braços dados, vencendo os dois quarteirões que


separam o único estacionamento com vagas da entrada do Aquarium. Lais não toca no
assunto Doc. Nina e Nathi fingem não terem visto nada.
Doc e sua turma vem logo atrás e como
todo bando de garotos, começam a se bater e empurrar a caminho da danceteria.

Nesse
interim, uma Pajero recheada de meninas


surtadas para ao lado dos garotos. Doc dá trela e Lais fecha a cara no mesmo instante.
Nina sente as unhas da amiga fincarem em
seu braço com força.
— Ei, não precisa arrancar a minha pele. –
Nina estremece e Lais se sobressalta.
— O quê?
— O que está rolando entre você e meu
irmão? – droga, Nina tinha prometido a si mesma não perguntar.
— Nada. – Lais olha de esguelha para trás.
Seus olhos azuis ficam opacos quando veem Doc e sua turma se derretendo para cima das
meninas da Pajero.
— Por sua causa ou por causa dele? – Nathi se mete no assunto.
— Não está rolando nada, é sério. – Lais
suspira tristemente.
— Se um dia rolar, saiba que dou todo o
apoio. – Nina sente o aperto de Lais afrouxar de seu braço.
— Obrigada, Nina. Mas é como eu disse:
Não está rolando nada.
Finalmente chegam à entrada da boate e
Doc e os caras se livram das garotas
oferecidas, para alívio de Lais. Pepino saca os convites do bolso e entrega ao segurança. O
engravatado confere a autenticidade dos mesmos e libera a entrada, carimbando os
pulsos com uma tinta néon.
O Aquarium, como o próprio nome diz, é
um imenso aquário, repleto de plantas
aquáticas e animais marinhos diversificados.
A danceteria é circular e cercada por paredes
de vidro curvas, que tomam toda a extensão do lugar.
Nina fica boquiaberta quando vê uma
imensa arraia flutuando sobre sua cabeça, ainda não tinha percebido que o aquário
também se estende por todo o teto da boate.
As garotas seguem Doc por um corredor
largo, no ponto mais alto do Aquarium. É o único acesso para a ala VIP que não está
congestionado. A outra opção seria pelo meio da pista de dança que, no momento, está
abarrotada de cabeças saltitantes.
A música techno rola solta em meio aos efeitos especiais que vem de todos os cantos imagináveis. Uma névoa colorida sobe pelo chão, abraçando as pessoas até a cintura.
A ala VIP está bem mais tranquila, com
seus sofás imensos, mesas largas, um bar
privativo e garçons circulando com bandejas repletas de bebidas coloridas. Nina aproxima-se do parapeito de aço e dá uma sacada no
lugar. O Aquarium é simplesmente fenomenal.
— Animada para a viagem de formatura? –
Doc precisa falar alto para se fazer ouvir.
— Acho que será legal. – Nina responde, ao pé do ouvido do irmão.
— Está finalmente deixando a adolescência para trás, Nina. É agora que a ralação
começa e a vida adulta vai massacrar você de todas as formas.
— Ah, obrigada pelo incentivo! – Nina dá
um tapa no ombro de Doc.
— Já sabe o que fazer caso algum
engraçadinho resolva se meter a besta nessa viagem? – Doc pergunta, vincando a testa.
— Joelhada nas bolas, soco no nariz e… o que mais mesmo?
— Acerte no pomo de adão.
— Ok, fique tranquilo, ninguém vai se
meter a besta comigo.
— Ei, Nina, vamos para a pista? – Nathália
chama. Nina percebe que Doc e Lais trocam olhares demorados e uma urgência em
ajudar inflama a garota.
— Vamos, Doc? – Nina convida, deixando a
bolsa sobre um dos sofás.
— Vamos para a pista, galeraaaaa?! – Doc grita e Nina revira os olhos, tapando os
ouvidos.

***
Chegar à pista é uma maratona suada,
apertada e acotovelante. Com alguns
empurrões, os amigos de Doc conseguem
abrir espaço para dançar.
O olhar de Nina é atraído para cima a todo o momento, o colorido do aquário sobre sua cabeça é inebriante.
Gente bonita e suada pula ao som do DJ.
Nina corre os olhos pela pista, observando rostos descontraídos e maquiagens escorrendo. Não é do tipo que curte baladas como essa, mas adora uma novidade. Ela não
perderia essa inauguração por nada.
Quatro músicas depois e a garganta
queima, ressequida. Voltar à ala VIP está fora de cogitação. O bar mais próximo fica a uns seis metros de onde estão. Grita nos ouvidos de Nathália e Lais, doida por
qualquer coisa líquida. As amigas concordam, seguindo na frente.
— Onde vão? – Doc pergunta.
— Pegar água. Quer? – ela oferece, por
sobre o ombro.
— Não, valeu. Já sabe, hein… pomo de adão. – Doc recomenda.
— Pode deixar. – Nina ri e segue para o
bar.
Passar entre pessoas pulantes e bêbadas
não é tarefa das mais fáceis. Nina desvia, tira o pé do caminho, é empurrada e empurra
também. O lugar está claustrofóbico e a boca de Nina está tão seca que nem a língua é
capaz de umedecer os lábios.
Uma mão toca em seu ombro e a puxa para trás.
— Ei, pensei que sereias não existissem. –
um garoto sardento e até bem bonitinho exclama. Mas a cantada é tão demodê que Nina dispara a rir.
— Sereias costumam afogar garotos como
você, sabia? – ela rebate.
— Faria isso comigo, sereia? Qual o seu
nome, hein?
— Se eu disser o meu nome, terei que te
matar. – Nina tenta se desvencilhar, mas o garoto sardento aperta seu braço com força.
– Será que dá para me soltar?
— Pague o pedágio que eu solto. É só um
beijo, você vai gostar.
Quando o garoto sardento aproxima-se
perigosamente, uma mão forte surge em
cena, agarrando Nina pela cintura.
Ok, congelemos o momento para uma
análise mais profunda.
São Paulo é uma cidade gigantesca e as chances de encontrar alguém conhecido numa balada são nulas, correto? Engano seu.
Apesar de Sampa ser uma megalópole, as
baladas são sempre as mesmas, divididas em bairros, classes sociais e estilos. As chances de encontrar alguém conhecido numa
inauguração desse porte são imensas. Nem vou entrar nos méritos do destino em ação, porque sei lá, tem isso também.
Descongelemos o momento em 3, 2, 1…
— Dá o fora, mané! – Lex empurra o
sardento.
— Não me disse que estava acompanhada,
sereia. – o garoto fecha a cara e solta Nina.
— E não estou! – o tom dela é agressivo,
metralha Lex com um olhar irado.
— Nesse caso, dê o fora você, manezão! –
o sardento vira homem, pega o braço de Nina e a puxa para si.

O sangue de Lex sobe nas alturas e ele


empurra novamente o sardento, com mais força dessa vez. Nina nota que Gancho se
aproxima. O sardento quer briga e Lex
parece querer o mesmo. Ela está entre eles e resolve apaziguar os ânimos.
— Pare com isso, Lex! – Nina precisa gritar ao pé do ouvido do garoto, o que se mostra uma péssima ideia. O aroma dele é uma
mistura de mistério e sedução que faz suas pernas bambearem.
— Dê o fora, eu já falei! – Lex fecha o
punho no colarinho do sardento.
— Ei, ei, ei! – Gancho finalmente chega. –
Vamos deixar disso, beleza? – Gancho é da turma do “deixa disso”, mas, quando

provocado, é da turma do “vamos matar todo mundo”. – Leve a Nina daqui, Lex!


— Não vou com você a lugar algum! – Nina
tenta se livrar de Lex, mas o garoto é mais forte. E da forma como ele a está abraçando no momento, nem joelhada, nem soco, nem pomo de adão surtirão efeito.
Nina procura as amigas no meio da muvuca
e as encontra. O bar fica um nível acima e ambas estão acompanhando o que está acontecendo na pista de dança, atônitas. Lais levanta as duas mãos para o teto, não
entendendo nadinha do que está rolando.
— Ande logo, sem reclamar. – Lex passa
Nina à frente, prendendo-a como se fosse um escudo protetor, obrigando-a a andar em
direção ao bar.
— Me solte, Lex!
— Quietinha, Nina, ou não ganha sorvete.
– Lex sussurra em seus ouvidos e ela sente o hálito de Mentos de frutas do garoto. Mentos de frutas é golpe baixo.
— Isso não vai ficar assim!
— Já disse, fique quietinha.
— Me larga! – ela grita e cerra os punhos.
— Pronto, sã e salva. – Lex finalmente
afrouxa e Nina gira sobre as sapatilhas,
pronta para socá-lo. Mas algo a detém. Os olhos dele, tão dourados quanto o sol.

Tão brilhantes como lavas de um vulcão em


erupção.
— Eu sei me defender sozinha! – ela
exclama, inflamada de ódio.
— Eu vi. – Lex debocha.
— E aí, galera! – Gancho chega num pulo e passa o braço sobre ombros de Lex.
— Deu um jeito no sardento? – ele
pergunta, sem desviar os olhos de Nina.
— O cara vai ficar sussa. – Gancho elucida, soprando a franja para cima.
— Oi, Gancho. – se Nathi fosse uma
geleira, já estaria derretida no chão.
— Oi, Nathi, oi, Lais. – Gancho
cumprimenta.
— Pegaram água? – Nina sustenta o olhar
de Lex com sua famosa expressão “vou matar você” impressa no rosto.
— Pegamos. – Lais responde. – Vamos
voltar para a pista?
— Fique longe de mim, Lex, eu estou
falando sério. – quando Nina tromba no
ombro dele ao abrir passagem, o garoto
sussurra em seu ouvido:

— Alguém já disse que você fica linda de


preto?
Nina não se dá ao trabalho de responder.
Range os dentes e continua a caminhar, sem olhar para trás.
Dezessete: O jogo começa no Aquarium
As amigas estão dançando lado a lado,
embaladas pelo ritmo frenético da batida
eletrônica. O olhar de Nina se perde lá no teto, acompanhando um peixinho amarelo se esgueirar entre as folhagens. Como ele é fofinho.
— O que aconteceu lá atrás? – Nathi

pergunta, aos gritos.


