Da violncia



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ARENDT, Hannah. Da Violência
biológico pela fraqueza” (meu grifo). As revoluções foram, portanto, dirigidas 

contra os poderes estabelecidos “apenas aparentemente”. O seu verdadeiro 

resultado “foi conferir ao Poder um novo vigor e altivez, destruindo os obstáculos 

que há muito vinham obstruindo o seu desenvolvimento

101

”. Quando Fanon fala 



da “loucura criativa” presente em toda ação violenta, está ele ainda pensando 

dentro dos moldes desta tradição

102



Nada, em minha opinião, poderia ser teoricamente mais perigoso do que a 



tradição do pensamento orgânico na política de acordo com o qual o poder e a 

violência são interpretados em termos biológicos. Conforme são compreendidos 

esses termos hoje em dia, a vida e a sua suposta criatividade são o seu 

denominador comum, e assim a violência é justificada em termos de criatividade. 

As metáforas orgânicas as quais fermearam toda a nossa discussão acerca de 

questões políticas, especialmente das manifestações políticas – a noção de “uma 

sociedade enferma”, da qual as manifestações são um sintoma, da mesma forma 

que a febre é sintoma de uma infecção – irão apenas promover a violência no final 

das contas. Assim, o debate entre aqueles que propõem meios violentos para 

 

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restaurar “a lei e a ordem” e aqueles que propõem reformas não-violentas começa 

a parecer, ameaçadoramente, como uma discussão entre dois médicos que 

debatem as vantagens relativas do tratamento cirúrgico, sobre o tratamento 

clínico do paciente. Quanto mais doente estiver o paciente, maior a probabilidade 

de que o cirurgião tenha a última palavra. Ademais, enquanto falarmos em 

termos não-políticos, e não biológicos, os partidários da violência poderão apelar 

para o fato inegável de que no seio da natureza a destruição e a criação são 

apenas dois lados do processo, de modo que a violência coletiva, 

independentemente de sua atração inerente, poderá parecer um pré-requisito 

para a vida coletiva da humanidade, tão natural quanto a luta pela sobrevivência 

e a morte violenta para a continuação da vida no reino animal. 

O perigo de se deixar levar pela plausibilidade das metáforas orgânicas é 

particularmente grande onde esteja envolvido o problema racial. O racismo, seja 

branco ou negro, está impregnado de violência por definição por objetar contra 

fatos orgânicos naturais – uma pele branca ou negra – que não poderiam ser 

mudados de modo algum; tudo o que se pode fazer, jogadas as cartas, é 

exterminar os donos dessas peles. Q racismo, distinto da raça, não é um fato da 

vida, mas uma ideologia, e as ações a que leva, não são ações reflexas, mas atos 

deliberados baseados em teorias pseudocientíficas. A violência nos conflitos 

raciais é sempre assassina, não sendo, porém “irracional”; é a conseqüência 

lógica e racional do racismo, que não se resume em alguns preconceitos vagos de 

lado a lado, mas sim em um sistema ideológico explícito. Sob a pressão do poder; 

os preconceitos, distintos dos interesses e das ideologias, poderão recuar, 

conforme vimos acontecer ao movimento pelos direitos civis, que alcançou grande 

sucesso e que era inteiramente não violento. (“Por volta de 1964 (...) a maior parte 

dos americanos estavam convencidos de que a subordinação, e a um grau mais 

baixo, a segregação, estavam errados”.)

103


 Porém, enquanto os boicotes, 

demonstrações e sit-ins obtiveram sucesso na eliminação de leis discriminatórias 

no Sul, mostraram-se eles um total fracasso e tornaram-se contraproducentes ao 

encontrarem as condições sociais nos grandes centros urbanos – as grandes 

necessidades dos guetos negros de um lado, e os interesses supremos dos grupos 

brancos de baixa renda relativos à moradia, educação, etc., do outro lado. Tudo o 

que essa maneira de agir fez, foi trazer a público estas condições, trazê-las até as 

ruas, onde o fato de serem os interesses tão irreconciliáveis foi perigosamente 

exposto. 

 

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Mas até mesmo as manifestações de hoje em dia, manifestações negras, e a 

violência em potencial da reação branca não são ainda manifestações de 

ideologias racistas e a sua lógica assassina. (As manifestações, conforme 

afirmativa recente, são “protestos articulados contra queixas genuínas”

104



realmente a restrição e a seletividade – ou (...) racionalidade figuram certamente 



entre as suas características mais importantes”.

