Da violncia



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ARENDT, Hannah. Da Violência
de toutes les hiérarchies

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. Tratava-se de um caso; apropriado para manuais, de 



uma situação revolucionária

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 que não evoluiu para uma revolução por não haver 



ninguém, muito menos os estudantes, dispostos a tomar o poder e a 

responsabilidade que o acompanha. Ninguém, exceto é claro, de Gaulle. Nada 

caracterizava melhor a seriedade da situação do que o seu apelo ao exército, sua 

viagem ao encontro de Massu e dos generais na Alemanha, uma caminhada até 

Canossa, se é que esta realmente aconteceu, em vista do que havia acontecido há 

apenas alguns anos. Mas o que buscava e acabou por receber era apoio, não 

obediência, e os meios usados foram não ordens, mas concessões

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. Houvessem 



ordens sido suficientes, jamais teria ele tido que deixar Paris. 

Governo algum, exclusivamente baseado nos instrumentos da violência, 

existiu jamais. Mesmo o governante totalitário, cujo principal instrumento de 

dominação é a tortura, precisa de uma base de poder – a polícia secreta e a sua 

rede de informantes. Somente o desenvolvimento de soldados-robôs, os quais, 

como se mencionou anteriormente, eliminariam o fator humano completamente 

e, provavelmente, permitiriam a um homem apertar um botão e destruir quem 

bem entendesse, poderia transformar essa ascendência fundamental do poder 

sobre a violência. Mesmo a dominação mais despótica de que temos 

conhecimento, o domínio do senhor sobre os escravos, que sempre o excederam 

em número, não repousava em instrumentos de coerção superiores como tais, 

mas em uma organização do poder mais aperfeiçoada isto é, na ‘solidariedade 

organizada dos senhores”. Homens isolados sem outros que os apóiem nunca têm 

poder suficiente para fazer uso da violência de maneira bem-sucedida. Assim, nas 

 

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questões internas, a violência funciona como o último recurso do poder contra os 

criminosos ou rebeldes – isto é, contra indivíduos isolados que, pode-se dizer, 

recusam-se a ser dominados pelo consenso da maioria. E quanto aos combates 

propriamente ditos, vimos no Vietnam como pode uma imensa’ superioridade no 

que diz respeito aos instrumentos da violência tornar-se impotente se 

confrontada por um inimigo mal-equipado mas bem-organizado e muito mais 

poderoso. Esta lição, certamente devia ter sido aprendida da história da guerra de 

guerrilha, que remonta, pelo menos, à derrota, na Espanha, do exército até então 

invicto de Napoleão. 

Usemos por um momento a linguagem conceitual: O poder é realmente parte 

da essência de todo governo, mas o mesmo não se dá com a violência. A violência 

é, por sua própria natureza, instrumental; como todos os me}os, está sempre à 

procura de orientação e de justificativas pelo fim que busca. E aquilo que 

necessita de justificar-se através de algo mais não pode ser a essência de coisa 

alguma. O fim da guerra – fim tomado aqui em seu sentido duplo – é a paz ou a 

vitória; mas para a pergunta: E qual é o fim da paz? Não existe resposta. A paz é 

um absoluto, muito embora, nos relatos históricos os períodos de guerra quase 

sempre superaram em duração os períodos de paz. O poder encontra-se na 

mesma categoria; trata-se, como dizem, de “um fim em si mesmo”. (O que, 

naturalmente, não pretende negar que os governos usem determinadas políticas e 

empreguem o poder de que dispõem para alcançar objetivos determinados. Mas a 

estrutura do poder por si própria parece e permanece além de todos os objetivos, 

de maneira que o poder, longe de ser o meio para a consecuçã6 de um fim, é 

realmente a própria condição que possibilita a um grupo de pessoas pensar e agir 

em termos de meios e fim.) E uma vez que o governo é o poder essencialmente 

organizado e institucionalizado – a pergunta “Qual é a finalidade do governo?” 

tampouco faz muito sentido. A resposta será ou insatisfatória – para possibilitar 

aos homens viverem juntos – ou perigosamente utópica – para promover a 

felicidade ou para realizar o ideal de uma sociedade sem classes, ou outro ideal 

não-político, que se tentado com perseverança só poderá terminar em algum tipo 

de tirania. 

O poder não precisa de justificativas, sendo inerente à própria existência das 

comunidades políticas; mas precisa, isto sim, de legitimidade. A percepção dessas 

duas palavras como sinônimos não é menos enganosa do que a atual equação de 

obediência e apoio. O poder é originado sempre que um grupo de pessoas se 

 

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reúne e age de comum acordo, porém a sua legitimidade deriva da reunião inicial 

e não de qualquer ação que possa se seguir. A legitimidade, quando desafiada, 

baseia-se em um apelo ao passado, enquanto a justificativa diz respeito a um fim 

que se encontra no futuro. Ninguém questiona o uso da violência em legítima 

defesa, pois o perigo é não apenas nítido como também presente, e o fim que 

justifica os meios é imediato. 

O poder e a violência, embora sejam fenômenos distintos, geralmente 

apresentam-se juntos. Onde quer que se combinem, o poder é, conforme 

verificamos, o fator fundamental e predominante. A situação, entretanto, mostra-

se totalmente diferente se os encararmos em seu estado puro – como, por 

exemplo, na invasão estrangeira e na ocupação. Vimos que a atual equação da 

violência com o poder baseia-se no fato de o governo ser ou não percebido como o 

domínio do homem sobre o homem através da violência. Se um conquistador 

estrangeiro for enfrentado por um governo impotente e por uma nação 

desacostumada ao exercício do poder político, torna-se fácil a realização de uma 

tal conquista e dominação. Em todos os demais casos as dificuldades são deveras 

grandes, e o invasor deverá tentar imediatamente estabelecer governos do tipo 


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