— Um babaca queria me beijar. – Nina
grita em resposta, sem tirar os olhos do
peixinho.
— E o Lex chegou para salvar você? – a
amiga surta.
— Menos, Nathi. Menos. – Nina revira os
olhos, sacudindo a cabeça e voltando a
atenção para o peixe que agora xereta uma pedra lodosa.
Gancho chega sem aviso, tomando uma das
mãos de Nathália, puxando-a para dançar com ele. Só então Nina percebe que do seu lado direito, Doc e Lais estão dançando
juntos, tão colados que ela não sabe precisar onde começa um e termina o outro.
— Oi, Nina. – Lex chega por trás. Seu
sussurro aos ouvidos é quente e deixa
rastros, arrepiando-a.
— Tchau, Lex. – Nina dispara, sem parar de dançar e sem olhar para trás.
— Como tchau? Acabei de chegar. – Lex acompanha Nina com o corpo, para lá e para cá, tomando o cuidado de não tocá-la. Ela prende a respiração por alguns segundos antes de dar o aviso:
— Não se aproxime mais ou vou soltar o
pitbull do meu irmão em cima de você.
— Quem é o seu irmão?
— Bem ali. – ela aponta na direção de Doc e Lais.
— Hum, acho que seu irmão está ocupado
demais. – o nariz de Lex toca o pescoço de Nina, inalando-a profundamente. –

Cara, que perfume está usando?


— Lex, se manda. – Nina volta seu olhar
para o aquário sob o teto. E o que acaba de ver é o peixinho amarelinho fofinho sendo devorado por um peixe com o quíntuplo do tamanho. A natureza pode ser muito cruel.
— Me diga o nome do perfume e eu me
mando. – Lex, ainda às costas de Nina,
encosta os lábios nos cabelos dela, prendendo-a pela cintura.
Nina bufa, irritada. Sofrendo pelo peixe
amarelo, gira nos calcanhares para encarar Lex. Aquele sorriso debochado está firme em seus lábios rosados e bem desenhados.
— Tire as patas de mim, a aposta só
começa amanhã. – ela cerra os punhos e
soca os braços de Lex. Ele a solta, mas não recua.
— Só quero saber o nome do perfume. –
ele tomba a cabeça de lado, exalando seu
charme característico.
— Hipnose. Está satisfeito? – os braços de Nina tombam ao lado do corpo, vencidos. Ser uma muralha o tempo inteiro cansa, é muita energia despendida.
O risinho debochado de Lex dá lugar a um
sorriso lateral, desses em que apenas um dos cantos do lábio se erguem.

Aproxima-se,


vagarosamente, seus olhos dentro dos de
Nina, os narizes quase se tocando.
A garota não se move, não ainda.
Lex mira aquela boca volumosa e por um
momento, Nina sente vontade de fechar os olhos, as pálpebras custam a obedecer ao
simples comando para permanecerem abertas.
A barba por fazer de Lex pinica a pele
levemente e seus lábios roçam à orelha
direita dela. Nina estremece com a
aproximação, mas não age impulsivamente.
Aguarda.
Sente o calor de Lex envolvendo-a, inala
seu inebriante perfume, seus corpos
próximos demais. Ele a inspira novamente e deixa um gemido escapar da garganta. Num
sussurro melodioso, quente e destemido, Lex anuncia:
— Conseguiu o seu intento, Nina. Estou
completamente hipnotizado por você.
Punhos cerrados.
Sangue fervendo.
Dentes trincados.
Respiração alterada.
Uma joelhada nas bolas.
E, com passos para lá de decididos, Nina
caminha de volta para a ala VIP.
Dezoito: No avião

Depois da cena deprimente em que Nina


acerta Lex entre as pernas, de novo, os dois não voltaram a se cruzar fisicamente no
Aquarium.
Ela o observou à distância e trocaram
olhares durante a noite. Mas algo estranho aconteceu quando Nina, dependurada no
parapeito da ala VIP, viu duas garotas se aproximarem de Lex. Ele estava sozinho no bar.
Gancho e Nathi ainda dançavam no meio
da pista. Lais e Doc estavam em um canto, agarrando-se no maior dos amassos.

Ela
jurou ter visto a língua de seu irmão, mesmo daquela distância. Eca. Mil vezes eca.

Mas o lance é que Nina, ao se deparar com a cena em que Lex e as duas garotas engataram uma conversa animada, fincou os dentes no lábio, agarrando-se fortemente ao aço gelado que a separava da pista lá embaixo. O que estava acontecendo com ela, afinal?
Foi então que dois garotos da turma de Lex chegaram e Nina sentiu um estranho alívio.
Por que ela se importava? Por que seu
coração batia de forma descompassada?
Nina fingia estar olhando para outro lugar, mas definitivamente ela não estava.

De
esguelha, a garota acompanhava todos os


movimentos de Lex enquanto o tempo se
arrastava, cansado de correr.
Num determinado momento da noite, Lex a
mirou, descaradamente. Sorriu abertamente sacando algo do bolso da calça. Era um
celular.
Segundos depois, o iPhone de Nina que
estava sobre a bolsa vibrou, saltitante. Ela o pescou, deslizando o indicador sobre a tela.
Uma mensagem de texto havia acabado de chegar. Quando a abriu, precisou segurar o riso. Uma carinha feliz piscava um dos olhos para ela, incansavelmente. Nathi tinha toda a razão sobre Lex: o cara é um sedutor de primeira.

***
O aeroporto de Congonhas já não

comporta, faz muito tempo, o fluxo de


pessoas que por ele passam. O check in está lotado e os estudantes fazem fila para
despacharem suas bagagens.
Nina, Lais e Nathália despedem-se dos pais, ouvem sermões e pedidos incessantes para
que tomem cuidado com tudo e com todos.
Quem vive em cidades grandes costuma
temer a própria sombra. E no caso de Nina, as preocupações dos pais não são nada
infundadas.
As garotas prometem mundos e fundos.
Lais procura, por sobre os ombros de Nina, algum sinal de Doc. Mas ele não está ali, não veio se despedir.
— O Doc estava dormindo quando saímos.
– Nina esclarece.
— Tudo bem. – Lais morde o lábio,
entristecida. – Não pensei mesmo que ele
fosse aparecer.
— Meu irmão é um cara legal, Lais. Se
vocês engatarem algo sério, juro que ele será fiel até o fim.
— Bem, foram só uns beijos, nada demais.
– Lais tenta se convencer disso, mas o fato é que a garota está de quatro.

— Não sofra por antecipação. – Nina


conforta a amiga.
— Olha quem fala!
— Faça o que eu digo, mas não faça o que
eu faço. O ditado é válido. – Nina passa o braço sobre os ombros de Lais e as duas se juntam a Nathália.

***
Trinta e quatro estudantes e dois professores acabam de completar o check in.
O diretor está atento a tudo, enquanto
responde a mesma pergunta feita por quinze pais diferentes desde que chegou ao aeroporto.

Quando termina de atender a todos, volta


seu olhar para o encrenqueiro Fabiano, o
Bola. O garoto é mestre em armar confusões nos locais mais inusitados. Os professores já estão avisados e o diretor nem imagina do que ele será capaz em um local isolado como a Ilha Inamorata. Se eu fosse esse diretor, teria dado uma de alfândega, revistando a bagagem do garoto com cachorros, detectores de explosivos e tudo o mais.
Enfim, o diretor não pensou nisso. Pior para ele.
Nina caminha, de braços dados com os pais, até as portas que a levarão ao embarque
doméstico de Congonhas. Mais beijos e
abraços e quando ela finalmente cruza o portal, a liberdade é uma promessa convidativa. Essa é a primeira vez que ela viaja sem os pais ou o irmão mais velho.

No colégio em que estudava, viagens assim foram proibidas quando um garoto explodiu o banheiro de um hotel. Nem posso dizer isso em voz alta, para não dar ideias ao Bola.


Uma voz metálica surge dos auto falantes, anunciando que o embarque do voo de
número 711 terá início imediato. Trinta e quatro estudantes sorriem. Dois professores tremem nas bases.

***
O avião já está no ar há uma hora e meia.
Nina joga Mário no Nintendo 3DS. Lais
quebra a cabeça com o sudoku no celular.
Nathália lê um livro de novecentas e doze páginas, avançando rapidamente na história.
Aviões são tão claustrofóbicos como latas de sardinha e o humor de Nina começa a

oscilar. Não suporta ficar parada, é como se formigas mordessem a sua bunda.

Desliga o vídeo-game e se levanta, doida para esticar o corpo todo. As amigas nem percebem, de tão entretidas que estão em seus afazeres.
— Se você se apaixonar por mim, saiba que não poderei lhe dar filhos. – Lex tem essa irritante mania de chegar por trás,
sussurrando no cangote.
Nina gira nos calcanhares e seus olhos
esverdeados se encontram com os raios
solares de Lex. A garota sente um
desconforto no estômago e não é enjoo.
— Não bati tão forte assim. – ela franze os lábios, levando as mãos à cintura.
— Você não faz ideia da força que tem.
— Se é assim, por que ainda está parado aí na minha frente? – Nina estufa o peito e
lança seu melhor olhar fuzilante .
— Ops. Já estou indo. – Lex cruza as mãos à frente do corpo, como jogadores de futebol
fazem ao montar uma barreira.
Nina não vê, mas eu vejo. Alguns bancos
atrás, Bárbara imagina-se com uma granada em mãos, prestes a tirar o pino e jogar a bomba em direção à garota. A Kibi Mor rosna baixo quando Lex passa por ela, sustentando um sorriso debochado nos lábios. As palavras de Suzana ecooam em sua mente: “E se o
Lex acabar se apaixonando pela Nina?”. Não, isso não pode acontecer. Não vai acontecer!
A caneta que Bárbara segura com as duas
mãos se quebra ao meio, espalhando a tinta entre os dedos. Joga as duas metades no

chão, desistindo de completar o teste


amoroso da revista de fofocas. Suzana e Ana Paula se entreolham, assustadas.