105


 E a mesma coisa aplica-se ao 

fenômeno da reação, o qual, contrariamente a todas as predições, até agora não 

se caracterizou pela violência. E a reação perfeitamente racional de certos grupos 

de interesse que protestam furiosamente contra a idéia de serem escolhidos para 

pagarem todo o preço das políticas de integração mal planejadas de cujas 

conseqüências seus autores facilmente escapam). 106 O maior perigo vem de 

outra direção: uma vez que a violência exige sem ser justificada, uma escalada da 

violência nas ruas poderá fazer surgir uma ideologia verdadeiramente racista 

para justificá-la. Talvez o racismo negro, tão ruidosamente evidente no 

“Manifesto” de James Forman, seja mais uma reação às manifestações caóticas 

dos anos passados do que a sua causa. Poderia ele, certamente, provocar uma 

reação branca realmente violenta, cujo maior perigo seria a transformação dos 

preconceitos brancos em uma ideologia racista plenamente desenvolvida para a 

qual “a lei e a ordem” se transformariam em uma mera fachada. Nesse caso ainda 

improvável, o clima da opinião pública no país poderia deteriorar-se até o ponto 

em que a maioria dos seus cidadãos estaria disposto a pagar o preço do terror 

invisível de um Estado policial em troca de ordem e segurança nas ruas. O que 

temos agora, um tipo de reação da polícia, bastante brutal e altamente visível, 

não é nada do tipo. 

O comportamento e os argumentos nos conflitos de interesse não são 

notórios por sua “racionalidade”. Nada, infelizmente, tem sido tão 

constantemente negado pela realidade como a crença do “interesse próprio 

esclarecido”, em sua versão literal assim como em sua variante marxista mais 

sofisticada. Alguma experiência mais alguma reflexão ensinam, ao contrário, que 

ser esclarecido vai contra a própria natureza do interesse próprio. Tomando um 

exemplo retirado do dia-a-dia, o atual conflito de interesses entre o proprietário e 

o morador: o interesse esclarecido se concentraria em uma construção 

apropriada à habitação humana, mas esse interesse difere bastante, e na maioria 

dos casos até opõe-se, ao interesse do proprietário em obter altos lucros e ao do 

morador em conseguir baixos aluguéis. 

 

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A resposta mais comum de um árbitro, o suposto porta-voz do 

“esclarecimento”, isto é, que a longo prazo o interesse do prédio é o verdadeiro 

interesse tanto do proprietário quanto do morador, deixa de considerar o fator 

tempo, de fundamental importância para todos os envolvidos. O interesse próprio 

interessa-se por si próprio, que morre, muda-se ou vende a casa; por causa de 

sua condição em transformação, isto é, em última análise por causa da condição 

dos seres humanos de meros mortais, o ser enquanto ser não pode pensar em 

termos de interesse a longo prazo, isto é, o interesse de um mundo que sobrevive 

aos seus habitantes. O envelhecimento do prédio é uma questão de anos; um 

aumento no aluguel ou uma taxa de lucro temporariamente mais baixa são 

imediatos. O mesmo acontece, mutatis mutandis, com respeito aos conflitos nas 

relações de trabalho. O interesse próprio, quando solicitado a render-se ao 

“verdadeiro” interesse – isto é, o interesse do mundo distinto do interesse próprio 

– responderá sempre, “Cada um por si, Deus por todos”. Isto pode não ser 

particularmente razoável, mas é bastante realista; trata-se da reação não muito 

nobre à discrepância entre o fator tempo na vida privada dos seres humanos e a 

expectativa de vida totalmente diferente do mundo público. Esperar que as 

pessoas, que não têm a mínima noção do que seja res publica, se comportem de 

maneira não-violenta e que discutam racionalmente no que se relaciona às 

questões de interesse não é nem realista e nem razoável. 

A violência, sendo instrumental por natureza, é racional até o ponto de ser 

eficaz em alcançar a finalidade que deve justificá-la. E já que quando agimos, 

jamais saberemos com certeza quais serão as eventuais conseqüências, a 

violência só pode manter-se racional se buscar objetivos a curto prazo. A 

violência não promove causas, nem a história nem a revolução, nem o progresso, 

nem a reação, mas pode servir para dramatizar reclamações trazendo-as à 

atenção do público. Conforme observou Conor Cruise O’Brien, agricultor irlandês 

do século XIX e agitador nacionalista: “algumas vezes a violência é a única 

maneira de se assegurar que a voz dos moderados será ouvida”. Pedir o 

impossível para que se possa obter o possível não é sempre contraproducente. E 

de fato, a violência, contrariamente ao que tentam nos dizer os seus profetas, é a 

arma mais da reforma do que da revolução. A França não teria recebido a sua 

denúncia mais radical desde Napoleão no sentido da transformação do seu 

antiquado sistema educacional não houvessem os estudantes franceses se 

rebelado; não fossem as manifestações durante a primavera, ninguém da 

 

