Da violncia



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ARENDT, Hannah. Da Violência
Establishment, e que antigamente denominava-se Sistema, e foi essa descoberta 

que os conduziu ao louvor à violência, fazendo com que Pareto perdesse as 

esperanças quanto à classe trabalhadora. (Entendia Pareto que a rápida 

integração dos trabalhadores no organismo social e político da nação 

correspondia a uma “aliança da burguesia com os trabalhadores”, ao 

aburguesamento dos trabalhadores, que então, de acordo com o seu pensamento, 

daria origem a um novo sistema, que denominava “Pluto-democracia” uma forma 

mista de governo, uma vez que seria a plutocracia o regime burguês por 

excelência, enquanto que a democracia constituir-se-ia no regime dos 

trabalhadores). A razão porque Sorel apegava-se à sua fé, inspirada pela teoria 

marxista, nas classes trabalhadoras, era que os trabalhadores constituíam-se nos 

“produtores”, único elemento criativo da sociedade, os quais, de acordo com 

Marx, iriam fatalmente libertar os meios de produção da humanidade; o único 

problema era que, uma vez alcançado um nível de vida e condições de trabalho 

satisfatórios, recusavam-se teimosamente os trabalhadores a desempenhar o seu 

papel revolucionário. 

Outra coisa, entretanto, que somente se tornou totalmente clara nas 

décadas seguintes à morte de Sorel e Pareto, tornou-se incomparavelmente mais 

desastrosa para esse ponto de vista. O enorme aumento da produtividade no 

mundo moderno não se deveu, de maneira alguma, ao crescimento da 

 

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produtividade do trabalhador, mas sim exclusivamente ao desenvolvimento da 

tecnologia, o que não dependia nem das classes trabalhadoras, e nem da 

burguesia, mas sim dos cientistas. Os “intelectuais” tão desprezados por Sorel e 

Pareto, cessaram repentinamente de ser um grupo social marginalizado, surgindo 

como uma nova elite, cujo trabalho, que transformara as condições de vida 

humana quase que inteiramente no espaço de poucas décadas, mantém-se 

essencial para o funcionamento da sociedade. Há muitas razões porque esse novo 

grupo ainda não se transformou em uma nova elite de poder, porém há muitas 

razões para se acreditar que, conforme afirma Daniel Bell, “não apenas os 

melhores talentos, mas eventualmente toda a estrutura de prestígio social e de 

“status” social, terão as suas raízes nas comunidades intelectuais e científicas”

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Os seus membros estão mais dispersos e menos presos a interesses óbvios do 

que os grupos do antigo sistema de classes; portanto, não têm eles o impulso de 

se organizar, faltando-lhes a experiência em tudo aquilo que diz respeito ao 

poder. Também, estando muito mais estreitamente ligados às tradições culturais, 

entre as quais figura a tradição revolucionária, apegam-se eles com muito maior 

tenacidade às categorias do passado que os impedem de compreender o presente 

e o próprio papel que lhes caberia nele desempenhar. E sempre emocionante 

observar com que sentimento de nostalgia os nossos estudantes mais rebeldes 

esperam que o “verdadeiro” ímpeto revolucionário venha daqueles grupos da 

sociedade que os denunciam tanto mais veementemente quanto mais tenham a 

perder por algo que’ possa perturbar o bom funcionamento da sociedade de 

consumo. Para pior ou para melhor – e penso haver razões tanto para 

pessimismo quanto para o cinismo – a classe realmente nova e potencialmente 

revolucionária na sociedade consistirá nos intelectuais e no seu poder em 

potencial, ainda não totalmente compreendido, e que é muito grande, talvez 

grande demais para o bem da humanidade

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, Mas tratam-se aqui de meras 



especulações. 

Seja como for, neste contexto estamos interessados principalmente no 

estranho reflorescimento das filosofias de Bergson e Nietzsche em sua versão 

soreliana. Sabemos todos até que ponto essa antiga combinação de violência, 

vida, e criatividade está presente no estado de espírito cheio de rebeldia da 

geração atual. Sem dúvida que a ênfase no simples fato de viver, e 

conseqüentemente no amor como’ a mais gloriosa manifestação da vida, é uma 

resposta à real possibilidade da construção de um artefato capaz de destruir 

 

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todas as formas de vida na terra. Mas as categorias em que se comunicam os 

novos adoradores da vida não são novas. Enxergar a produtividade da sociedade 

na imagem da “criatividade” da vida, é no mínimo uma visão tão antiga quanto 

Marx; acreditar na violência como força criadora de vida, e pensar na criatividade 

como o maior bem do homem são noções tão antigas quanto Nietzsche e Bergson

respectivamente. 

E essa justificativa biológica – da violência – aparentemente tão nova 

relaciona-se estreitamente aos mais perniciosos elementos de nossas mais 

antigas tradições do pensamento político. De acordo com o tradicional conceito de 

poder, equiparado, conforme vimos, à violência, o poder é expansionista por 

natureza. Tem ele “uma ânsia interior por crescer” e é criativo porque “o instinto 

que o faz crescer lhe é próprio”

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. Exatamente da mesma maneira como nos 



domínios da vida orgânica todas as coisas ou crescem ou decaem e morrem, 

também nos domínios das relações humanas o poder pode, como se supõe, 

manter-se apenas através da sua expansão; de outra maneira, ele se retrairá e 

morrerá. “Tudo aquilo que pára de crescer começa a apodrecer”, reza um ditado 

russo, colhido do cortejo de Catarina, a Grande. Os reis, pelo que sabemos, são 

mortos não por causa da sua tirania mais sim da sua fraqueza. O povo constrói 

cadafalsos, não como punição moral do despotismo, mas como um castigo 


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