Vem
chumbo grosso por aí.


Dezenove: No ônibus
Duas horas depois do desembarque,
finalmente o ônibus está pronto para deixar o aeroporto a caminho da balsa.

Nathi e Lais


sentaram-se juntas e quando Nina ameaçou sentar-se com Camila, Lex a empurrou para o banco de trás.
Ele praticamente a jogou em direção à
janela fechando a passagem. Para sair dali, Nina teria que pular por cima dele, o que estava fora de cogitação. Até pensou em
gritar, mas os professores já estavam irritados demais com a zona, não seria
prudente.
— Você me paga, Lex. – Nina murmura,
num rosnado selvagem.
— Relaxe e curta a paisagem. – Lex
entrelaça os dedos atrás da cabeça, o
sorrisinho debochado já se desenhando
naquele rosto de traços perfeitos e perigosos.
Ela bufa e cruza os braços, deitando a
cabeça no vidro. Lex se esparrama ao lado, invadindo o seu espaço. Nina aperta

a
mandíbula com força e tenta se afastar.


Impossível. A perna do garoto roça na sua de
forma irritante.
Nina então cruza as pernas, colando-as na lateral do ônibus. Escuta a risadinha abafada de Lex e tem muita vontade de pular no pescoço do cara e asfixiá-lo.
— A aposta ainda não está valendo, seu
babaca. – Nina insulta, furiosa.
— Eu sei. – Lex fecha os olhos e a inspira, como fez na boate. – Você me hipnotizou,
agora aguente.
Nina sente um ardor subir pelas costas, mas não tem nada a ver com calor. O ar
condicionado está bem acima de sua cabeça, lançando jatos gelados em sua direção. Lex se remexe, espalhando-se ainda mais. Está tentando provocá-la, mas ela não cairá no jogo.
Gancho se aproxima, com um violão em
mãos. O ônibus dá uma sacudidela e o garoto precisa se segurar para não cair.
— Ei, Lex, meu camarada, toque algo para
nós. Ainda temos uma hora dentro desse busão.
— Manda aí. – Lex estende a mão e Gancho
lhe passa o violão.
— Toque algo para agitar essa galera. O
que querem ouvir? – Gancho pergunta, aos gritos.
— Heavy metal! – alguém dos fundos responde.
— Num violão? Tá chapado? – Gancho
revira os olhos.
— Classic rock!
— Aí já começa a melhorar. – Gancho
concorda, num meneio de cabeça.
— Pagode!
Nem preciso dizer que quem grita essa
barbaridade é o Bola, preciso? Gancho nem tem o trabalho de responder. Vários

papéis amassados voam pelos ares, acertando o gordinho encrenqueiro.


Nina não tira os olhos da estrada. Árvores
passam, lagos passam, carros passam, o asfalto corre para lugar algum. De rabo de olho ela nota que Lex a encara,
insistentemente.
— O que foi? – ela metralha.
— O que quer ouvir? – Lex está afinando as cordas do violão.
— Quero ouvir você dizer que vai desistir da aposta.
— Hum… peça algo possível, Nina. – ele faz uma pausa. – Qual sua banda preferida?
— Não interessa.
— Quero tocar algo para você. – Lex tomba a cabeça de lado, falando de forma mansa, só para irritá-la ainda mais. – Peça uma música, qualquer uma.
— Não quero ouvir você cantar. – ela
rosna, entredentes.
— Vai, Nina, qual sua banda preferida?
Você deve ter uma.
Nathália, incrivelmente irritada com o bate
boca entre Nina e Lex, tira os olhos do livro e grita, sem olhar para trás:
— Creedence! A Nina curte Creedence, pô!
Agora será que dá para vocês dois calarem a boca?
— Valeu, Nathi! – Lex comemora. –
Creedence Clearwater Revival. Quem diria, não? Você tem bom gosto.
— Seu tosco. – Nina gira a cabeça com
raiva, seus cabelos acertando o rosto de Lex.
— Anda logo com isso, Lex, ou a galera vai destruir o busão antes de chegarmos na
balsa. – a emergência no tom de Gancho faz o garoto se levantar. Apesar dos gritos
insistentes dos professores, Bola continua a ser atacado por uma enxurrada de papéis
amassados e chicletes mastigados.
Lex coloca os pés no banco e se senta no
braço da poltrona, um tanto torto. Ajeita o violão da melhor maneira, testando o som.
— Ok, pessoas, essa música eu dedico a

Nina, a garota selvagem. – quando Lex profere essas palavras, a galera vai ao delírio e o ônibus sacode ameaçadoramente. Os


professores voltam a gritar e a turma se cala, mas não por causa dos gritos professorais e sim pelos acordes de Lex.
Nina engole lavas no lugar da saliva. Sente uma vontade imensa de pegar o violão das
mãos dele e quebrá-lo em sua linda cabeça de cabelos cacheados. Antes que possa dar cabo de seu desejo inflamado, a voz de Lex invade seus ouvidos, fazendo com que seu
coração pare por um instante.
Meu Deus, a voz do cara é perfeita!
Rouca, grave, sublime. Se Nina não
soubesse que era Lex quem cantava
“Fortunate Son”, poderia jurar estar ouvindo o próprio John Fogerty. Ela não consegue se conter e olha para o cara.

Os dedos do garoto deslizam pelas cordas, tão suaves, envolvendo os fios como se


estivessem acariciando o instrumento. Lex parece estar possuído por uma força mágica, mística, invisível. Se Nina pudesse ver auras, estaria vendo a de Lex se expandir nesse
exato momento. Tão à vontade, inteiro,
divino.
A forma como ele joga os cabelos
encaracolados para trás, a maneira como
segura o violão, o jeito com que mexe os
lábios…
Lex empolga a galera e quem conhece a
letra, canta com ele, as vozes se fundindo numa só.
Os olhos de Nina não querem se desviar da cena, as pálpebras não estão a fim nem de piscar. Os ouvidos querem escutar mais e mais e mais. Completamente hipnotizada, é o que ela está.
Que droga, pensa Nina. Vencer essa aposta será mais difícil do que ela imaginava.

***
Boa parte da turma já desceu do ônibus a caminho da balsa. Nathália e Lais pegam as malas de mão no bagageiro acima de suas cabeças. Nina tenta fazer o mesmo e, ainda que na ponta dos pés, não consegue alcançar a raqueteira lá no fundo. Quando faz menção em subir no banco, Lex a breca.
— Deixe que eu pego. – com vários
centímetros a mais, ele pesca a alça da bolsa facilmente.
— Eu posso me virar. – ela rebate, visivelmente enfurecida pela ajuda.
— Largue de ser orgulhosa. – ele puxa a
raqueteira e comenta: – Hum, você joga
tênis?
— Eu não jogo, eu humilho! – Nina, em sua arrogância típica, arranca a raqueteira das mãos de Lex.
— É sério? Bom, nesse caso, eu desafio
você para uma partida de gente grande.
Quem ainda está dentro do ônibus não se
contém ao ouvir o desafio. Gancho, após soprar a franja para cima, solta o famoso grito de guerra:
— Apostaaaaaa!
Se as pessoas pegassem fogo ao seu bel
prazer, o ônibus teria ido pelos ares nesse momento. Quem está do lado de fora, corre para dentro. Quem está dentro, não sairá nem a pau dali.
— Está me desafiando, Lex? Perdeu a
noção? – Nina o encara, destemida.
— Você disse que humilha no tênis, então, qual é o problema? – Lex escancara um
sorriso debochado, sua marca registrada.
— Não sabe onde está se metendo. – ela
estreita o olhar. – Vou acabar com você.
— Aposto que não. – Lex cruza os braços e lança uma piscadela no ar.
— O que vão apostar? – Bola pergunta
acima do murmurinho, limpando o resto de
chocolate dos cantos da boca.
— É! O que vão apostar?
— Tem que ser algo quente!
— Aposta aí, Nina!
— Vai mesmo se arriscar? – Nina empina o
nariz, numa superioridade intrépida.
— Adoro me arriscar. – Lex revida, num
tom sedutor daqueles abrasadores.

— Já que é assim, se eu vencer o jogo você corta os pulsos, que tal? – Nina replica.


— Poxa, peça algo que não envolva a
minha morte.
— Ok, deixe eu pensar… hum, certo. Se eu
ganhar, você será meu escravo por um dia
inteirinho. O que acha disso? – Nina arranca gritos estimulantes da turma.
— Seu escravo? Um dia inteiro? – Lex finge pesar a aposta. – Muito bem, se você vencer, serei seu escravo, farei tudo o que mandar.
— Aêêêêêêêêêêêêêêêê! – a manifestação
dos estudantes arranha os ouvidos.
— E se o Lex vencer? – Gancho fixa Nina

com o olhar, por cima dos ombros do amigo.


— Ele pode pedir o que quiser, porque esse jogo eu já ganhei. – Nina mantém uma
postura triunfante.
Antes de responder, Lex umedece os lábios, deixando a expectativa no ar. O

cérebro do cara pensa rápido e seus lábios repuxam para os lados com a brilhante ideia. Talvez ele leve um soco. Ou um chute. Ou as duas coisas.


— Se eu vencer, você vai me beijar. De
língua. Por um minuto. Contados no relógio.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
É isso o que todos gritam ao ouvir a
proposta de Lex. Nathi e Lais se entreolham, perplexas. Gancho dá tapas no ombro do
amigo, empolgadíssimo. Será que Nina
aceitará?
— Como você é babaca. – ela bufa e
estende a mão. – Negócio fechado.
Vinte: Na balsa
É óbvio que o assunto em todas as panelinhas formadas na balsa é a nova aposta do momento. Lex e Nina se
enfrentarão amanhã, num jogo de tênis de
vida ou morte.
A garota está tranquila, certa da vitória.
Nathi e Lais estão temerosas e cercam a
amiga na proa, com os olhares arregalados.
— O que foi que você fez? Acha mesmo que
pode vencer o Lex? – Nathi se enfeza com a frieza de Nina.
— Você cavou a sua sepultura. O Lex é
campeão paulista de tênis. – Lais alisa a franja cor de fogo para trás, abalada com a calma da amiga.
— E daí? Sou campeã interestadual. – Nina dá de ombros, inclinando o corpo para a
frente, apoiando os cotovelos no parapeito da embarcação. Seus cabelos castanhos voam
com o vento, emaranhando-se.