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Universidade de Columbia teria sonhado em aceitar reformas

107


; e é 

provavelmente verdade que na Alemanha Ocidental a existência de “minorias 

dissidentes não chega nem mesmo a ser notada exceto se estas se entregarem à 

provocação

108

”. Sem dúvida alguma, “a violência compensa”; o problema é que 



compensa indiscriminadamente tanto os ativistas que querem instrução superior 

em “Swahili” como os que visam reformas reais. E uma vez que as táticas da 

violência e da subversão somente funcionam para os objetivos a curto prazo, é 

ainda mais provável, como aconteceu recentemente nos Estados Unidos, que o 

poder estabelecido ceda a exigências sem sentido e obviamente danosas – tais 

como admitir estudantes sem as necessárias qualificações e ministrar-lhes cursos 

sobre matérias inexistentes – se essas “reformas” podem ser feitas com 

comparativa facilidade – então aquela violência será eficaz com relação ao objetivo 

a longo prazo da transformação estrutural

109


. Ademais, o perigo da violência, 

mesmo que esta se movimente dentro de uma estrutura não-extremista de 

objetivos a curto prazo, será sempre que os meios poderão dominar os fins. Se os 

objetivos não forem alcançados rapidamente, o resultado será não meramente a 

derrota, mas a introdução da prática da violência em todo o organismo político. A 

ação é irreversível, e um retorno ao status quo em caso de derrota é sempre pouco 

provável. A prática da violência como toda ação, transforma o mundo, mas a 

transformação mais provável é em um mundo mais violento. 

Finalmente, voltemos à denúncia anterior de Sorel e Pare to do sistema 

como tal – quanto mais burocratizada a vida pública, maior será a atração 

exercida pela violência. Em uma burocracia plenamente desenvolvida, não há 

como discutir, a quem apresentar reclamações, sobre quem exercer as pressões 

do poder. A burocracia é a forma de poder onde todos são privados de liberdade 

política, do poder de agir; já que o governo de Ninguém não é a ausência de 

governo, e onde todos são igualmente destituídos de poder temos uma tirania 

sem tirano. A característica crucial das rebeliões estudantis em todo o mundo é a 

de que estão elas dirigidas em todos os lugares contra a burocracia dominante. 

Isto explica o que parece à primeira vista tão inquietador – que as rebeliões no 

Leste exigem precisamente aquelas liberdades de expressão e pensamento que os 

jovens rebeldes do Ocidente dizem desprezar como irrelevantes. No nível de 

ideologias, tudo isto é confuso; seria muito menos se começássemos do fato óbvio 

de que as imensas engrenagens partidárias conseguiram se sobrepor às vozes dos 

cidadãos por toda parte, mesmo nos países onde a liberdade de expressão e de 

 

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associação continua intacta. Os dissidentes e os que resistem no Leste exigem 

liberdade de expressão e de pensamento como condição preliminar para a ação 

política; os rebeldes no Ocidente vivem em condições onde esses requisitos 

preliminares não mais abrem os canais para a ação para o exercício significativo 

da liberdade”. O que importa para ele é, de fato, a Praxisentzug, a suspensão da 

ação, conforme a chamou, acertadamente, Jens Litten, um estudante alemão

110



A transformação do governo em administração, ou das repúblicas em 



burocracias, e o desastroso encolhimento do setor público que a acompanhou, 

têm uma história longa e complicada no decorrer da era moderna; e esse processo 

foi consideravelmente acelerado durante o último século pela ascensão das 

burocracias partidárias. (Há setenta anos atrás reconheceu Pareto que “a 

liberdade (...) pela qual quero dizer o poder de agir encolhe a cada dia, exceto 

para os criminosos, nos chamados países livres e democráticos”)

111

. O que torna o 



homem um ser político é sua faculdade de agir; esta lhe possibilita reunir-se aos 

seus pares, agir de comum acordo e buscar objetivos e empresas que jamais teria 

em mente; e que muito menos desejaria, se não lhe houvesse sido outorgada essa 

faculdade: a de dedicar-se a alguma coisa nova. Falando do ponto de vista 

filosófico, agir é a resposta humana à condição de natalidade. Já que todos nós 

viemos ao mundo em virtude do nascimento, como recém-chegados e iniciantes, 

somos capazes de começar algo de novo; sem o fato do nascimento não 

saberíamos nem mesmo o que é a novidade, toda ação seria ou pura forma de 

comportamento ou de preservação. Nenhuma outra faculdade exceto a 

linguagem, nem a razão e nem a consciência, nos distingue de forma tão radical 

de todas as espécies animais. Agir e começar não se tratam da mesma coisa, mas 

são atividades estreitamente relacionadas. 