— Tá, mas o Lex é homem. Ele é mais forte


e mais rápido. – Nathália pondera. –
Caramba, Nina, essa aposta já está perdida.
— Ninguém é mais rápido do que a Nina na
quadra. – Lais parte em defesa da amiga. –
Quanto a ser mais forte, nisso você tem
razão, Nathi. Ainda mais o Lex, com aqueles músculos saltados.
— Tênis não é nem força, nem velocidade.
É estratégia. – Nina bate com o indicador na têmpora. – Eu vencerei, fiquem tranquilas.
— Droga, Nina, e se você perder? Já

pensou na humilhação? Essa galera não


perdoa. – Nathi recosta no parapeito,
contrariada.
— Como não vou perder, nem pensarei
nisso. E fim de papo.

***
Na popa da balsa, os garotos estão reunidos em um círculo bem fechado. Até a brisa foi proibida de entrar. Gancho toma a palavra, inclinando-se para frente como se fosse
contar um segredo:
— Galera, finalmente as apostas terão
início. São quatro no total. – ele puxa o celular do bolso e começa a leitura. –

Nando versus Camila. – Nando faz sinal de positivo.


– Edgard versus Suzana. – Edgard assente. –
Hulk versus Ana Paula. – Hulk solta um
rugido contido. – E a grande aposta do ano: Lex versus Nina.
Lex meneia a cabeça, negativamente.
— O que foi, man? – Gancho une as sobrancelhas.
— São cinco apostas no total, Cabeção.
— Ah, claro. O jogo de tênis. – Gancho bate com a mão espalmada na testa.
— Não é dessa aposta que o Lex está
falando. – Bola intervém.
— E de qual aposta ele está falando? –

Gancho mira Lex, aguardando que o amigo


se manifeste.
— Gancho versus Nathália! – é Hulk quem
elucida a questão.
— Vocês estão de sacanagem? – Gancho
recua dois passos, cambaleante. – Eu não
apostei nada!
— Mas nós apostamos. – Bola dá uma
risadinha irônica, balançando a cabeça como um rapper em processo criativo. –

E outra, a Nathi está gamadona em você. Essa aposta vai ser moleza.

— Seu bando de otários! – Gancho fecha a
cara, irritado. – Não vale!
— Já era, Cabeçudo, a aposta está valendo.

***
Terra à vista!
Uau. Mil vezes uau. O folheto publicitário não fez jus a esse lugar. As três amigas estão boquiabertas, assim como todos os estudantes do Prisma. Lex perde o ar e
Gancho tira o celular do bolso, fotografando todos os ângulos de visão.
Deixe eu acotovelar essa galera para me
posicionar melhor.

Ah, agora sim. Vamos começar com a


descrição do mar: hoje as águas estão
calmas, de um azul tão claro e cristalino que é possível ver os peixes e as tartarugas
abrindo espaço para a embarcação passar.
De uma ponta a outra, a praia Inamorata
deve ter em torno de dois quilômetros, ou seja, é praticamente um reduto particular. As areias são brancas e fofas, num contraste perfeito com os imensos coqueiros que
arranham o céu.
Recifes de corais se espalham pelos cantos e rochas gigantescas, talhadas pelas ondas, despontam para fora d’água.
Por detrás das árvores, é possível ver a
entrada do Hotel Inamorata e sua absurda e estonteante piscina com duas cascatas. O
hotel cinco estrelas possui portas e janelas imensas, com os batentes pintados em um
vermelho queimado. As paredes são brancas
como as areias e o colorido fica por conta dos diversos jardins, que sustentam flores
multicoloridas.
Três elevações tomadas por um tapete
verde podem ser vistas da balsa e a natureza inspira uma única certeza nesses estudantes: essa será a melhor viagem de formatura de que o Colégio Prisma já teve notícia.
O píer se aproxima. Sobre ele, monitores
do hotel acenam para a balsa, vestindo
camisas floridas. Gancho puxa Lex para um canto. O amigo o segue, a contragosto.
— O que é, Cabeçudo? – Lex pergunta,
arrancando a camiseta e prendendo-a na
bermuda.
— Sobre esse jogo de amanhã, é lógico que deixará a Nina ganhar, certo? –

Gancho se senta sobre o parapeito da embarcação.


— É o lógico a fazer. – Lex concorda,
jogando a cabeça para trás.
— Não é não. – de onde essa Kibi saiu?
Bem, não faço a menor ideia, mas o fato é que ela está ali, com o celular em mãos, sem conseguir tirar os olhos do peitoral desenvolvido e depilado de Lex.

— Ah, meu Deus, era só o que faltava. –


Gancho eleva as mãos aos céus.
— O que quer? – Lex pergunta, impaciente.
– E dá para tirar os olhos do meu material?
Bárbara, desconcertada, desgruda os olhos do tórax de Lex, mirando-o no fundo dos
olhos.
— Quero que você ganhe o jogo, Lex.
Quero ver a Nina humilhada. – Bárbara
estreita o olhar, franzindo os lábios e
trincando o maxilar.

— Qual o seu intento, o que você ganha


com isso? Satisfação pessoal? Vingança? –
Lex recosta na parede da embarcação,
cruzando os pés e os braços.
— Não importa. Você cumpre a sua parte e
eu cumpro a minha. – Bárbara ajeita o short
jeans que mais parece uma calcinha de tão curto. E então, sacode o celular nas vistas de Lex.
— Tá, já sei, vai mostrar o vídeo para o
meu velho. – Lex revira os olhos, bufando. –
Essa chantagem já está cansando, de

verdade.


— Ganhe o jogo, Lex. – Bárbara avança
para cima dele, como um cachorro raivoso.
Ele não se move, aliás, nem estressa com a aproximação.
— E se a Nina ganhar de forma limpa? Ela
parece jogar bem.
— Estarei assistindo e saberei se você
entregou o jogo ou não. – Bárbara encosta a mão num tonel sujo e faz cara de nojo. –
Estamos entendidos? – ela limpa a mão no
peito de Lex.

— Ei, olhe mas não toque! – Lex se afasta e encara a Kibi com desdém. – É só isso o que quer? Que eu ganhe o jogo?


— No momento é só.
— Então sai andando. – Gancho desce do
parapeito e começa a enxotar Bárbara, como se fosse um bicho asqueroso. –

Vaza logo, anda!


— Não sabe com quem está mexendo,
Gancho. – ela aponta o indicador para o nariz do cara, como se fosse uma arma.
— Sei sim, uma escrota de uma Kibi!
Bárbara parte para cima de Gancho, mas
antes que algo aconteça, Suzana e Ana Paula a seguram. De onde foi que elas surgiram
mesmo? Enfim, isso não importa. O que realmente tem importância é o fato de
Gancho ter entrado para a lista negra da Kibi Mor, o que o torna mais um alvo a ser
abatido.
Vinte e um: A Ilha Inamorata
— Bem-vindos a Ilha Inamorata! Serão
sete dias de praia, sol, aventuras e muita diversão. Façam os seus check ins e vistam suas roupas de banho para
inaugurarmos
essa estadia em grande estilo. Daqui meia hora, nos encontraremos à beira mar. –

um dos monitores dá as boas vindas, munido de um megafone.


Nina, Lais e Nathália dividirão um mesmo
quarto. As garotas estão em êxtase, sem
saber para onde olhar. O quarto é
supercharmoso, com três camas box
revestidas com colchas de retalhos coloridos.
Há muita madeira, bambu e peças náuticas
decorativas.
Nina abre as portas duplas e descobre uma varanda fenomenal, com duas redes e uma

vista capaz de fazer o tempo parar. Estão no segundo andar do hotel e possuem uma visão privilegiada da praia e da piscina.


Nina abre a mala e escolhe um biquíni
frente única. A parte de cima é em tons
pasteis, com formas geométricas. A parte de baixo é lisa, num verde pálido. A vestimenta
possui uma espécie de cinto acoplado, com franjinhas arrematando o visual.
Ela vasculha a bagagem em busca de uma
saída de banho e encontra uma perfeita. Foi confeccionada em crochê, num tom de verde mais forte que o do biquíni. A peça foi adquirida há três meses, em sua última visita ao Embú das Artes.
Nathi escolhe um biquíni azul royal,
supercomportado e de um tecido brilhante.
Por cima, veste uma camisa de seda branca, com os botões parcialmente fechados.
Lais opta por um maiô preto bem diferente, todo aberto no abdômen e nas costas. As
fendas laterais são bem pronunciadas e ela está um arraso. Uma canga indiana arremata o figurino.
— Querem chinelos para combinar? Eu
trouxe uma mala cheinha. – Lais abre a mala azul sobre a cama e zilhões de chinelos
saltam às vistas.
— Sério, Lais, você tem problemas. – Nathi comenta, procurando um chinelo para
combinar com seu biquíni.
— Eu também quero. – Nina encontra um chinelo verde, quase da mesma cor da saída de banho.
Vestidas à caráter, as três seguem as
instruções do monitor-chefe e caminham
rumo a praia, descompromissadas. O passeio, todo de pedras brancas, é ladeado por
tulipas, jacintos, narcisos e várias outras flores que Nina não reconhece. O aroma é
inebriante e as garotas podem sentir a vida pulsando ao redor.
Lex está de costas e quando cutucado por
Gancho, se vira para olhar na direção em que o amigo aponta. Aos olhos do garoto, a cena transcorre em câmera lenta:
três beldades caminham, graciosamente,

pelo passeio de pedras brancas. Do lado


direito, Lais com seus cabelos cor de fogo e
um maiô para lá de provocante. Do lado esquerdo, Nathi com seu rabo de cavalo a
dançar e a camisa branca caída de lado,
revelando um biquíni azul brilhante e sardas para lá de sensuais. Caminhando ao meio, eis que vem Nina, trajando um biquíni
incrivelmente sexy, que deixa à mostra a barriga extremamente lisa, as pernas bem
torneadas e um par de seios fartos, daqueles capazes de mandar um cara para a lona.
Gancho se apoia sobre o ombro de Lex,
babando como um cão. Talvez o cara até
uivasse, se realmente fosse um cão.
As três estão sorrindo e conversando,
totalmente alheias aos olhos que as
acompanham até a praia. Quando finalmente alcançam as areias, arqueiam o corpo para frente, tirando os chinelos.
A brisa do mar sopra com mais força e Lex pode ver maiores detalhes do corpaço de
Nina. Ela leva a mão aos cabelos, sacudindo-
os. Quando retoma o caminho com o par de chinelos à mão, seus cabelos a seguem,
esvoaçantes e altamente sugestivos. Lex se imagina tocando aqueles fios, embrenhando-se naquele pescoço, sentindo o aroma daquela pele que o atrai como um imã
poderoso.

— Caras, estamos no paraíso. – Bola


comenta e toma um tapão na nuca, desferido por Gancho.
— Não ouse olhar para a Nathi, sacou?
— E nem pense em colocar os olhos na
Nina, entendeu? – Lex arremata, sentindo
um calor infernal subir pelas costas.
Bárbara está se mordendo de inveja,
ciúmes e algo mais. Engole Nina com o olhar e não percebe quando arranca sangue do
próprio lábio ao fincá-lo com os dentes.
Observa a reação de Lex à distância e o cara só falta cair de joelhos e rastejar.

Patético.

Isso não vai ficar assim, mas não vai mesmo!
Vinte e dois: O mergulho de inauguração Nina desliza os óculos de sol para o alto da cabeça. O olhar vagueia pela praia, detendo-se numa elevação distante, perfeita para
escalar. Talvez amanhã, em sua corrida
matinal, dê uma olhada mais de perto no
local.
Nathália não tira os óculos espelhados,
somente assim consegue fitar Gancho sem
que o garoto perceba. Eles quase ficaram
juntos no Aquarium, mas não rolou. Lex
precisava voltar para casa mais cedo e os dois foram embora, deixando Nathi

chupando dedo.


Lais não tem olhos para ninguém. Sua
mente está em São Paulo, relembrando os
beijos de Doc. Um suspiro saudoso escapa de sua garganta. É quando Camila e as outras garotas se aproximam.
— Ei, Lais, viu aquilo? – Camila sussurra, apontando a cabeça para as Kibis.
— Fio dental? É sério mesmo? – Lais comenta, boquiaberta.
— Essas três são completamente sem
noção. – Nathi entra na conversa. – Elas não percebem que são ridículas? Que os caras
tiram sarro e só querem aproveitar?
— Não. Elas não percebem. – Nina julga,
acertadamente.
— Muito bem, meninos e meninas! – o
megafone se faz ouvir. – Aqui temos bolas de vôlei, óculos de mergulho e até boias de
braços com formato de bichinhos. – o
monitor aponta dois baús na areia. – Com
esse mergulho inaugural, vocês estarão
sendo batizados por Poseidon e as férias na Ilha Inamorata oficialmente terão início.
Aproveitem sem moderação!
Garotos arrancam as camisetas e bermudas, correndo desesperados para o
mar. As garotas são mais comedidas e
precisam de mais tempo para tirarem todos
os acessórios e adentrar as águas cristalinas.
Nina deixa os chinelos na areia, dobra a
saída de banho e verifica se tirou o par de brincos. Caminha ao lado das outras meninas, sem qualquer ansiedade aparente.
A água está morna e o sol começa a descer no horizonte. A cena é linda, digna de um Oscar de melhor fotografia. Por um breve instante, Nina se sente una com o todo. Mas o momento passa e ela começa a se sentir

incrivelmente só, apesar de estar cercada de pessoas.


Os dois pés de Nina tocam a água. Ela
observa as pequenas ondas se formando,
suaves e contínuas. A brisa sopra com força, acariciando a pele. É então que seus olhos se encontram com os de Lex.
Ele está de bermuda e sem camisa. Nada
que Nina ainda não tenha visto, já que Lex adora se exibir. Mas ver assim tão de perto é a primeira vez.
Os cabelos cor de mel estão molhados e gotas salgadas escorrem pelo rosto, pescoço, tórax e braços. Lex chacoalha a cabeça e gotículas brilhantes voam para todos os
lados. Ele segura um par de óculos de
mergulho. Nina se detém, como se seus pés estivessem enraizados na areia.
— Não vai entrar? A água está ótima. – Lex se aproxima, vencendo a força das águas.
— Não com você. – ela se mantém na
defensiva, observando as amigas se
afastarem.
— Qual é, eu entro com você.
— Não. Fique longe, está bem?
O olhar de Lex vai descendo pelo corpo de Nina. Ela nota que a respiração dele está acelerada. As gotas de água o alisam de
maneira fascinante e por um mísero
segundo, ela gostaria de ser uma dessas
gotas. Um arrepio lhe percorre a espinha quando se dá conta desse pensamento.
— Tem medo de se apaixonar? – Lex murmura, como se estivesse lendo a mente dela.
— Rá, rá! Vá sonhando. – Nina, resoluta, se coloca a caminhar. Ficar ali parada com Lex não é uma boa opção.
O garoto não desgruda. Segue ao lado dela, provocando-a. Ele sabe exatamente como
irritá-la e ela está irritada por ele saber como irritá-la. Conseguiram entender?
— Ali é um ótimo lugar para mergulhar. –
ele aponta para algum local à esquerda. – Dá para ver uns peixinhos bem legais.
— Lex, me dê um tempo, tá legal? – a água já bate na altura da cintura. Apesar do mar estar calmo, Nina sente a correnteza

empurrá-la para cima de Lex. Hum, seria


mesmo a correnteza?
— Você é quem sabe. – ele suspira e
recoloca os óculos. Grita qualquer coisa para Gancho e mergulha, nadando para longe
dela.
Novamente a sensação de solidão, de
abandono. Nina fecha os olhos, buscando
entrar em foco. Lex não é nada para ela e nunca será. Então por que está se sentindo
assim? Por que essa vontade louca de que ele volte para encher o seu saco?
Lex não volta e ela se sente um lixo.

Vinte e três: O jantar de boas-vindas


Estamos agora à beira da piscina.
Candelabros presos nos galhos das árvores, criam uma atmosfera aconchegante e incrivelmente romântica. Uma grandiosa
mesa foi posta lindamente, com trinta e seis lugares marcados.
O primeiro dia da viagem chega ao fim. A
lua está alta no céu e a trilha sonora vem de um violão elétrico solitário e uma voz
melodiosa de um cara que não deve ter mais do que vinte anos.
Nina senta-se entre Nathália e Lais. Come uma salada de alface com tomates e morangos. A garota só percebe estar com

fome quando leva a primeira garfada à boca.


Lex está do outro lado da mesa, a
pouquíssimos centímetros de distância. Vez
ou outra seus olhares se encontram, mas ele não parece ser o mesmo Lex. O que está
havendo?
— Lançou mão da nossa estratégia do dia?
– Gancho sussurra no ouvido do amigo.
— Fiz o que você disse. Não elogiei o
biquíni nem o corpaço. Não foi nada fácil.
— E ela? – Gancho pergunta, um tanto

afoito pela resposta.


— Não sei dizer. Acho que ela ficou, tipo…
— Decepcionada? – ele se apressa em
arrematar.
— Essa é a palavra. Decepcionada.
— Bom, muito bom, meu camarada! –
Gancho dá um tapa dolorido no ombro de
Lex. – Vamos levar essa estratégia adiante até o jogo de amanhã.
O jantar transcorre sem incidentes e até
Bola está tranquilo. A única traquinagem do dia foi jogar na piscina todas as cuecas de Nando e Edgard, seus colegas de quarto. Mas

o garoto foi pego, como sempre. E foi ele quem caiu na água, de roupa e tudo, para


resgatar as tais cuecas.
— Certo, pessoal. Depois do jantar,
teremos torneios de poker e sinuca na sala de jogos. Espero todos vocês por lá. –
o
monitor lança o convite.
Nina dispensa a sobremesa. Há uma
urgência em ficar a sós para pensar na vida.
Nathália e Lais se entreolham, preocupadas.
Nina jura que está tudo bem e segue para a praia, sozinha.
— O que acha que está rolando? – Lais
debate com Nathália, observando Nina
caminhar entre o passeio florido.
— Algo que eu já suspeitava. – Nathi
sustenta uma expressão endurecida.
— Acha que ela está, tipo, ela está…? – Lais se sobressalta com a possibilidade.
— Sim. Acho que ela está começando a se
apaixonar.
— Não! Isso não pode acontecer! – Lais arregala os olhos, chacoalhando Nathália
pelos ombros. – Não podemos deixar!
— O problema nessa história toda é que eu acho que a Nina ainda não percebeu o que
está havendo.
Lex, sem camisa como sempre, observa
Nathi e Lais de longe. Procura por Nina entre os alunos do Prisma e não a encontra.

Gancho também não a viu.


— Ela deve ter ido para o quarto. – o pirata se apoia num taco de sinuca, aguardando a vez de jogar.
— Vou procurar por ela, beleza? – Lex
avisa.
— Man, lembre-se do que conversamos.
Mantenha a estratégia. – Gancho aponta o
taco para o nariz do amigo.
— Beleza, Cabeçudo.
O garoto demora um bocado para localizar
Nina. Quando a vê, sozinha, sentada na areia

da praia, algo de muito ruim toma conta de seu peito. É um sentimento estranho, quase de infelicidade. Lex ignora a sensação e se encaminha para o local onde ela está.