Nenhuma das propriedades da criatividade é expressa adequadamente por 

metáforas retiradas do processo vital. Gerar e dar a luz não são atividades mais 

criativas do que é aniquilante o processo de morrer; são elas diferentes fases do 

mesmo ciclo, que sempre se repete, onde todas as coisas vivas são mantidas 

como se estivessem enfeitiçadas. Nem a violência, ou o poder, são fenômenos 

naturais, isto é, manifestações de um processo vital; pertencem eles ao setor 

político das atividades humanas cuja qualidade essencialmente humana é 

garantida pela faculdade do homem de agir, a habilidade de iniciar algo de novo. 

E penso ser possível demonstrar que nenhuma outra habilidade humana sofreu 

tanto em razão do progresso da era moderna, pois o progresso, como viemos a 

 

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entendê-lo, significa crescimento, o infatigável processo de mais e de mais, de 

maior e maior. Quanto maior torna-se um país, em termos de população, objetos, 

e de bens, maior será a necessidade de administração e com ela o poder anônimo 

dos administradores. O autor tcheco Pavel Kohout, escrevendo no auge da 

experiência tcheca com a liberdade, definiu o “cidadão livre” como um “Cidadão 

Co-governante”. Com isso ele se referia nada mais nada menos do que à 

“democracia participante” da qual tanto ouvimos falar nos últimos anos no 

Ocidente. Acrescentou Kohout que aquilo de que o mundo de hoje tem grande 

necessidade poderá muito bem ser “um novo exemplo” se “os próximos mil anos 

não forem se transformar em uma era de macacos supercivilizados” – ou, ainda 

pior, do “homem transformado em um animal doméstico”, governado por uma 

“elite” que recebe o seu poder “dos sábios conselhos de (...) assessores 

intelectuais”, que acreditam realmente que os participantes de um think tank são 

pensadores e que os computadores pensam; “os pareceres poderão revelar-se 

incrivelmente insidiosos e, ao invés de buscarem objetivos humanos, poderão 

buscar problemas completamente abstratos que haviam se transformado de 

forma imprevisível no cérebro artificial

112


”. 

Esse novo exemplo dificilmente será estabelecido pela prática da violência, 

embora eu me incline a acreditar que grande parte da atual glorificação da 

violência é causada por uma séria frustração da faculdade de agir no mundo 

moderno. É verdade simplesmente que as manifestações nos ghettos e rebeliões 

nas Universidades fazem com que as “pessoas sintam estar agindo juntas de uma 

maneira como raramente podem agir

113


”. Não sabemos se essas ocorrências são o 

início de algo novo – o “novo exemplo” – ou os sinais de agonia de uma faculdade 

que a humanidade está em vias de perder. Da maneira como estão as coisas hoje 

em dia, ao vermos como estão os superpoderes atolados sob o peso monstruoso 

de sua própria imensidão, parece que o estabelecimento de um “novo exemplo” 

terá uma chance, pelo menos, em um pequeno país, ou em setores pequenos e 

bem definidos nas sociedades de massa dos grandes poderes. 

Os processos de desintegração que se tornaram tão manifestos nos últimos 

anos – a decadência dos serviços públicos: escolas, a polícia, a entrega de cartas, 

coleta de lixo, transporte, etc; a taxa de mortes nas estradas e os problemas de 

tráfego nas cidades; a poluição do ar e da água – são os resultados lógicos das 

necessidades das sociedades de massa que acabaram por se tornar 

incontroláveis. São eles acompanhados e por vezes acelerados pelo declínio 

 

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simultâneo dos vários sistemas partidários, todos eles de origem mais ou menos 

recente e planejados para corresponder às necessidades políticas de populações 

de massa – no Ocidente para tornar possível o governo representativo quando a 

democracia direta não mais servisse porque “não há lugar para todos” (John 

Selden), e no Leste para tornar o domínio absoluto de vários territórios mais 

eficaz. A grandeza padece de vulnerabilidade; as rachaduras na estrutura de 

poder de todos os países, exceto os pequenos, abrem-se e se alargam. E ao passo 

que ninguém sabe dizer com certeza onde e quando chegou-se a esse ponto de 

rompimento, pode-se observar, e quase medir, como a força e a resistência são 

destruídas insidiosamente, vazando, pouco a pouco, das nossas instituições. 