Nina não percebe a aproximação. O uivo da brisa é alto e contínuo. Seus cabelos estão presos por um elástico colorido, esvoaçando com o vento. Veste um short preto e uma
bata branca, caída na lateral do ombro,
revelando parte do colo e das costas. O olhar se perde em algum lugar do oceano.
Vazio.
Nina nunca havia sentido o vazio antes.
Nem quando seu primeiro namorado partiu
sem dizer um tchau. Nem quando Bruno a
enganou. Até o dia de hoje, ela não havia se deparado com essa sensação.

Mas o vazio está ali e incomoda. Sufoca-a de forma intermitente. Um desespero toma


conta de Nina, uma ânsia que ela não sabe de onde vem. Algo importante está faltando,
algo essencial que preencha o vazio.
Lex senta-se ao seu lado, sem dizer
palavra. Nina não se vira para ver quem é e nem precisa. Já reconhece o cheiro dele a distância.
Abraçada aos joelhos, Nina permanece
calada por um longo tempo. Além do ruído da brisa do mar, pode ouvir a respiração
cadenciada de Lex ao seu lado. Ela não tem nada para dizer, está com preguiça até de pensar. Mas, por incrível que pareça, o silêncio não incomoda. Ele é bem-vindo para ambas as partes envolvidas.

Após um tempo que não sei determinar,


Lex corta o silêncio com sua voz rouca e um tanto preocupada:
— O que está havendo?
— Hum? – Nina está perdida em seu vazio
interior, apenas existindo.
— O que está acontecendo com você?
Nunca a vi assim. – Lex refaz a pergunta.
— Não está acontecendo nada. – Nina abraça as pernas com mais força.
— Você está triste. – ele conclui.
— É só… deve ser TPM.
— TPM? Isso é um pleonasmo. – Lex ri da própria piada, mas ao perceber que Nina nem se move, fica sério novamente. –

Desculpe.


— Você tem razão. Não precisa se
desculpar.
Ok, parem tudo. Estrelas: parem de piscar.
Mundo: pare de girar. Tempo: pare de correr agora mesmo!
— Está concordando comigo? Está doente?
Com febre? – Lex leva a mão à testa de Nina.
Antes de tocá-la, ela gira a cabeça para
encará-lo. O garoto recua, instintivamente, temendo um tapa, um soco, um cuspe, ou
qualquer coisa que envolva violência física.
Nada disso acontece.
— O que está fazendo aqui, Lex? Tem um
torneio de poker rolando lá dentro. Por que não vai até lá? – o tom de Nina é um poço
sem fundo.
— Escute, quer dar uma volta? – Lex faz
uma pausa para pensar. – Acabo de me dar
conta de que não sei nada sobre você.
Estudamos juntos há quanto tempo? Seis
meses? – Nina confirma com a cabeça. –

Pois, então, só sei que você curte Creedence, odeia pessoas que usem cuecas e é uma CDF.


— Lex, me poupe dos seus jogos essa noite, tá legal? Eu realmente não estou no clima, não estou a fim de me esforçar para
humilhá-lo.
— Pensei que era natural, que não
precisasse se esforçar para me humilhar. –
Lex pega um punhado de areia, observando–
a escapar por entre os dedos.
— Só essa noite, está bem? Prometo que
amanhã voltarei a odiá-lo com todas as
minhas forças.

Lex deixa o restante da areia se esvair.


Bate uma mão na outra e se levanta num pulo. Encara Nina antes de lhe estender a mão.
— Uma volta na praia, sem jogos, sem
aposta. – Lex aguarda, na mesma posição.
— Por que está fazendo isso? – ela hesita.
— Venha.
Contrariando todos os avisos mentais que
gritam “perigo extremo”, Nina aceita a mão de Lex. Enquanto levanta, livra-se da areia no short e nas pernas, seguindo-o até a beira do mar.
Vinte e quatro: Um passeio à beira mar A água vem e vai, molhando os pés de Nina e Lex. Ela carrega os chinelos com uma das mãos e a outra está no bolso.

Os dois
caminham preguiçosamente, apenas ouvindo suas respirações. O ruído da brisa finalmente dá uma trégua.


Nina estranha suas sensações. Ao invés de se sentir tensa com a situação, está bem à
vontade, como se caminhasse ao lado de um velho amigo. Lex se abaixa e pega uma
concha fechada, jogando-a de volta ao mar.
— Qual faculdade vai fazer? – ele pergunta, limpando as mãos na bermuda.
— Medicina. – ela responde, um tanto
dispersa.
— Sério? Vai se especializar em quê?
— Cardiologia.
Lex não consegue segurar o riso. Nina percebe, mas não se altera. Sabe em que ele está pensando e torna isso público.
— Acha que não tenho coração. É isso, não é? – o tom de Nina soa um tanto deprê.
— É claro que você tem coração. Talvez ele só esteja meio congelado. – Lex tenta
guardar o sorriso, mas é mais forte do que ele. O garoto aguarda uma reação de Nina, qualquer uma. Mas a reação não vem e ela demora um pouco a falar.
— E você? O que vai fazer?
— Música. Apesar do meu velho querer muito que eu assuma seus negócios.
— O que seu pai faz? – Nina tira o elástico do cabelo, soltando as madeixas.
— Ele compra e vende empresas. Falidas,

na maioria. Reestrutura o negócio e depois vende por um preço exorbitante. Não quero isso para mim.


— Você é bom. Digo, tem uma voz incrível
e manda muito bem no violão.
— Você acaba de me elogiar? Cadê o
cinismo? – Lex toma a frente de Nina,
encarando-a nos olhos. – Certo, você foi
abduzida, só pode ser.
— Lex, estou sem forças para cinismo essa noite. Só isso, nada demais. E não, eu não fui abduzida. Acha mesmo que eu deixaria um extraterrestre me zoar? Pense bem.
— O ET iria se dar bem mal.

Nesse momento, cercados por um cenário


cinematográfico, com a lua e as estrelas
como testemunhas, Lex entreabre os lábios, deixando um suspiro escapar. Algo naquela garota mexe com ele de uma maneira
diferente de todas as outras. Suas mãos são tomadas por uma urgência em tocá-

la, uma
pressa que ele não consegue controlar. Lex toma coragem, elevando uma das mãos em


direção ao rosto de Nina. Ela aguarda, sem se mover.
— Ei, vocês dois!
Observação 1: Sempre tem um mala para
atrapalhar momentos perfeitos.
Observação 2: Poxa, é sério mesmo? Não dá para voltar depois?
Margareth, a troncuda professora de
educação física se aproxima, aos pulos. A mão de Lex recua, no susto.
— O que estão fazendo aqui sozinhos? –
ela finalmente alcança os dois. – Nina! Você e o Lex juntos? Ele a obrigou a isso? – a professora une as sobrancelhas, segurando Nina pelo braço.
— Qual é, Mags, só estamos conversando. –
Lex tem essa mania de dar apelidos a todas as pessoas.
— Garoto, você me irrita. – a professora
vocifera, entredentes. – Nada de passeios noturnos, já conversamos sobre isso.

Se não querem ir para a sala de jogos, irão para seus respectivos quartos, estamos


entendidos? Não estou a fim de voltar com nenhuma adolescente grávida para casa.
— Não iria acontecer nada. É como o Lex
disse, só estávamos conversando. – Quem
Nina quer enganar? A si mesma, obviamente.
Essa não era apenas uma conversa, Lex
estava jogando o tempo todo. Ele iria beijá-la e a trouxa cairia, como uma pata manca. Ao se dar conta da realidade, Nina finalmente acorda do estranho sonho no qual estava
metida.
— Que seja. – Margareth, com seu bafo de
café e dentes amarelados, mira bem o rosto de Lex, apontando o dedo indicador como se fosse atirar. – Estou de olho em você, garoto.
— Mags, eu não fiz nada. – Lex levanta os braços, desacreditando na reprimenda.
— Coloque uma camiseta, moleque, pelo
amor de Deus! Venha, Nina, eu a acompanho até o quarto.
E assim, Nina é escoltada até o seu quarto e um resignado Lex vai para a sala de jogos.
Contrariando todas as projeções, o garoto perde todas as partidas no jogo de poker.
Vinte e cinco: Antes do desafio
Bárbara confere as fotos que já conseguiu de Nina e Lex. Suzana pluga o celular no
computador, descarregando os vídeos.
Ana Paula está no banheiro, com o chuveiro ligado. Na verdade, ela está
vomitando o café da manhã e não quer que
ninguém a ouça. Nem comentarei o fato de
tão absurdo que é.
— Droga, não temos nada realmente quente. – Bárbara deixa a câmera de lado.
— Escute, estou de saco cheio de ficar
espionando por entre arbustos. Poxa, vamos aproveitar a viagem! – Suzana suspira
tristemente, mirando o céu azul do lado de fora do dormitório.
— Não viemos passear. Viemos para nos
vingar. – Bárbara relembra. – E o nosso informante? Alguma novidade?
— Nada ainda. Você vai mesmo cumprir o
que prometeu a ele? Um beijo? – Suzana faz cara de nojo.
— É claro que não! Surtou? – Bárbara leva o dedo à boca, como se fosse provocar o
vômito. – Olhe, se não fosse a bafuda da
Margareth, nós teríamos um bom material
em mãos. O Lex estava prestes a beijar a
vagaba e então, a coisa poderia evoluir para um tirar de roupas e tal.
— Babi, deixe essa vingança para lá.
— Nem pensar! Se esqueceu da nossa humilhação? Fala sério, Suze! – Bárbara se levanta num pulo, colérica.
— Não, eu não esqueci.
— E tem outra: se não fosse o informante
que descolei, nós não saberíamos que você e a Ana são apostas. Eu salvei vocês duas, de novo. – Bárbara joga na cara de Suzana, de forma abrasadora.
— É, eu sei. – Suze abaixa a cabeça,
submissa.
— Então, nada de desistir da vingança!
— Tudo bem, você tem razão.
— Eu sempre tenho razão!

***
Nina, Lais e Nathália estão deitadas nas espreguiçadeiras da piscina em companhia
das outras garotas. O sol queima a pele com violência e Nina passa uma segunda camada de protetor solar.
Se vocês tivessem visto a garota na hora
em que acordou, vislumbrariam olhos brilhantes em vermelho sangue e um sorriso perigoso nos lábios. Sim, Nina Albuquerque está de volta! Adeus deprê!
— O que aconteceu ontem? – Nathi
pergunta, fechando o livro. – Quando
voltamos para o quarto, você já estava
dormindo.
— Sei lá. – Nina dá de ombros.
— Hormônios são uma merda. – Lais pega um chapéu da bolsa, ajeitando-o sobre a
cabeça.
— Não são hormônios. – Nathália discorda.
– Você está sucumbindo, Nina.
— Sucumbindo a quê? – o mau humor de
Nina dá as caras e uma sombra transpassa
seu olhar. – O que acha que está
acontecendo, dona Sabe Tudo?
— Não me ataque, não sou sua inimiga. –
Nathália, apesar de conhecer Nina há apenas seis meses, sabe lidar bem com o

gênio
explosivo da amiga.


— Desculpe. – Nina relaxa os ombros e se
desarma. – Não sei o que aconteceu ontem.
Eu fiquei um pouco triste, sem qualquer
motivo.
— Tem a ver com o Lex, não tem? – Lais se levanta, sentando-se aos pés de Nina. – Pode contar para nós, somos suas amigas.
— Não tem nada a ver com o Lex. O cara é
um babaca presunçoso e arrogante.
— Tome cuidado, está bem? Estamos
preocupadas com você. – Lais franze os lábios, observando a reação de Nina.
— Eu sei, prometo me cuidar.
Nesse momento, um bando de garotos sem
noção começa a correr em direção à piscina.
Atiram-se como bombas para dentro da água.
Apesar de terem se protegido, as garotas
ficam ensopadas.
— Seu bando de idiotas! – Nathi vocifera, segurando o livro molhado em mãos.

– Vocês
não tem nada melhor para fazer da vida, seus ridículos?


— Ei, Nathi, relaxa. – Gancho, com uma baita facilidade, ergue o corpo e sai da
piscina.
— Poxa, meu livro. – os olhos de Nathi se umedecem.
— Desculpe, Nathi. – Gancho se aproxima,
arrependido pelo salto mortal. Joga a franja de lado no maior charme. Nathi deveria estar babando na cena, mas a verdade é que está muito puta por causa do livro. – Escute,
quando voltarmos para casa, lhe dou um
novinho.
— Não quero um livro novo, quero
continuar a leitura, pô. E olha só! – ela suspende o livro e as páginas pingam, como lágrimas.

— Que livro é esse? – Gancho o toma das


mãos da garota. – Caraca, ou você tem muita sorte ou estamos em sintonia.

Peguei esse


emprestado com o meu irmão, ainda nem comecei a ler.
— Brincou? Você está com esse livro aí? –
os olhos de Nathália brilham e um pequeno sorriso surge em seus lábios retesados.
— Vamos lá no meu quarto que eu pego.
— Sabe que não posso entrar na ala dos
meninos. – Nathi leva as mãos à cintura,
batendo um dos pés no chão,
cadenciadamente.

— Tudo bem, subo agora e pego para você.


Só me descole uma toalha, beleza?
— Valeu, Gancho. – Nathi alcança a toalha e a coloca sobre os ombros do cara.
Nina e Lais estão abafando risadinhas.
Nathália gira nos calcanhares, com cara de quem comeu e não gostou.
— O que foi? – ela bufa.
— Precisa de um babador? – Lais dá uma
gargalhada.
— Humf! – Nathi se senta na
espreguiçadeira e finalmente descontrai, contagiada pelas amigas.
***
Quando o almoço chega ao fim, o monitor
sobe em uma cadeira, limpa a garganta e faz a pergunta, como um anúncio:
— Soube que hoje teremos um desafio de
tênis, é isso mesmo galeraaaaaa?
— Yeahhhhhhhhhhhhhh!!!! – a turma grita
em resposta.
— Nesse caso, a Caça ao Tesouro ficará
para amanhã. – o monitor busca Lex e Nina entre os estudantes. – Vocês dois estão
prontos? O jogo começará às quatro da tarde.
Ambos fazem que sim com a cabeça. Seus olhos se cruzam e Nina, com o indicador,
passa o dedo em seu próprio pescoço como
quem diz: “Vou degolar você”. Lex solta uma gargalhada de deboche no ar, feliz por Nina ter voltado ao seu estado normal.
Vinte e seis: O jogo de tênis
Quatro da tarde.
Um dos monitores se aproxima de Gancho
e Lex, trazendo bolas de tênis e raquetes sobressalentes. Despeja tudo sobre um banco localizado na lateral da quadra e dá as
instruções:
— Os monitores desafiaram os professores
para um jogo de vôlei de praia. E, como vocês estarão aqui, o jogo vai rolar agora.
Ficarão de boa?
— Com certeza. – Gancho pega uma das
bolas e joga para o ar. – Fique tranquilo.
— Precisarão de um juiz, juízes de linha e boleiros. – o monitor continua.
— Já está tudo acertado e eu serei o juiz. –
Gancho pega mais duas bolas e dá uma de
malabarista.
— Certo. Qualquer quebra pau, você me
chama. Bom jogo para vocês. – e batendo

nas costas de Lex, o monitor sai andando.


Nina, com a raqueteira pendendo do
ombro, cruza com o monitor que lhe deseja um bom jogo. Ela responde, afirmando que
acabará com Lex e o monitor solta uma
sonora gargalhada, antes de retomar o seu caminho.
Seguida pelas garotas do Prisma, com
exceção das Kibis, Nina traja um vestido lilás da Nike, desses bem curtinhos, especiais para jogar tênis. Por baixo, está usando um biquíni rosa. Nos pés, os tênis desenvolvidos para saibro são tão brancos que chegam a
ferir os olhos. Nos pulsos, Nina sustenta duas munhequeiras brancas e na cabeça, uma
testeira também branca.
Conforme vai passando, os garotos lhe
batem às costas, desejando sorte. Nina fará melhor, jogará como se sua vida dependesse disso. E depende, se pararmos para analisar.
Ela entra em quadra e não se digna a olhar para o adversário. Os estudantes tomam
assento na pequena arquibancada, buscando
o melhor ângulo para assistirem ao confronto do ano.
Nina abre o zíper da raqueteira, puxando
duas raquetes lá de dentro. Analisa ambas, pesando-as de forma impassível.

Escolhe a Babolat por ser mais leve e guarda a outra.


Confere as cordas e o overgrip. Tudo certo, aparentemente.
Nathi e Lais estão organizando o banco de Nina, deixando duas toalhas de rosto sobre a bancada e conferindo o estoque de água no isopor.

Só então Nina se permite olhar para Lex.


Ele está usando um short azul, meias
soquete e um Nike preto detonado para
saibro. Como não trouxe raquetes, confere as trazidas pelo monitor, optando por uma da marca Wilson. O cara está sem camisa, para variar.
— Não vai jogar sem camiseta, vai? – Nina vence a distância que os separa e o encara de frente.
— Por que não? Ou meu tórax malhado vai desconcentrar você?
— Rá! Seu tórax depilado vai me fazer rir, seu babaca. – Nina arranca risadas de Nathi e Lais. Até Gancho curtiu a tirada da garota.
— Vá rindo. Lembre-se de que quem ri por
último, ri bem mais gostoso.
— Coloque a camiseta, Lex. – Gancho joga a vestimenta por sobre o ombro do amigo.
Ele a veste. É branca, cavada e deixa o cara incrivelmente sexy.
— Que vença o melhor. – Lex estende a
mão para Nina, lançando uma piscadela no
ar.
— Ou seja: eu. – Nina rebate com força e
olhem que o jogo ainda nem começou.
Gancho assume posição. Nando e Edgard
seguem para a linha, serão os juízes
assistentes. Bola e Hulk estão atrás dos

jogadores, trabalharão como boleiros durante o jogo.


Nina perde no cara ou coroa e a bola é do adversário. Ela então escolhe o lado da quadra. O sol está às suas costas, o que
facilitará muito a visão de jogo. Lex se
posiciona, verificando as cordas da raquete uma última vez.
— Certo. Terão dez minutos para se
aquecerem. Competidores, batendo bola! –
Gancho autoriza.
O bate e rebate é tranquilo, como deve ser.
Na arquibancada, cabeças vão para lá e para cá, num movimento robotizado e hipnótico.

As mãos de Nina suam mais do que o normal e ela busca o autocontrole através da


respiração abdominal, algo que aprendeu nas aulas de judô.
Nina não deveria desviar a atenção da bola, mas vez ou outra, ela se pega olhando para os olhos do adversário. Ele é bom estrategista? Será que possui alguma falha da qual ela possa se aproveitar? Bem, Nina
precisará esperar o jogo começar para detectar possíveis falhas no jogo de Lex.
Aproveitar-se dos erros do adversário é uma ótima estratégia. Ainda assim, ela acredita que o ataque é sempre a melhor defesa.
Quando o aquecimento chega ao fim, Nina
precisa urgentemente de um gole d’água.
Tira o elástico do cabelo, prendendo-o
novamente, bem firme dessa vez. Nathália e Lais acenam da arquibancada e Nina
permanece inalterada, totalmente
concentrada.
Gancho conversa com os jogadores deixando claro que as regras do tênis são válidas. Serão 3 sets de 6 games cada.

O
pirata jura a Nina que não vai roubar.