Ademais, há a recente ascensão de um novo e curioso tipo de nacionalismo, 

geralmente percebido como uma guinada à direita, mas mais provavelmente uma 

indicação de um crescente ressentimento, de âmbito mundial, contra a 

“grandeza” como tal. Enquanto os sentimentos nacionais tendiam anteriormente 

a unir vários grupos étnicos, concentrando os seus sentimentos políticos na 

nação como um todo, podemos observar agora como um “nacionalismo” étnico 

principia a ameaçar de dissolução os mais antigos e melhor estabelecidos 

Estados-nações. Os escoceses e galeses, os bretões e provençais, grupos étnicos 

cuja bem sucedida assimilação era o pré-requisito para o surgimento, do Estado-

nação e parecia completamente assegurado, central de Londres e Paris. E 

exatamente quando o centralismo, sob o impacto do tamanho descomunal, 

acabou por mostrar-se contraproducente em seus próprios termos, esse país, que 

tem por base, de acordo com o princípio federativo, a divisão de poderes e 

permanece poderoso desde que essa divisão seja respeitada, lançou-se, ao som do 

aplauso das forças “progressistas” ao novo experimento, em termos da América, 

da administração centralizada – o governo federal mais poderoso do que poderes 

estaduais e o poder executivo solapando os poderes do Congresso

114


. É como se 

esta colônia européia, a mais bem sucedida de todas, desejasse compartilhar o 

destino dos países europeus em seu declínio, repetindo com grande pressa os 

mesmos erros que os elaboradores da Constituição haviam tentado corrigir e 

eliminar.  

Sejam quais forem as vantagens administrativas, ou desvantagens da 

centralização, o seu resultado político é sempre o mesmo: monopolização do 

poder causando a esterilidade de todas as fontes autênticas de poder no país. Nos 

Estados Unidos, baseado em uma grande pluralidade de poderes e o seu sistema 

 

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de controle mútuo, confrontamo-nos não apenas com a desintegração das 

estruturas de poder, mas com o poder, aparentemente ainda intacto e livre para 

manifestar-se, perdendo o seu domínio e tornando-se ineficaz. Falar da 

impotência do poder já deixou de ser um paradoxo espirituoso. A cruzada do 

Senador Eugene McCarthy em 1968 “para testar o sistema” trouxe o 

ressentimento popular contra as aventuras imperialistas a público, estabeleceu 

um vínculo entre a oposição no Senado e nas ruas, ensejou pelo menos uma 

espetacular mudança de política, e demonstrou como a maioria dos rebeldes 

podia reintegrar-se ao sistema rapidamente, exultando a esta primeira 

oportunidade não de abolir o sistema, mas de fazê-lo funcionar de novo. E, ainda 

assim, todo esse poder poderia ser destruído pela burocracia partidária, a qual, 

contrariamente a todas as tradições, preferiu perder as eleições presidenciais com 

um candidato impopular que por acaso se tratava de um apparatchik. (Algo 

similar se passou quando Rockefeller perdeu a indicação para Nixon durante a 

convenção Republicana) 

Há outros exemplos a demonstrar as curiosas contradições inerentes à 

impotência do poder. Por causa da enorme eficácia dos trabalhos de equipe nas 

ciências, talvez a grande contribuição americana para as ciências modernas, 

podemos controlar os processos mais complicados com uma precisão que torna 

as viagens à Lua menos perigosas do que as mais comuns excursões do fim-de-

semana; mas o suposto “maior poder do mundo” é impotente para acabar uma 

guerra, claramente desastrosa para todas as partes envolvidas, em um dos 

menores países da Terra. É como se estivéssemos sob um encantamento de conto 

de fadas, que nos permitisse realizar o “impossível” com a condição de que 

perdêssemos a capacidade de realizar o possível, de alcançar de forma fantástica 

feitos extraordinários com a condição de não sermos mais capazes de preencher 

adequadamente as nossas necessidades diárias. Se o poder tiver alguma coisa a 

ver com a idéia de–que querer é poder, distinta do mero nós podemos, então 

temos que admitir que o nosso poder tornou-se impotente. Os progressos da 

ciência nada têm a ver com a vontade; eles seguem as mesmas leis inexoráveis 

compelindo-nos a fazer aquilo que pudermos, independentemente das 

conseqüências. Será que à vontade e a possibilidade não mais estão juntas? Será 

que Valéry estava certo ao dizer ha cinqüenta anos atrás: On peut dire que tout ce 


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