Lex respira fundo, batendo a bola no chão.
Ele mira a adversária, lançando um beijo no ar. Nina finge cuspir e esmagar o beijo com a ponta do tênis. O cara não se aguenta e cai na risada.
Nina arqueia as costas e ginga para lá e para cá, aguardando. Lex continua batendo a bolinha amarela no chão. Uma, duas, três batidas. Seus olhos vagueiam pela
arquibancada e se detém em Bárbara. Ela
acena com a cabeça e a máquina fotográfica balança em seu pescoço cheio de colares.
Concentração, Lex!
Certo, o garoto volta sua atenção para a
bola. Esse movimento de vai e vem da pelota o mantém focado, desanuviando os pensamentos de qualquer outra coisa que
não seja o jogo que está prestes a ser
iniciado.
Lex está pronto. Agora é para valer.
Ele lança a esfera amarela para cima e
respira fundo ao mesmo tempo. Quando a
bolinha começa a cair, o garoto solta o ar de uma só vez, batendo com força, colocando a bola em jogo.
O primeiro set finalmente começa.
Nina recebe e rebate de leve. Lex devolve.
Ela precisa correr, mas alcança a bola e
manda uma cruzada. O garoto é pego no
contrapé e Nina vibra ao garantir o primeiro ponto da partida.
Lex se posiciona e bate a bola no chão
novamente. Segundo saque. Preciso. Nina
rebate mandando a bola para o fundo da
quadra. Ele devolve. Ela rebate. Ele devolve.
Ela rebate.
O ponto é disputado a raquetadas e Lex

vira o jogo mandando uma bomba. Juro, nem vi a cor da bola. Mas Nina vê e com uma


velocidade surpreendente, se estica toda e recupera, devolvendo uma bola alta para a quadra de Lex.
O garoto, juntando toda a sua força e fúria, dá uma cortada fenomenal, um smash
perfeito que tira Nina da jogada. Ponto para Lex.
É nesse clima de disputa acirrada que o
game continua. Nina salva bolas incríveis e Lex possui uma técnica apurada.
Fica difícil
definir um vencedor, pois nesse ritmo, tudo pode acontecer.
Nina joga a raquete longe quando Lex
acerta um poderoso e cheio de efeito topspin.
O garoto ri, deixando Nina desconcertada.
Ela mostra o dedo do meio e recebe uma
advertência do árbitro por abuso de
equipamento. Pela primeira vez na partida, Nina não tem certeza de que poderá vencer Lex.
Ele inicia o quarto round – sei que não é luta livre, mas estamos bem próximos disso –
com um ace que desconcentra Nina. Antes que destrua uma nova raquete, ela trinca os dentes e cerra os punhos em torno da empunhadura, enfurecida. Ela precisa ganhar esse jogo, custe o que custar.
A garota se concentra quando o segundo
serviço de Lex chega, cheio de efeito. Nina

não consegue virar o jogo e faz um approach fora de hora. Por sorte, o voleio é perfeito e Nina converte.


Não está nada fácil, vou dizer isso a vocês.
Nina sua em bicas. A camiseta de Lex está colada ao corpo e o sol começa a dizer
“tchau, galera, até amanhã”. Mas o ocaso
está tão demorado que, sinceramente,
acredito que o astro esteja doido para saber quem será o vencedor da partida.
O vôlei entre monitores e professores já
terminou. Deram uma passada na quadra de
tênis antes de se dirigirem para os quartos.
Esse jogo de vida ou morte promete avançar até a noite.

Entre backhands, topspins, forehands, smashs, volleys, aces e quebras de serviço, o jogo se desenvolve ferozmente. Se Lex vencer o próximo game, será o vencedor.


A água desce queimando pela garganta
ressequida de Nina. O restante da água, ela joga na nuca e molha a testa. Nathi está
fazendo um curativo no dedão da amiga, que está bem esfolado. Lex, do outro lado da
quadra, não está muito diferente. Ele luta para respirar e se manter em pé. O

desafio já dura quase duas horas e seus músculos estão gritando por descanso.


— É a hora da verdade. – Gancho
massageia os ombros tensos de Lex.
— Se eu não ganhar agora, não conseguirei continuar jogando. Teremos que deixar para amanhã, sério. – Lex geme quando Gancho afunda os dedos em seu ombro direito.

— Essa partida termina hoje, beleza?


Concentração, meu camaradinha!
Voltando ao outro lado da quadra, Nathi
arremata o curativo no dedão de Nina. A
garota está um trapo, um lixo ambulante.
— Eu vou perder, não acredito. – ela leva a mão à testeira, arrancando o acessório.
— Não perderá coisa nenhuma. Foco, Nina.
Entre nessa quadra para ganhar! – Lais
incentiva.
— Lei da atração. Busque forças sei lá eu onde e acabe com o Lex. – Nathália estende uma toalha para Nina. – Você precisa vencer, entendeu? Diga que

entendeu!


— Certo, entendi.
Nina e Lex se encaram. Os holofotes da
quadra já estão acesos. As pessoas começam a se inflamar nas arquibancadas com a
possibilidade do fim do jogo. Para entreter essa turma, a cozinha do hotel descolou
baldes de pipoca e refris trincando de tão gelados.
Nina sacode os braços, passando a raquete de uma mão à outra. Ela precisa ganhar,
precisa! O acordo foi que se Lex perdesse, a escravidão seria imediata. E se Lex ganhasse, bem, nesse caso, o beijo também seria imediato, na frente de todos. Só de pensar nisso, Nina xinga baixinho.
O jogo recomeça.

A cada bola que rebate, Nina sente que o corpo vai se quebrar ao meio. A cabeça lateja, os braços estão queimando e o dedo esfolado incomoda muito.


Lex solta o braço e manda uma bola curva, daquelas indefensáveis. Nina não deixa
barato. Se joga no chão e recupera, mas não é o suficiente. Quarenta a quarenta.

Iguais.
Nina precisa da vantagem a qualquer custo.


O jogo continua. O ar está tenso, úmido e raios riscam o céu. Vem chuva por aí.

Nina manda uma paralela veloz, mas Lex não


deixa por menos, devolvendo de bate-pronto.
Bate……………………….Rebate
Bate……………………….Rebate
Bate……………………….Rebate
Bate……………………….Rebate
Bate……………………….Rebate
Ai, cansei. E não sou só eu. Nina hesita
quando a bola volta para sua quadra, as
pernas não respondem. Lex está com a
vantagem e nem assim comemora, ele não tem forças para isso.
E Gancho quer jogo!
Os boleiros já foram trocados três vezes.
Os caras estão mortos, literalmente falando.
A galera na arquibancada está tensa. Alguns estudantes já foram e voltaram e o

jogo
desenrola.


A possibilidade do match point deixa Lex desperto. Nina respira de forma rápida e
imprecisa. Ela está apavorada! Precisa tirar a vantagem de Lex ou então, game over.
A pequena bolinha amarela apanha muito!
De lá para cá, de cá para lá, de lá para cá.
Lex bate colocado e Nina não deixa barato, virando o jogo a todo o momento.

Vai e vem, vem e vai, vai e vem e então, Lex avança e ao invés de dar uma porrada na bola, dá uma deixadinha, um drop shot.


Acabou, galeraaaaaa! Lex é o vencedor!
Vinte e sete: Pagando a aposta
Finalmente a chuva prometida despenca dos céus, mas ninguém arreda o pé da

quadra, todos aguardam ansiosos pelo


desfecho do desafio. E que disputa meus
amigos!
Lex luta em busca de ar. Não ousa
comemorar a vitória para não piorar ainda mais a situação. Imagina que Nina esteja
furiosa e não quer acordar o furacão que
existe dentro dela.
Do outro lado da quadra, a garota olha para o nada, apática. Seus braços estão caídos rentes ao corpo, a cabeça da raquete tocando o saibro. Inconformada, ela solta o
equipamento e arranca as munhequeiras.
A chuva é fininha e morna, mas não lava a alma de Nina. Desconsolada, ela mira as
mãos trêmulas após o vigoroso esforço. Não se conforma por ter perdido o jogo.
A turma invade a quadra, cobrando o
pagamento da aposta. Nina ouve o
murmurinho lá longe, como se estivesse a quilômetros de distância. Bem que ela gostaria de estar.
Nathália estende uma garrafa d’água.
— Não acredito que perdi. – Nina solta a
frase num tom de desabafo.
— Você lutou até o fim, nunca vi um jogo
desses na minha vida. – Lais toca o ombro da amiga, consolando-a.
— Beba essa água. É para dar coragem. –
Nathi incentiva.
— Nathi! – Lais estressa. – Você não está ajudando!
— A Nathi tem razão. Agora terei que
pagar a aposta. – sem parar para respirar, Nina mata todo o conteúdo da garrafa.

Ainda não teve coragem de olhar para Lex. Sente como se o mundo estivesse em suspenso,


aguardando. Bem, se o mundo está
aguardando eu não sei, mas eu e toda essa galera estamos!
— Acabe logo com isso. – Lais pega a garrafa vazia das mãos de Nina. – Vá lá e pague logo essa aposta.
Vencida, destroçada e humilhada, Nina se

põe a caminhar, cabisbaixa. Lex do outro


lado da rede, joga a cabeça para trás e deixa a água da chuva eliminar o excesso de suor do rosto. Ele sente como se tivesse sido atropelado por um Hummer.
Nina se aproxima e lhe estende a mão,
como adversários costumam fazer. O
cumprimento de Lex é frouxo. Assim como
Nina, ele também está com todos os
músculos enfraquecidos.
— Nunca vi ninguém jogar como você. –
Lex afirma, apoiando-se no ombro de

Gancho.
— Não foi o suficiente. – ela faz uma força descomunal para não sair correndo.

Bem,
como poderia? Suas pernas não obedeceriam ao comando “corra, agora”.
— O que querem fazer? A aposta precisa ser paga e a galera está impaciente. –
Gancho limpa a garganta, temeroso com a
reação de Nina.
— Aposta é aposta. E eu costumo cumprir
minha palavra. – Nina deseja que um raio
lhe caia na cabeça nesse exato momento.
— Tem certeza disso? Olhe, se você não

quiser, por mim tudo bem. – Lex se apressa em dizer.


— Eu tenho palavra, Lex. Fiz a besteira de apostar, não foi? Agora cumprirei minha
Catálogo: ahihijpg


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